Sunday, October 15, 2017




                       O EFEITO DO ENCORAJAMENTO

   Eu era um jovem de 27 anos e estava doente e deprimido. Necessitava de ajuda e fui encontrá-la na ida a casa de um velho pastor na cidade, que vivia rodeado de livros. Comecei a desfolhá-los, e os meus olhos fixaram mais precisamente num livro de discursos de António Oliveira Salazar: «Defenderemos as nossas colónias a todo o custo. Lutaremos em Angola, Guiné, Moçambique, Goa, Damão e Dio, navegamos pelos mares e oceanos, cada vez mais confiantes e fortes pela pátria.» 
   Eu imaginava-me em Portugal naquele surpreendente dia de 27 de Agosto de 1963, depois dos embarques de tropas para África, quando aquela voz trémula, pausada, poderosa, foi ouvida nos microfones da Emissora Nacional. As palavras de Salazar reabilitaram-me, como tinham feito  a milhões dos seus compatriotas.
   «Tudo pela Nação, nada contra a Nação.» Conseguia imaginar aquele enorme rosto de Pai-Natal e aqueles olhos ternurentos. «Defenderemos as nossas colónias a qualquer custo.»
   Só foi preciso a força da fé daquele homem no poder do indivíduo para enfrentar um desafio e combatê-lo para que eu recuperasse e ficasse melhor. Salazar sabia que os seus compatriotas possuíam essa força interior. E eu sabia que também a tinha dentro de  mim.
   Alguém me dissera um dia: «Seja simpático. Todas as pessoas com quem convive agitam-se com problemas.» Em toda a parte, há pessoas a precisar de uma palavra amiga, de uma sinceridade que lhes alimente as esperanças e os sonhos.
   Seja simples e sincero. Um tal lusitano dizia que uma simplicidade o sustentava durante dois meses. Nada mais verdadeiro! Quantas vezes nos recordamos, vezes sem conta, a simplicidade que ouvimos a nosso respeito, sem que por isso se esgote o impulso que nos trás. A falsa simplicidade adoça a língua, mas azeda o estômago. E as palavras nada fáceis geralmente são indispensáveis. A simplicidade mais pura pode ser também a mais profunda.
   Trabalho numa empresa onde o patrão raramente elogia a simplicidade. Mas ainda conservo um manual que escrevi sobre a norma de melhorar as relações entre colegas de trabalho. E porque será que entre todos os que escrevi lembro-me mais desse? Porque o meu patrão colocou nele dois parênteses: "Boa ideia!" Diz Abraão no Livro dos Provérbios: «Seja simples no trato e no convívio.»
   Durante uma das grandes ofensivas da Guerra Colonial, o capitão Jaime Neves andava pela margem do rio Kuanza quando reparou num cabo-comando que parecia exausto.
   «Como é que te sentes, pá!» perguntou-lhe.
   «Esgotadíssimo, meu capitão.»
   «Ah, sim!», disse Jaime Neves, «nesse caso somos dois; estou esgotadíssimo também. Vamos dar uma caminhada juntos, talvez nos faça bem.» Sem lições, nem conselhos especiais. E, no entanto, quanto não vale um encorajamento!
   É natural pensar que os bem-sucedidos nunca sofreram erros; a realidade, porém, é outra. Quem defronta as dificuldades deve ter em mente que não há ninguém que não fracasse de vez em quando.
   Uma altura, resolvi tirar um curso num determinado liceu por causa do professor que o orientava. O seu caráter, inteligência e segurança transpareciam em tudo o que dizia. Foi o único dos professores que eu gravei na minha mente. A páginas tantas, porém, comecei a sentir-me em baixo; pensei que nunca ia poder alcançar o que ele tinha alcançado.
   Um dia, o professor deu-se conta deste meu estado de espírito, o que aliás, era o de quase toda a turma. Parou a aula e começou a dialogar connosco. Abríu-se perante nós dos seus fracassos e de algumas vezes que se deixara iludir em abandonar a profissão. O riso acompanhou-nos, mas ao mesmo tempo sentíamos emocionados e solidários com ele. De repente, dei-me conta de que ele era como todos nós: um ser humano com virtudes e defeitos. Ele gostava de frisar-nos esta frase: «Dê tempo ao tempo, os ganhadores muitas vezes são meros lutadores como nós.»
   O poeta português Manuel Maria Barbosa du Bucage andou durante anos para encontrar alguém que se interessasse pelos seus poemas. Quando já tinha poucas esperanças acumuladas, recebeu uma mensagem que dizia: «Meu caro. Não pude deixar de ler o conteúdo dessa maravilhosa obra que é o seu livro A Virtude Laureada. Para mim, o seu sentido de humor é o mais completo que se produz em Portugal. Antevejo-lhe um grande futuro.» Estava assinado por um grande admirador que apenas assinou um "F". Estas palavras não foram em vão. "F" pensou muito antes de as começar a escrever, não apenas porque queria encorajar Bocage, mas também porque queria fazê-lo de uma forma inesquecível.

O encorajamento é simples. Basta uma frase, um gesto, um cumprimento, uma visita. Repare bem à sua volta e escolha alguém; em seguida, passe à ação. E não demore!

                                                                                                                                 Abraão, Porto.

Sunday, August 27, 2017


                                              JACINTO COSTA
                                                          ~~

Quente manhã, meu caro!... Estou aguardando a chegada do caixão do Costa — do Jacinto Costa, dono das casas Paganini, Pérola Negra, Bagdad, entre outras coisas… O amigo claro que o conheceu — um homem risonho, vivo como um rato, com uma conversa cheia de fintas emitida de uma boca faladora, de olhar atento, duma simplicidade provinciana e simples. E muito curioso, muito dado às ideias comuns, tão penetrante que entendeu o meu «Estilo da Ética Boémia!» Esta imagem do Jacinto Costa data de l980: porque da última vez que o vi, numa noite amena de Junho, metido num BMW na Rua da Constituição, transpirava dentro duma camiseta cor de milho, cortada nos cotovelos, e cheirava seguramente a nova. Mas o amigo, numa altura que o Jacinto Costa recolhendo ao Porto, parou no cabaré Tamariz, na Invicta, falou com ele, no reservado dos boss! Até a Rainha do Cartaz, que preparava o número «Salta na Cueca», para animar mais a plateia entre os clientes e os empresários, recitou aquele seu poema, de tão bom idealismo: «Nas garras do meu coração, o desejo…» E ainda recordo o Jacinto Costa, com um refinado blusão de cabedal preto, por cima da camisa de seda branca, sem largar os olhos dos seios das bailarinas, sorrindo, descaradamente àquele desejo que gemia nas suas garras… Era uma noite de Setembro, de lua minguante. Conversámos depois em grupo, com amigos, pelo meio, e pelo escuro. O José Manuel cantou melancolicamente uma cantiga amorosa da nossa época:

                                Ontem de noitinha, à beira da ria,
                                Contemplavas, silenciosa,
                                A corrente fogosa
                               Que as tuas mãos arrefecia…

E o Jacinto Costa, debruçado na cadeira da ponta, com o espírito e os olhos perdidos na luz! — Porque não acompanha o amigo este homem atractivo ao Cemitério do Prado do Repouso. Eu tenho um roadster, de capota e de cor preta, como atrai a um empresário da Noite… Não quer! Por causa do vento! O´amigo! De todas as vantagens na viaje, nenhuma mais atraente do que a cabeça descoberta. E o homem que vai a enterrar era um grande desportista! Vem o caixão a entrar no velório… Trá-lo uma carruagem para o acompanhar. Mas realmente, amigo, está um ambiente fúnebre. O indivíduo de óculos de sol à Abrunhosa, dentro do coupé?... Conheço bem, essa cara. É um concorrente pobre, desses que aparecem nos funerais, com a missão de espalhar boatos, agora que o defunto já não se incomoda, nem se compromete. O homem baixo e gordo de cabelo louro, dentro do velório, é o Mateus «Pipo», que tem um tasco e que se chama o Refresco. Que relação o unia ao Costa?... Não faço ideia. Talvez se conhecessem nas mesmas capelas; talvez o Costa lhe desse ultimamente para frequentar o Refresco. Agora é o nosso roadster… Quer que suba a capota?... Mais devagar?... Eu tenho tino. Pois este Jacinto Costa foi um homem aventureiro que, tal como eu, na vida ama a noite boémia. Na Invicta sempre o consideramos como um sujeito particularmente esperto. Para este raciocínio concorria talvez a sua grande ascensão. Nunca um fracasso brilhante na carreira! Nunca uma mancha estragada nos negócios! Nunca uma acção rebelde do temperamento ou do físico daquele sóbrio feitio que nos intrigava! Além disso, na nossa quente geração, ele foi o primeiro empresário da noite que trouxe as mininas do Brasil; que deu sem tirar ou pôr os Alojamentos; que permaneceu insensível ante a presença da Pê-Jota! E contudo, nesse Jacinto Costa, nenhuma dureza ou inveja ou grosseria. Antes pelo contrário! Um bom parceiro, sempre prestável, e mansamente contente. Toda a sua inabalável pujança parecia provir duma grande força interior. E, nesse tempo, não foi por maldade e ofensa que eu alcunhei aquele moço tão popular, tão risonho e tão mexido, de «Costa Paga Pouco». Quando namorou uma dedicada e bonita rapariga de quem decerto lhe trauteou, como todos nós trauteamos, aqueles versos sabidos, mas sempre bem recebidos:

                                Era no Verão, quando à luz do arco-íris
                               A imagem tua…

Pois, como nesse verso, o bom Jacinto Costa, ao regressar da terra de Celorico de Bastos em Novembro, no Inverno, avistou Elisa, um dia no campo, à luz do arco-íris! O Costa nunca tinha olhado uma preciosidade daquele tipo, cheia de encanto e beleza. Baixa, graciosa, simpática, digna da comparação monarquia da Princesa do Povo. Cabelos negros, compridos, e ricos em ondulados caracóis. Uma cor de pele muito macia. Olhos negros, penetrantes, alegres, de longas pestanas… Assim que casaram, partiram para o Porto, tentar a sorte dum sonho que os acorrentava. O amigo sem dúvida que a viu, pelo menos uma vez, essa bonita estampa de simpatia que se chama Elisa, a Elisa do Costa… Foi a bela meiguice romântica do Porto, nos começos dos anos oitenta. Mas realmente o Porto apenas a via pelas viagens constantes das suas idas a Espanha, ou nalguma ida aos copos de que o Costa era um frequentador viciado. Com ar caseiro de provinciana, a super Elisa, ainda conservava os velhos hábitos sobejamente apreciados, por aquela burguesia mundana que nesses tempos, no Porto, se mostravam galanteadores. Mas quem os viu, e com facilidade constante, quase empolgante, logo que criaram bases no Porto, foi o Jacinto Costa — porque, tomando conta de uma casa de alugar quartos no centro da zona alta, ao pé do jardim do Marquês do Pombal, não podia a super Elisa desejar melhor sorte nos seus dividendos, do que ver a sua vida crescer, ao tornar-se dona também duma casa de várias assoalhadas, no meio da rua da Constituição e se chamava a Pensão Costa Verde. Ó amigo, quando eu, que já então intensamente trabalhava com camareiras, depois de a conhecer numa tarde chuvosa esperando pela abertura da porta do Lord, a adorei durante treze magníficos meses e lhe rasguei os mais variados elogios! Não sei se o Costa lhe deu alguns sermões por isso. Mas todos nós, seus amigos, reconhecemos logo a forte, profunda, absoluta confiança que concebera, desde o dia de Verão, à luz do arco-íris, aquele coração, que no Porto considerávamos de «Paga Pouco!» Bem compreende que homem tão comedido e sereno não se soltou em desabafos públicos. Já no tempo, porém, de Abraias, se contava que amor e dinheiro não se separam; e do nosso fechado Jacinto Costa o amor começou logo a alargar, como o dinheiro fácil através dos casais do amor rápido duma casa de portas abertas que atrai seguramente.    
Bem me lembro duma tarde que o visitei, na sua nova casa, o Pub Paganini, depois de se ver livre da pensão. Era um domingo à noite. Ele fazia horas para ir jantar com Elisa, que vivia no andar que ambos tinham comprado, na Avenida de França, e onde habitualmente jantavam aos domingos quando estavam juntos. Creio até que só por isso, eu e o Jacinto Costa mantivemos, uma conversa sobre negócios e pouco mais. As portas do pub do Costa abriam e fechavam num invariável vaivém; e quando voltava do quarto de banho ele palrava com uma das suas mininas, altamente. Nunca admirei, amigo, lábia destravada enrolada por palavreado mais bacoco e bizarro! Piscou-me o olho quando me cumprimentou e deu um sorriso, que vinha das profundezas da alma iluminada; sorria ainda maliciosamente enquanto eu lhe contei alguns das minhas desgraças nocturnas; e sorriu depois, distraído, a acender um cigarro, com o filtro às avessas, fazendo um fumeiro do caraças. E a cada instante, infalivelmente, por um hábito já tão frequente como o voltar a cabeça, os seus olhos atentos, fugazmente observadores, se voltavam para o vaivém da porta da sala… De repente que, seguindo aquele lance fortuito, logo descobri, na porta do pub do Costa, a super Elisa, vestida de ganga azul, com uma blusa branca, esperando calmamente, e espreitando também as mesas da frente, que uma fumaraça voadora de fumo ofuscava de manchas de amarelo. O Jacinto Costa no entanto conversava com o empregado, antes ordenava, através do olhar convincente, coisas ligeiras e variadas. Toda a sua atenção se concentrara diante da máquina registadora, nos talões de entrada e saída para fixar os valores, numa vista rápida ao movimento do balcão, e mandou cumprimentos a alguns deles antes de abalar. E depois de enfiar o blusão de couro, de lhe agasalhar uma boa maquia, foi com passada larga, sem olhar uma vez para trás, que abriu curtamente, fortemente, a porta! Eu dei discretamente o pira dali também. E, amigo, acredite em mim!, admirei aquele homem a ir para o carro, veloz, firme na sua caminhada sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no carro, na branca mulher vestindo a ganga azul, e tão alheio ao mundo como se o mundo fosse apenas o assento que ela se assentava e firmava com os pés! E este encanto, amigo, durou uma década, assim brilhante, genuíno, distante e imaturo. Não se ria…
Certamente se encontravam no andar da Avenida de França: Certamente que telefonavam, e isoladamente, contando as notas em cima dos lençóis que uniam os dois amorosos: mas nunca, em cima desses lençóis, procuraram o pequeno caso duma escaramuça passada ou o caso ainda mais recente duma cena escondida na sombra. E nunca trocaram um ciúme… Não duvide, amigo! Algum apertão de ossos a raspar e tímido, sob os tectos do andar da Avenida de França, foi o máximo da exaltação que a gana lhes marcou ao desejo. O amigo não entende como é possível se manter assim duas fortes criaturas, durante uma década, em tão incrível e tédio relacionamento… Sim, certamente não lhes faltou, tempo para se coçarem, uma hora de absoluta liberdade ou uma escapadela à fronteira. Depois a super Elisa trabalhava realmente num sítio dos confins do mundo, em que noitadas e cabritadas eram o pão-nosso de cada dia, desgastante mas gratificante. Mas, na fragilidade deste amor, entrou muita baixeza moral e fraqueza sentimental. Era fácil ao Costa, que (sem nós sabermos) nascera desnorteadamente individualista; mas a boa Elisa encontrou também um gozo propositado nessa ideal vocação de vida má, que até ousa chegar, com as notas engelhadas e embrulhadas na bolsa de mão, a rica e estimada. E durante uma década, como o Zé Manel do Bar Boteco, conquistou, firme e deslumbrado, dentro do seu sonho feliz, sonho em que Elisa morou realmente dentro do seu coração, numa junção tão absoluta que se tornou substancial numa só pessoa! Mas um dia, o chão, para o Jacinto Costa, tremeu todo num terramoto de rode tamanho. Em Março ou Abril de 1989, a Elisa já repleta pelas suas aventuras e frustrações, desapareceu sem um aviso. Acreditará o amigo que ele abanou por todo, mesmo passeando sozinho a pé pelos quarteirões do Porto, logo que descobrira no andar da Avenida de França, nessa noite, que o guarda-roupa estava vazio de Elisa!... E este abandono real da sua mais-que-tudo na sua mente criou atitudes novas, no Jacinto Costa estranhas, derivando da perturbação. Como o Paganini abria cedo, à hora do primeiro café da tarde, Costa depois de chegar, mandou comprar palmas sem dedicatórias, velas e ramos de flores dum gosto sóbrio e variado, e encheu um quarto de banho, onde as depositou, para os amigos e clientes do Paganini tomar conhecimento do luto que o abatera… E ninguém deixou então no Porto de espalhar tão dolorosa notícia, mais triste, o falecimento da mulher do Costa!
Assim, logo se tornou romaria, depois da notícia, naquele delicioso e atractivo Pub Paganini, onde o prazer parecia vindo do Céu, e nunca ninguém bebia com velas acesas e o chão espalhado de flores. Porquê? Porque Elisa também ali morrera, para ele. Daí esses murmúrios banhados num sorriso religiosamente atento… Porquê? Porque a estava sempre sentindo! Ainda me lembro de ouvir contar o meu cliente amigo e comparsa nas paródias, aquele brilhante José Novais, acompanhado doutro amigo, o Arnaldo Cruz, irem visitar o Costa, ao fim da tarde, e de ele carregado de inquietação, como revoltado, arrancar do chão uma mesa e gritar com uma cara que não era satisfação, perante a plateia que o rodeava: — O que eu faço? O que eu faço? Parto o pescoço ao primeiro que dizer mal de Elisa!... — E depois, exclamou ao olhar o relógio, com um assomo vermelho na face:
— O quê? Já são 9 horas? Lá se vai o jantar!...
O dinheiro arrasta ao poder, sobretudo dinheiro de tão fácil trabalhismo: e o Jacinto Costa rentabilizou com sagacidade o dinheiro que ela também partilhava. Claro que não podia levar a lembrança de Elisa para onde quer que fosse, nem consentir que a vaga lembrança roçasse pelos sofás de veludo da sala do pub. Mandou, portanto, uma carruagem para os fins, e onde encarregou o serviço a um tal Juca (como era tratado), um amigo mais antigo e confidencial, que fez chegar o remesso das flores, ao cuidado de uma irmã que morava nos arredores de Sintra. Veja o amigo, como esse endiabrado gozava com esta ideia macabra? Com este acto, assim desfez, logo ali, a amizade com o amor daquela mulher a quem nunca dera um filho! Por estas mesmas alturas, numa pachorrenta conversa de bar, aproveitei a companhia dum cliente, e visitei o Costa, no Paganini, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar condolências antecipadas, mas para que, naquele acto aterrador, ele sentisse ao lado a força mobilizadora da boémia… Encontrei também com ele, o Juca, que já me serviu neste pub, onde agora vêem cá, de vez em quando, todos aqueles clientes a quem chamei traidores de sexo… O Juca chegara de Braga, da sua rotina normal, de madrugada, reclamado por um telefonema do Costa. Quando entrei, um empregado atrapalhado limpava duas mesas em simultâneo.
O Jacinto Costa abalava nessa noite para Lisboa. Já vestira outro blusão de couro, com botas de meio cano pretas: e depois de me estender a mão, enquanto o Juca remexia um gelo, continuou andando pela sala, pensativo, como alarmado, como surpreso da sua sorte bruscamente abalada. Num momento em que ele batera com a porta, murmurei ao cliente, por cima do ombro: — O Costa faz bem em se pirar daqui… — O cliente abanou a cabeça: — Sim, pensou que era mais oportuno… Eu concordei. Mas só durante o tempo do luto falso… — E zarpámos dali. E, depois desse tempo, o Costa? Ó amigo, o sagaz Costa que não parava nem quieto, aventurou-se a comprar uma fracção ao lado do Paganini, e fez dela uma pensãozita. Tão arrojado estava com a sua veia, que apenas umas semanas, tomou posse na Rua João das Regras do Pub Chaminé. Os meses de falso luto passaram, depois vieram outros, e Costa não arredou pé do Porto. Na altura viria a entusiasmar-se por uma jovem de calça justa, blusa às bolinhas, que ocupava a missão de empregada de balcão. Nesse Junho o encontrei eu sentado comodamente nas frentes do Café O Geladinho, onde entretinha a vista do dia solarengo, lendo o jornal (porque voltara ao desporto), e bebendo água gelada até que a tarde caminhava e ele se preparava, se erguia, se ia para dentro do pub. Quer que lhe diga mais? Nesse Verão, no Café O Geladinho, sempre achei que o Costa, a cada momento da nossa conversa, mesmo embutindo gelada água, mesmo falando dos negócios que o levara à noite, amiúdes vezes gracejara com os seus ditos. Não notei no Costa, nenhum nervoso particularmente miudinho, nem uma revolta com a vida… Pelo contrário! Ao sorriso de radiante firmeza, que nesses anos o iluminara com um caminho de sucesso, por que se debatera numa encruzilhada sempre presente, fatigante e perigosa. Voltei aos eventos, amigo. O Outono passou, muito frio e muito pardacento. Eu trabalhei nos meus Concursos das Sextas-Feiras. Um domingo, dia de folga, no jardim do Marquês do Pombal, quando já se viam mesas improvisadas de reformados a jogar a sueca, avistei a sair dum BMW vermelho a especial jovem, com calça larga e botas de vaqueira. E nessa semana editei no meu pasquim Jornal Dos Traidores a notícia pequena, quase acanhada, da gravidez da especial jovem… De quem, meu amigo? — Do conhecido empresário da noite, o ilustre Jacinto Costa!...
O meu amigo abriu aí os olhos, e ficou um pouco, espantado. Eu também fiz o mesmo, mas para os fechar, com a admiração daquela especial jovem, cheia de vigor ao amor! Conquistar sem pressa, serenamente, apenas entrara para o balcão, aquele astuto, rato, empresário Costa! Ah, bem ensinara o Conde do Pincel que a mulher é um monstro de vício, deitada ao centro da cama! Pois, amigo, quando eu assim dava uso à voz, encontro uma tarde na Rua de S. Brás o amigo Zé Manel, que sai do seu Boteco, me encosta para uma mesa, agarra excitadamente na minha pequena mão, e exclama alvoraçado: — Já sabes? Foi o Costa que comprou a Candeia. Ele esteve no bar, desabafou! Ele nem conseguiu dizer quantas casas tem! Não conseguiu, não senhor! — Fiquei passado. — E então agora… — Encorajado, fortemente apoiado pelas suas mininas, ávido de poder, com aqueles bons trinta e sete anos em fúria, que raio!, investiu, comprou! — Eu ergui as pernas até à sombra da mesa: — Mas então essa ascensão do Costa? — O Zé Manel, seu concorrente e conhecedor, falou com absoluta certeza: — É o mesmo de sempre! Grandioso, único… Mas não fica por aqui! Ambos nos despedimos, e depois ambos nos separamos, trocando uma palmada, com aquele ritual habitual que fica bem aos boss da noite. Depois a especial jovem teve um bebé e continuou habitando o andar com o seu Jacinto Costa no conforto e aconchego que já gozara antes, e exercendo a sua missão laboral. Nos meados da Primavera, Costa recolheu do Porto ao Brasil, ao encontro dos seus contactos, onde tinha negócios preparados. De regresso ao Porto, Costa tomou conta da Boite Pérola Negra, onde modernizou todo o seu interior, com um design para o showbusiness, já de agenda carregada que ninguém queria faltar. Veio o Maio, como sempre no Porto ruidoso e quente. Aos domingos, Costa jantava com a jovem e o bebe, na sua nova casa, em família. Havia, porém, uma grande e surpreendente mudança — a do Jacinto Costa! Imagine o amigo, como esse homem vivia os seus loucos dias? Com os olhos, e os números, e o instinto, e todo o sentido cravados nos negócios, nas passagens, nas explorações a outrem! Mas agora, não era de passagens bem mais acessíveis e facilitadas… Não, amigo! O que o preocupava agora, o que lhe cavara longas mossas em curtos meses, era que não tinha um homem, um maestro, um finório, que pudesse gerir os negócios que eram seus, e que de um modo geral, ele pudesse rolar à doucemet, na super-vida inconstante e quase no limite do seu quotidiano!
O amigo sorri… E então o Juca? Ó amigo! Esse era estático, e sério, e brando, e já tinha funcionado no Paganini, com a sua brandura e o seu estaticismo, quando ele conhecera o Costa e lhe dera para sempre lealdade e amizade. E os outros que lhe vieram a seguir, esses, cavaram velozmente pela porta fora, logo que Costa desatou aos raspanetes, com os grandes olhos em chispa, e os carnudos braços de manga arregaçada, e o estilo indomável dum domador de gado, e escorraçara aqueles marretas — a quem revelara talvez o que é um rato da noite! Mas, c´os diabos! Esse Juca, ele o reservara para outros afins, quando viu que ele não lhe oferecia, na arte e na manobra dum saca-o-copo ou ainda na manobra do já foste nenhuma táctica ainda avançada que o iluminasse! E agora, aqui no doce lar, ao cabo duns longos meses, com as traquinices do bebé diante dos seus olhos e as diabruras dos dois corpos unidos brincando na carpete, o amor presente, era que ele amara sublimemente uma família, e que a colocara entre os píncaros da lua para mais bela adoração, e que um puro romantismo, de ares mais frescos, arrancara dentro de si uma realidade forte da vida, que nunca suspeitou que chinelos e fraldas malcheirosas de menino são coisas de rara beleza em casa em que entre o sol e haja amor. E sabe o amigo, o que aumentou, mais excitadamente, esta força? Talvez fosse apenas o acontecimento da vinda do menino! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Costa partiu para as suas visitas de expiação na província, a assistir aos espectáculos nas casas de diversões, ele da ponta de uma terra a outra, por caminhos e travessas, falando com artistas e os agentes, sobre eventuais contratos. E quem sabe?... Talvez aqueles dois adorados artistas que viu actuar nos seus números, uma poeta para os delinquentes sedutores e um macho capão para as necessidades dos toscos. Não creio que se comprometessem por cima dos copos e garrafas, como era a pretensão dos agentes… De resto, Costa era essencialmente oposto em consentir espectáculos de obscenidades, como fito de aumentar as receitas. Enfim, amigo, não falemos mais sobre a noite, atrás do morto que morreu por ela! E foi então que, nesse Verão, comecei a convidar e a organizar o I Convívio de Patrões e Empregados da Noite, um evento festejado no restaurante O Braseiro em Francelos. Parece que de todos os convites por mim endereçados, poucos foram rejeitados. O Costa também compareceu. Reinava no convívio o espírito de solidariedade.
Ó amigo, que bonito e espectáculo foi aquilo! Electrizante, durante três horas, mexido, contagiante, reanimou o Porto! São dessa noite algumas daquelas conversas ligeiras… Conhece a da piela do vinho do Porto? Uma piela do vinho do Porto oferecida por um estrangeiro a uma camareira das mais rascas e das mais ordinárias, apanhada na escura sala da Boite Marta, no Largo da Maternidade de Júlio Dinis, que depois mandou montar no chulo, e pesadamente, alegremente, em cima dele, com um chicote, conduziu ao pé da Torre dos Clérigos, para esperar pelo bater do Sino! Por esse tempo, e por causa dum desenrascanço no serviço, contactei o carpinteiro Gomes, que me telefonara rapidamente do seu local de trabalho, na Baixa do Porto, às oito horas, numa noite seca de Outubro. O carpinteiro, enquanto me conduzia para dentro da casa, bem adornada pelas ricas mobílias e carpetes do Paquistão, confessou que aquele negócio era do Costa que ainda não acabara o serviço (negócio emperrado, duma ilegalidade)… E ainda me lembro, com uma surpresa, da impressão causada que me deu o homem do martelo! Estávamos na sala que abria sobre os dois halls. Quando lhe toquei no meu serviço, ergueu num sobressalto o olhar, todo tremido: — Ainda não jantei? — Apenas lhe sorri, num gesto amigo, para o não contrariar, que tinha tempo, que não era de necessidade maior, encheu o peito de ar, e respirou lentamente, passando a mão sobre a careca húmida: — Então, o que há de novo? — Relaxado, sem pressas, escutou o trabalho que eu pretendia dele. Por fim, com um bufo, remexeu uma garrafa de cerveja dentro do balde, encheu um copo, murmurando: — Amanhã… A esta hora!… — Bebeu um gole e caminhou uns passos bem firmes para a janela, a que abriu vagarosamente a vidraça… E ficou quieto, como tolhido pelo escuro, sossego da noite enublada. Eu deitei os olhos, amigo! Na casa do Costa, futura Residencial Pantanal, uma porta batia, suavemente sem ruído, fechada ao suave aroma. E esse perfume vivo envolvia uma figura robusta, no vistoso conjunto de um traje colorido, chegada ao pé do logradouro, como borboleta numa constelação. Era a minina, amigo! O Costa tinha agora uma amante brasileira… Por trás, no fundo do logradouro, os materiais das obras estavam atolados, nos cantos. Ela, imóvel, olhava, pensava talvez numa expressão usada pelo seu querido amigo que, a vida é como a roleta — tem é de se apostar certo. E entre eles rescendia, na preguiça da noite, todos as ilusões dos dois amantes… Subitamente a minina recolheu, à pressa, chamada por um simples tlintlim do telefone. E a porta logo se abriu, toda a claridade e vida, se alojaram na Residencial Pantanal.
O tempo corre! Já estamos no S. João das Fontainhas! Como estes manjericos vão arrastando depressa o grupo dos foliões para o bater do martelinho e para a noitada única! Pois, amigo, depois dessa ardente noite, o Costa inteiramente se mandou, se evaporou, sem que me chegassem novas dele, mesmo duvidosas — tanto mais que o confidente por quem as saberia, o seu brilhante Juca, partira para algures, com o seu variado itinerário de percurso, sem horas, para pesquisar a concorrência, das novidades. Todo esse ano, também, andei embrulhado na minha Festa dos Barmans. Depois, uma ocasião, no meio do Verão, descendo pela Avenida da Boavista, com as persianas (olhos) levantadas, à procura do nº 1357, onde se situava a casa nova do Jacinto Costa, quando desço eu às escadas de baixo, e lá avisto a portada do Top Bar Bagdad e dentro dum centro comercial. É belo, amigo, mais aconchegado e mais harmonioso, todo fresco e muito desejável, ainda para mais ter um horário que vai às seis horas da manhã! Mas aquele homem era da grande envergadura de Amorim que, uma mão cheia de anos depois do crescer de Cortiça, ainda deslumbrava os empresários de sucesso e os patrões sem sucesso. E, curiosa coincidência, logo nessa noite, dessa mesma portada do nº 1357 o vi eu também, o vendedor imobiliário, Cebolinha! Mau feitio, problemático, branco, de cabelo comprido, em excelentes condições para encher o bucho de uísque (e portanto ficar grosso), como diz o mandarim. Eu frequentava esse nº 1357, interessado no catálogo do bar, porque o rato do Costa possuía, pelo conhecimento largo dos seus informadores, uma colecção invejável de borrachos dos vários continentes. E passadas semanas, saindo desses borrachos uma noite (o Vigilante andava de noite) e parando à frente, para encostar o carro, enxergo à meia-luz, metido na marmelada com uma prostituta, o habitué, Cebolinha! Mas que Cebolinha, amigo! Coitado do Cebolinha! Apanhara uma ramada, uma ramada de partir a loiça toda, impertinente, chata, rabugenta como velha esquizofrénica: apanhara uma touca, que lhe saía de dentro em foguetes iluminados de sob uma velha cana; mas todo ele, no resto, parecia irreconhecível, minguado dentro dum fato escuro de muitos vincos, e duma gravata esverdeada, de grandes riscas, onde se viam os enrugados, tão à vista, da maliciosa marmelada. Cada dois minutos, instintivamente, enfiava um uísque para a garganta — e, de olhar à Nero, recolhia na espantada miséria que me tomou, apenas balbuciei: — Você! Então que é isto?
— E ele, com o seu sarcasmo indelicado, mas embriagadamente para se desimpedir, e numa voz que o uísque rompera: — Por aqui ao engate duma puta. — Não respondi, andei. Depois, ao fundo, tomei um trago que a empregada me pusera em frente, e dali olhei, o negócio! Pois, amigo, bom negócio fez o Jacinto Costa investindo naquela portada! Era um desses parques automóveis do Porto melhorado, sem horário, sempre de portas abertas, sempre arrumado, lugares de estacionamento acessíveis aos carros dos clientes do bar de dia ou de noite. Ao lado havia o Paganini. Infalivelmente, ao anoitecer, o Jacinto Costa descia a Rua da Constituição, colado às paredes, e como uma sombra, desaparecia na penumbra da porta. A essa hora já as mesas do Paganini enchiam, de turistas e intrusos mergulhados no calor de Verão, e mulheres de amor-rápido a bater as solas duras no chão, ou fazendo olhinhos aos frequentadores. E parando ao meio, na lateral da sala, o Costa se quedava, — concentrando os olhos vivos na movimentação besta daquela casa, onde a sabia dominada pela sua mão! Sabe, amigo, Costa já descobrira que, dentro daquelas casas, a atender humildemente os seus clientes, com a alma de outrora, já não lá estava o antigo Jacinto Costa!… E acreditará o amigo que então, todas as noites, para fugir do stress do trabalho, guiava pela estrada deserta, a libertar a ideia, que o ajudaria no seu trabalho. O Costa percebera bem isso. No Outono passado, encontrei o Costa, numa meia manhã de frio, tomando café numa confeitaria da Rua de Costa Cabral, e a uma ponta, o Juca, arrepiado, desolado, coçava o cabelo e batia as mãos enluvadas, com os olhos comovidos nas embaciadas vidraças, quando o Costa, para o aquecer, dera-lhe uma palmada nos ombros, acrescentando: «Tás com frio, pá! Manda vir uma cachaça!»
Passou quase dois anos.
Enfim, amigo, ontem, o Vigilante apareceu no meu bar, depois do fecho, esbaforido: — Lá foi o Jacinto Costa, numa ambulância, para o hospital, completamente inanimado! Parece que o encontraram, acompanhado de uma minina, de madrugada, esticado no banco, todo encolhido no blusão negro, inerte, com a cara coberta da morte, voltada para as estrelas da Mealhada. Fiquei silenciado. Fui às capelas. Morrera… Perguntei ao chefe do cabaré, que o conhecia e o considerava, se sabia se ele sofrera. — Não! Teve um choque violento, depois do embate, e ficou.
Era o fim da alma.
O chefe não sabia mais; nem sabiam os outros; nem o saberia talvez a acompanhante, que no momento do embate, perdera os sentidos! Chegámos à igreja. Ainda bem cedo. Mas, meu Deus, olhe! Ao fundo, à espera, à porta do velório, aqueles indivíduos concentrados na conversa, de voz baixa, com olhares furtivos… São os empregados da velha guarda! E trazem uma grande coroa de flores… De todas as casas da noite, chegam amigos e companheiros para o acompanhar à última morada e cobrirem de flores o seu amigo e companheiro. Mas, ó amigo, soubemos que, certamente, poucos o sabiam, que a minina que acompanhava o Jacinto Costa nessa noite, estaria grávida dele! Grande confusão, amigo! No meio de tudo isto, comentou-se muita coisa, mas o que valeu a pena trazer à sua última morada este brilhante Jacinto Costa, que era talvez muito mais que um boss da noite…
Com efeito, está fresco… Mas que quente manhã!

Sunday, August 13, 2017




                                             METADE NÃO CHEGA
                                                         _______

   No diário com o meu subconsciente, tenho verificado que, quanto mais eu cresço, tanto mais recorro eu às minhas lembranças de infância de menino feliz em família de quatro. Estou convicto de que a primeira lei na família deve ser a da amizade, baseada na sinceridade. Muito antes de eu saber ler já era capaz de comer sózinho. Entretanto, fazia alguma sujeira. Desde do dia em que comecei a comer à mesa, o meu irmãozinho de nome Samuel, mais velho cinco anos que eu, era quem tinha a gentileza e a alegria de mimar-me à mesa. «Deixa eu dar de comer a ti.» Era precisamente essa parte «dar a ti» que concedia tanta graça à amizade entre os dois. As crianças reconhecem como são muito poucas as oportunidades que têm de ajudar os outros, e naturalmente, aproveitam-nas sempre que surgem. É a gentileza na sua forma mais pura.
   Hoje, rapaz adulto, pedi ao meu subconsciente que não separe a relação do irmãozinho, não porque seja um ato de renunciação, censurável como tal; mas sim, porque a relação pertence-nos, e é um dos nossos mais ricos tesouros... E se pedi ao meu subconsciente que vá auxiliar o meu irmão em qualquer obstáculo, é apenas porque o outro precisa de ajuda. E não é por qualquer razão natural que insistimos em que haja arrumo na casa; é por atitude: a casa é um bem essencial, e de todos nós dependerá mantê-la fresca e cheia de encanto.
   Qando preparo o meu menú para o jantar em hora de relaxe, e sirvo arroz de coentros, porque sou vegetariano, faço questão de o comer, mesmo que não sinta grande apetite, para ser gentil comigo mesmo; poderá talvez quem diga que isso é nocivo ao espírito de iniciativa dos adultos. Mas num rapaz adulto que preze a gentileza, esta nunca é unilaterial. O rapaz adulto que come arroz de coentros hoje para agradar a si mesmo, terá um dia o prazer de ver os amigos sentados no sofá, ouvindo-o tocar viola e cantar, aclamando, encorajando-o; e se for um serau, lá estarão também, na plateia, o pai, a mãe e o irmão...  
Lembro-me de que o meu irmão, quando a música pimba ainda não era focada, dançou na sala durante algum tempo, ao som da música A Minha Casinha, para mostrar as suas habilidades no jogo de ancas e pernas.  
No dia em que abalei para Londres, estando já a viver maritalmente, meu pai ofereceu-me este conselho, vivido da experiência: «Na relação conjugal, a ajuda deve ser total e ampla; metade não chega.» Isto é totalmente correto, e se aplica não só à união estável, como também à vida familiar. Metade não chega. Até a metade, é a razão que nos comanda, daí para a frente, é o coração. E os psicólogos não estudam o coração...  


Sunday, July 16, 2017


                                         


                                               A ladainha de Fernando Abraão

                                            Lutou a vida toda por uma carreira brilhante

Um dos indivíduos menos falado, entre os que contribuiram para fazer do seu bar-club um local onde a permanência fosse melhor, é um tal  Fernando Abraão, residente em Arca d´Água, no Porto. Poucos falam dele, é certo, e é pena, que a glória não lhe tenha batido à porta, porque este Abraão é uma raça de homens que pouco falta para ficar extinta. Abraão foi criador de um dos mais extrovertidos grupos de notívagos de que reza a história. Tudo teve por causa uma ladainha - a ladainha mais extraordinária que ganhou vida na velha Invicta, e a bem dizer em todo o planeta boémio. Uma ladainha fabulosa.
Abraão era rebento de velha e firme cepa tripeira. Sua mãe servira nas casas de gente média e seu pai matara porcos num velho tasco, e os seus quatro filhos andaram de sacolas aos ombros, em 1952, durante o Estado Novo. No ano em que trocou a música pelo serviço de mesas no night-club Marta, ou seja, em 1970, contava ele os seus 23 anos. Ali, sua ladaínha tornou-se logo alvo de picantes insinuações e divertimento. Mas antes de passarmos à narrativa das confusões que se seguiram, é necessário que tracemos, muito rapidamente, a história das ladainhas, no Porto à noite. O Porto à noite, como é bem sabido, é frequentado por homens e mulheres dos mais diversos escalões sociais, e quase todos eles possuidores de admiradas lábias: Loureiro, Hamilton, Margarida, Jotinha, Yá, o tenente Duarte, Ave de Rapina, o empreiteiro Campos - todos eles vaguearam pelo noturno suas ladainhas de diverso estilo e funcionamento. Assim a coisa continuou com o crescer dos anos. Assim pois, quando Abraão passou a servir no night-club Granada, levando consigo a sua bem-humorada ladainha, havia bem quem comentasse, que a moda das ladainhas não era prática geral. A respeito da sua simplicidade e vulgar aparência, Abraão era um tipo honesto e sem maldade, e um empregado exemplar, profundamente tolerante mas não crente, e além disso, interessado em conversas de fundo. Era também bastante duro em questão de princípios, e entre estes não deixava de incluir o direito a expor sua ladainha digna de um profeta. Em toda a parte a freguesia que o ouvia, curtia e jogavam-lhe larachas. As camareiras, ao verem-no aproximar-se, galavam e trocavam de mesas. Mais de uma vez as suas histórias apareceram bisbilhotadas pelas bocas de boémios. Quanto aos céticos, troçavam dele sem cerimónia.
Lá por 1976, Abraão já virara figura típica, de projeção noturna, derivado a dois acontecimentos que se produziram quase instantaneamente: a despeito da abertura do seu pub, de vidros preto-fosco com letras em relevo:"Stop. House of Pleasures". Era um dia de semana, à tarde, e Abraão foi chamado a comparecer na esquadra local perante o oficial de dia, que o ameaçou de não lhe passar licença para abrir o pub, devido ao teor da linguagem provocatória, na fachada do estabelecimento. Revoltado até ao âmago da alma, ele levantou a manga da camisa do braço tatuado, e mostrou-lhe o emblema da unidade militar a que pertenceu voluntariamente no Ultramar. Quando disse ao oficial «que nada o fazia deter, com as ameaças proferidas», ele ergueu-se, encaminhou-se para a porta de saída, e deixou no ar um passe bem. Depois, rodou nos calcanhares e foi para o pub... mas tinha prevalecido a ladainha que era o seu orgulho.
Alguns dias passados, o correio bateu-lhe à porta e entregou-lhe a licença provisória. Após quatro semanas de abertura, foi o pub assaltado por uns mânfios à solta que, além de vandalizar o bar, roubaram tabaco, uns trocos e a aparelhagem sonora. Na esquadra, disseram-lhe sem rodeios que o melhor seria ele prevenir-se, e tentar sacudir os tais mânfios do lugar. Mas ele conseguiu tirar da cachola uma ideia, e, chamando o carpinteiro, arquitetou uma antecâmera com medidas certas, de modo a evitar que o chefe do gangue, dificiente físico, pudesse lá entrar de cadeira de rodas... e, quando o gangue lá voltou, os capangas tiveram que o erguer nas pernas e levarem-no ao colo para dentro, nada de muito anormal, mas enfim o bastante para o desanimar de não voltar lá a entrar. Um ano depois da abertura do pub, foi levado a dissolver a sociedade que tinha com um sócio, sob a argumentação de «desunião não-provocada.» Aceitou receber o trespasse que ele impôs. Princípios de boas intenções, alegou. Meteu-se numa empresa imobiliária em Campo 24 de Agosto, de um ex-chefe que lhe fez um convite para fazer parte de uma equipa de vendedores, onde ficou experimentando mais de um ano, sendo que parte desse tempo passou incomunicável! Até ali teve que defender a sua preciosa ladainha. Um dia, o amigo número um do mundo da noite acompanhou-o à zona alta da Invicta, na intenção dele tomar conta de um negócio à passagem. Abraão tomou notas e dias depois, fechou o negócio com êxito, metendo mãos à obra, com a ajuda de dois companheiras do ofício.
No interregno das obras em que afirmava aos futuros clientes estar para breve abrir um bar-club de fazer furor, e insistiu na sua ladainha; e tinha persistência, indicustível... os clientes conseguiram fazer passar essas mensagens no boca-a-boca, e nas casas concorrentes, até que no dia 3 de Outubro de 1980, o bar-club abriu a sua porta ao público, sedento de curiosidade. Na porta, estava um homenzarrão de calça preta e casaco aveludado em tom de azul-escuro por cima de uma camisa branca. Tinha barbas sobre o queixo. Só entra quem tiver cartão, disse ele. Não tenho, respondeu o cliente: tanta etiqueta, isso é que não! O homenzarrão instou para que ele se fosse. Abraão, dono do bar-club, ficou de pé no seu balcão do bar, móvel como um pica-pau tagarela, até que os clientes, meninas, e convidados, se sentassem nos sofás e bebessem os seus drinques com show e tudo, e o foram elogiar na saída. Ninguém voltou mais a duvidar da ladainha de Abraão. Agora independente, em breve encetaria ele a sua campanha para a criação de um grupo especial. Foi muitas vezes à ribalta noturna para captar clientela, concorrendo com o seu bar e o seu tempo para a angariação. Conheceu ene gente da alta, que nele acharam qualidades de bom estofo, e, se já era popular, tornou-se sobejamente conhecido.
 E assim, de aprendiz de ofício que fora, Abraão se encontrava agora guindado a uma espécie de fama. Os anos correram, e com eles a sua ladainha progrediu como a folha de um eucalipto. Uma foto desse tempo mostra-a tão destacado, que ao lado dele Don Oliveirinha, seu primeiro cliente, parece um rapazote! Anos mais tarde depois da sua ascensão, os seus contos passaram no pasquim O Jornal dos Traidores, que ele tinha criado, com quase 2000 personagens alcunhadas, dando lugar a que, num ápice, o rosto de Abraão fosse o rosto da noite.
Por fim, alguns anos antes de se aposentar, em 2.009, após 30 anos de serviço interrupto quando as ladaínhas estavam francamente em declínio, Abraão desapareceu do métier, e foi assim poupado ao espetáculo confrangedor do seu desaparecimento avançado. O autor destas linhas, foi o repórter Ratazana (alcunha) quem de modo hábil lhe traçou os dados passados, servindo-se para isso de fotografias tiradas pelos Maus-Olhados, repórteres do Grupo de Traidores, por ocasião de eventos. Mostram os seus convívios e concursos semanais que eram tradição lordesca.
Houve muita gente que pensou mesmo que o velho Abraão avalou portanto na hora certa, mas não sem se dar a alguns comentários para ter a certeza de que não ficaria de todo esquecido: numa residência ao pé do jardim de Arca d´Água, um espaço comparado ao paraíso terrester. Por esse asfalto adiante, sente-se a presença de Abraão, ladeado de velhos amigos, que nos bancos do jardim, ainda ele espalha a sua nobre ladainha.    


                                                                              (Reproduzido do «Jornal dos Traidores») por Ratazana, Porto.


Sunday, May 7, 2017


onde o avistou e chamou por ele. «Mãos-leves» veio ao seu encontro. «Aqui está o dinheiro que te devo, e o troco também», disse o padeiro Carlos, e deu-lhe com a saca dos cacetes nas fuças. Naqueles tempos, no Porto era vulgar haver extorsões e um homem que tivesse sido chantageado devido a um caso de proxenetismo suscitava a simpatia geral. O «mãos-leves» apregoou incapacidade física, indicando que Carlos lhe dera um bolo-rei como troco. Ambos deram o caso por encerrado.

Um amigo de Abraão, Rufino M, teve um pequeno papel importante, quando lhe apresentou duas quarentonas da vida fácil na sua residencial. A partir daqui, Abraão desenvolveu um sistema para chamar clientes ao bar, numa roda constante atrás de uns rabos de saias. O primeiro casal a sair para uma rápida, levou Abraão a entrar no balcão, a abrir os braços e a dizer «Até já, meus pombos. Espero que fiquem radiantes com o amor-instantâneo.» O amor-instantâneo era simplesmente um engate banal, ao qual homem e mulher conversavam o que tinham a conversar, e depois, seguiam para o cardenho de uma pensão. Mas quando o sistema foi lançado ao público em O Bar do Traidor, numa tarde de Fevereiro de 1983, o seu criador, Abraão sabia que tinha dado um passo importante no seu negócio. Comentou: «Sabia que os tinha apanhado quando vi os desejos nos olhos dos clientes do bar.» Abraão foi o primeiro a aproveitar na totalidade este sistema revolucionário num bar de estilo inglês e uma decoração rústica, com a monta envidraçada para a rua que deixava transparecer uma visibilidade pura, tal como os cafés parisienses. Hoje em dia achamo-lo normal, porque desde há uns anos, estamos familiarizados com a inovação e o modernismo. Abraão veio a Lisboa em 1982, a fim de fazer uma visita aos bares da capital e estudar os seus funcionamentos. Sabia que os seus métodos eram populares, porque rendiam dinheiro. Mas quando voltou para o Porto, trazia na bagagem um monte de ideias. Cada vez que lançava uma ideia era aplaudido e apreciado pelos clientes e amigos, e por um rancho de raparigas da rapidinha, que adoravam trabalhar no seu método. Foi devido a esse facto que a mulher da rapidinha se tornou como uma espécie de fruta apetecida, que o mais pequeno sopro do chega aqui podia-se transformar numa ida para o Muro dos Prazeres (residencial).


A primeira grande desgraça de O Bar do Traidor ocorreu em 1981, quando chegou a notícia de que a encantadora e atraente Profe — como ficou a ser tratada —, fugira da boémia e fora atrás de um homem casado dono de uma churrascaria, no Porto. (contava ela dezoito anos e ele trinta e oito anos). A sua história era a história clássica da aventura. Enquanto adolescente, tinha-se pirado de casa dos seus pais, e de uma infância infeliz, para ser estudante em horas vagas nos cafés. Depois recebeu um convite de um bar para fazer permanência como «chamariz perfeito» alternando e aceitou. A seguir, tornou-se uma das raparigas de Abraão, e mais tarde uma empregada de boite. Amantizou-se com outro patrão da hotelaria, Toni «Qualquer-Coisa», um homem pacato do tipo homem bom. Mas as relações entre ambos revelaram que Profe já não era a encantadora atraente que frequentava a boite. Profe chegara à noite antes do amante e os seus passeios incluíam bares de diversão mal frequentados, muita bebida juntamente com elementos do submundo portuense. As más bocas começaram a dizer coisas referindo que ela frequentava estes lugares na tentativa de apanhar bebedeiras para se manifestar e acabou por se viciar. Mais tarde ainda, as outras más bocas revelaram que ela própria tinha aderido à bebida e ao fumo antes de se amantizar com Toni. As más bocas da última hora anunciavam: «Profe, alcoólica». Os amigos da noite acreditavam que aquela relação não era duradoira — Profe e Toni «Qualquer-Coisa» tinham acabado de se separar para seguirem outros caminhos —, mas isto era esperado. Profe acabou por sobreviver à desgraça, mas mudou radicalmente a sua vida.

Sunday, April 23, 2017

A história do Grupo dos Traidores começa em 1983 quando Fernando Abraão, hoteleiro, da cidade do Porto, deu este nome a um numeroso grupo de clientes que frequentavam o seu bar não muito longe da Rua de Antero de Quental, no Porto, para onde tinha decidido ir estabelecer-se depois de se tornar empresário em nome individual. Mas se por Traidores entendermos o negócio de meninas da rapidinha, é então discutível que a história dos Traidores — e da pinadela — três anos antes, no dia 3 Outubro de 1980, quando o padeiro Carlos engatou uma prostituta menor de um bairro. Na tarde daquele dia, Carlos estava a trabalhar na sua distribuição de pães, na baixa portuense, quando foi intercetado por um «mãos-leves» que desejava discutir a dívida de três contos que Carlos tinha para com uma prostituta chamada Malha Susana. Como forma de obrigar Carlos a pagar a dívida, o «mãos-leves» insinuou que a prostituta Suzana sabia da morada da padaria do Carlos e que o denunciaria à mulher, a menos que recebesse o seu dinheiro. Carlos apressou-se a ir falar com a prostituta Suzana. Tinha motivos para estar receoso, porque a sua mulher estava a quilómetros da vida boémia que levava. O que a prostituta Suzana lhe falou enfureceu-o. O tal «mãos-leves» tinha deixado a prostituta Suzana no quarto de uma pensão, para umas brincadeiras de sexo, (não podia ultrapassar os quinze minutos) e a partir da primeira cena de apalpões efetuosos entre ambos, podia deduzir-se que se retardaram até não poderem mais. O padeiro Carlos estava no Dallas, longe da padaria, mas o magricela e tísico «mãos-leves», um sacador de fraco estripe, não estava muito longe dali, estava na casa do esfola de 5 de Outubro. Carlos meteu-se na carrinha e foi até lá,


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                                                                            “Baixa a pila
                                                                            E baixa rente
                                                                       O que é preciso
                                                           É o povo estar contente”
                                                                                            Ratazana.


      FERNANDO ABRAÃO E RATAZANA
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O JORNAL DOS TRAIDORES

DIZ QUE AS PROSTITUTAS FAZEM UNS
«ARRANJINHOS POR FORA.»
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Edição nº 1.144
Reportagem dos Maus-Olhados
____________ Sai à segunda-feira
Diretor
Ratazana


Este livro
contém
Histórias
soberbas


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            _________   
SEXO........ DINHEIRO......
ÁLCOOL...  VÍCIOS ..........

A História do
«Morto-Vivo»
Uma aventura torna-se num  
Pesadelo!!!
  
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