Friday, March 30, 2018




                                             
                                            BIOGRAFIA
                        1970 – 2014

                                      OS 2 DO NORTE_______
ENDEREÇO
Praça 9 de Abril, 139 / Amial
4.200-422 - Porto
CONTATO
Fernando - 966762381

EMAIL
BLOG
bardotraidor.blogspot.com
ahistoriadeumboemio.blogspot.com

LIVROS – de - Fernando Abraão
A Música Que Eu Dou / Escritos Traidores

FERNANDO ABRAÃO fundou o duo
Os 2 do Norte em 1970.
Rufino e Mário foram os elementos  do duo.
              ______________________ ////______________________

Depois de uma carreira artística auspiciosa pela passagem por alguns conjuntos de música variada, Abraão formou com Rufino o duo em 1970, estreando-se na Boite Roma.______________________________

Não negarei que, nos princípios dos anos 70, fomos ensaiados ali na Confeitaria Miami, em Cimo de Vila, na rua dos comes e bebes. O nosso ensaiador era o grande fadista Neca Rafael. Durante um ensaio, a meio da cantiga, Neca explodiu: ─ Vocês não vão lá? Mas quem é que disse que vocês não vão lá? ─ Saímos do ensaio e fomos ao tasco mais próximo comer um pão com presunto e beber uns negos de vinho. Na nossa frente estava uma sala repleta de comedores e bebedores que só falavam em voz grossa. Depois de satisfazermos as necessidades dos nossos estômagos, voltamos ao ensaio. Fizemos muitas versões diferentes de alguns trechos populares à nossa moda. E aproveitamos para levar ─ os originais ─ ao máximo para fugir ao demasiado banal. Ao fim de dois meses de ensaios, o segundo teste depois da Boite Roma, foi no nigth club A Candeia e fomos classificados de “vulgaríssimo” por alguns especialistas na matéria: estão ainda muito verdes e o que vem a ser um dueto Além demais, acrescentam, se ainda querem melhor prova de que se trata de uma treta, ouçam bem: não faz sentido cantarem em espanhol a não ser que acredite que o grande Neca já esteja cheio do fado e pô-los a cantar galego. ─ Para que se saiba, nós estamos em 1970, ─ zombam os cronistas ─ E, até esta data, o Papa já tinha ouvido desde há muito falar da grande Amália e do fado português.
Em 1972, foi a vez de Mário Reis integrar o duo ─ Os 2 do Norte ─ por troca com Rufino, e o duo, prosseguiu uma carreira aumentada pela gravação do seu primeiro disco.___________________________
Mas, nesses tempos, no Porto, o lançamento de um artista estava na primeira infância. Não havia T.V. a levar os novatos ao colo, os empresários só se ralavam com as vedetas puras. Além disso, as maiores casas de variedades estavam proibidas de apresentar estreantes do tirolês franciscano, tendiam para os catedráticos do Passeio da Fama ou a música da Emissora de Carcavelinhos. A imprensa era também parola. Não me lembro de ver nenhuma fotografia de um artista do pé rapado em revista de especialidade, quanto mais nos jornais diários. E esse foi também o ano de Ó Tomás, Ora Chega Lá P´ra Trás e Troquei Porquê, de autoria de Neca Rafael, que nos lançou na rampa do sucesso, um tema classificado “Só para ouvir a dormir”. Contudo, um cronista assegurou que nunca ouvira falar no Duo Os 2 do Norte, nem visto os seus retratos até àquele dia por aí espalhados pelos jardins da Cordoaria. Sempre assegurou que o seu único dueto fora ele e a sua sogra, quando estavam com visível bebedeira a discutirem com quem ia dormir a filha…
_____________________________________

O que é uma “dor de corno”? Vejamos no dicionário: “dor de cotovelo”. Um ato motivado pelo ciúme, e é tudo: uma experiência amorosa mal conduzida que se torna uma praga. A maioria de nós contenta-se em, debruçar-se sobre uma garrafa de vinho e chama a isso sina: e até nos babamos quando embriagados dessa «desgraça». Como se fôssemos uns coitados que votam a favor da infelicidade. Uma das maneiras de entender a história dos “cornudos” é realmente pertencer à classe deles. A maior parte de nós tira uma rifa quando escolhe a sua parceira: para toda a vida, para um momento de tédio sexual, para companheira das horas vagas, para criada de todo o serviço, tudo é mais alguma coisa. Mas os infelizes exigem para si mesmo aquilo que se pode chamar desgraça alheia. E o fado, o fado da dor de cotovelo, é o sedativo que abre as portas da solidão para eles; a porta do desanuviamento total.

Em Portugal é voz corrente que o fado a que me refiro é precisamente um daqueles tónicos com que todo o guitarrista, cantadeira e fadista tem no abecedário do seu repertório, para abrilhantar os serões noturnos de qualquer casa de fados, ou locais de romantismo puro, contra o qual todos os amantes sentem o respirar das suas mágoas. Nenhum portugês se esqueceu das suas raízes e de uma cultura como o fado, que passou a fazer parte dos nossos jovens.
Era uma ideia fixe: cantarmos fados de dor do cotovelo que batessem fundo na alma dos desesperados. E foi assim que sucedeu. Depois de termos passado «a nossa dor» pela sala do ensaio da Miami ou pela Candeia ou pelo Roma. E foi Neca o primeiro a ouvir-nos cantar o fado e a dizer-nos que o fado atravessava todas as classes sociais, que pertencia a toda a gente por igual ─ e que fazia parte da minha geração, ─ porque amadureceu a nossa inquietude quando nós éramos chavalos, passou a sua dor durante a nossa cavalgada pela aventura, tornou-se o nosso fardo e está a ficar barrigudo à custa das nossas lágrimas. Assim, de acordo com a versão de Neca, fortalecemos a nossa alternativa no repertório e nós, o duo, começamos de facto a entoar fados da dor de corno, sempre que algum cliente precisava de aconchego à alma. Tal como dizia Neca, “Fado of Oporto” ou então “Made in Portugal” e não “produto enlatado”.
Depois do sucesso Ó Tomás, ora chega lá p´ra trás, Abraão e Mário, empreenderam novas carreiras profissionais e cada um seguiu a sua vida. Por esse motivo, Os 2 do Norte atuaram em alguns espetáculos ao longo dos anos seguintes.
________________________________________________________      
Nigth-clubs (Outros)                      Grandes Palcos
______________                               ________
Roma                                                                 Coliseu do Porto
Candeia                                                             Casino de Espinho
242                                                                     Festas da Aldeia
Porto à Noite                                                    Feira Popular
Severa                                                               Mutamba
Tamariz                                                             Clube das Devesas
Gato Negro                                                       Estrela Vigorosa           
Japoneza                                                           Circo Arrayolos
Club Lord                                                         Circo Maravilhas
Casa da Mariquinhas                                      Estalagem Santiago
Adegas do Norte                                              O Braseiro      
                                                                                                                                                    
            O porquê de Os 2 do Norte, no Café Tropical. Alcunha surgida na
             conversa de café, por um empresário ao chamar Abraão à mesa:
                                               “ Ó tu, que és do Norte?”_______________

·         2 Discos gravados
·         6 CD musical (FA)
·         Mais de 100 músicas originais
·         Com resenhas em vários livros do autor.
                                              Os 2 do Norte (1973)
                             “O fado? ─ Todos o trazemos dentro de nós.”
                                                 Neca, O Humorista
Ser Artista
________
Embora eu sonhasse, em certa medida, vir um dia a tornar-me num artista de carreira, tenho de confessar, por instantes, que a tarefa não era nada fácil. Para que o leitor possa compreender melhor como isto chegou ao que chegou, vou levá-lo até onde o pai do humor fadista, Neca, então nos seus cinquenta e tais, sentado à mesa do café Tropical, de olhar perdido no horizonte, com um copo de água e uma chávena de café ao lado, pensando… Sempre que pensava, pensava com a manobra da vida ou o fado. O fado como ele adorava, era quadra ou sextilha sempre a rimar, aritmeticamente numerado, com um sentido p´rá galhofa e a condizer com o seu estilo inconfundível de humorista de primeira água. Era um fadista constantemente chamado para os melhores espetáculos da cidade. E levava sempre com ele os guitarristas habituais, além da fadista que fazia parte dos seus ─ humorísticos ─ e donde saíam os momentos de charadas mais interessantes e pitorescos da sua veia narrativa com que fazia uma letra de fado alegre.
Circo Danzer
__________
Nos tempos dos circos, quando Neca ia lá cantar uns faduchos e o público delirava com a sua forma de cantar com a boca de lado e os escarros enviados para o chão. A minha lembrança fez-me recordar uma vez, quando Neca, que estivera com gripe e não pudera comparecer ao programa circense. O dono do circo, um indivíduo de nacionalidade romena cognominado Don Manolo, tão danado ficara que não conseguira aguentar o ímpeto do público em pé nas cadeiras aos berros: Queremos o Neca ou Restitui a massa. Esses berros estridentes representavam para Don Manolo a ruína e o descalabro da companhia e pôs a imaginação e o engenho unidos a funcionar. Pegara nu microfone e falara de uma só vez. - Ustedes, tenham calma, - disse ele abanando a cabeça com respeito – O fadista Neca não pôde aparecer por estar engripado mas, em seu lugar, eu tenho uma estreia internacional. Senhoras e Senhores convosco: O Senhor Camelo!... Tal como Don Manolo previa , o público ficou irritado e teria deitado o circo abaixo não fosse a rápida intervenção da polícia chamada de urgência ao lugar. A juventude fadista admira-o e procura seguir-lhe os passos. Por consequência, esperam-se represálias por parte do fadista quando soube da afronta em que o seu nome foi envolvido. -Fazer de ti um camelo, nem faz lembrar o diabo! – Fez notar o amigo. – Precisava mesmo de levar uma lição. Mais tarde, debaixo do desespero, o fadista Neca, fora de controle, foi ao café Palladium e, no meio da discussão com Don Manolo, disse-lhe que não admitia o insulto e mandou-lhe com uma cadeira à cabeça. – Se estás a pensar que sou algum camelo estás enganado. Eu não vou consentir em ser tratado com esse vexame por um badameco como tu.
Quando eu digo que sonhava ser um dia ─ um artista ─ não me queria referir incluir no seu grupo, porque o fadista Neca foi o maior artista popular de sempre. Aquele cujas letras do seu repertório traduziam à letra os problemas do quotidiano, aquele cujos rivais nunca conseguiram superar, estou certo que o mais difícil dos meus leitores vai concordar com os meus escritos. Ele era o maior da família fadista, cujas letras faziam os rádios da cidade andarem numa constante fona à procura de inundar as ondas locais. Ele mesmo dizia, era melhor pôr um disco ou uma cassete das suas músicas no rádio e ouvir atentamente, do que ir ao dentista, ou então, dar uma ´braitada` mal dada. Desde o princípio comentou que o fado faz parte da vida de um bom português.    
Resenha Literária

Um mês e um dia, por acaso, uma exceção, coincidiu com o abandono de Rufino à música, e o novo duo fez a sua apresentação na Boite Tamariz. Após os primeiros espetáculos, Mário Reis, um rapaz tecnicamente bem dotado da mão para ritmos sul-americanos e para o dedilhar abafado de cordas para o fado, mostrou ser um praticante à altura das exigências profissionais. No intervalo de uma atuação, enquanto nós afinávamos as violas, Mário pôs-se a olhar de pestaninha para a artista de variedades que teve um grande à-vontade de despir-se totalmente à nossa frente. - Ora bolas, Mário - disse eu, irritado - desce o mi grave dois tons abaixo e deixa-te de estar p´ra aí a olhar, ainda partes a corda. Mas os olhos dele brilharam de novo. - Como é que se pode afinar um instrumento de madeira com um instrumento de pêlo aqui ao nosso lado? ─ Sim, claro que se pode – disse eu, franzindo o nariz – se estiveres concentrado. Cinco minutos depois, o processo de afinação estava concluído.
Na Casa dos Discos

Na casa dos discos, fui indagar sobre a venda de discos do duo e dirigi-me ao balcão para falar com o gerente da loja. – Então, as nossas vendas vão bem? – disse eu, dando uma vista de olhos às últimas novidades discográficas. – Suponho que irá ter saída – desafio eu, a trautear uma frase da primeira canção da segunda faixa Lá Vem o Comboio. – Quando o duo alcançar o top, senhor Abraão – disse o gerente muito baixo, estendendo-me a mão para me cumprimentar – vai ter que ter mais juizinho nessa ânsia de beber. – E, dizendo isto, as suas feições alteraram-se e riu-se na minha cara. Eu saí da loja dos discos, fazendo ouvidos moucos ao dito do baixinho e segui na direção da rua dos tascos, onde fiz uma paragem de emergência para embutir um traçado de tinto com branco.      

Na Casa de Fados____________                                                         

No Outubro de 1972, fiz finalmente a minha estreia no casino de Espinho, com que sonhava há vários anos, integrando o duo, ao lado de Mário Reis. Nesses últimos tempos, tanto Mário como eu, retomamos os ensaios e preparamo-nos afincadamente para uma rampa de lançamento a sério. Uma nova geração de empresários da noite, incluindo casas de fado e divertimentos turísticos, dedicava-se agora a lançar e promover novos talentos em troca dos consagrados artistas vindos da grande Lisboa. Na sua maneira de falar à malandro, Mário tentou contagiar o dono da casa de fados com o seu entusiasmo por esta nova linha de orientação que tão útil fora para os desempregados: “força”, “assim é que é”, “maravilha”. E, depois desta surpreende-nte troca de impressões, o dono da casa de fados mandou-nos ir aquecer as vozes para entrarmos em cena. E foi assim que fizemos. No camarim, Mário começou a afinar lentamente a nota de dó pelo lamiré e depois, mais calmo, disse; - Apostas que já temos aqui trabalho para um mês?
Deus te ouça – respondi eu. – Se preciso de ganhar umas massas, é neste preciso momento. ─ Pois, então, prepara-te para encher os bolsos – disse Mário, pondo a mão nos bolsos. ─ Cuidado! Nunca ouviste dizer, - repliquei eu, - que nunca se deve deitar foguetes antes da festa? ─ Não baralhes, pá. – Murmurou Mário. – Espera para veres. ─ Ótimo – disse eu, e fui procurar dois copos. – Vamos brindar. Mário soltou uma gargalhada e bebeu de chimpam uma rodada de verde branco, agarrando o copo c´as duas mãos e, depois, rosnou: - Põe aqui mais um bocado. À terceira vez, foi de vez. O tom de dó ficou afinadíssimo, e ambos começamos a cantarolar. Fez-se na sala uma chiadeira de vozes que até o dono veio ver se algum de nós tinha adoecido. Mário suava abundantemente, tinha a viola colada à barriga, bem como o copo ao pé dele. Depois do dono ter saído da sala, voltamos a falar. – Vamos ensaiar o folclore, - disse Mário e bebeu o resto da bebida. À quinta vez, estávamos afinados e ensaiados. Mário foi ter com o dono e mostrou-lhe uns versos que tinha composto para ele mandar encaixilhar e colocar na sala de jantar. Leu devagar em pose:
Entre tu e ela, entre a cortina e a janela, entre o homem e o amante, entre a paixão e a traição, entre o pensamento e o sentimento, mora… ???
O dono da casa de fados ficou tão fascinado com o poema de Mário que lhe pediu para o autografar e deu ordem ao empregado para ir arranjar um quadro onde o pudesse meter. Passaram algumas semanas. Mário tivera razão, pois trabalho não nos faltava.
                                                                                            
O TIROLÊS
Aí vai mais uma. Foi o dia em que me pediram para cantar o tirolês. Fui cantar a solo uma: Cowboyada, nem mais nem menos. A música rancheira estava em voga no Porto e eu sabia fazer o tirolês com a perícia de um guardador de cabras quando chama o rebanho. A única lembrança que tenho desse momento foi ver-me a cantar numa carroça atrelada a uma pileca, num espaço aberto. A zona estava cercada de gente, na sua maioria, moradores de ilhas e bairros das redondezas; fiquei desapontado quando vi os guitarristas com a cantadeira a cantar o fado, porque o ambiente pedia música mais alegre e desgarrada. Depois, agarrei no sombreiro e cantei. Mexicano tradicional. Eu gostava, de vez em quando, confesso. E cantei à minha maneira.  
      Pelos prados do belo Arizona / Vou montado no meu alazão
     A meu lado uma bela amazona / Que é dona do meu coração…

E depois: ─ veio o tirolês. ─ O público ficou assombrado com o jeito que eu dava à minha garganta, juro. Mas a pileca, pelo jeito, não tinha a mesma opinião e desatou aos pinotes, distribuindo coices à carroça que acabou por se soltar e fugiu dali para fora, que mais ninguém a conseguiu apanhar. Este concerto ao ar livre em cima da carroça com a pileca ficou famoso pelo que aconteceu, um espetáculo que pôs todos em alvoroço. Assim que os aplausos, um tanto vibrantes, acabaram, o locutor anunciou música para bailar. – Oh! Que coisa mais estúpida, - berrei eu e saltei para o chão atrás do locutor. – Não tapaste os ouvidos ao burro, - sorri para ele, indo ao seu encontro. A minha maneira de cantar o tirolês era sem dúvida atrativa, mas o som saía-me da garganta aos tropeções, era um som soluçante, tentando passar por um carneiro aos berros, mas não fazia mal a ninguém, porque eu era o protótipo do cow-boy solitário. Mal o espetáculo findou, a multidão começou a dispersar. Mas eu fiquei agarrado à minha viola, rindo-me da cena do burro a fugir pela calçada abaixo.                                                                                               
O Guitarrista Caspa e o Viola Caguinchas                                                              
E outra mais: o viola Caguinchas nunca gostou daquele guitarrista o Caspa, como era alcunhado no meio fadista. Uma ocasião, dei com eles a discutir: «Ouve o que te digo, o tom é si bemol e não mi menor.» - Dizia o Caspa. Contrariado, o Caguinchas viria a não aceitar aquele raspanço e não tem outra alternativa senão responder-lhe: «Não digas asneiras! Eu é que sei qual é o tom.» - O Caspa preferiu não responder. Nunca cheguei a entender porque era que eles passavam o tempo do ensaio a discutir.
«Já está melhor assim?» interrogava o Caguinchas em frente de Caspa. «Vê lá se esta combinação de tons não te soa melhor aos ouvidos!» - O guitarrista esteve quase a zangar-se. «És teimoso e burro!», - disse. – Só tu é que tens a mania que sabes tudo e só fazes cagadas em palco.» - Agora foi a vez de Caguinchas não lhe dar resposta. E os momentos mais interessantes eram quando haviam espetáculos com os dois a intervir no programa. E eles eram promovidos à categoria de estrelas profissionais, conduzindo os outros artistas na programação do show. Na hora de irem embora, depois do programa acabado, eles nunca perdoariam a si próprios senão molhassem a goela com uns bons negos de verde tinto ou branco (não interessa a cor) da região. «Não acreditas que já toquei dentro duma pipa de vinho?» - disse Caspa, entornando mais copos pela goela abaixo. - «Já estás bêbado!» responde Caguinchas, limpando a boca à manga do casaco. «Eu também te podia dizer que já pus uma garrafa de vinho a tocar música.» - O guitarrista engasgou-se a beber e tossiu… e depois respondeu-lhe: «Olha para ele!» disse Caspa com a voz estrangulada. «Tu nem com as cordas te safas quanto mais com as garrafas.» - «Vamos mas é embora antes que me chateie.» - Gritou ele. E ambos, um pouco grossos, tiraram a rolha duma garrafa de tintol maduro, e encheram mais dois copos para a despedida e taparam o gargalo com a palma da mão. E, com a outra mão, pegaram nos copos.
                                     
«À partida», bradou o Caguinchas. ─ «À saída», responde o Caspa. Lá vão eles para o Fiat. Caguinchas abre a porta e entra no carro; a seguir entra o Caspa. Dirigem-se para o Norte, mais propriamente dito para o norte da cidade tripeira. Pela estrada de Famalicão, passam junto de uma ponte velha. Ao longo do caminho, há uma junta de bois a pastar nos campos e lavradores a cultivar centeio. De repente, ouve-se um estrondo! Caspa mandar parar o carro: «MATASTE A VACA!» - O carro pára mais à frente e descem ambos. Ficam diante de um campo silvestre, junto de uma lomba, de pé; a brisa do ar refresca-lhes os rostos; Caguinchas põe-se em bicos de pés olhando para cima e para baixo e volta-se para trás: «Eras tu a sonhar ou quê?» diz ele de ar sisudo. «Vês alguma vaca?» - «Ali abaixo» diz Caspa, apontando. «Eu vi a vaca a voar por cima de nós.» - Caguinchas voltou a pôr-se em bicos de pés e olhou pela ravina. «Ali» volta a dizer Caspa. «O que é que vês?» - «Nada» responde Caguinchas desorientado. ─ «Tu deves estar é c´os copos.» - «Não é ali, é acolá», insiste o Caspa e Caguinchas vê o dedo do outro a apontar para o fundo do campo. «Ali! Acolá? Acolá! Ali?» pergunta. «O que é que tu tens? Uma vaca a voar pelo ar? Deves estar cá com uma visão como eu ver um elefante andar por baixo das asas dum jato a voar no espaço…» - Caspa, vermelho como um chouriço, dá em filosofar: «És teimoso como um burro! Eu bem te avisei que tivesses cuidado. Eu vi a vaca a voar à minha frente e agora? Foi-se!...» - Desorientado, Caguinchas berra: «Vai-te lá comer com a vaca ou com o boi; burro sou eu em estar para aqui armado em elefante a aturar-te.» - E correu para o carro. Caspa seguiu atrás dele. Instantes depois, lançou-se ao encontro da estrada, seguindo em marcha mais lenta. Talvez por recear que aquele estoiro de há momentos atrás estivesse relacionado com a história que Caspa referiu, ou talvez porque o outro estivesse mesmo um pouco pingado do álcool. E foi com a visão da vaca a voar no ar que chegou ao local do regresso e deixou ficar Caspa, seguindo depois para casa. Quando desceu, olhou com uma vista mais acentuada para a chaparia do carro e viu à frente uma grande amolgadela!...


Coisas que acontecem; Depois de Caguinchas se deitar no choco, embora tentasse dormir o mais rápido possível, o corpo sentia arrepios de frio. No momento, com os dedos gelados de raiva, ele não suportou durante muito tempo aquelas visões de uma nuvem passageira coberta de uma manada de vacas em perseguição dele pela estrada adiante…  

   OS 2 DO NORTE____________2012/2014

Friday, January 26, 2018





                                                    Um Barman De Artes

A carreira extraordinária de Ratazana, nascido e criado na restauração e que em 4 décadas foi o maior barman do Porto.

   Após 41 anos de restauração, Ratazana, como era conhecido, resolveu aposentar-se. Nascido e criado na restauração, elevara-se até à chefia de um bar de artes, como ele anunciava. Pensou que devia dar a vaga aos mais novos. Mas era só da restauração, e não da vida, que Ratazana se aposentava.
   «Eu vinha há anos aconselhando os meus filhos que interviessem no negócio», diz Ratazana, «mas eles esquivavam-se, dizendo-me que eram muitas as horas a atender freguesia. Compreendi que o problema das horas era a falta de aptidão enraizada, de que eles não têm tino para o negócio. Senti que competia a mim continuar ao leme do barco.»
   Assim, aos 30 anos, Ratazana fez-se empresário. Isto foi em 1976. Hoje, aos 69 anos, é um homem apurado e cheio de genica, de feições bem definidas, cabelos castanhos-esbranquiçados e olhos vigilantes. Foi o um dos maiores barmans do Porto, e acredita que os melhores anos da sua vida estão nas recordações.
   Todos os dias úteis, de 9 e meia às 8 e meia, Ratazana está em part-time, sempre ativo, servindo de mordomo-motorista, à administração de condónimos, e às casas de espetáculo que veem nele um ótimo violista e cantador de canções populares, de que é autor.
   Para que se compreenda todo o alcance das realizações desse homem, é preciso acompanhá-lo desde o dia em que, há mais de 46 anos, chegara a um night-club do norte do Porto, trocando a música por copeiro. Loureiro, dono do night-club, foi ter com ele ao balcão, e perguntou-lhe curioso; «Estás mesmo a gostar?» Confirmada a pergunta, passou dias e dias a fio para se superar na missão. Depois de muitos meses e de uma freima de 15 horas diárias ao trabalho, encontrou em Loureiro o mestre com uma escola super avançada, onde se aprendia a técnica e o posicionamento perante o cliente.
   Passados alguns anos, Ratazana foi dono de um bar, na parte alta do Porto, cargo esse que ocupou durante 30 anos, tendo sido o primeiro dono de um bar de sistema europeu. Bateu-se incansavelmente pelas suas ideias a um sistema que não se envergonhasse a saidas que perfilhasem o amor-instantâneo, mas abarcasse regras, arte e respeito.
   Foi nesse tempo que resolveu fundar um grupo unissexo, chamado Grupo de Traidores. Nos seus anos de restauração, Ratazana guardara uma agenda compacta de contatos de clientes da vanguarda boémia. Contatou com várias centenas de pessoas de toda a parte do país, convidando-os a virem ao evento do ano. Somente com a fama do seu nome, atendeu numa semana 1.000 e tantas pessoas. Entrou então em muitos dos bares da cidade, para sincronizar ideias, e por fim decidiu-se por criar um pasquim do bar, que já contava com cerca de 2.000 personagens todas elas alcunhadas. Já eram muitos os aderentes ao grupo, e além de mais ele estava sempre a cativar os estreantes que chegavam ao bar. Tais intenções no entanto, segundo ele próprio afirma, estimularam-no ainda mais ao projeto.
   Desde o princípio, Ratazana utilizou-se do bar para melhorar o convívio entre os clientes e as camareiras. Por exemplo: as camareiras do bar não tinham acanhamento em cantar o fado. Ratazana então compunha-lhes as letras e acompanhava-as ao violão. Organizou então entre os membros do grupo o evento´O Natal do Traidor`, um sorteio de rapidinhas que conseguiu dezenas de participações de homens e mulheres vindos de todos os lados. Por fim o evento tinha obtido tudo o que fora planeado: enchente, animação, divertimento. «Aquele bar foi o melhor presente que já se deu a esta cidade», disse-me um industrial.
   Ratazana incentiva o entretenimento entre a gente do bar, quer sejam novos, quer velhos. «Nunca pude ver», observa ele, «a menor diferença entre os novos e velhos. Num grupo como este, há gente controlada e gente despistada, em proporções iguais.» Para animar o entretenimento do grupo, Ratazana atrai gente do antigamente. Certa vez, durante um concurso´Às sextas-feiras`, um comerciante do antigamente viera pedir-lhe satisfações porque não recebera ainda um prémio. «Apanhei um susto», conta o dono do bar. «Tinha anunciado o prémio ao número 39. E ía na contagem 32... 33... quando fui interrompido por ele. Avancei várias mesas para quando ele tivesse algo para me dizer, anunciar: 39... e entreguei o prémio a ele. «Tive a impressão de que ele ia armar barraca», disse Ratazana», «e a barraca no meio de um entretenimento é o fim da macacada.»
   Outra vez, um empreiteiro que queria entrar no leilão de um galo de crista levantada foi dando bocas a Ratazana, depois de ter licitado algumas vezes sem êxito. «Achei que ele era um homem de teimas», disse Ratazana, «e as teimas é a melhor das garantias. Dei mais ânimo à voz para continuar. Nos quinze minutos seguintes, ele tinha ganho o galo por 4o contos. Fui bem sucedido, e recebi em cash.»
   Dezenas de outros projetos se seguiram, tais como concurso de pernas, mini-saia, às sextas-feiras e miss do bar, multiplicaram-se e sobreviveram às crises, graças ao movimento do bar de Ratazana. Um dos boss de um grande night-club de Lisboa, após elogiar Ratazana pelas suas ratices seletas, disse-me um dia, com certa convicção: «Com o jeito que ele tem para o negócio, ele é mesmo bom. Basta dizer que há umas semanas, ele veio do Porto para me sacar meia dúzia de caras bonitas que eu cá tinha na minha casa.» Fiz chegar a Ratazana essa observação. «Pois bem», disse ele, «talvez eu não seja o pinta assim, mas o curioso é que nessas lides eu nunca fiquei atrás.»
   Há algum tempo, Ratazana convocou 15 patrões da noite, mais empregados e algumas mulheres, que há anos trabalhavam no seu métier para um jantar-concerto num restaurante fora da cidade. E perguntou-lhes se tinham algo a dizer sobre a noite. «Tenho algo a dizer, sim», disse um deles. «Porque é que não está mais gente aqui hoje? Da próxima vez, convide algumas camareiras também. Nós todos estamos nos mesmo negócio com a noite.» Eis aí um dos resultados dos enormes esforços de Ratazana para unir toda a classe do mundo da noite. 
   Na crise do sexo de 2006, o seu bar foi um dos primeiros a sentir a sua quebra no negócio das rapidinhas. «Alguns dos grandes bares cujos donos me aconselharam a não abandonar o barco, porque os tempos íam mudar», disse Ratazana num tom irónico, «nunca mais ninguém os viu.» Hoje o Porto têm 7 bares de estilo-europeu, e três de estilo boite.
   Ratazana tem na sala da sua residência, uma vitrina com dvd´s, álbuns, quadros, uma fotografia do primeiro evento do Grupo de Traidores, num jogo de futebol de cinco, no campo do Nuno Álvares, organizado por ele. Há também uma do concurso de pesca que ele organizou em 1981 e que foi à praia do Cabedelo, com um grupo de clientes-traidores, em uma pesca de boa vontade. Em seguida, vê-se uma fotografia da última comemoração de Ratazana, isto é, do dia em que Ratazana acabou a sua ligação ao bar, partindo para a aposentação. Um dia de despedida do fecho de um ciclo.   

                                (Reproduzido do «Jornal dos Traidores») por Abraão, Porto.

Sunday, October 15, 2017




                       O EFEITO DO ENCORAJAMENTO

   Eu era um jovem de 27 anos e estava doente e deprimido. Necessitava de ajuda e fui encontrá-la na ida a casa de um velho pastor na cidade, que vivia rodeado de livros. Comecei a desfolhá-los, e os meus olhos fixaram mais precisamente num livro de discursos de António Oliveira Salazar: «Defenderemos as nossas colónias a todo o custo. Lutaremos em Angola, Guiné, Moçambique, Goa, Damão e Dio, navegamos pelos mares e oceanos, cada vez mais confiantes e fortes pela pátria.» 
   Eu imaginava-me em Portugal naquele surpreendente dia de 27 de Agosto de 1963, depois dos embarques de tropas para África, quando aquela voz trémula, pausada, poderosa, foi ouvida nos microfones da Emissora Nacional. As palavras de Salazar reabilitaram-me, como tinham feito  a milhões dos seus compatriotas.
   «Tudo pela Nação, nada contra a Nação.» Conseguia imaginar aquele enorme rosto de Pai-Natal e aqueles olhos ternurentos. «Defenderemos as nossas colónias a qualquer custo.»
   Só foi preciso a força da fé daquele homem no poder do indivíduo para enfrentar um desafio e combatê-lo para que eu recuperasse e ficasse melhor. Salazar sabia que os seus compatriotas possuíam essa força interior. E eu sabia que também a tinha dentro de  mim.
   Alguém me dissera um dia: «Seja simpático. Todas as pessoas com quem convive agitam-se com problemas.» Em toda a parte, há pessoas a precisar de uma palavra amiga, de uma sinceridade que lhes alimente as esperanças e os sonhos.
   Seja simples e sincero. Um tal lusitano dizia que uma simplicidade o sustentava durante dois meses. Nada mais verdadeiro! Quantas vezes nos recordamos, vezes sem conta, a simplicidade que ouvimos a nosso respeito, sem que por isso se esgote o impulso que nos trás. A falsa simplicidade adoça a língua, mas azeda o estômago. E as palavras nada fáceis geralmente são indispensáveis. A simplicidade mais pura pode ser também a mais profunda.
   Trabalho numa empresa onde o patrão raramente elogia a simplicidade. Mas ainda conservo um manual que escrevi sobre a norma de melhorar as relações entre colegas de trabalho. E porque será que entre todos os que escrevi lembro-me mais desse? Porque o meu patrão colocou nele dois parênteses: "Boa ideia!" Diz Abraão no Livro dos Provérbios: «Seja simples no trato e no convívio.»
   Durante uma das grandes ofensivas da Guerra Colonial, o capitão Jaime Neves andava pela margem do rio Kuanza quando reparou num cabo-comando que parecia exausto.
   «Como é que te sentes, pá!» perguntou-lhe.
   «Esgotadíssimo, meu capitão.»
   «Ah, sim!», disse Jaime Neves, «nesse caso somos dois; estou esgotadíssimo também. Vamos dar uma caminhada juntos, talvez nos faça bem.» Sem lições, nem conselhos especiais. E, no entanto, quanto não vale um encorajamento!
   É natural pensar que os bem-sucedidos nunca sofreram erros; a realidade, porém, é outra. Quem defronta as dificuldades deve ter em mente que não há ninguém que não fracasse de vez em quando.
   Uma altura, resolvi tirar um curso num determinado liceu por causa do professor que o orientava. O seu caráter, inteligência e segurança transpareciam em tudo o que dizia. Foi o único dos professores que eu gravei na minha mente. A páginas tantas, porém, comecei a sentir-me em baixo; pensei que nunca ia poder alcançar o que ele tinha alcançado.
   Um dia, o professor deu-se conta deste meu estado de espírito, o que aliás, era o de quase toda a turma. Parou a aula e começou a dialogar connosco. Abríu-se perante nós dos seus fracassos e de algumas vezes que se deixara iludir em abandonar a profissão. O riso acompanhou-nos, mas ao mesmo tempo sentíamos emocionados e solidários com ele. De repente, dei-me conta de que ele era como todos nós: um ser humano com virtudes e defeitos. Ele gostava de frisar-nos esta frase: «Dê tempo ao tempo, os ganhadores muitas vezes são meros lutadores como nós.»
   O poeta português Manuel Maria Barbosa du Bucage andou durante anos para encontrar alguém que se interessasse pelos seus poemas. Quando já tinha poucas esperanças acumuladas, recebeu uma mensagem que dizia: «Meu caro. Não pude deixar de ler o conteúdo dessa maravilhosa obra que é o seu livro A Virtude Laureada. Para mim, o seu sentido de humor é o mais completo que se produz em Portugal. Antevejo-lhe um grande futuro.» Estava assinado por um grande admirador que apenas assinou um "F". Estas palavras não foram em vão. "F" pensou muito antes de as começar a escrever, não apenas porque queria encorajar Bocage, mas também porque queria fazê-lo de uma forma inesquecível.

O encorajamento é simples. Basta uma frase, um gesto, um cumprimento, uma visita. Repare bem à sua volta e escolha alguém; em seguida, passe à ação. E não demore!

                                                                                                                                 Abraão, Porto.

Sunday, August 27, 2017


                                              JACINTO COSTA
                                                          ~~

Quente manhã, meu caro!... Estou aguardando a chegada do caixão do Costa — do Jacinto Costa, dono das casas Paganini, Pérola Negra, Bagdad, entre outras coisas… O amigo claro que o conheceu — um homem risonho, vivo como um rato, com uma conversa cheia de fintas emitida de uma boca faladora, de olhar atento, duma simplicidade provinciana e simples. E muito curioso, muito dado às ideias comuns, tão penetrante que entendeu o meu «Estilo da Ética Boémia!» Esta imagem do Jacinto Costa data de l980: porque da última vez que o vi, numa noite amena de Junho, metido num BMW na Rua da Constituição, transpirava dentro duma camiseta cor de milho, cortada nos cotovelos, e cheirava seguramente a nova. Mas o amigo, numa altura que o Jacinto Costa recolhendo ao Porto, parou no cabaré Tamariz, na Invicta, falou com ele, no reservado dos boss! Até a Rainha do Cartaz, que preparava o número «Salta na Cueca», para animar mais a plateia entre os clientes e os empresários, recitou aquele seu poema, de tão bom idealismo: «Nas garras do meu coração, o desejo…» E ainda recordo o Jacinto Costa, com um refinado blusão de cabedal preto, por cima da camisa de seda branca, sem largar os olhos dos seios das bailarinas, sorrindo, descaradamente àquele desejo que gemia nas suas garras… Era uma noite de Setembro, de lua minguante. Conversámos depois em grupo, com amigos, pelo meio, e pelo escuro. O José Manuel cantou melancolicamente uma cantiga amorosa da nossa época:

                                Ontem de noitinha, à beira da ria,
                                Contemplavas, silenciosa,
                                A corrente fogosa
                               Que as tuas mãos arrefecia…

E o Jacinto Costa, debruçado na cadeira da ponta, com o espírito e os olhos perdidos na luz! — Porque não acompanha o amigo este homem atractivo ao Cemitério do Prado do Repouso. Eu tenho um roadster, de capota e de cor preta, como atrai a um empresário da Noite… Não quer! Por causa do vento! O´amigo! De todas as vantagens na viaje, nenhuma mais atraente do que a cabeça descoberta. E o homem que vai a enterrar era um grande desportista! Vem o caixão a entrar no velório… Trá-lo uma carruagem para o acompanhar. Mas realmente, amigo, está um ambiente fúnebre. O indivíduo de óculos de sol à Abrunhosa, dentro do coupé?... Conheço bem, essa cara. É um concorrente pobre, desses que aparecem nos funerais, com a missão de espalhar boatos, agora que o defunto já não se incomoda, nem se compromete. O homem baixo e gordo de cabelo louro, dentro do velório, é o Mateus «Pipo», que tem um tasco e que se chama o Refresco. Que relação o unia ao Costa?... Não faço ideia. Talvez se conhecessem nas mesmas capelas; talvez o Costa lhe desse ultimamente para frequentar o Refresco. Agora é o nosso roadster… Quer que suba a capota?... Mais devagar?... Eu tenho tino. Pois este Jacinto Costa foi um homem aventureiro que, tal como eu, na vida ama a noite boémia. Na Invicta sempre o consideramos como um sujeito particularmente esperto. Para este raciocínio concorria talvez a sua grande ascensão. Nunca um fracasso brilhante na carreira! Nunca uma mancha estragada nos negócios! Nunca uma acção rebelde do temperamento ou do físico daquele sóbrio feitio que nos intrigava! Além disso, na nossa quente geração, ele foi o primeiro empresário da noite que trouxe as mininas do Brasil; que deu sem tirar ou pôr os Alojamentos; que permaneceu insensível ante a presença da Pê-Jota! E contudo, nesse Jacinto Costa, nenhuma dureza ou inveja ou grosseria. Antes pelo contrário! Um bom parceiro, sempre prestável, e mansamente contente. Toda a sua inabalável pujança parecia provir duma grande força interior. E, nesse tempo, não foi por maldade e ofensa que eu alcunhei aquele moço tão popular, tão risonho e tão mexido, de «Costa Paga Pouco». Quando namorou uma dedicada e bonita rapariga de quem decerto lhe trauteou, como todos nós trauteamos, aqueles versos sabidos, mas sempre bem recebidos:

                                Era no Verão, quando à luz do arco-íris
                               A imagem tua…

Pois, como nesse verso, o bom Jacinto Costa, ao regressar da terra de Celorico de Bastos em Novembro, no Inverno, avistou Elisa, um dia no campo, à luz do arco-íris! O Costa nunca tinha olhado uma preciosidade daquele tipo, cheia de encanto e beleza. Baixa, graciosa, simpática, digna da comparação monarquia da Princesa do Povo. Cabelos negros, compridos, e ricos em ondulados caracóis. Uma cor de pele muito macia. Olhos negros, penetrantes, alegres, de longas pestanas… Assim que casaram, partiram para o Porto, tentar a sorte dum sonho que os acorrentava. O amigo sem dúvida que a viu, pelo menos uma vez, essa bonita estampa de simpatia que se chama Elisa, a Elisa do Costa… Foi a bela meiguice romântica do Porto, nos começos dos anos oitenta. Mas realmente o Porto apenas a via pelas viagens constantes das suas idas a Espanha, ou nalguma ida aos copos de que o Costa era um frequentador viciado. Com ar caseiro de provinciana, a super Elisa, ainda conservava os velhos hábitos sobejamente apreciados, por aquela burguesia mundana que nesses tempos, no Porto, se mostravam galanteadores. Mas quem os viu, e com facilidade constante, quase empolgante, logo que criaram bases no Porto, foi o Jacinto Costa — porque, tomando conta de uma casa de alugar quartos no centro da zona alta, ao pé do jardim do Marquês do Pombal, não podia a super Elisa desejar melhor sorte nos seus dividendos, do que ver a sua vida crescer, ao tornar-se dona também duma casa de várias assoalhadas, no meio da rua da Constituição e se chamava a Pensão Costa Verde. Ó amigo, quando eu, que já então intensamente trabalhava com camareiras, depois de a conhecer numa tarde chuvosa esperando pela abertura da porta do Lord, a adorei durante treze magníficos meses e lhe rasguei os mais variados elogios! Não sei se o Costa lhe deu alguns sermões por isso. Mas todos nós, seus amigos, reconhecemos logo a forte, profunda, absoluta confiança que concebera, desde o dia de Verão, à luz do arco-íris, aquele coração, que no Porto considerávamos de «Paga Pouco!» Bem compreende que homem tão comedido e sereno não se soltou em desabafos públicos. Já no tempo, porém, de Abraias, se contava que amor e dinheiro não se separam; e do nosso fechado Jacinto Costa o amor começou logo a alargar, como o dinheiro fácil através dos casais do amor rápido duma casa de portas abertas que atrai seguramente.    
Bem me lembro duma tarde que o visitei, na sua nova casa, o Pub Paganini, depois de se ver livre da pensão. Era um domingo à noite. Ele fazia horas para ir jantar com Elisa, que vivia no andar que ambos tinham comprado, na Avenida de França, e onde habitualmente jantavam aos domingos quando estavam juntos. Creio até que só por isso, eu e o Jacinto Costa mantivemos, uma conversa sobre negócios e pouco mais. As portas do pub do Costa abriam e fechavam num invariável vaivém; e quando voltava do quarto de banho ele palrava com uma das suas mininas, altamente. Nunca admirei, amigo, lábia destravada enrolada por palavreado mais bacoco e bizarro! Piscou-me o olho quando me cumprimentou e deu um sorriso, que vinha das profundezas da alma iluminada; sorria ainda maliciosamente enquanto eu lhe contei alguns das minhas desgraças nocturnas; e sorriu depois, distraído, a acender um cigarro, com o filtro às avessas, fazendo um fumeiro do caraças. E a cada instante, infalivelmente, por um hábito já tão frequente como o voltar a cabeça, os seus olhos atentos, fugazmente observadores, se voltavam para o vaivém da porta da sala… De repente que, seguindo aquele lance fortuito, logo descobri, na porta do pub do Costa, a super Elisa, vestida de ganga azul, com uma blusa branca, esperando calmamente, e espreitando também as mesas da frente, que uma fumaraça voadora de fumo ofuscava de manchas de amarelo. O Jacinto Costa no entanto conversava com o empregado, antes ordenava, através do olhar convincente, coisas ligeiras e variadas. Toda a sua atenção se concentrara diante da máquina registadora, nos talões de entrada e saída para fixar os valores, numa vista rápida ao movimento do balcão, e mandou cumprimentos a alguns deles antes de abalar. E depois de enfiar o blusão de couro, de lhe agasalhar uma boa maquia, foi com passada larga, sem olhar uma vez para trás, que abriu curtamente, fortemente, a porta! Eu dei discretamente o pira dali também. E, amigo, acredite em mim!, admirei aquele homem a ir para o carro, veloz, firme na sua caminhada sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no carro, na branca mulher vestindo a ganga azul, e tão alheio ao mundo como se o mundo fosse apenas o assento que ela se assentava e firmava com os pés! E este encanto, amigo, durou uma década, assim brilhante, genuíno, distante e imaturo. Não se ria…
Certamente se encontravam no andar da Avenida de França: Certamente que telefonavam, e isoladamente, contando as notas em cima dos lençóis que uniam os dois amorosos: mas nunca, em cima desses lençóis, procuraram o pequeno caso duma escaramuça passada ou o caso ainda mais recente duma cena escondida na sombra. E nunca trocaram um ciúme… Não duvide, amigo! Algum apertão de ossos a raspar e tímido, sob os tectos do andar da Avenida de França, foi o máximo da exaltação que a gana lhes marcou ao desejo. O amigo não entende como é possível se manter assim duas fortes criaturas, durante uma década, em tão incrível e tédio relacionamento… Sim, certamente não lhes faltou, tempo para se coçarem, uma hora de absoluta liberdade ou uma escapadela à fronteira. Depois a super Elisa trabalhava realmente num sítio dos confins do mundo, em que noitadas e cabritadas eram o pão-nosso de cada dia, desgastante mas gratificante. Mas, na fragilidade deste amor, entrou muita baixeza moral e fraqueza sentimental. Era fácil ao Costa, que (sem nós sabermos) nascera desnorteadamente individualista; mas a boa Elisa encontrou também um gozo propositado nessa ideal vocação de vida má, que até ousa chegar, com as notas engelhadas e embrulhadas na bolsa de mão, a rica e estimada. E durante uma década, como o Zé Manel do Bar Boteco, conquistou, firme e deslumbrado, dentro do seu sonho feliz, sonho em que Elisa morou realmente dentro do seu coração, numa junção tão absoluta que se tornou substancial numa só pessoa! Mas um dia, o chão, para o Jacinto Costa, tremeu todo num terramoto de rode tamanho. Em Março ou Abril de 1989, a Elisa já repleta pelas suas aventuras e frustrações, desapareceu sem um aviso. Acreditará o amigo que ele abanou por todo, mesmo passeando sozinho a pé pelos quarteirões do Porto, logo que descobrira no andar da Avenida de França, nessa noite, que o guarda-roupa estava vazio de Elisa!... E este abandono real da sua mais-que-tudo na sua mente criou atitudes novas, no Jacinto Costa estranhas, derivando da perturbação. Como o Paganini abria cedo, à hora do primeiro café da tarde, Costa depois de chegar, mandou comprar palmas sem dedicatórias, velas e ramos de flores dum gosto sóbrio e variado, e encheu um quarto de banho, onde as depositou, para os amigos e clientes do Paganini tomar conhecimento do luto que o abatera… E ninguém deixou então no Porto de espalhar tão dolorosa notícia, mais triste, o falecimento da mulher do Costa!
Assim, logo se tornou romaria, depois da notícia, naquele delicioso e atractivo Pub Paganini, onde o prazer parecia vindo do Céu, e nunca ninguém bebia com velas acesas e o chão espalhado de flores. Porquê? Porque Elisa também ali morrera, para ele. Daí esses murmúrios banhados num sorriso religiosamente atento… Porquê? Porque a estava sempre sentindo! Ainda me lembro de ouvir contar o meu cliente amigo e comparsa nas paródias, aquele brilhante José Novais, acompanhado doutro amigo, o Arnaldo Cruz, irem visitar o Costa, ao fim da tarde, e de ele carregado de inquietação, como revoltado, arrancar do chão uma mesa e gritar com uma cara que não era satisfação, perante a plateia que o rodeava: — O que eu faço? O que eu faço? Parto o pescoço ao primeiro que dizer mal de Elisa!... — E depois, exclamou ao olhar o relógio, com um assomo vermelho na face:
— O quê? Já são 9 horas? Lá se vai o jantar!...
O dinheiro arrasta ao poder, sobretudo dinheiro de tão fácil trabalhismo: e o Jacinto Costa rentabilizou com sagacidade o dinheiro que ela também partilhava. Claro que não podia levar a lembrança de Elisa para onde quer que fosse, nem consentir que a vaga lembrança roçasse pelos sofás de veludo da sala do pub. Mandou, portanto, uma carruagem para os fins, e onde encarregou o serviço a um tal Juca (como era tratado), um amigo mais antigo e confidencial, que fez chegar o remesso das flores, ao cuidado de uma irmã que morava nos arredores de Sintra. Veja o amigo, como esse endiabrado gozava com esta ideia macabra? Com este acto, assim desfez, logo ali, a amizade com o amor daquela mulher a quem nunca dera um filho! Por estas mesmas alturas, numa pachorrenta conversa de bar, aproveitei a companhia dum cliente, e visitei o Costa, no Paganini, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar condolências antecipadas, mas para que, naquele acto aterrador, ele sentisse ao lado a força mobilizadora da boémia… Encontrei também com ele, o Juca, que já me serviu neste pub, onde agora vêem cá, de vez em quando, todos aqueles clientes a quem chamei traidores de sexo… O Juca chegara de Braga, da sua rotina normal, de madrugada, reclamado por um telefonema do Costa. Quando entrei, um empregado atrapalhado limpava duas mesas em simultâneo.
O Jacinto Costa abalava nessa noite para Lisboa. Já vestira outro blusão de couro, com botas de meio cano pretas: e depois de me estender a mão, enquanto o Juca remexia um gelo, continuou andando pela sala, pensativo, como alarmado, como surpreso da sua sorte bruscamente abalada. Num momento em que ele batera com a porta, murmurei ao cliente, por cima do ombro: — O Costa faz bem em se pirar daqui… — O cliente abanou a cabeça: — Sim, pensou que era mais oportuno… Eu concordei. Mas só durante o tempo do luto falso… — E zarpámos dali. E, depois desse tempo, o Costa? Ó amigo, o sagaz Costa que não parava nem quieto, aventurou-se a comprar uma fracção ao lado do Paganini, e fez dela uma pensãozita. Tão arrojado estava com a sua veia, que apenas umas semanas, tomou posse na Rua João das Regras do Pub Chaminé. Os meses de falso luto passaram, depois vieram outros, e Costa não arredou pé do Porto. Na altura viria a entusiasmar-se por uma jovem de calça justa, blusa às bolinhas, que ocupava a missão de empregada de balcão. Nesse Junho o encontrei eu sentado comodamente nas frentes do Café O Geladinho, onde entretinha a vista do dia solarengo, lendo o jornal (porque voltara ao desporto), e bebendo água gelada até que a tarde caminhava e ele se preparava, se erguia, se ia para dentro do pub. Quer que lhe diga mais? Nesse Verão, no Café O Geladinho, sempre achei que o Costa, a cada momento da nossa conversa, mesmo embutindo gelada água, mesmo falando dos negócios que o levara à noite, amiúdes vezes gracejara com os seus ditos. Não notei no Costa, nenhum nervoso particularmente miudinho, nem uma revolta com a vida… Pelo contrário! Ao sorriso de radiante firmeza, que nesses anos o iluminara com um caminho de sucesso, por que se debatera numa encruzilhada sempre presente, fatigante e perigosa. Voltei aos eventos, amigo. O Outono passou, muito frio e muito pardacento. Eu trabalhei nos meus Concursos das Sextas-Feiras. Um domingo, dia de folga, no jardim do Marquês do Pombal, quando já se viam mesas improvisadas de reformados a jogar a sueca, avistei a sair dum BMW vermelho a especial jovem, com calça larga e botas de vaqueira. E nessa semana editei no meu pasquim Jornal Dos Traidores a notícia pequena, quase acanhada, da gravidez da especial jovem… De quem, meu amigo? — Do conhecido empresário da noite, o ilustre Jacinto Costa!...
O meu amigo abriu aí os olhos, e ficou um pouco, espantado. Eu também fiz o mesmo, mas para os fechar, com a admiração daquela especial jovem, cheia de vigor ao amor! Conquistar sem pressa, serenamente, apenas entrara para o balcão, aquele astuto, rato, empresário Costa! Ah, bem ensinara o Conde do Pincel que a mulher é um monstro de vício, deitada ao centro da cama! Pois, amigo, quando eu assim dava uso à voz, encontro uma tarde na Rua de S. Brás o amigo Zé Manel, que sai do seu Boteco, me encosta para uma mesa, agarra excitadamente na minha pequena mão, e exclama alvoraçado: — Já sabes? Foi o Costa que comprou a Candeia. Ele esteve no bar, desabafou! Ele nem conseguiu dizer quantas casas tem! Não conseguiu, não senhor! — Fiquei passado. — E então agora… — Encorajado, fortemente apoiado pelas suas mininas, ávido de poder, com aqueles bons trinta e sete anos em fúria, que raio!, investiu, comprou! — Eu ergui as pernas até à sombra da mesa: — Mas então essa ascensão do Costa? — O Zé Manel, seu concorrente e conhecedor, falou com absoluta certeza: — É o mesmo de sempre! Grandioso, único… Mas não fica por aqui! Ambos nos despedimos, e depois ambos nos separamos, trocando uma palmada, com aquele ritual habitual que fica bem aos boss da noite. Depois a especial jovem teve um bebé e continuou habitando o andar com o seu Jacinto Costa no conforto e aconchego que já gozara antes, e exercendo a sua missão laboral. Nos meados da Primavera, Costa recolheu do Porto ao Brasil, ao encontro dos seus contactos, onde tinha negócios preparados. De regresso ao Porto, Costa tomou conta da Boite Pérola Negra, onde modernizou todo o seu interior, com um design para o showbusiness, já de agenda carregada que ninguém queria faltar. Veio o Maio, como sempre no Porto ruidoso e quente. Aos domingos, Costa jantava com a jovem e o bebe, na sua nova casa, em família. Havia, porém, uma grande e surpreendente mudança — a do Jacinto Costa! Imagine o amigo, como esse homem vivia os seus loucos dias? Com os olhos, e os números, e o instinto, e todo o sentido cravados nos negócios, nas passagens, nas explorações a outrem! Mas agora, não era de passagens bem mais acessíveis e facilitadas… Não, amigo! O que o preocupava agora, o que lhe cavara longas mossas em curtos meses, era que não tinha um homem, um maestro, um finório, que pudesse gerir os negócios que eram seus, e que de um modo geral, ele pudesse rolar à doucemet, na super-vida inconstante e quase no limite do seu quotidiano!
O amigo sorri… E então o Juca? Ó amigo! Esse era estático, e sério, e brando, e já tinha funcionado no Paganini, com a sua brandura e o seu estaticismo, quando ele conhecera o Costa e lhe dera para sempre lealdade e amizade. E os outros que lhe vieram a seguir, esses, cavaram velozmente pela porta fora, logo que Costa desatou aos raspanetes, com os grandes olhos em chispa, e os carnudos braços de manga arregaçada, e o estilo indomável dum domador de gado, e escorraçara aqueles marretas — a quem revelara talvez o que é um rato da noite! Mas, c´os diabos! Esse Juca, ele o reservara para outros afins, quando viu que ele não lhe oferecia, na arte e na manobra dum saca-o-copo ou ainda na manobra do já foste nenhuma táctica ainda avançada que o iluminasse! E agora, aqui no doce lar, ao cabo duns longos meses, com as traquinices do bebé diante dos seus olhos e as diabruras dos dois corpos unidos brincando na carpete, o amor presente, era que ele amara sublimemente uma família, e que a colocara entre os píncaros da lua para mais bela adoração, e que um puro romantismo, de ares mais frescos, arrancara dentro de si uma realidade forte da vida, que nunca suspeitou que chinelos e fraldas malcheirosas de menino são coisas de rara beleza em casa em que entre o sol e haja amor. E sabe o amigo, o que aumentou, mais excitadamente, esta força? Talvez fosse apenas o acontecimento da vinda do menino! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Costa partiu para as suas visitas de expiação na província, a assistir aos espectáculos nas casas de diversões, ele da ponta de uma terra a outra, por caminhos e travessas, falando com artistas e os agentes, sobre eventuais contratos. E quem sabe?... Talvez aqueles dois adorados artistas que viu actuar nos seus números, uma poeta para os delinquentes sedutores e um macho capão para as necessidades dos toscos. Não creio que se comprometessem por cima dos copos e garrafas, como era a pretensão dos agentes… De resto, Costa era essencialmente oposto em consentir espectáculos de obscenidades, como fito de aumentar as receitas. Enfim, amigo, não falemos mais sobre a noite, atrás do morto que morreu por ela! E foi então que, nesse Verão, comecei a convidar e a organizar o I Convívio de Patrões e Empregados da Noite, um evento festejado no restaurante O Braseiro em Francelos. Parece que de todos os convites por mim endereçados, poucos foram rejeitados. O Costa também compareceu. Reinava no convívio o espírito de solidariedade.
Ó amigo, que bonito e espectáculo foi aquilo! Electrizante, durante três horas, mexido, contagiante, reanimou o Porto! São dessa noite algumas daquelas conversas ligeiras… Conhece a da piela do vinho do Porto? Uma piela do vinho do Porto oferecida por um estrangeiro a uma camareira das mais rascas e das mais ordinárias, apanhada na escura sala da Boite Marta, no Largo da Maternidade de Júlio Dinis, que depois mandou montar no chulo, e pesadamente, alegremente, em cima dele, com um chicote, conduziu ao pé da Torre dos Clérigos, para esperar pelo bater do Sino! Por esse tempo, e por causa dum desenrascanço no serviço, contactei o carpinteiro Gomes, que me telefonara rapidamente do seu local de trabalho, na Baixa do Porto, às oito horas, numa noite seca de Outubro. O carpinteiro, enquanto me conduzia para dentro da casa, bem adornada pelas ricas mobílias e carpetes do Paquistão, confessou que aquele negócio era do Costa que ainda não acabara o serviço (negócio emperrado, duma ilegalidade)… E ainda me lembro, com uma surpresa, da impressão causada que me deu o homem do martelo! Estávamos na sala que abria sobre os dois halls. Quando lhe toquei no meu serviço, ergueu num sobressalto o olhar, todo tremido: — Ainda não jantei? — Apenas lhe sorri, num gesto amigo, para o não contrariar, que tinha tempo, que não era de necessidade maior, encheu o peito de ar, e respirou lentamente, passando a mão sobre a careca húmida: — Então, o que há de novo? — Relaxado, sem pressas, escutou o trabalho que eu pretendia dele. Por fim, com um bufo, remexeu uma garrafa de cerveja dentro do balde, encheu um copo, murmurando: — Amanhã… A esta hora!… — Bebeu um gole e caminhou uns passos bem firmes para a janela, a que abriu vagarosamente a vidraça… E ficou quieto, como tolhido pelo escuro, sossego da noite enublada. Eu deitei os olhos, amigo! Na casa do Costa, futura Residencial Pantanal, uma porta batia, suavemente sem ruído, fechada ao suave aroma. E esse perfume vivo envolvia uma figura robusta, no vistoso conjunto de um traje colorido, chegada ao pé do logradouro, como borboleta numa constelação. Era a minina, amigo! O Costa tinha agora uma amante brasileira… Por trás, no fundo do logradouro, os materiais das obras estavam atolados, nos cantos. Ela, imóvel, olhava, pensava talvez numa expressão usada pelo seu querido amigo que, a vida é como a roleta — tem é de se apostar certo. E entre eles rescendia, na preguiça da noite, todos as ilusões dos dois amantes… Subitamente a minina recolheu, à pressa, chamada por um simples tlintlim do telefone. E a porta logo se abriu, toda a claridade e vida, se alojaram na Residencial Pantanal.
O tempo corre! Já estamos no S. João das Fontainhas! Como estes manjericos vão arrastando depressa o grupo dos foliões para o bater do martelinho e para a noitada única! Pois, amigo, depois dessa ardente noite, o Costa inteiramente se mandou, se evaporou, sem que me chegassem novas dele, mesmo duvidosas — tanto mais que o confidente por quem as saberia, o seu brilhante Juca, partira para algures, com o seu variado itinerário de percurso, sem horas, para pesquisar a concorrência, das novidades. Todo esse ano, também, andei embrulhado na minha Festa dos Barmans. Depois, uma ocasião, no meio do Verão, descendo pela Avenida da Boavista, com as persianas (olhos) levantadas, à procura do nº 1357, onde se situava a casa nova do Jacinto Costa, quando desço eu às escadas de baixo, e lá avisto a portada do Top Bar Bagdad e dentro dum centro comercial. É belo, amigo, mais aconchegado e mais harmonioso, todo fresco e muito desejável, ainda para mais ter um horário que vai às seis horas da manhã! Mas aquele homem era da grande envergadura de Amorim que, uma mão cheia de anos depois do crescer de Cortiça, ainda deslumbrava os empresários de sucesso e os patrões sem sucesso. E, curiosa coincidência, logo nessa noite, dessa mesma portada do nº 1357 o vi eu também, o vendedor imobiliário, Cebolinha! Mau feitio, problemático, branco, de cabelo comprido, em excelentes condições para encher o bucho de uísque (e portanto ficar grosso), como diz o mandarim. Eu frequentava esse nº 1357, interessado no catálogo do bar, porque o rato do Costa possuía, pelo conhecimento largo dos seus informadores, uma colecção invejável de borrachos dos vários continentes. E passadas semanas, saindo desses borrachos uma noite (o Vigilante andava de noite) e parando à frente, para encostar o carro, enxergo à meia-luz, metido na marmelada com uma prostituta, o habitué, Cebolinha! Mas que Cebolinha, amigo! Coitado do Cebolinha! Apanhara uma ramada, uma ramada de partir a loiça toda, impertinente, chata, rabugenta como velha esquizofrénica: apanhara uma touca, que lhe saía de dentro em foguetes iluminados de sob uma velha cana; mas todo ele, no resto, parecia irreconhecível, minguado dentro dum fato escuro de muitos vincos, e duma gravata esverdeada, de grandes riscas, onde se viam os enrugados, tão à vista, da maliciosa marmelada. Cada dois minutos, instintivamente, enfiava um uísque para a garganta — e, de olhar à Nero, recolhia na espantada miséria que me tomou, apenas balbuciei: — Você! Então que é isto?
— E ele, com o seu sarcasmo indelicado, mas embriagadamente para se desimpedir, e numa voz que o uísque rompera: — Por aqui ao engate duma puta. — Não respondi, andei. Depois, ao fundo, tomei um trago que a empregada me pusera em frente, e dali olhei, o negócio! Pois, amigo, bom negócio fez o Jacinto Costa investindo naquela portada! Era um desses parques automóveis do Porto melhorado, sem horário, sempre de portas abertas, sempre arrumado, lugares de estacionamento acessíveis aos carros dos clientes do bar de dia ou de noite. Ao lado havia o Paganini. Infalivelmente, ao anoitecer, o Jacinto Costa descia a Rua da Constituição, colado às paredes, e como uma sombra, desaparecia na penumbra da porta. A essa hora já as mesas do Paganini enchiam, de turistas e intrusos mergulhados no calor de Verão, e mulheres de amor-rápido a bater as solas duras no chão, ou fazendo olhinhos aos frequentadores. E parando ao meio, na lateral da sala, o Costa se quedava, — concentrando os olhos vivos na movimentação besta daquela casa, onde a sabia dominada pela sua mão! Sabe, amigo, Costa já descobrira que, dentro daquelas casas, a atender humildemente os seus clientes, com a alma de outrora, já não lá estava o antigo Jacinto Costa!… E acreditará o amigo que então, todas as noites, para fugir do stress do trabalho, guiava pela estrada deserta, a libertar a ideia, que o ajudaria no seu trabalho. O Costa percebera bem isso. No Outono passado, encontrei o Costa, numa meia manhã de frio, tomando café numa confeitaria da Rua de Costa Cabral, e a uma ponta, o Juca, arrepiado, desolado, coçava o cabelo e batia as mãos enluvadas, com os olhos comovidos nas embaciadas vidraças, quando o Costa, para o aquecer, dera-lhe uma palmada nos ombros, acrescentando: «Tás com frio, pá! Manda vir uma cachaça!»
Passou quase dois anos.
Enfim, amigo, ontem, o Vigilante apareceu no meu bar, depois do fecho, esbaforido: — Lá foi o Jacinto Costa, numa ambulância, para o hospital, completamente inanimado! Parece que o encontraram, acompanhado de uma minina, de madrugada, esticado no banco, todo encolhido no blusão negro, inerte, com a cara coberta da morte, voltada para as estrelas da Mealhada. Fiquei silenciado. Fui às capelas. Morrera… Perguntei ao chefe do cabaré, que o conhecia e o considerava, se sabia se ele sofrera. — Não! Teve um choque violento, depois do embate, e ficou.
Era o fim da alma.
O chefe não sabia mais; nem sabiam os outros; nem o saberia talvez a acompanhante, que no momento do embate, perdera os sentidos! Chegámos à igreja. Ainda bem cedo. Mas, meu Deus, olhe! Ao fundo, à espera, à porta do velório, aqueles indivíduos concentrados na conversa, de voz baixa, com olhares furtivos… São os empregados da velha guarda! E trazem uma grande coroa de flores… De todas as casas da noite, chegam amigos e companheiros para o acompanhar à última morada e cobrirem de flores o seu amigo e companheiro. Mas, ó amigo, soubemos que, certamente, poucos o sabiam, que a minina que acompanhava o Jacinto Costa nessa noite, estaria grávida dele! Grande confusão, amigo! No meio de tudo isto, comentou-se muita coisa, mas o que valeu a pena trazer à sua última morada este brilhante Jacinto Costa, que era talvez muito mais que um boss da noite…
Com efeito, está fresco… Mas que quente manhã!