Sunday, July 16, 2017


                                         


                                               A ladainha de Fernando Abraão

                                            Lutou a vida toda por uma carreira brilhante

Um dos indivíduos menos falado, entre os que contribuiram para fazer do seu bar-club um local onde a permanência fosse melhor, é um tal  Fernando Abraão, residente em Arca d´Água, no Porto. Poucos falam dele, é certo, e é pena, que a glória não lhe tenha batido à porta, porque este Abraão é uma raça de homens que pouco falta para ficar extinta. Abraão foi criador de um dos mais extrovertidos grupos de notívagos de que reza a história. Tudo teve por causa uma ladainha - a ladainha mais extraordinária que ganhou vida na velha Invicta, e a bem dizer em todo o planeta boémio. Uma ladainha fabulosa.
Abraão era rebento de velha e firme cepa tripeira. Sua mãe servira nas casas de gente média e seu pai matara porcos num velho tasco, e os seus quatro filhos andaram de sacolas aos ombros, em 1952, durante o Estado Novo. No ano em que trocou a música pelo serviço de mesas no night-club Marta, ou seja, em 1970, contava ele os seus 23 anos. Ali, sua ladaínha tornou-se logo alvo de picantes insinuações e divertimento. Mas antes de passarmos à narrativa das confusões que se seguiram, é necessário que tracemos, muito rapidamente, a história das ladainhas, no Porto à noite. O Porto à noite, como é bem sabido, é frequentado por homens e mulheres dos mais diversos escalões sociais, e quase todos eles possuidores de admiradas lábias: Loureiro, Hamilton, Margarida, Jotinha, Yá, o tenente Duarte, Ave de Rapina, o empreiteiro Campos - todos eles vaguearam pelo noturno suas ladainhas de diverso estilo e funcionamento. Assim a coisa continuou com o crescer dos anos. Assim pois, quando Abraão passou a servir no night-club Granada, levando consigo a sua bem-humorada ladainha, havia bem quem comentasse, que a moda das ladainhas não era prática geral. A respeito da sua simplicidade e vulgar aparência, Abraão era um tipo honesto e sem maldade, e um empregado exemplar, profundamente tolerante mas não crente, e além disso, interessado em conversas de fundo. Era também bastante duro em questão de princípios, e entre estes não deixava de incluir o direito a expor sua ladainha digna de um profeta. Em toda a parte a freguesia que o ouvia, curtia e jogavam-lhe larachas. As camareiras, ao verem-no aproximar-se, galavam e trocavam de mesas. Mais de uma vez as suas histórias apareceram bisbilhotadas pelas bocas de boémios. Quanto aos céticos, troçavam dele sem cerimónia.
Lá por 1976, Abraão já virara figura típica, de projeção noturna, derivado a dois acontecimentos que se produziram quase instantaneamente: a despeito da abertura do seu pub, de vidros preto-fosco com letras em relevo:"Stop. House of Pleasures". Era um dia de semana, à tarde, e Abraão foi chamado a comparecer na esquadra local perante o oficial de dia, que o ameaçou de não lhe passar licença para abrir o pub, devido ao teor da linguagem provocatória, na fachada do estabelecimento. Revoltado até ao âmago da alma, ele levantou a manga da camisa do braço tatuado, e mostrou-lhe o emblema da unidade militar a que pertenceu voluntariamente no Ultramar. Quando disse ao oficial «que nada o fazia deter, com as ameaças proferidas», ele ergueu-se, encaminhou-se para a porta de saída, e deixou no ar um passe bem. Depois, rodou nos calcanhares e foi para o pub... mas tinha prevalecido a ladainha que era o seu orgulho.
Alguns dias passados, o correio bateu-lhe à porta e entregou-lhe a licença provisória. Após quatro semanas de abertura, foi o pub assaltado por uns mânfios à solta que, além de vandalizar o bar, roubaram tabaco, uns trocos e a aparelhagem sonora. Na esquadra, disseram-lhe sem rodeios que o melhor seria ele prevenir-se, e tentar sacudir os tais mânfios do lugar. Mas ele conseguiu tirar da cachola uma ideia, e, chamando o carpinteiro, arquitetou uma antecâmera com medidas certas, de modo a evitar que o chefe do gangue, dificiente físico, pudesse lá entrar de cadeira de rodas... e, quando o gangue lá voltou, os capangas tiveram que o erguer nas pernas e levarem-no ao colo para dentro, nada de muito anormal, mas enfim o bastante para o desanimar de não voltar lá a entrar. Um ano depois da abertura do pub, foi levado a dissolver a sociedade que tinha com um sócio, sob a argumentação de «desunião não-provocada.» Aceitou receber o trespasse que ele impôs. Princípios de boas intenções, alegou. Meteu-se numa empresa imobiliária em Campo 24 de Agosto, de um ex-chefe que lhe fez um convite para fazer parte de uma equipa de vendedores, onde ficou experimentando mais de um ano, sendo que parte desse tempo passou incomunicável! Até ali teve que defender a sua preciosa ladainha. Um dia, o amigo número um do mundo da noite acompanhou-o à zona alta da Invicta, na intenção dele tomar conta de um negócio à passagem. Abraão tomou notas e dias depois, fechou o negócio com êxito, metendo mãos à obra, com a ajuda de dois companheiras do ofício.
No interregno das obras em que afirmava aos futuros clientes estar para breve abrir um bar-club de fazer furor, e insistiu na sua ladainha; e tinha persistência, indicustível... os clientes conseguiram fazer passar essas mensagens no boca-a-boca, e nas casas concorrentes, até que no dia 3 de Outubro de 1980, o bar-club abriu a sua porta ao público, sedento de curiosidade. Na porta, estava um homenzarrão de calça preta e casaco aveludado em tom de azul-escuro por cima de uma camisa branca. Tinha barbas sobre o queixo. Só entra quem tiver cartão, disse ele. Não tenho, respondeu o cliente: tanta etiqueta, isso é que não! O homenzarrão instou para que ele se fosse. Abraão, dono do bar-club, ficou de pé no seu balcão do bar, móvel como um pica-pau tagarela, até que os clientes, meninas, e convidados, se sentassem nos sofás e bebessem os seus drinques com show e tudo, e o foram elogiar na saída. Ninguém voltou mais a duvidar da ladainha de Abraão. Agora independente, em breve encetaria ele a sua campanha para a criação de um grupo especial. Foi muitas vezes à ribalta noturna para captar clientela, concorrendo com o seu bar e o seu tempo para a angariação. Conheceu ene gente da alta, que nele acharam qualidades de bom estofo, e, se já era popular, tornou-se sobejamente conhecido.
 E assim, de aprendiz de ofício que fora, Abraão se encontrava agora guindado a uma espécie de fama. Os anos correram, e com eles a sua ladainha progrediu como a folha de um eucalipto. Uma foto desse tempo mostra-a tão destacado, que ao lado dele Don Oliveirinha, seu primeiro cliente, parece um rapazote! Anos mais tarde depois da sua ascensão, os seus contos passaram no pasquim O Jornal dos Traidores, que ele tinha criado, com quase 2000 personagens alcunhadas, dando lugar a que, num ápice, o rosto de Abraão fosse o rosto da noite.
Por fim, alguns anos antes de se aposentar, em 2.009, após 30 anos de serviço interrupto quando as ladaínhas estavam francamente em declínio, Abraão desapareceu do métier, e foi assim poupado ao espetáculo confrangedor do seu desaparecimento avançado. O autor destas linhas, foi o repórter Ratazana (alcunha) quem de modo hábil lhe traçou os dados passados, servindo-se para isso de fotografias tiradas pelos Maus-Olhados, repórteres do Grupo de Traidores, por ocasião de eventos. Mostram os seus convívios e concursos semanais que eram tradição lordesca.
Houve muita gente que pensou mesmo que o velho Abraão avalou portanto na hora certa, mas não sem se dar a alguns comentários para ter a certeza de que não ficaria de todo esquecido: numa residência ao pé do jardim de Arca d´Água, um espaço comparado ao paraíso terrester. Por esse asfalto adiante, sente-se a presença de Abraão, ladeado de velhos amigos, que nos bancos do jardim, ainda ele espalha a sua nobre ladainha.    


                                                                              (Reproduzido do «Jornal dos Traidores») por Ratazana, Porto.


Sunday, May 7, 2017


onde o avistou e chamou por ele. «Mãos-leves» veio ao seu encontro. «Aqui está o dinheiro que te devo, e o troco também», disse o padeiro Carlos, e deu-lhe com a saca dos cacetes nas fuças. Naqueles tempos, no Porto era vulgar haver extorsões e um homem que tivesse sido chantageado devido a um caso de proxenetismo suscitava a simpatia geral. O «mãos-leves» apregoou incapacidade física, indicando que Carlos lhe dera um bolo-rei como troco. Ambos deram o caso por encerrado.

Um amigo de Abraão, Rufino M, teve um pequeno papel importante, quando lhe apresentou duas quarentonas da vida fácil na sua residencial. A partir daqui, Abraão desenvolveu um sistema para chamar clientes ao bar, numa roda constante atrás de uns rabos de saias. O primeiro casal a sair para uma rápida, levou Abraão a entrar no balcão, a abrir os braços e a dizer «Até já, meus pombos. Espero que fiquem radiantes com o amor-instantâneo.» O amor-instantâneo era simplesmente um engate banal, ao qual homem e mulher conversavam o que tinham a conversar, e depois, seguiam para o cardenho de uma pensão. Mas quando o sistema foi lançado ao público em O Bar do Traidor, numa tarde de Fevereiro de 1983, o seu criador, Abraão sabia que tinha dado um passo importante no seu negócio. Comentou: «Sabia que os tinha apanhado quando vi os desejos nos olhos dos clientes do bar.» Abraão foi o primeiro a aproveitar na totalidade este sistema revolucionário num bar de estilo inglês e uma decoração rústica, com a monta envidraçada para a rua que deixava transparecer uma visibilidade pura, tal como os cafés parisienses. Hoje em dia achamo-lo normal, porque desde há uns anos, estamos familiarizados com a inovação e o modernismo. Abraão veio a Lisboa em 1982, a fim de fazer uma visita aos bares da capital e estudar os seus funcionamentos. Sabia que os seus métodos eram populares, porque rendiam dinheiro. Mas quando voltou para o Porto, trazia na bagagem um monte de ideias. Cada vez que lançava uma ideia era aplaudido e apreciado pelos clientes e amigos, e por um rancho de raparigas da rapidinha, que adoravam trabalhar no seu método. Foi devido a esse facto que a mulher da rapidinha se tornou como uma espécie de fruta apetecida, que o mais pequeno sopro do chega aqui podia-se transformar numa ida para o Muro dos Prazeres (residencial).


A primeira grande desgraça de O Bar do Traidor ocorreu em 1981, quando chegou a notícia de que a encantadora e atraente Profe — como ficou a ser tratada —, fugira da boémia e fora atrás de um homem casado dono de uma churrascaria, no Porto. (contava ela dezoito anos e ele trinta e oito anos). A sua história era a história clássica da aventura. Enquanto adolescente, tinha-se pirado de casa dos seus pais, e de uma infância infeliz, para ser estudante em horas vagas nos cafés. Depois recebeu um convite de um bar para fazer permanência como «chamariz perfeito» alternando e aceitou. A seguir, tornou-se uma das raparigas de Abraão, e mais tarde uma empregada de boite. Amantizou-se com outro patrão da hotelaria, Toni «Qualquer-Coisa», um homem pacato do tipo homem bom. Mas as relações entre ambos revelaram que Profe já não era a encantadora atraente que frequentava a boite. Profe chegara à noite antes do amante e os seus passeios incluíam bares de diversão mal frequentados, muita bebida juntamente com elementos do submundo portuense. As más bocas começaram a dizer coisas referindo que ela frequentava estes lugares na tentativa de apanhar bebedeiras para se manifestar e acabou por se viciar. Mais tarde ainda, as outras más bocas revelaram que ela própria tinha aderido à bebida e ao fumo antes de se amantizar com Toni. As más bocas da última hora anunciavam: «Profe, alcoólica». Os amigos da noite acreditavam que aquela relação não era duradoira — Profe e Toni «Qualquer-Coisa» tinham acabado de se separar para seguirem outros caminhos —, mas isto era esperado. Profe acabou por sobreviver à desgraça, mas mudou radicalmente a sua vida.

Sunday, April 23, 2017

A história do Grupo dos Traidores começa em 1983 quando Fernando Abraão, hoteleiro, da cidade do Porto, deu este nome a um numeroso grupo de clientes que frequentavam o seu bar não muito longe da Rua de Antero de Quental, no Porto, para onde tinha decidido ir estabelecer-se depois de se tornar empresário em nome individual. Mas se por Traidores entendermos o negócio de meninas da rapidinha, é então discutível que a história dos Traidores — e da pinadela — três anos antes, no dia 3 Outubro de 1980, quando o padeiro Carlos engatou uma prostituta menor de um bairro. Na tarde daquele dia, Carlos estava a trabalhar na sua distribuição de pães, na baixa portuense, quando foi intercetado por um «mãos-leves» que desejava discutir a dívida de três contos que Carlos tinha para com uma prostituta chamada Malha Susana. Como forma de obrigar Carlos a pagar a dívida, o «mãos-leves» insinuou que a prostituta Suzana sabia da morada da padaria do Carlos e que o denunciaria à mulher, a menos que recebesse o seu dinheiro. Carlos apressou-se a ir falar com a prostituta Suzana. Tinha motivos para estar receoso, porque a sua mulher estava a quilómetros da vida boémia que levava. O que a prostituta Suzana lhe falou enfureceu-o. O tal «mãos-leves» tinha deixado a prostituta Suzana no quarto de uma pensão, para umas brincadeiras de sexo, (não podia ultrapassar os quinze minutos) e a partir da primeira cena de apalpões efetuosos entre ambos, podia deduzir-se que se retardaram até não poderem mais. O padeiro Carlos estava no Dallas, longe da padaria, mas o magricela e tísico «mãos-leves», um sacador de fraco estripe, não estava muito longe dali, estava na casa do esfola de 5 de Outubro. Carlos meteu-se na carrinha e foi até lá,


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                                                                            “Baixa a pila
                                                                            E baixa rente
                                                                       O que é preciso
                                                           É o povo estar contente”
                                                                                            Ratazana.


      FERNANDO ABRAÃO E RATAZANA
     _________________________________

O JORNAL DOS TRAIDORES

DIZ QUE AS PROSTITUTAS FAZEM UNS
«ARRANJINHOS POR FORA.»
__________________________________
Edição nº 1.144
Reportagem dos Maus-Olhados
____________ Sai à segunda-feira
Diretor
Ratazana


Este livro
contém
Histórias
soberbas


            ORIGINAL
            _________   
SEXO........ DINHEIRO......
ÁLCOOL...  VÍCIOS ..........

A História do
«Morto-Vivo»
Uma aventura torna-se num  
Pesadelo!!!
  
____________________________________________________

Friday, April 14, 2017





Abraão, conhecido contador de histórias e autor de música popular, vem desabafando com os seus amigos nas redes sociais, sobre os assuntos de política, sexo e futebol. Há dias, ele se saiu com uma sugestão tão estapáfúrdia que talvez possa até ir ao encontro. Ele comentou: "Acabo de ler na televisão notícias da bronca de Dijsselbloen, presidente do Eurogrupo que comentou que os países do Sul da Europa utilizavam dinheiro dos empréstimos à banca em vinho e mulheres. Talvez fosse melhor deixar o senhor Dijsselbloen provar um bom vintage que fale português enviar ao seu paladar insabido uma colheita especial daquele vinho Monte Velho determinando-lhe que o prove em casa... deixá-lo saborear essa casta única e se julga que as nossas mulheres não são das mais bonitas do Mundo é porque nunca esteve cá. Faça favor de corrigir a sua linguagem.»


Cliente para o Psiquiatra:
- Estou cá com um problema, senhor doutor. Casei-me à três meses, mas não estou satisfeito com a minha mulher.  Desconfio que ela é muito friorenta. À noite, agarro-me a ela, parece um pinheiro. Vou para a beijar e também não consigo beijá-la porque os seus lábios parecem gelo. E passo a noite nisto ... apalpo aqui, apalpo acolá.
- Deixe o caso comigo - aconselhou o psiquiatra. - Venha à consulta quatro vezes por semana, durante um ano. Vai ver que isso passa.
 - E quanto é cada consulta, senhor doutor?
- Não é muito... só duzentos euros.
- Tanto? Vou pensar...
Mas o cliente nunca mais apareceu no consultório. Três meses depois, o psiquiatra, por acaso, encontrou-o na rua.
- Então, nunca mais apareceu no consultório? - perguntou.
- No consultório? Desembolsar duzentos euros? A dona de uma casa de tia curou-me com uma saltada.
- Como? Explique-se?
- Aconselhou-me a arranjar uma amante.


                                                 FERNANDO ABRAÃO  "RATAZANA"


Faz hoje ao certo sessenta e nove anos que o autor deste livro acabou a sua terceira obra dedicada à piada e ao conto. Quase cinco décadas de sarrabiscos e mais de quarenta livros guardados ao fundo do quarto numa velha arca de esqecimentos. As suas obras, porém, não foram notadas pelas editoras, excepção feita aos seus amigos-personagens dos seus próprios contos e até agora há poucos meses apareceu um amigo-personagem para levar um fabuloso exemplar da sua obra-prima "Escritos Traidores". Reza ainda aqui o seu dito corrente, esse desconhecido autor que se emborcou de contos na sua casa em Arca d´Água, no Porto: «Os Desconhecidos não contam.»  


Sunday, March 26, 2017


                                                                      

                                                       A HISTÓRIA DO MORTO-VIVO
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O ACONTECIMENTO mais relevante do cabeçalho de O Jornal Dos Traidores do ano 83 foi o título que anunciava a morte de João Cesário, também conhecido pelo Galileu, e mais a sua acompanhante, em 7 de Junho de 1984.                                                                                                                    

Galileu, o professor biológico e a acompanhante empregada de um bingo da cidade de nome Elsa, divertiam-se num fim-de-semana, num apartamento em Mérida, em Espanha, quando o amante de Elsa com a sua cumplicidade, entrou de sorrateiro na sala, munido de uma lanterna e de uma faca. Cesário não deu por nada e foi roubado e depois deixado ao abandono — Galileu, que continuava a dormir, assim ficou. Abraão, dono de O Bar do Traidor, encontrava-se no café quando recebeu a triste notícia. Imediatamente a seguir vieram os boatos. Um mau-olhado de O Jornal Dos Traidores escreveu: «Durante meia semana os boateiros sobre a desgraça de O Mundo da Noite falavam de comprimidos, droga e exibicionismos sexuais. O primeiro boato referia-se que as mortes foram cometidas por excesso de velocidade e especulava-se que tinha havido falha mecânica. Falava-se também de comprimidos relaxantes e perversão sexual. Na noite seguinte às mortes de Galileu e Elsa, o próprio Abraão foi com uns amigos, ao restaurante onde o Galileu tinha jantado e conhecido a jovem Elsa — conquistada ao acaso —, onde combinaram seguir para o apartamento em Espanha, depois de tudo acertado entre ambos. Dois dias mais tarde, no bar, uma prostituta chamada Teresa, sentada à mesa de um grupo de clientes, admitiu perante uma companheira de mesa que estivera quase para se envolver nessa viagem e a companheira contou que também fora convidada. Desabafou. «Olhai, onde é que eu tinha ido parar? Debaixo dos torrões.» Depois de um dos casos mais chocantes e arrebatadoras das histórias dos bares do Porto, Abraão reuniu-se com os seus traidores (como chamava ao grupo), para receber nessa tarde, no bar, o famigerado morto-vivo. Tornou-se evidente, durante a receção ao Galileu, que a sua morte fora praticamente um lapso — o seu corpo tinha sido confundido, porque no seu carro e no seu lugar seguiam o amante e Elsa. O carro embateu contra um camião na autovia de Vigo, tendo-se incendiado de seguida, e os corpos ficaram carbonizados. Depois de Galileu ter sido recebido com estupefação por parte de toda a gente que enchia o bar, estes ofereceram-lhe de beber e deixaram-no contar a sua façanha. Após ter narrado a sua história, o Galileu retirou-se e juntou-se às raparigas da rapidinha.

Depois embrulhou-se e, após alguns mimos, mandou vir umas bebidas para elas, para o sofá. «Não restam dúvidas sobre como escapei», diz o Galileu no seu comentário final. «Abri o coração à aventura e quase me ia lixando com ela. Não estava para morrer. Quando regressei a casa e perguntei à minha patroa se ainda gostava de mim, recorreu à sua expressão atual. «Sim, morto-vivo». Cinco anos depois, a história do morto-vivo tinha fascinado todo o cliente do bar. Em 1990, é recebido com saudade — um gesto, sem dúvida, mais salutar. Um ano depois, o Galileu veria publicada a sua história no livro de Ratazana ´Escritos Traidores`, com uma narrativa fabulosa, falando com alguma verdade das diversas mulheres que foram com ele para a cama e contando toda a história que o obrigou a afastar-se dos bares e da «nait» (noite). O livro conta tudo. (Não só dele como dos outros clientes-traidores) Descreve, por exemplo, a tuléria da sua tentativa de bater o recorde dos traidores ao levar cinco mulheres para a cama e fazer amor com todas elas, e o que aconteceu depois da sua vinda de Espanha. Uma artista de sexo feminino, levou-o para um cubículo, onde dois sofás ao comprido estavam transformados numa casa improvisada.



                                                                                      Extraído do livro: O Mundo da Noite, Porto.



MINHA família e eu gostávamos de ficar ouvindo fado até alta madrugada, mas uma ocasião, encontrámos este bilhete na soleira da porta:

Queridos amantes de fado,
Vocês nem podem imaginar a minha alegria e surpresa ao chegar a casa de noite e ouvir um dos meus fados tocado por uma orquestra sinfónica. Após tantos anos de criatividade, finalmente consigo ouvir o meu fado orquestrado. Eu sabia que a minha veia não era treta. Só um pequeno senão: acho que o meu fado está sendo tocado um tanto instrumental!
Talvez na próxima emissão incluam o meu Noturno. Aí, eu acho melhor convidar o coro dos
 sem-abrigos para o acompanhamento.
Atentamente,
                                                                         Tony Guimarães.
                                                                                                                                           F/A.


                                               AVITAMINA
                                                     ~~
DURANTE meio século eu vivi da restauração, no centro da cidade do Porto. Eu próprio era um excelente empregado de mesa, subi vários degraus no ofício, e tive três estabelecimentos hoteleiros. Do meu ponto de vista, havia duas coisas certas em mim: possuía bons conhecimentos e levava a responsabilidade a sério. Tinha até em casa uma galeria de recordações. Então comecemos do princípio. Nos meus tempos de menino e moço, decorria o ano 70, quando ingressei no ramo hoteleiro. Tanto eu como os meus colegas naquela altura nem sonhávamos em caçar tantas vitaminas, como graciosamente chamava às gorjetas. Constava-se até que havia barmans de hotel que filavam-se à gorjeta para orientarem uma companhia feminina! Quando eu era rececionista de uma pensão de 3 estrelas, no Porto, ganhava 3 contos por mês, e em gorjetas chegava a fazer em média 500 paus por semana, mais do que muito empregado bancário competente ganhava. Foi então que resolvi aceitar uma proposta para integrar a equipa de uma boite-club, onde ganhava mais gorjetas, embora mais responsabilidade. Uma noite, quando ia atender uma mesa, um empresário que estava a ser servido, perguntou-me:
- Vou abrir um restaurante na Trofa. Dou-te 6 contos por mês. E tu vais dirigir a sala, rapaz.
- Obrigado, mas não aceito, senhor.
O empresário olhou para mim, um tanto admirado.
- Por que o fazes?
- Uma questão pessoal.
Eu tomei a decisão de não lhe confessar que só de gorjetas eu recebia o dobro disso. Toda a gente que recebe gorjetas hoje em dia acredita firmemente que elas fazem normalmente parte do seu salário extra. As gorjetas são necessárias para o complemento do ordenado. São poucos os que se acanham receber gorjetas. Dizem que o problema para eles não está em ser acanhado, mas, sim, na forma de quem a dá.
- Quando se depende de gorjetas - dizia um garçom - só se pode ter a certeza quando ela pinga no bolso. Com isso, fica-se mais descontraído e pode-se até dizer que o dia está ganho.
Eu fui um empresário que há algum tempo dirigi dezenas de empregados, e afirmo que eles têm alma de jogador e não poderiam trabalhar de outra forma. Como consta, há a história da balconista que procurou explicar a um cliente como beber menos. O cliente disse-lhe para calar a boca. A balconista tomou a decisão de não dar fala àquele estúpido. Mas no decorrer do tempo em que ele lá esteve, achou melhor em lhe dar conversa para caçar a gorjeta.
Prestigiosos empresários ainda vivem em grande parte de uma tabela de preços feita por eles a deixar trocos para o pessoal e dizem em particular que preferem a salários altos. E um importante empresário de hotelaria é de opinião que muitos dos seus colegas se sentiriam mais infelizes se as gorjetas desaparecessem.

                                                                                            Abraão, Porto.