O CONVITE
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O convite tocou-me numa calma manhã de domingo. Era um amigo a
convidar-me para uma festa na aldeia, e recusei a princípio, mas depois ele
recorreu a uma dica: «Há matança de porco.» Dei-lhe vinte minutos para me
aprontar.
Estava uma brisa suave na quinta, desses que levantam os cabelos e
atraem as formigas, e eu ia vestido com traje sport. Levantei a capota do meu
carro desportivo preto, e disse ao meu amigo: «Ficas a dever-me uma.» Ele
sorriu.
Chegámos a uma quinta aglomerada de gente ao mesmo tempo que uma
desconhecida que tirava os óculos de sol e os metia na sua maleta ao ombro. Lá
dentro, enquanto o meu amigo foi captado por amigalhaços seus da aldeia, eu
vagueei pelas mesas dos petiscos, sentindo-me comilão. Talvez reparando nisso,
a desconhecida aproximou-se a mim, de sumo na mão, e metemos conversa. Falámos
de passeios e festas; depois aventuramo-nos nas carreiras. Ela disse-me que
desde pequena trabalhava na vida doméstica. As palavras me deixaram pensativo:
«Quem estaria disposta a trabalhar nisso durante tantos anos? Passámos aos
filhos. Ela tinha um. Quando eu disse dois, de duas mulheres, ela não tremeu.
Por altura dos rojões à moda da cozinheira, a desconhecida já tinha
nome, era Maria. Depois do café, sentámo-nos sozinhos, a um canto. Pedi-lhe o
contato telefónico. Ela deu-mo com algumas restrições: não telefonar antes das
8 horas da tarde, quando chegava a casa do trabalho. Não podia demorar mais de
1 hora, porque se tinha que se deitar. E[F1] não saía aos dias de semana. Eu
convidei-a para sair na próxima sexta-feira. Deu-me tampa. Perguntei se podia
telefonar no sábado. Ela não disse sim nem não, mas deixou um promissor,
talvez.
Telefonei-lhe mesmo no sábado. Durante quase um mês, encontramo-nos
diversas vezes por semana para jantar e ir ao cinema. No domingo, ela ia com o
filho até à aldeia. Eu fui dar um passeio de carro pela praia-mar do Porto a
Aveiro. Separados por umas centenas de quilómetros, não deixamos de pensar um
no outro.
Os familiares e amigos estavam pasmados com o nosso idílio. Determinado
eu, cautelosa ela, tínhamos sido considerados o par com menos chances de curtir uma história
apaixonada, mas os preconceitos não valem de grande coisa contra o amor. Ela e
eu conhecemo-nos há dois meses. O amor foi repentino, pois ambos necessitávamos
amar e sermos amados. E assim quando a amor chega não há barreiras. Tem uma
forma enternecedora de nos tocar nos ombros, erguer o queixo, e beijar-nos em
cheio na boca. Quando isso acontece, solta-se um Uau. Aos 23, atirei-me de olhos fechados e coração aberto. Aos 41,
cavei com olhos abertos e coração marcado.
Eu jurara a mim mesmo que um terceiro relacionamento estava a lestes do
meu planeamento. Ainda dorido pelos meus desaires sofridos, queria dedicar-me à
missão que me tinha proposto: cuidar dos filhos sozinho. Sempre que havia uma
relação à vista, sabotava-a. Usava os filhos ou as responsabilidades do
trabalho como pretexto. Recusava-me a arriscar. Mas a sorte tem vida cómica.
Deixou-me estabelecer regras de todo o estilo para defender o meu papel de pai
só e depois enviou-me a Maria para mudar o embaraço.
A primeira vez que pedi a Maria para iniciarmos uma relação, quase três
meses depois de nos termos conhecido, ficou indecisa. Fiz a pergunta de uma
forma fortuita, mais como constatação que como pergunta. Ela respondeu-me com o
que penso ser uma franqueza caraterística: «Tira daí a ideia!», ou outra coisa
parecida.
Quando lhe pedi a segunda vez, ela estava preparada. Estávamos na sala
do meu apartamento, quando lhe coloquei um anel de compromisso no dedo e ela
soltou uma pequena exclamação de alegria que me fez sentir mais alegre. «Aceito!
Aceito!». Agora, não há uma noite em que não agradeça à sorte a boa hora do
nosso encontro.
Os amigos nem queriam acreditar. Uma terceira relação, informaram eles,
não traz nenhuma da novidade da primeira e tem obstáculos a menos. Não há
penhoras, filhos crescidos, os ex-parceiros – esquecidos ou desaparecidos – e
as cicatrizes são somenos. As nossas histórias são similares. Mudamos do
subúrbio de Leça para um andar de 150 metros quadrados, no Porto. Não
precisamos de vender nada e passamos a viver a meio-tempo nas nossas próprias
casas, e a pagarmos as despesas a meias. A família ficou unida.
No fim de tudo, pesado na balança, não conseguimos imaginar-nos viver um
sem o outro. O que não quer dizer que tenha sido fácil. Demos por esquinas e
travessas, por mais curvas e lombas que retas.
Às vezes eu acordo de matina e fico a olhar para aquela mulher, este
milagre aqui ao meu lado, dormindo serenamente, e deixa-me atraído como nunca.
É como se ela e eu fôssemos um só. Ambos queremos ser amados, e guardamos uma
certa reserva da mente e do coração.
Às vezes via-a sentada numa cadeira ao telefone ou a passar a ferro.
«Preciso de um lugarzinho», argumentava ela, pela primeira vez. Quanto mais o fazia,
mais eu reparava no aumento do serviço que ia pela casa. Que contraste com
aquilo a que ela estava habituada. Essa constatação fez-me gostar mais dela.
Acerca da terceira vez: a Maria e eu esperamos do relacionamento, que
seja mais sortalhão e menos azarento. Escolhemos de livre vontade, o que
achamos de bom para os dois e o que preferimos fazer a sós, sem sentimentos de
culpa.
A questão, meus amigos, é fundamentalmente a
esperança. Agarrar-se ao amor já com três «falhanços», e um castigo de um
rompimento anterior; e acreditar, contra tudo e contra todos, que se vai ter
êxito para a vida toda.