Saturday, March 30, 2019




    
                                        

                                 UMA NOITE DE COPOS
                                                ______

   E numa noite fria de Fevereiro, Nicha disse:
   «Vou ter de voltar a trabalhar.» -
   Foi uma surpresa para mim. Num dos períodos controversos da sua vida, sentiu-se um pouco só e voltou aos palcos que tão bem conhecia noutros tempos. Neste caso, Nicha com a sua idade e o seu servilismo, era apenas uma mais valia à espera da hora, em lento tiquetaque.
   Nicha esperara pelo momento para contar a sua narrativa de entretenimento. Algo nervosa, levantou-se da cadeira, começando a contar a sua desgraça num desespero total. Aquela desventura com o colega de trabalho que conhecera no bar, apareceu a nu e deixou-a de rastos, conforme salientou através das suas palavras:
   ─ Acabei a minha ligação com esse homem. ─
   A cozinheira tentou confortá-la.
   ─ Ó mulher, ainda há dias estavas tão feliz com ele? ─
   Ela não esteve pelos ajustes. Cheia de fúria, atirou com a tigela da sopa para o chão.
   ─ Se sois minhas amigas, não me faleis mais desse cavalo. ─
   O silêncio tornou-se irrespirável. Menino Quim, o porteiro, tirou os óculos da cara, pondo-se a limpar calmamente as lentes, com o guardanapo de papel. Bilontra, a colega, tentou pôr água na fervura.
   ─ Tem paciência, sei muito bem o que é gostar desses bardamerdas que não nos merecem sequer uma unha do nosso pé. ─
   A cozinheira voltou a interferir.
   ─ Ontem, ri-me tanto, quando contaste que foste com ele beber um copo à discoteca, depois levou-te a casa, querias que ele subisse ao quarto mas ele não quis; às tantas, tiraste-lhe os sapatos e obrigaste-o a ir descalço para casa. ─
   Ouviram-se risadas.
   Repentinamente, Nicha bateu fortemente com a colher na mesa. Voltaram-se todos.
   ─ O cavalo não quis subir mas fiz com que fosse para casa sem sapatos, só para a mulher o ver descalço. ─
   Soltou uma valente gargalhada. O jantar havia terminado, olhei de esguelha para as garrafas de vinho sobre a mesa, estavam completamente vazias. Fez-me lembrar certo provérbio:
   «O homem bebe para embebedar-se ─ mas a mulher bebe para alegrar-se.» Cada um de nós voltou para a sala.
   Lá dentro, outra festa ia começar.

Saturday, February 23, 2019





Seus inesquecíveis bares de Club Stop a Club Lord, valeram-lhe rasgados elogios e simpatizantes.

FERNANDO
ABRAÃO
"RATAZANA"                                O "MESTRE" DA RATICE
                                                               O JORNAL DOS TRAIDORES

   No ultimo ano da sua atividade, Fernando Abraão estava se parecendo mais com a personagem de Rambo, quando imitou o seu isolamento, do que com ele próprio. Tinha o cabelo esbranquiçado. Umas rugas pouco salientes, faziam realçar seus olhos marotos mas vivos, que pareciam observar tudo aquilo que o rodeava.
Esses olhos seguiram atentamente dezenas dos melhores empregados hoteleiros, enquanto Abraão os teve como dirigentes em muitos dos seus melhores anos. Em 1970, ele foi dirigido pelo boss J. Loureiro: ambos protagonizaram momentos fantásticos na Boite Marta. Em 1972 chefiou a Boite Electra Club - 4 anos depois - chefiou a Boite O Inferninho; essa passagem valeu-lhe a experiência de tomar conta em horário diurno do café Cubango em sociedade com um colega de trabalho.
Em Julho passado, aos 62 anos, Abraão aposentou-se, esgotado de uma azáfama total, onze mese antes de ter estreado no ecrã do bar 28 Anos  a sua 4ª curta-metragem. Baseado  num guião seu, e sob a realizaão do filho Daniel Abraão. Era mais um hobbie dos muitos que foi acumulando à sua função de barman, que o tornavam um homem de sete instrumentos. 
Qual era a virtude de Abraão? «Persistência», diz o empregado de mesa Belinha. «Nada o fazia retorcer uma ideia bem planeada. Ele simplesmente não permitia que nós fôssemos maus profissionais.»    
 José Fernando de Almeida Abraão ou Ratazana para outros, nasceu a 6 de Abril de 1948, num lugar chamado Devesas, Vila Nova de Gaia, em Portugal. Filho de um salsicheiro e de uma cozinheira de Miragaia, que exploravam uma casa de pasto perto da estação ferroviária. Abraão era o quarto membro da família. e quando saíu da escola aos 11 anos, passou a trabalhar num escritório de um despachante alfandegário como paquete, era muitas vezes imcumbido de levar encomendas e amostras aos armazéns de Vinho do Porto, pela Calçada das Freiras. Durante esse período de vida, tornou-se um rebelde sonhador.
Em jovem praticou viola e canto na casa de pasto, e agrupou vários conjuntos musicais e teve mais de sete ofícios variados. Durante a guerra colonial, Abraão ofereceu-se como voluntário para prestar serviço militar no Centro de Comandos e Serviços, no Cazenga, Angola. Foi artista de cabarés na cidade Invicta, diretor do semanário O Jornal Dos Traidores, um popular pasquim do Club Lord, autor e contista. Em 1987, casou-se com Maria Manuela.
Nessa época dedicou-se a escrever às escondidas as confidências que os clientes lhe contavam ao balcão nas suas aventuras amorosas com as garotas, confidências essas, que mais viriam a chamar-se Contos Traidores, cuja apresentação foi bastante discutida por ser uma obra´fofoqueira´. «Foi aí talvez a mais importante experiência que um livro me deu. Abriram-se os horizontes», recorda. 
Desde criança, Abraão foi sempre um apaixonado pelas lvros, cinema e música. Então acrescentou à sua carreira: a de guionista. Foi guionista das suas curtas-metragens Isto Vai de Mal a Pior e Os 4 Quatro Vícios da Noite. Baseado nos seus contos, essas curtas é outro empreendimento caseiro: Martinik, de 72 anos, é o cliente-realizador.  O guião de Um Gosto a Cheirar a Torrado (O Ébrio), valeu-lhe mais de um milhar de visiulizações nas redes sociais. O prazer de Abraão pelo cinema levou-o a fazer mais guiões. Selecionou A Nota de 10 Euros, baseado num conto seu e dirigido pelo seu filho Daniel Abraão.
O Lançamento do Club Lord foi o coroar de uma carreira ímpar e trabalhosa que Abraão teve de percorrer para chegar ao cume do estrelato. Satisfeito com o seu trabalho, Abraão agradeceu a ajuda monetária a José Oliveira , o empresário que ele sempre considerava como um verdadeiro amigo acima de tudo. Com o Lord nasceu uma grande amizade entre Abraão e José Oliveira, que iria durar toda a vida.
Abraão foi o primeiro dono da noite portuense a criar o sistema do amor-instantâneo fora do local do trabalho. A sua técnica adiquirida ao longo de mais de 30 anos, levou-o ao contato com filiais da rapidinha do Norte a Sul.
Quando em 1983, fundou o semanário O Jornal Dos Traidores com mais de 1000 membros com apelidos para não passar para o exterior, foi o elo de ligação entre uma comunidade a favor do sexo-livre.
Quando em 2007, adoeceu que o levou para a  cama do hospital, teve de fechar o bar durante uma semana. Abraão, que acabou por recuperar bem, chegou a dizer, que teve até medo de não sair vivo de lá. No fim desse pesadelo, chegou uma proposta ao local do bar, para o trespasse, e Abraão, achou que era a hora certa de findar um ciclo.
No Verão de 2011, quando Abraão estava compondo umas músicas para editar um cd, num estúdio no Alto da Maia, soube que José Oliveira adoecera. Passou a visitar o amigo todos as semanas, e divertia-o contando-lhe as ratices com os seus clientes-traidores. Quando José Oliveira morreu, a ___ de _____ de ___20?? foi à supultura e pronunciou em voz baixa: «Adeus amigo. A sua vida foi longa, foi rica e plena. Descance em paz.»
Entre o fim do ano 2009 e o princípio do ano 2010, Abraão aceitou um partime para cobrador de uma agência morturária. Quando o contrato acabou, Abraão a pedido dum empresário de carros de aluguer habilitou-se a tirar um cap e foi para motorista de táxi. Pegou num Mercedes e fixou-se na praça de táxis em Cete, junto à estação ferroviária. Ali criou amizades e fez amigos. Saia de casa às 06 da manhã e regressava às 08 da noite. «Esse meu novo ofício é óptimo», confessou-me Abraão. «Mas não me parece que fique por aqui muito tempo.» E assim foi.
Abraão, passou a administrador de condomínios onde reside, voltou aos fados pelas adegas e restaurantes, e reentregou o duo Os 2 do Norte, e ainda, passou a ser motorista-mordono do avô do seu filho Diogo.
Durante muitos anos, Abraão faz vários ganchos para levar uma vida confortável, porque estar parado, não é com ele. «Estes trabalhos fazem-me recordar quando era jovem: estava sempre em movimento e esse movimento é que me faz sentir bem comigo próprio», recordou Abraão um dia destes. E sorri feliz.
Abraão, continua a vida em pessoa. Lembra uma certa frase que o seu amigo José Oliveira dissera 15 anos antes: «Fernando é uma das boas almas que existem neste bar.»

Monday, November 12, 2018

 
                                                         O CONVITE
                                                               ~~~~


   O convite tocou-me numa calma manhã de domingo. Era um amigo a convidar-me para uma festa na aldeia, e recusei a princípio, mas depois ele recorreu a uma dica: «Há matança de porco.» Dei-lhe vinte minutos para me aprontar.
   Estava uma brisa suave na quinta, desses que levantam os cabelos e atraem as formigas, e eu ia vestido com traje sport. Levantei a capota do meu carro desportivo preto, e disse ao meu amigo: «Ficas a dever-me uma.» Ele sorriu.
   Chegámos a uma quinta aglomerada de gente ao mesmo tempo que uma desconhecida que tirava os óculos de sol e os metia na sua maleta ao ombro. Lá dentro, enquanto o meu amigo foi captado por amigalhaços seus da aldeia, eu vagueei pelas mesas dos petiscos, sentindo-me comilão. Talvez reparando nisso, a desconhecida aproximou-se a mim, de sumo na mão, e metemos conversa. Falámos de passeios e festas; depois aventuramo-nos nas carreiras. Ela disse-me que desde pequena trabalhava na vida doméstica. As palavras me deixaram pensativo: «Quem estaria disposta a trabalhar nisso durante tantos anos? Passámos aos filhos. Ela tinha um. Quando eu disse dois, de duas mulheres, ela não tremeu.
   Por altura dos rojões à moda da cozinheira, a desconhecida já tinha nome, era Maria. Depois do café, sentámo-nos sozinhos, a um canto. Pedi-lhe o contato telefónico. Ela deu-mo com algumas restrições: não telefonar antes das 8 horas da tarde, quando chegava a casa do trabalho. Não podia demorar mais de 1 hora, porque se tinha que se deitar. E[F1]  não saía aos dias de semana. Eu convidei-a para sair na próxima sexta-feira. Deu-me tampa. Perguntei se podia telefonar no sábado. Ela não disse sim nem não, mas deixou um promissor, talvez.
   Telefonei-lhe mesmo no sábado. Durante quase um mês, encontramo-nos diversas vezes por semana para jantar e ir ao cinema. No domingo, ela ia com o filho até à aldeia. Eu fui dar um passeio de carro pela praia-mar do Porto a Aveiro. Separados por umas centenas de quilómetros, não deixamos de pensar um no outro.
   Os familiares e amigos estavam pasmados com o nosso idílio. Determinado eu, cautelosa ela, tínhamos sido considerados o par com menos chances de curtir uma história apaixonada, mas os preconceitos não valem de grande coisa contra o amor. Ela e eu conhecemo-nos há dois meses. O amor foi repentino, pois ambos necessitávamos amar e sermos amados. E assim quando a amor chega não há barreiras. Tem uma forma enternecedora de nos tocar nos ombros, erguer o queixo, e beijar-nos em cheio na boca. Quando isso acontece, solta-se um Uau. Aos 23, atirei-me de olhos fechados e coração aberto. Aos 41, cavei com olhos abertos e coração marcado.
   Eu jurara a mim mesmo que um terceiro relacionamento estava a lestes do meu planeamento. Ainda dorido pelos meus desaires sofridos, queria dedicar-me à missão que me tinha proposto: cuidar dos filhos sozinho. Sempre que havia uma relação à vista, sabotava-a. Usava os filhos ou as responsabilidades do trabalho como pretexto. Recusava-me a arriscar. Mas a sorte tem vida cómica. Deixou-me estabelecer regras de todo o estilo para defender o meu papel de pai só e depois enviou-me a Maria para mudar o embaraço.
   A primeira vez que pedi a Maria para iniciarmos uma relação, quase três meses depois de nos termos conhecido, ficou indecisa. Fiz a pergunta de uma forma fortuita, mais como constatação que como pergunta. Ela respondeu-me com o que penso ser uma franqueza caraterística: «Tira daí a ideia!», ou outra coisa parecida.
   Quando lhe pedi a segunda vez, ela estava preparada. Estávamos na sala do meu apartamento, quando lhe coloquei um anel de compromisso no dedo e ela soltou uma pequena exclamação de alegria que me fez sentir mais alegre. «Aceito! Aceito!». Agora, não há uma noite em que não agradeça à sorte a boa hora do nosso encontro.

   Os amigos nem queriam acreditar. Uma terceira relação, informaram eles, não traz nenhuma da novidade da primeira e tem obstáculos a menos. Não há penhoras, filhos crescidos, os ex-parceiros – esquecidos ou desaparecidos – e as cicatrizes são somenos. As nossas histórias são similares. Mudamos do subúrbio de Leça para um andar de 150 metros quadrados, no Porto. Não precisamos de vender nada e passamos a viver a meio-tempo nas nossas próprias casas, e a pagarmos as despesas a meias. A família ficou unida.   
   No fim de tudo, pesado na balança, não conseguimos imaginar-nos viver um sem o outro. O que não quer dizer que tenha sido fácil. Demos por esquinas e travessas, por mais curvas e lombas que retas.
   Às vezes eu acordo de matina e fico a olhar para aquela mulher, este milagre aqui ao meu lado, dormindo serenamente, e deixa-me atraído como nunca. É como se ela e eu fôssemos um só. Ambos queremos ser amados, e guardamos uma certa reserva da mente e do coração.   
   Às vezes via-a sentada numa cadeira ao telefone ou a passar a ferro. «Preciso de um lugarzinho», argumentava ela, pela primeira vez. Quanto mais o fazia, mais eu reparava no aumento do serviço que ia pela casa. Que contraste com aquilo a que ela estava habituada. Essa constatação fez-me gostar mais dela.
   Acerca da terceira vez: a Maria e eu esperamos do relacionamento, que seja mais sortalhão e menos azarento. Escolhemos de livre vontade, o que achamos de bom para os dois e o que preferimos fazer a sós, sem sentimentos de culpa. 
   A questão, meus amigos, é fundamentalmente a esperança. Agarrar-se ao amor já com três «falhanços», e um castigo de um rompimento anterior; e acreditar, contra tudo e contra todos, que se vai ter êxito para a vida toda.

 [F1]

Thursday, November 8, 2018


                       
                                                          O meu “Bolinhas”
                                                                   ~~~

Já lá vai um bom par de anos, numa segunda-feira, quando comprei o meu primeiro carro. Ainda recordo da sua matrícula; BF-19-03 – Morris Minor de 1953, cor vermelha e riscas lilás. Era propriedade de um colega meu do conjunto onde eu tocava viola que, o tinha lá encostado na sua velha garagem. E eu gostei daquele automóvel. Comprei-o a prestações e custou-me quatro contos e quinhentos escudos. Era um carro à inglesa; tinha o banco de trás comprido e forrado a pele e dava a impressão de uma sala de visitas. Tinha um espaço quanto baste para duas pessoas pôr as pernas à vontade. E às vezes servia como beliche; tinha as cadeiras da frente que, quando rebaixavam, o tornavam íntimo e prestável. Conduzi por um cemitério local a cem metros de distância. Não havia lá nada que me estorvasse, mas ao curvar o muro, calculei mal a curva, e lá deixei a minha marca. Levei algum tempo a limpá-lo e a pô-lo bonito, puxando o lustro aos cromos com graxa dos sapatos, e pintando os pneus a branco estilo barão. Não me lembro de me haver sentido mais entusiasmado e com enorme alegria. Demorou poucas horas para que o meu “Bolinhas”, como o batizara, se transformasse no meu objeto de eleição. Andava comigo para todo o lado. 
Naquela época eu trabalhava em night-clubs, como violista de um duo. Lembro-me do frio que ele fazia no Inverno quando eu levava as catraias a casa pela madrugada e como estas desatinavam aos gemidos. Era um carro de muitos buracos. Não aquecia ninguém. E às vezes eu abria os vidros para elas respirarem para dentro, e só depois os fechava, para sentir mais calor. Quando a noite estava mais fria, o remédio era uns bocados de cartão e pano grosso que, assim, tapavam os furos. Por essa altura mantive namoro com uma camareira, que me pediu para levá-la à sua terra, perto de Chaves. Antes de ir levá-la, fui lavar o carro e perfumei-o todo por dentro. A viagem até à sua terra correu de feição, o pior foi o regresso. Atravessámos as terras de Chaves no meio de uma tempestade de neve a cerca de 50 metros da estação ferroviária. A minha companheira deitou-se ao comprido no banco traseiro, e cobriu-se com uma manta. De repente, um camião em sentido contrário, saiu fora de mão e barrou-nos a passagem. Saí do carro e fiz então parte da equipa de automobilistas que tentaram retirar a neve dos trilhos. Passado algum tempo, o limpa vidros bloqueou e tive que o substituir; pondo a mão de fora para tirar a neve e desembaciar o vidro. Chegamos ao Porto praticamente gelados, porque o sistema de aquecimento deixou de funcionar e o carro converteu-se num frigorífico… e era isso mesmo. Levei cinco a horas a chegar ao destino. A catraia parecia ter saído de um caixão. Ela nunca havia confiado muito no Bolinhas; aquela viagem não concorreu para melhorar a sua opinião.   
Com a falta de trabalho que se gerava, não sobrava muito dinheiro para a gasolina e um fadista meu amigo, quando precisava que o levasse para um espetáculo, chegava-se a mim e dizia: “Mete dois litros…” e, lá íamos numa calma. E depois de alguns minutos, propagou-se no interior um cheiro a borracha queimada. O meu amigo fadista e os seus acompanhantes, saltaram do Bolinhas, gritando: “Pára! O carro vai incendiar-se!” Parei o carro e eles saíram para fora. A princípio, não sabia donde vinha aquele cheiro. Talvez um curto-circuito; talvez um fio a bater na chapa. Mas aos poucos fui desvendando o mistério. Eu já tinha adquirido um certo instinto para estes serviços. O problema era passar a luz de mínimos para médios; a fase entrava em choque. Assim, a viagem foi feita em mínimos.    
Lembro-me da crise económica dos 70 e as complicações que eram na bicha nos postos de gasolina. Não havia muita paciência para muito e num domingo à tarde, fiz uma viagem com o Bolinhas pela terra de meu pai, com uns amigos. De vez em quando alguns carros passavam por nós, apitando; seus motoristas e seus passageiros gostavam de pegar com quem conduzia antigos carros. Mas naquele tempo, ou a gente era descontraído com o próprio carro, ou não ia a lado algum. Após dois quilómetros de viagem, consegui ultrapassar o carro que me tinha ultrapassado antes, creio que era um Peugeot cabriolet, de matrícula francesa. Ele deixou-se enganar na estrada pela bicha à gasolina, e eu passei por ele com uma vaia em voz alta e áspera: “Comi-te, franciú!” Depois, escondi o Bolinhas no primeiro cruzamento, e uns minutos depois, lá apareceu o Peugeot a todo o gás. E nós adorámos aquele momento.       
Durante a minha louca juventude fazia um rode de coisas que naquele tempo pareciam banais, mas que hoje seriam consideradas completamente loucas. Um amigo meu, por sinal, era meu companheiro do duo, convenceu-se que um dia havia de me comprar o Bolinhas. O carro, porém, não estava mecanicamente em condições. Disse-lhe que não se aventurasse a isso; não queria vê-lo no hospital. Andei meio quarteirão antes que um ruído suspeito aumentasse na parte de frente do carro e a mangadeixa se desintegrasse com um estrondo semelhante à pancada duma marreta. Logo a parte da frente afunilou. Não sei qual foi a minha ideia, mas o que fiz foi concreto: vendi o Bolinhas conforme estava ao sucateiro por 5oo paus.

                                                                                                                                                                       Abraão, Porto.

Sunday, October 28, 2018



            O SONHO ACABADO
                                                               VIII


Padrinho teve uma noite de visões.
O lençol branco escureceu-se de negro sob o manto fantasioso. Montes de processos e caixotes antigos cheios de avisos de contrafés apodreciam debaixo das escrivaninhas dos tribunais. A chefe das funcionárias viu, ao abrir as portas do gabinete, os primeiros sintomas do caos burocrático que se instalara ali; os funcionários que fodiam os fora de lei e exigiam: ó Abreu passa para o meu, deixando correr o marfim; os escrivães sentados nas velhas cadeiras pregadas ao solo e que faziam contas de tabuada escavando até ao último tostão à procura do milhão; os juízes empobrecidos pela puta da idade avançada e obrigados a servir a Lei como rege o Código Penal, abrindo uma retrete atrás da sala do tribunal, reservatório para as pingas do mijo que às vezes caiam ao chão. Vidas de uma vida tributável. Um homem em cima de uma bicicleta com uma trouxa na mão dirigindo-se para um campo a fim de semear agriões e feijão; um homem condenado a esfregar as mãos calejadas dia após dia na terra, no arado, na colheita, no pedaço de terra poeirenta e suja.
«Será que estas vidas têm realmente o mesmo valor e o mesmo sentido que as nossas?», -perguntava a si próprio Padrinho. - Ou seja, o mesmo que a minha?
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«Que a de São Nicolau? Eles sabem tão pouca coisa, têm tão pouco com que alimentar o espírito.» - Um homem com uma capa preta por cima dos ombros e um martelo na mão estava sentado numa poltrona ao centro de uma sala recheada de quadros nas paredes. Ao lado, um escrivão empoleirado num banco comprido com um dos pés debaixo da outra perna, uma das mãos em cima do teclado de uma máquina de escrever, a fumar uma cigarrilha preta. Quando Padrinho passou por ele, o homem engasgou-se caindo abaixo do banco e fazendo um alarido tremendo.
O processo progredia devagar, três horas de investigação durante a parte da manhã passadas ao calor da conversa, outras três horas da parte de tarde ao calor do ar condicionado, sempre ao ritmo do caracol mais lento e com infinitas demoras de processos e mais processos.

Vinte e dois meses depois da sua primeira fuga para o estrangeiro, mais propriamente para Espanha, São Nicolau tornou a meter-se num comboio quando soube da notícia de que o seu grande amigo Padrinho se encontrava na fase terminal de uma inflamação da vesícula, um diagnóstico reservado que era «cem por cento fatal», como o médico do hospital lhe confidenciou, sem sombra de sentimentalismo, quando ele lhe pedira esclarecimentos. Não houvera mais nenhum contacto desde que São Nicolau se tinha ausentado e, entretanto, passara uma eternidade. São Nicolau enviara um breve bilhete a comunicar que tinha fugido ao Juiz da capa preta, indo para parte incerta do país. Quando o bilhete chegou às mãos de Padrinho, - não trazia remetente, e o tom era bastante simpático: AMIGO, NESTA HORA DO INFORTÚNIO - ESCAPA-TE COMO PUDERES. -   São Nicolau descobriu que, no fim de uma vida inteira de aventuras atribuladas e fugas desnorteadas, se sentia outra vez capaz de fazer uma mudança de noventa graus à sua vida. A ideia de chegar ao Porto o mais urgente possível, antes que Padrinho partisse para sempre, apresentava -se-lhe como uma prioridade acima de todas as coisas.
Passou boa parte do dia a tratar de pôr a sua vida em ordem e ir ao banco e depois tentar convencer o funcionário para lhe cambiar pesetas

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por escudos, mas o funcionário estava cansado de lhe dizer que tinha que apresentar argumentos. Nervosamente, disse que tinha o amigo a morrer e responderam-lhe: "Está a ver? Qualquer pessoa pode dizer que tem o pai a morrer, não é? Para levar as pesetas para o mercado negro." São Nicolau tentou acalmar a cólera e acabou por dizer. «Acha-me com cara de traficante ou quê?» - O funcionário encolheu os ombros. «Eu digo-lhe quem sou», -   vociferou São Nicolau, a quem o encolher de ombros do outro o enervara ainda mais, - «eu sou aquele que se perdeu no desmantelamento das carruagens do combóio que saiu dos carris e não estou para ser insultado por um galego como você.» - O seu pedido de cambio acabou-por ser-lhe satisfeito e, no fim, pegou num grande maço de notas que meteu numa bolsa de cabedal. Correu em direcção à estação e foi tirar bilhete. O primeiro comboio partia às sete e trinta e demorava cerca de duas horas e trinta minutos de viagem: um Expresso do Norte de nome Entrecerras. São Nicolau desceu por um dos corredores que liga à gare e ouviu o seu nome ser pronunciado nos alto­ falantes e sorriu com satisfação. Depois entrou na carruagem e ouviu a empregada do bar de mini saia dar-lhe as boas vindas com um sotaque puramente minhoto e sentou-se no seu reservado, virado de costas para o lado sul. Enquanto o comboio ali esteve parado, de frente para as escadas da gare 2, entravam passageiros nas carruagens e ele, de olhos sonolentos, apercebia-se que devia querer descansar. Os passageiros começaram a amontoar-se para embarcar. «Isto nunca mais anda, deu ele por si a pensar, o melhor é eu ir de bicicleta que ainda chego lá mais depressa. Mas o comboio começou finalmente a rolar sobre os carris.

«A deusa número um da vida é indiscutivelmente a riqueza», assegurou São Nicolau para si mesmo, de whisky na mão, quando o comboio começou a circular. Cumprira o prometido, atirando os braços para o ar enquanto o comboio se lançava a todo o vapor e, a seguir, encostara-se no assento, sorrindo modestamente. «Dá sempre certo.» - Viajavam "os dois" no compartimento 13, reservada aos não-fumadores da primeira classe, e a bagagem de São Nicolau ocupara o lugar vazio ao lado dele, como se fosse um ser humano. «Trate-me por Compincha», - insistiu. - O que é que faz na vida? Ganha muito? Vem muitas vezes ao estrangeiro? E mulheres, conhece muitas? São Nicolau fechou os olhos e concentrou os pensamentos no seu amigo doente.

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A coisa mais interessante descobriu então, era não se lembrar de um dia infeliz com Padrinho ao longo dos tempos de adulto, e a coisa que mais o satisfizera era a revelação de que até o crime compensa, se for bem sucedido, afinal de contas; o mundo é para os espertos, argumentou em silêncio. Aguenta-te, suplicava em silêncio. Eu estou a ir para o mais rápido que posso. «Nesta época altamente materialista», - explicava Compincha, -  quem pode chegar ao top sem a riqueza? Na Galiza os jovens empresários dão festas pela noite adiante. A riqueza preside à mesa com as mãos abertas e carteiras bem recheadas ao correr dos dedos, como se o dinheiro escorregasse das mãos.» - No ecrã de vídeo da carruagem a empregada fazia uma demonstração das diversas medidas de segurança para o caso de uma emergência. Ao fundo do ecrã uma fita inserida na imagem traduzia as palavras dela nas versões de espanhol e francês. Um filme de conto de anedotas e palavras cruzadas, um pequeno luxo para os tempos actuais. A alta tecnologia ao serviço da segurança e do relaxe. O problema é que cada vez era mais perigoso andar nos transportes ferroviários, as linhas estavam a apodrecer e os apeadeiros a cair de tédio e formigas e as colisões eram mais assíduas e todos os dias os comboios faziam vítimas, ou pelo menos assim parecia, e a ferrugem aumentava com mais frequência. Por isso, o filme que veio a seguir O Expresso do Norte era uma espécie de anedota, pelo simples facto de ser letra corrida, como se dissesse: Vejam que os comboios do futuro vão andar pelo ar e até vos oferecem uns pára-quedas para, quando caírem com os focinhos no chão ou forem projectados à distância, não se aleijarem. Estilos de marketing e imagens não realistas... «Fez-me recordar o filme do grande Francis Coppola», - disse Compincha. -«Quando põe as estrelas do musical no Vietname, dentro de um helicóptero, para ir dar consolo à dor, aos soldados na frente da batalha . Talvez fosse uma acção psicológica.» -
São Nicolau tinha ouvido dizer que Padrinho não entrara com o pé direito nesta nova fase da sua carreira. A partir daí, as suas idas aos Nocturnos tiveram muitas escapadas e conhecera uma tal fia, a rapariga que representava o papel de camareira, e o desempenho do próprio Padrinho no papel do cliente fora por alguns amigos classificado como malabarista e fantasista. O tempo em que nada lhe saía bem nem dava

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mostras de melhorar. O seu segundo encaixe Vendedor de amostras, não resultou e rapidamente se afundou sem deixar rasto. «Sabe, talvez ele preferisse juntar-se a pessoas de outra envergadura social, pessoas de outra cultura e nível cívico», -lamentou Compincha. - «Ser alguém e subir a escada da fama. Comigo os sonhos resultam sempre.» -
São Nicolau fechou os olhos e recostou-se no assento. Bebera o whisky demasiado depressa por causa do medo de viajar de comboio e agora tinha a cabeça a girar à roda. Compincha se tinha esquecido demasiado dos laços que no passado o ligavam a Padrinho e ainda bem. Esses laços eram realmente pertença do passado. «Se você não agarrar agora esta oportunidade», - bradou Compincha num tom algo confidencial. - «Vai ter que ir trabalhar na sua terra. Este contacto, acredite, é puro ouro a valer.» - A cabeça de São Nicolau rodopiava em estranhos sentidos. Que tremeliques sentiu, quando soou através das palavras aquele na sua terra. Alguns tempos antes, ter-lhe-ia dado náuseas. Não se atreveu a abrir a boca. Mas agora o amigo estava a morrer e as velhas emoções alertavam os seus sentidos para o agarrar.
Quase vinte anos antes, quando jovem se esforçava para ganhar a vida nas margens da zona industrial, de modo a poder usufruir uma qualidade de vida superior aos demais, e quando o seu pai se retraía em tais luxos, adaptando por sua vez a religião e o desporto, nessa época, uma ocasião, o pai pegara nele e metera-o dentro do carro e foram dar uma volta pelas redondezas. Mostrou-lhe uma enorme propriedade e vários terrenos e disse-lhe que um dia tudo aquilo seria sua pertença. As propriedades eram enormes e os terrenos nem se fala. «Foi a minha primeira herança desde que me conheço», -   escrevia São Nicolau no seu diário, - «por isso, sinto-me contente e feliz.»
E, tempos mais tarde, quando veio a descobrir que as casas e as quintas tinham sido na sua maioria hipotecadas e outras expropriadas e que havia muitos credores à espera da venda dos bens falidos, compreendeu, então, que a herança se revelou uma pura ilusão.
A reacção imediata de São Nicolau foi nunca acreditar sem, primeiro, ver para crer, como São Tomé. O importante era que a vida continuava, e até era bem provável que a herança fosse também uma autêntica dor administrativa. De todas as formas, escreveu ao pai a agradecer a generosidade das palavras. A partir desse momento, a sua terra afastou-se cada vez mais do filho pródigo.
«Eu nunca esqueço um amigo», -dizia Compincha. - «Você é amigo

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de toda a gente. Reconheci logo isso no instante em que me foi sugerido. Espero bem que nunca nos dêmos mal.» - São Nicolau, com o no coração, abanou a cabeça. Não, eu também faço votos que assim seja. São Nicolau, com os olhos piscos, deu sinal a uma funcionária que ia a passar e pediu-lhe mais um whisky, desta vez com sumo de laranja. «Que pena aquele flirt do Padrinho e da amiga dele», -prosseguiu Compincha.
«E que lindo par eles faziam. Pena ele ser um pouco ciumento e ela uma rapariga de  duas alas. Acabou por não dar resultado .» - São Nicolau virou-se para o outro lado. Que praga! Eu estou a tentar esquecer o passado. Vai-te embora daqui.
O tempo passa mais depressa do que aquilo que nós supomos, pensou ele atrás das pálpebras cerradas, enquanto o comboio passava a zona minhota. Talvez o infortúnio seja o parente da sorte, no qual se move o destino de uma pessoa e a satisfação apenas uma série contagiante de pequenos clarões no meio do percurso humano. Ou, então, a desgraça seja pelo menos o terror do fracasso... Esta meditação foi interrompida por um sonoro remexer vindo do assento vizinho. O Sr. Compincha levantara-se, de copo vazio na mão, e preparava-se para ir meter mais uma dose no papo.
O fanfarrão tinha caído no goto das funcionárias do bar. Elas rodeavam-no de todas as atenções, servindo-lhe a dose mais acrescentada de malte puro, cobrindo-o de simpatias até dizer chega. São Nicolau lembrou-se, de repente, das tias da boa sociedade da sua terra quando levavam as sobrinhas adolescentes ao baile e lhes diziam em relação aos rapazes: «Que giro aquele é? Parece que tem mesmo cara de boneco. Olha para o ouro dos dedos da mão esquerda. Que rico ele deye ser!» -
Na realidade, Compincha tinha um aspecto de moinante disfarçado de intelectual. Tirara os óculos antes de beber, e a pêra no queixo dava-lhe uma aparência de abade da freguesia. Aos olhos de São Nicolau, assemelhava-se acima de tudo à interpretação de Plácido Domingo no papel de O Barbeiro de Sevilha. Por se explique a popularidade de que ele gozava entre o sexo fraço.
Ao pegar nas revistas e jornais que se encontravam ao serviço dos passageiros, São Nicolau deu de caras com um velho amigo em apuros. O comentário de Os Sapatos prós Calos, de Mister Louis, fora um tremendo fracasso no Médio Oriente e África e as encomendas deram barraca e foram automaticamente interrompidas. Pior ainda, a sua secretária Susy Três vendera para a comunicação social um artigo em

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que dizia que a pele dos sapatos não passava de solas convertidas em línguas de carneiro escaldadas. Pobre Mister Louis, derrotado pelo amor perverso que se propusera dominar. Era difícil não ter pena de Louis, sem empresa e reduzido aos seus últimos tostões, abandonado pela sua querida secretária, que fazia as delícias aos mais famosos chulos e comerciantes falidos frequentadores da taberna do Rato.
Mas São Nicolau, voando para ver o amigo internado no hospital, encontrava-se num estado de tensão emocional que até os dedos dos pés lhe davam comichões. O que é isto? perguntou lentamente a si próprio, não me digas que os calos agora vieram pa- rar para aqui.
No norte de Portugal, a luta entre um conhecido empresário das slot­
-machines e um juiz local deu bronca nas barras dos tribunais. O Bocas do dia noticiava e São Nicolau leu a notícia do mais escandaloso caso; «juiz abafa uma milêna de contos». Na ultima página, nas notícias mais sensacionalistas, os empresários do jogo ainda exigiam mais liberdade para a expansão das máquinas pelas províncias e em locais ao ar livre.
São Nicolau lembrou-se do amigo de Padrinho, o industrial de calçado Zé, o intocável, que falava destas coisas com uma emoção claramente insuspeita.
«Como podemos saber se o lema do jogo fortuna e azar funciona mesmo para nos cravar?», - raciocinava ele.  «Muitos dos que eu conheço, no Porto, fazem a féria à semana no jogo, nos casinos, nas casas clandestinas, na batota, mas outros dizem-se vítimas da extorsão à carteira, do jogo viciado, do parceiro comprometido. Muito bem. Eu não tenho nem nunca tive experiência do jogo, por isso não estou muito à vontade para definir esse maldito prazer. Em termos de vício, é evidente que não sou viciado. Portanto, embora muitos jogadores se queixem que são explorados, o certo é que também eles procuram ser os exploradores dos outros.» -
«O problema das máquinas das cartas nos salões para jovens, a partir da menor idade», -comentara Zé, - «é que faz grande concorrência às verdadeiras casas de jogo - os casinos -  e aí, é que a porca torce o rabo.» -
Rebentava assim um escândalo em tomo de uma questão de jogo. Era ou não verdade que os empresários ofereciam por debaixo da mesa quantias indeterminadas, esforçando-se para que o negócio fosse de vento em popa? O caso envolvia grandes somas de dinheiro e a credibilidade do juiz, que procedeu ao inquérito do jogo clandestino, ficara chamuscada,
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mas isso passava ao lado do interesse de São Nicolau. Olhava fixamente para uma fotografia desfocada numa das páginas interiores, onde se via um grupo de indivíduos flutuando em cima dum barco parado no rio. Numa pequena província a norte do Porto, houvera uma rusga a um desses barcos clandestinos na prática da prostituição e os fomentadores e proxenetas foram conduzidos na carrinha policial, ficando a aguardar a intervenção do juiz. Havia centenas de bocados de rolos de papel higiénico cheios de ranheta e mal cheirosos; o fedor parecia emanar da folha do jornal.
E, em Vila de Gaia o presidente de um grupo muito popular, que «fez um acordo» com os moradores das ilhas baratas para oferecer volumes de cigarros da marca Três Vinte, na angariação de sócios, foi alvejado por uma chuva de varonas 1 de um grupo de pés descalços, enfurecidos com a marca reles do tabaco. A insatisfação entre as comunidades pobres, as tensões altíssimas das suas artérias, eram coisas intoleráveis como se estivessem a toda a hora sempre em guerra entre uns e outros. Na luta eterna entre o pobre e o rico e as suas crueldades, a crueldade ganhava terreno substancialmente.
A voz de Compincha intrometeu-se nestes pensamentos longínquos. A primeira coisa que ele vira ao voltar para o assento fora a fotografia de uma camareira de copo na mão a olhar para ele na mesa de abrir de São Nicolau. «A verdade», -disse na sua habitual fanfarronice –é que estas mulheres bebem mais que um homem. Parecem autênticas esponjas. Eu, se bebesse meia dúzia de taças de champanhe, ficava logo grogue, mas elas não. Bebem às dezenas de garrafas e estão sempre com a cabeça a funcionar nos cifrões, como um táximetro. Parece incrível, mas é verdade, sim senhor.» -
CONHECIDOS PROXENETAS FORAM PRESOS POR FALTA DE PROSTITUTAS, alegava um porta-voz da polícia, mas os «promotores das casas de passe» rejeitavam essa análise. BÓFIAS DA CIDADE, argumentava um representante da chulice. PRESSUPOSTOS AMANTES CLANDESTINOS DAS CAMAREIRAS.
Um jornal citadino publicava um fotografia com cartazes afixados à porta das casas de tia, nas velhas ruas do engate. O bófia, um rapaz com pinta de irmão-freire, de olhos azuis, calça justa na perna e sapato bicudo á italiana, todas as noites podia ser encontrado no seu carro «Cortina GL» -estacionado em frente ao largo da estação à sombra dos candeeiros de luz frouxa -a contar notas de Santo António (vinte escudos) entregues

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1Pontas de tabaco.


pelas camareiras e a enrolar uma a uma no porta notas, de forma a que ficassem esticadas como peles de bacalhau esturricado.
«Mas que tempos tão difíceis esses», -continuou Compincha. -Para os desgraçados e também para os donos das casas do sexo por aluguer que viam a sua economia a fraquejar.» - Depois animou-se a ver a empregada do bar que se aproximava. «Sempre adorei o grupo das mulheres bem altas», -disse sorridente de forma a que ela ouvisse» , - deve ser um prazer um homem trepar por aquela escada acima. E você? Que é que diz a isto?» -
Oh! que maluqueira de ideias é capaz o espírito chanfrado, sussurrou tristemente São Nicolau. Não admira que não sejamos capazes de nos concentrar por muito tempo noutras coisas. Não admira, pois, que invente programadores de controle à distância para mudar de canal. Assim não precisamos de ouvir quem quer que seja. Se apontássemos para nós próprios esses instrumentos, havíamos de fugir para os confins do mundo, só para nos evitar de nos ouvirmos. São Nicolau sentia que os pensamentos se extraviavam, por muito que se concentrassem no amigo, desviando-se para o caso das camareiras. São Nicolau mandara-lhe um bilhete; será que ele o recebeu? Teria ele melhorado no seu diagnóstico? Seria possível que ele ainda estivesse vivo? -   então pensou nisso e perturbou-o .a ideia de não chegar a tempo, que coisa imperdoável! - Hei-de saber, quando o vir à minha frente, pensou. Olhou para o relógio, o tempo passava e viu o clarão de fumo que saia do comboio que continuava a rolar sobre os carris.
O fim da viagem aproximou-se sem acidentes. Ninguém estava ali à sua espera na estação.
«Venha daí», - chamou Compincha com um aceno de mão. «Chama-se um taxi e vamos directos ao hospital.» -

Vinte minutos depois, São Nicolau estava diante do portão do hospital de São João com a mala de viagem e a gabardina debaixo do braço, a olhar para uma vitrina de vidro onde estava instalado o sistema de controlo por vídeo das entradas de visitas. Ao lado, num grande reclame, tinham escrito um slogan de ordem contra a sida: TODOS OS DESEJOS ACABAM NUMA CAMISINHA I QUANDO O PRAZER É CONSCIENTE I  É LEVE E TRANSPARENTE / NÃO ESQUEÇA: USE PRESERVATIVO NA HORINHA.
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Uma vez mais, Padrinho viu o sonho desfazer-se em poeira; homens sem eira nem beira e saqueadores de faca na mão tinham tentado apossar-se da cadeira do poder abandonada, mas o tempo acabara por os vencer. Nunca mais ninguém o incomodaria ali. Padrinho deitou-se sobre a cama e fechou os olhos com um crucifixo a mão. Não lhe interessava a sorte dos outros; tentou dormir mas em vão.
Ao fim de um tempo incontável de horas e minutos, ocorreu-lhe que estava a morrer de um mal incurável. Sentia que os sonhos lhe fugiam da mente e não conseguia pensar, pensar, pensar.
Na ultima noite da sua vida ouviu um barulho, como que um torpedo, a estoirar contra uma plataforma de ferro de aço inoxidável e sentiu um cheiro a cera queimada e percebeu que o coração estava a dar as últimas. Levantou-se da cama e quase cambaleava com a fraqueza, mas acabou por aguentar-se nas chuteiras e foi até à janela para apanhar ar e, ao mesmo tempo, ver se fora chovia. Realmente as chuvas varrem pegadas, apagam memórias, purificam a terra e aproximam-se dele para o levar; -e  o vento soprava a chuva na direcção do hospital, de maneira que, em breve, brevemente, seria a sua vez de partir. Viu a chuva cair em mil gotas de água e escorrer pelos cantos, como uma serpente; depois parou e encaminhou-se muito de mansinho para próximo da janela onde pela primeira vez meditara no sonho.-E agora sentia-se invadido por uma lassidão, por um enorme peso e voltou de novo para a cama. Antes de fechar os olhos, sentiu que alguma coisa lhe tocara nos lábios e viu o rosto da mulher, debatendo-se para lhe dar um beijo. Então o suspiro derramou-se por cima dele e ele viu-se ao lado da mulher que olhava carinhosamente. «Beija-me» - dizia ela. -«Beija-me com fervor.» - Como é que conseguia ouvir a voz dela? -Estava debaixo da água, nas ondas do oceano, mas ele ouvi-a claramente bem. «Beija-me», -disse ela. Ele fechou os olhos.
Estava a desaparecer.
Então alguma coisa dentro de si baqueou, fez um último esforço, no instante em que o coração parou de bater. O seu corpo ficou inerte.
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No jardim abandalhado e cheio de ramos abatidos, o mau trato atraiu o seu olhar desvanecido. O pai sempre tivera o bom hábito de cuidar do jardim a rigor. Provavelmente usavam-no agora como mesa de pingue-pongue, pensou amargamente. A madrasta saiu da vivenda para vir receber São Nicolau, com grande consternação. «Meu Nicolauzinho. tinha tantas saudades tuas. A tua vinda é uma surpresa para mim.» -
Ela era talvez uns dez anos mais nova que o pai de São Nicolau que morrera havia quase três anos, de velhice, em pleno sono. «Quanto tempo vais ficar por cá?», -perguntou ela, mas São Nicolau estava tão abatido que nem lhe prestou atenção. «Vou hoje embora.» - E São Nicolau começou a aperceber-se da ansiedade da velha senhora em querer conversar. «Nunca mais tive noticias tuas. Sabes como é. Ainda nos ligam alguns laços sentimentais...» -Calou-se, pois não conseguia dominar a voz e a lembrança do marido continuava a ser uma grande perda para a sua vida. Também ele a compreendeu. Ela disse calorosamente. «Eu por mim», -soluçava ela,"- «não paro de rezar todos os dias uma oração para que nada de ruim te aconteça.» -
São Nicolau abraçou a madrasta e deu-lhe um beijo na face. Era bem possível que ficasse por ali umas horas antes de poder seguir viagem. Mas não. Olhou para a mala de viagem junto ao alpendre de casa e sentiu que não tinha condições de ficar ali por muito mais tempo e fez questão de pedir à madrasta que mandasse chamar u m taxi para se ir embora. Agora que São Nicolau estava silenciosamente no quarto a meditar, por uns momentos, não descurou a ideia de que chegara demasiado tarde; que Padrinho tinha morrido enquanto ele tagarelava no
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comboio. Então sentiu-se triste e oprimido, com acessos de tosse, virou a cabeça e pensou num provérbio que alguém escrevera um dia. O mundo é o lugar que, morrendo nele, provamos ser pertença dele. A seguir, saiu para o taxi que esperava por ele fora. São Nicolau aproximou-se da madrasta e disse-lhe adeus.
Na manhã do regresso de São Nicolau, a madrasta pediu-lhe para ele cortar a pêra que lhe dava um aspecto mais velhote e ele prometeu-lhe que, na próxima vez que fosse ao barbeiro, far-lhe-ia a vontade. Uma hora depois, o comboio começou a sua caminhada. Desta vez, São Nicolau não bebeu sequer um whisky. E não comeu nada. Estava demasiado desiludido consigo próprio enão lhe apetecia sentar-se no assento. Preferiu ir de à janela, olhando a paisagem. Oprincipio da tarde estava solarenga; o brilho azul do céu estendia-se desde as águas do rio Douro até ao horizonte longínquo. Nos seus pensamentos vagueava a ilusão de ver uma estrada prateada sobre uma risca no cabelo brilhando nas águas. Abanou a cabeça; não conseguia acreditar em sonhos de adultos. O tempo do sonho terminara e o panorama que avistava da janela não passava de uma paisagem com antigo valor sentimental. Arre, diabos os levem! Volta para
os galegos!
«Anda daí», - disse a voz de Compincha atrás de si. - «Se tu te recusasses a ver o teu amigo morrer, não terias viajado de novo.» -
Estava mais que provado que a boa sorte de um indivíduo' não tem explicação.
«Já vou», -respondeu ele e virou as costas à paisagem indo deitar-se no assento.

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Fernando Abraão passou parte da sua vida nos meandros da vida noctuma. Primeiro como músico e depois corno empregado de mesa até chegar a boss da noite. É compositor e editou vários CD e autor de vários livros para teatro e revista A História do Morto-Vivo (Ano de 1999) e Tripeiro de Gema (2000). É ainda autor dos romances O Bando das Periquitas (1999). E do romance editado recentemente Escritos Traidores (2002). Toda a sua obra disponível se encontra às vendas nas tabacarias da zona de Antero Quental e Costa Cabral, que lançarão em breve a sua última obra: A Música Que Eu Dou.