Wednesday, April 6, 2016


                                        
                                                           
                                           CONTOS PARA REINAR

                        «Aprendi que cair no vício não é o cabo dos trabalhos.»
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MARIA ODETE criou uma das «pegas-espertas» mais badaladas da noite portuense. Mas a alternadeira de 37 anos, que passa por turista nos locais choques da moda, tirou o curso nos bares dos hotéis e é conhecida por ser uma mulher inteligente, sagaz e intuitiva. Apesar de ter trabalhado nos bares e nos cabarés de segunda classe, Odete não considerava o mundo da noite como uma carreira. «Achava que todas as alternadeiras eram estúpidas cujo modo de vida não resultava», diz. «Tinha medo de que, se me tornasse viciada, as pessoas não me quisessem.» O que lhe metia medo também era apanhar algum vício. Mas o desejo de mudar de vida era grande e, por volta de 1971, juntou-se a um grupo de viajantes e viajou em alguns cruzeiros de férias. Mesmo assim continuou a evitar correr riscos. Raramente ia em grupos. E a sua vida social era bem mais preenchida tal como a sua carteira. «Era o medo de estar no caminho viciado que me continha», diz. «Até que finalmente aprendi que podemos apanhar vícios e que não é o cabo dos trabalhos.» Fez um bom pé-de-meia em 1975, e daí passou a lojista de uma sapataria em 1977. Casou-se em 1976, e teve um filho em 1979, apresentando uma forma física invejável. «As pessoas perguntam se não estou nada preocupada com o facto de só vender sapatos», diz ela. «E daí? Incomoda-me que pensem que sou uma estúpida? Incomodei-me mais com isso quando era mais novata. Agora, passa-me ao lado.»

                                                                Abraão, em ahistóriadeumboemio.blogspot.com. Porto. 




POR ESTRANHO que se pareça, nunca foi editado nenhum dos 39 livros de Fernando Abraão, um autor sem formação académica, apenas a 4ª classe e uma grande inspiração para a escrita e para os seus contos de amigos. Quando em 2000, publicou A história do Morto-Vivo, uma obra teatral, encorajou-se em enviar ao Círculo de Cultura Teatral que lhe respondeu: «Agradecemos e analisaremos, na primeira oportunidade.» Em 2002, o autor escreveu Escritos Traidores, e a editora Dom Quixote rejeitou a oportunidade de publicar a sua obra: «Infelizmente a Editora não pode dar-lhe uma resposta positiva por dificuldades de enquadramento na nossa programação.»  
No mesmo ano, em que publicou Gente de Vícios, um outro editor: Edições Mortas, não se deixaram impressionar pelo relato de Abraão sobre os boémios da noite: «Lembramos, no entanto, que temos o nosso catálogo de edições preenchido até finais do ano 2004.»
E ao rejeitar As Lauras, em 2008, a Editora Caminho escreveu ao autor: «Infelizmente, a nossa programação encontra-se demasiado sobrecarregada, impedindo-nos de assumir novos compromissos e, por conseguinte, de aceitar o trabalho proposto.»
Mas outros editores através de emails não foram mais simpáticos. Em 2009, o livro O Pasquim do Lord, obteve o seguinte comentário: «Em Portugal as histórias de boémios são pouco recomendáveis.»
Em 2010, a biografia de Ratazana O que hoje ainda se deve fazer: uma rapidinha; obteve de O Jornal Dos Traidores o seguinte comentário: «A missão de um boss à frente de um bar de estilo tem o seu atrativo, mas para a maior parte das pessoas que lá conviveram.»
Em 2012, quando da sua obra nº 37, Abraão disse aos intérpretes de A Trupe de Pipocas: «O problema é que sem conhecimentos com editores ou pessoa responsável, uma pessoa não vai lá. É uma agulha no palheiro encontrar entre eles uma alma amiga que nos dê apoio ou uma mão.»  
E em 2013 disseram a Fernando Abraão: «Desculpe, Sr. Abraão, o senhor não sabe contar outras histórias a não ser desgraças da noite?»


                                                                                               Ratazana, Porto.

Saturday, March 19, 2016


                    



                                  ESTE PAÍS PRECISA É DE INVENTORES
                                  DE IDEIAS BOAS!!!
                                                   __________________/


ABRAIAS, empresário portuense, está ensaiando um projeto a que chama: «carro-táxi», sob o qual ele espera racionalizar os transportes citadinos. “Abraias”, cujo negócio se situa num dos locais mais movimentadas do Porto, reparou que quase todos os carros na hora de ponta só continham, na sua maioria, um ocupante, o condutor. Os autocarros, por sua vez, rolavam superlotados, sem meios de servir as longas filas de trabalhadores exaustos. Os donos de carros e andantes são convidados a entrar para o clube do «carro-táxi» ao preço de 100 euros anuais, incluindo o seguro. Por essa filiação o condutor recebe um autocolante para colocar no carro e o andante um cartão identificativo com fotografia, número de telefone, e com a palavra «carro-táxi» em letras maiúsculas, e anexo destas um espaço ao qual porá seu destino. A distância através do qual o passageiro é transportado, já está indicada na tarifa do único pagamento do passageiro. Este tema está despertando a atenção da União dos Pobres Andantes e dos Idosos de Muletas que dedicaram especial atenção ao «carro-táxi», onde esperam ansiosamente que a ideia passe à prática.    

                                                                                                                                                  


NUNCA ESQUECEREI esse dia chuvoso passado em casa da tia Justa. Eu ia a caminho da aldeia quando fui apanhado por uma enxurrada de água que me deixou como um pintainho, e fui bater à porta da tia Justa que me acolheu. Depois de tirar a roupa, agasalhei-me num cobertor e sentámo-nos sozinhos à lareira a fumar e a beber uísque, em amena conversa. Quando ficámos animados, falamos dos nossos tempos e contamos das nossas piadas preferidas. A tia justa já nem me via nem me ouvia. Bebeu a última pinga de uísque e atirou às malvas a vergonha por ares e ventos. Eu sentia-me o mais feliz dos mortais, e só desejava que o dia tivesse mais horas. Infelizmente… adormeci a ressonar… num segundo, um balde de água fria voou na minha cabeça e atirou-me da cadeira ao chão. «Reles! ─ gritou a tia Justa. Reles, imundo. Vai rosnar para a tua rua!» Rolei pelo soalho, exclamando: «Ei! Que mal eu fiz?» ─ «Já te digo. Tratei-te tão bem e esta é a paga que tu me dás?» Abriu a porta e com o dedo esticado fez sinal de marcha. Saí pela porta, enxugando o cabelo com as mãos. «Mas que mal eu fiz!»


Monday, January 25, 2016


A MULHER DO MANCO
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… Enquanto isso, o telefone pôs-se a tocar. Atendi. Era uma amiga.
   «És tu? Sou eu, América.» - Retribui a gentileza. «Estou em casa de uma amiga, zanguei-me com o meu homem, não está por aí alguém que nos queira distrair um bocado?» - Respondi:
   «Dá-me só uns minutos, que ligo já.»
Desliguei o telefone para atender os clientes que chegaram naquele instante. Faziam parte do clã de Pipa, chamavam-se Tin-Tin e Carocha. O primeiro exclamou:
   «Boas tardes, meus Senhores, já vi que estão em boa companhia.» -
Os restantes cumprimentaram-se. Pipa dirigiu um olhar carrancudo a Carocha, ao mesmo tempo que lhe dava uma palmada nas costas.
   «És bom rapaz, ali feito morcão, á tua espera; pregaste-me o manguito mas deixa estar que para a próxima tu levas.» - O outro ajeitou os óculos. «Esse filme vai no Batalha.»
A jovem vestida à moda fric entrou na sala, levando atrás de si alguns olhares provocadores. Múmia foi o primeiro a dar o mote:
   «Mas que pinta tem a miúda» - Pipa intrometeu-se.
   «Tem, sim senhor, mas tire daí o cavalinho da chuva, porque dali não leva nada.» -
Múmia quis saber o seu nome. Respondi:
     «Chama-se Profe.» - Torceu o nariz. Enchi alguns copos de bebidas e aproveitei a falar a Pipa e Carocha se estavam interessados em aceitar o convite.
     «Então, como é, vão buscar as minhas amigas ou não? –
Não se fizeram rogados. Escrevi a direcção no papel e sumiram-se pela sala fora.

… O que se passou com Pipa e Carocha, quando foram buscar as minhas amigas, foi desconcertante.
   «Nunca supus que nos enganasses», diz Pipa com olhar espantado, meteste-nos numa alhada que estava a ver que o manco, ia dar com a muleta ali nos costados do Carocha.» -
Olhei admirado para eles.
   «Que história é essa do manco?» - Carocha interpôs-se:
   «Tu quiseste foi despachar-nos para levar a Profe a ver as estrelas e nós é que nos lixámos.» -
Estava confuso.
   «Francamente, cada vez percebo menos do que vocês estão para aí a dizer.» -
Carocha deitou mão à garrafa de cerveja e mandou uma golada abaixo.
   «Nós fomos à direcção que nos destes, saí do carro e fui bater à porta do apartamento. Em vez de aparecer a tal menina América, saiu de lá um manco a refilar.
   «Aqui não mora nenhuma América, ponha-se daqui a calcantes, antes que me enerve» -
   «Insisti com ele, mas o estupor do manco encrespou-se para mim e gritou para alguém dentro de casa. “Chega-me aí a minha muleta que este gajo está a incomodar-me.”
   «Não me quis chatear com o desgraçado e virei as costas, vindo para o carro.»
Padeiro deu uma gargalhada.
   «Está mas é calado, piraste-te antes que o manco te desse uma cacetada por esse lombo abaixo…» -

                                                                                                                                      Extraído do livro: Escritos Traidores.  


Wednesday, December 30, 2015





A pensão do avio ficava bem perto da Praça dos Poveiros. No Largo do Padrão, os únicos que andavam por ali perto eram os homens da rapidinha, à procura de um consolo. Nos dias esfriados, ao cair da noite, as gordas e magras mulheres do avio costumavam manear-se pelos passeios da rua e pensar que, numa boa hora, estariam a apanhar um freguês, para o levar para o cardenho. Chegavam, até, a fazer de sentinela um pouco antes de aparecer a aurora. Havia um café a cerca de quarenta metros mais à beira na rua onde, por vezes, com as malas aos ombros, as mulheres, encostadas às montras mostravam os seus atributos. Mas, habitualmente, engatavam-nos ao passar com um piscar de olhos acenando a cabeça, pois já era habitual. A pensão do avio era conhecida como a velha pensão de Coelho Neto. Na verdade, Coelho Neto era apenas o nome da rua. A pensão era num prédio antigo pintada de cor deslavada com três andares, e tinha janelas, com vistas para a rua. O dono pedinchara aos proxenetas para porem as suas prostitutas a servirem de taxímetro nas ruas e levar os homens para os quartos. Os proxenetas gostavam muito da dormida de Coelho Neto. Diziam que uma dormida naquela pensão sabia tão bem como uma boa golada de vodka para os aquecer nas longas frias noites de sentinela à espera delas. A pensão de Coelho Neto amontoava as prostitutas à volta dos passeios, até pareciam uma verdadeira escolta. É claro que a vizinhança já não se importava com aquele cenário porque já estavam habituados. Mas não era suposto alguém se incomodar com aquilo durante estes anos todos. De resto, quando havia quaisquer escaramuças, os proxenetas eram os primeiros a refugiarem-se num qualquer local da cidade. Depois de a procissão passar, o dono voltava a oferecer-lhes uma dormida e trazerem as mulheres para o negócio, e tudo voltava à mesma forma.

Naquela noite de Dezembro, a rua parecia escura e solitária e as poucas prostitutas que se aventuravam no vaivém, como era habitual, sempre que passava alguém pelas proximidades, diziam vamos subir aos homens que as olhavam, uns por acaso e outros para um caso. Jó, a prostituta da rua, acabava de iniciar a sua faina e puxava os colarinhos do blusão para cima quando viu umas pernas longas atravessar a rua ao fundo. Era um homem alto. Parecia tão alto como um gigante e tinha despertado nela uma curiosidade súbita. Avançou na sua direção e, agarrou um velho exemplar da Nova Gente, preparado para o atrair. Jó gostava deles assim. Altos, fortes e grandalhões. Se tivesse sorte podia ganhar com ele o equivalente a dez cabritos. Já não era a época dos camones, mas aquele devia ter estado a emburricar por ali perto ou algo semelhante. O camone foi direto a ela, batendo as mãos para se aquecer e exclamou num português tacanho “tu fode?”. Ela disse que sim e enfiaram-se os dois dentro de um cardenho aquecido por um aquecedor a gás. Ainda estava algum calor lá dentro... O alemão atirou uma nota para cima da cama que agradou a ela e preparou-se para o trabalho. Sorrateiramente, Jó olhou de soslaio por entre a enroscada camisa e, reparou que as suas duas longas pernas já tinham saído para fora da cama. A seguir veio o serviço. Mas o camone nem lhe deu tempo para respirar e, atirou-se para cima dela. Uns minutos depois, caiu para o lado com um suspiro profundo e, por fim, ouviu-se apenas uma exclamação ofegante Oh, My God. Não mais do que um espernear de corpo; a satisfação era visível. Vestindo-se trauteando, já que a noite estava ganha, Jó voltou a pisar os passeios para fazer-se à vida. Foi nesse momento que um tiro entoou. Correu para uma portada de um prédio, colocando os braços sobre a cabeça, de maneira a proteger-se e procurou ver o que se passava lá à frente. Aguardou e contou os segundos, sustendo a respiração. Dezoito, dezanove, vinte. As estrelas brilhantes sobre a cidade ofuscaram-na. Escurecera; ouviu um ah ténue à distância e a primeira luz surgiu dum prédio. Um feixe de luz branco e brilhante, pouco luminoso quanto baste. Lá no fundo, por entre a luz de um carro, um grupo de homens deixava um rasto que se assemelhava a sangue humano. Rapidamente, Jó, sacou do telemóvel e ligou para o 112. E, então surgiu outro feixe de luz e depois outro. Três, quatro, cinco, todos voltados em direção ao corpo, estendido no chão, que procurava levantar-se a custo. Depois, surgiram pessoas vindas de outros lados. Jó correu até ao fundo. O corpo ainda mexia. E foi nesse momento, com a ajuda de algumas luzes que o reconheceu, com a sua velha revista numa mão. Vermelho como um pimento, agarrado ao braço ensanguentado. O camone agarrou a mão de Jó e esboçou um esgar sofredor. «Polissia! Polissia! Roubaram meus marcos...!» De repente, ouviu-se a sirene, muito veloz, à entrada na rua. Tinoni, tinoni! A ambulância estava a chegar. E, mal o enfermeiro o ajudou a pô-lo na ambulância, Jó apercebeu-se que não era tão grave. O seu estômago contraiu-se como um soco. Não estava com medo; apenas lamentava. Subitamente, toda aquela cena escura se transformou num lívido e brilhante branco. O barulho da ambulância a arrancar ecoou pela rua. O frio notava-se nos rostos gelados das pessoas. Todos permaneciam em silêncio, excetuando o frenético ladrar de um cão; numa varanda. De seguida, ficou tudo tão tranquilo na Rua de Coelho Neto! Apenas na rua alguns transeuntes citadinos que podiam muito bem ser confundidos com os mecos... E passo a passo, com o olhar concentrado, Jó voltou às lides.

Naquela altura, teve início uma segunda procura de consolos. Alguns homens chamavam as prostitutas, através dos carros, originando uma onda de palavrões incorrigíveis. Podia ter feito alguns deles, mas não se atreveu a aventurar-se. Certa vez, assistira ao que um gangue tinha feito a um dos clientes da pensão, o velho picheleiro Tomás. Foi Jó, precisamente, quem o encontrou. O vidro do carro partido e Tomás jazia como uma almofada sangrenta. Roupas rasgadas, golpeado no pescoço, num estado lastimoso e ofegante... Rastejava, penosamente, de um lado para outro. A princípio, Jó, pensou que ele estivesse morto. Mas o pobre Tomás ainda dava sinais de vida, esticando as pernas na direção da porta e, após esticar um bom bocado, respirou devagar, mas muito profundamente. Subitamente, decidiu que preferia ser cortada pelo gangue do que ficar testemunha daquela embrulhada. Colocou a saca sobre os ombros, numa tentativa de não perder o que ia lá dentro, e correu em direção ao posto policial mais próximo. Enquanto percorria, uma respiração muito forte alastrou-se. Recordou que percorreu como o corredor de pista até alcançar a meta. Achou que nunca na vida correra tanto. Mas os seus esforços revelaram-se preciosos. A polícia levou-a de volta até ao local e encaminhou o pobre Tomás numa ambulância para o hospital. Começou a olhar para o relógio. Em breve, o trabalho da putaria acabaria. Em breve, estava a deixar a rua e a entrar no seu quarto... Um táxi buzinou. Era sempre fácil identifica-los, porque os táxis traziam um candeeiro aceso sobre o tejadilho. Uma voz vacilante, exclamou: «Me-ni-na! Me-ni-na!», fazendo o gesto com a mão. Como uma cobra, esgueirou-se rente aos prédios. Uma corrida de cem metros livres. «Me-ni-na!», levantou de novo a mão em direção ao braço. Queria dar a atender onde tinha sido ferido. Apontou para baixo para o braço atado ao peito. «Mim...tá...vivo!» Parecia muito radiante consigo próprio. Tomou outro fôlego e exclamou: «Mim... ter sorte». Jó fitava-o sorridente, pacientemente. «Portuguese, não ser bom atirador!» A seguir exclamou em voz alta e calorenta. «Tu... me-ni-na grande... ami... amiga ser».  Jó nem queria acreditar, nesse momento, viu uma lágrima a descer pelo seu rosto. Estendeu os braços e deu-lhe um abraço. «Friend, Friend», a sua mão enorme, em busca, à volta do corpo dela, até que a segurou. «Friend, Friend.»Assim permanecerem enquanto o taxista aguardava e zumbia o taxímetro à volta deles, e as luzes se apagavam intermitentes e poucos carros se ouviam na rua. E foi assim que as colegas foram dar com eles, quando se despediram. Olharam, estupefactos, para os dois, à luz do candeeiro da pensão de Coelho Neto.

Naqueles tempos, criar amizade com um camone era um caso raro. Seria considerado leviandade. Chamava-se Jack Smith. O camone escrevera a Jó depois de chegar a Inglaterra para lhe agradecer. Enviou-lhe uma fotografia da mulher e do filho. Jó ficou contente. Pela família. Mas nunca lhe respondeu. Sentia-se demasiado confusa. 
Ainda se sente.



Tuesday, December 8, 2015





A entrada no alterne de Elisa Mota começara quando tinha a menoridade e fazia gazeta ao trabalho para ir beber um drinque a um pequeno bar de Nevogilde, com uma saia justa. Um freguês aproximou-se dela e perguntou-lhe se alguma vez tinha pensado em entrar para o alterne. Por intermédio de um amigo do freguês, Elisa (cujo alcunha era Bomba-Loira) conseguiu estagiar aos fins-de-semana num cabaré do centro. A «rapariga da saia justa» ganhou fama durante o estágio e tornou-se a mulher preferida dos clientes boémios. O seu primeiro casamento à moda de Campanhã, (juntamento) com o chefe de mesa durou três meses, provocando-lhe um vazio no coração. O segundo juntamento, um afamado boémio chamado Tony Chucha, convidou-a para uma ida ao casino em palpite de uma sorte, juntando-se a ela dois dias depois; era mais velho quinze anos. O seu terceiro juntamento foi com um comercial, Morgado; o quarto com o chamado Grego do Grupo de Traidores, Lacerda. Teve também um numeroso grupo de flirtes sobejamente conhecidos, com o Cavaleiro da Triste Figura, Dom Paco e o grupo dos Cartolas. Em meados dos anos 90, a sua imagem de «rapariga da saia justa» foi esquecida com a idade e a sua carreira estava a apagar-se.
                                                                                       
Depois de ela acabar a relação com o Grego, Serrão, antigo pretendente à vista, apareceu-lhe repentinamente, convidando-a para tomar um copo, apesar de ter o carro avariado. Serrão era um tipo frangalhote, com uma cor esbranquiçada, que tinha por alcunha «Pintor», manifestamente porque uma parte do seu vocabulário tinha por hábito pintar todas as telas. Como a maioria das loiras, Bomba-Loira gostava de homens dominadores e grosseiros. Num dia, Serrão dissera-lhe: «Quando eu digo cala-te, tens de calar; quando digo vem, tens de vir». Bomba-Loira não se opunha a receber as ordens, mas, quando estava com os gazes à solta, o seu temperamento era conflituoso. É verdade que havia uma obsessão mútua. Quando ela veio à residencial fazer amor com o Grego, Serrão esperava-os no átrio e, depois de uma discussão tão barulhenta, ameaçaram-se um ao outro de pistola em punho, os amigos viram-se forçados a separá-los. De regresso ao trabalho, foi com Serrão passar um fim-de-semana para a Foz e a cama fê-los esquecer os conflitos.

No Dia do Trabalhador de 1995, Serrão e Bomba Loira foram para o apartamento desta, na Senhora da Hora, discutindo violentamente. O barulho era tão intenso que Bomba Loira receou que ele fosse deitar a casa abaixo. Mas quando começou a gritar, pedindo-lhe que se fosse embora, um vizinho bateu à porta para ver o que se estava a passar; o pintor abriu a porta e pisgou-se numa brasa. Nesse momento, a Bomba Loira correu para o vizinho a gemer, de olho pisado «à Neca». Pouco depois, o olho de Bomba Loira deixou de inchar. O caso apareceu na primeira página de O Jornal Dos Traidores e juntou achas à fogueira, quando o antigo homem de Bomba Loira, o Grego, declarou aos amigos que se o pintor lhe batesse outra vez, lhe pregaria um tiro na cabeça. As fofoquices de desgraça apressaram-se a divulgá-las em maior escala. Revelavam concretamente que ela estava desesperadamente apaixonada por Serrão. A sós, Bomba Loira e Serrão tiveram toda a noite na marmelada e, juraram um pacto de não-agressão. Nessa altura, os bares não tinham dúvidas de que, para espanto de todos, a desgraça teve um efeito favorável; a clientela de Bomba Loira, que estava em baixa, renasceu em grande. Durante a passarela para a eleição de Miss Lord — o concurso que englobava as mulheres de bares — clientes da sala gritavam: «Estamos na bicha, Bomba Loira». E a sua clientela aumentou uma vez mais, como sucedera no início dos anos 80. A desgraça revelou-se o melhor meio de promoção.



Quando Novais ou «Baixinho», veio para O Mundo da Noite, no início dos anos 80, consta-se que riscou no papel de um guardanapo uma lista de nomes de prostitutas com quem queria ir para a cama, e depois, riscava-os um a um depois de conseguir os seus intentos. Contava-se a piada que, para os empregados de mesas de O Mundo da Noite a definição de «mulher esquisita» era aquela que não tinha caído nas graças de Baixinho. Mas os fala-baratos do bar aproveitavam-se em catapulta para se baterem a todas as doçuras que adoravam Baixinho pela calorenta balela da sua voz e pelo seu sorriso atrevidote.


Saturday, November 21, 2015




         Quando Ratazana me convidou para o ir visitar na sua casa em Arca d´ Água, na Praça 9 de Abril, no Porto, em fins dos anos 96, tive ocasião de olhar para os seus inúmeros álbuns fotográficos. O que me saltou à vista não era a quantidade de fotos, tiradas de várias épocas, mas o facto de mostrarem várias facetas das suas multiplicas funções.
         As funções de Ratazana eram sortidas, e havia quem dissesse que era o barman dos sete instrumentos. Dom Oliveirinha recordou:
         ─ Na boate Electra Club, com 35 camareiras na sala, Ratazana quase nunca se dava por ele e era ele que punha tudo em funcionamento.   
         Já em 1970, o violista Mário Reis, que fazia parte do duo Os 2 do Norte relembra que, quando estavam a actuar na boate Tamariz, Ratazana usava um vocabulário de camareira, típico e bairrista, apesar da intromissão insistente dos empregados, antes de entrar em palco.
         Na verdade, muito dessas conversas eram calões. «Chama-se zé-das-notas», disse-me Ratazana, um zé-das-notas tão volumoso que parece banqueiro. Todos os calões tinham um tom de originalidade, fazendo jus à fama do barman como homem versátil.
         Outra faceta digna de realçar no vocabulário era o facto de haver muitas alcunhas diferentes. – Estas pessoas têm todas as minhas alcunhas – disse. – Se o meu dicionário aumentar, tenho sempre alternativas. 
         Quis saber como conseguia inventar tantas alcunhas, algumas mesmo a condizer com as respectivas personagens. Ratazana informou que estavam todas registadas com fotografias e coladas nos álbuns: homens e mulheres, alcunhas. Por cima de cada fotografia havia um número a preto numa etiqueta e cada alcunha seguia por ordem numérica.
         ─ Não gosto de baldaria, quando gosto de pôr tudo por ordem.       
         Depois, num tom mais humorado, acrescentou:
         ─ Nunca consegui imaginar chegar até aqui e tenho orgulho no grupo da minha obra. É algo fabuloso, único e belo. 
         Eng.º Carlos Artaloytia, o secretário-geral do Grupo de Traidores, congratulou-se quando fora nomeado por Ratazana para o cargo, no Restaurante Trave-Negra, no Porto. Alguns minutos antes, a eleição de Artaloytia gerou um banzé de comentários e piadas, que galvanizaram freneticamente o grupo. Durante o jantar, Ratazana e Artaloytia falaram dos tempos de Ratazana: dos tempos iniciais e dos tempos que fizeram parte do passado de Ratazana.
         ─ Uma ocasião, tive um bar à exploração ─ disse Ratazana ─ que gostava de transformar num bar-citadino. Era perto da baixa do Porto. A empregada estava ao balcão. Estava a contar o conto da camareira a um cliente para lhe sacar uma garrafa de champanhe e tinha os peitos sobressaídos. Olha, lá no alto da parede, o relógio a badalar próximo da meia-noite, o fecho do bar, num segundo saca uma garrafa de champanhe e logo outra e pede a conta. A empregada segreda ao ouvido do cliente qualquer coisa e a seguir desaparece. É a fuga mais rápida que alguma vez fez e livra-se de apanhar uma valente ensaboadela.
         Ratazana parecia ter embalado para um intervalo.
         ─ E o que aconteceu depois? ─ Artaloytia debruçou-se para a frente da mesa.
         Ratazana voltou-se e sinalizou o cliente ao seu lado direito, Novais, que era alcunhado de Baixinho e que mais conhecia as suas histórias.
         ─ Pergunte a Baixinho. O resto é com ele.
         ─ Estou a lestes ─ replicou Novais.
         ─ Também quis fazer parte do engodo ─ prosseguiu Ratazana. ─ Quando ouvi os desabafos dele, à porta do bar, percebi de imediato que aquele era um cliente ainda verde, em especial em barretes, e sem o sangue na guelra.
         «E preparei outra manobra, à espera de outro engodo: levei os dois para dentro do meu carro e fui até Espinho. Enquanto o carro se movia ao largo da estrada 109, os dois iam a falar das suas combinações: uma rapidinha com ele, o pagamento dos espumantes, e outras questões de somenos. Mal o carro pára no local marcado, é quando a empregada se esgueira pela outra porta, e o cliente fica dentro do carro. Perguntei-lhe se ele não ia com ela, ele respondeu que o barrete só se enfia uma vez. Pensei: que homem inteligente! Um inteligente num campo minado. Uma vez qualquer um cai duas só cai quem quer.
         «A verdade é que ele não caiu, pelo menos que eu saiba.»
         ─ Só não sei onde vai buscar tanta malandrice para as suas histórias ─ disse Artaloytia.
         ─ São rasteiras ─ explicou Ratazana. ─ As rasteiras são o meu entretenimento. Sempre me interessei pelas rasteiras porque delas subtraio algo de muito hilariante que contadas depois são histórias do arco-da-velha.
         «A manobra na noite é normal, todos nós sabemos que ela há. Mas dominar a manobra no escuro, isso é uma coisa que requer pesquisa.
         «A manobra nem é tão difícil de desvendar. Afinal, todos nós fizemos manobras quando éramos putos. Nada que espante. Só a ratice é diferente. Esse predicado de esperteza está enraizado em todas as pessoas.
         «É aquilo que nos atrai que nos seduz, aquilo que a nossa natureza suspira, já que no contexto, o apetecível é mais cobiçado do que o comível. A novidade é sempre bem-vinda. Nunca fui adepto da cara incapaz de encher gavetas e de outros monos. Gosto de uma coisa mais «chamariz». Qualquer coisa bela que aparece num quotidiano palpitante. O quotidiano chamariz é uma ocasião única para o sucesso e engrandecimento.
         «Pessoalmente, sempre me despertou reunir as pessoas fora do vulgar.
         «Resumindo, tudo se conclui a despachar o mono. O nosso próprio mono e o de algumas pessoas. Não é só aquilo que nos livramos. É também aquilo que toda a gente se quer livrar e procura livrar-se.
         Ratazana estava sentado em frente de Artaloytia, durante a comezaina do Grupo dos Traidores, na Adega dos Abraões em Vila Nova de Gaia. Este engenheiro amante da dolce vita criara à sua própria volta uma onda de simpatia, levando os traidores a terem um respeito recíproco pela sua personagem vincada.
         Ratazana perguntou:
         ─ Como veio parar até nós?
         Artaloytia respondeu:
         ─ Quando me convidaram disseram ‘Venha connosco!’ Não quis dizer que não… só para os não contrariar.
         ─ Foi uma boa atitude da sua parte ─ comentou Ratazana. ─ Não podia ter escolhido melhor hora.
         ─ Não foi boa nem má ─ prosseguiu Artaloytia. ─ Só quis conhecer a casa e conhecer outros amigos. Não contava conhecer assim tantos.
         ─ Não confiar em todos os amigos é uma boa precaução durante a vida ─ disse Ratazana. ─ Sabe, no festejo do 6º Aniversário do bar, fiz um acordo pré-assinado com os traidores para evitar a confusão dos cravanços de amizade. Praga. Era mais praga de que qualquer praga de ilusão. Nessa altura, ninguém deixou de assinar. Era confortante. Mas ficou-me na ideia durante todos estes anos.
         ─ Acho que há poucos clientes que venham verdadeiramente para cravar, seja no bar ou num estabelecimento similar. Só tem de disfarçar, porque cravanço é uma coisa que toda a gente procura esquivar e pôr-se a francos. O cravanço pode ser mais horrível de que qualquer coisa que nós possamos imaginar.
         ─ Tentar ajudar os amigos quando se puder também requer algum simbolismo de amizade ─ observou Novais.
         ─ Ouvi falar de um cravanço que o senhor anda a querer receber há uns meses mas … ─ disse Ratazana.
        ─ Mico ─ interveio Novais. ─ Teria sido um empréstimo sem importância mas abafaram-no para que ninguém desse ao lamiré. Mas não estão zangados.
         ─ O meu coração é muito sensível aos amigos ─ explicou Artaloytia. ─ Mas quando as pessoas não sabem comportar-se como deve ser ou não tentam, fico três vezes mais sentido que o próprio.»
         ─ Mudemos de tema ─ disse Ratazana. ─ Desde os meus tempos de miúdo que sou um ferrenho de livros de todos os géneros. Quando comecei a interessar-me pelo mundo da noite passei a sentir mais atracção pelas histórias, e em especial, às histórias nocturnas, que poderiam ser a base para uma carreira.
         «Há uma história que li num livro qualquer, não me lembro qual, e de que nunca mais me esqueci. Não é por aí uma história de grande monta, mas merece ser contada.
         «Era uma história sobre uma prostituta veterana que gozava ao sexo. Era tão boa na matéria que atraía os clientes-broncos à conquista por blá-blá-blá para seduzi-la. Não é difícil de entender que uma cantada mal cantada e fora de tom deve ser extremamente desconsolada quando as peles não aumentam.
         «Um lambido cabeludo que se atirava ao barrote pôs-se a fazer olhinhos e, habilmente, a tal prostituta usou a técnica de levantar o músculo com a maior descontracção mas nada resultou.
         «O lambido disse: ´És boa demais.`
         «A prostituta respondeu: ´E tu mau de menos.`
         «O cabeludo saiu de cabeça cabisbaixa. Que frustração!
         «Não sei a história era assim ou não, acrescentou Ratazana, mas é tão rocambolesca que talvez fosse.
         A nossa conversa era à roda do mundo da noite, um tema que apaixonava Ratazana e, Artaloitya não se cansava de o ouvir. Artaloitya era muito mais velho do que Ratazana.
         ─ Penso que as pessoas que gostam de beber ─ disse Ratazana ─ têm menos interesse pelo sexo.
         «Quando era miúdo, eu era muito ardido e sexualmente descomplexado. Era trintão quando casei.
         Notando na expressão de malandro no rosto de Novais, riu-se momentaneamente e, logo, prosseguiu.
         ─ Penso que demasiada bebida quando se está desocupado aniquila o sexo. Por isso, tem de se parar de beber para se libertar o sexo. Acho que isso ajudou a criar um ambiente de sexo no meu ofício. 
         «Tal como o engasgo, experimentar uma tossidela faz-nos sentir atrapalhados. Na noite, podemos experimentar estes sintomas dispersos, sem ter culpa disso.»
         No fim do jantar, Ratazana tomara a sua bebida preferida na juventude: um pingo de café com leite. Tanto Ratazana como Artaloitya comiam muito devagar. Já que ambos pareciam apreciar as histórias e estar interessados em ouvi-las.
         As moças que andavam a servir às mesas não passavam de camareiras de bar que Ratazana trouxera para ajudar a servir o jantar. Uma das moças trouxe a cabeça do galo em cru e sorriu abertamente, de fila de dentes cerrados e saia muitíssimo curta. O seu olhar resplandecia malícia ao informar a Artaloitya, que o pica-no-chão, era uma oferta ganha a leilão pelo Engenheiro Campos, acrescentando em seguida, num acto de meia-galisse para Artaloitya, que sentia uma enorme atracção física pela sua pessoa e que a noite era ainda uma criança. Como que entusiasmada da sua própria lata, afastou-se vagarosamente para a sua cadeira. Artaloitya, que a cortejava á bastante tempo, olhou-a e distribui-lho um olhar não menos malicioso.
        Então, voltou-se para Ratazana e disse:
         ─ As suas camareiras não são marotas, são maroteiras.
         Disse que lhe fazia lembrar a primeira namorada que deveria ter sido a última. Deveria ter sido o seu primeiro amor mas não o foi.
         ─ A minha namorada favorita conquistei-a num luxuoso bar de hotel, onde o barman me estava a servir um bourbon. A jovem vinha de penteado aos caracóis e trazia um saco floreado da moda e estava a dar uns pequenos retoques ao cabelo através do espelho da sala. Depois, a jovem dirige-me um olhar deveras cativante, enquanto caminha. Está muito compenetrada no seu olhar. Saboreia-o mentalmente. 
         «Mas todos nós sabemos o que acontece quando alguém pensa numa conquista. A ilusão irá criar um balão cheio de oxigénio e naturalmente os intervenientes também. Quem sabe como esta jovem que acabei de referir.
         Um cliente perguntou a Ratazana se o grupo quando saísse dali iria para algum lado especial. Ratazana disse que não e acrescentou que todos os presentes, incluindo ele, seguiriam em directo para o bar, excepto alguma excepção à última hora.
         ─ Há uma coisa que gostaria de lhe perguntar ─ disse Artaloitya. ─ Como foi passar assim tão repentinamente de um bar de alternos para um bar de saídas?
         ─ Não foi tão diferente como esperava ─ explicou Ratazana. ─ Com clientes melhores e bom grupo feminino, todas as possibilidades eram atraentes. Por outro lado, na cidade do Porto tudo parecia muito igual e, logicamente, mais saturador por causa dos sistemas rotativos e da necessidade de um projecto mais aliciante. Além demais, a cidade do Porto está cheio de bares das mesmas características.
         «Loureiro, o meu primeiro boss da noite, queria implantar num velho bar da baixa que servia de bar cervejaria para uma casa de passe com quartos. Queria explorá-lo numa casa de prostituição mas, acabou por isso, ir parar à prisão.
         ─ Que coisa feia ─ disse Artaloitya ─ porque a prostituição é ilícita. Foi brilhante não se ter misturado numa coisa dessas. Não podia ter feito melhor opção.     
         Enquanto Artaloitya se serviu de novo uísque, Ratazana acabou de fumar um cigarro e propôs uma malandrice.
         ─ Vamos jogar o jogo da pitarrela ─ disse. ─ Escolhemos uma rapariga e, depois, vamos tentar descobrir a pitarrela.
         Deu uma olhada em volta e decidiu-se por uma rapariga de aspecto desconsolado, branca e de lábios finos. ─ Num bar cheio de clientes bem consolados, essa rapariga salientava-se por estar extremamente desconsolada. ─ Uma desconsolada é como um bife sem sal, porque ninguém a quer comer de cebolada ─ explicou Ratazana.
         Um cliente que se encontrava aos fundos da mesa do nosso lado direito, profundamente entretido em estilhaçar os palitos, chamou a atenção de Ratazana. Os dedos do cliente tornavam-se num alicate. Olhando o homem, Ratazana salientou que o homem não se sentia à vontade. ─ Vê-se que ele está nervoso com os palitos, caso contrário não teria feito um monte de pauzinhos, que estavam a ornar a taça de champanhe.
         «Estão a ver o homem? Tem uma pele muito fina. Pode ficar-se a saber muita coisa acerca de um homem, olhando-lhe para a pele, ─ disse Ratazana.
         Artaloitya bebeu um gole duma golada só.
         ─ Acredita que, quando era menino e moço ─ disse Artaloitya «era tão corpulento que as namoradas, a minha mãe, as criadas, estavam sempre a tentar dar-me uma dieta? Comia de tudo que viesse para a mesa e bebia de tudo um pouco que estava numa mesa. Pensava que tinha a bicha-solitária. Nesse tempo, só vivia para o estudo.
         ─ Eu era ao inverso ─ disse Ratazana. ─ Sempre fui leve mas era forte. Acho que nunca perdi a sorte porque não tenho aspecto de não ir a todas. Não tenho aspecto de quem desiste à primeira, só por ver aquela palha.
         ─ Há-de ganhar muitas sortes ─ observou Artaloitya. ─ Dê tempo ao tempo.
         Artaloitya perguntou a Ratazana se gostaria de ser magro e meio gordo.
         ─ Gostaria. Mas gostaria pensar que não corro à balda. Corro o essencial. É a minha disciplina prioritária.
         Enquanto a conversa decorria, Novais mantinham-se contador de anedotas, um homem baixo, simpático, que conversava muito. Ratazana olhava de lado para ele, para ver a sua reacção quando o picava.
         ─ Sabem como é que este senhor se deu comigo? ─ perguntou Ratazana, olhando de sobrolho para Novais. ─ Acompanha-me sempre nos espectáculos. Tem dom, mas para eu aturar as suas embirres, só preciso de tapar mais os ouvidos. E depois manda-me àquela parte. Não posso enervá-lo por muito tempo, senão Baixinho chama-me ranhoso certamente. 
         ─ É um homem calmo ─ comentou Artaloitya.
         ─ Fomos feito um para o outro ─ disse Novais. ─ Os nossos estilos centralizaram-se.
         ─ O Novais já era cliente de bares quando o conheci mas não sabia tanto como eu ─ prosseguiu Ratazana. ─ Fui eu quem o ensinou. Por isso é que ele me aturou tanto.
         Novais soltou uma risada envolvida com o fumo do tabaco. ─ Porque gosto de ranhosos como você.
         ─ Que boa piada ─ observou Artaloitya.
         Ratazana acenou.
         ─ Sim, já a conheço.
         ─ Vocês são um ponto ─ disse Artaloitya olhando fixamente para Ratazana.
        ─ Ouvi dizer que, depois de acabar o serviço, você consegue saber o movimento todo ─ disse Artaloitya. 
         ─ É verdade, sim senhor.
         ─ Já conseguia fazer isso, quando começou a iniciar a sua carreira, no início dos anos 70?
         ─ Sim. A minha mente funciona às maravilhas, tal como a mente de um contabilista, pensando por números. Tenho armazenado boas lembranças da minha infância, dos tempos do tasco de meu pai. Posso é não ter a certeza de me lembrar de todas. 
        Ratazana fez uma pause para o cigarro, prosseguindo:
         ─ Aprendi a fazer isso com ele. Agora não sou capaz de passar um dia sem revisar todas as mesas, todos os clientes da sala, todas as despesas dos clientes. Demoro é às vezes um tempito a mais. 
         Ratazana rematou:
         ─ A minha vida é um livro. Se assim não fosse, não sei do que estaríamos agora para aqui a falar?       
         Perguntei a Ratazana se era verdade que não esperava pelo total da máquina registadora no fim do serviço.
         ─ Não e explico-lhe porquê – respondeu.
         ─ «Aí por volta de 1971, depois de acabarmos os trabalhos juntos, o patrão Loureiro, chamou-me para assistir com ele à soma do apuro do dia. Como já não estava ninguém na sala, fui à casa de banho, tirei o bloco de notas do bolso das calças, somei parcela por parcela e, quando cheguei ao balcão, depositei o dinheiro e disse-lhe: ´Este é o meu apuro. Agora, desconte os créditos que fez aos seus amigos.´ A partir desse momento, estabelecemos uma regra como fazer em termos de créditos e, por isso, nunca mais tive de utilizar o bloco de notas. Agora, só preciso de estar atento ao movimento para saber exactamente qual a parte que me cabe.»
         Artaloitya relembrou o slogan de Ratazana no certame para a eleição da Miss do Bar, todos os anos eleita, de que «as raparigas dos arranjinhos merecem esse tributo.»
         ─ Fui elogiado de dizer isso ─ confessou Ratazana ─ mas acho que o que faço não passa de uma simples brincadeira. É evidente que gosto de tudo o que é festas e as raparigas não me levam a mal por isso. 
         «Sempre estive de braços abertos para dar uma boa festa às raparigas que colaboravam comigo.»
        Enquanto falávamos, aproximou-se um cliente, a pedir uma boleia para casa a Ratazana e ele prontificou-se a levá-lo. Depois do cliente se afastar, Artaloitya virou-se.
         ─  Estão sempre a chateá-los estes tipos.
         ─ Nunca me chateiam – replicou Ratazana. – Numa família têm de haver sempre um ´Cristo.´ E porque não ´eu?.`
         Dava-lhe enorme prazer que os clientes ou as raparigas do bar requisitassem os seus serviços e contribuíssem com a mesma moeda.
         ─ A moeda tem duas faces e a face é incógnita. Por isso mesmo, para mim, prestar serviço e fazer com que ele angarie mais público é a principal função de um servidor. Caso contrário, é melhor mudar de ofício.
         Ratazana deitou o cigarro fora.
         ─ E é uma boa maneira de não andarmos para aqui a estorvar-nos uns aos outros. Engenheiro Luís V. de Almeida tem a resposta certa. Quando não gosta dos seus empregados, despacha-os.
         ─ Há alguns colegas com que gostasse de ter trabalhado?
         ─ Claro que sim. Hamilton da Tentativa. Sabia que conseguia ter três amantes juntas na boate? Gostava de ter traba-lhado com Reinaldo Teles. A Taberna do Infante é uma casa soberba, uma das melhores. E gostava de ter trabalhado com Aurora, mas tal nunca acabou por acontecer.
         Intervim que tanto Hamilton, como Reinaldo Teles e Aurora estavam fora do ofício.
        ─ Invejo-os – disse Ratazana. – São todas umas grandes personagens da noite. Eles sabem que eu me entusiasmava com os seus efeitos. Eu próprio lhos disse numa certa ocasião. É verdade. Penso que, na realidade, comandar mulheres é somente uma questão de começar por escolher as melhores camareiras. Depois, tem-se uma táctica para elas.
         Quando estávamos a levantar da mesa, Artaloitya disse: ─ Tem uma folha de serviços de que pode orgulhar-se muito, mister, nem sei o seu nome verdadeiro. 
         ─ Trate-me por Ratazana. É a minha alcunha traidora. Orgulho-me sim, mas tive alguma sorte. A parte principal é saber aproveitar.
         «Algumas vezes, sentia que ia bacilar. A meta que separa o êxito do malogro é muito rente. Consegui equilibrar-me no trapézio, apesar de não ter tido vocação para trapezista.»

         Quando saíamos do tasco, Novais disse-me: ─ Em todos estes anos que lidámos juntos, este maduro, desculpe o termo, nunca me aborreceu por completo. Não há muitos clientes que possam dizer o mesmo.


Saturday, October 3, 2015





Em 1980, o imobiliário P. da Costa foi levar uma mulher chamada Mónica, que conheceu pela primeira vez, a ver um apartamento que esta pretendia alugar, na zona do Carvalhido, no Porto. Quando estava a observar o apartamento, Mónica suspeitou nitidamente das intenções de Costa e não tirava os olhos de cima dele. Três anos mais tarde, Mónica, no seu comentário pessoal, revela: «Queria que eu fosse a sua amantezinha — e queria que eu metesse a língua na sua boca. Sabia que ele estava pronto por me saltar para cima...» A atitude de Costa a este acanhamento simulado foi preparar-se para o assalto a ela, de calças em baixo. Mónica ficou completamente arrasada, com as suas «maneiras bruscas» e gritou para ele acabar com aquilo. Ele obedeceu prontamente. Na próxima vez, foi mais cavalheiro. Levou-a a ver outro apartamento para alugar, mas mobilado e recheado com todos os eletrodomésticos, na zona do bairro de Monsanto, no Porto. E a relação há muito esperada aconteceu na cama. «O calor que parecia ardente aumentava, tornava-se cada vez mais quente, e rapidamente puxou a persiana acima, e o ar ficou mais respirável... A seguir, Costa deitou-se ao meu lado, excitando-me com beijos ardentes e meigos nos ouvidos... e, de repente, tentou convencer-me a praticar  — sexo anal — e, quando eu me recusei, ele disse-me: «Relaxa-te amorzinho — todos os casais o experimentam». Depois senti uma dor aguda a penetrar dentro de mim e no último segundo gritei, mas não parei o ritmo. A dor cegou-me mais do que o calor do ambiente, e pedi-lhe num murmúrio que dissesse: «Chama-me tua panelinha, chama-me! e entrei em loucura, como se estivesse em êxtase, — e depois aceitei-o por completo.» Costa detestava preservativos e, como resultado disso, a sua amantezinha-panelinha engravidou. Tinha de assumir a paternidade ou então concordar ambos num aborto. Costa e Mónica tentaram levar a coisa nas calmas, e Mónica foi fazer um teste que confirmou a sua gravidez e que ia ter uma menina. A ideia de ter uma menina quase o ia levando ao delírio, pois Costa era casado e pai de três meninos. Consta que Costa disse aos amigos na festa de anos: «Bem rapazes, isto é melhor do que a lotaria, mas ainda vamos ter que esperar.» Costa começou a passar a maior parte do tempo a conviver com clientes da boémia, enquanto Mónica e as suas meninas tomavam conta do bar. Dois meses depois, Mónica abortou e Costa desfez-se em lágrimas de pranto. Os rumores começaram a circular de boca em boca; continha pormenores das manobras de Mónica, incluindo o simulado da gravidez, e por fim, um bocado de uma tripa de porco comprada no talho, como amostra de um possível feto de criança. As bocas tiraram o maior partido destas revelações. Houve alguém que comentou: «Mesmo os palermas, que gramavam o Costa há meia dúzia de meses, preparam-se para fazer abrir as goelas para se rirem dele.» Um ano depois, enquanto Costa se debatia com problemas intestinais, Mónica terminou a relação e proibiu-lhe a entrada na sua casa.


As bocas dos clientes habituais aproveitaram todas as oportunidades para incendiar os tarados e viciados de O Mundo da Noite; continuaram a tirar partido dos casos de P. da Costa, mesmo depois de este ter desaparecido do ambiente. Os patrões de O Mundo da Noite achavam que teriam de fazer qualquer coisa urgentemente para mudar a imagem da capital do prazer. Abraão foi na deixa e fundou um pasquim semanal intitulado O Jornal Dos Traidores, cuja primeira edição era aguardada com enorme frenesim e, Abraão, que era um ótimo contador de histórias com mais de uma dezena de livros publicados sobre histórias de frequentadores da noite, aproveitou o seu bom humor para fazer valer os seus dotes literários. O seu objetivo principal, consistia muito simplesmente, em detetar desgraças dos clientes e das mulheres da noite — as que eram tara-maníacas, as que eram dependentes de comprimidos, as que partilhavam o homem com a amiga, e as que eram histéricas ou lésbicas. O sucesso do pasquim foi tão grande que Abraão se podia dar ao luxo de ter informadores por todo o lado a dar-lhe dicas para um artigo para as colunas das fofoquices. As notícias chegavam às manadas. Abraão depressa compreendeu que a maioria dos frequentadores preferiam saber das bisbilhotices dos outros, ignorando as suas. E logo, uma das vítimas decidiu contestar o jornal; depois de um artigo que se referia a umas brincadeiras de vibrador numa banheira. Ana Cinzenta roubou O Jornal Dos Traidores. Só havia uma tiragem. Outras mulheres da noite seguiram-lhe o exemplo. Fifi fez um escabeche e escondeu debaixo do sofá O Jornal Dos Traidores por a ter acusado de pagar as despesas a um cliente da noite. Dois meses depois, na Residencial da Xangô, Albertinho das Flores, ameaçou O Jornal Dos Traidores por insinuar que tinha drogado uma acompanhante para fazer amor com uma prostituta, jurando não mais voltar ao bar. Foram tantos os clientes-traidores que apresentaram reclamações que Abraão decidiu mudar de estratégia e deixar de publicar fotos das personagens. Depois de Abraão se ter tornado o «rosto de O Mundo da Noite», foi escrevendo história sobre história, a qual escrevia qualquer artigo capaz de provocar a fofoquice, mesmo em casa alheia. Mas os casos escandalosos continuavam a aparecer. Abraão dizia às suas prostitutas e colaboradoras que deviam limar a sua vida pessoal de modo a que qualquer atitude «vergonhosa e suja» fosse evitada. Todavia, ele mesmo era conhecido por se aproveitar de sua posição para ir para a cama com as colaboradoras, enquanto as suas histórias malandras incluíam sempre um bacanal lordesco ou cenas que havia casais na mesma cama.