Saturday, October 3, 2015





Em 1980, o imobiliário P. da Costa foi levar uma mulher chamada Mónica, que conheceu pela primeira vez, a ver um apartamento que esta pretendia alugar, na zona do Carvalhido, no Porto. Quando estava a observar o apartamento, Mónica suspeitou nitidamente das intenções de Costa e não tirava os olhos de cima dele. Três anos mais tarde, Mónica, no seu comentário pessoal, revela: «Queria que eu fosse a sua amantezinha — e queria que eu metesse a língua na sua boca. Sabia que ele estava pronto por me saltar para cima...» A atitude de Costa a este acanhamento simulado foi preparar-se para o assalto a ela, de calças em baixo. Mónica ficou completamente arrasada, com as suas «maneiras bruscas» e gritou para ele acabar com aquilo. Ele obedeceu prontamente. Na próxima vez, foi mais cavalheiro. Levou-a a ver outro apartamento para alugar, mas mobilado e recheado com todos os eletrodomésticos, na zona do bairro de Monsanto, no Porto. E a relação há muito esperada aconteceu na cama. «O calor que parecia ardente aumentava, tornava-se cada vez mais quente, e rapidamente puxou a persiana acima, e o ar ficou mais respirável... A seguir, Costa deitou-se ao meu lado, excitando-me com beijos ardentes e meigos nos ouvidos... e, de repente, tentou convencer-me a praticar  — sexo anal — e, quando eu me recusei, ele disse-me: «Relaxa-te amorzinho — todos os casais o experimentam». Depois senti uma dor aguda a penetrar dentro de mim e no último segundo gritei, mas não parei o ritmo. A dor cegou-me mais do que o calor do ambiente, e pedi-lhe num murmúrio que dissesse: «Chama-me tua panelinha, chama-me! e entrei em loucura, como se estivesse em êxtase, — e depois aceitei-o por completo.» Costa detestava preservativos e, como resultado disso, a sua amantezinha-panelinha engravidou. Tinha de assumir a paternidade ou então concordar ambos num aborto. Costa e Mónica tentaram levar a coisa nas calmas, e Mónica foi fazer um teste que confirmou a sua gravidez e que ia ter uma menina. A ideia de ter uma menina quase o ia levando ao delírio, pois Costa era casado e pai de três meninos. Consta que Costa disse aos amigos na festa de anos: «Bem rapazes, isto é melhor do que a lotaria, mas ainda vamos ter que esperar.» Costa começou a passar a maior parte do tempo a conviver com clientes da boémia, enquanto Mónica e as suas meninas tomavam conta do bar. Dois meses depois, Mónica abortou e Costa desfez-se em lágrimas de pranto. Os rumores começaram a circular de boca em boca; continha pormenores das manobras de Mónica, incluindo o simulado da gravidez, e por fim, um bocado de uma tripa de porco comprada no talho, como amostra de um possível feto de criança. As bocas tiraram o maior partido destas revelações. Houve alguém que comentou: «Mesmo os palermas, que gramavam o Costa há meia dúzia de meses, preparam-se para fazer abrir as goelas para se rirem dele.» Um ano depois, enquanto Costa se debatia com problemas intestinais, Mónica terminou a relação e proibiu-lhe a entrada na sua casa.


As bocas dos clientes habituais aproveitaram todas as oportunidades para incendiar os tarados e viciados de O Mundo da Noite; continuaram a tirar partido dos casos de P. da Costa, mesmo depois de este ter desaparecido do ambiente. Os patrões de O Mundo da Noite achavam que teriam de fazer qualquer coisa urgentemente para mudar a imagem da capital do prazer. Abraão foi na deixa e fundou um pasquim semanal intitulado O Jornal Dos Traidores, cuja primeira edição era aguardada com enorme frenesim e, Abraão, que era um ótimo contador de histórias com mais de uma dezena de livros publicados sobre histórias de frequentadores da noite, aproveitou o seu bom humor para fazer valer os seus dotes literários. O seu objetivo principal, consistia muito simplesmente, em detetar desgraças dos clientes e das mulheres da noite — as que eram tara-maníacas, as que eram dependentes de comprimidos, as que partilhavam o homem com a amiga, e as que eram histéricas ou lésbicas. O sucesso do pasquim foi tão grande que Abraão se podia dar ao luxo de ter informadores por todo o lado a dar-lhe dicas para um artigo para as colunas das fofoquices. As notícias chegavam às manadas. Abraão depressa compreendeu que a maioria dos frequentadores preferiam saber das bisbilhotices dos outros, ignorando as suas. E logo, uma das vítimas decidiu contestar o jornal; depois de um artigo que se referia a umas brincadeiras de vibrador numa banheira. Ana Cinzenta roubou O Jornal Dos Traidores. Só havia uma tiragem. Outras mulheres da noite seguiram-lhe o exemplo. Fifi fez um escabeche e escondeu debaixo do sofá O Jornal Dos Traidores por a ter acusado de pagar as despesas a um cliente da noite. Dois meses depois, na Residencial da Xangô, Albertinho das Flores, ameaçou O Jornal Dos Traidores por insinuar que tinha drogado uma acompanhante para fazer amor com uma prostituta, jurando não mais voltar ao bar. Foram tantos os clientes-traidores que apresentaram reclamações que Abraão decidiu mudar de estratégia e deixar de publicar fotos das personagens. Depois de Abraão se ter tornado o «rosto de O Mundo da Noite», foi escrevendo história sobre história, a qual escrevia qualquer artigo capaz de provocar a fofoquice, mesmo em casa alheia. Mas os casos escandalosos continuavam a aparecer. Abraão dizia às suas prostitutas e colaboradoras que deviam limar a sua vida pessoal de modo a que qualquer atitude «vergonhosa e suja» fosse evitada. Todavia, ele mesmo era conhecido por se aproveitar de sua posição para ir para a cama com as colaboradoras, enquanto as suas histórias malandras incluíam sempre um bacanal lordesco ou cenas que havia casais na mesma cama.









Friday, September 4, 2015




Eis como, nas mais diversas situações, Artur Bófia foi ao encontro do amor
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Para Artur Bófia, o amor era como o atuar. 
Esta é a história de um dos seus casos amorosos. Tinha regressado da esquadra do Porto, depois de mais uns dias de licença. O dia estava chuvoso. Poucas eram as pessoas que andavam a pé pelas ruas, mas de todos os estabelecimentos topava-se pessoas a ver a chuva a cair, e outras enroladas numa conversa. O ar cheirava a lavado e fresco. Quando, às quatro da tarde, a chuva pareceu querer escassear por uns instantes, Artur Bófia que tinha passado um bocado no café, saiu e pôs-se a caminho da casa do Pipocas. Estava com frio e com saudades. Na altura em que chegava precisamente perto da loja de frutas, levou com uma tromba de água em cima. Artur Bófia ficou como um gato-pingado. Correu da chuva, e procurou a casa mais próxima, que era aquela onde habitava a tia Justa, uma viúva de cerca de trinta e oito anos, cuja recente viuvez a deixara razoavelmente calçada. A tia Justa era em geral aberta e descomplexada, o que de certo modo, dispunha-se sempre alegre. Quando Artur Bófia bateu à porta, tinha ela acabado de tomar um banho e estava a secar o cabelo. Quando abriu a porta, Artur Bófia estava á entrada pingando água para cima do soalho.
— Entra e aconchega-te, antes que te constipes — disse a tia Justa.
Artur Bófia, olhando para os seios como um mirolha observa um elefante, tirou o casaco. A chuva batia no telhado. A tia Justa pegou numa garrafa de uísque e colocou-a no centro da mesa.
— Queres tomar um copo de uísque?      
Ainda o primeiro copo de uísque não estava emborcado e já os olhos de Artur Bófia estavam de novo pregados nos seios. Bebeu o copo de uísque antes de proferir palavra. A tia Justa bebeu também, pois só assim conseguiria descontrair e começou a saborear o uísque quando bebeu uma boa dose.
— Este uísque não é do mercado?
— Ah, pois não; uma amiga minha, uma senhora espanhola é que mo orienta.
Embutiu novo copo.
Começara a escurecer. A tia Justa atirou umas achas para o lume. «Já que a chuva tem de cair, que caia», disse de si para si. Fixadores, os seus olhos prenderam-se no enorme físico de Artur. O peito encheu-lhe um pouco.
— Andas a vir muito para estes lados, meu malandro. Chega-te, dá-me a roupa, que é para a pôr a secar, e cobre-te aí com o cobertor.
Artur Bófia não usava muito a mentira. O seu pensamento não atinava lá com esse processo.
— Tive no café a fazer horas com uns amigos.
— Mas estás feito numa rodilha.
Captou-o em busca de alguma reação em relação à sua generosidade, mas o rosto de Artur Bófia não alterou uma unha sequer, a não ser o contentamento que sentia por estar coberto da chuva e a beber uísque. Estendeu o copo para beber de novo. A tia Justa emborcou outro copo para si. O fogo aquecia, deu uma sensação de bem-estar que contrastava com o bater da chuva no telhado. Artur Bófia não fez o mínimo esforço para se mostrar grato para com a anfitriã. Bebeu o uísque em pequenas doses, sorria estupidamente para o fogo e fumava na cadeira. A ira e o desespero crescerem na tia Justa. «Olhem para este animal», disse de si para si. «Olhem que besta esta que me havia de aparecer. Antes tivesse eu abrigado um cão da chuva. Outro homem qualquer teria para mim, pelo mínimo, uma palavra amiga.»
Artur Bófia pediu para encher mais um copo. Foi a vez de tia Justa dizer o que ia dentro da sua alma.
— Quando a chuva cai e o fogão arde, não há como um grupo de amigos aconchegados no calor, não achas? 
— Acho.
— Talvez as persianas te incomodem — arriscou ela. — Queres que as feche?
— Não me incomoda — respondeu Artur Bófia —, mas se vê inconveniente, não faça cerimónia.  
A tia Justa fechou as persianas e a sala mergulhou no semiescuro. Depois, voltou a sentar-se esperou que Artur despertasse a sedução. Aos seus ouvidos chegou o ruído do brusco atirar do fumo do cigarro de Artur.
— Pensar — disse ela —, que ainda há minutos estavas lá fora, a correr da chuva, e agora, estás aqui, sentado na cadeira, a beber bom uísque, a fumar a teu bel-prazer e na companhia de uma viúva que te estima que quer o teu bem.
De Artur Bófia nem uma palavra se ouviu. A tia Justa não o via nem ouvia. Bebeu o último trago do uísque e atirou às malvas a vergonha por ares e ventos.
— A minha amiga Xanana Maluca contou-me que alguns dos teus amigos a visitaram numa ocasião em que chovia a rodos e ela tratou-os tão bem que eles foram muito gentis com ela.
Da direção de Artur veio o som de um pequeno ronco. A tia Justa quando se aproximou, nem queria acreditar no que os seus olhos estavam a ver. Artur Bófia estava mergulhado num profundo sono. A cabeça voltada para trás, os pés atirados para a frente, a boca toda escancarada. Enquanto a tia Justa, atordoada e chocada, comtemplava a cena, um tremendo ronco saiu da boca de Artur Bófia. Passou-se dos carretos. Nas suas veias correu uma boa dose de revolta e frustração. Não gritou. Não, embora a sua vontade fosse tanta, dirigiu-se à banca da cozinha, encheu um balde de água, deixou-o atestado, e pegou nele. Depois, voltou-se lentamente para Artur. O primeiro lanço apanhou-o na metade da cabeça e atirou-o da cadeira ao chão.   
— Reles! — gritou a tia Justa —, reles imundo! Vai roncar para a tua rua!
Artur rolou pelo soalho. O lanço seguinte fez-lhe um penteado novo no cabelo todo puxado para trás. Artur Bófia despertava agora rapidamente.
— Ei! — disse. — Que mal eu te fiz?
— Já te digo! — gritou ela.
Abriu a porta para trás e com o dedo esticado fez sinal de marcha. Artur Bófia levantou-se meio cambaleante sob as enxurradas de água. Saiu pela porta fora, enxugando o cabelo com as mãos.
— Não atires mais água — implorou. — Mas que mal eu te fiz?
Com uma fúria animal, agarrou-se a ela e caíram no carreiro do jardim. A fúria dele era terrível. Sem deixar de a largar, segurou-a forte contra si, enquanto ela agitava violentamente os braços, para se libertar dele. Continuando a agarrá-la e estado abraçado a ela, o amor surgiu nele. Acariciou-lhe o cabelo, percorreu-lhe o corpo com as mãos grossas, sacudiu-a como se sacode uma trouxa. Apertou-a por uns momentos até a calma dela abrandar. 
— Reles imundo — gritou —, cão!
À noite, no Marco de Canaveses, um guarda-noturno patrulha as ruas a pé para impedir que as coisas boas se transformem em más. Desta vez José Gabardines equipava uma gabardina impermeável com um brilho semelhante ao alcatrão. José estava triste e chateado. Não era nada difícil fazer patrulhamento nas ruas pavimentadas; mas parte do seu itinerário estava localizado nas ruas de paralelepípedos e nos caminhos lamacentos do Marco de Canavezes e aí, os seus calos sofriam mais. A pequena lanterna iluminava aqui e ali. A noite resplandecia com intensidade.
De repente, José Gabardinas gritou, espantado, e olhou para o chão.
— Ei, lá! Isto já vai aí?
Artur Bófia voltou a cabeça.
— Oh, és tu, José? Ouve, já que de qualquer modo viste o que não devias ver, não podes mudar de rua uns minutos?
O guarda-noturno fez as pernas mudar de rota.
— Acabem mas é lá com isso. Ainda alguém vos topa e vocês ficam nas bocas.
O guarda-noturno desapareceu por detrás do edifício dos correios. A chuva batia de mansinho por entre as árvores do Marco de Canaveses.


Monday, July 13, 2015


                   NÃO VOS PASSA PELA CABEÇA OS CASOS QUE SE PASSAM
                                                NOS CAMPOS DO FUTEBOL.
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NUNCA VOU ESQUECER A PRIMEIRA VEZ que fui à bola. A primeira foi no estádio das Antas em 1959, quando o Porto jogou frente ao Atlético e ganhou. Tinha 13 anos e passei semanas a comportar-me bem para ver o meu nome na lista dos bem-comportados. Nos primeiros cinco minutos, julguei que me iam levar ao colo, tal era o fluxo da multidão, mas logo, aqueci com o ambiente. E, fartei-me de levar encontrões e pontapés nas canelas. Jamais tinha ouvido tamanha barulheira de gritos como na entrada da equipa do Porto, e naquela tarde, deviam estar mais de 30.000 pessoas no estádio, mas quando eles se punham a gritar todos ao mesmo tempo, parecia que o estádio ia abaixo. É uma experiência que fica marcada para sempre. Eu fiquei apanhado para a bola. Basta ver, quando o jogador chamado Hernâni, toque subtil na bola, faz um sprint veloz, já sabemos que o avançado tinha meio golo nas botas.
Vinte anos depois, tornei-me sócio do F.C. do Porto, e voltei ao mesmo local onde tinha estado, vinte anos antes. Muitos dos momentos mais memoráveis da minha vida, sem dúvida, saíram-me dos campos do futebol. Vinte anos depois, quase uma centena de jogos vistos, os casos mais extrovertidos ainda perdura na minha memória. Recordo o homem das rifas da Ribeiro que começara a ficar nervoso, no jogo em que o meu clube empatou em Coimbra, contra a Académica; viajamos quatro no carro e repartimos as contas à moda do Porto, e entramos aos repelões no estádio às 3 da tarde. O jogo começava uma hora depois. Apareceram aqueles chatos rapazes da terra, cabelo à escovinha, que se fartaram de nos picar, quando deixamos de os ouvir, já o rifeiro tinha enviado um sapato à cabeça de um deles. Menos de 5 minutos para acabar o jogo, há um livre soberbamente marcado por Cubilas e o empate surge, e o delírio nas bancadas passa-se dos carretos. Logo o segundo sapato voa em direção à cabeça dos rapazes, que fogem em debandada. Ele começara a rir-se e não conseguira parar. Troquei de turno ao trabalho, em 1978, para ver o jogo em que o meu clube se tornou bicampeão contra o Barreirense, no estádio das Antas. Recordo o momento em que o jogador Oliveira, o nosso cérebro da equipa falhou o golo ao poste contrário por uma unha negra. Quando um sócio do meu clube de rádio ao ouvido, ouvindo o encontro do rival, grita para ele aos altos berros, chamando-o de aselha e boémio para logo a multidão cair numa barulheira infernal durante 5 minutos, para aclamar o genial golo de Oliveira, já se sabe que o rádio voa das mãos do sócio e alguém vai ficar em mau estado.
Mais uma.
Que rica tarde soalheira nos aguarda à chegada ao campo do Varzim para assistir ao jogo que interessa ao meu clube: a vitória dá-nos o título de tricampeão. E nas bancadas, logo a seguir ao primeiro pontapé na bola, a emoção sobe ao rubro em jogadas a rondar a baliza contrária, perante o arrastar das vozes da multidão em pulgas, na eminência de ver uma bola entrar. Uma escapadela do jogador azul e branco põe tudo em choque, mas o avançado sem acerto atira a bola pró monte.
E o último quarto de hora é de gritos. Quando soa a apitadela final, o empate persiste, e a equipa do Varzim dirige-se à nossa bancada para a despedida da praxe, é claro que sai vaia e em seguida um coro de raiva. Quando um rapazito dos nossos, sufocado em lágrimas, sobe ao gradeamento debaixo de uma emoção forte para um polícia de cassetete na mão cair em cima dele, já se sabe, que a nossa claque e massa associativa solta um longo Ah, Ah, Ah, durante 20 segundos, e rápido o polícia cavar dali em passo de corrida. 
E mais outra.

Ir a Viena de Áustria em 1987, quando vencemos o Bayern de Munique na final da Taça dos Campeões Europeus, e ver o fenomenal calcanhar de Madjer, é coisa única no nosso historial. Sumir chiclete atrás de chiclete até os engolir durante uma das maiores aflições de uma tarde gloriosa do Porto trazer a taça UEFA, em Sevilha, no ano de 2003. Essa era uma das minhas histórias que tinha para contar daqueles jogos e nunca deixei de o fazer.

Porque gostava de as contar.

Tuesday, June 2, 2015





                                                    ─ Recordo-me de casos ─
                                                                     ~~~

Nas casas da noite da minha cidade havia patrões que foram empregados da hotelaria. Eram bons profissionais. Tinham de ser. Se não fossem, os empregados sabê-lo-iam logo. Sabe muitas coisas, essa gente da noite. E recordo-me de uma noite, era ainda um novato, em que me encontrava no começo da minha carreira. Havia uma boate na cidade aberta há pouco tempo. A sala estava cheia de gente e havia mulheres bonitas vestidas à moda, uma pista de dança e uma artista de strip-tease. E durante a noite as pessoas divertiam-se e bebiam que se fartavam. No reservado do centro, um dos patrões chamou o sócio-trabalhador e disse: «Quero que me tragas a artista do strip-tease. E que a ponhas aqui sentada ao meu lado, acompanhada de uma garrafa de champanhe francês.» «Antes de actuar ou depois?», perguntou o sócio trabalhador. O grande boss deitou-lhe a mão no ombro e prosseguiu: «Quero que digas ao rapaz da cabina para pôr aquele disco “Je T´aime Mon Amour” e que abaixe a luz da pista, porque me dá uns calores diabólicos e quero relaxar. Também desejo não ser incomodado, nem pelos clientes, nem pelos amigos, pois quero estar à vontade. Estou em minha casa e os meus amigos que se divirtam. Diz-lhe que venha bonita. Diz-lhe isso. E diz-lhe também para pôr aquele perfume nocturno. O barman que faça umas tapas variadas e pede-lhe também para pôr umas fatias de presunto como eu gosto. Trata disso rápido.»
─ Porque lhe teria dado para aquilo? ─ perguntou o cliente.
─ Tinha visto a stripper ─ respondi eu. ─ Não era capaz de passar sem vê-la. Assistia a todos os shows e, passados uns dias, pegou no dinheiro todo que tinha no banco e começou a procurar uma casa. Foi então que resolveu abrir uma boate. Arranjou um sócio-trabalhador para orientar o negócio e deu-lhe uma cota adiantada. O boss nunca mais largou a stripper. Adorava-a.
─ Deixe-me só dizer-lhe isto ─ interveio o cliente. ─ Ele meteu-se no negócio da boate com todo o dinheiro que tinha, apenas porque viu uma strip-tease?
─ Ele não era o dono da boate ─ esclareci eu. ─ Os clientes nunca são donos das casas que frequentam. Mas por amor de uma stripper habilitou tudo.
O cliente ao lado estava a falar no seu sotaque citadino e, para eles, baralhado.
─ Acredito que o gajo, pá, teria pensado que era uma dança sensual e nunca tivesse assistido a um espectáculo de strip-tease, mas depois um gajo, pá, acaba por se habituar a tudo. Num bairro um indivíduo habitua-se a viver em meia dúzia de horas, depois pensaria noutras coisas.
─ É uma história bonita ─ declarou o cliente, com total espontaneidade que os outros votaram para ele os olhos sorridentes.


                                                                                                                       Abraão, em: bardotraidor.blogspot.com/ Porto.


Monday, May 4, 2015




Nesta cidade tudo se resolve. És Chefe de mesa, rapaz. Não podes ter o aspecto da Padeira de Aljubarrota nem do Zé do Telhado. Esse belo salteador. Deve ser atraente ser-se assim, ter uma vida atribulada e terra em vez de miolos. Mas deve ter pensado que não nascera para ser mártir quando acabou deportado naquela província colonial, em Benguela, com os nativos correndo à volta das fogueiras, e as silvas esmagadas pelos mocassins dos seus pés, e sem mais nada que os conformasse além do trepidante e adorável som do batuque, e os seus próprios guerreiros a rebolarem-se uns contra os outros, com medo que as fogueiras se apagassem. O seu corpo estava indescritível, escrevem aqui em O Primeiro de Janeiro. E foi naquela terra de Angola, onde conheceu a sua hora fatal, a última e para sempre. Pobre salteador, pensou. O fim de todas as suas ilusões. É a única coisa boa que têm os salteadores. Nunca têm ilusões, excepto más ilusões.

                                                                                                                                                             O Chefe, em Os Rapazes da Noite.    




MANUEL DIAS, que foi considerado o melhor motorista de todos os condutores que por aí circulam nas estradas, nesses tempos, ele guiou desde bicicletas, motorizadas, furgonetas, camionetas de carga, tractores e carros de todas as cilindradas até chegar ao famoso R.R. (Rollys Royce.) E ainda guiou uma avioneta que sobrevoou Vila Nova de Gaia sem uma asa. Ele conta esse acidente com grande satisfação: Assim que vi a avioneta sem uma asa, pensei logo em safar-me e levei o aparelho para a zona do Cabedelo e fui perdendo altura até embater contra um pescador e, por coincidência, foi o pobre desgraçado que serviu de asa, acabando por equilibrar a avioneta e, assim, aterrei na areia sem danos maiores, a não ser o pescador, que fracturou meia dúzia de costelas e partiu a cabeça.


                                                                                                                                                        Extraído do livro, A Música Que Eu Dou.  


Saturday, April 4, 2015




                                                                                                   Doc e Sapatas
                                                                                                             ____ 


A NOITE, era frequentada por gente de diversos escalões sociais. Uma tarde, numa mesa encostada à parede, o médico Doc ficou sozinho na mesa, mandando-se ao lado do copo de conhaque, de olhos abertos, sorrindo, sorrindo e sorrindo. Enquanto isso, o cliente sai dos lavabos e dá com ele e pergunta:
«Vai consultar alguém, doutor?» – Doc abriu os olhos de espanto: «Sapatas! – respondeu, sorrindo. – Que andas por aqui a fazer, meu tratante?» -
Era um homem muito calmo e tinha uma deficiência física; manejava ao caminhar. Abeirou-se dele, o doutor Doc não abriu a boca enquanto ele se aproximava, somente sorria:
«Só vim beber um copo.» - Disse o manco, «admira-me é vê-lo por cá!...» -
«Eu Sapatas? Diz Doc olhando-o nos olhos. - «Engana-me que eu gosto.» -
«Com licença, doutor», disse Sapatas, sentando-se ao pé dele. «Vou beber aqui uma bebida à sua beira; sabe que gosto muito de falar consigo.» -
«Eu sei que sim», responde ele. «É o desgosto de te atraiçoar com a tua amiga que te dá a volta à cabeça. Como é que eu podia saber uma coisa dessas?»
O empregado interrompeu-os e trouxe mais duas bebidas para eles beberem. Voltaram a recorrer à conversa, mas num molde diferente. Doc pergunta-lhe:
«Já que resolveste passar o tempo ao pé de mim, vais ter de me dizer, como é que vai o teu romance com a amiga brasileira?» -
Sapatas encolhe os ombros e responde:
«Sei tanto como o senhor!» exclamou, levando o copo ao ar. «Ela tanto está comigo como com o doutor.» -
Doc sentia uma enorme dor de cabeça e olha para ele pelo canto do olho. «Continuas a não ter juízo. Qualquer dia, prego-te com uma injecção nessas flautas»,- diz o doutor numa voz rompante, «de maneira a que fiques coxo! Talvez assim te possas endireitar mais!...» - Riu-se desabafadamente. Sapatas, aborrecido, vira a cara para o lado. Momentos depois, o doutor Doc levanta-se e põe-lhe a mão sobre o ombro, dizendo: «Vamos às putas.» -


                                                                                                                Citado por, Doc e Sapatas, em Escritos Traidores.