Saturday, June 29, 2013

FERNANDO ABRAÃO
E RATAZANA
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(7)

                                              


O MUNDO
      DA
  NOITE
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O sol de Abril batia no carro e Cavaleira, como era chamada no Grupo de Traidores, estremeceu quando as suas pernas tocaram no assento. Nessa manhã, a mãe advertira-a para levar calças, mas recusara, sabendo a cena que se seguiria e, de facto, assim foi. Era uma intuição, sabia-o, mas sentia-se com intuito. E porque não tê-lo? Não seria esta uma boa oportunidade para se comportar de forma intuitiva? No dia de festa do bar? (3 de Outubro de 2008) «Há homens para todas», anunciou o dono do bar, Ratazana, à medida que as raparigas iam entrando na sala. «Vamos lá, Cavaleira, hoje é que tu os vais comer!» — «Vamos a ver», respondeu Cavaleira. «Há muitos homens, não há?» — «Sim, é uma ocasião rara», retorquiu Ratazana. — «A primeira vez que venho de saias», observou Cavaleira. — «Que seja a primeira de muitas», vaticinou Ratazana, acrescentando de seguida. «Bem, espero que as saias te tragam bons proventos.» — «Sim, claro», concordou Cavaleira, inclinando-se e sorrindo para a plateia, que olhava espantada para as suas ganchetas. Era engraçado, pensou Cavaleira, a primeira vez que tinha vindo de saias ao bar, era admirada. As outras raparigas vestiam vestidos e calças de ganga, mas não de saias curtas, exceto Cavaleira. Talvez eles não estivessem habituados a vê-la de saias. Talvez achassem que ela até tinha umas pernas atraentes. As saias da Cavaleira acabaram por atrair a malta da traição. Chegaram três pedidos para Cavaleira se sentar à mesa de uns construtores civis e outro para uma ida direta ao quarto. Significava que ela se sentia pretendida... Eles vão endoidecer se não saírem com ela. Não pensam noutra coisa senão naquelas finas pernas que ela tem; davam tudo o que tem para se sentirem enroscados nelas, agora que ela tinha puxado as saias mais para cima. Cavaleira descola da sala em direção à pensão. Miguel tem andado como um perdido atrás dela, que já não pensa perder esta oportunidade, de modo que o chamamento direto à pensão, foi uma bela ideia. Arrastaram-se por todo o quarto! Já se tinham realizado uma vez, quando ele bateu com a cabeça na perna da cama, e logo mudou de direção. Depois, rolaram-se no chão, enroscados um no outro, sobre uma alcatifa pré-aquecida pelo aquecedor e começaram a possuírem-se outra vez. Foi espetacular, e claro, se bem que Cavaleira tivesse alguns sentidos ligados à freguesia que a esperava no bar. Quando acabou, retirou-se rapidamente para o chuveiro e disse-lhe que tinha adorado aquele bocadinho, principalmente, o da primeira parte. Saídas! Quatro... Cinco... Construtores civis, engenheiro, vendedor de máquinas e empregado de mesa. Pousa delicadamente as notas debaixo das solas dos pés e arranja-se rapidamente ao espelho, saindo em bolina. Entra no bar cheio de gente. Ouve-se o seu petulante Quem quer que lhe faça umas cócegas? E explica ao cliente, a sua técnica de arrefecer cócegas. A explicação parece resultar e sabe que está a um passo de se concretizar. Saídas rápidas... Cavaleira, como que reaparecida, passado quinze minutos, mostra-se de novo eufórica em relação àquela festazita de algumas horas atrás. Ri-se para toda a gente, mas no seu riso transparece um certo cansaço. É extremamente perspicaz acerca das energias que já esgotou depois de ter andado numa roda-viva, a tirar e a pôr as saias. Assim que chega, Cavaleira lembra-se de que tem um outro compromisso e sai. Desta vez vai no carro do cliente para o seu apartamento. Cavaleira afoga-o com os seus problemas. Está decidida a pedir mais alguma coisa por ter vindo ao apartamento dele. Um bónus, considera ela. Senta-se no divã, e deixa-o ver-lhe as pernas e as coxas, enquanto relata os nomes dos grandes fodilhões da História dos traidores que a comeram. Talvez... quem sabe?... até ela pode promovê-lo a ingressar na sua grossa lista, confidencia-lhe. Enquanto se encontram na marmelada um com o outro, vai desvendando alguns casos das suas relações sexuais com os tarados daqueles seus clientes-traidores. À medida que vai ficando mais ardente, fala mais livremente. Não há nada que ela não faça, desde que o cliente saiba levá-la. Ainda não se passaram cinco minutos e já ele está a estrebuchar-se e a perder gás e a começar a pôr-se de pé. Depois de tudo terminado, mantém-se a conversar e combinam a próxima rapidinha com uma nova posição e outros sabores...

Quando o coração do conhecido pintor Conde do Pincel deixou de bater, a senhora do pintor informou Abraão que não o tinha convidado para o funeral porque, o falecido tinha sido cremado na sua terra natal. «Convidava-me na mesma», afirmou Abraão ao telefone. — «Achei que não era necessário», concluiu a senhora do pintor, enquanto soletrava um passe bem em jeito de despedida. Abraão, pensou no cliente-amigo que tinha falecido inesperadamente. Eram amigos há cinco anos e tinham proporcionado bons momentos um ao outro. Não gostava de se meter em barafundas. Recordou que o pintor estava sempre com uma ilusão. O brilho dos seus olhos sobressaía no escuro da noite. Quando Conde do Pincel resolveu trocar a sua velha máquina fotográfica por uma nova máquina digital, avivou Ratazana que se propôs criar novos projetos para juntos realizarem curtas-metragens, a tempo extra no fecho de O Bar do Traidor, mas mesmo quando estava a tempo inteiro e não havia freguesia, Abraão estava sempre a escrever no computador. Conde do Pincel dizia que os sonhadores deviam ser os primeiros a ver os seus sonhos realizados. Por essa altura, Abraão e Conde do Pincel realizaram em conjunto as curtas-metragens Isto Vai de Mal a Pior, O Ébrio (Um gosto a cheirar ao torrado),e 28 anos, que navegam nas redes sociais. No cemitério de Paço de Sousa, Abraão descobriu o jazigo da família Os Curros, onde pensava existir as cinzas do pintor. Prostrou-se silencioso em frente ao jazigo, se houvesse um coveiro ou um funcionário que pudesse dar-lhe uma informação, tê-lo-ia perguntado. Abraão tinha o vício de falar sozinho. E logo arranjou maneira de inventar um texto para homenagear o seu velho amigo.

         “Amigo Conde do Pincel, o nosso conhecimento não foi imenso, mas foi intenso. Obrigado por o ter conhecido.
          Revejo nas noites solitárias as nossas curtas e, não deixo de me rir, com as nossas interpretações. Prometo que sempre que vier a esta terra, não o olvidarei. Adeus».

O homem apareceu por detrás dela, no momento em que vagueava na sala junto às prateleiras de O Bar do Traidor. A sua cara era desconhecida e nunca ela o tinha visto antes. Foi engenhada a forma como o homem entrou com ela, durante três segundos e desapareceu. Ela não se lembrava de como é que ele era. O homem entregou-lhe um papel e disse: «Isto é para si». Depois, passou por ela apressadamente em direção à porta, antes que lhe desse tempo para ler. «Lara», perguntou a baixota Carolina, «quem era aquele gajo?». Ela guardou rapidamente o papel no bolso. «Deves ter sempre muito cuidado», avisou-a a baixota Carolina. «Quando menos se espera, estes gajos lixam-nos.» — «Não sei quem era», respondeu. «Não ligues, deixa para lá.» Atravessaram a sala e passaram na direção do balcão. Deliberadamente, olharam à volta delas para ver se alguém as chamava. «O que foi que o gajo te deu, Lara?», perguntou Carolina. — «Não fales agora», pediu-lhe. «Preciso de pensar.» Há uma dúzia de clientes na sala a beber com as raparigas, sem muito interesse. Continuam encostadas ao balcão do bar, na tarde em que o Grupo dos Traidores se pôs a disputar um jogo de futebol de cinco num campo da cidade. Lara dirigiu-se à casa de banho, assim que apanhou uma nesga, depois sentou-se sobre o tampo áspero da sanita e pegou no papel.

“Estás no apartamento.
Rua de Costa Cabral. Ás 17:30

Parecia ser a caligrafia de um amigo seu, o Senhor Magalhães. Foi a expressão “Estás no apartamento”. Essa é uma espécie de senha-convite de Magalhães. Quando ele diz “Estás no apartamento”, significa algo para ela e mais ninguém. Lara saiu para dar à língua. Queria descomprimir. Não diria nada a ninguém, nem mesmo à Carolina que não confiava, nem às raparigas da vida da noite. Havia sempre uma ponta de inveja nelas; elas não eram de fiar. Lara rasgou a mensagem e lançou os bocados dos papéis no cesto do lixo. O táxi levava pouco mais de dez minutos ao local.
Saiu do bar e na entrada encontrou a mais velha das raparigas, Big Bela, que estava a chegar. Lara fumava um cigarro esguio e comprido More, que tinha sido oferecido pelo Ratazana. Ele dava às raparigas, frequentemente, pequenas lembranças para as cativar. Era suposto enganá-las, mas acreditavam nele. «Que cigarro tão giro, Lara» exclamou Big Bela. «Quem é que to deu?» — «Foi um amigo. Toma lá um!», passou-lhe um cigarro e entrou para dentro do táxi. O apartamento de Magalhães era pequeno, tinha apenas quatro divisões minúsculas. As paredes eram ocas que dividiam uma sala pequena. Isso significava que se ouvia os ruídos com facilidade. Lara dirigiu-se à porta da entrada, assim que chegou, levantou o tapete e retirou a chave para entrar. Abriu as janelas para refrescar o ambiente, depois sentou-se no divã, enquanto aguardava por ele. O Senhor Magalhães era um tipo especial. Em linguagem corrente é aquilo que se pode chamar um provocador de saias, só taras-manias e depois... um pesadelo. Nas duas horas que esteve no apartamento, Magalhães, visionou dezenas de fitas sobre relações sexuais entre animais para duzentas posições... ou era o porco que fazia truca-truca em cima da porca ou era o cão a experimentar comer a ovelha. A única forma que Magalhães necessitava arranjar um animal que o provocasse para depois provocar Lara. Lara tirou as saias para o pressionar, e pôs as suas monumentais coxas a descoberto... ele olhou durante uns segundos, mas estava ali mais concentrado nas imagens do porco com o membro todo enroscado na porca e discutiu com ela para a possibilidade de ela se colocar assim. Mas Lara estava já cansada de ver todos aqueles vídeos... quer ser comida ao natural, diz, e se Magalhães não lhe der uma como deve ser, ela nunca mais o vem visitar. Magalhães então esfregou-se um pouco mais sobre ela e a seguir mostrou-lhe a imagem de um capão a ter relações sexuais com a parceira com uma velocidade de jacto que lhe devia ter feito trocar os olhos. «Ora vê!», diz. «Estás-lhe a ver o cu a tremer, ou coisa parecida?» Ela delira quando se está a vir. «Não acreditas? É tudo tão maravilhoso...» Magalhães, concentra-se novamente nas imagens que está a ver. «Mas, loucura minha, quando eu me vier dentro desse buraquinho...» Agarra-lhe as ancas por trás e quase que a atira para fora do divã. Penetra-se nela e o divã treme... mas talvez seja Magalhães. A miúda mantém as pernas abertas o que lhe permite ir tão fundo quanto possível, e ele já está a imaginar comer o seu botão de rosa... «Oh, Padroeiros da minha terra!», arfa Magalhães, «aguentai-me firme!...» Magalhães sente realmente tudo a abanar quando a coisa acaba. Está em pior estado como quando começou e o seu aspeto não é exatamente o de um cravo. Quanto a Lara, está ali para as curvas, dá a impressão de que não se passou nada com ela. Quer saber se ele a leva a casa. «Apanha um táxi, Lara», diz-lhe Magalhães, ainda deitado no divã. «Pega ali no envelope em cima do móvel... É que eu não me consigo levantar daqui...»

Pateca estava sentada numa cadeira, demasiada gasta, na sala de O Bar do Traidor, um dos mais badalados bares do Porto. Rodeavam-na um grupo de raparigas da rapidinha, jovens sem carisma, mas muito sabidas, ratoeiras que fazem lembrar o filme O Medo Come a Alma, clientes de bar emproados em roupas fatelas que dirigiam olhares provocadores — e nenhum deles é jovem, exceto Pateca e as raparigas da rapidinha que se arrastam por lá. Pateca estava lá para conhecer um tipo-correio-de-droga, mas ele não a conhece. Na verdade, nunca ouviu falar de Pateca. Mas isso não a impede de estar ali à espera de o conhecer. Pateca nunca conheceu Manuel, conhecido pelo Pica. Esta é a sua alcunha nos meandros do pó. Tornou-se passador de drogas, há três meses. Até as mulheres da rapidinha já ouviram falar dele. Pateca está lá para que Pica lhe dê uma amostra de pó para snifar. Pateca aguarda a visita de Pica, enquanto espera vai dando papo ao empregado do balcão. Até que uns bons dez minutos depois, Pica chega ao bar. Vai direito para uma mesa da ponta e junta-se a um grupo qualquer que se dedica ao consumo de “drogas”. Compram-lhe as doses debaixo de mão e ficam-se no falatório. Pateca não perde tempo. Quando as entregas terminaram, apressa-se a ir ao seu encontro c´um um cigarro na boca. Dá-lhe um olá, e senta-se. Volta a fixar os olhos para ele. Um tipo com cerca de quarenta e cinco ou quarenta e oito anos, magro, de bigode grosso. A certa altura diz: «Pica, és tu? Faz-me um favor! Dá-me meia grama para eu curtir!», pede. — «Como descobriste que era eu? Quem te deu a informação?» Pica olha, curioso, para Pateca. — «Não houve informação nenhuma. Sou a única pessoa que sabe, porque te conheço através de umas amigas. Por favor!, sê simpático para mim. Quero só que me dês meia grama.» — «Quem não quer.» — Por favor, ajuda-me. Dá-me uma chance?» — «Sem dinheiro, não há chance.» — Oh!» — «Para além de não te conhecer, miúda, não sou dono do material. Agora, diz-me, onde é que tens o dinheiro que se possa ir buscar?» — «Nenhum, que eu saiba.» — «Talvez não, miúda, mas já estou farto de mixórdias. Passam a vida a dizer que não tem dinheiro. Quer dizer que não me estás a enganar?» — «Não faria isso.» A porta do bar abre-se. Pateca olha e observa. Deslumbra dois tipos suspeitos no balcão. Apetece-lhe cavar. Quase por instinto, de repente, acotovela-o. «É a bófia!» «É a bófia!» Pica levanta os olhos e atira c´um pacote debaixo do braço para as pernas de Pateca e pira-se para a saída. Num ápice, Pateca devolve o pacote para outro tipo, e o outro atira para o outro e por aí adiante... Pateca vai atrás dele. Os bófias ao balcão curvam-se e um deles barra-lhe a passagem. Estão à paisana. Os bófias murmuram para eles: «O BI, miúda. E você também.» Pica vira-se furioso, para o polícia. «BI! Roubei alguma coisa a alguém?» O bófia passa os olhos no BI e desaparece. Tal como Pateca que corre na direção do Pica, escondido atrás de um carro. Pica perdeu o ar desconfiado. «Vamos zarpar daqui antes que nos chateiem o juízo», declara. Seguiram pela rua. «Como é que sabias que era a bófia? Não traziam farda. E estavam a fazer rusga. Então, como?», pergunta ele. Pateca lança-lhe um olhar. Está a tentar pensar como deve responder. Volta-se para Pica. «Sou citadina noturna e já manjo estes moinas é ene tempo. Sei quando eles saem à rua para apanhar infratores e este é o melhor sistema que há. Não dá nas vistas. Por isso, passei o tempo todo, no balcão, à cuca para a porta. E sabia que virias abastecer a tua freguesia: com o teu remédio. E quanto à minha meia grama?» — «Dizes que não tens dinheiro. Por isso, como é que me vais pagar?» — «Estás-te a fazer a mim?» — «Faço-me a qualquer uma amiga nova.» — «Mas não me conheces.» — «Isso é uma verdade. Mas quando fio a uma pessoa, fico a conhecê-la. Claro que não acredito em tudo o que tu dizes. Mas se me deres uma prova, acabo por considerar-te minha amiga.» Pica olha para Pateca como se fosse ele o consumidor. Sente uma atração física por ela! Não é nada que não se pareça. Chegam ao fim da rua, onde Pica deixara o carro, e seguem viagem. Entram no quarto, e sentam-se a uma mesa, a beber absinto. Quando acabam de beber, Pica espalha a meia grama de pó pela prata e entrega um instrumento de snifar a Pateca. «E agora dá aí um chuto», diz. Pateca tapa um dos lados do nariz e puxa com todas as suas forças. Depois, fica à espera que Pica lhe carregue mais, pois acha que sabe a pouco... O pó volta a pulverizar as narinas de Pateca. Pica, ajoelhado, suga os mamilos de Pateca... Pateca já se vê nas nuvens a voar no espaço, com as mãos dele a apalpá-la por tudo que o excita. «Tira a roupa e fode-me!» Pica despe-se e leva-a para o divã. Atira-se para cima dela e abre-lhe as pernas... Mas deixa ela snifar um pouco... Agora está a vê-la como deve ser, mas não quer perder a ocasião... Pateca parece estar estonteada... senta-se no chão e olha-o, abanando a cabeça como se quisesse saber onde estava... A tática de Pica absorve de uma vez todo o seu imaginário... continua a pedir-lhe para deitar mais pó... até que a excitação lhe rouba a fala... está a arder... é como estar abraçado a um lume. Pica está a comê-la como um louco, mas ela puxa-o pelas orelhas e quer sempre mais. Fica inerte nos seus braços... desmaiou a vir-se... Pica para com os movimentos de pra cima e pra baixo, e enfia-se na casa de banho, e senta-se na sanita a fumar um cigarro, enquanto contempla Pateca a dormir no divã, sossegadamente, como se fosse um bebé. Deixa-a estar assim, enquanto prepara novas embalagens para a distribuição, e só depois, lhe faz umas festas para a acordar. Pateca acorda rapidamente. Pica faz um discurso de despedida ao mesmo tempo que se enfia dentro das roupas. Que envergonhada! Pateca veste-se com uma rapidez e mantém os olhos afastados até se acabarem de vestir. «A tua amizade foi encontrada», diz-lhe Pica... «talvez possamos voltar a encontrar-nos amanhã... às cinco, talvez?... e tenho um ou dois pássaros grandes que gostariam de te conhecer...»


A amiga estava engripada nessa semana, por isso, Filipa teve de ser ela a descer à rua e ir à procura de comida. Nada teria corrido maravilha se André não a tivesse visto na rua, nessa terça-feira à tardinha, e decidido chamá-la. Habitualmente isso não a chatearia — apesar de estar sempre a chamá-la “Olhos de Fufa”. Porém, naquele fim de tarde, não podia ter tido melhor sorte. «Onde vais, Fofinha?», gritara, junto ao parque de estacionamento do minimercado Shop-Shop. Por estes lados, encontram-se muita variedade de lojinhas, onde se podia abastecer. Filipa não lhe respondeu, enquanto se dirigia para o carro que se encontrava estacionado e deixou o saco no banco de trás. André seguiu-a. A voz dele denotava admiração: «Fofinha? Que fazes aqui?» — «Vai brincar com as tuas amigas, André?» Respondeu. Ficara arreliada. Não era habitual vê-lo por aquelas bandas, mas não podia mandá-lo à fava: os morcões podiam esperar algum tempo. Tirou uma chiclete do bolso e dirigiu-se ao seu encontro. André olhava-a como se ela fosse um manequim. «Tás fixe?» — «Tou. Encontrei aquilo que queria e vou levar alguma coisa para comer». — «A tua amiga foi de férias, ou quê?» — Parecia mesmo preocupado com ela. Era, de facto, cómico, vindo de um homem que, certa vez, abrira a porta do seu quarto para, segundo afirmara, a comer de surpresa. «Estou com pressa, André!», sentiu-se baralhada, nesse momento, pois gritara tão alto que alguém podia ter ouvido. A única coisa que lhe acorreu mesmo foi pedir-lhe que estivesse quieto com as mãos. «Então, o que...?», olhou atónito. «Vou atender os morcões», declarou, esperando que pensasse que estava apressada e a deixasse em paz. Levantou a chiclete com a língua e deu um estalido e fitou-o, de tal modo, que teve vontade de se mandar. «Caíste, finalmente...» — «Pois», respondeu e acrescentou: «Anda lá, depois de entrar podes apreciar as belezas da casa.» Atirou a chiclete para o chão, abriu a porta do carro e pôs o motor em marcha. André seguiu no carro e conseguiu apanhá-la rapidamente, ia já a meio da estação da Granja. O aspeto era o de sempre, paredes rabiscadas, cartazes de propaganda a cair e anúncios de alimentos. Já atravessara a cancela da entrada da casa e subia os degraus da escada quando voltou a ouvir a voz de André, e desta vez, pareceu aflito: «Fofinha! Não tenho cigarros», exclamou. «Queres que te traga?» Filipa atirou-lhe um sim e esperou um pouco. Alcançou-a segundos depois. «O que é que vens mesmo aqui fazer?», sussurrou-lhe baixo. «Cala-te miolos de galinha-do-mato, vais assusta-las!». Havia duas raparigas de aspeto provocante na desarrumada sala; olharam para os lados, assegurando-se que ninguém se encontrava nos quartos. As raparigas alegraram-se um tanto, quando viram Filipa avançar com o saco e tirar de dentro, uma embalagem de pão-de-forma, marmelada e outra de queijo, e mandá-las atulhar. «Assustar elas?» Sentaram-se no sofá a fumar. Filipa contou uma longa história ou, pelo menos, assim parecera quando ela a contara. Contou tudo a André — o que pensávamos ser verdade, em todo o caso. Como a sua vida crescera à volta dos morcões, deitando-os abaixo. (Assim alcunhava os cabritos) A maioria deles tinham idade para ser seu pai, tio, ou até avô, confidenciara a André. Outros, porém, eram mais novos, ou não tão ousados. Haviam começado a visitá-la nos locais do vício, visitando-a assiduamente de um sítio para o outro, aparecendo de carros e de motas. Em noites com luar ou calorentas durante as horas de vício, os mais arrebitados aventuravam-se, desenfreadamente, pelas ruas da cidade. É por causa deles que as casas de passe junto às povoações cresciam cada vez mais. Os mais tímidos permanecem nas sombras o tempo da aprendizagem. André escutou tudo isto com aquela expressão de “Fecha-o-ecler”. Mas nada disse até ao momento em que Filipa ficou sem palavras e começou a fazer-lhe mimos. Mas quando as raparigas apareceram na sala, André estava tão excitado que atirou-lhes um verdadeiro piscar de olhos e, a mais alta, olhou bem para ele, por instantes, depois atirou-lhe um chocho com os lábios comprimidos. Via-se que estava esfomeada; tinha os peitos arrebitados. No entanto, baixou a cabeça, vagarosamente, como uma cabra a bebericar água. Enquanto André bebia, as raparigas desapareceram. Talvez fossem atender algum morcão que veio visitá-las, ou que lhes tivesse telefonado. André atirou-se mais a Filipa e, beijou-a, gozando cada um o seu bocado. Permaneciam envoltos, em cima do sofá. André estava tão vermelho, com o calor a apoderar-se dele, que acabou por ir tomar um banho de água fria, de modo que ela encontra-o sem uma roupa por cima... o que parece estar mesmo a jeito para o que ela tem na ideia. Veio à procura dela para a comer... e para a ouvir contar um história de algibeira. André comeu-a. Ela ainda não está refeita da coisa, o que é perfeitamente natural, se considerarmos que se trata do morcão que lhe tirou os três vinténs na putaria. Claro que não é bem assim que a coisa se passou. Sendo André aquilo que é, os factos não se podiam dar desta maneira. Mas o que conta é o resultado... e o resultado é quase sempre o mesmo...            


Tuesday, April 23, 2013




FERNANDO ABRAÃO
E RATAZANA
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(6)

´A DONZELA FURTIVA`



O
MUNDO
DA
NOITE
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Filipe Mendes desabafara uma conversa, furioso, a um grupo de amigos, que o rodeavam ao balcão de um bar, afirmando que o pai, quando ele era menor, espalhou a notícia em que o declarava herdeiro e dono de umas quantas quintas referenciadas, quando ambos passeavam aos domingos. Com a mudança dos tempos e a crise dos altos e baixos da vida, quando recuperou a maioridade, Mendes verificou que, pobrezito, já não era proprietário. Ganhou um provérbio para si: «Nunca digas o que tens hoje, diz antes o que tens amanhã». Filipe Mendes nasceu à volta dos anos 60. Aos vinte e picos anos licenciou-se em economia, na cidade do Porto. Trabalhou numa empresa industrial. Aí esteve ganhando experiência e curriculum, até se apaixonar por uma jovem senhorita da média alta que lhe deu duas filhas. Aproximadamente uma mão de anos depois do casamento, Mendes fez uma descoberta importante. Tinha chegado à conclusão que não nascera para estar preso a compromissos matrimoniais. No estado em que estava, achou que devia divorciar-se e desistiu de estar casado. Mendes tornou-se um solitário pacato. Na vida de casado, e depois, na vida de solteiro, Mendes foi mais madrugador do que era trabalhador. Tinha o encanto especial dos nascidos sob o signo da Balança. Foi da Rua da Constituição que Mendes adquiriu a paixão pelos bares, especialmente os da diversão noturna. — O seu primo Cebolinha afirmava que ele tinha uma amiga em cada bar. Nessa altura, as tendências de Mendes para as mulheres, eram na verdade catastróficas, com um toque a roçar de pesadelo. Nos bares, sofreu a influência de Cebolinha que o ensinou a apreciar o uísque e a boémia, e de Rui Janeiro, que lhe ensinou que o melhor objetivo na vida é viver com «um aroma resistente como um diamante raro» e que fez renascer a frase de Ratazana «Vício pelo vício». No seu último ano na indústria, Mendes disse a um amigo; «Hei-de ser rico, se não chegar a rico, hei-de ter mau nome». Quando, com a ida para gestor de uma empresa de sapatos pré-falida, não se absteve de pensar que estava a andar como o caranguejo; anunciou que uma revolução no visual era mais importante do que uma revolução na mente, e começou a fazer uma cirurgia para corrigir um defeito nos olhos, deixando de usar aqueles óculos graduados. Durante o ano de 1990 era elogiado semanalmente no pasquim O Jornal Dos Traidores. Nos anos seguintes, Abraão retratou-o no blogue Contos de Ratazana, na personagem do traidor Menino Bom. Abraão não tinha dúvidas de que estava a ser irónico, mas Mendes ficou radiante com a fama que isso lhe trouxe. Em 1993, depois de uma viagem à Europa em que abriu um leque de mais contatos na sua carreira profissional, anunciou o namoro com uma sisuda rapariga de aspeto reservado. Estavam profundamente enraizados, e, na manhã após a noite da pinocada, passeava Mendes na Rua das Doze Casas com a sua beleza, no seu carro, quando foi apanhado no cruzamento da rua por Ratazana. Nasceu mais um artigo para o pasquim do bar. Aproximadamente dois anos depois do encontro, Mendes fez uma descoberta fabulosa. Tinha tido uma relação sexual com uma prostituta chamada Luísa, e fora «terrible» dando duas quecas seguidas (que lhe dera fama e publicidade). Aproximadamente nessa altura conheceu uma divorciada de vinte e nove anos, chamada «Taiti», que era divertida, inteligente e simpática. Taiti afirmou mais tarde que tinha sido o primeiro cliente-traidor que ela tinha ido para a cama. Era óbvio que não gostava de jovens de rara beleza — comentou uma vez que ter relações com tipas coquetes e provocantes o fazia sentir como se estivesse «a dançar com marionetes». O seu apetite parece ter sido pouco — contou a Cebolinha que uma vez tivera quatro goelinhas numa noite e que as tinha rejeitado sem uma desculpa. «Estavam todas charmosas e desinteressei-me por completo». Em 1999, o equilíbrio tardava a chegar; os últimos empregos, como empregado comercial e vendedor imobiliário, não conseguiram ser duradouros, e tornou-se membro de uma caixa económica (a que foi dado o nome de Caixa de 20 Amigos). Finalmente em meados de 2003, por volta dos trinta e cinco anos, entrou para uma firma conceituada no mercado nacional, facto que o deve ter deixado bastante satisfeito. No ano seguinte, Mendes protagonizou uma cena melodramática, durante o evento «O dia do Traidor», quando foi premiado com uma prostituta de borla para uma rapidinha. Quando Mendes chegou ao quarto e viu a prostituta, seminua, deitada na cama, atirou-lhe com uma certa lata a seguinte frase: «É uma deceção que um corpo mal feito qual um camafeu, como o teu, tenha sido feito tanto para uma corrida ao sobreiro como para a tontura dos olhos». (Em conversa com as amigas, a prostituta chama-lhe «vaidoso, arrogante, e de mau gosto», e afirma que era provável que estivesse alcoolizado). Um dia em que Janeiro viu Mendes e um amigo a beberem juntos em O Bar do Traidor, deixou-se ficar a fazer-lhes companhia e ficou deslumbrado com o episódio de Mendes, sobre o caso da prostituta do evento, dizendo-lhe depois que nunca vira coisa igual. A frase do «corpo mal feito como um camafeu» levou Mendes a passar-se dos carretos e mandou uma farpa ao pasquim do bar, furioso, resmungando com os empregados «Os Maus-Olhados» que nunca mais saberiam desabafos seus. Ritinha, um dos empregados, respondeu com um sorriso: «Que cliente mais divertido é o senhor doutor...» A partir daí, Mendes começou a frequentar outros locais onde a malta boémia não parava, querendo mudar o seu rumo. Uma tarde, Mendes resolveu mudar-se para o prédio onde vivia Janeiro, na zona da Senhora da Hora. Ao encontrá-lo na garagem do prédio, observou: «Se é desta maneira que eu consigo mudar os meus problemas, então, não mereço ter nenhum». Porém, o velho hábito desapareceu. A experiência da solidão ia mudando Mendes à acalmia. Afundou-se em trabalhos de casa e começou a escrever um pequeno diário — na verdade uma pequena autobiografia. O desejo de beber tinha desaparecido. «Há qualquer coisa que morreu em mim», contou a Cebolinha. Depois disto, Mendes foi para o Parque da Cidade, onde encontrou inesperadamente um conhecido dos copos, que o convenceu a voltar aos bordéis. Mendes não gostou. «O último foi há cinco anos e há-de ficar por aí», disse e continuou a caminhada, dizendo para si mesmo: «Estou a viver agora com os meus recursos».

Foi durante a crise de 2007, numa tarde soalheira no mês de Maio, que Manuel Castro, corado e ofegante, tocou na buzina do seu carro, para chamar a atenção de Rita, no cruzamento Valongo, junto ao posto de gasolina da Galp. Estava de casaco xadrez e camisa de cetim azul do mar com a gravata às riscas de tom amarelo. Rita usava uma calça de ganga e uma camisete meia esbranquiçada e sapatos ecco. «Tive uma grande discussão com a minha empregada», disse ela, olhando para Castro e depois para o Mercedes. Não parecia estar muito confortável. «Ela tem ciúmes que eu saia com os meus amigos» — «Tem ciúmes?», coroa Castro. Será que Rita só tinha isto para lhe dizer? Talvez ela estivesse a preparar-se para alguma. Castro tinha estado a deitar uns olhos à obra que estava a construir, perto das Antas, e Rita, estava vindo do seu salão de cabeleireira ao seu encontro, para darem uma cabeçada. Ela era faladora, e ele, bem divertido. Os dois formavam uma boa parelha. «Como é, vamos para dentro?», disse Castro, quando desligou o leitor de CD. Parecia o cantor Carlos Gardel ao seu estilo, mas não tão romântico. Rita deu-lhe um beliscão no meio das pernas e correu para a pensão. Castro sentou-se com Rita no sofá. Estava tão grato pela presença dela, como ela estava pela dele. Por uns momentos, Rita parecia ter esquecido o trabalho, senão teria tirado a camisete quando Castro lhe pôs a mão nos seios... em vez disso, deitou-se de costas e deixou que ele a apalpasse a seu bel-prazer... tinha os seios pequenos e caídos. Despiram-se e deitaram-se sobre um conjunto de cobertores tão ásperos e frios que provavelmente Rita vai passar um bom bocado da rapidinha à espera que aqueça o traseiro, mas agora nada disso importa... ela quer ser possuída e, se fosse preciso, deitava-se num colchão em cima do fogo. Abertas as pernas, Rita apoia as pontas dos dedos dos pés numa mesinha e empina o corpo, ao mesmo tempo que enrola os braços à cintura de Castro. «Manel... Manel», suspira ela. Castro manda-lhe o pedaço entre o triângulo de pelos que enfeitam a racha. Apesar da sua gorda barriga não estar equipada com uma cinta medicinal, move-se muito bem. Lá se desenrasca. «Manel! Manel!» Rita não para de o chamar. Agarra-se a ele com força. Parece que tem medo que ele fuja. Está tão em brasa, que não há nada que a possa deter... pode até cair um relâmpago do céu, que o calor continuará a aquecer até o devorar. Castro sente-se como a rola que tem de largar o pombo, para satisfação mútua. A que é que sabia? É isso que ela quer saber, e que lhe pergunta repetidamente. Não consegue esquecer aquela vagina com um triângulo de pelos, nem mesmo, quando as banhas da barriga lhe fizeram cócegas ao contato com os seios. Mas não lhe sai da cabeça aquele pequeno corpo, altura roda vinte e quatro, apertando-se contra ele... Mas o que é que ele sentia? E quando aquela roda vinte e quatro chamara de novo o seu nome, na sua voz meia infantil, e ferrara as suas orelhas, o que é que ele tinha sentido? Oh, que tola, é aquela pequena roda vinte e quatro, que sabe tantas coisas, pensava Castro. E continuam por ali adiante... «Manel! Manel!» Já se passaram sessenta minutos... e mais uns segundos sem darem conta. Mas aquela tarde, ah, eles não a vão esquecer. Depois de tudo terminado, Rita mantém-se escarrapachada sobre os cobertores da cama. Nem se dá ao trabalho de se tapar... comportando-se como se tivesse esquecido onde estava e parece plenamente satisfeita consigo própria. Mas não se esquece de lhe sacar uns euros, que é para ajudar a pagar a luz e o telefone atrasados, e conta-lhe a história do costume... Castro mete a mão à carteira e puxa de uma nota das gordas, e coloca-a dobrada, sobre os seios nus, como uma forma de os cobrir. As ruas, tão alegres e movimentadas, como sempre, acolhem-nos.

«Por favor, faz com que o Cabeleiras venha antes das quatro da tarde», diz Marlene ao dono do bar. «Por favor, faz com que o Cabeleiras venha depressa. Ele não atende o meu número. Vou ter de lhe pedir um pequeno empréstimo, que daqui por duas semanas lhe pagarei. Prometo que lhe pagarei... a não ser que ele me diga que não me empresta ou algo do género... Mas ele, não me faz essa desfeita». Trriiim... O telefone toca duas... três... quatro... «Está lá?» — «Ah, é você. Tenho uma mensagem da sua amiga Marlene. Como é que ela está? Está bonita! Pede para você vir mais cedo... O quê? Se a pus a foder? Bem, ainda não, mas... O quê? O grupo dos clientes do Marco de Canavezes, se está cá? Não, ainda não vieram. Mas não se preocupe com isso. Eu cuido bem dela. Até já». O dono do bar murmura: «Amigos da foda!!». Marlene volta-se para a festa do evento. Talvez não deva vir quem ela quisesse. Praticamente são todos conhecidos uns dos outros. São quase totalmente associados à foda, à rapidinha, como um jogo da bola: Hoje marcas tu, amanhã marco eu. Quem é que não gosta disso? Do bar desfruta-se um panorama maravilhoso. Um evento do Grupo de Traidores, onde os clientes-traidores se encontram uns com os outros, pois são tão dados às festas que não se podem dar ao luxo de perder uma oportunidade para aproveitarem uma boa massagem. Os primeiros que vão entrando na sala, ficam sentados a observar as catraias novas durante um tempo. Aquela malta tem paciência de chinês. Apalpam uma catraia nova que está a passar, tocam-lhe nos seios, passam-lhe a mão pela região do traseiro... É uma russa jovem e elegante de ancas curtas, que se está borrifando. Paulo, o Vigilante, conta que um destes dias quem fazia de mulher-galinha era uma morena e as mulheres-galo tinham gozado tanto com ela, que se os seus clientes quisessem ser efetivos teriam de o mostrar na rapidinha. É uma bela coisa ver o prazer transformar-se em vício. No Porto, funcionam umas falsas casas de passe, onde os clientes dos cabarés costumam frequentar. Cinquenta euros pagos por uma saída dão direito a ter, durante quinze minutos, uma prostituta nua. Tudo isto, bem entendido, com a escolha de uma relação oral ou um babado, com direito a uma camisa-de-vénus. Lá a clientela é toda constituída por jovens de quarenta anos, até aos cotas incluídos. Todos eles sabem para o que vem, a catraia do computador é uma moça completa, com uma linguagem tipicamente do Norte, e cheira sexo por toda a parte do corpo. Está ali à mão, pode-se oferecer uma bebida, e se o cliente quiser levá-la consigo a fazer uma rápida...tanto melhor. Vigilante diz que tem sempre vivido no meio das mulheres... com uma única exceção. As mulheres para ele são todas iguais, exceto a sua mãe. Não é que se importe com o que elas façam ou não, diz Vigilante, mas estava constantemente a levar com elas para a pensão, que já o enfastiaram. As noites eram terríveis, diz ele, e além disso havia sempre a chulice dos amantes, com os mirones acesos do lado de fora dos carros, todos os dias. O mais prático e barato, era esperar pela noite dentro e levar a prostituta a casa e, assim, Vigilante tinha direito ao bobó da praxe, e podia até ver as ondas a bater na areia. E aí sabia bem. Era reconfortante, declara Vigilante, poder contar os pescadores a pescarem nas rochas e ver que pesca não faltava. Vigilante consegue realmente cativar aquela malta com toda aquela conversa à volta das mulheres das rápidas. Uau! O telefone toca. Dois... três... quatro... «És tu, Cabeleiras?» — «Sim». — «Olá, Cabeleiras. Estás a ligar de casa? O Ratazana diz que estás convidado para o evento e temos uma mesa marcada só para nós os dois. Quem é que está cá? Para mim não me interessa ninguém. Ninguém, a não seres tu. Não, não está o Pascácio. Também não está o Cabelos Longos, Cabeleiras! Quem são os clientes-traidores que estão cá? Sei lá! Ainda não olhei bem para eles, porquê? Fui ao trapézio? Que trapézio? Pensas que venho aqui para o engate? Não sou aquilo que pensas. O Pipocas? Cabeleiras, a que propósito é que te foste lembrar do Pipocas? Que horror, Cabeleiras! Alguém já te disse alguma coisa sobre mim e o Pipocas? Disse? Jura? Não, não estou nada nervosa, porque é que iria ficar nervosa por causa do Pipocas, ele é tão molengão! E tem uma pança gordurosa que cada dia cresce mais. Bem, podes chamar-lhe gordo, mas eu chamo àquilo pança de banha». Um pequeno intervalo, para Marlene pôr um cigarro aceso na boca. Prossegue: «Ouve, eu não suporto mesmo o Pipocas. Vamos mas é mudar de con... Nervosa? Não estou nada a ficar nervosa, Cabeleiras, além disso, como é que podes ver pelo telefone? Está bem, já estou a ver que dizes muitos talvez e, não dizes um a valer. Para de rir, Cabeleiras, eu só gosto de rir quando estou na cama. E tu, vens ou não vens? Vens sozinho? Bem, se dizes para eu esperar, eu espero mesmo. Não, não me incomoda nada esperar. Ajudas-me? Oh, Cabeleiras és um querido, ajudas-me mesmo? Obrigado, és o melhor amigo que alguma vez tive. Os traidores? Esses já não são os meus melhores amigos. Se calhar antes de andar contigo eram, mas agora já não são. Eles dizem a todos que eu estou por tua conta, sabes? Eu, uma rapariga do bairro FM por conta! Só porque saí meia dúzia de vezes contigo para a pensão. Cabeleiras, aqueles tipos são do género que nem conhecem o significado da palavra amizade. Eles viram-se contra ti sem motivo nenhum e falam mal de ti pelas costas. Bolas, que horas são? Tantas? É melhor desligar o telefone. Para com os risos, Cabeleiras, não é para eu ficar aqui a tarde toda à tua espera? Prometeste-me que me ajudavas. Eu depois digo-te o que é, Cabeleiras, vamos desligar. Oquei, até já». Marlene acredita que Cabeleiras apareça só ou acompanhado de um amigo, e aproveita a beber um scotch da garrafa dele, e enquanto isso, pensa que é o melhor amigo que ela tem... Está a começar a sentir-se saturada por estar ali paralisada no bar. O Cabeleiras está a chegar e ele vai resolver o seu problema e ainda vai à pensão fazer-lhe uma massagem e tudo será perfeito... Marlene acaba com o cigarro e expira profundamente o fumo. Fhuhu... A porta do bar abriu-se de rompante, e de repente, Marlene topa Cabeleiras, a vir na sua direção, de grande charuto na boca. Olhou para ele sorridente e ele retribuiu-lhe o sorriso. Depois, ela deu-lhe um beliscão, pegou-lhe no braço e pô-lo à volta da cintura dela. «Olá, Cabeleiras, meu amor!», sorriu ela. — «Olá, Marlene, minha fofinha!», respondeu ele ternamente. «Conta-me lá, o teu problema?», perguntou ele. — «Estás pronta para me ajudar, Cabeleiras?», diz ela de olhar grave, e sussurra-lhe ao ouvido. — «Então é isso que tinhas para me dizer? Amanhã de manhã, vais ao stand escolher o carro, marcas encontro com o dono e isso resolve-se logo...». Quase lhe caia os Clérigos em cima de tanta felicidade. Marlene encostou-se mais perto dele e sussurra-lhe novamente que a sua ajuda já lhe tirara o apetite de comer e o seu desejo era levá-lo consigo para a cama. «Oh, fofinha, como é que entraste nos meus desejos?».

Chamavam Ratazana, ao dono de um bar de engate, no Porto. As suas histórias nem sempre eram verdadeiras, mas às vezes, acontecia. Um dia, contou a sua última história. Estava ele de pé ─ pelo menos assim o esteve durante grande parte do tempo que falou ─ numa sala ao lado do balcão. Junto dele, Carlos Alberto, pianista de revista, bebia um refrigerante; havia ainda José Gonçalves, cantor da época, e Mário Reis, elemento do duo Os 2 do Norte e Paulita La Rosa, bailarina de flamengo. Naquele dia de sexta-feira, de noite, tinham ido todos tocar para o Club Lord, o que deu origem, afinal, à sua narrativa. Tinham atuado todos na cerimónia do concurso das misses até ao intervalo, jantaram a seguir e ficaram naquela bela cavaqueira salutar que sabe bem ouvir contar histórias. Quando Ratazana começou a sua narração, alguns deles supuseram, naturalmente, que ele estivesse a enfiar grupos. Iniciou, com ar de quem diz uma coisa muito real, mas eles levaram isso à conta de uma das suas imprescindíveis resenhas. «Não sei se sabem», observou ele, depois de dar uma mirada, por momentos, para o ambiente que se vivia na sala. «Não sei se sabem que eu dormi aqui, sozinho, esta noite?» ─ «E os empregados?» perguntou Reis. ─ «Foram dormir às suas casas» esclareceu Ratazana, «como sempre…». Segurou o cigarro ente os dedos, ao mesmo tempo, que enviou duas bolas de fumo para o ar. Depois, declarou muito sereno: «Apanhei uma virgem!» ─ «O quê? Apanhou uma virgem?» exclamou Alberto. «Onde está ela?». Paulita La Rosa, que é admiradora de Ratazana e que esteve dois meses em Paris, acudiu: ─ «Apanhas-te uma virgem, heim? Admira-me bastante haver disso aqui! Conta-nos tudo, sem demora». Ratazana imediatamente encostou a porta, e em seguida, fitou-os com ar de quem se prepara: «Não há perigo de que nos ouçam; mas, a priori, é bom prevenir; os boatos acerca de donzelas furtivas podiam estragar o excelente trabalho do nosso ambiente. Aqui há muitos clientes e otários ocultos, de que as virgens gostam deveras. Mas aquela a que me refiro não era como a maioria. Essa estou certo de que não voltará… jamais!». ─ «Quer dizer que não a tem aqui?» inquiriu Alberto. ─ «Não tive necessidade para tal». Alberto mostrou-se surpreendido. Ouviram-se gargalhadas. «Compreendo», disse ele, com um sorriso pouco apertado. «Mas o caso é que era uma menina solteira; estou tão certo disso como de estar a falar aqui convosco. Não estou na tanga. Sei muito bem o que digo». Alberto aspirou com força um gole do líquido, fixando Ratazana com o seu olhar aprofundado; depois soltou uma baforada de ar mais convincente do que muitas palavras. O outro, prosseguiu: «Foi a coisa mais extraordinária que me aconteceu na minha carreira. Não ignoram que eu jamais acreditei em donzelas furtivas ou em coisas desse estilo. Pois bem: apanhei uma. Tive-a entre as mãos». Calou-se, repensou alguns minutos; exibiu o tabaco e tirou novo cigarro. «Falaste com ela?», perguntou Reis. ─ «Durante meia hora». ─ «Bela conversa?» arriscou por seu lado Alberto, juntando-se assim ao grupo dos duvidosos. ─ «A pobre rapariga estava atrapalhadíssima» respondeu Ratazana, com um tom de vago lamento. ─ «Desesperava?», indagou Paulita La Rosa. Como se lembrasse da verdade desse facto, o narrador suspirou e disse: «Sim, isso mesmo… Pobre rapariga!» ─ «Onde a encontraste?» Foi a vez de Gonçalves, na sua melhor entoação nortenha. Ratazana passou à frente e prosseguiu: «Nunca imaginei que pudesse ser uma virgem». Deteve-se outra vez, enquanto procurava atirar outra bola de fumo para o ar. Depois abanou a cabeça de desalento. «Eu não tinha informação sobre ela» acrescentou. Nenhum deles estava com pressa. Esperavam a continuação da confidência. «O comportamento de uma rapariga mantém-se igual mesmo depois de puxar as saias para baixo. Todos sabem disso. As raparigas que têm certa veia de imaginação podem dar origem à virgindade com a mesma veia de imaginação. Ora esta de que vos falo era muito diferente». Mostrou-se de súbito um tanto descontraído e olhou à sua volta. «Não digo estas coisas para me valorizar, mas é autêntica verdade. Logo à partida ela impressionou-me pelo seu aspeto coquete. Com o cigarro, Ratazana sublinhava as palavras da sua narrativa. «Fui chamado à porta do bar; ela estava de frente para mim, de maneira que a manjei à- vontade. Percebi logo que se tratava de uma virgem. Nem era gorda nem era magra; era intermédia; através dos seus olhos avistava-se o desejo, ao fundo. E não apenas o seu físico mas também me deram a ideia de ser bastante chavala. Dir-se-ia não saber bem o que queria, de tal forma que parecia confusa. Tinha pousado as duas mãos no casaco e balanceava com as mãos de lado para lado. Assim…». ─ «E que aparência tinha ela?» inquiriu Alberto. ─ «De aspecto fino. Como essas moçoilas de dança de salão… Um penteado à Zeca, com cabelos curtos e orelhas sem brincos. Peito metido para fora, mais peito do que barriga. Vestia um casaco que lhe cobria a saia curta, pernas muito brancas e camisa de colarinho alto. Foi isto que eu topei. Falamos das suas intenções ─ vinha numa de aventura ─ e no bar estavam clientes de vários naipes; de modo que estudei para ela, o melhor. Fiquei admirado, mas não conformado. Nestes casos, creio que o traquejo desempenha um papel importante. Surpreendeu-me, na verdade, por isso, fiquei logo curioso. Pensei: ´Que sorte a minha! Havia-me de aparecer por cá uma virgem! E eu que nunca tinha acreditado na existência delas!´». ─ «Hum…», fez Reis. ─ «A donzela não levou muito tempo a perceber que eu estava lá para a ajudar. Detivemo-nos um momento a falar dos pormenores, até que eu fui à sala à procura de um jeitoso encantado». ─ «Em resumo, sempre a orientou?» perguntou Alberto. ─ «Depois de alguns contratempos, sim, e quase na hora. Mas consegui. Alegrou-se, combinámos e ela pediu-me então que eu fizesse segredo de que ela tinha estado por ali. ´Se alguém lhe perguntar por mim`, explicou, ´não sabe donde vim nem para onde vou!`. Fiz um pacto de silêncio, e em segundos, entreguei-lhe as chaves de um Volvo que se encontrava na rua, para ela entrar para o carro e aguardar. Ela respondeu-me: ´Está bem, não sairei de lá`, e voltei-me para o fundo da rua para a ver entrar no carro. A viagem foi rápida». Pôs-se a olhar, durante uns segundos, o borrão do cigarro. «E, depois, o que aconteceu?» inquiriu Gonçalves. ─ «Que estás à espera?». Ratazana olhou para Reis. Queria rir-se, na voz e na expressão dos outros havia qualquer coisa que o impediu. «E a respeito do jeitoso?» lembrou Alberto. ─ «Creio que escolhi o par ideal». ─ «Oh! Ainda bem!» exclamou o outro. Levou o copo à boca e escorropichou o resto da bebida que ficara na garrafa. «Deu resultado? Indagou ele, batendo com o copo na mesa. ─ «Se deu…» declarou Ratazana. ─ «Mas tu não acreditaste…» notou Paulita La Rosa. Reis olhou para Ratazana que fitara o cinzeiro avolumado de pontas, absorvido nos seus pensamentos. «Acreditei, claro, porque não?» ripostou o nosso contendor e prosseguiu: «O que eu sei é que a pobre donzela, naquela noite, desapareceu perfeitamente. Mais tarde, soube por alguém que, o jeitoso encantado tinha enfiado o maior barrete da sua vida». Paulita La Rosa interrompeu-o. Afastou o copo da água, ergueu-se para a frente e disse em voz alta: «Ratazana, estiveste a contar-nos uma peta colossal. Aquele aparecimento… Que história mais incrível!» O interpelado pôs-se de olhar sério, sem olhar para ela, dirigiu-se para o meio da sala, mesmo de frente deles. Durante momentos passou os olhos pela sala e pelo balcão. Levantou as duas mãos, lentamente, até à altura da cara, e exclamou… «Se eu soubesse…» disse ele. ─ «Acho que deves contar tudo» lembrou Reis. ─ «Ora bolas!» interveio Gonçalves. «O conteúdo é caricato. Ninguém acredita que, com essa jigajoga, alguém vá parar ao paraíso. Por mim, eu experimentaria uma aventura dessas, mas primeiro, tinha de ver de quem se tratava». ─ «Não sou dessa opinião» exclamou Reis, erguendo-se e pondo a mão sobre o ombro de Ratazana. «Contou a história de uma forma que me obrigou a crer que é verdade, pelo menos até agora. Não consinto que duvidem dele». ─ «Não querem deixar ouvir a história?» disse Alberto. «Deixai-o ouvir!». E Ratazana, sempre sorridente, continuou: «A donzela era filha de um carniceiro lá da terra. No dia da sua boda, com o tal dito cliente, depois daquela cerimónia, o noivo preparava-se para comer a febra da noiva quando um caso insólito aconteceu. Ao que consta, a noiva, no ato importante, começou aos berros, e no momento em que o noivo se encontrava como transportado para um mundo invisível, sentiu-se todo arranhado com as unhas da noiva que não lhe poupou uns valentes arranhões na pele. E, pior que isso, veio a seguir, quando o sangue vindo da noiva, começou a trespassar pelo lençol numa mancha vermelha, aterrorizando o noivo que se passou dos carretos e fugiu da cama, trancando-se nos arrumos do quintal. E, mais tarde, começou a sair o boato cá para fora que a noiva era uma jovem com uma rodagem bastante alargada nos «noturnos», e que o noivo era final de contas, muito mais velho do que ela e que fora redondamente enganado. Na história daquela virgindade por uma saca forjada de sangue de porco agarrado à cintura dela e pelas unhas aguçadas de javali, escondidas no sutiã. Portanto, a noiva armou todo aquele banzé para se sentir atraída por alguém que a desposasse. Um escândalo de ficar solteiro toda a vida. Desta vez o barrete cheirou a esturro!». Estavam todos, é fácil de compreender, num estado de verdadeira euforia, principalmente devido à parte final da história. Nenhum deles desviava o olhar da pessoa de Ratazana. As gargalhadas entoavam pela sala. Ratazana abria e reabria os braços, numa atitude de padre, quando acaba o sermão. Quando Ratazana deu por finda a sua história, eles deixaram as cadeiras, rumo ao bar. Ratazana entretivera-os com uma história pitoresca, mas as histórias de virgens, às vezes, levam a isto. No bar a clientela acumulava-se.

Sunday, March 31, 2013


FERNANDO ABRAÃO
E RATAZANA
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(5)
O
MUNDO
DA
NOITE
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Baixo Neves, foi tema de bastantes fofoquices no seu papel de atirador de sexo do Grupo de Traidores — Abraão referia no seu pasquim semanal, talvez com uma ponta de ironia, que Neves exibia publicamente, na consola do carro, as fotos das suas inúmeras amantes. No entanto, as fofoquices nunca chegaram ao conhecimento da família, em particular. Neves tinha uma empresa de plantas e flores e era casado com filhos. Durante o começo da sua carreira empresarial, viveu um ambiente de grande pressão e trabalho, vendendo pela província e centros urbanos da região do Norte, onde geria o seu negócio que não dava para se alargar. Esteve quase a sofrer um acidente de viação, mas escapou por centímetros. Contudo, no período em que lutava para conseguir ganhar um pouco de liberdade, a sua infidelidade veio ao de cima, e envolveu-se com uma das suas miúdas de engates por telefone, Sónia. Infelizmente para Neves, que era sexualmente insaciável, Sónia interessava-se muito menos pelo amor mas muito mais pelo dinheiro, mas isso não o desmotivou de continuar obcecado sexualmente por ela. (Na sua confissão, admite mesmo ter ajudá-la financeiramente a montar um salão de cabeleireira, pedindo-lhe que continuasse a entregar-se a ele; ela prometeu.) Logo a seguir ao seu caso com Sónia, em Fevereiro de 1998, Neves foi infiel com a sua amiga pela primeira vez. Estava de carro à porta de casa da Sónia, quando viu chegar Emanuela, a quem a amiga andava a ensinar a fazer uns engates, e salvou-a. «Não me recordo da forma que Emanuela arranjou, para a porta onde me enfiou, para a sua cama, que estava ali mesmo à minha espera... o som no trinco, feito pela chave da minha amiga que regressava a casa, separou-nos num estado de consumação excitante e feliz». Neves tinha começado praticamente a viver o sexo a partir dos trinta anos. Contudo, dispôs-se a compensar-se dessa falta nos quase quarenta e cinco que levava de vida. No ano seguinte, Neves conta como se encontrou novamente com um amigo da praça, Artur Calado, que era agora empresário industrial, e que converteu a sua atitude romântica em relação às mulheres numa determinação de as «conquistar». Calado gabava-se das suas conquistas. A primeira rapariga que Neves tentou «conquistar» era uma jovem chamada Nani, estudante de biologia, que viera da Suíça passar umas férias a Portugal. Neves pagava a pensão da rapariga e convidou-a a dar um passeio para conhecer a cidade do Porto. Descreve-a como uma «rapariga saloia e bastante sabichona» de vinte e um ou vinte e dois anos, por quem não se sentia particularmente atraído, até que «um dia no pub, na zona da Boavista, no Porto, encostou-se a mim, com um perfume cheiroso e penetrante que me encheu as narinas de suavidade; nesse instante, fui invadido por um súbito desejo físico...» Continua dizendo: «Fiz amor com Nani, um tanto atabalhoadamente, e de forma inútil...» Porém, esta aventura amorosa «tinha os dias contados». Conheceu, numa venda de flores, uma florista chamada Clotilde, que «sentiu como eu, o desejo insatisfeito de abraçar um corpo de que se atrai». Foram amantes. «Por essa altura houve uma ou duas cabritadas». Uma foi com Sandra, que se meteu debaixo dos seus amigos; a outra foi Bruna, uma companheira da hora de jantar de Nani, e que agora era figurante de um grupo teatral. «Para mim, foi uma relação sexual, porque Bruna era então uma rapariga excitante... Mas uma certa tendência nela para a muleta fazia com que me irritasse variavelmente, e tudo acabou entre nós». Nani fez mais tarde a descrição da sua aventura amorosa com Neves — chamando-lhe «O abominável homem das neves». Ele lembra também uma rapariga da casa de Miss Piggy que tinha ouvido coisas a seu respeito e que o convidou para ir lá a casa, e uma prostituta negra com quem fizeram o «cavalinho» na altura de fazerem amor. Em 1999, um evento denominado Óscares da Academia das Belas Artes da Desgraça e do Amor do Grupo de Traidores, que nomeava os melhores traidores do ano, teve grande impacto, e Neves estava nomeado para o prémio de o Melhor Atirador de Sexo do ano, um grupo em que incluía os traidores Pedreiro, Caga-Milhões e Gentleman, que parecia um típico cavalheiro inglês, com os seus fatos sempre ao primor e trato impecável, e que era um Atirador de Sexo incorrigível, era industrial e convivia com eles em O Bar do Traidor. Neves estava a tornar-se uma figura importante no meio dos traidores desafiando os amigos Calado, Gentleman e a velha guarda na liderança do tiro ao sexo. Os seus engates inteligentes sobre os anúncios dos jornais, encheram uma agenda de números de telefones de jovens prostitutas. Uma delas foi Maria Alice, que andava atrás de fabianos de notas, e era uma rapariga bonita de olhos escuros. Costumavam ter grandes conversas ao telefone e discutiam possíveis negócios. Neves chamara-lhe a sua Musa. Um dia, Alice contou a Neves que estava com tesão e quando Neves lhe perguntou «É para já?», lançou-lhe os braços à volta do pescoço. Neves nunca foi um homem para dizer que não a uma traulitada. Despiram-se e saltaram para a cama, embora sem pressas. Pouco tempo depois, na Serra da Estrela, Alice especializou-se no sexo vocal — possivelmente num dos quartos alugados de que Neves tinha conhecimento através de amigos. Passaram alguns dias juntos numa propriedade particular, enquanto se supunha que Neves estivesse em viagem pelo Nordeste, ele conta como procurava arranjar tempo para fazer amor, e como conseguiram que o leiteiro lhe desse a chave da vacaria, e como fizeram amor no armazém em frente das vacas. Miss Piggy, que tinha uma casa de prostitutas, sentiu-se particularmente atraída por Neves e começou a enviar mensagens, tanto para ele como para os seus amigos Calado e Gentleman, que tinha umas novidades, ainda a roçarem a virgindade, pedindo-lhe para lá irem fazer uma visita. Uma dessas novidades foi apresentada a Neves por Miss Piggy, dizendo: «Aqui está uma menina que o vai pôr direito». Neves ficou furioso ao olhar para o camafeu que estava diante de si. Nem teve comentários. Saiu pela porta a rir. Em 2.003, a vida privada de Neves quase se tornou propriedade das prostitutas. Uma «bonita jovem com um rosto parecido como o de Madona» veio de Espinho para assistir a um evento em O Bar do Traidor. Nesse dia, foi-lhe apresentada por uma amiga do fandango, e ele convidou-a a tomar uma bebida. Ele estava cheio de pressa, e viu que ela era uma jovem extremamente apetitosa... No fim-de-semana a seguir ao evento, ela veio ao Porto, à Residencial Xangô, e telefonou-lhe que a viesse visitar. Quando Neves chegou, encontrou-a sozinha. Vestia apenas uma calcinha e sutiã. «´Isto assim é que é bom de ver`, disse, ´isto assim é que é bom de ver`, levando-me para dentro». Ela regressou a Espinho para a sua lida e, quando voltou a telefonar, Neves decidiu que era altura de fazer uma pausa. No entanto, Neves parecia que nunca acabava com a putice. Foi aproximadamente nesta altura que iniciou uma aventura amorosa com uma rapariga que lhe causou boa impressão — Bela Corista. Tocou o telefone e uma voz feminina desabafou que tinha vindo de Vila do Conde para o conhecer; pedir-lhe fosse ter com ela ao hotel. Há algumas semanas que lhe enviara SMS, esclarecendo que o queria fazer. Por isso, Neves nem pensou duas vezes. «Encontrei-me, num quarto com pouca luz, com uma rapariga alegre e formosa, com pouca roupa e cheirando a jasmim». Disse-lhe que ele era o número um de uma reduzida lista de sortalhões. «Se você diz isso...», respondeu. E, ao narrar o episódio, Neves faz o seguinte comentário subtil: «Este género de ofertas, são as que não se devem desaproveitar». Começava a pensar que esta espécie de chamariz tem um conto no fim. Porém, não foi à primeira. Bela Corista revelou-se a sua boa aventura de sempre. Era muito inteligente, mas meiga, sensual, e propensa a mistérios. Alugou um quarto para eles se encontrarem à saída da Póvoa do Varzim, inscrevendo uma inscrição por cima do candeeiro de fora: «Neste quarto moram dois amantes». (Neves contou a Ratazana, que ouviu falar do caso, que retirou a inscrição depois dela desaparecer de cena.) Porém, em breve começou a achar que ela fora um enigma. Ela tinha uma vida dupla secreta. Tinha-o considerado uma espécie de super-amigo. «A minha visão era que ela não gostava de contar nada de si... Felizmente, que não consegui tê-la por mais tempo, parecia ter-se evaporado da terra». Por ironia, a única rapariga que Neves gostou profundamente durante estes anos da sua vida boémia, recusou a ficar por conta dele. Era Sónia, que Neves encontrara pela primeira vez, em Oliveira do Douro, em 1998. Voltou a encontrá-la em 2001, quando foi a França visitar uma feira artesanal; ela estava na altura de visita a uns familiares. Neves conta como a conheceu por causa de um contato de um amigo. «Na primeira vez que a vi, apaixonei-me por ela, fiz amor com ela, e um mês, a meu pedido, apagou os números dos telefones no seu telemóvel, dos amigos e conhecidos, para meu espanto». A sua relação com Sónia, continua a perdurar, com alguns intervalos, para além do ano 2005.

Para Artur Bófia, o amor era como o atuar. Esta é a história de um dos seus casos amorosos. Tinha regressado da esquadra do Porto, depois de mais uns dias de licença. O dia estava chuvoso. Poucas eram as pessoas que andavam a pé pelas ruas, mas de todos os estabelecimentos topava-se pessoas a ver a chuva a cair, e outras enroladas numa conversa. O ar cheirava a lavado e fresco. Quando, às quatro da tarde, a chuva pareceu querer escassear por uns instantes, Artur Bófia que tinha passado um bocado no café, saiu e pôs-se a caminho da casa do Pipocas. Estava com frio e com saudades. Na altura em que chegava precisamente perto da loja de frutas, levou com uma tromba de água em cima. Artur Bófia ficou como um gato-pingado. Correu da chuva, e procurou a casa mais próxima, que era aquela onde habitava a tia Justa, uma viúva de cerca de trinta e oito anos, cuja recente viuvez a deixara razoavelmente calçada. A tia Justa era em geral aberta e descomplexada, o que de certo modo, dispunha-se sempre alegre. Quando Artur Bófia bateu à porta, tinha ela acabado de tomar um banho e estava a 0secar o cabelo. Quando abriu a porta, Artur Bófia estava á entrada pingando água para cima do soalho. «Entra e aconchega-te, antes que te constipes — disse a tia Justa». Artur Bófia, olhando para os seios como um mirolha observa um elefante, tirou o casaco. A chuva batia no telhado. A tia Justa pegou numa garrafa de uísque e colocou-a no centro da mesa. «Queres tomar um copo de uísque?» Ainda o primeiro copo de uísque não estava emborcado e já os olhos de Artur Bófia estavam de novo pregados nos seios. Bebeu o copo de uísque antes de proferir palavra. A tia Justa bebeu também, pois só assim conseguiria descontrair e começou a saborear o uísque quando bebeu uma boa dose. «Este uísque não é do mercado?» — «Ah, pois não; uma amiga minha, uma senhora espanhola é que mo orienta». Embutiu novo copo. Começara a escurecer. A tia Justa atirou umas achas para o lume. «Já que a chuva tem de cair, que caia», disse de si para si. Fixadores, os seus olhos prenderam-se no enorme físico de Artur. O peito encheu-lhe um pouco. «Andas a vir muito para estes lados, meu malandro. Chega-te, dá-me a roupa, que é para a pôr a secar, e cobre-te aí com o cobertor». Artur Bófia não usava muito a mentira. O seu pensamento não atinava lá com esse processo. «Tive no café a fazer horas com uns amigos». — «Mas estás feito numa rodilha». Captou-o em busca de alguma reação em relação à sua generosidade, mas o rosto de Artur Bófia não alterou uma unha sequer, a não ser o contentamento que sentia por estar coberto da chuva e a beber uísque. Estendeu o copo para beber de novo. A tia Justa emborcou outro copo para si. O fogo aquecia, deu uma sensação de bem-estar que contrastava com o bater da chuva no telhado. Artur Bófia não fez o mínimo esforço para se mostrar grato para com a anfitriã. Bebeu o uísque em pequenas doses, sorria estupidamente para o fogo e fumava na cadeira. A ira e o desespero crescerem na tia Justa. «Olhem para este animal», disse de si para si. «Olhem que besta esta que me havia de aparecer. Antes tivesse eu abrigado um cão da chuva. Outro homem qualquer teria para mim, pelo mínimo, uma palavra amiga». Artur Bófia pediu para encher mais um copo. Foi a vez de tia Justa dizer o que ia dentro da sua alma. «Quando a chuva cai e o fogão arde, não há como um grupo de amigos aconchegados no calor, não achas?» — «Acho». — «Talvez as persianas te incomodem — arriscou ela. — Queres que as feche?» — «Não me incomoda — respondeu Artur Bófia —, mas se vê inconveniente, não faça cerimónia». A tia Justa fechou as persianas e a sala mergulhou no semiescuro. Depois, voltou a sentar-se esperou que Artur despertasse a sedução. Aos seus ouvidos chegou o ruído do brusco atirar do fumo do cigarro de Artur. «Pensar — disse ela —, que ainda há minutos estavas lá fora, a correr da chuva, e agora, estás aqui, sentado na cadeira, a beber bom uísque, a fumar a teu bel-prazer e na companhia de uma viúva que te estima que quer o teu bem». De Artur Bófia nem uma palavra se ouviu. A tia Justa não o via nem ouvia. Bebeu o último trago do uísque e atirou às malvas a vergonha por ares e ventos. «A minha amiga Xanana Maluca contou-me que alguns dos teus amigos a visitaram numa ocasião em que chovia a rodos e ela tratou-os tão bem que eles foram muito gentis com ela. Da direção de Artur veio o som de um pequeno ronco. A tia Justa quando se aproximou, nem queria acreditar no que os seus olhos estavam a ver. Artur Bófia estava mergulhado num profundo sono. A cabeça voltada para trás, os pés atirados para a frente, a boca toda escancarada. Enquanto a tia Justa, atordoada e chocada, comtemplava a cena, um tremendo ronco saiu da boca de Artur Bófia. Passou-se dos carretos. Nas suas veias correu uma boa dose de revolta e frustração. Não gritou. Não, embora a sua vontade fosse tanta, dirigiu-se à banca da cozinha, encheu um balde de água, deixou-o atestado, e pegou nele. Depois, voltou-se lentamente para Artur. O primeiro lanço apanhou-o na metade da cabeça e atirou-o da cadeira ao chão. «Reles! — gritou a tia Justa —, reles imundo! Vai roncar para a tua rua!» Artur rolou pelo soalho. O lanço seguinte fez-lhe um penteado novo no cabelo todo puxado para trás. Artur Bófia despertava agora rapidamente. «Ei! — disse. — Que mal eu te fiz?» — «Já te digo! — gritou ela». Abriu a porta para trás e com o dedo esticado fez sinal de marcha. Artur Bófia levantou-se meio cambaleante sob as enxurradas de água. Saiu pela porta fora, enxugando o cabelo com as mãos. «Não atires mais água — implorou. — Mas que mal eu te fiz?» Com uma fúria animal, agarrou-se a ela e caíram no carreiro do jardim. A fúria dele era terrível. Sem deixar de a largar, segurou-a forte contra si, enquanto ela agitava violentamente os braços, para se libertar dele. Continuando a agarrá-la e estado abraçado a ela, o amor surgiu nele. Acariciou-lhe o cabelo, percorreu-lhe o corpo com as mãos grossas, sacudiu-a como se sacode uma trouxa. Apertou-a por uns momentos até a calma dela abrandar. «Reles imundo — gritou —, cão!» À noite, no Marco de Canaveses, um guarda-noturno patrulha as ruas a pé para impedir que as coisas boas se transformem em más. Desta vez José Gabardines equipava uma gabardina impermeável com um brilho semelhante ao alcatrão. José estava triste e chateado. Não era nada difícil fazer patrulhamento nas ruas pavimentadas; mas parte do seu itinerário estava localizado nas ruas de paralelepípedos e nos caminhos lamacentos do Marco de Canavezes e aí, os seus calos sofriam mais. A pequena lanterna iluminava aqui e ali. A noite resplandecia com intensidade. De repente, José Gabardinas gritou, espantado, e olhou para o chão. «Ei, lá! Isto já vai aí?» Artur Bófia voltou a cabeça». — «Oh, és tu, José? Ouve, já que de qualquer modo viste o que não devias ver, não podes mudar de rua uns minutos?» O guarda-noturno fez as pernas mudar de rota. «Acabem mas é lá com isso. Ainda alguém vos topa e vocês ficam nas bocas». O guarda-noturno desapareceu por detrás do edifício dos correios. A chuva batia de mansinho por entre as árvores do Marco de Canaveses.    

Todos os dias, o Faísca guiava o carrito de pedais cheio de bugigangas, pelas ruas em frente, e enfiava-se no jardim. Encostava-o junto a uma árvore e abria-lhe a porta com um alfinete. Em seguida, deixava o material à venda, pois, como toda a gente sabe, as pessoas metidas no jardim tornam-se muito mais solidárias. Só no fim da tarde voltava para casa. De uma bolsa que trazia presa ao braço, tirava os dez escudos que apurara nesse dia e depositava-as na lata da graxa, as novas moedas. Este vício durava há muito tempo. Depois, na companhia do cão, sentava-se numa cadeira e das sacas repartia duas refeições. O esconderijo do dinheiro do Faísca tornara-se o centro emblemático da concórdia, e o ponto de confiança do qual girava a amizade. Os amigos estavam esquecidos do dinheiro, esquecidos de nunca lhe terem deitado a mão. É uma bonita coisa um homem saber que respeitam ele. No espirito dos amigos esse dinheiro há muito deixara de ser uma obsessão. É verdade que, durante um certo período, os amigos tinham imaginado com a quantidade de moedas que ele devia ter arrecadado, mas com o tempo, deixaram de considera-las importante. O dinheiro era ganho pelo suor e sacrifício e esse potencial dom era propriedade do Faísca. É muito pior roubar um pobreta do que se permitir desfraldar a lei. Uma manhã, trazida por aquela rápida boca de um motorista de camião que ninguém duvida, chegou a notícia de que uma camioneta de coelhos tinha ido por uma ribanceira abaixo próximo de Baião. Artur Bófia estava ocupado em assuntos seus, mas o Pipocas, Pascácio, Catanada, Pascácio, Very nice, o Faísca e o cão puseram-se alegremente a caminho pelo monte acima, pois se havia coisa de que adorassem era de andar no monte à caça de coelhos aos saltos. Achavam esse desafio o mais excitante do mundo. Chegaram um pouco tardio ao local, mas recuperaram o tempo perdido. Percorreram o monte durante parte da manhã; no fim, apanharam uma boa quantidade de coelhos; um latão de comida, diversos caixotes partidos, meia dúzia de garrafões de água, uma corrente para prender à carroçaria e um atado de tronchudas. Quando a tarde rompeu, tinham à sua conta um achado muito razoável. Por um casal de coelhos aceitaram dez escudos dados por um dos presentes, pois a hipótese de fazerem algum dinheiro com alguns daqueles bichos era simplesmente pensável. Depois, exaustos, mas levando na alma o bom cumprimento da missão, iniciaram o caminho de volta para o Marco de Canaveses através do monte. Passava das seis da tarde quando entraram pela casa do Pipocas seguidos pelo cão. Primeiramente, o Pipocas abriu o saco e sacudiu os bichos para dentro de um anexo. O grupo entrou no quintal. Pipocas meteu a mão dentro da camisa e tirou um cigarro para fumar. Arremessou o fumo para trás e depois voltou-se calmamente para os amigos; os olhos tinham-se-lhe tornado risonhos como os de um bebé. Olhou cara após cara e todos viram um sorriso e uma satisfação difíceis de enganar. «Bem, malta...» — disse o Pipocas num tom amigável. «Não foi nada mau. Há dias de estimar». Lentamente, os amigos saíram do quintal e entraram para a sala. Pipocas, dirigiu-se aos anexos. Aí, pegou em dois pesados coelhos por debaixo das orelhas... e zás... deu-lhes uma troçada com a mão. Tirou a pele para trás, esticou-os ao comprido e retirou os enchidos e depois meteu-os numa bacia. Pascácio entrou na dispensa e trouxe um tacho com batatas. Very nice afiou as facas e pôs mãos à obra. O Faísca olhava-os perplexo. Na sala todos conversavam animadamente. O Faísca alongou o olhar para a rua. «Ele? — perguntou». Pipocas acenou rapidamente com a cabeça. O seu olhar era luminoso e acolhedor; o queixo inclinava-se-lhe para cima. Quando se sentou na cadeira, todo o seu corpo foi projetado por um impulso como o de uma rocha a poisar no solo. O Faísca dirigiu-se ao centro e armou a mesa. Continuaram a conversar durante algum tempo. Ninguém despregava das cadeiras, mas uma onda de emoção sentida dominava a sala. Havia na sala uma sensação semelhante à de que uma rapariga experimentaria quando o rapaz está a pedi-la em casamento. A tarde acabava; o sol escondeu-se por detrás do monte. A população estava mergulhada numa autêntica acalmia. Dir-se-ia que os dez escudos que os coelhos tinham rendido pouco tempo aqueceram os bolsos do Pipocas; agora, porém, já tinham destino encomendado. Pipocas e Catanada foram ao mercado comprar dois quilos de batatas e cebolas, uma saca de pimentos e uma garrafa de azeite e outra de óleo. Pascácio e Very nice foram ao café buscar dois garrafões de vinho. Na rua ouviram-se os passos de Artur Bófia; os pratos foram postos com mais vigor. Artur Bófia aproximou-se caminhando pelo passeio e entrou pelo portão. Trazia na mão um jornal desportivo. O seu olhar passou de cara para cara com satisfação; os amigos, de imediato, deixaram de estar sentados e, logo o encararam diretamente. «Olá — disse Artur Bófia». — «Olá» — respondeu o Pipocas ao mesmo tempo que se espreguiçava e só depois se levantava fixando o olhar em Artur Bófia. Foi direito a ele e, quando se encontrou defronte dele, abriu os braços com a rapidez dum voador. O abraço foi em cheio que, Artur Bófia ficou redondamente sem fôlego. Repentino, o Pipocas libertou as mãos dos ombros dele e, agarrando a mão de Artur Bófia, elevou-a ao ar. «Palmas — disse». Pascácio bateu com a colher na panela com tanta força que partiu a colher. Voltou a pegar noutra colher e desta vez bateu com menos força na panela e encarou sorridente os amigos. Os amigos levaram as mãos ao ar e fizerem um chinfrim danado. Very nice estava encarregado da cozinha. Catanada sentou-se à direita e o Pipocas à esquerda. Artur Bófia, desconfiado, olhava de lado e, então, gritou de surpresa: «Estais-me a venerar?» — berrou. — «Pelo amor da nossa amizade, o que é que se passa?» — «Quantas é que lhe destes? — indagou o Pipocas num desvio de voz». «Duas no chão, e duas na cama. Eu escanei como um leão e volto lá outra vez». Pipocas levantou-se e voltou a pedir uma salva de palmas. Os amigos bateram as mãos com o mesmo entusiasmo. As palmas tornaram-se mais fortes, e só pararam quando Artur Bófia pediu-lhes para cessar. «Acho que agora passarás e ser cobiçado — disse o Pipocas». — «Devíamos levá-lo à Xanana Maluca — observou Catanada. — Há muito tempo que não a visitámos». Abriram o garrafão que Pascácio trouxera e encheram as tijelas, pois estavam cansados do paleio e a emoção esgotava-se-lhes. Nessa noite, com o fogo a arder na lareira, os amigos encheram-se até não poderem mais. A comezaina era em honra de Artur Bófia. Este comportava-se como nunca. Embora ao primeiro fosse apanhado em contrapé, depois sorriu sem intervalo. Pascácio cobriu-lhe o prato de coelho estufado e batatas. Cada batata era do tamanho de um molete. Depois de terem ingerido uma grande dose de coelho acompanhado de uma salada de pimentos e cebolas, encostaram-se e puseram-se a fumar e a beberricar o vinho das tigelas. Chamavam a Artur Bófia «o nosso fodilhão». Depois foi a vez de ouvirem a história dos quatro coitos e os olhos deles vidraram-se. «...e depois, rapaziada — disse Artur Bófia —, a tiazinha tinha o nariz empinado, e os seus olhos faziam lembrar o brilho das gatas quando se apanham com o cio e ela gemia porque tinha calores lá por dentro. E depois, rapaziada, prometi à tiazinha que lhe dava uma por cada estação do ano. Ela é mesmo tarada, podem crer, rapaziada. E depois chegou-se ao Sul! A tiazinha fechou o rabo e começou logo a dormir. Foi S. Pedro que foi o causador, não foi, rapaziada?» Os amigos manearam a cabeça com força. «Foi — respondeu Catanada. Foi a chuva do nosso bom amigo S. Pedro. Eu só queria lá ter estado no teu lugar». Artur Bófia ficou muito contente, pois não era caso para menos ver-se naquela situação por um acontecimento fenomenal. Se o caso começasse a constar-se, Artur Bófia passaria a ser uma atração para as mulheres do Marco de Canaveses. Depois, cantaram uma cantiga em estilo coral e, galvanizados, voltaram a cantá-la. «Faísca — exclamou o Pipocas —, já todos entramos para as despesas! Já não temos mais dinheiro! Chegou a altura de comprares dois garrafões de vinho para a malta!» O dia fora demasiado cansativo para o Faísca. Retirou-se com o cão e foi a casa. Pegou num monte de moedas antes de fechar a lata e pensou nos seus novos amigos com uma generosidade que parecia desmentir o caso de que há cerca de dois anos não gastava uma moeda mal gasta. Regressou como um cavaleiro andante a casa do Pipocas, trazendo os bolsos atestados de moedas. Pipocas pôs o dinheiro debaixo de um armário. Os seus amigos olharam para as moedas com surpresa. «Mas pró que é que te deu trazeres tantas moedas? — perguntou o Pipocas, abismado. — Bastavam duas para comprares os garrafões de vinho. Temos que guardar as restantes para a próxima vez. Voltaram a cantar uma canção obscena acompanhada pelos urros do cão. O Faísca sentiu que praticara uma boa ação. Os seus amigos estavam satisfeitos por lhe verem trazer as moedas, pois, assim, até eles partilhavam um pouco da generosidade do gesto. Catanada sentia-se aliviado por não lhe ter deitado a mão ao dinheiro logo ao início. Que terrível coisa não poderia ter acontecido se tivesse rapado umas moedas que pertencia a um pobre diabo! Todos os amigos se mostravam dominados como se estivessem em família. Durante muito tempo a festa esteve animada. Artur Bófia redobrou as forças e soltou um berro, pois o álcool estava a fazer-lhe efeito na cabeça. Os amigos olharam-no com estupefação. Por fim, Very nice, esse amigo do amigo, desatou aos risos e deu-lhe um cigarro dos seus. «Até os amantes do lugar invejam por um consolo — disse, animando-se». Esta frase fez crescer o ânimo. Os amigos voltaram a cantar. Estavam entusiasmados. Se á coisas de que gostassem era de beber e de cantar. O histerismo do Faísca acabara. Bebia o vinho e o rosto iluminara-lhe de prazer ao ouvir as palavras que o Pipocas dizia. «Se levarmos todos estes coelhos ao mercado, pensarão que os roubamos dalgum galinheiro numa quinta. Devemos é vendê-los nos particulares. Depois, cada um de nós trás o dinheiro para aqui, e guarda-se para as nossas patuscadas. Talvez, no domingo seja boa altura, o Faísca deve lá estar na igreja para tentar vender». Catanada olhou com desagrado para as roupas sujas e remendadas que o Faísca vestia. «Domingo — disse com tom severo —, agarras nos coelhos que sobram e vais á igreja vendê-los. Mas deves levar roupa mais decente, senão pareces um rato do bueiro. Deixavas ficar mal os teus amigos». O Faísca sorriu. «Faço tudo o que vós dizeis — prometeu». — «Temos que lhe emprestar roupa — disse Very nice. — Eu tenho um casaco e um colete. Catanada empresta o chapéu que ficou do pai. Tu, Pipocas, tens muitas camisas e cedes-lhe uma e o Pascácio empresta as suas bonitas calças de bombazine vermelhas». — «Mas não me borras as calças — protestou Pascácio». — «Também não me amasses o chapéu — replicou Catanada. — Os fiéis provavelmente não nos vão dar qualquer elogio». O Faísca estava embriagado de tanta felicidade devido às benesses que lhe prestavam. «O meu Vigília viu uma cadela no largo do jardim — disse o Faísca. — Estava doudo, quase a babar-se, e eu próprio tive de gritar-lhe: Estou a ver que hoje te vou mandar capar. Meu rafeiro, cheio de tesão». — «Há alturas em que os bichos andam com o cio — comentou o Pipocas. — Tive um jeco não muito entesuado, mas algumas vezes viu-o coçar o instrumento nas pernas das mesas. Dependia de como estava. Se estava com a tusa atirava-se às galinhas, coelhos, era um perigo, se não estava não se atirava a nada. Já alguma vez o levaste às cadelas, Faísca?» — «Não — respondeu o Faísca. — Ficava com medo se visse os olhos dele». Durante algum tempo a conversa gerou-se sobre o tema. Era desconcertante como nessa noite bebiam abertamente. Passaram três horas depois mesmo de esvaziarem a segunda série dos garrafões. Só bastante tarde os seus sentidos descambaram para o sono e alguns pareciam bebés de olhos fechados. Essa noite constituiu uma noite fantástica das suas vidas. No domingo de manhã os preparativos foram executados. Deixaram primeiro o Faísca, vestido como manda a sapatilha, calças de bombazine vermelhas, casaco e colete, na cabeça posto ao jeito amalandrado, o chapéu do pai de Catanada. Convenceram o Faísca a não levar a gravata estampada de um clube, de modo a que não criasse divergências com os fiéis doutras cores clubistas. Os sapatos é que continuaram a ser um obstáculo. Nenhuns sapatos dos seus amigos lhe eram suficiente compridos e largos para os pés do Faísca, sendo assim, não houve outro remédio se não, que o Faísca utilizasse os seus sapatos com dois buracos abertos por onde os calos podiam respirar melhor. Finalmente deixaram-no junto ao muro da igreja. Deu uns passos em roda com o corpo para os amigos o toparem. Estes contemplaram-no, intimamente. «Vende os coelhos, Faísca». — «Não os tragas de volta». — «Deixa de pedir muito». — «Quem te vir pensará que não estás habituado a vender coisa boa». Por fim, o Faísca virou-se para os amigos. — «Se ao menos um de vocês pudesse ficar comigo — queixou-se. — Eu talvez tivesse mais arrojo». Os amigos não cederam. «Não — disse o Pipocas. — Eles têm que ir vender. A gente depois encontra-se lá em casa». O Faísca saiu sorrateiramente através do caminho até chegar ao adro da igreja, na mão levava o saco com os coelhos e o cão seguia atrás. As portas do vaivém não se cansavam do abre e fecha, mas a missa ainda não tinha começado. O Faísca colocou-se debaixo da árvore, puxou o colarinho da camisa para baixo, pôs a saca com os coelhos junto da roseira e encostou-se. A igreja era bastante comprida e algumas vezes a população enchia a igreja para cumprirem as suas obrigações. Durante uns momentos, o Faísca ficou encostado a olhar para os fiéis, mas estes quase o ignoraram, tão habituados a vê-lo aos domingos com a roupa velha e o carrito a vender santinhos. O Faísca aguentou, enervado. E, embora os fiéis entrassem, os coelhos estivessem ensacados, a missa começava e o Faísca não queria tirar os coelhos do saco com medo que eles fugissem. Como era difícil depois apanhá-los! Falou a uns fiéis para ver se os coelhos lhe interessavam. Tinha esperança de que, um entre os fiéis, havia de se mostrar interessado em comprá-los. Nem que fosse apenas um. Em seguida, o padre começou o sermão. O Faísca ouvia-o contar a história do cão amigo do homem, que nunca abandona o dono, a história das formigas voadoras e das araras surdas. Maravilhado, o Faísca escutava-o fazendo carícias ao Vigília e vertendo lágrimas de emoção. De repente, ouviu-se gritar e latir furiosamente. As portas abriram-se com estrondo e pela igreja dentro surgiram os coelhos, Vigília e o Faísca. Correram uns atrás dos outros, lançaram-se à porfia na direção dos bancos de madeira, e esgueiraram-se por baixo dos bancos, gemendo e soltando pequenos latidos. O Faísca ficou apavorado com os olhos à procura deles. E não esperou muito. Deitou-se sobre o chão, esticou-se totalmente para a frente, deixando descair a cabeça em busca dos coelhos. Foi nesse preciso momento que micou um coelho. Tinha ultrapassado os primeiros bancos e parara junto do canto do banco. Ergueu a cabeça para o escuro e ficou-se. O Faísca ficou em pulgas. Sentia os nervos subirem-lhe aos cabelos. Todo o seu fracasso, todos os seus ressentimentos se voltaram para o coelho. Com uma boa dose de calma, concentrou-se em ser mortífero. «Ah, seu filho da... — pronunciou baixinho — pensas que estou trôpego? Já vais ver». Devagarinho, muito devagarinho, arrastou-se como pôde, levou a mão até ao sapato, trazendo-o de volta. O seu olhar águia não descolava do coelho. Este encontrava-se na mesma posição. O Faísca pegou no sapato, pô-lo em posição de lance. Fez mira com um olho fechado a distância. Não podia falhar. Deixou deslizar o braço o máximo que pôde. «Vou despachar este filho da... — declarou —, preparando o corpo para o lançamento final». O coelho continuava lá, com as orelhas viradas para baixo. O Faísca esticou o braço e aspirou todo o ar dos pulmões. Apertou com mais força o sapato e esticou mais o braço. Desferiu o golpe com toda a força que tinha. O sapato voou como uma bala. Bateu no santo e gerou um barulho. Os cacos espalharam-se e o Faísca ficou estátua. A igreja estava ruidosa e num burburinho. Os coelhos passaram velozes pela porta do vaivém, descrevendo alguns oitos, correndo para o outro extremo da rua. O padre interrompeu o sermão e olhou com severidade para a confusão. O Faísca levantou-se, débil e atormentado. Os seus esforços tinham sido frustrados; o prejuízo fora cometido. Então, o padre exaltou-se, e os fiéis, também. «Leva o cão lá para fora — disse. — Procedeste mal. Estou muito zangado contigo; estou envergonhado pelo que fizeste. E tu espera até eu acabar a missa». O Faísca não conseguiu articular uma palavra, cheio de gestos de desculpa, trouxe o cão para a rua. «Vamos — disse-lhe —, o que tu foste arranjar. Mordestes os coelhos, desataste atrás deles para a igreja, e eu fui no vosso encalço. Agora vê quem vai pagar as culpas de ter quebrado o santo, meu patife? Tu ajudaste-me a cometer um estrago». Deixou-o, por uns momentos, deitado no chão a ganir tristemente. Em seguida desatou numa corrida amiúde pelas ruas na direção do monte, seguido pelo cão, que corria e saltava à sua frente. No alto da colina havia uns bancos entre os pinheiros e o ar estava cheirando a resina. A brisa fazia os pinheiros murmurar suavemente. Impondo-se, o Faísca disse: «Aqui estamos melhor. Vigília, meu grande doido, senta-te aí e não faças ondas. O senhor padre não nos vai perdoar». O cão, sentado no chão, observava-o com atenção. Depois, deu um ar grave, mas o Faísca, dirigindo-se-lhe, disse: «Aqui não é preciso pôr-te assim. Os coelhos não se importariam, mas eu não gosto que me olhes gravemente quando estou a falar para ti. Agora, descontrai». Nesse dia a palavra do Faísca estava inspirada. O Sol, entre intervalos, lançava fogachos de luz nas folhas dos pinheiros. O cão, pacientemente sentado, não tirava os olhos da boca do dono. O Faísca dobrou e esticou as pernas um pouco, apertou os cordões dos sapatos, depois disto, fitou solenemente o cão. «Os coelhos fizeram muito mal em separar-se de nós». As folhas dos pinheiros deixaram de abanar. O monte ficou iluminado e em silêncio. Subitamente, ouviu-se um seco ruído por trás do Faísca. Logo o cão levantou as orelhas. O Faísca não teve coragem para voltar a cabeça. Decorreu uns longos minutos. Depois o tempo passou. O cão baixou os olhos. O vento voltou a abanar as folhas dos pinheiros que se agitaram de novo. O Faísca ficou tão comovido que o coração lhe parou. «Tu viste-os? — exclamou. — Eram os coelhos? Oh!, que cão bondoso tu deves ser para veres uma miragem destas!» Ao ouvir estas palavras, o cão levantou-se dum salto, abriu a boca e deu uma de olhar grave.     

Poucos eram os habitantes do Marco de Canaveses que usavam relógios de boa marca de parede ou de bolso. De vez em quando, um dos amigos arranjava um relógio de alguma maneira muito afamado, mas só o tinha durante o tempo suficiente para o trocar por qualquer outro que realmente se sentisse agradado. Na loja do Pipocas, os relógios tinham boa procura e havia dois escalões, mas apenas como objetos de venda. Para uso normal havia o relógio vulgar. Era mais barato e de funcionamento prático, do que um relógio de marca afamada. No Verão, aos domingos de manhã, quando as pessoas iam à feira dos selos, nas imediações da Caixa do Povo, é certo e sabido, que era uma bela altura para uma pessoa trocar ou comprar um relógio de outra marca, mais em voga, nos vendedores ambulantes que por lá se cruzavam. Quão melhor não é uma marca mundial? É uma bela ocasião em que nem as posses de uma pessoa derretem nos bolsos nem a bondade tem interrogações por não levar nada. O Faísca e o cão seguiam, firmes e seguros, no seu trajeto habitual para o trabalho. A loja do Pipocas só abria passado três horas depois de o Faísca passar por lá. Quando o Pipocas fechou a loja, o dia ainda estava claro. O Sol já se tinha refugiado para lá do monte. O tempo tinha um cheiro seco e agradável, como o perfume das flores. E quando chegava o momento do grupo se juntar, havia sempre qualquer coisa para se contar, e as boas notícias guardavam-nas para essa ocasião. «Vi o Arnaldo Curto — disse o Pipocas, — saia da casa da Xanana Maluca. Não há um dia que aquela mulher não se meta em barafundas». — «Só sabe viver assim — comentou Pascácio. — Quem sou eu para atirar a primeira pedra, mas em dado momento penso que a Xanana é um bocado atiradiça de mais. Só lhe acontecem duas coisas na vida: amor e sarilhos». — «Mas que é que vocês esperam? — disse Catanada». — «Nunca tem paz nenhuma — lamentou Very nice». — «Também a escorraça pela porta fora — retorquiu Catanada. — Dar-lhe a paz é acabar com ela. Amor e sarilhos... Está visto. Ah, mas não esqueçamos a pinga, porque aí está uma mulher sempre fresca, sempre feliz. Mas que é que aconteceu à Xanana?» — «Vocês conhecem bem a Xanana — começou. — Há homens que algumas vezes lhe levam presentes, um frasco de água-de-colónia, um par de cuequinhas de fio dental ou um sutiã. Não passam de pequeninas coisas, mas Xanana aprecia-as. Ora bem, ontem, salvo erro, Manuel Chapadas levou-lhe um pó-de-arroz, uma caixita assim brilhante e bonita, que ele comprara num salão de beleza. A Xanana ainda deitou um pouco de pó-de-arroz na cara quando ele se envolveu com ela, mas ele foi-se abaixo antes de Xanana ter despertado». — «Como sabem, dinheiro é coisa que não falta ao Chapadas. Disse ele à Xanana: Não há nada melhor do que uma mulher ter um cheiro agradável. Sabe bem. Este pó aqui é muito bem-cheiroso. Vais gostar muito dele». Os amigos sorriram francamente e Catanada disse: «Chapadas tem artes de Don Juan. Vejam lá o que ele não fez com o pó-de-arroz... gozo e amor. Um dia destes tenho de ir ter com ele». Mas os amigos viam bem que Catanada estava era com inveja dele. «Anda lá com essa história do pó-de-arroz — disse Pascácio». — «Bom — disse Catanada, — a Xanana ficou com o pó-de-arroz e mostrou-se amável para com o Chapadas. Disse-lhe que quando ficasse cheia de pó-de-arroz, ele podia dar outro presente qualquer. Depois, o Chapadas foi-se embora e a Xanana guardou o pó-de-arroz na cómoda para quando fosse visitada pelos amigos especiais». — «Depois, veio um amigo daqueles especiais visitá-la e a Xanana deixou que ele abrisse a caixa do pó-de-arroz e a borrifasse toda com ele. A certa altura o Barbas, como era apelidado, beijou a rata de Xanana. Nem imaginam. A língua entrou por ali dentro à procura do prazer. Os lençóis e os cobertores voaram e as almofadas abafaram os gritos. E, depois, quando o gozo se foi embora, o Barbas ficou com a cara como um palhaço. Agora a Xanana anda endiabrada e diz que há-de comprar mais caixas de pó-de-arroz iguais à do Chapadas». — «Ai a viciada! — disse Pascácio — O prazer é mesmo assim, quando corre conforme os nossos desejos. Já quando o jovem André se estreou, foi do mesmo jeito». O rosto dos amigos do Pipocas alterou, interessadamente, na direção de Pascácio. «Vocês devem saber aquém eu me refiro, ao jovem André — começou Pascácio. — Parece mesmo um cobói, tronco largo e pernas compridas; mas não é lá grande coisa a pinar. Nas rapidinhas é muitas vezes atirado ao tapete. Pois bem, o homem não quer outra coisa senão que o convidem. Quando há noitadas, gosta de levar a pequena; nos quartos é sempre o primeiro a dizer: — Vamos a ver se aguentas com esta! Não há duvida, está ali um homem que quer ser um grande cobridor, que as mulheres olhem para ele, que o desejem e, até que gostem de fazer amor com ele». — «Porventura vocês se lembram daquela vez na receção da residencial em que ele armou uma cena monumental. Ia acompanhado, muito sério, com uma grande cavalona loira. Mesmo em frente do balcão da receção, a doida da cavalona puxou a saia para cima e o André topou-a sem cuequinhas e deu-lhe uma chupadela no grelo, que ela deu um grito e foi deitar-se no sofá, aos tremeliques. Catanada riu-se, apanhou um pauzito e atirou-o contra a perna da cadeira. «Lembro-me das cenas dele — disse o Pipocas. — Esse André não tem os parafusos todos. O Ratazana é que o conhece bem, quando vocês falarem com ele. Às vezes põe as gajas na mesa do André e os clientes pensam que foi ele que as chamou e dizem: — Ora aí está um sujeito que sabe do seu ofício». Não é assim tão fácil apanhar gajas quando se faz por obrigação. Very nice, que tinha estado a pensar de cabeça encostado ao braço, comentou: — «É pior falarem mal de uma pessoa do que lhe darem com uma paulada. Toda a gente gozou daquele estouvado amalucado do jovem André até ele se mostrar. Mas depois ficaram com inveja de se terem divertido dele. Essa história do André é reinante. É também uma história que dá vontade de rir». — «Ouvi contar coisas a respeito dele — disse Catanada —, mas são tantas que nem sei por onde começar». — «Bem — disse Very  nice, — eu vou conta-la e vocês logo veem se são engraçadas ou não. Quando eu era puto, costumava brincar com o Trindade. Era um bom miúdo e esperto, mas andava sempre à procura de se meter em sarilhos. O clã era composto por cinco pessoas. O pai, a mãe, e três irmãos. A maioria dessa gente já cavou daqui. Um dos irmãos perdi-lhe o rasto, o outro está na Madalena e o outro foi apanhado por uma peixeira da Afurada por lhe andar sempre a comprar linguados».— «De modo que me dei sempre bem com o Trindade e o irmão mais novo Ricardo. Trindade cresceu comigo e os sarilhos nunca o abandonaram. Passou uma temporada no serviço noturno e depois voltou para casa. Aos sábados apanhava uma liberdade e ia dormir para a praia até segunda-feira. O irmão mais novo era um daqueles rapazes de boas intenções e todas as semanas se enrolava com uma cachopa. De modo que estavam quase sempre os dois à distância. O mais novo Ricardo sentia-se só quando não tinha o Trindade ao pé de si. Adorava o irmão. Tudo o que o irmão mais velho fazia, o mais novo fazia também, mesmo quando já tinha passado dos limites». — «Talvez vocês se lembrem da Graça Gracinha — continuou Very nice. — Não era uma rapariga lá muito séria. Não tinha mais de dezassete anos quando uma rusga policial veio ao Porto e ela ficou logo retida por não ter documentação. Era gaiata e esperta e não deixava ninguém ficar sem levar resposta. Parecia andar constantemente a fugir dos polícias e os polícias bem seguiam no encalço dela. E algumas vezes levavam-na. Mas uma pessoa não lhe podia dirigir palavra quando ela estava com os azeites. A moça parecia ter o demónio dentro dela».       — «Eu sei disto — prosseguiu Very nice — porque também me atirei a ela; eu e o Trindade. Só que o Trindade tinha outro feitio». — Very nice olhou os amigos bem nos olhos fincando esta tese. — «Trindade desejava tanto o que Gracinha tinha que uma noite saiu em sua defesa e deu um pontapé nos tomates dum polícia e fugiu pela rua abaixo como os corredores de cem metros livres. Não conseguia deixá-la ser injuriada e agiu. O irmão foi falar com a Gracinha e disse-lhe: “Se não fores simpática para com o Trindade ele desaparece.” Ela, porém, limitou-se a sorrir. Não era lá muita coisa». — «Que é que vocês pensam que eles depois fizeram?» — continuou Very nice. — «Trindade foi apanhar sol para a praia e deu apalpões a Gracinha, chochos grandes de artista, carícias, festas. Depois, pegou-lhe pelas ancas e sentou-a no colo e em seguida, deu-lhe uma varada ao som das ondas. — «Gracinha passava-se com tanta marmelada, mas vinha-se e chorava como uma criança. Vocês deviam ter ouvido como ela berrava. Uma pessoa ficava com ganas de lhe dar outra varada e, ao mesmo tempo, de a calar. Eu imagino como era. Andei na cuca dela e o Trindade disse-me, também. Só que, ao Trindade dava-lhe cabo dos nervos. Já só conseguia dormir com comprimidos. Um dia confessou-me: “Se a Gracinha quiser ser minha amante, deixará de ter coragem de se meter nos copos, pois nessa altura é comprometida e é um crime desrespeitar o amante.” De maneira que pediu-a para ser sua amante. Ela desatou a beber daquela maneira maluca que dava vontade de a mandar àquela parte». — «Oh! O Trindade ficou desnorteado. Foi para o quarto, prendeu uma corda a uma perna da cama e pôs-se à espera dela. Quando a Gracinha entrou, deixou-a despir-se; em seguida colocou a corda à volta dela e atou-a à cama. Depois fechou a porta e foi-se embora. Mas ainda se passaram duas horas antes de Gracinha conseguir se libertar das cordas e três dias antes de poder insultá-lo». Very nice intervalou-se. Via, com alegria, que os seus amigos acompanhavam a história com interesse. «A coisa era deste estilo». — «Mas a Graça Gracinha foi amante do Trindade! — exclamou Catanada, excitado. — Eu conheço-a. É uma boa dona de casa; nunca nos deixa sair sem nos oferecer de beber e vai à missa todos os domingos». — «As coisas também se compuseram da maneira que o Trindade tinha desejado. O confessor disse a Gracinha que fosse uma boa mulher e ela foi uma boa mulher. Deixou de andar nos copos e de insultar os homens. Como não bebia, deixaram de se intrometer com ela. Trindade continuou a ir dormir para a praia e, passado algum tempo, arranjou lá um emprego para segurança de condóminos. Não tardou muito a entrar nos eixos. Como veem, esta história é magnífica. Era digna de ser apresentada nos palcos do cinema por um realizador se terminasse aqui». — «Pois era — disse Catanada com olhar sério. — Esta história também nos ensina algumas coisas». Os amigos acenaram com a cabeça em sinal confirmativo, pois adoravam de uma história emotiva. — «No Douro conheci uma rapariga como essa — disse o Pipocas. — A única diferença é que não se modificou. Chamavam-lhe a rapariga da segunda escolha. —A Senhorita Segunda Escolha», era o nome que eles lhe davam». Pascácio fez um gesto com a mão: — «A história ainda não terminou — disse. — Deixa lá o Very nice contar o resto». — «Sim, ainda não terminou. E, no fim, a história não é lá boa como vocês imaginam. Ricardo passava já dos vinte e cinco anos. Trindade e Gracinha foram morar para uma casa isolada. Ricardo ficou sozinho, pois acabara com a peixeira. Não tinha sossego nenhum. Passava a vida na estroina, embriagado; até que um dia conheceu uma chavalita chamada Celina. Tinha dezasseis anos e era mais bonita do que a Gracinha. Todos os clientes da cervejaria andavam atrás dela como se fossem lobos. Então, o que se tinha passado com o Trindade, deu-se com o Ricardo. O desejo corrompia-lhe o corpo todo. Bebia mais do que comia. O olhar ficou estrábico e ganhou aquele aspeto alarmado que os fumadores de droga têm. Enviara-lhe chochos atirados de mão, mas ela ria-se dele. “Vem cá, meu passarinho, vem cá ao teu príncipe.” Ela não parava de fazer chacota». — «Como vendia livros sempre que arranjava uma promoção guardava-a em presentes para a Celina, magazines e agendas. Pagou-lhe um concerto dos GNR, música ao ar livre». — «Então o Ricardo contou ao Trindade o que se passava. Trindade riu-se também. “Meu tolo”, disse, já tiveste na tua frente tanta rapariga. Não andes atrás de miuditas que sabem mais do que tu.” Mas aquilo de pouco lhe serviu. Ricardo ficou louco de desejo. Esses Trindades é gente de sangue na guelra. Escondia-se nas esquinas para a ver passar. O coração saltava-lhe do peito». — «Ela não fazia outra coisa senão esquivar-se, e Ricardo estava quase paranoico. De maneira que agiu em conformidade. E, assim, pediu-a para sair com ele. Ela riu-se como nunca e, sacudindo as saias, fez-lhe sinal de never para o afinar. Era um diabinho, aquela miúda». — «E ele um idiota — disse Catanada com descaramento. — O dever dele é meter-se com raparigas da sua idade, e não chavalitas». Very nice, arreliado, prosseguiu: — «Os Trindades são irresistíveis; aquece-lhes a veia». — «De qualquer das formas, foi incorreto. Foi uma vergonha para o Trindade — disse Catanada». Pascácio voltou-se para ele. — «Deixa lá o Very nice contar. É a história dele e não a tua. Um dia destes contas a tua». Very nice mostrou-se grato pela intervenção de Pascácio. — «Como ia dizendo, Ricardo não podia com aquilo mais, mas não era capaz de mudar fosse o que fosse. Não era como o Catanada. Como não tinha jeito para inventar nada de novo, deixou aguardar uma oportunidade». — «Vocês devem saber — prosseguiu Very nice — que lá no quarteirão há uma hospedaria. Uma tarde, Ricardo convidou Celina a dar uma volta no carro com ele e levou-a até lá. Depois, esperou até a convencer a uma rapidinha numa desportiva. Viu o tempo passar. Passou o braço à volta da cintura dela e puxou-a bruscamente para si. Ele a fazer isto e ela a retribuir-lhe com uma sonora galheta». Largos sorrisos surgiram no rosto dos amigos. Algumas vezes, pensaram, a vida tinha coisas do arco-da-velha. — «Ricardo mal se conteve — continuou Very nice. — Disse de si para si: — A miúda é capaz de andar por aí atrás de algum, mas isso não dou — Só passado um minuto é que abriu a porta da hospedaria». Very nice olhou à volta. Os largos sorrisos mantinham-se em foco. — «Vocês estão a topar — disse Very nice — a coisa é engraçada, mas também tem o seu quê». — «O que é que a Celina disse? — perguntou Catanada. — Acedeu ao impulso e mudou de procedimento?» — «Não. Não mudou nada. Ricardo aguentou-se e ela mandou-se. Mandou-se também, mas ficou fulo. E disse para si mesmo: — Que miúda parva ela me saiu. Uma noite destas vai ser ela a puxar-me para a levar para o pinhal. Depois Ricardo entrou no carro sem ela». Catanada queixou-se: — «Essa história não vale. Tem rodriguinhos a mais e podem tirar-se dela demasiadas lições, e alguns delas são contraditórias. É uma história que não vale a pena guardar na memória. Não se chega a conclusão nenhuma». — Eu atino com ela — disse Pascácio. — Atino com ela porque não tem nenhum sentido à-priori; contudo, parece que realmente quer dizer alguma coisa, embora eu não saiba bem o quê». A manhã já ia a meio e o ar estava quente.— «Que é que vamos comer? — disse o Pipocas. — «Na adega há lá um sável de escabeche — observou Pascácio». Os olhos de Catanada reluziram. — «Estive a pensar numa coisa — disse. — Quando eu era pequeno vivia nas férias com o meu tio ao pé do elétrico. Todos os dias, quando o elétrico passava, os meus amigos e eu pulávamos por trás e íamos à boleia e o guarda-freio enxotava-nos com correia. Havia alturas em que o elétrico enchia de passageiros que aí ninguém nos enxotava. Pensei agora que talvez a gente pudesse comer à borla na adega. Quando o empregado se aproximar, chamamos nomes uns aos outros e distribuímos galhetas por todos. Como é que o empregado pode responder-nos? Atirando-nos com os pratos ou com as cadeiras? Não. Só pode é deixar-nos sair em grande». Pascácio levantou-se cheio de contentamento. — «Ora aqui está uma bela ideia! — exclamou. — Isto é que o Catanada é um génio! O que é que a gente fazia sem ele? Vamos lá; eu sei onde há um grande empregado medroso». — «E o sável é o meu peixe predileto — disse o Pipocas».