Sunday, March 31, 2013


FERNANDO ABRAÃO
E RATAZANA
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(5)
O
MUNDO
DA
NOITE
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Baixo Neves, foi tema de bastantes fofoquices no seu papel de atirador de sexo do Grupo de Traidores — Abraão referia no seu pasquim semanal, talvez com uma ponta de ironia, que Neves exibia publicamente, na consola do carro, as fotos das suas inúmeras amantes. No entanto, as fofoquices nunca chegaram ao conhecimento da família, em particular. Neves tinha uma empresa de plantas e flores e era casado com filhos. Durante o começo da sua carreira empresarial, viveu um ambiente de grande pressão e trabalho, vendendo pela província e centros urbanos da região do Norte, onde geria o seu negócio que não dava para se alargar. Esteve quase a sofrer um acidente de viação, mas escapou por centímetros. Contudo, no período em que lutava para conseguir ganhar um pouco de liberdade, a sua infidelidade veio ao de cima, e envolveu-se com uma das suas miúdas de engates por telefone, Sónia. Infelizmente para Neves, que era sexualmente insaciável, Sónia interessava-se muito menos pelo amor mas muito mais pelo dinheiro, mas isso não o desmotivou de continuar obcecado sexualmente por ela. (Na sua confissão, admite mesmo ter ajudá-la financeiramente a montar um salão de cabeleireira, pedindo-lhe que continuasse a entregar-se a ele; ela prometeu.) Logo a seguir ao seu caso com Sónia, em Fevereiro de 1998, Neves foi infiel com a sua amiga pela primeira vez. Estava de carro à porta de casa da Sónia, quando viu chegar Emanuela, a quem a amiga andava a ensinar a fazer uns engates, e salvou-a. «Não me recordo da forma que Emanuela arranjou, para a porta onde me enfiou, para a sua cama, que estava ali mesmo à minha espera... o som no trinco, feito pela chave da minha amiga que regressava a casa, separou-nos num estado de consumação excitante e feliz». Neves tinha começado praticamente a viver o sexo a partir dos trinta anos. Contudo, dispôs-se a compensar-se dessa falta nos quase quarenta e cinco que levava de vida. No ano seguinte, Neves conta como se encontrou novamente com um amigo da praça, Artur Calado, que era agora empresário industrial, e que converteu a sua atitude romântica em relação às mulheres numa determinação de as «conquistar». Calado gabava-se das suas conquistas. A primeira rapariga que Neves tentou «conquistar» era uma jovem chamada Nani, estudante de biologia, que viera da Suíça passar umas férias a Portugal. Neves pagava a pensão da rapariga e convidou-a a dar um passeio para conhecer a cidade do Porto. Descreve-a como uma «rapariga saloia e bastante sabichona» de vinte e um ou vinte e dois anos, por quem não se sentia particularmente atraído, até que «um dia no pub, na zona da Boavista, no Porto, encostou-se a mim, com um perfume cheiroso e penetrante que me encheu as narinas de suavidade; nesse instante, fui invadido por um súbito desejo físico...» Continua dizendo: «Fiz amor com Nani, um tanto atabalhoadamente, e de forma inútil...» Porém, esta aventura amorosa «tinha os dias contados». Conheceu, numa venda de flores, uma florista chamada Clotilde, que «sentiu como eu, o desejo insatisfeito de abraçar um corpo de que se atrai». Foram amantes. «Por essa altura houve uma ou duas cabritadas». Uma foi com Sandra, que se meteu debaixo dos seus amigos; a outra foi Bruna, uma companheira da hora de jantar de Nani, e que agora era figurante de um grupo teatral. «Para mim, foi uma relação sexual, porque Bruna era então uma rapariga excitante... Mas uma certa tendência nela para a muleta fazia com que me irritasse variavelmente, e tudo acabou entre nós». Nani fez mais tarde a descrição da sua aventura amorosa com Neves — chamando-lhe «O abominável homem das neves». Ele lembra também uma rapariga da casa de Miss Piggy que tinha ouvido coisas a seu respeito e que o convidou para ir lá a casa, e uma prostituta negra com quem fizeram o «cavalinho» na altura de fazerem amor. Em 1999, um evento denominado Óscares da Academia das Belas Artes da Desgraça e do Amor do Grupo de Traidores, que nomeava os melhores traidores do ano, teve grande impacto, e Neves estava nomeado para o prémio de o Melhor Atirador de Sexo do ano, um grupo em que incluía os traidores Pedreiro, Caga-Milhões e Gentleman, que parecia um típico cavalheiro inglês, com os seus fatos sempre ao primor e trato impecável, e que era um Atirador de Sexo incorrigível, era industrial e convivia com eles em O Bar do Traidor. Neves estava a tornar-se uma figura importante no meio dos traidores desafiando os amigos Calado, Gentleman e a velha guarda na liderança do tiro ao sexo. Os seus engates inteligentes sobre os anúncios dos jornais, encheram uma agenda de números de telefones de jovens prostitutas. Uma delas foi Maria Alice, que andava atrás de fabianos de notas, e era uma rapariga bonita de olhos escuros. Costumavam ter grandes conversas ao telefone e discutiam possíveis negócios. Neves chamara-lhe a sua Musa. Um dia, Alice contou a Neves que estava com tesão e quando Neves lhe perguntou «É para já?», lançou-lhe os braços à volta do pescoço. Neves nunca foi um homem para dizer que não a uma traulitada. Despiram-se e saltaram para a cama, embora sem pressas. Pouco tempo depois, na Serra da Estrela, Alice especializou-se no sexo vocal — possivelmente num dos quartos alugados de que Neves tinha conhecimento através de amigos. Passaram alguns dias juntos numa propriedade particular, enquanto se supunha que Neves estivesse em viagem pelo Nordeste, ele conta como procurava arranjar tempo para fazer amor, e como conseguiram que o leiteiro lhe desse a chave da vacaria, e como fizeram amor no armazém em frente das vacas. Miss Piggy, que tinha uma casa de prostitutas, sentiu-se particularmente atraída por Neves e começou a enviar mensagens, tanto para ele como para os seus amigos Calado e Gentleman, que tinha umas novidades, ainda a roçarem a virgindade, pedindo-lhe para lá irem fazer uma visita. Uma dessas novidades foi apresentada a Neves por Miss Piggy, dizendo: «Aqui está uma menina que o vai pôr direito». Neves ficou furioso ao olhar para o camafeu que estava diante de si. Nem teve comentários. Saiu pela porta a rir. Em 2.003, a vida privada de Neves quase se tornou propriedade das prostitutas. Uma «bonita jovem com um rosto parecido como o de Madona» veio de Espinho para assistir a um evento em O Bar do Traidor. Nesse dia, foi-lhe apresentada por uma amiga do fandango, e ele convidou-a a tomar uma bebida. Ele estava cheio de pressa, e viu que ela era uma jovem extremamente apetitosa... No fim-de-semana a seguir ao evento, ela veio ao Porto, à Residencial Xangô, e telefonou-lhe que a viesse visitar. Quando Neves chegou, encontrou-a sozinha. Vestia apenas uma calcinha e sutiã. «´Isto assim é que é bom de ver`, disse, ´isto assim é que é bom de ver`, levando-me para dentro». Ela regressou a Espinho para a sua lida e, quando voltou a telefonar, Neves decidiu que era altura de fazer uma pausa. No entanto, Neves parecia que nunca acabava com a putice. Foi aproximadamente nesta altura que iniciou uma aventura amorosa com uma rapariga que lhe causou boa impressão — Bela Corista. Tocou o telefone e uma voz feminina desabafou que tinha vindo de Vila do Conde para o conhecer; pedir-lhe fosse ter com ela ao hotel. Há algumas semanas que lhe enviara SMS, esclarecendo que o queria fazer. Por isso, Neves nem pensou duas vezes. «Encontrei-me, num quarto com pouca luz, com uma rapariga alegre e formosa, com pouca roupa e cheirando a jasmim». Disse-lhe que ele era o número um de uma reduzida lista de sortalhões. «Se você diz isso...», respondeu. E, ao narrar o episódio, Neves faz o seguinte comentário subtil: «Este género de ofertas, são as que não se devem desaproveitar». Começava a pensar que esta espécie de chamariz tem um conto no fim. Porém, não foi à primeira. Bela Corista revelou-se a sua boa aventura de sempre. Era muito inteligente, mas meiga, sensual, e propensa a mistérios. Alugou um quarto para eles se encontrarem à saída da Póvoa do Varzim, inscrevendo uma inscrição por cima do candeeiro de fora: «Neste quarto moram dois amantes». (Neves contou a Ratazana, que ouviu falar do caso, que retirou a inscrição depois dela desaparecer de cena.) Porém, em breve começou a achar que ela fora um enigma. Ela tinha uma vida dupla secreta. Tinha-o considerado uma espécie de super-amigo. «A minha visão era que ela não gostava de contar nada de si... Felizmente, que não consegui tê-la por mais tempo, parecia ter-se evaporado da terra». Por ironia, a única rapariga que Neves gostou profundamente durante estes anos da sua vida boémia, recusou a ficar por conta dele. Era Sónia, que Neves encontrara pela primeira vez, em Oliveira do Douro, em 1998. Voltou a encontrá-la em 2001, quando foi a França visitar uma feira artesanal; ela estava na altura de visita a uns familiares. Neves conta como a conheceu por causa de um contato de um amigo. «Na primeira vez que a vi, apaixonei-me por ela, fiz amor com ela, e um mês, a meu pedido, apagou os números dos telefones no seu telemóvel, dos amigos e conhecidos, para meu espanto». A sua relação com Sónia, continua a perdurar, com alguns intervalos, para além do ano 2005.

Para Artur Bófia, o amor era como o atuar. Esta é a história de um dos seus casos amorosos. Tinha regressado da esquadra do Porto, depois de mais uns dias de licença. O dia estava chuvoso. Poucas eram as pessoas que andavam a pé pelas ruas, mas de todos os estabelecimentos topava-se pessoas a ver a chuva a cair, e outras enroladas numa conversa. O ar cheirava a lavado e fresco. Quando, às quatro da tarde, a chuva pareceu querer escassear por uns instantes, Artur Bófia que tinha passado um bocado no café, saiu e pôs-se a caminho da casa do Pipocas. Estava com frio e com saudades. Na altura em que chegava precisamente perto da loja de frutas, levou com uma tromba de água em cima. Artur Bófia ficou como um gato-pingado. Correu da chuva, e procurou a casa mais próxima, que era aquela onde habitava a tia Justa, uma viúva de cerca de trinta e oito anos, cuja recente viuvez a deixara razoavelmente calçada. A tia Justa era em geral aberta e descomplexada, o que de certo modo, dispunha-se sempre alegre. Quando Artur Bófia bateu à porta, tinha ela acabado de tomar um banho e estava a 0secar o cabelo. Quando abriu a porta, Artur Bófia estava á entrada pingando água para cima do soalho. «Entra e aconchega-te, antes que te constipes — disse a tia Justa». Artur Bófia, olhando para os seios como um mirolha observa um elefante, tirou o casaco. A chuva batia no telhado. A tia Justa pegou numa garrafa de uísque e colocou-a no centro da mesa. «Queres tomar um copo de uísque?» Ainda o primeiro copo de uísque não estava emborcado e já os olhos de Artur Bófia estavam de novo pregados nos seios. Bebeu o copo de uísque antes de proferir palavra. A tia Justa bebeu também, pois só assim conseguiria descontrair e começou a saborear o uísque quando bebeu uma boa dose. «Este uísque não é do mercado?» — «Ah, pois não; uma amiga minha, uma senhora espanhola é que mo orienta». Embutiu novo copo. Começara a escurecer. A tia Justa atirou umas achas para o lume. «Já que a chuva tem de cair, que caia», disse de si para si. Fixadores, os seus olhos prenderam-se no enorme físico de Artur. O peito encheu-lhe um pouco. «Andas a vir muito para estes lados, meu malandro. Chega-te, dá-me a roupa, que é para a pôr a secar, e cobre-te aí com o cobertor». Artur Bófia não usava muito a mentira. O seu pensamento não atinava lá com esse processo. «Tive no café a fazer horas com uns amigos». — «Mas estás feito numa rodilha». Captou-o em busca de alguma reação em relação à sua generosidade, mas o rosto de Artur Bófia não alterou uma unha sequer, a não ser o contentamento que sentia por estar coberto da chuva e a beber uísque. Estendeu o copo para beber de novo. A tia Justa emborcou outro copo para si. O fogo aquecia, deu uma sensação de bem-estar que contrastava com o bater da chuva no telhado. Artur Bófia não fez o mínimo esforço para se mostrar grato para com a anfitriã. Bebeu o uísque em pequenas doses, sorria estupidamente para o fogo e fumava na cadeira. A ira e o desespero crescerem na tia Justa. «Olhem para este animal», disse de si para si. «Olhem que besta esta que me havia de aparecer. Antes tivesse eu abrigado um cão da chuva. Outro homem qualquer teria para mim, pelo mínimo, uma palavra amiga». Artur Bófia pediu para encher mais um copo. Foi a vez de tia Justa dizer o que ia dentro da sua alma. «Quando a chuva cai e o fogão arde, não há como um grupo de amigos aconchegados no calor, não achas?» — «Acho». — «Talvez as persianas te incomodem — arriscou ela. — Queres que as feche?» — «Não me incomoda — respondeu Artur Bófia —, mas se vê inconveniente, não faça cerimónia». A tia Justa fechou as persianas e a sala mergulhou no semiescuro. Depois, voltou a sentar-se esperou que Artur despertasse a sedução. Aos seus ouvidos chegou o ruído do brusco atirar do fumo do cigarro de Artur. «Pensar — disse ela —, que ainda há minutos estavas lá fora, a correr da chuva, e agora, estás aqui, sentado na cadeira, a beber bom uísque, a fumar a teu bel-prazer e na companhia de uma viúva que te estima que quer o teu bem». De Artur Bófia nem uma palavra se ouviu. A tia Justa não o via nem ouvia. Bebeu o último trago do uísque e atirou às malvas a vergonha por ares e ventos. «A minha amiga Xanana Maluca contou-me que alguns dos teus amigos a visitaram numa ocasião em que chovia a rodos e ela tratou-os tão bem que eles foram muito gentis com ela. Da direção de Artur veio o som de um pequeno ronco. A tia Justa quando se aproximou, nem queria acreditar no que os seus olhos estavam a ver. Artur Bófia estava mergulhado num profundo sono. A cabeça voltada para trás, os pés atirados para a frente, a boca toda escancarada. Enquanto a tia Justa, atordoada e chocada, comtemplava a cena, um tremendo ronco saiu da boca de Artur Bófia. Passou-se dos carretos. Nas suas veias correu uma boa dose de revolta e frustração. Não gritou. Não, embora a sua vontade fosse tanta, dirigiu-se à banca da cozinha, encheu um balde de água, deixou-o atestado, e pegou nele. Depois, voltou-se lentamente para Artur. O primeiro lanço apanhou-o na metade da cabeça e atirou-o da cadeira ao chão. «Reles! — gritou a tia Justa —, reles imundo! Vai roncar para a tua rua!» Artur rolou pelo soalho. O lanço seguinte fez-lhe um penteado novo no cabelo todo puxado para trás. Artur Bófia despertava agora rapidamente. «Ei! — disse. — Que mal eu te fiz?» — «Já te digo! — gritou ela». Abriu a porta para trás e com o dedo esticado fez sinal de marcha. Artur Bófia levantou-se meio cambaleante sob as enxurradas de água. Saiu pela porta fora, enxugando o cabelo com as mãos. «Não atires mais água — implorou. — Mas que mal eu te fiz?» Com uma fúria animal, agarrou-se a ela e caíram no carreiro do jardim. A fúria dele era terrível. Sem deixar de a largar, segurou-a forte contra si, enquanto ela agitava violentamente os braços, para se libertar dele. Continuando a agarrá-la e estado abraçado a ela, o amor surgiu nele. Acariciou-lhe o cabelo, percorreu-lhe o corpo com as mãos grossas, sacudiu-a como se sacode uma trouxa. Apertou-a por uns momentos até a calma dela abrandar. «Reles imundo — gritou —, cão!» À noite, no Marco de Canaveses, um guarda-noturno patrulha as ruas a pé para impedir que as coisas boas se transformem em más. Desta vez José Gabardines equipava uma gabardina impermeável com um brilho semelhante ao alcatrão. José estava triste e chateado. Não era nada difícil fazer patrulhamento nas ruas pavimentadas; mas parte do seu itinerário estava localizado nas ruas de paralelepípedos e nos caminhos lamacentos do Marco de Canavezes e aí, os seus calos sofriam mais. A pequena lanterna iluminava aqui e ali. A noite resplandecia com intensidade. De repente, José Gabardinas gritou, espantado, e olhou para o chão. «Ei, lá! Isto já vai aí?» Artur Bófia voltou a cabeça». — «Oh, és tu, José? Ouve, já que de qualquer modo viste o que não devias ver, não podes mudar de rua uns minutos?» O guarda-noturno fez as pernas mudar de rota. «Acabem mas é lá com isso. Ainda alguém vos topa e vocês ficam nas bocas». O guarda-noturno desapareceu por detrás do edifício dos correios. A chuva batia de mansinho por entre as árvores do Marco de Canaveses.    

Todos os dias, o Faísca guiava o carrito de pedais cheio de bugigangas, pelas ruas em frente, e enfiava-se no jardim. Encostava-o junto a uma árvore e abria-lhe a porta com um alfinete. Em seguida, deixava o material à venda, pois, como toda a gente sabe, as pessoas metidas no jardim tornam-se muito mais solidárias. Só no fim da tarde voltava para casa. De uma bolsa que trazia presa ao braço, tirava os dez escudos que apurara nesse dia e depositava-as na lata da graxa, as novas moedas. Este vício durava há muito tempo. Depois, na companhia do cão, sentava-se numa cadeira e das sacas repartia duas refeições. O esconderijo do dinheiro do Faísca tornara-se o centro emblemático da concórdia, e o ponto de confiança do qual girava a amizade. Os amigos estavam esquecidos do dinheiro, esquecidos de nunca lhe terem deitado a mão. É uma bonita coisa um homem saber que respeitam ele. No espirito dos amigos esse dinheiro há muito deixara de ser uma obsessão. É verdade que, durante um certo período, os amigos tinham imaginado com a quantidade de moedas que ele devia ter arrecadado, mas com o tempo, deixaram de considera-las importante. O dinheiro era ganho pelo suor e sacrifício e esse potencial dom era propriedade do Faísca. É muito pior roubar um pobreta do que se permitir desfraldar a lei. Uma manhã, trazida por aquela rápida boca de um motorista de camião que ninguém duvida, chegou a notícia de que uma camioneta de coelhos tinha ido por uma ribanceira abaixo próximo de Baião. Artur Bófia estava ocupado em assuntos seus, mas o Pipocas, Pascácio, Catanada, Pascácio, Very nice, o Faísca e o cão puseram-se alegremente a caminho pelo monte acima, pois se havia coisa de que adorassem era de andar no monte à caça de coelhos aos saltos. Achavam esse desafio o mais excitante do mundo. Chegaram um pouco tardio ao local, mas recuperaram o tempo perdido. Percorreram o monte durante parte da manhã; no fim, apanharam uma boa quantidade de coelhos; um latão de comida, diversos caixotes partidos, meia dúzia de garrafões de água, uma corrente para prender à carroçaria e um atado de tronchudas. Quando a tarde rompeu, tinham à sua conta um achado muito razoável. Por um casal de coelhos aceitaram dez escudos dados por um dos presentes, pois a hipótese de fazerem algum dinheiro com alguns daqueles bichos era simplesmente pensável. Depois, exaustos, mas levando na alma o bom cumprimento da missão, iniciaram o caminho de volta para o Marco de Canaveses através do monte. Passava das seis da tarde quando entraram pela casa do Pipocas seguidos pelo cão. Primeiramente, o Pipocas abriu o saco e sacudiu os bichos para dentro de um anexo. O grupo entrou no quintal. Pipocas meteu a mão dentro da camisa e tirou um cigarro para fumar. Arremessou o fumo para trás e depois voltou-se calmamente para os amigos; os olhos tinham-se-lhe tornado risonhos como os de um bebé. Olhou cara após cara e todos viram um sorriso e uma satisfação difíceis de enganar. «Bem, malta...» — disse o Pipocas num tom amigável. «Não foi nada mau. Há dias de estimar». Lentamente, os amigos saíram do quintal e entraram para a sala. Pipocas, dirigiu-se aos anexos. Aí, pegou em dois pesados coelhos por debaixo das orelhas... e zás... deu-lhes uma troçada com a mão. Tirou a pele para trás, esticou-os ao comprido e retirou os enchidos e depois meteu-os numa bacia. Pascácio entrou na dispensa e trouxe um tacho com batatas. Very nice afiou as facas e pôs mãos à obra. O Faísca olhava-os perplexo. Na sala todos conversavam animadamente. O Faísca alongou o olhar para a rua. «Ele? — perguntou». Pipocas acenou rapidamente com a cabeça. O seu olhar era luminoso e acolhedor; o queixo inclinava-se-lhe para cima. Quando se sentou na cadeira, todo o seu corpo foi projetado por um impulso como o de uma rocha a poisar no solo. O Faísca dirigiu-se ao centro e armou a mesa. Continuaram a conversar durante algum tempo. Ninguém despregava das cadeiras, mas uma onda de emoção sentida dominava a sala. Havia na sala uma sensação semelhante à de que uma rapariga experimentaria quando o rapaz está a pedi-la em casamento. A tarde acabava; o sol escondeu-se por detrás do monte. A população estava mergulhada numa autêntica acalmia. Dir-se-ia que os dez escudos que os coelhos tinham rendido pouco tempo aqueceram os bolsos do Pipocas; agora, porém, já tinham destino encomendado. Pipocas e Catanada foram ao mercado comprar dois quilos de batatas e cebolas, uma saca de pimentos e uma garrafa de azeite e outra de óleo. Pascácio e Very nice foram ao café buscar dois garrafões de vinho. Na rua ouviram-se os passos de Artur Bófia; os pratos foram postos com mais vigor. Artur Bófia aproximou-se caminhando pelo passeio e entrou pelo portão. Trazia na mão um jornal desportivo. O seu olhar passou de cara para cara com satisfação; os amigos, de imediato, deixaram de estar sentados e, logo o encararam diretamente. «Olá — disse Artur Bófia». — «Olá» — respondeu o Pipocas ao mesmo tempo que se espreguiçava e só depois se levantava fixando o olhar em Artur Bófia. Foi direito a ele e, quando se encontrou defronte dele, abriu os braços com a rapidez dum voador. O abraço foi em cheio que, Artur Bófia ficou redondamente sem fôlego. Repentino, o Pipocas libertou as mãos dos ombros dele e, agarrando a mão de Artur Bófia, elevou-a ao ar. «Palmas — disse». Pascácio bateu com a colher na panela com tanta força que partiu a colher. Voltou a pegar noutra colher e desta vez bateu com menos força na panela e encarou sorridente os amigos. Os amigos levaram as mãos ao ar e fizerem um chinfrim danado. Very nice estava encarregado da cozinha. Catanada sentou-se à direita e o Pipocas à esquerda. Artur Bófia, desconfiado, olhava de lado e, então, gritou de surpresa: «Estais-me a venerar?» — berrou. — «Pelo amor da nossa amizade, o que é que se passa?» — «Quantas é que lhe destes? — indagou o Pipocas num desvio de voz». «Duas no chão, e duas na cama. Eu escanei como um leão e volto lá outra vez». Pipocas levantou-se e voltou a pedir uma salva de palmas. Os amigos bateram as mãos com o mesmo entusiasmo. As palmas tornaram-se mais fortes, e só pararam quando Artur Bófia pediu-lhes para cessar. «Acho que agora passarás e ser cobiçado — disse o Pipocas». — «Devíamos levá-lo à Xanana Maluca — observou Catanada. — Há muito tempo que não a visitámos». Abriram o garrafão que Pascácio trouxera e encheram as tijelas, pois estavam cansados do paleio e a emoção esgotava-se-lhes. Nessa noite, com o fogo a arder na lareira, os amigos encheram-se até não poderem mais. A comezaina era em honra de Artur Bófia. Este comportava-se como nunca. Embora ao primeiro fosse apanhado em contrapé, depois sorriu sem intervalo. Pascácio cobriu-lhe o prato de coelho estufado e batatas. Cada batata era do tamanho de um molete. Depois de terem ingerido uma grande dose de coelho acompanhado de uma salada de pimentos e cebolas, encostaram-se e puseram-se a fumar e a beberricar o vinho das tigelas. Chamavam a Artur Bófia «o nosso fodilhão». Depois foi a vez de ouvirem a história dos quatro coitos e os olhos deles vidraram-se. «...e depois, rapaziada — disse Artur Bófia —, a tiazinha tinha o nariz empinado, e os seus olhos faziam lembrar o brilho das gatas quando se apanham com o cio e ela gemia porque tinha calores lá por dentro. E depois, rapaziada, prometi à tiazinha que lhe dava uma por cada estação do ano. Ela é mesmo tarada, podem crer, rapaziada. E depois chegou-se ao Sul! A tiazinha fechou o rabo e começou logo a dormir. Foi S. Pedro que foi o causador, não foi, rapaziada?» Os amigos manearam a cabeça com força. «Foi — respondeu Catanada. Foi a chuva do nosso bom amigo S. Pedro. Eu só queria lá ter estado no teu lugar». Artur Bófia ficou muito contente, pois não era caso para menos ver-se naquela situação por um acontecimento fenomenal. Se o caso começasse a constar-se, Artur Bófia passaria a ser uma atração para as mulheres do Marco de Canaveses. Depois, cantaram uma cantiga em estilo coral e, galvanizados, voltaram a cantá-la. «Faísca — exclamou o Pipocas —, já todos entramos para as despesas! Já não temos mais dinheiro! Chegou a altura de comprares dois garrafões de vinho para a malta!» O dia fora demasiado cansativo para o Faísca. Retirou-se com o cão e foi a casa. Pegou num monte de moedas antes de fechar a lata e pensou nos seus novos amigos com uma generosidade que parecia desmentir o caso de que há cerca de dois anos não gastava uma moeda mal gasta. Regressou como um cavaleiro andante a casa do Pipocas, trazendo os bolsos atestados de moedas. Pipocas pôs o dinheiro debaixo de um armário. Os seus amigos olharam para as moedas com surpresa. «Mas pró que é que te deu trazeres tantas moedas? — perguntou o Pipocas, abismado. — Bastavam duas para comprares os garrafões de vinho. Temos que guardar as restantes para a próxima vez. Voltaram a cantar uma canção obscena acompanhada pelos urros do cão. O Faísca sentiu que praticara uma boa ação. Os seus amigos estavam satisfeitos por lhe verem trazer as moedas, pois, assim, até eles partilhavam um pouco da generosidade do gesto. Catanada sentia-se aliviado por não lhe ter deitado a mão ao dinheiro logo ao início. Que terrível coisa não poderia ter acontecido se tivesse rapado umas moedas que pertencia a um pobre diabo! Todos os amigos se mostravam dominados como se estivessem em família. Durante muito tempo a festa esteve animada. Artur Bófia redobrou as forças e soltou um berro, pois o álcool estava a fazer-lhe efeito na cabeça. Os amigos olharam-no com estupefação. Por fim, Very nice, esse amigo do amigo, desatou aos risos e deu-lhe um cigarro dos seus. «Até os amantes do lugar invejam por um consolo — disse, animando-se». Esta frase fez crescer o ânimo. Os amigos voltaram a cantar. Estavam entusiasmados. Se á coisas de que gostassem era de beber e de cantar. O histerismo do Faísca acabara. Bebia o vinho e o rosto iluminara-lhe de prazer ao ouvir as palavras que o Pipocas dizia. «Se levarmos todos estes coelhos ao mercado, pensarão que os roubamos dalgum galinheiro numa quinta. Devemos é vendê-los nos particulares. Depois, cada um de nós trás o dinheiro para aqui, e guarda-se para as nossas patuscadas. Talvez, no domingo seja boa altura, o Faísca deve lá estar na igreja para tentar vender». Catanada olhou com desagrado para as roupas sujas e remendadas que o Faísca vestia. «Domingo — disse com tom severo —, agarras nos coelhos que sobram e vais á igreja vendê-los. Mas deves levar roupa mais decente, senão pareces um rato do bueiro. Deixavas ficar mal os teus amigos». O Faísca sorriu. «Faço tudo o que vós dizeis — prometeu». — «Temos que lhe emprestar roupa — disse Very nice. — Eu tenho um casaco e um colete. Catanada empresta o chapéu que ficou do pai. Tu, Pipocas, tens muitas camisas e cedes-lhe uma e o Pascácio empresta as suas bonitas calças de bombazine vermelhas». — «Mas não me borras as calças — protestou Pascácio». — «Também não me amasses o chapéu — replicou Catanada. — Os fiéis provavelmente não nos vão dar qualquer elogio». O Faísca estava embriagado de tanta felicidade devido às benesses que lhe prestavam. «O meu Vigília viu uma cadela no largo do jardim — disse o Faísca. — Estava doudo, quase a babar-se, e eu próprio tive de gritar-lhe: Estou a ver que hoje te vou mandar capar. Meu rafeiro, cheio de tesão». — «Há alturas em que os bichos andam com o cio — comentou o Pipocas. — Tive um jeco não muito entesuado, mas algumas vezes viu-o coçar o instrumento nas pernas das mesas. Dependia de como estava. Se estava com a tusa atirava-se às galinhas, coelhos, era um perigo, se não estava não se atirava a nada. Já alguma vez o levaste às cadelas, Faísca?» — «Não — respondeu o Faísca. — Ficava com medo se visse os olhos dele». Durante algum tempo a conversa gerou-se sobre o tema. Era desconcertante como nessa noite bebiam abertamente. Passaram três horas depois mesmo de esvaziarem a segunda série dos garrafões. Só bastante tarde os seus sentidos descambaram para o sono e alguns pareciam bebés de olhos fechados. Essa noite constituiu uma noite fantástica das suas vidas. No domingo de manhã os preparativos foram executados. Deixaram primeiro o Faísca, vestido como manda a sapatilha, calças de bombazine vermelhas, casaco e colete, na cabeça posto ao jeito amalandrado, o chapéu do pai de Catanada. Convenceram o Faísca a não levar a gravata estampada de um clube, de modo a que não criasse divergências com os fiéis doutras cores clubistas. Os sapatos é que continuaram a ser um obstáculo. Nenhuns sapatos dos seus amigos lhe eram suficiente compridos e largos para os pés do Faísca, sendo assim, não houve outro remédio se não, que o Faísca utilizasse os seus sapatos com dois buracos abertos por onde os calos podiam respirar melhor. Finalmente deixaram-no junto ao muro da igreja. Deu uns passos em roda com o corpo para os amigos o toparem. Estes contemplaram-no, intimamente. «Vende os coelhos, Faísca». — «Não os tragas de volta». — «Deixa de pedir muito». — «Quem te vir pensará que não estás habituado a vender coisa boa». Por fim, o Faísca virou-se para os amigos. — «Se ao menos um de vocês pudesse ficar comigo — queixou-se. — Eu talvez tivesse mais arrojo». Os amigos não cederam. «Não — disse o Pipocas. — Eles têm que ir vender. A gente depois encontra-se lá em casa». O Faísca saiu sorrateiramente através do caminho até chegar ao adro da igreja, na mão levava o saco com os coelhos e o cão seguia atrás. As portas do vaivém não se cansavam do abre e fecha, mas a missa ainda não tinha começado. O Faísca colocou-se debaixo da árvore, puxou o colarinho da camisa para baixo, pôs a saca com os coelhos junto da roseira e encostou-se. A igreja era bastante comprida e algumas vezes a população enchia a igreja para cumprirem as suas obrigações. Durante uns momentos, o Faísca ficou encostado a olhar para os fiéis, mas estes quase o ignoraram, tão habituados a vê-lo aos domingos com a roupa velha e o carrito a vender santinhos. O Faísca aguentou, enervado. E, embora os fiéis entrassem, os coelhos estivessem ensacados, a missa começava e o Faísca não queria tirar os coelhos do saco com medo que eles fugissem. Como era difícil depois apanhá-los! Falou a uns fiéis para ver se os coelhos lhe interessavam. Tinha esperança de que, um entre os fiéis, havia de se mostrar interessado em comprá-los. Nem que fosse apenas um. Em seguida, o padre começou o sermão. O Faísca ouvia-o contar a história do cão amigo do homem, que nunca abandona o dono, a história das formigas voadoras e das araras surdas. Maravilhado, o Faísca escutava-o fazendo carícias ao Vigília e vertendo lágrimas de emoção. De repente, ouviu-se gritar e latir furiosamente. As portas abriram-se com estrondo e pela igreja dentro surgiram os coelhos, Vigília e o Faísca. Correram uns atrás dos outros, lançaram-se à porfia na direção dos bancos de madeira, e esgueiraram-se por baixo dos bancos, gemendo e soltando pequenos latidos. O Faísca ficou apavorado com os olhos à procura deles. E não esperou muito. Deitou-se sobre o chão, esticou-se totalmente para a frente, deixando descair a cabeça em busca dos coelhos. Foi nesse preciso momento que micou um coelho. Tinha ultrapassado os primeiros bancos e parara junto do canto do banco. Ergueu a cabeça para o escuro e ficou-se. O Faísca ficou em pulgas. Sentia os nervos subirem-lhe aos cabelos. Todo o seu fracasso, todos os seus ressentimentos se voltaram para o coelho. Com uma boa dose de calma, concentrou-se em ser mortífero. «Ah, seu filho da... — pronunciou baixinho — pensas que estou trôpego? Já vais ver». Devagarinho, muito devagarinho, arrastou-se como pôde, levou a mão até ao sapato, trazendo-o de volta. O seu olhar águia não descolava do coelho. Este encontrava-se na mesma posição. O Faísca pegou no sapato, pô-lo em posição de lance. Fez mira com um olho fechado a distância. Não podia falhar. Deixou deslizar o braço o máximo que pôde. «Vou despachar este filho da... — declarou —, preparando o corpo para o lançamento final». O coelho continuava lá, com as orelhas viradas para baixo. O Faísca esticou o braço e aspirou todo o ar dos pulmões. Apertou com mais força o sapato e esticou mais o braço. Desferiu o golpe com toda a força que tinha. O sapato voou como uma bala. Bateu no santo e gerou um barulho. Os cacos espalharam-se e o Faísca ficou estátua. A igreja estava ruidosa e num burburinho. Os coelhos passaram velozes pela porta do vaivém, descrevendo alguns oitos, correndo para o outro extremo da rua. O padre interrompeu o sermão e olhou com severidade para a confusão. O Faísca levantou-se, débil e atormentado. Os seus esforços tinham sido frustrados; o prejuízo fora cometido. Então, o padre exaltou-se, e os fiéis, também. «Leva o cão lá para fora — disse. — Procedeste mal. Estou muito zangado contigo; estou envergonhado pelo que fizeste. E tu espera até eu acabar a missa». O Faísca não conseguiu articular uma palavra, cheio de gestos de desculpa, trouxe o cão para a rua. «Vamos — disse-lhe —, o que tu foste arranjar. Mordestes os coelhos, desataste atrás deles para a igreja, e eu fui no vosso encalço. Agora vê quem vai pagar as culpas de ter quebrado o santo, meu patife? Tu ajudaste-me a cometer um estrago». Deixou-o, por uns momentos, deitado no chão a ganir tristemente. Em seguida desatou numa corrida amiúde pelas ruas na direção do monte, seguido pelo cão, que corria e saltava à sua frente. No alto da colina havia uns bancos entre os pinheiros e o ar estava cheirando a resina. A brisa fazia os pinheiros murmurar suavemente. Impondo-se, o Faísca disse: «Aqui estamos melhor. Vigília, meu grande doido, senta-te aí e não faças ondas. O senhor padre não nos vai perdoar». O cão, sentado no chão, observava-o com atenção. Depois, deu um ar grave, mas o Faísca, dirigindo-se-lhe, disse: «Aqui não é preciso pôr-te assim. Os coelhos não se importariam, mas eu não gosto que me olhes gravemente quando estou a falar para ti. Agora, descontrai». Nesse dia a palavra do Faísca estava inspirada. O Sol, entre intervalos, lançava fogachos de luz nas folhas dos pinheiros. O cão, pacientemente sentado, não tirava os olhos da boca do dono. O Faísca dobrou e esticou as pernas um pouco, apertou os cordões dos sapatos, depois disto, fitou solenemente o cão. «Os coelhos fizeram muito mal em separar-se de nós». As folhas dos pinheiros deixaram de abanar. O monte ficou iluminado e em silêncio. Subitamente, ouviu-se um seco ruído por trás do Faísca. Logo o cão levantou as orelhas. O Faísca não teve coragem para voltar a cabeça. Decorreu uns longos minutos. Depois o tempo passou. O cão baixou os olhos. O vento voltou a abanar as folhas dos pinheiros que se agitaram de novo. O Faísca ficou tão comovido que o coração lhe parou. «Tu viste-os? — exclamou. — Eram os coelhos? Oh!, que cão bondoso tu deves ser para veres uma miragem destas!» Ao ouvir estas palavras, o cão levantou-se dum salto, abriu a boca e deu uma de olhar grave.     

Poucos eram os habitantes do Marco de Canaveses que usavam relógios de boa marca de parede ou de bolso. De vez em quando, um dos amigos arranjava um relógio de alguma maneira muito afamado, mas só o tinha durante o tempo suficiente para o trocar por qualquer outro que realmente se sentisse agradado. Na loja do Pipocas, os relógios tinham boa procura e havia dois escalões, mas apenas como objetos de venda. Para uso normal havia o relógio vulgar. Era mais barato e de funcionamento prático, do que um relógio de marca afamada. No Verão, aos domingos de manhã, quando as pessoas iam à feira dos selos, nas imediações da Caixa do Povo, é certo e sabido, que era uma bela altura para uma pessoa trocar ou comprar um relógio de outra marca, mais em voga, nos vendedores ambulantes que por lá se cruzavam. Quão melhor não é uma marca mundial? É uma bela ocasião em que nem as posses de uma pessoa derretem nos bolsos nem a bondade tem interrogações por não levar nada. O Faísca e o cão seguiam, firmes e seguros, no seu trajeto habitual para o trabalho. A loja do Pipocas só abria passado três horas depois de o Faísca passar por lá. Quando o Pipocas fechou a loja, o dia ainda estava claro. O Sol já se tinha refugiado para lá do monte. O tempo tinha um cheiro seco e agradável, como o perfume das flores. E quando chegava o momento do grupo se juntar, havia sempre qualquer coisa para se contar, e as boas notícias guardavam-nas para essa ocasião. «Vi o Arnaldo Curto — disse o Pipocas, — saia da casa da Xanana Maluca. Não há um dia que aquela mulher não se meta em barafundas». — «Só sabe viver assim — comentou Pascácio. — Quem sou eu para atirar a primeira pedra, mas em dado momento penso que a Xanana é um bocado atiradiça de mais. Só lhe acontecem duas coisas na vida: amor e sarilhos». — «Mas que é que vocês esperam? — disse Catanada». — «Nunca tem paz nenhuma — lamentou Very nice». — «Também a escorraça pela porta fora — retorquiu Catanada. — Dar-lhe a paz é acabar com ela. Amor e sarilhos... Está visto. Ah, mas não esqueçamos a pinga, porque aí está uma mulher sempre fresca, sempre feliz. Mas que é que aconteceu à Xanana?» — «Vocês conhecem bem a Xanana — começou. — Há homens que algumas vezes lhe levam presentes, um frasco de água-de-colónia, um par de cuequinhas de fio dental ou um sutiã. Não passam de pequeninas coisas, mas Xanana aprecia-as. Ora bem, ontem, salvo erro, Manuel Chapadas levou-lhe um pó-de-arroz, uma caixita assim brilhante e bonita, que ele comprara num salão de beleza. A Xanana ainda deitou um pouco de pó-de-arroz na cara quando ele se envolveu com ela, mas ele foi-se abaixo antes de Xanana ter despertado». — «Como sabem, dinheiro é coisa que não falta ao Chapadas. Disse ele à Xanana: Não há nada melhor do que uma mulher ter um cheiro agradável. Sabe bem. Este pó aqui é muito bem-cheiroso. Vais gostar muito dele». Os amigos sorriram francamente e Catanada disse: «Chapadas tem artes de Don Juan. Vejam lá o que ele não fez com o pó-de-arroz... gozo e amor. Um dia destes tenho de ir ter com ele». Mas os amigos viam bem que Catanada estava era com inveja dele. «Anda lá com essa história do pó-de-arroz — disse Pascácio». — «Bom — disse Catanada, — a Xanana ficou com o pó-de-arroz e mostrou-se amável para com o Chapadas. Disse-lhe que quando ficasse cheia de pó-de-arroz, ele podia dar outro presente qualquer. Depois, o Chapadas foi-se embora e a Xanana guardou o pó-de-arroz na cómoda para quando fosse visitada pelos amigos especiais». — «Depois, veio um amigo daqueles especiais visitá-la e a Xanana deixou que ele abrisse a caixa do pó-de-arroz e a borrifasse toda com ele. A certa altura o Barbas, como era apelidado, beijou a rata de Xanana. Nem imaginam. A língua entrou por ali dentro à procura do prazer. Os lençóis e os cobertores voaram e as almofadas abafaram os gritos. E, depois, quando o gozo se foi embora, o Barbas ficou com a cara como um palhaço. Agora a Xanana anda endiabrada e diz que há-de comprar mais caixas de pó-de-arroz iguais à do Chapadas». — «Ai a viciada! — disse Pascácio — O prazer é mesmo assim, quando corre conforme os nossos desejos. Já quando o jovem André se estreou, foi do mesmo jeito». O rosto dos amigos do Pipocas alterou, interessadamente, na direção de Pascácio. «Vocês devem saber aquém eu me refiro, ao jovem André — começou Pascácio. — Parece mesmo um cobói, tronco largo e pernas compridas; mas não é lá grande coisa a pinar. Nas rapidinhas é muitas vezes atirado ao tapete. Pois bem, o homem não quer outra coisa senão que o convidem. Quando há noitadas, gosta de levar a pequena; nos quartos é sempre o primeiro a dizer: — Vamos a ver se aguentas com esta! Não há duvida, está ali um homem que quer ser um grande cobridor, que as mulheres olhem para ele, que o desejem e, até que gostem de fazer amor com ele». — «Porventura vocês se lembram daquela vez na receção da residencial em que ele armou uma cena monumental. Ia acompanhado, muito sério, com uma grande cavalona loira. Mesmo em frente do balcão da receção, a doida da cavalona puxou a saia para cima e o André topou-a sem cuequinhas e deu-lhe uma chupadela no grelo, que ela deu um grito e foi deitar-se no sofá, aos tremeliques. Catanada riu-se, apanhou um pauzito e atirou-o contra a perna da cadeira. «Lembro-me das cenas dele — disse o Pipocas. — Esse André não tem os parafusos todos. O Ratazana é que o conhece bem, quando vocês falarem com ele. Às vezes põe as gajas na mesa do André e os clientes pensam que foi ele que as chamou e dizem: — Ora aí está um sujeito que sabe do seu ofício». Não é assim tão fácil apanhar gajas quando se faz por obrigação. Very nice, que tinha estado a pensar de cabeça encostado ao braço, comentou: — «É pior falarem mal de uma pessoa do que lhe darem com uma paulada. Toda a gente gozou daquele estouvado amalucado do jovem André até ele se mostrar. Mas depois ficaram com inveja de se terem divertido dele. Essa história do André é reinante. É também uma história que dá vontade de rir». — «Ouvi contar coisas a respeito dele — disse Catanada —, mas são tantas que nem sei por onde começar». — «Bem — disse Very  nice, — eu vou conta-la e vocês logo veem se são engraçadas ou não. Quando eu era puto, costumava brincar com o Trindade. Era um bom miúdo e esperto, mas andava sempre à procura de se meter em sarilhos. O clã era composto por cinco pessoas. O pai, a mãe, e três irmãos. A maioria dessa gente já cavou daqui. Um dos irmãos perdi-lhe o rasto, o outro está na Madalena e o outro foi apanhado por uma peixeira da Afurada por lhe andar sempre a comprar linguados».— «De modo que me dei sempre bem com o Trindade e o irmão mais novo Ricardo. Trindade cresceu comigo e os sarilhos nunca o abandonaram. Passou uma temporada no serviço noturno e depois voltou para casa. Aos sábados apanhava uma liberdade e ia dormir para a praia até segunda-feira. O irmão mais novo era um daqueles rapazes de boas intenções e todas as semanas se enrolava com uma cachopa. De modo que estavam quase sempre os dois à distância. O mais novo Ricardo sentia-se só quando não tinha o Trindade ao pé de si. Adorava o irmão. Tudo o que o irmão mais velho fazia, o mais novo fazia também, mesmo quando já tinha passado dos limites». — «Talvez vocês se lembrem da Graça Gracinha — continuou Very nice. — Não era uma rapariga lá muito séria. Não tinha mais de dezassete anos quando uma rusga policial veio ao Porto e ela ficou logo retida por não ter documentação. Era gaiata e esperta e não deixava ninguém ficar sem levar resposta. Parecia andar constantemente a fugir dos polícias e os polícias bem seguiam no encalço dela. E algumas vezes levavam-na. Mas uma pessoa não lhe podia dirigir palavra quando ela estava com os azeites. A moça parecia ter o demónio dentro dela».       — «Eu sei disto — prosseguiu Very nice — porque também me atirei a ela; eu e o Trindade. Só que o Trindade tinha outro feitio». — Very nice olhou os amigos bem nos olhos fincando esta tese. — «Trindade desejava tanto o que Gracinha tinha que uma noite saiu em sua defesa e deu um pontapé nos tomates dum polícia e fugiu pela rua abaixo como os corredores de cem metros livres. Não conseguia deixá-la ser injuriada e agiu. O irmão foi falar com a Gracinha e disse-lhe: “Se não fores simpática para com o Trindade ele desaparece.” Ela, porém, limitou-se a sorrir. Não era lá muita coisa». — «Que é que vocês pensam que eles depois fizeram?» — continuou Very nice. — «Trindade foi apanhar sol para a praia e deu apalpões a Gracinha, chochos grandes de artista, carícias, festas. Depois, pegou-lhe pelas ancas e sentou-a no colo e em seguida, deu-lhe uma varada ao som das ondas. — «Gracinha passava-se com tanta marmelada, mas vinha-se e chorava como uma criança. Vocês deviam ter ouvido como ela berrava. Uma pessoa ficava com ganas de lhe dar outra varada e, ao mesmo tempo, de a calar. Eu imagino como era. Andei na cuca dela e o Trindade disse-me, também. Só que, ao Trindade dava-lhe cabo dos nervos. Já só conseguia dormir com comprimidos. Um dia confessou-me: “Se a Gracinha quiser ser minha amante, deixará de ter coragem de se meter nos copos, pois nessa altura é comprometida e é um crime desrespeitar o amante.” De maneira que pediu-a para ser sua amante. Ela desatou a beber daquela maneira maluca que dava vontade de a mandar àquela parte». — «Oh! O Trindade ficou desnorteado. Foi para o quarto, prendeu uma corda a uma perna da cama e pôs-se à espera dela. Quando a Gracinha entrou, deixou-a despir-se; em seguida colocou a corda à volta dela e atou-a à cama. Depois fechou a porta e foi-se embora. Mas ainda se passaram duas horas antes de Gracinha conseguir se libertar das cordas e três dias antes de poder insultá-lo». Very nice intervalou-se. Via, com alegria, que os seus amigos acompanhavam a história com interesse. «A coisa era deste estilo». — «Mas a Graça Gracinha foi amante do Trindade! — exclamou Catanada, excitado. — Eu conheço-a. É uma boa dona de casa; nunca nos deixa sair sem nos oferecer de beber e vai à missa todos os domingos». — «As coisas também se compuseram da maneira que o Trindade tinha desejado. O confessor disse a Gracinha que fosse uma boa mulher e ela foi uma boa mulher. Deixou de andar nos copos e de insultar os homens. Como não bebia, deixaram de se intrometer com ela. Trindade continuou a ir dormir para a praia e, passado algum tempo, arranjou lá um emprego para segurança de condóminos. Não tardou muito a entrar nos eixos. Como veem, esta história é magnífica. Era digna de ser apresentada nos palcos do cinema por um realizador se terminasse aqui». — «Pois era — disse Catanada com olhar sério. — Esta história também nos ensina algumas coisas». Os amigos acenaram com a cabeça em sinal confirmativo, pois adoravam de uma história emotiva. — «No Douro conheci uma rapariga como essa — disse o Pipocas. — A única diferença é que não se modificou. Chamavam-lhe a rapariga da segunda escolha. —A Senhorita Segunda Escolha», era o nome que eles lhe davam». Pascácio fez um gesto com a mão: — «A história ainda não terminou — disse. — Deixa lá o Very nice contar o resto». — «Sim, ainda não terminou. E, no fim, a história não é lá boa como vocês imaginam. Ricardo passava já dos vinte e cinco anos. Trindade e Gracinha foram morar para uma casa isolada. Ricardo ficou sozinho, pois acabara com a peixeira. Não tinha sossego nenhum. Passava a vida na estroina, embriagado; até que um dia conheceu uma chavalita chamada Celina. Tinha dezasseis anos e era mais bonita do que a Gracinha. Todos os clientes da cervejaria andavam atrás dela como se fossem lobos. Então, o que se tinha passado com o Trindade, deu-se com o Ricardo. O desejo corrompia-lhe o corpo todo. Bebia mais do que comia. O olhar ficou estrábico e ganhou aquele aspeto alarmado que os fumadores de droga têm. Enviara-lhe chochos atirados de mão, mas ela ria-se dele. “Vem cá, meu passarinho, vem cá ao teu príncipe.” Ela não parava de fazer chacota». — «Como vendia livros sempre que arranjava uma promoção guardava-a em presentes para a Celina, magazines e agendas. Pagou-lhe um concerto dos GNR, música ao ar livre». — «Então o Ricardo contou ao Trindade o que se passava. Trindade riu-se também. “Meu tolo”, disse, já tiveste na tua frente tanta rapariga. Não andes atrás de miuditas que sabem mais do que tu.” Mas aquilo de pouco lhe serviu. Ricardo ficou louco de desejo. Esses Trindades é gente de sangue na guelra. Escondia-se nas esquinas para a ver passar. O coração saltava-lhe do peito». — «Ela não fazia outra coisa senão esquivar-se, e Ricardo estava quase paranoico. De maneira que agiu em conformidade. E, assim, pediu-a para sair com ele. Ela riu-se como nunca e, sacudindo as saias, fez-lhe sinal de never para o afinar. Era um diabinho, aquela miúda». — «E ele um idiota — disse Catanada com descaramento. — O dever dele é meter-se com raparigas da sua idade, e não chavalitas». Very nice, arreliado, prosseguiu: — «Os Trindades são irresistíveis; aquece-lhes a veia». — «De qualquer das formas, foi incorreto. Foi uma vergonha para o Trindade — disse Catanada». Pascácio voltou-se para ele. — «Deixa lá o Very nice contar. É a história dele e não a tua. Um dia destes contas a tua». Very nice mostrou-se grato pela intervenção de Pascácio. — «Como ia dizendo, Ricardo não podia com aquilo mais, mas não era capaz de mudar fosse o que fosse. Não era como o Catanada. Como não tinha jeito para inventar nada de novo, deixou aguardar uma oportunidade». — «Vocês devem saber — prosseguiu Very nice — que lá no quarteirão há uma hospedaria. Uma tarde, Ricardo convidou Celina a dar uma volta no carro com ele e levou-a até lá. Depois, esperou até a convencer a uma rapidinha numa desportiva. Viu o tempo passar. Passou o braço à volta da cintura dela e puxou-a bruscamente para si. Ele a fazer isto e ela a retribuir-lhe com uma sonora galheta». Largos sorrisos surgiram no rosto dos amigos. Algumas vezes, pensaram, a vida tinha coisas do arco-da-velha. — «Ricardo mal se conteve — continuou Very nice. — Disse de si para si: — A miúda é capaz de andar por aí atrás de algum, mas isso não dou — Só passado um minuto é que abriu a porta da hospedaria». Very nice olhou à volta. Os largos sorrisos mantinham-se em foco. — «Vocês estão a topar — disse Very nice — a coisa é engraçada, mas também tem o seu quê». — «O que é que a Celina disse? — perguntou Catanada. — Acedeu ao impulso e mudou de procedimento?» — «Não. Não mudou nada. Ricardo aguentou-se e ela mandou-se. Mandou-se também, mas ficou fulo. E disse para si mesmo: — Que miúda parva ela me saiu. Uma noite destas vai ser ela a puxar-me para a levar para o pinhal. Depois Ricardo entrou no carro sem ela». Catanada queixou-se: — «Essa história não vale. Tem rodriguinhos a mais e podem tirar-se dela demasiadas lições, e alguns delas são contraditórias. É uma história que não vale a pena guardar na memória. Não se chega a conclusão nenhuma». — Eu atino com ela — disse Pascácio. — Atino com ela porque não tem nenhum sentido à-priori; contudo, parece que realmente quer dizer alguma coisa, embora eu não saiba bem o quê». A manhã já ia a meio e o ar estava quente.— «Que é que vamos comer? — disse o Pipocas. — «Na adega há lá um sável de escabeche — observou Pascácio». Os olhos de Catanada reluziram. — «Estive a pensar numa coisa — disse. — Quando eu era pequeno vivia nas férias com o meu tio ao pé do elétrico. Todos os dias, quando o elétrico passava, os meus amigos e eu pulávamos por trás e íamos à boleia e o guarda-freio enxotava-nos com correia. Havia alturas em que o elétrico enchia de passageiros que aí ninguém nos enxotava. Pensei agora que talvez a gente pudesse comer à borla na adega. Quando o empregado se aproximar, chamamos nomes uns aos outros e distribuímos galhetas por todos. Como é que o empregado pode responder-nos? Atirando-nos com os pratos ou com as cadeiras? Não. Só pode é deixar-nos sair em grande». Pascácio levantou-se cheio de contentamento. — «Ora aqui está uma bela ideia! — exclamou. — Isto é que o Catanada é um génio! O que é que a gente fazia sem ele? Vamos lá; eu sei onde há um grande empregado medroso». — «E o sável é o meu peixe predileto — disse o Pipocas».


Saturday, February 23, 2013


                                      
FERNANDO ABRAÃO
E RATAZANA
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(4)

                                        O
                                  MUNDO
                                       DA
                                    NOITE
                                       ~~~
                                                                                                                                                                                                                                                                                                            
                                                                                                                                                   

Em Janeiro de 1996, a senhora Tina, de cabelos loiros, apanhou o vício de fazer uns arranjinhos, e nunca mais desaprendeu. Era uma senhora de meia-idade conhecida por «Miss Piggy», num trocadilho usado em O Jornal Dos Traidores. A sua carreira foi premiada, quando se tornou dona de uma casa de passe em Rio Tinto, no Porto, — para satisfação dos clientes em geral, a maioria dos quais achava que as obscenidades escandalosas que se passava na sua casa suburbana eram mais para um gozo do que para injuriar. Lá os clientes individuais pagavam sete mil e quinhentos escudos por uma rápida, com um bónus por mais «umas festas extras», para se tornarem fiéis. Em casa da senhora Piggy, os clientes e prostitutas quebravam o gelo com um amasso ou dois de roço e bebidas, em sofás guarnecidos de almofadas. O cliente que se seguiu, foi levado a admitir que se tratava de um bordel bem cozinhado. Na entrada, no corredor, a senhora Piggy não deixava ficar por mãos alheias os seus pergaminhos num cartaz que dizia: «A minha casa é suficientemente ARRUMADA para ser frequentada... e suficientemente INDECENTE para ser feliz». Parecia tudo tão arranjado, que era mais uma mini desgraça do que qualquer ofensa à moral. Miss Piggy que tinha uma filha a estudar na universidade na altura em que se lançou nas lidas, revelou a alguém que contava vários empresários, engenheiros e advogados, um membro do Partido da Junta e um par de gays e lésbicas entre os seus clientes habituais. Com as novatas que lhe apareciam em primeira mão, chamava os primeiros clientes logo da manhã junto à igreja de Rio Tinto, num quarto de guisar, decorado com penas de pavão e luzes vermelhas e um cuco espantado, dentro de uma casota castanha. Depois as novatas — apresentadas pela senhora Piggy como «boas mulheres casadas», a maior parte domésticas a arranjar dinheiro para os botões — recebiam metade do cachet por cada cliente que aviavam. Estavam na sala mais de quinze clientes, quando o último a entrar em cena teve uma surpresa no quarto, ao ver a novata em estado deplorável de exaustão e fadiga, e ofereceu-se para a levar ao hospital. Era um homem de cinquenta e quatro anos, e identificava-se como «cabrito número vinte, Lau», sapateiro, fazia de anjo da guarda e levava as novatas em passeio noturno. Em Fevereiro de 1999, o nome da senhora Piggy apareceu em foco, de novo, no cabeçalho do pasquim, que anunciava a barafunda do estacionamento na casa junto à igreja de Rio Tinto. Contudo, desta vez não era necessário chamar a guarda, e dizia-se que a senhora Piggy afirmava: «Fi-los ver para porem os carros longe». Contou a um repórter mau-olhado de O Jornal Dos Traidores: «Hoje em dia, os vizinhos vêm algumas vezes uma quantidade de carros parados à minha porta e dizem: ´Então, já atendeste a tua família toda, Tina?` — ´Ai, já estava a contar com eles... sinto que ainda presto um bom serviço a eles, embora não esteja a pensar nisso. É como um verdadeiro trabalho de Apoio Social´». Voltou para dentro em poucos segundos, murmurando para os botões da camisa: «Gostaria de ser lembrada como uma boa dirigente de um bordel simpático... não uma dessas casas pirosas, como existem na Tailândia. Deveria ter recebido uma medalha pelo que fiz pelo meu povo».               

Engenheiro Luís Almeida, foi um eterno sedutor, de quem um bloguista escreveu que a «sua vida particular era um labirinto de autênticos contos, encontros fortuitos e situações emotivas que ameaçavam constantemente, se bem que nunca estoirassem, uma bronca desastrosa». Almeida nasceu em meados dos anos quarenta, no seio de uma família social folgada e foi estudar para Lisboa, para casa de uns familiares próximos, e meditava bastante na sua tendência para o pecado. Aos dezassete anos deslumbrou-se com uma bailarina de topless na TV e aprendeu a masturbar-se. Depois, aos vinte e dois anos apaixonou-se por uma senhora firme portuguesa. Na mesma altura relacionou-se com a irmã de um amigo, que tinha acabado de perder a virgindade. Contou mais tarde aos amigos íntimos que tivera um flirt com ela. Referiu mais tarde que «falhou redondamente», ao tentar não fazer filhos a amigas. Por isso fez todos os possíveis com ela para não ficarem inimigos, e conseguiu obter bons resultados. Mesmo assim, Almeida conta que «uma semana, três meses depois do flirt, debaixo da aceleração do cansaço sexual, viciei-a e não fui capaz de pensar por que motivo não quis acabar com ela». Almeida casou com a senhora firme portuguesa, que era mais nova cinco anos que ele, e parece que foram razoavelmente felizes. Quando começou a trabalhar na sua empresa de químicos, como industrial individual, apaixonou-se por uma empregada de boite, Maria de Lurdes. Esta sofria bastante com problemas de afeto. Um dia Almeida entrou no quarto e encontrou-a a roçar a rata no punho da cama. «Parecia arder por todos os lados e fui dominado de repente por uma baga de calor. Desde que andara com ela que a minha vida sexual funcionava às mil maravilhas. Esquecia-me de todos os problemas. De repente parecia que o chão se mexia debaixo de mim...» O resultado foi uma cambalhota em dois atos que o transformou numa fera e, num garanhão. Num dia em que saiu no comboio teve, de repente, pensamento de que já não estava apaixonado pela empregada de boite e que esta o desgastava profundamente. Com um atrevimento cruel, decidiu que era melhor contar-lhe enquanto ia a tempo. A pobre mulher ficou naturalmente em estado lastimoso e continuou a manter-se fiel durante anos, pedindo-lhe repetidamente que regressasse ao seu leito. (Fê-lo, mas não achou encanto). Até que um dia se enamorou. Tinha estado a preparar umas encomendas para exportação. Em Março de 1976 foi passar a tarde ao bar de Fernando e Moura, no Porto, ouvindo o que Fernando lhe contava acerca de uma nova empregada. Foi servido por Mónica, antiga artista de striptease, que tinha cabelo loiro e rosto de cavalo. Mas tanto ela como o bar eram extremamente atraentes e Almeida estava farto das habituais cerimónias e etiquetas e das noites passadas em quartos de hotéis. «Ao fazer tímidos gestos de contato, verifiquei que não era estorvado. Senti, surpreendido, que a desejava profundamente, e que ela retribuía os meus desejos... Por motivos alheios à minha vontade, não tive relações com Mónica nessa noite, mas combinamos tornar-nos amantes logo que possível». A oportunidade surgiu quando Almeida a foi levar a casa no seu carro e transferiu o caminho para o parque de um hotel. Um dos sócios do bar, Fernando, tinha-lhe dito que Mónica lhe tinha confidenciado estar doida por ele e isso contribuiu para aumentar o seu fulgor, dando-lhe mais intensidade. Ao ter-se habituado no campo do adultério, Almeida não mais apeou pé do caminho. Em 1979, de viagem de negócios a Itália, viu uma jovem francesa sentada sozinha e persuadiu o camareiro a convidá-la a juntar-se a ele. «Tornei-me falador com a menina e mantivemos uma conversa interessante e divertida. Tinha desejos de fazer amor com ela, mas achava que primeiro devia oferecer-lhe uma bebida. E assim fiz. Pedi ao camareiro para lhe servir um Bourbon. Acabámos por passar a noite juntos e ela disse-me que fosse ter com ela a França mal pudesse». E de regresso ao Porto, Almeida estava a trabalhar numa investigação sobre cores, quando Fernando chegou batendo à porta — e uma vez mais apresentou-o à encantadora Luísa Rara, uma alentejana-lisboeta que trabalhou com ele em clubes noturnos. Almeida fez amor com ela, desejando depois não o ter feito, vista ela tê-lo feito perder-se em convites. Durante o encerramento do estabelecimento de químicos e a passagem para o campo da política, Almeida foi integrado no Parlamento camarário pelas suas ideias socialistas. Em 1982, o socialismo pô-lo em contato com uma atrevida lojista de vinte e nove anos, casada com o empresário italiano Mário Tuto. Depois de Almeida haver preferido um piropo galanteador, recebendo um elogio igual, beberam juntos e depois foi até um quarto da residencial — o marido estava ausente —, onde se tornaram amigos íntimos. Em 1983, Almeida ia tratar de negócios a Espanha, encontrou Fernando por acaso, na rua, que lhe apresentou à bonitona com bom aspeto chamada Rosalina Carvalho. Era também uma candidata à prostituição e falava sem papas na língua na arte das relações sexuais». Achava Almeida «encantadoramente escuro» e pensava que parecia Sidney Poitier. Almeida ofereceu-se para que ela viesse no seu carro a Pontevedra. Evidentemente que Fernando não fazia entrave a que Rosalina fosse na viagem com Almeida, quando fazia questão. Rosalina parece ter adormecido quando ouviu dizer que Almeida lhe dava um prémio de cinquenta mil escudos para compras. Durante a viagem falaram de várias coisas e Almeida perguntou-lhe o que pensava em relação ao seu estilo de vida. Ela respondeu que isso devia dizer respeito unicamente a ela. Quando chegaram, apesar de já ser quase meio-dia, Almeida informou Rosalina que tinha de ir tratar dos seus assuntos, e deu-lhe um envelope com o dinheiro, para ela ir fazer compras às galerias espanholas. E quando regressou, Almeida ficou a olhar para a quantidade de sacos no corredor do hall. Rosalina parece ter-se entusiasmado com o dinheiro — Almeida estava pasmado — e mandou vir o jantar. Quinze minutos depois, ouviu-se um toque na campainha da porta e Almeida pediu a Rosalina que fosse receber o camareiro com o jantar. Almeida pediu-lhe também para tirar as roupas e jantarem nus. Os desejos evoluíram rapidamente, e pouco depois estava a convidá-la a sentar-se no seu colo. Depois foram para a cama, mas quando parou recomeçaram de novo — e a segunda foi mais demorada, na terceira ela adormeceu. Contou a Fernando que a relação foi «diabólica e feroz» e aproveitou bem a oportunidade para gozar com Rosalina, que mais tarde negou repetir.
                                                                                    
Durante toda a sua vida e por mais de oitenta anos após a sua morte, em 2009, o nome de José Oliveirinha — «o homem que lançou a Femina — permaneceu incólume sem uma homenagem à sua obra. O começo, nos finais dos anos 60, teve enormes percussões no mundo do sapato. José Oliveirinha, o homem que seria descrito como «o criador do sapato de senhora prá-exportação», nasceu na década 40, em Ruivães, em Vila Nova de Famalicão, e era descendente de uma família média. Foi através do pai que ouviu falar pela primeira vez da história do sapato. A sua infância foi feliz. Oliveirinha e o pai tinham muitas coisas em comum. Aos dezasseis anos saiu da escola com o curso de contabilista e empregou-se num escritório e aprendeu sozinho inglês, continuando a estudar poesia, como suplemento. Com vinte e três anos foi enviado para o Porto como contabilista de um comerciante e, tempos mais tarde, montou um escritório, ao qual já tinha angariado uma boa carteira de clientes, no Porto. Como resultado, acumulou uma boa conta bancária. Anotou no seu bloco que estava em Oliveira de Azeméis durante a surpreendente Revolução dos Cravos. De regresso da Europa, casou com uma bela portuguesa que lhe deu um filho, mas como esta não se interessava por poesia, nem por viagens, acabaram por se divorciar. O filho foi criado pela mãe, recebendo uma mesada do pai para estudos e, mais tarde, tomava lugar ao lado do pai, na organização e gestão da fábrica e tinha de estudar à noite para evoluir. Oliveirinha visitou a Grécia, pela primeira vez, aos trinta e nove anos. Quatro anos depois era suficientemente rico para realizar a ambição de toda a sua vida: ser poeta. Estudou poesia em tempo extra e viajou por muita parte. Numa dessas viagens, acabou por conhecer uma jovem senhora com quem conviveu; os dois apaixonaram-se, e em breve, uniram-se pelos laços do matrimónio. Os pais dela ficavam muito humorados com as histórias que ele contava, principalmente, a história sobre as cheias do rio Douro. Oliveirinha estava convencido de que aquela seria a última vez, como apostavam muitos casamenteiros. Os estudiosos que pensavam que, — não há duas sem três — pensavam bem, porque Oliveirinha, mais tarde, decidiu separar-se. Em 1987 visitou a Checoslováquia e Áustria — a terra da música — acompanhado de uma senhora solteira, mais nova vinte anos que ele, que se dedicava à pintura. Escolheu ir viver com ela para casa dos seus pais, em Gondomar. Um velho amigo, o empresário da noite Fernando Abraão, do Porto, foi com ele na viagem até ao estádio do Prater, onde o FCP escreveu uma das páginas mais gloriosas do futebol português. Logo a seguir a isto, foi convidado para dirigir O Jornal de Oliveira de Azeméis, escrevendo a sua crónica, segundo a sua sabedoria cultural, sobre variados temas. Decidiu publicar o seu primeiro livro de poemas, chamado Voo de pássaro, uma tiragem de cem exemplares. Conseguiu uma coluna no semanário “Estrela do Minho”, de V.N. de Famalicão, para fazer atrair os jovens à poesia. Fez também referência no seu livro denominado — Ruivães na Obra de Camilo —, de quem era seu fã acérrimo, publicado em 1996. Temos de admitir que, como poeta, Oliveirinha não era um predestinado. O seu método era tão ágil como uma lâmina. Deu simpaticamente alguns exemplares aos seus amigos, para que meditassem um pouco sobre a beleza das palavras. Convencido de que a sua veia poética devia estar mais abaixo do grau que imaginava, pelo menos, serviu-lhe de entretenimento, que o foi, na verdade, muitos anos depois. No início da Primavera de 2000, começou a sua preocupação; tinha encontrado um buraco financeiro nas contas da fábrica por gestão danosa e fizera um acordo para cobrir os pagamentos em Julho. Então, um dia, em Maio, consultou um médico particular que lhe diagnosticou uma deficiência na cervical, e que necessitava de uma cirurgia, o mais urgente possível. Com receio que a cirurgia roubasse parte da sua saúde, esperou até que a altura se proporcionasse, e pediu à sua jovem mulher que o ajudasse a dar-lhe «força amímica». Oliveirinha havia mais tarde de lhe agradecer do fundo do coração. Em Julho regressou a Gondomar, anunciando por fim a falência e o encerramento da Fábrica de Calçado Femina. Tornou-se falado em toda a região. Mais tarde havia de confessar a alguém, onde o seu palpite sobre o fim da Femina provou ser verdadeiro. Morreu em 2009, com oitenta e picos anos. O seu corpo está sepultado em jazigo da família, no cemitério de Gondomar. É esta a história de José Oliveirinha, que tem sido contada muitas vezes. Os ex. funcionários ainda mostram aos visitantes fascinados o local onde Oliveirinha elevou a Femina, junto ao formoso parque La Salete.     
                                                                                   
A 7 de Fevereiro de 1997, J. Hermes, de cinquenta e dois anos, antigo costureiro de moda do Porto e ainda figura dominante de O Mundo da Noite, foi notificado para comparecer no Tribunal de S. João Novo, no Porto, acusado da falta de pagamentos das várias multas aplicadas pelos agentes de trânsito. O julgamento, que estava marcado para as 14 horas da tarde, durou apenas cinco minutos, devido a não comparência do juiz, por motivos alheios. O ponto mais alto do «processo Hermes», girava à volta dos comentários da clientela boémia, prestados nos bares, era que Hermes tinha abusado da sua figura mundana para demorar o processo, até prescrever o tempo. O advogado de sua confiança, Dr. Gomes Varela, considerou-o culpado, embora tomasse conta do seu processo e o fosse defender durante o julgamento. Embora o desfecho fosse já aguardado depois de falado por tantas cabeças, a dureza de Hermes pasmou e surpreendeu os notívagos em todo o Porto. Existia também uma conversa generalizada, vinda de todo o lado de que Hermes tinha influência com coronéis, doutores e políticos para enviar as multas para o cesto dos papéis moribundos. O advogado Varela anexou imediatamente uma declaração ao processo fazendo mea-culpa, alegando que o carro de Hermes tinha sido furtado em dias coincidentes com as datas das multas, e que o seu cliente não fizera queixa na polícia. Hermes foi acusado várias vezes de multas infringidas ao código da estrada. A última tinha o carro estacionado no local da polícia, quando se desentendeu com o agente e pediu-lhe a identificação, dizendo ser uma multa de má-fé. Mesmo depois de o agente o ter multado, continuou a insinuar má-fé e atirou com a multa para a berma. Logo que o aviso de notificação foi-lhe parar às mãos, Hermes reagiu imediatamente após uma conversa com o advogado, informando que ia deixar o caso ir para o desleixo. No entanto, o advogado Varela fez ver a Hermes que na falta de comparência, incorria na pena de prisão. O julgamento, que estava marcado para as 11 horas da manhã, chegou às treze horas e quarenta e cinco minutos, com mais audiências pelo meio, quando o nome de Hermes foi chamado no corredor do tribunal. Após um período de incómoda acalmia temperamental, Hermes — cujo sistema nervoso constava ter sido beliscado pela demora do julgamento — quando da entrada do juiz na sala, Hermes deu uma bronca no juiz, usando um discurso forte: «Vossa Excelência deve-me uma desculpa pelo atraso». O juiz mandou-o calar, embora o réu continuasse a pedir um pedido de desculpas pela demora do tempo. Acabou por ser condenado a pagar todas as multas, acrescidas da obrigação de pagar juros e custos processuais. O «caso Hermes» tornou-se na maior bronca ligada ao noturno. Teve também um enorme impacto durante os anos 90.

O julgamento da Canário, membro do Bando das Periquitas portuenses, em que acusava o seu ex. companheiro chamado Joca de deturpação, foi a maior desgraça no seio da família traidora. A acusação consistia em que Joca tinha drogado a Canário — que se deitara com ele na cama de uma pensão — a praticar relações anais com a Canário. Joca, era um antigo segurança de uma discoteca, com quem constava que a Canário tivera uma ligação sexual. Filha de um casal bairrista, foi educada numa escola social de Ramalde, e mais tarde, empregou-se nas lides domésticos. Era obviamente uma miudita de tendências oscilantes e tornou-se benjamim do Bando das Periquitas. Escolheu um modo de vida andante, e, por fim — a vida mais amarga das mulheres. — A má vida, o caminho mais fácil cujos protagonistas se tornavam frequentemente viciadas acérrimas. Iniciou-se nas rapidinhas em 1990 e concorreu ao concurso de A Cara Mais Bonita de O Bar do Traidor no ano seguinte, como a mais jovem das concorrentes. Venceu o concurso com mais votos de que as outras concorrentes. Tinha um corpo bonito para a vitrina e realizou a sua entrada na má-vida com toda a pedalada de uma traquina típica para a frentex. Na resenha semanal de O Jornal Dos Traidores, citaram diversos comentários acerca da Canário, que a consideravam alegre na amizade dos seus amigos e capaz de «dispor bem». Foi também neste ano, durante a ida a uma discoteca, no Porto, que a Canário conheceu o homem que iria provocar a sua contestação sexual, Joca, (conforme era conhecido) no bairro. A pista abarrotava de jovens que saltavam freneticamente ao ritmo da música pop-sound. O companheiro da Canário, Joca, tinha estilo de saltitante, bigode farfalhudo e usava grandes suíças à Elvis. Por cima da camisa de flanela, trazia dependurado na mão um blusão tão fatela que cheirava a mofo. Os dois foram dançar para a pista. O pinta d´elástico deu-lhe um grão de coca a cheiras às narinas! E fez vibrar o coração dela com tanta força que ficou por momentos na lua! Perante este quadro negro entenderam-se melhor e foram estes os motivos que os levaram a curtir até à exaustão, no quarto das águas furtadas ao som da sinfonia denominada: — dá c´o pau! E naquela noite muita coisa de mau aconteceu... Quando pela manhã acordou, a Canário deu conta que tinha sido desflorada no ânus! Saltou repentinamente da cama. E pôs-se a apalpar o traseiro! Nem quis imaginar como pôde aquilo ter acontecido. Refugiou-se em casa e durante uns dias andou em abatimento psicológico, até que por fim desabafou com as amigas mais próximas que logo a aconselharam a processar o pilantra violador. O advogado ouviu-a sem interrupções, até chegar a sua vez de intervir: «O que leva a Canário a dizer que foi violada, se ainda não consultou um médico?» - «Não sei, doutor. Só sei que sinto uma sensação estanha». - «Mas explique-se; sensação estranha de quê? – exclamou o advogado, dando uma fumaça no cigarro. – Não sei se sabe: - um homem só penetra se a mulher abrir a gaveta». - «Ai, senhor doutor, desculpe lá...» «Parece-me que alguém me enfiou com uma cenoura pelo cu acima. Não puxe mais por mim, senhor doutor». – O advogado fechou os olhos, fazendo um enorme esforço para não se rir. Estava tão espantado que, no momento em que a Canário se levantou para sair, pegou na caneta e anotou alguns elementos no papel. A seguir, limitou-se a abanar a cabeça e a dizer: «Entendam-se um ao outro». – Também o quadro acima do candeeiro na parede lhe calou o bico — A mulher nua é vulnerável — Apenas duas exceções... Uma foi quando ela deixou, a outra foi quando ela quis.           

O affaire de Verona Vera, leader um grupo de acompanhantes de luxo do basfond portuense, roubada por uma ex-namorada, foi a maior bronca que abalou desde uns tempos em O Mundo da Noite. O roubo consistiu em que Vera tinha conhecido uma jovem — que a levara com ela para o seu apartamento — a compartilhar amizade com Susi, novata na prostituição, com quem constava que Vera tivera uma ligação sexual. Até ao caso de Susi, a vida de Verona Vera, uma mulher de meia-idade, tinha sido uma vida de sucessos contínuos. Filha de pais incógnitos, foi criada na tia e estudou até à quarta classe. Era obviamente uma mulher de presença atraente e tendências ambiciosas. Iniciou-se como lojista nos anos 80 e participou em festas cor-de-rosa no ano seguinte, como convidada. Tinha um enorme talento para a sedução, e cativou as suas amizades «com toda a habilidade de uma mulher inteligente», nas palavras dos repórteres na sua resenha semanal em O Jornal Dos Traidores, que ainda citaram diversos comentários que a consideravam humana na conquista dos seus objetivos e capaz de «atrair». As primeiras amizades foram um fracasso, mas dividiu algumas com as antigas veteranas. Causou um impacto imediato na Discotecas da Finesse devido ao seu ar coquete e dotes sedutores. Foi em 1996, durante a visita a um bar de rápidas, no Porto, que Vera conheceu a rapariga que iria provocar a sua ira amorosa, Suzete, depois conhecida por Susi, doze anos mais nova que Vera, era natural do Pombal e tinha um temperamento emocional muito ríspido. Aos quinze anos foi na ilusão de um viajante de sonhos e andou três dias a sonhar, e foi até ser apanhada e mantida sob proteção policial, com promessas de não voltar a infringir. No ano seguinte tornou-se aluna de artes marciais. Por esta altura debatia-se com fortes sonhos profundos: era dominada por grandes personagens da banda desenhada e tinha o hábito de se personificar no papel das heroínas das suas próprias histórias que inventava. O interesse mais importante da sua vida era os seus chinelos. Nunca dormia sem eles. Um motorista de transportes convidou-a a ir ver os carros elétricos ao Porto, e deixou-a num bar a falar com o dono. Em 1997, tomou um pifo de champanhe, e teve de ir de imediato à casa de banho. Foi ao vomitar que reparou na observação de Vera, que lhe disse, quando estivesse a beber champanhe com os clientes, despejasse a bebida para o balde, o mais que pudesse. Foi assim que Susi conheceu Vera. Depois de recomposta, foram até uma discoteca, na parte de lá da Ribeira, onde Vera tinha uma garrafa de uísque. Segundo Susi, as suas relações sexuais começaram nessa noite. Susi afirmou que, quando iam no táxi, Vera lhe pediu se não se ralava de ser apresentada como uma jovem de uma equipa de promotoras de vendas, com quem ela ia trabalhar, no dia seguinte. Na discoteca do Rock-And-Roll, Susi foi apresentada como Susete. Nessa noite quando Susi estava na cama, Vera levou-lhe um livro escrito por Fernando Abraão, a história sobre mulheres de bares As mulheres do bar AC. Um pouco depois, voltou ao quarto de roupão e camisa de noite, e sentou-se ao meio da cama. «Disse-me que eu parecia um pássaro na gaiola... nesse momento abraçou-me chamando-me ´pobre passarinho`... meteu-se na cama comigo». Vera saiu para ir à sala buscar um iogurte de chocolate, que pôs na vagina. Depois colocou um toalhete na cama e fez amor com Susi, com esta desempenhando o papel de mulher-fêmea. Segundo Susi, quando Vera saiu, «deixei-me apenas ficar deitada de pernas abertas com a sua “cadela”, a lamber-me». Mas embora Susi tivesse afirmado que não tinha ficado totalmente satisfeita, a ligação prosseguiu rapidamente. Vera arranjou uma nova vestimenta para Susi, deixando-a vir viver para o seu apartamento, onde segundo esta, Vera se aproveitava com ela para fazerem amor. Fizeram amor quatro ou cinco vezes. Encontravam-se à noite na Pinacoteca Pub para irem jantar a um restaurante de Vale Formoso. Na noite de S. João, do Porto, Susi foi às Fontainhas com Vera e, enquanto os foguetes estoiravam pelo ar, Vera teve relações com Susi no banco do carro. Começaram a surgir problemas. Um certo cliente do bar acusou Susi de não tirar os chinelos durante a rapidinha, e quando o cliente não quis pagar o serviço, Susi roubou-lhe da carteira um punhado de contos de réis e fugiu da pensão. Logo a seguir, Susi arranjou um outro problema ao fazer um cabrito, este quis montá-la por trás e Susi deu-lhe uma patada, que ele partiu a cabeça contra a janela do quarto. Novamente teve que arrear pé e fugir da pensão, e Vera ofereceu-lhe um postal com uma rosa vermelha em que lhe dizia: «Os passarinhos devem manter-se serenos no ninho». Havia um p.s: «Tenho-te no meu coração». Mas quando Vera começou a abeirar-se dos casos que Susi «interviera» e descobriu que estava enganada em relação aos ímpetos da sua amiga, o relacionamento começou a arrefecer — pelo menos da sua parte. Havia ainda a acrescentar os casos das colegas do bar que acharam Susi bastante acelerada e demasiado excitável. Susi foi trabalhar para um bar de uma camareira, e, quando a camareira se encontrou com Vera, disse-lhe para se precaver sobre o passado da jovem, tinha-se virado a um cliente com uma tesoura na mão, respondeu-lhe, um pouco brusca, que devia avisá-la calmamente sobre os riscos que se metia. No entanto, continuou a ajudar Susi, serenando-lhe a situação com a sua simpatia afável. Infelizmente, à medida que Vera parecia ter começado a perder a paciência com a «passarinho», Susi convenceu-se que estava apaixonada por Vera. Quando Fani, a cadela de Vera, mordeu os calcanhares a Susi, foi maltratada por esta e ficado com um olho à Belenenses. Vera pediu-lhe que se fosse embora do apartamento. Susi tentou pedir-lhe desculpa, mas esta recusou-se a perdoar-lhe, a menos que reatasse os mimos com Fani, o que era impensável. Susi viu-se atacada em duas frentes e começou a sentir-se cada dia mais triste. Um dia, num acesso de fúria, aproveitou-se de estar só no apartamento, e roubou o casaco de pele de antílope a Vera, e um rode joias de valor estimativo. Susi partiu logo a seguir para a capital, aceitando um outro trabalho relacionado com a prostituição. Quando o relojoeiro da Omega, telefonou a Vera, exigindo o pagamento de um relógio de quartzo que Susi tinha comprado a crédito, Vera recusou-se a pagar e afirmou que não fazia ideia da atual morada de Susi. Era evidente que tinha um desejo enorme de nunca mais voltar a ver nem ouvir falar de Susi.

O Inverno de 1999 foi, um período friorento em Portugal, devido à geada que assoprou pela Europa fora. Em 9 de Dezembro desse ano, na altura em que os sobretudos e os guarda-chuvas ainda não se tinham poupado, o empresário industrial, Rui Guedes, regressara a Portugal para se redimir do seu fracasso conjugal e aliara-se à família. O empresário industrial tinha trinta e quatro anos e supunha-se que estaria mais sereno depois de mais de dois anos de ausência. Passara com sucesso um mini curso de ensino comercial havia apenas meia dúzia de meses, após alterações no sistema informativo. Constava que Guedes quando estava em lua-de-mel, passara-se com a mulher e fugira para o Brasil, para descansar um pouco das suas preocupações em relação à mulher, quando esta pediu o divórcio. Mas o sol no Brasil aqueceu-o em pouco tempo. No Brasil, Guedes pode fazer o que bem quis, e ainda lhe sobrou tempo. E tanto quanto Guedes queria, era esta por certo a altura indicada para umas borgas. Muitos brasileiros estavam radiantes com ele; o seu estilo «deixa-pra-lá» tornara-se falante e muito badalado e alguns bacanos da vida-airada achavam-no muito legal. Em breve o dinheiro começou a escassear e, embora tivesse um cartão de crédito para as emergências, Guedes começou a ficar cada vez mais cansado e histérico. Telefonou para casa dos pais, em Portugal, e descarregou todas as saudades aos pais, que ficaram compreensivelmente tocados. Os pais fizeram o possível para o acalmar e por fim, mandaram-no regressar a Portugal. Guedes fez as malas e voou na TAP. Os problemas voltaram a surgir, quando Guedes voltou a casar, e passado meses o casamento desfez-se, quando Guedes confessou à mulher que, nunca conseguia ir para a cama às nove horas da noite. Guedes estava uma vez mais metido em sarilhos. Logo a seguir ao seu rompimento o advogado de família afirmou que as suas ex. mulheres exigiam os subsídios de maternidade. Guedes protestou com os valores exigidos, mas acabou por usar a sua máxima: «deixa-pra-lá». Na semana de menos chuva, segundo os boletins meteorológicos, Guedes começou a frequentar bares e casas de diversão noturnas. Cliente de O Bar do Traidor, tornou-se membro do Grupo de Traidores e, granjeou inúmeras amizades, entre elas, um indivíduo de nome Joel que frequentava as duas casas de diversão, na rua da Constituição. Joel, vendedor de máquinas de jogo, separado, de trinta e dois anos, conhecia o empresário desde que este começara a entrar no sistema de engates. Segundo notícias do pessoal, começaram a ver-se depois do fim do trabalho. Dizia-se também que os dois homens pareciam o Roque e Amiga. Andavam sempre juntos nos copos. O empresário começou então uma ligação com uma chavalita que se prostituía, quando Joel tentou imitá-lo, envolvendo-se com uma camareira da noite, que se tinha apaixonado por ele. Na Primavera desse ano, Guedes conheceu muita gente do Grupo de Traidores, alargando os seus horizontes. Obviamente que não tinha qualquer intenção de se meter mais em alhadas casamenteiras. E quando, no ano seguinte, o seu desempenho na fábrica em conjunto com o seu irmão eram leais e eficientes, levava uma vida dupla secreta, entregando-se a ambientes boémios, a maior parte das vezes com mulheres que se prostituíam. Tinha também encontros profissionais com outros empresários, principalmente quando se entregava às comezainas e bebidas. Num evento, em O Bar do Traidor, presidida por Ratazana, considerou que «se um homem numa empresa pública consegue, com sucesso, levar uma vida dupla secreta, como Guedes conseguiu durante tanto tempo, mantendo-se completamente apanhado entre os campos de ação, deve-se elogiar o seu lado positivo...» Ratazana acrescentou ainda que Guedes era um parceiro formidável e, por isso, um prestigio para o Grupo de Traidores. Embora o sucesso estivesse quase no fim, Guedes disse aos amigos que aquele bar era a sua segunda família que não tinha tido. Rui Oliveira, vendedor de produtos farmacêuticos, e um homem divertido, divorciado, que acompanhava o empresário Guedes a tomar o seu primeiro uísque da tarde, assim como outros amigos, no bar, foi meter-se com duas prostitutas sentadas na mesa encostada à parede, depois de as ter beijado nas faces. Consta que recebeu uma goela. Cita-se que um amigo não identificado afirmou: «Ninguém queria saber se ele aproveitou a goela ou não e por se ter aproveitado da ocasião. A comodidade traidora adorava-o...».
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Monday, January 28, 2013




FERNANDO ABRAÃO
E RATAZANA
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O
MUNDO
DA
NOITE
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Por volta dos anos 83 aguardava-se que um serralheiro da construção civil mostrasse a sua virilidade de machão. António Glória vinha fodendo as raparigas dos bares, desde meados dos anos 80, com os seus gestos excêntricos de atirar as notas para cima da mesa. Quando iniciou a tarefa de trabalhar por conta própria, em 1983, trouxe com ele, para Sines, um grupo recrutado de homens, começando logo a trabalhar com eles. Embora fosse um homem casado, passava a maior parte do tempo fora de casa, altura em que o seu nome estava ligado a várias prostitutas. Era frequente a forma como tratavas as prostitutas com tal rigor que mesmo um proxeneta teve-o de o aconselhar a ter mais calma e serenidade (isto é, ser menos bruto). Depois de ter subido na carreira profissional, por empreendimentos de maior dimensão, em 1987, uma empregada da noite de um cabaré contou como Glória a tinha feito sua amante, quatro anos atrás. Antes de formar uma firma individual, Glória contou ao barman do bar que frequentava assiduamente que tinha levado para a cama quase mil raparigas. Um livro publicado após a sua aposentação, Escritos Traidores, conta que em noites de sangue quente, ia até um bar da sua preferência, fosse em Lisboa ou no Porto, e sacava uma rapariga e levava-a para o seu apartamento privado. Mesmo durante a sua passagem, ninguém levava a mal com engates deste género; eram de esperar de um homem cheio de notas e cheio de speed.

Toninho Alves, o terrível «Gungunhana do sexo», dos anos 85, tentou decidir exceder Glória ao engatar duas ou mais raparigas no bar, havendo alturas em que parecia que estava louco por relações sexuais. Muitas vezes, acabava a sua relação batendo com a cabeça do pénis na cabeça da acompanhante, e uma ocasião pô-la coberta de chocolate-baunilha. Rodeado permanentemente por «grupos», Alves era capaz de «servir-se das raparigas como algumas pessoas comem tremoços». A sua virilidade era manifestamente extraordinária. Duas cabriteiras fizeram uma aposta interessante a ver quem dos clientes mantinha a gaita de pé depois de uma relação; um deles provocava a ereção pelo sexo oral. Alves foi um dos raros clientes que conseguiu ser capaz de manter a sua gaita de pé até elas se cansarem, mas também, aquele a quem as cabriteiras não conseguiram acompanhá-lo, porque a sua gaita se recusava a murchar. Em 1985, com trinta e cinco anos, Alves contratou numa noite um grupo de raparigas de ballet para animar os amigos na sua vivenda e bebeu demasiados uísques para gozar que a seguir desmaiou ao aspirar o próprio vomitado. Foi reanimado tão rápido e tão espontâneo que não deixou de fazer amor como todas elas, como nos bons velhos tempos do ano 83. Ficou célebre a sua fórmula. ´Se me foderes primeiro, apresento-te o melhor de mim`.

O acontecimento mais relevante do cabeçalho de O Jornal Dos Traidores do ano 83 foi o título que anunciava a morte de João Cesário, também conhecido pelo Galileu, e mais a sua acompanhante, em 7 de Junho de 1984. Galileu, o professor biológico e a acompanhante empregada de um bingo da cidade de nome Elsa, divertiam-se num fim-de-semana, num apartamento em Mérida, em Espanha, quando o amante de Elsa com a sua cumplicidade, entrou de sorrateiro na sala, munido de uma lanterna e de uma faca. Cesário não deu por nada e foi roubado e depois deixado ao abandono — Galileu, que continuava a dormir, assim ficou. Abraão, dono de O Bar do Traidor, encontrava-se no café quando recebeu a triste notícia. Imediatamente a seguir vieram os boatos. Um mau-olhado de O Jornal Dos Traidores escreveu: «Durante meia semana os boateiros sobre a desgraça de O Mundo da Noite falavam de comprimidos, droga e exibicionismos sexuais. O primeiro boato referia-se que as mortes foram cometidas por excesso de velocidade e especulava-se que tinha havido falha mecânica. Falava-se também de comprimidos relaxantes e perversão sexual. Na noite seguinte às mortes de Galileu e Elsa, o próprio Abraão foi com uns amigos, ao restaurante onde o Galileu tinha jantado e conhecido a jovem Elsa — conquistada ao acaso —, onde combinaram seguir para o apartamento em Espanha, depois de tudo acertado entre ambos. Dois dias mais tarde, no bar, uma prostituta chamada Teresa, sentada à mesa de um grupo de clientes, admitiu perante uma companheira de mesa que estivera quase para se envolver nessa viagem e a companheira contou que também fora convidada. Desabafou. «Olhai, onde é que eu tinha ido parar? Debaixo dos torrões». Depois de um dos casos mais chocantes e arrebatadoras das histórias dos bares do Porto, Abraão reuniu-se com os seus traidores (como chamava ao grupo), para receber nessa tarde, no bar, o famigerado morto-vivo. Tornou-se evidente, durante a receção ao Galileu, que a sua morte fora praticamente um lapso — o seu corpo tinha sido confundido, porque no seu carro e no seu lugar seguiam o amante e Elsa. O carro embateu contra um camião na autovia de Vigo, tendo-se incendiado de seguida, e os corpos ficaram carbonizados. Depois de Galileu ter sido recebido com estupefação por parte de toda a gente que enchia o bar, estes ofereceram-lhe de beber e deixaram-no contar a sua façanha. Após ter narrado a sua história, o Galileu retirou-se e juntou-se às raparigas da rapidinha. Depois embrulhou-se e, após alguns mimos, mandou vir umas bebidas para elas, para o sofá. «Não restam dúvidas sobre como escapei», diz o Galileu no seu comentário final. «Abri o coração à aventura e quase me ia lixando com ela. Não estava para morrer. Quando regressei a casa e perguntei à minha patroa se ainda gostava de mim, recorreu à sua expressão atual. «Sim, morto-vivo». Cinco anos depois, a história do morto-vivo tinha fascinado todo o cliente do bar. Em 1990, é recebido com saudade — um gesto, sem dúvida, mais salutar. Um ano depois, o Galileu veria publicada a sua história no livro de Ratazana ´Escritos Traidores`, com uma narrativa fabulosa, falando com alguma verdade das diversas mulheres que foram com ele para a cama e contando toda a história que o obrigou a afastar-se dos bares e da «nait» (noite). O livro conta tudo. (Não só dele como dos outros clientes-traidores) Descreve, por exemplo, a tuléria da sua tentativa de bater o recorde dos traidores ao levar cinco mulheres para a cama e fazer amor com todas elas, e o que aconteceu depois da sua vinda de Espanha. Uma artista de sexo feminino, levou-o para um cubículo, onde dois sofás ao comprido estavam transformados numa casa improvisada.
                                                           
Deve ter havido qualquer segredo no motivo por que o empregado de mesas António Ferreira, aceitou juntar os trapos com a camareira chamada Mimi, que era desajeitada, feia e estrábica. É uma verdade que o fez, em grande parte, para ter alguém que lhe tratasse das suas boas roupas e lhe fizesse de comer. Mas podia ter casado com a filha do pronto-a-vestir, a bela e insinuante Júlia de S. Vítor - Campanhã. A sua ligação a Mimi acabou por ser um bem repartido. António Ferreira, empregado de mesas, nasceu no Porto, em 1942. Determinado a viver no meio de uma certa burguesia e do espírito boémio, Ferreira mandou-se para a restauração e andou empregado em estabelecimentos bastantes medianos. Teve o efeito contrário: o inexperiente empregado tornou-se refilão, gastador e boémio. Aos vinte e oito anos envolveu-se numa aventura com outra camareira, Raquel, e os filmes que lhe contou tiveram de ser recambiados por outros. Ferreira fez-se amigo de um grupo que se empregava na noite e apostou forte nessas amizades, do qual faziam parte o chefe de mesas Pinto, futuro proprietário de um clube noturno que breve ia abrir — numa das artérias com mais estabelecimentos de diversão — e acabou por ser contratado. Começou a criar amizades. Comprou um carro — e quando viu o dinheiro a crescer-lhe — encheu o guarda-vestidos de fatos e camisas. Aos 30 anos, Mimi, conseguiu finalmente convencê-lo a terem um filho. Concordou, sob a condição de ser ela, a sustentá-lo. Mimi, era desajeitada, feia e estrábica, e sofria de problemas de figadeira — possivelmente em resultado das muitas bebidas alcoólicas que bebia nos alternes. Raquel, então amiga de Ferreira, insistiu com ele para que se amantizasse com Mimi, em vez de escolher a insinuante Júlia de S. Victor – Campanhã, porque seria uma rival de menor relevo. Numa noite fria de Fevereiro, na Marisqueira Teia, Ferreira conheceu Mimi; ficou atordoado. Retirou-se cambaleando para o balcão e pediu um uísque. Prosseguiu a beber uísques, durante dois dias, até juntar os trapos. Na primeira noite, parece ter cumprido o seu papel de amante, porque Mimi descobriu logo que estava apaixonada. Contudo, Ferreira achava-a fora de moda e mantinha-se quase sempre afastado dela, só a levando à noite no carro para o trabalho. Apoiada pela sua vontade, Mimi, foi alugar uma parte de casa numa paralela à Rua da Constituição, comportando-se de modo a que as vizinhas lhe chamavam a «senhora completa». Tinha no quarto uma figura grega provida de um mecanismo que, quando ligava a pilha, mostrava o instrumento sexual em movimentos obscenos. Em 1978, os boatos de que o filho de seis anos, que vivia com eles, era seu filho ilegítimo, levaram Ferreira a uma depressão interior que o atormentava, sempre que olhava para o filho. Porém, algum tempo depois, Mimi, jurou por todas as almas da terra, que a criança era seu filho legítimo, que fora fruto do seu amor. E o assunto ficou por ali. Mimi e Ferreira iriam se separar, mais tarde, depois de um esgotamento conjugal, protagonizado por quezílias, perseguições e abandono. Finalmente em 1980, num pub entretido a tomar uma bebida, pasmou o seu amigo ao lançar um piropo atrevido à jovem empregada de bar, uma rapariga graciosa chamada Caty. Este idílio inesperado, de frases quentes e extremamente atrativas, parecia ter vindo na hora certa. Namoriscou com ela pela Foz, Ribeira, Campo Alegre e Antas, e quando se conheceram melhor, fixaram-se num quarto, na zona alta da cidade, comportando-se como marido e mulher. Fernando Almeida, seu amigo, — que o tinha auxiliado na separação com Mimi — percebeu logo que Caty, poderia bem ser a rapariga ideal para Ferreira. E Ferreira queria-a mesmo a valer. Por isso, o entendimento foi recíproco.

O enforcamento do empresário Rufino M do Porto, depois de ter extraído um rim há doze anos, tem sido falado como a maior desgraça vivida dos tempos modernos. Se Rufino M tivesse vivido, teria comercializado um negócio decadente. O comércio dos eletrodomésticos havia dominado o Mundo durante muitos e bons anos. Contudo, em meados do milénio, tinha-se expandido de mais, e grandes mudanças económicas sufocaram a velha estrutura, e já não era o mesmo que dizer que era a galinha dos ovos de oiro. Rufino M tinha obstinação. Nascido na cidade Invicta do Norte, casou com uma rapariga educada, inteligente e ambiciosa, que lhe deu um filho. Quando Rufino M passou a patrão, orgulhava-se da quantidade de conquistas amorosas que fazia, anotando os seus nomes numa agenda de bolso — a branco as sérias, a vermelho as prostitutas. Gozou-se dos engates e das amantes, e sentiu-se atraído por negócios noturnos. Mais tarde, confirmou aos amigos, que a noite era a sua fonte iluminante. Era realmente bastante notívago. É possível que em certa ocasião tivesse contraído uma doença venérea. O certo é que contraiu a doença dos novos-ricos — o divertimento e o gozo. «Parecia gostar de tudo aquilo em que se metia», diz um amigo. A mulher, pacientemente, passava a maior parte do tempo à frente dos eletrodomésticos, sempre em sobressalto. Rufino M foi ficando cada vez mais noturno e boémio e começou a deitar-se a partir das quatro horas da manhã. A sua relação com a mulher começou a tornar-se cada vez mais amarga. Começou a abandalhar-se, de modo pouco empenhado, a separação da sua mulher. O grupo dos seus amigos noturnos eram uns pacholas e não tinham cabidela em meter-se nos seus problemas pessoais. Nessa altura já ele estava divorciado. Romy era uma jovem elegante de origem fidalga, cuja área comercial tinha cruzado com os negócios de Rufino M. Ao vê-lo em grupo, ficara loucamente apaixonada por ele. Através de uma amiga, conseguiu ser-lhe apresentado na loja dos eletrodomésticos. Rufino M não era homem para perder a oportunidade de se bater a uma rapariga quando esta se lhe oferecia aos seus olhos; tornaram-se logo amantes. Em Março, nos inícios do ano 90, Rufino M recebeu as análises clínicas. Quando as pôs no armário, ouviram-no comentar: «Estou perdido. Não me safo desta». Passou o resto do dia na sua residencial a olhar para a porta da rua, partindo depois ao escurecer para O Bar do Traidor. Sabia que lá encontrava sempre alguém para conversar, e partira no seu carro, dando uma volta pelo quarteirão. Tudo parecia demasiado escuro e os seus olhos eram apáticos. Encontrava-se numa encruzilhada. Rufino M tinha sido convidado para uma festa de aniversário de O Bar do Traidor, e aceitou. Nessa noite conversou com vários amigos, enquanto era cumprimentado por várias prostitutas. Quando o bolo foi cortado, o amigo de Rufino M, Abraão, pegou na viola e cantou uma rapsódia para eles: «Estava sentado num banco do jardim e nisto vi uma linda e bela moça que morava num modesto e lindo quinto andar...» Conversaram então de muitas coisas, uma delas, se a vida devia ser curta ou comprida e acabaram por não chegar a uma conclusão. Quando Rufino M foi para a residencial e fechou a porta do seu quarto para dormir, decidiu-se esganar entre dois lençóis entrelaçados ao pescoço. O corpo foi descoberto pela empregada de quartos, por volta das dez horas da manhã. O Mundo da Noite ficou profundamente abalado com a notícia. A princípio, a informação que saiu cá para fora era a de que Rufino M tinha morrido com um ataque cardíaco, mas não se pôde esconder a verdade por muito tempo. Houve um burburinho à volta do caso sobre o motivo da morte de Rufino M, uma vez que cometera um suicídio. O seu corpo foi sepultado no cemitério local. Ainda não é claro o motivo pelo qual Rufino M se matou e porque é que, sendo cristão, escolheu morrer de morte antecipada. A resposta à última pergunta pode ser que, como era fisicamente debilitado, precisasse de algum antídoto para morrer mais cedo. Provavelmente não estava à espera de umas análises tão cruéis, porque tinha passado a última noite, na residencial, a divertir-se com umas amigas do antigamente. Parece provável que Rufino M estivesse tão ansioso por morrer como se a morte fosse para ele um bem desejado. Ele pode até ter pensado estar a fazer um favor a si próprio ao envolver-se no pacto do suicídio — ao fim e ao cabo, era um homem destroçado e sem saúde.

O estrondoso caso do vendedor de trapos de Penafiel parece quase uma peça de hábitos — o viajante que passou a vida a meter-se com mulheres de hábitos fáceis e acabou por ser mau com uma anã. Até o seu apelido do Grupo de Traidores, Cigano, tem um ar de dupla esperteza. Mas para a sua pessoa, e para os seus, foi um triste fiasco. Fernando Lano nasceu em 1946 e era filho de gente da terra. Desde muito novo o pai decidiu e pô-lo a trabalhar, e aos catorze anos, foi para caixeiro-viajante. Ali, em Penafiel, tornou-se amigo de um rapaz chamado Peixoto, que queria ser empresário de vestuário. Lano foi também apanhado pelo bicho da roupa. Num arraial da terra, Lano aceitou vender na feira e concluiu que preferia a rua ao parado. Aos vinte e três anos, depois de concluir o serviço militar no Ultramar, estreou-se como vendedor ambulante por conta própria pelas aldeias, e teve grandes vendas, o suficiente para decidir que vender trapos seria o seu destino. Tornou-se «um vendedor de trapos de ocasiões», uma espécie de ambulante de letra, do tipo que vende de porta em porta — embora o seu artigo fosse exclusivamente de baixo preço. Foi de arromba, quando adquiriu uma carrinha de caixa alta que correu o país, e utilizava-a como a sua — vitrina —, no expositor principal. Porém, a boémia estava-lhe nas veias, e quando andava em viagem ganhou o hábito de visitar os bares para tentar saber se alguma das raparigas mais novas gostaria de comprar umas roupitas novas. Numa altura chegou mesmo a meter uma jovem de dezassete anos na vitrina, ajudando-a a vestir um curto vestido numa noite calorenta; deu-lhe uns roços de marmelada; empurrou-a para cima das roupas e, como resultado da excitação, «emporcalhou» as calças. Segundo a jovem, «emporcalhou-se por duas ou três vezes». Por volta dos trinta e dois anos decidiu tomar conta de um café e, com a ajuda da mulher e dos filhos, conseguiu ganhar um sustento para os seus. Embora estivesse a maior parte do tempo fora de Penafiel, regressava só aos fins-de-semana, para pôr a sua escrita em dia. Em 1983, foi visitar a zona de Trás-os-Montes. Sob a apresentação do empresário Peixoto, a quem uniu em batizado ao filho mais velho, foi-lhe concedido um grande lote de roupas, à conta consignação, o que era uma excelente oportunidade para ver o seu lucro subir mais de cento e cinquenta contos por mês —, subindo mais tarde, para trezentos contos, o que era uma excelente quantia. Em 1985, (Ao seu primeiro fornecedor só tinha pago uma terça parte do seu crédito.) Pôde envolver-se com uma bonita transmontana que conhecera no bar e com quem esteve comprometido durante dois anos. No decurso de três anos seguintes, presenteou-a com umas boas fajardices. Mas ela não o deixou em sossego, e deu-lhe água pela barba. Teve mesmo de cavar. Em breve, passou a fazer viagens mais longas, vendia para raparigas da má fama, e alargou o seu leque de amizades. Era extremamente vivaço e atraía as donas das casas de massagens. Tornou-se depois conhecido por o «cigano-dos-trapos», começando a visitar os cotés das prostitutas. Ratazana, barman, de O Bar do Traidor, que o conheceu, consta que só não comia aquelas que evitavam cruzar o seu caminho, que não queriam ir à vitrina para uma prova de trapos, embora também fosse corrido por muitas delas. Durante a fase áurea das suas vendas, fez-se passar por empresário e até estilista, tornando-se conhecido pela sua grande lata ao engatar raparigas de bares e organizar grandes farras, em horas pouco oportunas. É verdade que sentia enorme gozo em usar a sua experiência, e quando as donas de casas das massagens levantavam a voz, mandava-lhes bater a bola baixa, recorrendo às companhias que o rodeavam. Durante a festa de S. Martinho, em Penafiel, fugiu à polícia numa rusga a um bordel, montado num jerico. Quando voltou a casa depois da festa de S. Martinho, ficou contrariado ao encontrar o proprietário do café para novo contrato de arrendamento — disse mais tarde a alguém que era um negócio de tostões e de livro aberto. Foi o fim da exploração do café. Uma tarde, já tardinha, em Outubro de 1988, encontrava-se Lano na Rua de António Cândido, quando viu um táxi parar à porta do bar e uma rapariga de belas curvas, modestamente vestida, que parecia vir ao seu encontro. Perguntou-lhe se não se tinha enganado na pessoa e ela disse que vinha de mando do barman do bar, substituindo uma amiga sua. Lano nem esperou por mais. Enfiou-a na carrinha e foram para longe, para uma pensão próximo da praia de Lavadores. O nome da rapariga era uma tal Paula, de dezoito anos; tinha acabado de tornar-se prostituta, mas não era ainda muito badalada. Passou a ser uma das preferidas de Lano; este arranjou-lhe umas roupitas leves e vistosas e tentou arranjar-lhe uns amigos da onça. Paula foi uma das muitas de uma longa lista de raparigas jovens que Lano ajudou a «entrar pra vitrina». Durante os próximos anos seguintes (admitiu mesmo, mais tarde, que anualmente levou para a cama mais de cento e vinte a duzentas raparigas. O método ideal do vendedor de trapos consistia em aproximar-se de uma rapariga num bar — eram conhecidas por «mamonas» e dizer-lhe que parecia tão mal vestida e se fosse com ele à sua vitrina e fosse grata, lhe daria uma roupa nova. Tornou-se figura ingrata de algumas casas e foi ameaçado por algumas raparigas que queriam cobrar o serviço. O seu maior triunfo era, sem favor, parecer ter uma grande argumentação. Era uma homem de estatura média, de tez morena e cabelos brancos, com uma voz grossa e modos saloios e um grande repertório. Parecia uma figura de vigário. As raparigas sentiam normalmente que não havia nenhum problema em ir para a mesa tomar uma bebida com ele; além disso, podia, conforme queria fazê-las subir ao quarto. Um caso bizarro destas relações foi a que manteve com uma atraente rapariga branca chamava Brigite, de trinta e quatro anos. Em 1989, em Valongo, quando Brigite ia a sair do táxi, foi contra Lano, que ainda teve tempo de lhe dirigir estas palavras: «Desculpe, menina, mas já alguém lhe disse que é boa a dar encontrões na rua às pessoas, quase me estatelava?» Brigite trabalhava num apartamento de uma amiga e passava os dias a atender chamadas de clientes para uma massagem erótica. Sem hesitações, aceitou ir com o homenzinho de olho vivo até ao café mais próximo da esquina; onde o ouviu, atraída, enquanto ele a elogiava e lhe dizia que com os seus vestidos devia ficar muito mais jovem. Brigite não tinha homem e estava a viver com a mãe numa velha casa, em Rio Tinto. Estivera casada quinze anos com um serralheiro que lhe pôs a vida num molho — o serralheiro foi parar a Custóias. Esteve a trabalhar em cabarés, e mais tarde, em bares até cair na prostituição, quando Lano a conheceu. Este deu-lhe alguns conjuntos do mostruário, levou-lhe lá uns amigos dos copos — embora ela preferisse fazê-los através das chamadas. Segundo Brigite, Lano montava-a sempre que ela estava sozinha, e punha-lhe as mãos «por tudo que abanava». Numa ocasião em que estava sem cheta e sem trabalho, Lano disse-lhe que podia ir para casa de uma amiga aviar, perto do bairro, enquanto não arranjasse melhor. Mas uma semana depois arranjou-lhe um velho rico, dizendo que podia ser o seu Messias. Nessa noite foi com o velho rico aos fados e dormiu com ele. Depois mudou-se para casa dele, sujeitando-se a ficar por sua conta, até que por fim entrou em rutura por se cansar dos abusos dele, e pôs fim à ligação. Por meados dos anos 90, os hábitos de Lano começaram a criar-lhe dificuldades. Em primeiro lugar, conheceu um membro destacado de O Grupo de Traidores, um tipo apelidado de Champalimão, a quem as mulheres da noite afirmavam ser o-rei-das-notas. Lano entrou no circuito das amizades de Champalimão e, falou-lhe nos seus esquemas fatelas. Apresentou-o a outras bonitonas de categoria, e fez os possíveis, para elas o convencerem a sair com ele. Algumas sacaram uma porrada de dinheiro. Lano aproveitou-se da confiança dos amigos de Champalimão e começou a pedir empréstimos de dinheiro, com prazos definidos e, antes que fosse tarde, pirou-se para lestes, ficando tudo a berrar. Um terço da vida foi destinado a fugir dos seus credores. A sua família estava sempre longe das suas manobras e, ninguém conseguiu saber da sua morada. Lano era um cravador nato, que lixava os amigos frequentemente com os seus pedidos de empréstimos sem retorno. Mas embora os amigos soubessem do tipo de Lano por mulheres da vida — nunca tiveram a mais pequena dúvida de que era unicamente um interesse de mulherio. Passava a maior parte das tardes, ora na companhia dos amigos dos copos, ora na companhia das senhoras donas das casas de passe — embora estas incluíssem as próprias estrelas da companhia. É evidente que parecia não fazer segredo das suas atividades mundanas. Em Outubro, desse mesmo ano, Lano foi interveniente de um caso polémico. O ex. industrial de madeiras de nome Faria negociou com Lano a venda de um lote de variadas roupas e tecidos por setecentos e cinquenta contos a olho nu. A seguir recebeu um cheque pré-datado, e como era de esperar, o cheque foi parar ao Infante. Faria considerou este ato como uma «vigarice» e apresentou queixa contra Lano, ao chefe da esquadra local. Este processo arrastou-se por meses sem fio, entoando as promessas «dê-me só mais um mês» e, por aí adiante. Tinha tanta tendência para contar fita americana e os seus filmes e argumentos eram prejudiciais para o seu caso. Ora acontece que Faria estava revoltado em relação à vigarice de Lano, e por tralhas e malhas, conseguiu saber a morada de Lano e, deu ordem ao Tribunal para avançar com o arresto aos bens de Lano. Por isso, quando a guarda bateu à porta, a primeira reação de Lano foi dizer que tudo o que estava na sua casa já não lhe pertencia, por que fora vendido a terceiros, conforme documentação vista. Depois, falou mais calmamente no caso, e disse que não havia nenhuma necessidade de lhe criar escândalo diante da vizinhança, e decidiu que passava novo cheque e, que desta vez, é que era para valer. Faria encarou esta hipótese como uma possibilidade de reaver o seu dinheiro, dizendo-lhe que, se o cheque voltasse a vir para trás, jamais lhe perdoaria, e cancelou o arresto. Como resultado, no mês seguinte, quando Faria chegou ao banco com a intenção de levantar o cheque, ficou em pólvora ao ver o empregado bancário anunciar-lhe: «cliente com conta em zero». A partir desse momento, Lano foi notícia na primeira página do pasquim O Jornal Dos Traidores, e davam alvíssaras para localizarem o seu paradeiro. O caso de um vendedor de trapos mulherengo, levando para a cama, sem cerimónia, empregadas de sala e bar animou as hostes lordescas. Pela primeira vez desde que se tinha ausentado por um invariável tempo, Lano foi abordado por uma senhora ligada à moda, que em tempos Ratazana lhe tinha proporcionado um esquema «cinematográfico». Chamava-se Paula e era uma quarentona de levantar o cabelo. Contou a um pequeno grupo de amigas como Lano a conhecera, à entrada da sua loja, dizendo-lhe que parecia uma «Vénus da Moda». Continuou a revelar como é que Lano teve talento para a levar para a cama e como tinha «aliviado os dois» na forma de fazer amor. Acontece que Paula havia tido tantos flirtes que não seria correto classificá-la como uma pega. Contudo, pelo seu conto notava-se que era sexualmente quente. Depois de Paula, houve uma quantidade de empregadas de bar que confirmaram que Lano as tinha «assediado». Parece que convidou a maior parte delas para fazer uma rapidinha na pensão, e muitas foram. Todavia, o exemplo mais incrível da imaginação de Lano para se beneficiar a si mesmo aconteceu no fim de Outono. Parece que uma anã, artista das artes-rápidas, chamada Tânia tinha uma inclinação especial por Lano e, numa ida à cama com ele, contou que recebera um cheque de cinco contos ao seu cuidado pelo serviço prestado. Lano tinha também pedido a Tânia que levantasse o cheque da parte de tarde. No dia seguinte de tarde, Tânia e outras duas raparigas foram ao banco onde um empregado lhe chamou a atenção e, fê-la olhar bem para o papel, pedindo-lhe para o ler bem. Tânia olhou, apalermada, sem acreditar, e disse que tinha sido vigarizada e gozada. Depois afirmou francamente não conhecer o significado da palavra «requisição». O cabeçalho do pasquim do bar anunciava: «Bomba de requisição passada como cheque». Quem pensasse por momentos no caso deveria ter reparado que Lano tinha uma imaginação inacreditável para falsidades. Depois de uma certa polémica envolvida, Lano desapareceu do mercado por um mês, para dar tempo ao abafamento do caso. Lano continuou a fazer das suas, dizendo com sorrisos que o Governo era amigo dos infratores. Quinze dias depois de andar por lá apareceu num espetáculo de striptease numa terriola do interior, e interrompeu o espetáculo com a afirmação de que era o Público que estava a ser enganado e não a artista. Privado do seu habitat corrente, Lano decidiu aceitar o convite do seu amigo Anão, o «Rei da Mobília-Feita», para levar os seus trapos à feira na Madeira. Ele e Anão entrarem em sintonia, porque eram os parceiros ideais para as suas atividades. Durante a noite, numa visita aos botequins do Funchal, Lano aproximou-se de duas prostitutas e disse-lhes que estava à procura de duas jovens para modelos das suas roupas numa passarela de moda no Continente, e ofereceu-lhes saias e t-shirts para se submeterem a provas de estilo. Marcaram encontro com elas para o quarto do hotel, mas quando quiseram aproveitar-se delas, os gritos eram tantos, que tiveram que fugir, antes que a polícia aparecesse. A sua presença como dançarino de rumba à moda «Cantinflas» aumentava a sua popularidade sempre que frequentava locais de dança. Quando o dono de uma danceteria o convidou para um concurso de dança, foi anunciado como «Senhor Rumba no seu rodopio». Foi uma oportunidade boa, visto que tinha gosto pela dança. Depois de entrar na pista, com uma rapariga aparentemente folclore, Lano ladeou a parceira e fê-la girar à sua volta. De repente, a parceira, desequilibrou-se e bateu no varandim da frente, estatelando-se no chão. O público soltou gargalhadas estrondosas. Então Lano pegou na parceira pelo cabelo como um domador e começou a arrastá-la à volta da pista. Enquanto um espectador tentava agarrar Lano pelo pescoço, o apresentador do concurso entrou na pista e agarrou o espectador por um braço, tentando fazer com que este o soltasse. O espectador largou o vendedor de trapos e o apresentador logo imediatamente anunciou ao público, que aquele número de dança era uma réplica do tango-apache. O apresentador parou o concurso e Lano foi levado para o camarim. Conta-se que estava branco quando estava a ser puxado para fora da pista e preferiu, com voz rouca: «Telefone para um táxi — ainda tenho tempo de passar o resto da noite em grande». Contudo, estava mais ou menos fresco, quando saiu da danceteria. Apurou-se mais tarde, que tinha fugido com a parceira para parte incerta da ilha. Em O Jornal Dos Traidores (1989), Abraão cita o incorrigível de sempre de Lano, e estava convencido de que ele era um caso típico «Múltipla aldrabice». Uma velha amiga de Lano comentava com toda a certeza deste de que tinha sempre ideias: «Não vale a pena dizer a um burlista que diz ser um pirilampo aceso, que não o é, porque ele há-de gastar o seu latim e ultrapassar a sua capacidade de raciocínio». O sinal, no caso de Lano, é a sua recusa em admitir, seja em que altura for, que em alguma vez não tem ideias. A realidade é que provavelmente como a maior parte dos «aldrabões», Lano era também um auto-impostor e um mulherengo obsessivo — algumas das cerca mil mulheres devem ter sido mais tolerância do que Tânia e companhia. «Fraterno amigo», uma das suas frases mais significativas da amizade. Gozou uma vida do qual se empenhou firmemente a levar. É a sua história que merece o nosso escrito.

O mais felizardo empresário portuense que surgiu desde a Revolução de 1974 é, sem dúvida, José do Pataco, criado e vivido na cidade do Porto, nos tempos da carqueja e dos candeeiros a petróleo nos lares. Como o mais comum dos cidadãos, Pataco levou uma vida agitada — estudante, militar, músico, vendedor e, depois, comerciante de artigos de escritório, lojista, autor, representante de várias marcas mundiais e, por fim, garagista de carros colecionáveis — depois de conseguir pensão da velhice aos 65 anos de idade, com uma vida refeita de novo e totalmente organizada. O seu primeiro negócio a sério, O Pataco, surgiu quando estava na idade rapazote-homem, no Shopping Center Brasília. É interessante observar que, nesta altura da abertura do centro comercial e do período que se segue, os líderes das marcas consagradas são privilegiados mantendo-se nos lugares de topo; ainda jovem, quando aprendeu a linha de orientação, Pataco mostra-se integrado no sistema. A sua loja situava-se na galeria de cima em frente para a portaria principal. Quando Pataco começou a trabalhar em O Pataco, dois anos depois, — e se tornou de repente um vencedor, — os comerciantes ficaram espantados como é que alguém tão novo era capaz de vencer tão convincentemente; recuperou finalmente muitas centenas de milhares de contos investidos antes de o quarto ano findar. Diz-se geralmente que os últimos anos do negócio são mais dolorosos que o primeiro. Catorze anos depois, O Pataco (1995), foi vendido surpreendentemente e, imediatamente surgiram novos rostos na loja e, depois de aparecer o primeiro zunzum sobre o negócio, começaram a espalhar-se boatos nos meios citadinos do Porto, que afirmavam que Pataco já não era o verdadeiro dono e que tinha fechado um ciclo ou uma mudança no qual baseou a venda. Em 1995, O Jornal Dos Traidores, publicou um artigo escrito por alguns amigos que anunciavam a «venda airosa». Confessavam alguns pagar-lhe uma garrafa de champanhe. Entretanto, Pataco, cheio de papel, era procurado por todos com propostas de futuros negócios. Em meados desse ano recebeu uma herança. Por essa altura, Pataco tinha-se tornado proprietário de uma casa chamada Laguna Bar, em Rio Tinto, um bar destinado a um público jovem que era aliciante para a época, talvez pela novidade perante o seu estilo, onde tem aos fins-de-semana o seu ponto mais alto de assistência. Pataco foi forçado a trazer de casa, o órgão, e uma quantidade de instrumentos para engrandecer o programa. O Karaoke foi-se aproximando numa rapariga de voz sufocante, que se identifica simplesmente por «M», à qual também veio a fazer parte do serviço de camareira às mesas. A maior parte das vezes, antes da abertura do bar, Pataco chegava mais cedo para ensaiar «M». Pataco era um sedutor infalível que não largava mão de «M» frequentemente com os seus piropos, embora no fundo do seu coração, soubesse do seu interesse por raparigas solitárias — nunca tivera a mais pequena dúvida de que aquela «M» preenchia o seu vago espírito. Segundo um artigo do pasquim do bar revelava que Pataco era um sortudo em negócios e amores. A sua vida conjugal teve várias nuances, mas sempre conseguiu sair-se delas a bem. Nos fins dos anos 90 tinha conseguido grande popularidade ao apresentar a sua banda musical chamada “Soprafestas”, e foi convidado para atuar em festas, casamentos e clubes variados. Nos inícios do ano milénio por afeto e ato a «M», com quem compartilhava a sua vida conjugal, passava a maior parte do tempo na companhia dela — e depois de se ter desligado do negócio do Laguna Bar, dedicou-se totalmente à banda musical. Uns anos depois, Pataco encontrou inspiração comercial ao envolver-se no negócio de uma garagem-oficina de carros antigos destinados aos colecionadores. Quando se reformou, encontrou de qualquer forma a sua tranquilidade, e na sua vivenda, usou como passatempo as redes sociais, omitindo artigos politizados de sua autoria, para os amigos. Dedicou-se em regime part-time a dirigir a sua garagem-oficina de carros antigos, numa zona estreita e escondida do Porto.

Doze vezes, num ano, na Primavera de 1989, o «chivo», Eduardo Eduardinho, um fafense de 52 anos de origem capitalista, que vinha gozar os prazeres mundanos à cidade, conseguiu evitar o rececionista da noite e pessoal dos quartos e entrar na Residencial Xangô. Na segunda vez entrou no seu quarto alugado com a moca e fechou-a com o trinco, deitando-se vestido. Enquanto ressonava, uma prostituta entrou no quarto, sentou-se a um lado da cama, tagarelando, durante cinco minutos, até ele acordar sobressaltado e corrê-la pelo quarto fora. O seu primeiro escândalo às seis horas e quinze minutos da noite de 3 de Novembro, foi bastante ruidosa. Calcou a terra lamacenta que limita o terreno do parque automóvel para entrar na Xangô, «releu» 25 páginas da revista «Play Boy» antes de subir e espreitou para o portão, quando viu chegar um Citroên2CV cavalos e abeirarem-se dele dois casais, que de seguida, se envolveram no jogo da galheta. A mulher que estava à frente foi a primeira a levar. Eduardinho, que estava encostado ao balcão a ler, nem pensou duas vezes quando viu a mulher correr em sua direção. Puxou do seu pequeno revólver de 9/m e disparou três tiros para o ar, intimidando os sujeitos, que rastejavam através das sombras para entrar no carro. Uma vez lá dentro, puseram o Citroên2CV cavalos a mexer, mas nessa altura, Eduardinho agarrou-se com força titânica ao para-choques e o carro recuou... Entre arranques e recuos, finalmente o carro arrancou e meteu-se no escuro, enquanto Eduardinho conseguiu voltar para trás e ir para o seu quarto, sem ser incomodado. Na noite de 5 de Novembro, bebeu (foi ele mesmo a admitir) sete ou oito aguardentes CRF, nas visitas que fez aos bares mais conceituados da cidade. Da última vez entrou num bar conhecido que, quando o barman o viu, serviu-lhe logo uma CRF em copo de balão aquecido e, pagou com uma nota de cinco contos — mas, por falta de trocos, o barman devolveu-lhe a nota e Eduardinho pô-la em cima do balcão e saiu, com um até já. O que veio a seguir deve ter sido um fiasco de todo o tamanho. Quase tão surpreendentemente, Eduardinho voltou a entrar no bar e bebeu outra CRF. Uma vez lá dentro, andou por ali, parou ocasionalmente para cumprimentar quem passava por ele e matutou nas contas que tinha efetuado antes. Contou o dinheiro, e viu que lhe faltava uma nota de cinco contos. Nessa altura, sentiu-se lesado e, por isso, foi ter com o barman tentando alertá-lo de que alguém ali dentro da sala, e apontou um deles, por sinal, seu conhecido, que lhe teria sacado uma nota de cinco: que também ele não tinha bem a certeza. Por isso, com invejável à-vontade, começou a dizer que ia chamar a polícia para tentar detetar o gatuno. O barman saiu do balcão apressado. Eduardinho voltou a pedir-lhe o telefone para chamar a polícia, «a polícia, a polícia», como gritou. «Muito bem», disse o assustado e inconformado barman. «Mas deixe que os clientes saiam primeiro, senão levo uma multa por excesso de horário» —, e com uma grande habilidade foi esvaziando a sala, até chegar a polícia. Depois de o barman ter contado ao polícia o que aconteceu no bar, tinha descrito Eduardinho como «muito perigoso para qualquer uma pessoa e para com quem não gostasse...», o que foi interpretado como um sinal de aviso. O polícia aceitou a referência e deixou o caso nas mãos do barman. Era óbvio, que não se podia incriminar ninguém sem provas. Por sua vez, depois de Eduardinho ter admitido não ter a certeza de quem lhe tinha roubado, entrou no caminho das suposições e saiu pela porta fora. Meia hora depois, o barman fechou as contas do dia. Sobravam-lhe cinco contos. Então, veio-lhe à cabeça, que não tinha dado o troco da despesa da tarde a Eduardinho, nem este se tinha lembrado de o reclamar. O escândalo do roubo da nota de cinco contos, que obviamente não existia, foi comentado mais tarde por O Jornal Dos Traidores, a 13 de Novembro, numa das maiores «broncas» do bar, afirmava com grande destaque: «O barman esqueceu-se do troco», e mais adiante: «Cliente quer prender um conhecido». Tempestade estala sobre um copo de água. Como recebeu a nota de cinco contos que o barman se desculpou com o esquecimento e foi-lha devolver ao quarto, Eduardinho disse: «Tinha andado por aí com tanto dinheiro no bolso e não me lembrei de ter deixado uma nota àquele beleguim (barman). Quase prendia um inocente... Eu podia ter dado um tiro em alguém ou até um murro... Passei por maus momentos». As palavras de Eduardinho serviram para encerrar o caso, para dizer que não voltava a acontecer.

Jorginho Amorim, talvez o mais extraordinário vendedor de brindes do Norte, foi praticamente destruído pelo azar ao ser-lhe amputado uma perna que aconteceu nos anos 2000. Amorim, era um homem aberto, mexido e de palavra fácil que proferia conversas quentes e cheias de fanfarronices. Era considerado no Arquipélago da Madeira com quem se associara a um partido local para vender os seus artigos como um senhor tripeiro, e as pessoas madeirenses achavam-lhe piada por ele ter uns calões próprios e dispor bem quem o quisesse ouvir. Amorim nasceu no Porto e andava entre os cinquenta e três anos. Os ascendentes de Amorim eram tripeiros. Frequentou a escola no Porto, entrando depois em cantorias e vendas de material de escritório. Jovem ultra-brigão, convenceu-se que as cantorias o iam levar longe. Aos dezoito anos seduziu uma boa série de fãs com o seu romantismo à Nelson Ned, abandonando-as de seguida. Depois disso, cumpriu a tropa e foi ao Ultramar, e, quando voltou, afirmou, ficar sujeito a crises de depressão nervosa. Com vinte e três anos deitou ao chão dois malandros que tentaram empurrá-lo para fora do bar e foi expulso de lá voltar. Treze anos depois, tornou-se proprietário de uma firma de brindes e outros artigos de papelaria. A ideia de entrar para o negócio dos brindes parece ter sido tomada de repente e sem ninguém contar. Numa noite de Outono, Amorim foi tomar um copo a um bar, no Porto; estava muito calado, contrariando o que era habitual (normalmente era exuberante e palrador). A discussão ao balcão voltou-se para os brindes e para as próximas novidades para a Páscoa e Jorginho observou, de repente: «Carago, seria uma grande oportunidade para mim apresentar o meu Cu de Judas para entrar para o Guiness!». Os clientes ficaram boquiabertos com a sua saída, não porque não contassem com a sua malandrice, mas com o Cu-de-Judas. A expressão «Cu-de-Judas» fora inventada ali mesmo. Quando um cliente lhe pediu uma opinião sobre o Cu-de-Judas, Amorim respondeu com arrogância que não tinha nada a «acrescentar». Um repórter dos maus-olhados do pasquim do bar descreveu-o como «um tipo duríssimo e de luas, mas tão irremediavelmente sabichão...», e acrescentou que parecia não ter nenhuma capacidade para a conversa disciplinada. Aceitou uma proposta de um cliente-do-bar, de alcunha o «Cigano», para um orçamento de uma encomenda para um milhar de t-shirts ilustradas com publicidade. Amorim começou então a usar uma calculadora e pediu cinquenta por cento do valor orçamental à vista, para raiva do cliente-do-bar, que tentou alargar o prazo, mas Amorim não se deixou ir no filme. A sua frieza e desdém impressionaram o cliente-do-bar; um dia depois interrompeu a hipotética proposta, comentando de cabeça quente que nem ele nem iguais a ele faziam negócios com ele. Esse facto fez de Amorim o herói do dia, pois constava-se que se fizesse o negócio, iria receber ao Tota! Na década dos anos 90, Amorim sofreu o seu revés mais sério. Quando uma mulher de cor estacionava no Pub Vip, Porto, uma sedutora voluntariosa e alternadeira de passagem, e foram ambos atraídos por um bichinho que se chama «atração sexual». Em breve, Amorim visitava regularmente o VIP e os dois tornaram-se inseparáveis. Uma grande nassa monumental selou este acontecimento. O escândalo foi enorme. Mas a atitude de Amorim para com a alternadeira manteve-se desconfiada e ciumenta; houve uma vez em que se disfarçou de detetive e escondeu-se num carro de um amigo. Este tipo de façanhas divertia-o, mas foi ficando pouco a pouco cansado do seu ciúme e também de um certo tato. Depois de uma ligação fortuita com a amante de um amigo dos copos — a quem decidiu colocar a sua chancela — ele e Sónia foram para um lugar escondido e ela foi recompensada. Gastou imenso dinheiro com as prostitutas. Foi destruindo a sua saúde aos poucos nas viagens que fazia entre Porto e a Ilha da Madeira. Um dia, o seu apetite foi aguçado por uma negrinha que havia poisado por curiosidade em O Bar do Traidor, por indicação do chulo. Diz-se que Amorim afirmou ser uma das mulheres com quem havia dormido. Por essa altura foi apresentado o romance escrito por Abraão: «O Pasquim do Lord» e também uma curta-metragem dedicada a ele, interpretada por Conde do Pincel e Ratazana, sob o título: «Um Gosto a Cheirar ao Torrado», que obtivera uma crítica favorável. A curta-metragem foi apresentada no YouTube. De volta à Madeira, Amorim foi profundamente abalado com as crises do partido e a política na região. Fez mais tarde o seu comentário no ambiente noturno, dizendo que qualquer dia, iria viver para o Brasil, país onde tinha laços sentimentais com as mulheres que conhecera na noite. Por volta da entrada do milénio a sua reputação era mais baixa que a venda dos seus brindes decaiu, tendo um aspeto bonacheirão e avermelhado de rosto que parecia um Pai Natal alcoólico, apreciador de uísque e amante da noite. Por volta do Verão desse ano, Amorim analisava agora que era um homem só e ansiava pela reforma. Travou conhecimento com um grupo de rapaziada jovem para travar um pouco a solidão. Um ano depois, viu as análises no consultório que detetavam uma grande subida dos diabetes e Amorim respondeu de forma irritada: «Estou no fim de uma decadência». Ao sair do consultório, nesse dia, Amorim ripostou: «Não tenho preferência a chegar a velho». Dois dias depois de ir ao bar do desconhecido autor de contos deslumbrantes da noite conhecido por Ratazana, confessou ter que abrandar o ritmo do álcool. Quando prometeu deixar de beber não conseguiu: mas tinha tentado. Era um grande martírio para ele ser excluído da bebida e do fumo. Esta é a história de Jorginho Amorim, tratada provavelmente de maneira sentimental. Um amigo de Amorim, Ribeiro afirma que estava presente no seu último encontro, que foi um almoço de convívio do Grupo de Traidores — o que é provavelmente mais próximo da verdade. O que parece correto é que Amorim não estava à espera de um prognóstico tão ruim. Parece ter ficado abalado desde o dia que fora ao médico. Agora sentia um desalento total. É provável que Amorim se tenha lembrado da mãe, aquém adorava mais do que tudo na vida. Meses depois, de saber que tinha de ir à faca, Amorim escrevia no seu diário: «Não consigo estar muito tempo a trabalhar sem pensar em mim, por isso vou-me submeter à operação esta semana no Porto». Três dias depois, Amorim foi internado no hospital e foi-lhe amputada uma perna.