Tuesday, January 24, 2012



CONTOS DE RATAZANA
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7. Episódio
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Eis como os amigos de Pipocas enveredaram por um caminho do bem e ajudaram o pobre Faísca


Muita gente via o Faísca quase todos os dias; uns riam-se dele, outros tinham pena, mas ninguém se metia com ele. Era um homem pequeno mas magro, estreito de costas, de cabelo encaracolado e penteado ao lado. Usava calça de fazenda, camisa às cores e não fumava. Na vila andava de pulôver. Quando estava perante qualquer ilustre, havia nos seus olhos um certo retraimento, a expressão reveladora do indivíduo que não gosta de ser muito mirado. Devido a essa expressão, os guardas de Marco de Canaveses sabiam que a sua mente não tinha crescido com o resto do corpo. Chamavam-lhe o Faísca por causa de aparecer em todo o lugar. Todos os dias as pessoas o viam passar para o jardim empurrando o seu carrito de pedais com bijutarias até vender a sua carga. E, sempre atrás dele, seguia o seu cão de vigilância. Chamava-se Vigília, fazia lembrar um texugo, embora o seu tamanho fosse volumoso. Quando, cansado de pedalar o carrinho, ele se punha de pé encostado a uma parede, o cão subia para o selim para que ninguém se atravesse a roubar-lhe a carga. Havia quem tivesse visto o Faísca logo de manhãzinha no Beco do Repouso, havia quem o tivesse visto a comer laranjas no mercado, havia quem soubesse que ele vendia santinhos; mas mais ninguém melhor que Catanada, sabia todos os passos que o Faísca dava. Catanada conhecia toda a gente e sabia tudo relativo a todos.

O Faísca vivia fora da vila nos arrabaldes do Marco de Canaveses numa casa térrea com um pequeno quintal na frente. Teria achado vaidade da sua parte mesmo morar junto à rua. O cão vivia ao redor e dormia na cama aos pés dele, e isto agradava-lhe, pois nas noites de Inverno, o bicho aquecia-o. Se as noites gelassem, bastava-lhe pôr umas achas na fogueira, amarfanhar-se nos cobertores e pôr-lhe em cima o esqueleto quente do Vigília. A casa era tão solarenga que o Faísca só tinha problemas quando chegava o Inverno. Bem cedo pela manhã, bem antes de o comércio abrir, o Faísca saía para fora de casa, seguido pelo cão que rosnava ao contacto com a atmosfera fria. Depois, desciam ao Marco de Canaveses e punham-se a trabalhar ao longo duma rua. As traseiras de dois ou três restaurantes davam para essa rua. Por todas elas o Faísca entrava direito aos recantos malcheirosos a comida. Empregados mandriões deixavam-no carregar bidões besuntados de restos de comida e caixas com garrafas vazias, porque não queriam ser eles os transportadores do lixo. Depois de ter limpado cada um dos recantos traseiros e ter os braços cansados, o Faísca voltava a subir a rua, a que ele baptizara de “Largo da Gota” e, seguido do cão fiel, sentava-se num banco do tasco. A seguir, tomava o mata-bicho oferecido pelo dono pelo trabalho e tinha direito a uns ossos para o cão. O cão sentava-se em volta dele, roendo calmamente os ossos. O cão do Faísca nunca deixava ninguém se meter com o dono, mesmo na brincadeira, que atirava-se logo como se eles fossem gatos.

Quando o Sol raiava já o mata-bicho havia terminado. Sentado agora no beiral de fora, o Faísca aconchegava-se perante o sol que tingira de azul-marinho a manhã. Observava, lá em baixo, os vendedores de peixe nas carrinhas a fazerem-se à vida, chamando a freguesia. Ouvia o apito do comboio, soar repetitivamente ao longe da estação do Caminho de Ferro. O cão deitado, em redor dele, esticava-se como um bacalhau, deliciando-se a apanhar sol. O Faísca parecia mais estar a pensar na morta da bezerra, pois os seus olhos tinham uma expressão concentrada. Acariciava, distraidamente, a sua magra perna pela barriga do cão e coçava-lhe os tomates. Uma hora depois, o Faísca ia a casa, tirava o carrito coberto por um oleado e metia-lhe um pouco mais de gasolina no depósito. Em seguida, rua acima, rua abaixo, guiando o carrito, encaminhava-se pelo jardim dentro até encontrar um banco ao sol e sem ninguém. Pelo meio da tarde, tinha já vendido uma dúzia de santinhos; depois, seguido pelo cão, andarilhava as ruas principais até vender algumas bijutarias por dez escudos. O que ele fazia ao dinheiro ao certo é que ninguém o sabia. Andava sempre pendurado. De noite, encoberto pelas trevas da noite, ia à parede e levantava uma pedra, e escondia as moedas na lata vazia de engraxar sapatos ao pé de dezenas de outras latas. Seja como for, o Faísca tinha armazenado uma grande quantidade de dinheiro.

Catanada, empregado de banco a quem não escapavam os particulares da vida dos seus semelhantes e que ficava a falar sozinho para a sua gravata sobre os seus conhecidos, descobriu o tesouro do Faísca por um processo matemático. Então, raciocinou: «Todos os dias o Faísca arranja em média dez escudos. Quando tem muitas moedas de tostão vai à loja e cambia o dinheiro por uma moeda de dez escudos. Portanto, deve guardá-la.» Catanada pôs-se a adivinhar a quantidade de moedas guardadas. Há anos que o Faísca vinha fazendo este modo de vida. Seis dias por semana ele limpava os bidões e aos domingos vendia santinhos na igreja. A roupa orientava-as nas feiras e a comida e os mata-bichos nos restaurantes e tascos. Catanada ainda andou um bocado à nora com grandes somas, mas logo desistiu. «Deve ter açambarcado pelo menos dez mil escudos», pensou. Há já algum tempo, Catanada tinha meditado nestas coisas. Mas foi só depois de, louca e entusiasticamente, a aventura de sustentar a prostituta no apartamento de Pipocas ter sido anulada que o pensamento recaiu, sobre o tesouro do Faísca e ganhou para ele um contorno pessoal. Depois de se debruçar acerca do problema, Catanada prosseguiu o caminho da solução. «Mas seria louvável», pensou, «tentar fazer-lhe um seguro de vida! Oferecer-lhe umas roupas novas? Ele até tem estilo. Mas não tenho dinheiro», lembrou-se, «para comprar essas coisas, embora isso não seja caso de grande monta. Como é que vou levar a cabo esta marosca?»

Chegava-lhe agora uma luz ao fundo do túnel. Como um rato que, durante uns longos minutos se acerca de um bocado de queijo, Catanada estava preparado para utilizar o seu tema. «É isto!», exclamou a sua cabeça. «O Faísca tem dinheiro, mas não tem seguro de incêndio e roubo? Eu tenho-o! Vou pô-lo a fazer um seguro para ele e para o cão também. Será esta a minha marosca para avaliar aquele pobre diabo.» Era uma das muitas habilidades que Catanada estava apto. A vontade irresistível do finório de apresentar o seu projecto a um amigo invadiu-o. «Vou falar com Pascácio», pensou. Mas não sabia se devia fazê-lo. Era Pascácio realmente firme? Não quereria ele cobrar-lhe alguma parte do seu dinheiro para seu proveito próprio? Pelo sim pelo não, Catanada resolveu não correr já esse risco. E não esperou pelo amanhã. Nessa mesma noite foi dar uma ronda pela casa onde o Faísca vivia com o cão. Pipocas, Pascácio e Very nice sentados ao balcão do café, viram-no passar mas não disserem nada. Porque, pensaram que ele não demoraria muito a vir para o pé deles. Estava uma noite cinzenta, mas Catanada prevenia-se com uma lanterna na algibeira, pois sabia que, tinha que ter cuidado, uma vez que era do conhecimento geral que o cão, se suspeitasse que alguém queria fazer mal ao dono, se transformava em vampiro sanguinário. Levava também numa pasta pequena uns brindes, que tinha orientado no banco e uma garrafa de cachaça que, a empregado do restaurante lhe tinha dado, como agradecimento de uma fórmula para conseguir o empréstimo bancário para uma ida a Paris. No pensamento de Catanada, o Faísca ia adorar a cachaça. A noite estava mais cinzenta. Catanada cortou por uma ruela ladeada de terrenos abandonados e cobertos de ervas. Assim que Catanada se acercou da cancela, viu o cão rafeiro do Faísca sair a rosnar do quintal, e Catanada, para o manietar, atirou-lhe uma chiclete.

— Chupa, cãozinho, chupa — disse suavemente —, que vais ver como vais ficar docinho.

O cão, logo ficou entusiasmado pelo aroma, pois retirou-se para o interior.

— Faísca, é o teu grande amigo Catanada que quer dar-te uma palavrinha.

Fez-se silêncio.

— Faísca, sou eu, o Catanada.

Uma voz seca e azeda respondeu-lhe:

— Vai-te daqui. Estou na cama. Não enerves o cão. Vai mas é dormir.
— Tenho aqui uma garrafa de cachaça — retorquiu Catanada. — A tua rouca voz ficará tão fina como a voz de um tenor. Tenho também uns brindes para ti.

Na casa ouviu-se um barulho repentino.

— Entra lá, então — disse o Faísca. — Eu digo ao cão que és meu amigo.

À medida que avançava pelo meio do pátio, Catanada viu o Faísca falar baixinho com o cão, dizendo-lhe que Catanada não fazia mal a ninguém. O Faísca estava em frente da escaqueirada porta da entrada desfigurado rodeado pelo cão. Vigília rosnou e logo voltou a ficar sossegado.

— Este só faz mal se o dono o mandar fazer — disse o Faísca, envaidecido.

Os seus olhos eram os olhos risonhos de um homem divertido. Quando abriu a boca, o seu grande bafo empestou à luz da lua. Catanada abriu a pasta.

— Trago-te aqui uma boa garrafa de cachaça — disse.

O Faísca pegou na garrafa e olhou para dentro, depois abanou-a, e sorrindo, tirou-lhe a rolha. O cão arreganhou os dentes, olhou para ele, e lambeu as beiças. O Faísca buscou dois copos. O primeiro foi para Catanada, sua visita.

— E agora tu, Vigília.

O cão recebeu a sua parte na tigela, bebeu-a e ficou à espera de mais. O Faísca bebeu um bom gole e esticou a cabeça para o ar.

— Que mata-bicho!

O Catanada olhou para ele e colocou a pasta à sua frente. O Faísca, curioso, interrogava-o com os braços abertos. Catanada mantinha-se calado a fim de deixar que pela cabeça de Faísca passassem muitas perguntas. Até que disse:

— És uma tremenda dor de cabeça para os teus vizinhos.

Os olhos do Faísca encheram-se de espanto.

— Eu? Para os meus vizinhos? Quais vizinhos?

Catanada mudou o tom da voz.

— Tens muitos vizinhos nas imediações que pensam em ti. Nunca vêm visitar-te porque de dia andas sempre fora. Julgam que talvez não gostes que te venham visitar à noite. Mas esses teus vizinhos andam sempre preocupados porque têm medo que um dia a casa se incendeie e roubem-na e te ponha a vida em risco.

Apalermado e boquiaberto, o Faísca seguia o raciocino do outro, tentando entender as coisas novas que estava a escutar. Não punha em dúvidas sequer a sua veracidade, uma vez que era Catanada quem as proferia.

— Eu tenho assim tantos vizinhos? — perguntou, admirado. — Juro, que eu não sabia, Catanada. E eles preocupam-se comigo? Que raio de coisa, Catanada. — Engoliu a saliva para controlar a emoção que lhe tomava a garganta. — Tu compreendes, Catanada, o cão e eu gostamos de aqui estar, por causa deste sossego. Não pensava era que causava preocupações aos meus vizinhos.

As faces ficaram-lhe esbranquiçadas.

— Contudo — continuou Catanada — o teu estilo de vida causa muita apreensão aos teus vizinhos.

O Faísca botou os olhos ao chão e tentou pensar rápido em qualquer coisa, mas, como sempre lhe acontecia quando forjava uma ideia, a caixa cinzenta bloqueava e daí não surgia nada. Depois, seriamente, fitou Catanada nos olhos.

— Então, o que é que tu achas que eu devo fazer. Eu não estava a par disto.

Era demasiado simples. Catanada não estava a contar com esta. Repensou; esteve quase a mudar de táctica; sabia, no entanto, que isso ia pô-lo danado consigo mesmo se o fizesse.

— Os teus vizinhos são pessoas civilizadas — disse. — Gostariam que defendesses os teus bens. Se tens dinheiro guardado fá-lo investir num seguro da casa. Num seguro ao cão também. Compra acções. Tira o dinheiro do sítio onde o escondeste, Faísca.

Enquanto falara, Catanada tinha fitado atentamente os olhos do Faísca. Vira-os fugir para o lado com suspeita e depois com desconfiança. Num momento teve a certeza de duas coisas. Primeiro, que o Faísca tinha dinheiro escondido. Segundo, que não era fácil deitar-lhe a mão. O Faísca estava agora de novo a olhar para ele. Nos seus olhos haviam sofisma e, ilustrando-a uma estudada ratice.

— Não tenho dinheiro nenhum — disse.
— Mas todos os dias, amigo Faísca, vejo-te receber cerca de dez escudos de vendas e nunca te vi gastar um centavo.

Desta vez o raciocínio do Faísca não o tramou.

— Dou-os à Minha Sorte — disse. — Não guardo dinheiro em nenhum lado.

E com este drible encerrou firmemente o assunto.

«Aqui deve haver pardal», pensou, Catanada. Por fim, lançou o último às ao jogo. Deitou mão à pasta e pô-la debaixo do braço.

— Eu apenas tive o cuidado de proteger-te. Como sabes, o seguro morreu de velho — disse em toada crítica. — Se não quiseres tentar precaver-te, não posso fazer nada por ti.

A bondade voltou aos olhos do Faísca.

— Diz aos meus vizinhos que estou bem de saúde — pediu. — Diz-lhes que venham visitar-me sempre que queiram. Têm é que avisar-me antes. Ficarei muito contente por os receber. Dizes-lhes isto por mim, Catanada?
— Digo — respondeu Catanada com dureza. — Mas os teus vizinhos não vão ficar muito satisfeitos quando souberem que tu não fazes nada para os sossegar.

Catanada passou a pasta para a mão e afastou-se encoberto no escuro. Sabia que o Faísca nunca abriria boca onde escondera o dinheiro. Este tinha de ser descoberto furtivamente e arrancado à força. Depois far-se-iam todos os seguros para o Faísca. Não havia outro remédio. E a partir daqui, Catanada meteu pés ao caminho a seguir o Faísca. Segui-o no jardim quando ele ia vender bugiganga, e aos domingos na igreja quando vendia santinhos. Ficava à espreita, de noite, junto da casa. Teve com ele algumas conversas a jeito, mas daí nada surgiu. As longas e desgastadas vigílias deram cabo do juízo de Catanada. Achava que tinha de pedir ajuda e opinião pessoal a Pipocas, Pascácio e Very nice. Quem melhor lhas podia dar? Tinha que lhes conceder a sua confiança, mas primeiro mentalizou-os como tal se tinha mentalizado a si mesmo. Quando chegou a altura, os amigos estavam numa, “Um por todos e todos por um”. Aplaudiram-no. O rosto iluminou-lhes de boa vontade. Pascácio chegou a fazer contas de somar e concluiu que o Faísca era bem menino de possuir mais de dez mil escudos.

— Temos de o seguir — disse Pascácio.—
--- Eu tenho-o seguido — retorquiu Catanada. — Mas é que ele só aparece à noite e o cão parece um demónio atrás dele. A coisa não é assim tão fácil.
— Usaste os pormenores todos? — perguntou Pipocas.
— Todos.

Por último, foi Very nice, esse pensador homem, quem encontrou a chave da solução.

— A coisa só é difícil enquanto ele não ganhar confiança connosco — disse. — Mas supúnhamos que ele convivia com a gente? Seria mais fácil para nós ganhar a cumfia dele.

Os amigos consideraram lentamente essa hipótese.

— Alguns empregados dos restaurantes dizem que ele se governa bem — disse Pascácio. — Já tenho visto que a comer é um pisco, mas a beber é bem melhor.
— É capaz de ter aí uns vinte mil escudos — disse Catanada.

Pipocas pôs uma questão:

— Mas os seguros? Ele há querer o cão no seguro.
— O cão é um autêntico robô — afirmou Catanada. — É-lhe fiel cegamente. Pode pôr-se um saco à volta do pescoço, mandá-lo ao recado e dizer-lhe: «Vai buscar pão», «Vai buscar leite.» Ele diz-lhe e o animal não falha uma. É um águia.
— Um dia, de manhã, vi o Faísca; tinha no bolso quase meia vintena de cascalho — disse Pascácio.

O assunto ficou encerrado. A conversa converteu-se em assembleia e a assembleia foi ter com o Faísca. O Faísca nem sabia como disfarçar a felicidade de ver a casa apinhada com todos lá dentro. Usou um tom rude.

— O tempo não tem ajudado muito — disse ele, na sua entrada inicial. — Talvez não devesse contar-vos, mas encontrei na barriga do Vigília uma cambada de carraças do tamanho de um ovo de pombo. — Depois, no seu papel de anfitrião, desfez de desculpas — A casa é muitíssimo pequena. Mas é quente e aconchegada, especialmente para o cão. Lamento não ter nada para oferecer aos vizinhos.

Foi então, a vez de Catanada, falar. Disse ao Faísca que os seus vizinhos estavam extremamente dispostos a ajudá-lo a fazer o seguro, e que se ele fosse almoçar com eles poderiam criar um elo forte de amizade. O Faísca ficou muito sensibilizado ao ouvir estas palavras. Olhou para eles; depois, para o cão, à procura de apoio, mas aquele não o fitou. Por fim, com a palma da mão, limpou o nariz de ranho, e passou a mão no grande blusão de fazenda.

— E o cão — perguntou docemente. — Vocês não se ralam que ele também vá? Vocês têm cães?

Catanada acenou com a cabeça um sinal de concordância.

— Temos; o cão também faz parte da família. Põe-se de lado um canto só para o bicho.

O Faísca era muito orgulhoso. Tinha receio de não portar-se à altura deles.

— Vão agora à vossa vida — rogou. — Tenho que ver se faço alguma coisa. Amanhã ou depois vou ter convosco.

Os vizinhos sabiam como ele se sentia. Saíram para fora e deixaram-no só.

— Ela há-de se dar bem com a gente — disse Very nice.
— Pobre diabo; por aí anda ao quem será — acrescentou Pipocas. — Se eu tivesse sabido, há mais tempo que o tinha convidado, mesmo que ele não possuísse um tusto.

Um brilho de alegria brilhou em todos eles. Em breve as novas amizades ficaram estabelecidas. Pipocas, com uma longa corda, fechou um círculo em volta do quintal, onde o cão tinha de comer quando viesse lá a casa. O Faísca tinha agora um lugar central para ficar de frente para o cão. Pipocas e os amigos entenderam que o convite feito ao Faísca fora inspirado por aquele fatigado e desejoso momento que olhava pelos seus destinos e os protegia do mal. Todas as manhãs, muito antes de os seus vizinhos saírem de casa, o Faísca passava com o seu carrito e, seguido pelo cão, fazia a ronda do tasco e restaurantes. Era daquelas figuras da terra por quem toda a gente sente simpatia. As recolhas tornaram-se vantajosas. Os empregados eram seus amigos, dizia de si para si, dias a fio, quando rebocava o lixo e deixava os bidões vazios para eles os encherem. Estes empregados gostavam tanto dele que os afligia deixarem-no emborrachar-se sozinho. Muitas vezes o Faísca tinha de recolher a casa para dormir. Era tão grande o seu medo de não executar as tarefas, se por acaso não fossem lá limpar. Durante dois dias, os vizinhos limitaram-se a esperar pelo Faísca. Mas, por fim, ele acabou por vir visitá-los. Sentaram-se em redor da mesa, jantaram, e discutiram o que se passava no Marco de Canaveses numa voz arrastada de espertos saciados, os olhos do Faísca bailavam de rosto para rosto e os seus próprios sorrisos sobressaíam-se conferindo as conversas que ouvia. No fundo do quintal, satisfeito, o cão olhava para eles. Nessa noite, a discussão surgiu do tema das pessoas esconderem o dinheiro. Catanada falou:

— Tive um tio, um grande avarento, que abafava o dinheiro no sótão. Ora um dia, um incêndio deflagrou, e ele ficou sem nada. Ninguém chamou os bombeiros. O meu tio era preguiçoso, ficou sem dinheiro nenhum e depois internou-se.

Catanada notou, com uma certa satisfação, que no rosto do Faísca surgira uma certa inquietação. Pipocas reparou também e, por sua vez, prosseguiu:

— O meu patrício, que me deixou esta casa e a outra, também enterrou dinheiro. Não me lembro quanto, mas, como era considerado poupado, devem ter sido aí uns quatrocentos ou quinhentos contos de réis. O patrício fez um esconderijo no tecto e pôs o dinheiro em cima; depois marcou o sítio com uma cruz. Mas, um dia, quando lá voltou os ratos tinham-lhe comido o dinheiro e deixaram lá umas pontas.

Os sorrisos do Faísca seguiam os rostos. No olhar estampara-se-lhe o medo. Os seus dedos metiam-se por entre o miolo da broa. Os vizinhos trocaram um olhar e, habilmente, mudaram de tema. Passaram a falar dos amores de Xanana. Pela noite dentro, Catanada saiu furtivamente de casa e, dirigiu-se rapidamente a casa do Faísca, saltando com destreza por cima da cancela e passado o quintal. Depois de tirar o canivete do bolso e ter aberto a porta, pôs-se a revistar gavetas e armários, e todo o local onde o Faísca poderia ter escondido o dinheiro. Mexeu e remexeu aqui e acolá e, por fim, deu por terminada a busca. Uma hora mais tarde, Catanada voltou para trás num desalento e aborrecido. Por essa altura, o Faísca já estava em casa dormindo o sono aberto deitado ao lado do cão. No dia seguinte, realizou-se uma assembleia na casa do Pipocas.

— É impossível dar com o esconderijo — informou Catanada. — Escondeu bem. Não se vê nem um chavo. Temos que conhecer bem os cantos à casa. Temos de arranjar outro esquema.
— Talvez seja melhor irmos todos — sugeriu Pascácio. — Se todos formos revistar a casa, talvez um de nós tenha mais golpe de vista.
— Hoje voltamos a convidá-lo — disse Very nice. — Um senhor que é meu amigo, vai dar-me uma garrafa de uísque — acrescentou com modéstia, Very nice. — Quem sabe, o Faísca, com uma pinga destas, não se levante da mesa e fique por aqui a sonhar.

Assim ficou combinado.

O amigo de Very nice oferecera-lhe a garrafa de uísque. Não podia haver mais prazer para o Faísca nessa noite quando lhe passaram para a mão uma tigela com uísque acompanhada de uma chouriça assada e ele se sentou ao pé dos vizinhos, bebericando e ouvindo falar. Raras vezes tivera uma oportunidade de beber uísque por uma tigela. Como lhe soubera tão bem. Desejou poder abraçar esta gente contra o peito e dizer-lhe quanto os adorava, mas isso não podia fazer, não fossem eles chamar-lhe de bêbado.

— A noite passada falamos sobre o dinheiro abafado — disse Catanada. — Agora, lembrei-me de uma madrinha minha, uma mulher esperta. Se havia alguém neste mundo capaz de descobrir um buraco onde ninguém desse com ele, esse alguém era a minha madrinha. De modo que um dia pegou no dinheiro e escondeu-o. Mas de nada lhe valeu. Um dia deram com ele e roubaram-lhe todo.

A inquietação voltou ao rosto do Faísca.

— É melhor ter o dinheiro à mão debaixo de olho, gastar um pouco e pronto e emprestar algum aos vizinhos — concluiu Pipocas.

Tinham estado a olhar cuidadosamente o Faísca e tinham reparado que, durante a história mais arrebatadora, o cansaço lhe aparecera no rosto e um abrir e fechar de olhos tornava-se evidente. Agora o Faísca consumia o uísque em doses triplas e os olhos carregavam-lhe de peso. O sono apoderou-se dele. Todos os seus sentidos tinham bloqueado. Ficara profundamente ébrio. Depois de toda aquela chouriçada e de todo o álcool ingerido, acabou por tombar a cabeça para baixo e adormecera. Pouco depois deu-se a saída furtiva dos vizinhos e sem que o cão do Faísca acordasse, cavaram dali para revistarem a casa do Faísca. Um momento depois, os quatro entraram na casa do Faísca. Quando abriram a porta o fedor era enorme. Os quatro vizinhos foram ao encontro dos cantos e apalparam buracos e bateram nas tábuas; mas durante bastante tempo ouviram o Faísca caminhar na sua retaguarda. Saíram para fora e esconderam-se atrás duns arbustos; de repente, só o silêncio, o abanar das folhas e o fraco vento da noite. Revisaram o arvoredo e atrás dos pinheiros, mas o Faísca desaparecera de novo. Por fim, cheios de frio e abatidos, arrastaram-se na direcção do centro. O céu escureceu e o manto da madrugada cobria já sobre a vila. Marco de Canaveses desceu até eles a luz dos primeiros candeeiros da noite. O Faísca, sorrindo de alegria, veio ao quintal cumprimentá-los. Passaram por ele de má cara e meteram-se dentro de casa. Em cima da mesa encontrava-se um saco de serapilheira. O Faísca seguiu-os.

— Enganei-te, Catanada. Disse-te que não tinha dinheiro porque estava com receio. Nessa altura eu não conhecia os meus vizinhos. Agora vocês disseram que me ajudavam a fazer o seguro da casa e do cão que já estou interessado de vez. Só depois de descansar é que me veio à cabeça a solução. No cofre do banco o dinheiro estará em segurança. Ninguém conseguirá tirá-lo de lá se os meus vizinhos me ajudarem.

Os quatro vizinhos olhavam-no, estupefactos.

— Pega no teu dinheiro e esconde-o no monte — disse Pipocas, indignado. — A gente não vai querer saber.
— Não — contestou o Faísca, — não me sentia seguro se o escondesse. Mas ficarei aliviado sabendo que os meus vizinhos me ajudaram a guardá-lo no banco. Vocês são capaz de não acreditar em mim, mas nestes últimos dias, alguém me revistou a casa para me roubar o dinheiro.

Embora o golpe fosse duro, Catanada tentou iludi-lo.

— Antes de esse dinheiro vir parar ao banco, se calhar, tu vais querer tirar algum? — sugeriu amavelmente.

O Faísca abanou a cabeça.

— Não. — Não quero fazer isso. Tenho quase mil moedas de dez escudos. Quando tiver mil, compro um porco para oferecer à Minha Sorte. Tive uma vez um galo do campo que adoeceu, e então, prometi à Minha Sorte que lhe compraria um porco para criar com o dinheiro junto durante mil dias se o bicho escapasse. E escapou — concluiu, estendendo as mãos pequenas.
— Muito bem. Ficamos esclarecidos — concluiu Catanada.

Assim se terminava toda a ilusão em volta do desvio do dinheiro. Pipocas e Pascácio levantaram o pequeno saco de latas da graxa carregadas de moedas de cobre, levaram-no para a outra sala e puseram-no debaixo dos papéis na gaveta de Pipocas. Tempo viria em que experimentariam um certo gozo em saber que aquele dinheiro estava debaixo dos papéis na gaveta, mas agora a sua derrota era azeda. Nada podiam mudar. A oportunidade surgira e cavara-se de vez. O Faísca estava ali defronte deles; tinha os olhos chorões de felicidade, para provar o seu amor pelos vizinhos.

— E pensar — disse — que todos estes anos vivi naquela casota e não conheci qualquer prazer. Mas agora — acrescentou —, agora, estou muito feliz.

Monday, January 2, 2012

CONTOS DE RATAZANA
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6. Episódio
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Eis como os amigos de Pipocas
juraram ser mais companheiros


O Sol já aquecia acima dos pinheiros, o chão estava quente e o rescaldo da noite ia secando nos arbustos do monte quando Pipocas saiu da cozinha para se sentar à soalheira do quintal e meditar, ao calor, acerca de alguns acontecimentos. Arremessou os sapatos e as meias para o lado e deixou que os dedos dos pés apanhassem ar sobre o cimento aquecido pelo sol. Manhã cedo tinha ido ver os fios esturricados e a tomada feita em bocados do seu apartamento. Entregara-se a uma pequena raiva momentânea contra os seus desmiolados amigos e lamentara por momentos o abuso de confiança.

«Se ainda pagassem renda, teria a consolação de receber algum», pensou. «Os meus amigos vão ter que me ficar a dever dinheiro. Agora vou ser eu a pagar os prejuízos.»

Pipocas, porém, sabia que devia castigar um pouco os seus amigos, ou estes considerá-lo-iam lorpa. Por isso, enquanto estava sentado com os pés ao sol no quintal, afastado as moscas com as mãos que eram mais avisos de que ameaças, meditou no que havia de dizer aos amigos antes de os aceitar no apartamento. Tinha de lhes fazer ver que não era homem que se deixasse abater. Desejava ser sempre aquele Pipocas de quem toda a terra gostava, aquele Pipocas que as pessoas procuravam quando tinham uma aflição de urgência ou um problema de maior. Como dono de uma herança e dono de duas casas, tinha sido considerado rico e ganhara inúmeras coisas boas. Catanada, Pascácio e Very nice dormiram cada um em suas casas. Tinha sido um dia cheio de acontecimentos excitantes e estavam exaustos. Mas o quente sol da parte da manhã acabou por brilhar-lhes no rosto e obrigá-los a sair da cama. Encontraram-se; sentaram-se; e, então, perguntou Pascácio, lamentoso.

— Como se deu o curto-circuito?

Ninguém sabia.

— Talvez — disse Very nice —, fosse melhor deixarmos de nos ver por uns tempos.

Catanada tirou as fotografias da algibeira e passou os dedos sobre as imagens desnudadas coloridas. Depois, ergueu-as contra a claridade e olhou através delas.

— Isso só trazia problemas para nós — concluiu. — Penso que o melhor era irmos ter com o Pipocas e confessar o nosso descuido, como os filhos fazem com os pais. Assim, ele não pode censurar coisa alguma sem sentir dó. E, além disso, não temos nós aqui um presente para ele?

Os amigos aprovaram com um gesto de cabeça. Os olhos de Catanada vaguearam novamente pelas fotos, franzindo o nariz um pouco, como o de um coelho. Sorriu, absorvido em calma quimera.

— Vou dar uma curva, amigos. Daqui a pouco encontro-me com vocês no quiosque. Não tragam más notícias se puderem deixar de ouvi-las.

Pascácio e Very nice fitaram-se tristemente enquanto Catanada se afastava, pelo meio das pessoas, direito ao quiosque. Por volta das catorze e trinta os três companheiros caminhavam lentamente em direcção a casa de Pipocas. A saca ia preenchida com ofertas de reconciliação: caixas de cigarrilhas, pastilhas elásticas, garrafa de uísque e uma revista da Playboy. Pipocas vi-os chegar, levantou-se e tentou lembrar-se daquilo que tinha a dizer-lhes. De olhos em baixos, os três perfilharam-se em frente dele.

— Javardolas, fodilhões das gajas das ratas peludas, marados! — chamou-lhes.

E mais não lhes chamou, porque de imediato, Catanada tirou da saca e exibiu as pastilhas elásticas. Pipocas disse que já não tinha confiança nos amigos, que a sua amizade tinha sido lesada. Depois a conversa tornou-se um pouco difícil, pois Pascácio tinha aberto a garrafa de uísque e deu-lha a estrear. Catanada sacou das fotografias enroladas no papel com o número do telefone delas e, indiferente, deixou-as ficar viradas de pernas pró ar, no cimento. Pipocas então esqueceu-se de tudo. Sentou-se no quintal, os amigos também e tiraram tudo de dentro da saca. Beberam e fumaram até se satisfazerem. Uma hora mais ou menos tinha passado, confortavelmente recostados, e a gozar as delícias do sol airoso, quando Pipocas perguntou por acaso, como se tratasse de qualquer coisa remota.

— Como é que se deu o início ao curto-circuito?
— Desconhece-se — explicou Catanada. — Fomos malhar e logo aconteceu. Talvez a corrente eléctrica não queira nada connosco.
— Talvez — repetiu Pascácio numa voz de menino do coro, — talvez haja nisto o espírito de Satanás.
— Pode alguém saber o que leva Satanás a fazer isto? — acrescentou Very nice.

Quando Catanada lhe entregou as fotografias e explicou que elas o queriam conhecer, Pipocas ficou reservado. Olhou um tanto indiferente para as fotos. Os seus amigos, pensou, estavam a tentar adormecê-lo.

— Vocês não pensem que eu nasci ontem — disse, por fim. — Muitas vezes ficamos presos a uma amizade pelos copos de uísque que lhe oferecemos.

Não podia mostrar aos seus amigos o gozo que se instalara dentro de si desde que ficara a saber do curto-circuito no seu apartamento nem podia, por delicadeza para com o vizinho que o informara, descrever como esse gozo o agradava.

— Vou pôr estas fotografias arrumadas para aí. Pode ser que algum dia me lembre delas.

Quando a tarde começou a escurecer, Pipocas meteu-os no seu carro e rumou para o Porto, para o seu apartamento. Mas muito antes, tinha dado ordens ao electricista para tratar da ligação eléctrica. Pipocas, como prova do seu perdão, foi buscar uma garrafa de gim e ofereceu aos seus amigos. Habituaram-se facilmente à nova bebida.

— Quando é que nos levas a conhecer os novos pitos da Senhora do Porto? — perguntou Catanada.
— Na sexta-feira ela vai apresentar-me um tridente de pitinhos — disse Pipocas.

Catanada sorriu satisfeito.

— Os pitos da Senhora do Porto costumam ser tenrinhos. Eu disse-lhe uma vez que precisavam de roços jovens e não roços velhos, mas ela mandou-me bugiar.
Beberam os últimos tragos da garrafa, o que chegava e sobrava para fomentar a doçura da camaradagem.
— É bom ter amigos — disse Pipocas. — Como é triste uma pessoa não ter amigos para compartilhar o gim!
— Ou as bifanas — acrescentou Pascácio, rapidamente.

Pascácio ainda não estava completamente liberto dos remorsos, pois não tinha dúvidas de quem tinha provocado o curto-circuito do apartamento.

— Em Portugal inteiro há poucos amigos como tu, Pipocas. Poucos se gabam dessa consolação.

Antes de embalar completamente sob os piropos dos seus amigos, Pipocas lançou um repto.

— Quero as chaves do meu apartamento — ordenou. — Quero-as todas na minha mão.

Embora nenhum deles o tivesse citado, cada um dos quatro sabia que ia haver festas no apartamento de Pipocas. Catanada deu um suspiro de alívio. Passada estava a preocupação com as despesas, passada estava a responsabilidade de dever dinheiro. Já não era devedor. Em meditação, deu graças pelo curto-circuito no apartamento.

— Vamos ser mais felizes agora, Pipocas — disse. — No fim do mês quando tivermos dinheiro, vamos dar uma grande comezaina. E talvez tenhamos aqui, se as convidarmos, uns borrachos da Senhora do Porto para gozarmos à fraternidade.

Então, Very nice, numa excitação grata, fez uma ousada promessa. Era o gim quem o fazia, a noite do curto-circuito e todas os momentos picantes. Imaginou que tinha recebido grandes prendas e queria dar uma também.

— Será nossa parte e obrigação fazermos com que neste apartamento nunca ao Pipocas falte pito — disse com arrojo. — O nosso amigo nunca se há-de fartar.

Catanada e Pascácio levantaram os olhos, pasmados, mas a coisa já estava dita. Ninguém a podia desmentir. Até Very nice compreendeu, depois de a ter lançado cá para fora, semelhante afirmação. Só podiam ter esperança de que Pipocas não a lembrasse.

«Porque», disse Catanada para si próprio, «se esta promessa fosse exigida, seria pior do que as despesas. Seria um comércio.»

— A nossa palavra de honra, Pipocas! — disse.

Sentaram-se à volta da mesa, com os copos nas mãos. A amizade que havia uns pelos outros era quase intolerável. Com as costas da camisa, Pascácio limpou os queixos molhados e repetiu a afirmação de Catanada.

— Seremos mais felizes aqui — disse.

Thursday, December 15, 2011



CONTOS DE RATAZANA
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5. Episódio
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Eis como a paródia mudou o rumo dos acontecimentos e castigou severamente Catanada, Pascácio e Very nice.                           ~~~~



A tarde apresentou-se tão límpida como a idade toca o homem bom. Branco penetrou no espaço solar. As sombras da rua ficaram mais claras e frisadas pelo sol que espelhava pela rua. Os seguranças juniores que acreditam que o chinfrim aquece durante a noite alta deixaram os seus trabalhos, e os seus lugares foram preenchidos por aqueles que estavam convencidos ser na noite baixa que o chinfrim pega a sério. À uma e meia a sombra mudou e refugiou-se de mansinho para o mar, sobressaindo todo o aroma dos cheiros das comidas. Os seguranças, que nos sítios movimentados do Porto vigiavam as entradas, puseram de parte as vigílias e enrolaram conversa nas pontas. Pelas ruas da cidade, homens gordos, em cujas pupilas havia o cansaço e a moleza que tantas vezes se vêem nos olhos de outros, iam sentados em variadas marcas de automóveis a caminho da baixa, a fim de tomarem vinho e café com bagaço. Na rua estreita e funda, o barbeiro, colocou na porta do estabelecimento um letreiro que dizia «Não demoro» e foi para casa passar o resto do dia. Os toldos decoravam estáticos e tesos. Os cães, que, às dezenas, eram livres e passageiros de ruas, regozijaram pacificamente a sua bela sina.

Catanada e Pascácio, sentados, debaixo de um toldo amarelo-torrado na esplanada do café da esquina das Antas, bebiam serenamente o seu uísque e deixavam que a tarde passasse por eles, pouco a pouco, como a barba.

— É bom que a gente não dê ao Pipocas as duas amigas da vizinha — disse Catanada. — É homem que pouco freio põe no sexo.

Pascácio concordou.

— Pipocas tem um ar animalesco — disse — é gente assim que, vai-não-vai, se estoira. Olha o Caga-Milhões, olha a Faroleira.

O realismo de Catanada veio levemente ao de cima.

— Caga-Milhões caiu na banheira do seu apartamento, no Covelo — comentou num tom reprovável —, a Faroleira comeu um gajo que tinha a picha estragada. Mas — prosseguiu, amável — eu sei onde queres chegar. E há muita gente que lerpa por abusar do sexo.

Toda a cidade começou a preparar-se para o inicio da tarde. A cozinheira do restaurante cortou pequenos nabos para a sua sopa preferida. O tasqueiro das pipas ao alto, deitou água no vinho e marcou-o para o vender depois das três da tarde. Depois despejou um pouco de pimenta no bagaço que ia servir ao fim da tarde. No salão de dança Mexe o Pé, o marcador de sala abriu uma caixa de chocolates e dispô-los, envolvendo-os nuns guardanapos de papel vermelho, em pequenos piris de cerimónia. Um pequeno grupo de reformados que tinha passado um bocado da tarde dentro do jardim do Campo 24 de Agosto jogando dados com os amigos pôs-se a caminho da estação de São Bento para a chegada do comboio, vindo de Rio Tinto. Famintos, os pássaros levantaram voo dos telhados em frente das casas e lançaram-se na direcção dos quintais traseiros. Nas lojas de comércio, os proprietários levantaram as cortinas em todas as montras. A mulher gorda da máquina das pipocas, de 114 quilos de peso, levou, como todos nos dias, a sua gata de raça siamesa, e pôs-se a vender na parede exterior da Igreja dos Congregados.

Na vizinha e acolhedora Vila Nova de Gaia, os participantes da Corrida Boas Pernas reúnam-se para tomar café e bagaço e participar, ao mesmo tempo que esperavam pelo presidente da comissão. Uma senhora baixota discutia com ligeireza e cor o problema do vício da prostituição no Porto. Dizia ela que uma brigada devia visitar essas casas do vício carnal a fim de ver exactamente como, na verdade, eram penosas as condições aí existentes. O Sol dirigiu-se para o poente e ganhou uma tonalidade alaranjada. No café da esquina, debaixo do toldo, Pascácio e Catanada beberam o primeiro mata-bicho da tarde. O dono do café saiu do estabelecimento e passou ao lado sem reparar nos seus novos fregueses. Estes esperaram que ele desaparecesse a caminho do mercado; depois, entraram no estabelecimento e, com um conhecimento de causa, levaram a rapariga a acrescentar-lhes uísque. Deram-lhe uns beliscões nos braços, chamaram-lhe «Meu limãozinho», permitiram-se umas bocas levianas com a sua pessoa e, por fim, foram-se embora, deixando-a corada e um tanto despenteada.

Iniciara-se a tarde no Porto e as lojas tinham-se aberto. Nas montras havia uma claridade total. Os panfletos lançados na rua anunciaram em relevo: «Os Socos do Abana-Abana — Os Socos do Abana-Abana». Um pequeno mas endiabrado grupo de homens que acreditam que o chinfrim pega de noite montaram vigilância nas lojas principais do quarteirão. Através da rua deslizou um suave respiro que ficou a flutuar à roda das casas; o ambiente encheu-se do belo aroma que o ar larga ao ser respirado. Pascácio e Catanada voltaram para o toldo e encostaram-se na parede, mas já não estavam tão contentes como antes.

— Está calor aqui — disse Catanada, bebendo um gole de uísque para refrescar.
— Devíamos ir para o apartamento do Pipocas. Não tens aí as chaves? — retorquiu Pascácio.
— Tenho. Mas não temos uísque para beber.
— Bem — continuou Pascácio —, se encontrar ali um amigo da garrafeira, encontro-me já contigo à porta do apartamento.

E foi o que fez, passados quase quinze minutos.

Catanada esperou pacientemente, pois sabia que há coisas que mesmo os nossos amigos não podem resolver. Enquanto isso, Catanada olhava atentamente a rua na direcção que Pascácio havia tomado. A sua vigilância, porém, foi pouca. Passado um bocado, Pascácio veio ter com ele e Catanada reparou com alívio e satisfação ao ver que o amigo trazia uma garrafa embrulhada em jornal debaixo do braço. Até entrarem no apartamento, Pascácio não fez qualquer comentário acerca do seu recente desenrascanço. Depois repetiu as palavras de Pipocas:

— Uma mulher de ajuda, aquele «Meu Limãozinho».

Catanada, no escuro, fez um sinal de concordância ao abanar a cabeça, ao mesmo tempo, que exprimia uma calma sabedoria:

— Raramente se consegue tudo no mesmo café: uísque, comida e amor. Qualquer dia temos de lhe oferecer um presente.

Catanada abriu as janelas para trás. Em breve o ar estabilizava airosamente. Os dois amigos puxaram as cadeiras para o meio da sala e seguraram nas tigelas perto das janelas para relaxaram melhor o ambiente. Nessa tarde a ânsia era enorme, pois Pascácio havia comprado um vibrador para fazer uma pequena brincadeira. Alguma coisa, porém, distraíra o seu pensamento antes de esse camuflado plano ter sido levado avante. Agora o pequeno embrulho jazia, amarfanhado no bolso das calças.

— Dava uma moeda de dez escudos para saber por onde é que Very nice anda — disse Catanada.
— Já passou um bom bocado desde que disse que voltava — disse Pascácio. — Não sei se é homem para se fiar nele, ou não?
— Talvez tenha acontecido alguma coisa que o levasse a perder-se. Very nice, com aquela lábia de locutor e aquele seu coração de galo, anda quase sempre em sarrabulhadas por causa das mulheres.
— Ele tem é cantos de cigarras — respondeu Pascácio. — Nunca leva as coisas a sério.

Não esperaram por muito tempo. Mal tinham emborcado a segunda tigela com uísque quando Very nice chegou meio a cambalear e abraçado em três raparigas de aspecto patusqueiras. A camisa estava aberta e o nariz cheio de ranho. Entrando, a claridade de fora revelou uns olhos pesqueiros que apregoavam estar bem tocado. Pascácio e Catanada precipitaram-se para eles.

— O nosso amigo está bonito!
— Mas trás com ele um comboio, Catanada!

Não havia nestas palavras o mais ligeiro sentido sarcástico, mas, Very nice reconheceu nelas o mais destruidor género de sarcasmo. Encarou-os fixamente com os olhos pesqueiros que em tais circunstâncias ainda tinha algum querer,

— Vós sois uns grandessíssimos bois! — exclamou.

Ambos recuaram estupefactos perante a grosseria da afirmação. Das palavras aos actos, uma das raparigas agarrou-se a Castanada e a outra ficou-se pelo Pascácio. Subiram para o quarto grande tão depressa quanto possível. Very nice dirigiu-se para o quarto de banho e levou os amigos atrás dele.

— São estas as amigas da vizinha? — perguntou Catanada.
— Sim — disse Very nice —, desta vez vieram mais tarde.
— Devem ter uma boa pedalada — comentou Pascácio, a fim de elogiar as conquistas do amigo. — A gente sabe que em engates és um homem habilidoso.

Very nice pareceu ter ganho um novo fôlego.

— São da aldeia — disse. — A vizinha também ajudou. Deu-me uma garrafa de uísque para trazer.
— Essas varredoras das limpezas que não vão por dinheiro são traidoras, amigo — interveio Pascácio. — Sempre lhes destes aquela coisa que põe a cabeça à roda?

Very nice meteu a mão no bolso e tirou um amarrotado papel enrolado numas fotos.

— Não tinha chegado o momento — disse. — Estava no preparo; além do mais, ainda não tínhamos entrado na paródia.

Catanada fungou e tirou as fotografias da mão de Very nice e, passando os olhos por elas, pôs-se a pensar. Passado um instante os olhos brilharam-lhe de intensidade.

— Já sei! — exclamou. — Vamos dar isto ao Pipocas para ele lhes telefonar.

Logo aplaudiram a ideia e voltaram para o quarto grande, onde as raparigas aguardavam impacientemente por eles. A porta é fechada. Há pensamentos ao redor, de ambos os lados, tirando as suas roupas, ao estilo português, como se fossem puros casais. A pouco a pouco, como Catanada gostava, o cenário ia ganhando forma. Dava força de um programa gozá-lo calmamente. Uma boa paródia reside nas brincadeiras meio contadas que devem ser preenchidas pela própria experiência do leitor. Catanada tirou o soutien do peito da rapariga e, passando os dedos pelos peitos dela, pôs-se a massajá-los. Passado um bocado os olhos brilharam-lhe alegremente.

— Que mimosos! — exclamou. — Se o Pipocas visse isto, caía da cama abaixo!

Todos, sem excepção, apalparam-se uns aos outros. Pascácio, com uma dedicada atenção de barman, botou uma porção de uísque nas três tigelas para ser dividido por seis. Instantes depois, os três homens começaram às piadas. Catanada contou uma história super brincalhona a respeito de um caso que acontecera ao tio. A satisfação começou a reinar; cantaram. Very nice levantou os pés numa imitação de número para provar que não estava com a moca toda que não fizesse um, oito. Dentro da garrafa, o uísque ia desaparecendo cada vez mais. Mas antes de se acabar os três amigos começaram a ficar com excitação. Pascácio sacou a vizinha e dirigiram-se para a cama do quarto pequeno, meios grossos. Very nice esticou-se confortavelmente na cama redonda, ao lado do par Catanada e de uma rapariga.

O amor acendeu-se. As camas encheram-se dos ruídos profundos que os casais faziam a fazer amor. Na cama do quarto pequeno apenas uma coisa fazia um ruído estranho. O comprido vibrador, de cabeça arredondada como pénis, que a pilha controla, entrava e saía no ânus da vizinha com alguma rapidez. A pouco e pouco a pilha foi ficando mais gasta. Pascácio, cuja gulosa acção era responsável pelo divertimento, gozava ainda mais satisfatoriamente do que os seus companheiros. Mas, uma vez que não há força na pilha, Pascácio colocou um simples cabo eléctrico à tomada da parede. Tal acto gerou um aumento de corrente eléctrica que perpassou através da tomada da parede. O curto-circuito lambeu a corrente e correu direito ao disjuntor que deu um rebentamento. O apartamento encheu-se com a gritaria deles. Very nice assustado, virou-se e, sem se lembrar onde se encontrava, caiu da cama e, começou a vestir as calças. Então, a rapariga em saltos, caiu-lhe em cima. Levantou-se com um berro e ficou perplexo perante o nervosismo que à sua volta se apoderara.

— Catanada! Pascácio! — gritou.

Correu para o outro quarto, abriu a porta de empurrão e ficou boquiaberto a olhar a cena. A vizinha tinha desmaiado e tinha ainda o vibrador preso ao ânus. Ficaram em frente dela, olhando para o interior através da porta aberta. No fundo da parede podiam ver o negro da tomada estilhaçada com os fios todos aos desencontros. Catanada em calafrios, virou-se para Very nice.
— Não mexas nisso? — gritou. — Deve ficar assim até o electricista vir compor a tomada.

O barulho das cortinas e a exclamação das bocas dos moradores que, vindos dos prédios vizinhos, subiam até cima, ainda lhes permaneciam nos ouvidos. As grandes varandas encheram-se e os olhos dos seus moradores dançaram de perguntas. Catanada virou-se apressado para Very nice.
— Vai à rua telefonar ao Pipocas que a vizinha está desmaiada no apartamento. Corre depressa, Very nice.
— Porque é que não vais tu?
— Ouve — responde Catanada. — Pipocas não sabe que é a ti que vai pedir responsabilidades. Foste tu que trouxestes as raparigas, não fomos nós.

Very nice entendeu esta lógica e foi à procura de uma cabine telefónica. Ligou um número.

— Pipocas! — gritou. — Pipocas, a vizinha desmaiou no teu apartamento.

Não obteve resposta.

— Tás-me a ouvir? — gritou de novo. —

Na casa da Senhora do Porto, ouviu-se vozes de raparigas. Pipocas pareceu irritado.

— Que diabo estás tu para aí a dizer?
— No teu apartamento, aquele onde o Catanada teve a prostituta, está lá uma rapariga desmaiada.

Durante uns segundos Pipocas não disse uma palavra. Depois perguntou:

— Está lá a polícia?
— Está a chegar! — gritou Very nice.

A rua estava já tão serena. Ouvia-se o correr das cortinas a baixar.

— Bom — disse Pipocas —, se a polícia fizer alguma coisa, o que eu quero que vós fazeis, é não me meter ao barulho?

Very nice ouviu o auscultador cair com um estrondo; voltou-se e dirigiu-se para o apartamento. Era uma ocasião má para chamar o Pipocas, sabia-o de antemão, mas se não fosse assim, como é que se lhe podia dizer? Se Pipocas não tivesse sabido do desmaio podia ter ficado danado. Very nice sentia-se aliviado por, de qualquer modo, tê-lo informado. Agora a responsabilidade era dos outros. O prédio era pequeno, havia muita gente que trabalhava de dia e às tardes estavam praticamente ausentes. Talvez houvesse gente que não tivesse ouvido os gritos dum curto-circuito tão rápido e tão mordaz. Os polícias deram uma vista de olhos pelo local e depois deram à socapa. Em menos de quinze minutos o carro tinha desaparecido completamente. Só então as raparigas se retiraram para as suas casas e tentar esquecer aquele episódio burlesco. Catanada, Pascácio e Very nice, mãos com mãos, observavam a rua. Metade dos moradores da zona e alguma gente das Antas, excepto Pipocas e a Senhora do Porto, andaram por ali curiosos a saber do curto-circuito. Por fim, quando o descomposto estava composto, quando da tomada eléctrica apenas se topava um montão de fios destorcidos, Catanada afastou-se silenciosamente.

— Aonde vais? — perguntou Pascácio.
— Para casa, dormir. Será bom que também o faças. Durante um certo tempo, temos de evitar que Pipocas nos veja.

Calados e silenciosos, os outros concordaram e seguiram-no.

— É uma lição para todos nós — disse Catanada. — Assim aprendemos a nunca deixar o quadro eléctrico ligado para estas paródias dentro de casa.
— Para a próxima — retorquiu Pascácio, abatido — comemo-las lá no monte e pronto.


Thursday, November 17, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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4º Episódio
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Eis como Very nice, um bom rapaz,
se tornou um involuntário transporte do vício

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Para Catanada e Pascácio a vida corria sem ondas. De manhã, quando o sol testava na terra, quando o reluzente dia não é altura para pressas nem para azáfamas, os pensamentos são lentos, profundos e dourados. Pascácio e Catanada, um de calças de ganga e outro de calças de bombazina e camisas escuras de mangas curtas, iam, como dois companheiros, até à esquina situada ao fim da rua e, momentos depois, voltavam para se sentar ao sol no banco do jardim, ouvir as cornetas dos vendedores ambulantes nas ruas de Marco de Canavezes e falar, num tom pachorrento e irónico, dos acontecimentos dos bairros do Porto pois aí, em cada hora que passa, há milhares de excitantes eventos. No jardim estavam eles em paz. Só os dedos das mãos se mexiam sobre as quentes roupas quando as moscas nelas pousavam.

— Se todas as moscas que nos tocam fossem notas — disse Pascácio — muito ricos seríamos. Passávamos a vida entesuados.

Catanada, contudo, acrescentou:

— Toda a gente teria montes de moscas. Deixavam de ter interesse; mas o sexo custa sempre dinheiro. Se ao menos durante um dia oferecessem sexo e nós tivéssemos um harém para o pôr lá.
— Mas sexo de categoria — interrompeu Pascácio —, não daquele foleiro que tu arranjaste da última vez.
— Não o conquistei — retorquiu Catanada. — Alguém mo deu depois de sair do salão de baile. Que é que estás à esperas do sexo que se oferece?

Levantaram-se e sacudiram brandamente as moscas com as mãos.

— Ontem a Xanana Maluca deu com uma garrafa na cabeça do cigano, no pinta — observou Catanada.

Pascácio levantou os olhos, comedidamente interessado.

— Pancadaria? — perguntou.
— Não. O cigano não sabia que a Xanana ontem tinha orientado outro gajo e tentou forçar a porta; de modo que ela deu-lhe com uma garrafa.
— Devia ter-lhe dado com duas garrafas — julgou Pascácio, moralizador.
— Não. Ela só tinha uma garrafa na mão. Mas não estava zangada. O que ela queria era que ele não fosse bisbilhoteiro.
— O cigano é burro — julgou Pascácio. — Agora está de molho?
— Ela só fez uns arranhões na tola. Vá lá que ele tem muito cabelo á frente. O que ela queria era que ele não andasse para ali a cheirar.
— A Xanana não é uma mulher muito atinada — continuou Pascácio. — Mas ainda manda pensos com borato para aliviar as dores do cigano, que já está de choco há três dias.
— E ele bem precisa deles — observou Catanada. — É um bom malvado e no entanto nunca lhe acertaram uma. Xanana disse-me uma vez que o cigano era mais mafarrico que o burro quando saiu com ele pela primeira vez. Mais tarde, ela afirmou que só aceitava metade dele por causa do cheiro que ele botava.

Pascácio num movimento de cão, mijou numa parede esquinada que se deparara à sua frente.

— O cigano sempre foi assim — disse. — Muita garrafa aquele diabo vai levar. Mas achas que uma mocada de uma garrafa faz efeito quando o dinheiro para ela sai dos bolsos dos cabritos que dormem borrachos em casa de Xanana?
— Uma garrafa é uma garrafa — respondeu Catanada. — Ao vendedor que te vende a garrafa está-se borrifando donde tu vens com o pilim. O bêbedo também não quer saber donde vêm as garrafas. Gosta delas, assim como tu gostas de beber. O bêbado Arcanjo costumava passar a vida nos tascos e, semanas a fio, a primeira gota sabia a lixívia, mas isso não a fazia menos gota. Os bêbedos é que têm de explicar essas coisas. Não somos nós que temos de nos preocupar com explicações. Gostava era de saber onde é que a gente pode arranjar umas boas bifanas. Uma boa bifana agora vinha a calhar.

Pascácio puxou os óculos do sol para cima da nuca para que o longe se tornasse perto.

— O Carlos Matos contou-me que o Pipocas está com a morena, a filha dos Cabaços.

Pasmado, Catanada sentou-se em frente.

— Talvez a cachopa queira casar com o Pipocas. Esses Cabaços andam sempre a querer casar, gostam mais de dinheiro do que eu de chocolate. Depois de casado, o Pipocas é capaz de nos cortar o hábito de usarmos o apartamento. Essa tal morena vai querer vestidos novos, jóias; todas querem, eu conheço-as.

Pascácio também parecia aborrecido.

— E se a gente fosse falar com o Pipocas, talvez pudéssemos… — sugeriu.
— Pode ser que ele queira ir comer uma bifana — disse Catanada. — As bifanas da Conga, são picantes.

Enfiaram-se dentro do carro e dirigiram-se velozmente para o apartamento de Pipocas. Catanada abaixou-se e evitou levar com uma ponta de um cigarro ainda acesa na cara; depois, atirou-a fora com um palavrão.

— Foi algum cabeçudo que a mandou para aqui para nos assustar.
— A tarde passada fui eu que levei com uma — disse Pascácio.

Foram encontrar Pipocas no apartamento, sentado na cadeira de baloiço, atrás da mesa, atirando as fumaças da cigarrilha para afugentar as teias de aranha.

— Ei, companheiros! — saudou-os ele, com moleza.

Puxaram das cadeiras e sentaram-se ao lado de Pipocas e Pascácio atirou com a pasta para um canto. Pipocas puxou de uma caixa de pastilhas e algumas cigarrilhas e passou-as a Catanada. Este pareceu um pouco assolapado, mas não fez qualquer restrição.

— A Xanana Maluca deu com uma garrafa no cigano branco — disse.
— Já ouvi dizer — retorquiu Pipocas.

Pascácio interveio com mau humor.

— Essas mulheres não têm problemas de espécie alguma.
— É perigoso um homem fazer amor com elas — disse Catanada. — Disseram-me que há cá no Marco de Canavezes, uma rapariga, uma Cabaços, capaz de pôr um homem levado da breca para toda a vida se ele se meter na ilusão de querer saber o que é.

Pascácio deu alguns estalidos provocados pela pastilha com a língua. Abriu as mãos puxando os dedos.

— Como é que um homem há-de saber? — perguntou. — Pode lá ter-se confiança em alguma?

Olharam o rosto de Pipocas e viram que este não revelava sinais de inquietação.

— A rapariga é conhecida pela morena — disse Catanada. — Agora o resto não é preciso.
— Oh, estás a referir-te à Maria Morena — observou Pipocas muito pouco entusiasmado. — Bom, o que é que se pode esperar de uma Cabaços?

Pascácio e Catanada respiraram aliviados.

— Então que tal irmos comer uma bifana à Conga? — perguntou Catanada como por instinto.

Pipocas abanou rapidamente a cabeça.

— Nem pensar. Comi agora um prato de feijões que me encheram e fiquei como um sapo.
— Como vão agora os teus borrachos? — interveio Pascácio na mudança da conversa.

Pipocas agitou um dedo para a frente e para trás em sinal de reflexão.

— Telefonou-me a Senhora do Porto para ir lá ver os borrachos que chegaram dos bairros, que ia ficar babado por dentro e por fora.
— É alguém que eu conheço? — quis saber Pascácio.
— Sei lá. Acho que os borrachos devem ser todos novos.
— Já lá abriste uma garrafa de uísque, não? — sugeriu Catanada.

Pipocas sorriu-lhe cinicamente.

— Ofereceu-me a Senhora do Porto quando eu fui lá a casa ontem à noite. É uma boa mulher em certos aspectos e também não é lá nenhuma carcaça.

Pascácio e Catanada voltaram a ficar alarmados.

— Um nosso amigo diz que ela tem mais de 50 anos — disse Catanada com alvoroço.

Pipocas estendeu os pés.

— É letra. Poucos mais têm de 40 anos. E que impedimento tem ser quarentona? — afirmou filosoficamente. — É uma mulher cheia de fúria. Tem um apartamento e uma dúzia de gajas a atacar. — Depois ficou um tanto baralhado. — Gostava de lhe dar uma foda.

Catanada e Pascácio puseram-se a olhar para o chão e tentaram sacar da cabeça uma ideia mais flutuante, mas os seus esforços não deram nenhum efeito.

— Se eu tivesse uns patacos agora — disse Pipocas — levava a ela e às suas meninas a dar um passeio de barco pelo Douro abaixo. — Olhou os seus companheiros das andanças com uma expressão significativa, mas nenhum deles se pronunciou. — Só precisava de uns cinco ou dez contos — sugeriu.
— O meu cliente do banco anda na observação das acções — observou Catanada. — Pode ser que tu orientes no advogado por um dia.

Pipocas retorquiu com azedume.

— Parecia mal que um homem que é proprietário de duas casas fosse pedir emprestado. Agora se me pagassem umas continhas que andam por aí…

Catanada ergue-se com estrebucho.

— Sempre as continhas — exclamou. — Tu atiravas connosco para dentro das grades… para a cadeia, enquanto gozas como um barão. Anda, Pascácio — disse irritadíssimo. — Vamos desandar daqui, senão ainda nos cobra a permanência, este miserável, este semítico.

Saíram ambos.

— Onde é que a gente vai agora? — perguntou Pascácio.
— Vamos indo — retorquiu Catanada. — Talvez ele nos volte a chamar.

A maneira exigida, tinha, contudo, entrado a fundo no espírito dos dois homens.

— Quando o apanharmos vamos chamá-lo «Gordo semítico» — disse Catanada. — Há anos que somos amigos dele. Quando ele teve dificuldades, demos-lhe de cobertura; quando ele teve solidão, demos-lhes companhia.
— Há quanto tempo foi isso? — perguntou Pascácio.
— Bom, isto é o que a gente teria feito se ele necessitasse de alguma coisa e nós tivéssemos para lha dar. É este o grau da amizade que tivemos por ele. E ele agora, para levar numa viagem de barco pelo Rio Douro acima ou abaixo uma velha histérica, chuta-a fora?
— Deixa lá. As viagens ao rio só fazem enjoos.

Catanada ficou cansado de tanta emoção. Sentou-se numa entrada alta ao lado dum velho prédio e pousou o queixo entre as mãos, abatido. Pascácio sentou-se também, mas para fumar, pois a sua amizade para com Pipocas não era tão antiga e forte com a de Catanada. O fundo da rua estava atafulhada de circulação de carros e de pessoas, Catanada, ao olhar para o fundo, triste e aborrecido, viu um carro ligeiro familiar surgir de um cruzamento. Catanada agarrou o braço de Pascácio e apontou. Pascácio fechou o olho direito e olhou fixamente.

— É capaz de ser quem nós pensámos…

O carro aproximou-se, afrouxou devagar e ladeou o passeio contrário, aparecendo o rosto sorridente e o cabelo grande e despenteado de Very nice.
— Ó, Catanada. Ó, Pascácio — disse, perturbante. — Que fazeis aqui?

Catanada e Pascácio ergueram-se e passaram para o pé dele.

— Amigo, Very nice! Tu não estás sóbrio.

Very nice sorriu docemente.

— Alegre, é só — murmurou. — Vamos ao café, amigos. Hoje entro eu.

Entraram no café e sentaram-se. Catanada pediu um Martini com gingar ale e Pascácio foi num Vinho do Porto Reserva. Very nice pediu uma amostra ao empregado de Favaios e cheirou o vinho. Sorveu primeiramente dois ou três goles e emborcou um copo traçado de vinho com groselha para familiarizar. Por fim exclamou:

My God, que mistura!

Catanada encarou o seu amigo Very nice com uma expressão simpática e admirativa.

— Descobristes alguma mina para estes lados? — perguntou. — Ou foi alguma viúva rica que se prendeu a ti no pub, meu amigo?

Very nice era um simplório e a manobra nunca o abandonava. Tossicou para pôr a garganta limpa e chamou o empregado:

— Dê-me daí outro igual — disse. — Tenho a garganta a reclamar. Já vos conto como a minha vida anda.

Bebeu uma boa dose, o olhar sonhador como o de um homem que tem tanto apetite que pode gastar todo o seu tempo a apreciá-lo e até mesmo a fazer uma dieta um dia sem problema.

— Estava na ressaca em casa há quase uma semana — disse. — Em casa ao pé do gato. Durante a noite a vizinha do lado bateu-me à porta. Era uma bonita figura e trazia umas velas de aniversário para iluminar. Fui com ela para sua casa e festejei até às tantas. Meti-me a beber à vontade, mas apareceram os amigos e só me deram para trás.

— Arranjastes problemas? — perguntou Catanada, sobressaltado.
— Estou a contar-te as coisas por partes — retorquiu Very nice com certo respeito. — Dancei as duas primeiras danças e levei-a para um canto da sala; depois dei-lhe uns beijos pelo pescoço abaixo que ela gostou muito, tão ternos e tão doces que eles eram. Dei-lhe também um ferrão numa mama; passado um bocado, porém, entraram uns moinantes e ela foi com eles.

— Ai os filhos da mãe, roubar assim a vizinha de um homem carinhoso! — exclamou Catanada, apavorado.
— Não é bem assim — disse Very nice, fantasista. — De todas as maneiras era altura dela se pirar. Depois, vim por aqui atrás dela e perdi-me no caminho.
— Então já não tens mulher?
— Não sei — respondeu Very nice. — Ora deixa-me ver. — Rebuscou os bolsos e tirou um papel amarrotado com um número de telefone e uma direcção de uma morada. — Esta noite vou levá-la a ver um daqueles filmes de pôr a cabeça assim à roda.
— É um filme daqueles da gente se agarrar a uma amiga, não é?
— Yá! — respondeu Very nice —, mas não é assim tão picante como tu julgas.

Tossicou mais uma vez. Catanada encheu-se logo de atenção.

— É restos da ressaca — afirmou. — Não faz bem senão apanhares outra. Que dizes, Pascácio, vamos convidá-lo para o nosso apartamento e levamos a sua vizinha. A vizinha já está bastante coçada, mas a gente põe-na fina.
— Que é que vocês estão para aí a tramar? — indagou Very nice. — Eu estou de olho vivo.
— Isso vimos nós — retorquiu Catanada. — Não te esqueças que te apresentamos a Joaquina Racha, faz agora um mês que andas com ela. A Maria Carola também foi no grupo e deixaste-a a semana passada.

Very nice ficou sereno.

— Que é que vocês querem que eu faça?
— Uma parodiazinha — respondeu Catanada, com rapidez. — A tua vizinha vai gostar de nos conhecer.

Very nice envolveu a nota grande numa grande enroscada, de tal modo que qualquer cliente que passasse teria ficado sem saber que nota seria aquela. Pagou a conta e meteu o troco no bolso do casaco. Catanada e Pascácio seguiram o carro de Very nice, tocando de vez em quando na buzina para lhe lembrar que o seguiam na traseira. Entraram na casa dele e deixaram-se cair numas cadeiras almofadadas; depois, embora a manhã estivesse amornar, abriram a janela da sala. Very nice apareceu de dentro com meio galão de uísque enxertado em cima dum carrinho de bar ao lado duma bandeja com copos. A partir daí começaram a fumar e a beber. Pascácio, divertido, falou das pobres criaturas a quem a falta de sexo fazia passar momentos insuportáveis. Depois, foi a vez de Catanada pôr na sua voz um toque de meiguice e falar com reverência da alegria que era viver numa independência. Manhã soalheira, quando já a conversa se esvaziara e o uísque tinha batido no fundo da garrafa e, lá fora, os bafos quentes se infiltravam na sala como nuvens voadoras, Very nice foi baixar as cortinas. E foi no retorno que espreitou pela frincha da porta a chegada da vizinha. Catanada e Pascácio tiveram de puxá-lo para o lado para espreitarem também. Depois Catanada falou enternecido das borgas em que se ficava consolado na cama até a noite ir chegando. No apartamento de Pipocas, ninguém precisava de andar vestido de um lado para o outro a fugir dos olhos da vizinhança e a fechar as cortinas para não ser visto.

Por fim, Catanada e Pascácio acercaram-no de Very nice como dois cães de fila prontos a ferrá-lo. Deixavam que ele se servisse da vizinha em primeiro. Very nice aceitou sorridente. Houve palmadinhas nas costas. O meio galão foi substituído por uma garrafa. Catanada bebeu um longo trago, pois sabia que tinha diante de si a mais difícil manobra. Então, enquanto Very nice estava a desenrolar a rolha, exclamou:

— E agora só a trazes aqui para a gente ver.

Very nice deixou a garrafa e olhou para ele, horrorizado.

— Não! — explodiu. — Prometi à vizinha que lhe levava um filme daqueles. Trago a mulher mas é quando chegar a altura.

Catanada viu que tinha falado demais.

— Quando estavas a dançar lá nos anos, ela mandou os amigos entrar e tu lerpaste. Achas que ela fez isso para que tu comprasses filmes tarados aí numa lojita de gays? Não, meu menino! Ela procedeu assim por que tu não alinhaste num grupo de cavalaria. Achas que ela está interessada nos filmes de roço? E, além demais, aceitamos que atires primeiro — continuou. — Podes comprar os filmes que quiseres que, nós para levantar o pau, só precisamos dela a fazer-nos umas meiguices.

Mesmo assim Very nice reclamou.

— Vou dizer-te uma coisa — continuou Catanada. — Se não apresentarmos a vizinha ao Pipocas somos todos prejudicados e és tu quem aguenta com a maior fatia. Que a gente depois te deite o ganilho, é coisa que a tua alma há-de levar para sempre.

Sob tantas conversas, vinda de vários lados, Very nice aceitou. Passou por Catanada e fechou a porta. Depois, instalou-se o sossego e uma atmosfera calma entrou na sala. Catanada descontraiu. Pascácio levou o copo para o seu lado e a conversa restabeleceu-se.

— Temos de apresentar a vizinha ao Pipocas.

Catanada tornou-se mais falador. As suas mãos puseram-se a brincar com a beira do copo como se estivessem a tocar castanholas.

— O Pipocas, o nosso bom amigo Pipocas, anda a piscar o olho à Senhora do Porto. Não julgues que Pipocas é burro. A Senhora do Porto tem quase cem gajas a atacar para ela. Pipocas quer viajar com ela num bonito cruzeiro pelo Douro para a paparicar.
— Os cruzeiros são coisas chatas — observou Pascácio —, fazem dores de barriga.
— Isso é lá com ele e com ela — disse Catanada. — Se fizerem dores de barriga a ambos, que se tratem.

De repente, uma onda reveladora iluminara o rosto dele.

— Mas, se o nosso amigo Pipocas fizer bem a paparica à Senhora do Porto, come também algumas meninas e, portanto, seremos nós que as comeremos a seguir.

Pascácio abanou a cabeça, irrequieto.

— Seria bom que o passeio de barco de Pipocas não lhe causasse enjoos.

A conversa foi interrompida pela entrada na sala de Very nice, que saltou imediatamente para a brecha.

— Já tratei o assunto com a vizinha que vai arranjar umas amigas. Uma boa farra é o melhor programa para o Pipocas — sugeriu num tom divertido.

Catanada e Pascácio ficaram abismados com a ideia.

— Podemos dizer ao Pipocas que para as contas dele as nossas contas estão arrumadas — apontou Pascácio.
— Mas Pipocas na altura é capaz de não ligar ao que a gente diz. Quem lhe der um pito fica logo a saber o amigo que ele é. De qualquer forma pode viajar no cruzeiro, e lá se oriente, que nós cá esperamos.

Tinham aproveitado de Very nice, a chave de resoluções difíceis.

— Se nós levarmos as raparigas e as oferecermos ao Pipocas, talvez haja festa grande.
— Ora aí está — exclamou Catanada —, é isso tudo!

Very nice sorriu modestamente ao sentir que o crédito pelas suas palavras tinha sido valorizado. Pascácio dividiu os últimos goles de uísque dentro dos copos e todos, fatigados, embutiram após o seu esforço. Orgulhava-os terem chegado a um consenso geral.

— Agora estou com fome — disse Pascácio.

Catanada, levantou-se, dirigiu-se à janela e olhou para o sol.

— Já passa do meio-dia — disse. — Pascácio e eu vamos preparar o terreno, enquanto tu, Very nice, vais a casa da vizinha e das amigas buscá-las, e vê se lá apanhas alguma coisa para comer. Talvez no frigorífico as raparigas te dêem uns enlatados. Talvez consigas sacar umas tantas frutas.
— Não, eu vou convosco — disse Very nice, pois suspeitava que uma manobra, tão normal como inevitável por parte das raparigas, estava a começar a formar-se na sua cabeça.
— Não, Very nice — retorquiu Catanada, firmemente. — É uma hora menos um quarto. Dentro de meia hora estamos lá os três. Encontramo-nos então e desenrasca-se qualquer coisa. Talvez na dispensa haja qualquer coisa que entretenha os dentes.

Very nice pôs-se a caminho da casa da vizinha com alguma relutância, mas Catanada e Pascácio entraram no carro e seguiram, felizes, a rua direitos ao apartamento das Antas.


Saturday, October 29, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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3º Episódio
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Com o veneno da posse entranhado dentro de Catanada, logo o mal
triunfou provisoriamente nele



No dia seguinte, Catanada foi conhecer a amante no apartamento. Esta era precisamente aquilo que Pipocas dissera, mas mais alta. Lá estava a sua palmeira-do-brasil, de perna alçada sobre a colcha, a sua almofada cheia de bolinhas, as suas bugigangas diversas espalhadas na gaveta, os seus chinelos vermelhos e o pijama de calções curtos ao lado da cama.

Pipocas tornou-se uma pessoa importante na terra devida a ter casas para rendar e Catanada subiu um patamar por alugar uma prostituta. Não é possível saber se Pipocas contava receber qualquer aluguer ou tirava contra-partidas ou se Catanada contava pagar algum. Se contavam, ambos ficaram associados. Com tudo isto, Pipocas nunca o chateou e Catanada jamais foi chateado.

Os dois companheiros apareciam muitas vezes juntos. Arranjasse Catanada um pacote de investimentos ou juros promissores, que tinha pela certa a presença de Pipocas. E se Pipocas tivesse outra sorte ou engenho no engate, Catanada passava com ele uma paródia de arromba. O bom Catanada teria pago o que fosse se alguma vez tivesse muito, mas nunca teve… pelo menos durante o tempo que demorou para encontrar Pipocas. Catanada era um homem de princípios. Havia alturas em que o chateava pensar na generosidade de Pipocas e na sua própria falta de nota. Um dia arranjou dez contos de uma maneira tão extraordinária que imediatamente tentou esquecer-se do amigo com medo de que a lembrança o fizesse enlouquecer. Em frente do Banco Português do Atlântico um cliente havia-lhe posto um cheque assinado em branco na mão dizendo:

— Anda lá, joga aí nas acções o que palpitares e dou-te percentagem a dobrar. O meu palpite esgotou-se.

Estas coisas acontecem como um milagre — pensou Catanada. Uma pessoa devia aceitá-las como é e não se importar com o resto nem fazer perguntas. Subiu a rua levando a notícia a Pipocas, mas, mais adiante, encontrou alguém e perdeu-se na ladainha. Catanada era um conversador e adorava o convívio. Ergueu os olhos em direcção às horas e a sua paciência esgotou-se para a visita que ia fazer ao amigo. Nova viragem, e fez o retorno. Depois disto, Catanada sentiu-se bem relativamente ao atraso do pagamento do aluguer. Não tido sido o pagador das suas despesas?

Passaram algumas semanas. Catanada começou a preocupar-se agora com a prostituta. À medida que o tempo corria, a preocupação tornava-se maior. Por fim, movido pelo desespero, primeiro, despachou a prostituta do apartamento para fora e, segundo, trabalhou horas a fio a palpitar acções para o cliente do Banco Português do Atlântico e ganhou cinco contos. À noite, pôs a roupa de trazer por casa, toda desportiva, colocou sobre os ombros o coçado casacão de antílope do pai e pôs o carro a descer a rua a fim de dar a Pipocas a notícia da prostituta. Na viagem, porém, comprou um maço de cigarros, e pôs-se a fumar.

«Foi melhor assim», pensou. «O meu amigo, se quiser, que tome conta dela. Do meu dinheiro que me custou os pingos da cabeça a ganhar, não leva nem um chavo. E digo-lhe que a prostituta custava cinco contos por foda.» Isto era parvoíce e Catanada sabia-o bem; no entanto, ficou satisfeito consigo mesmo. Não havia ninguém em Marco de Canavezes que soubesse melhor o preço das prostitutas do que Pipocas.

Catanada guiava, feliz. Decidira-se enquanto avançava em direcção ao apartamento de Pipocas. Os seus pés nos pedais mal tinham deixado de mover-se. Em cima de uma das pernas um caderno de folhas, em cada folha uma cotação da bolsa. O estômago de Catanada nem sequer estava à prova das alturas, visto que, ao contemplar as gaivotas, lembrou-se de que a Senhora do Porto usava algumas vezes gaivotas nas suas comezainas, e essa lembrança deu-lhe apetite, e o apetite aumentou-lhe a ânsia. Catanada prosseguiu na sua viagem. Acabava de chegar à cabana do campo e já estava a pensar como poderia divertidamente passar-se com os telefonemas para os amigos e no tempo em que seria capaz de manter-se divertido.

A escuridão era agora quase cerrada. Já não se via nem a berma da estrada nem o resto que a ladeava. Mas, naquele momento em que a aceleração oscilava entre o depressa e o devagar, nesse momento preciso, Pascácio surgiu, por acaso, a pé, à beira do entroncamento com a pasta da publicidade e com vontade de beber um copo de uísque e de falar um pouco. Pascácio, primeiro, ouviu o ruído do motor, depois viu uma figura obscura e depois reconheceu Catanada.

— Ei, bancário! — chamou entusiasmado. — Que pressa é essa que tu levas?

Catanada estacou e olhou para a berma.

— Julgava que estavas no bairro — disse de malandro. — Ouvi falar numa história com uma mulher da prostituição.
— Estive — retorquiu Pascácio, sarcástico. — Mas não fui bem aviado. A pequena disse que o broche não me fazia nada bem depois do jantar e eu disse a ela que não queria mais nada do que aquilo que estava interessado. E pronto — acabou ofegante —, cá estou mal aviado.

Catanada estava ouvinte. Na verdade, não falou com Pipocas, mas convidou de imediato Pascácio a compartilhar com ele no apartamento que tinha a chave. Catanada e Pascácio entraram alegremente no apartamento. Catanada acendeu a luz e foi buscar duas tigelas para fazer de copos. Trouxe também a garrafa de uísque.

— À tua, meu! — disse Pascácio.
— Chim-chim! — retorquiu Catanada.

E, passados instantes:

— Ao tesão! — disse Pascácio.
— Que nunca se vá! — retorquiu Catanada.

Depois de saborear os primeiros tragos, botaram abaixo o conteúdo da garrafa de uísque, o que é muito, mesmo para uns aficionados. Logo depois do bota abaixo surgiram as conversas com propósitos e despropósitos, contaram recordações suavemente tristes, evocações de antigos e insatisfeitos amores. Um arroto, e reflexões acerca de antigos e infelizes problemas familiares, tristeza geral e confusa. Outro arroto a seguir, canções à desgraça ou à saudade, e todas aquelas lérias que todo o embriagado sabe. Ficam por aqui os arrotos e seus derivados. A partir daí voltam à conversa normal com propósitos e despropósitos, uma vez que foi aí que ambos deram o início.

— Pascácio —, nunca te cansas de andares a dormir em bairro, com a amante, todo feito galifão, sujeito a levares uma farinhola, sem ajuda de ninguém, sempre sozinho?
— Não — respondeu Pascácio.

Catanada pôs na sua voz o doce da simpatia.

— Era o que eu pensava, meu bom amigo, quando era um insignificante rato de aldeia; também eu andava a lestes, pois desconhecia como é bom a gente ter uma vida dupla, e uma amante e um refúgio. Ó, Pascácio, tu é que sabes viver!
— Realmente é outra vida — concordou Pascácio.

Catanada lançou o canto:

— Ouve lá, Pascácio, não gostavas de me alugar uma parte da tua amante? Diminuía para ti a mesada. No teu dia não ia eu; no meu dia não ias tu. Não gostavas que fosse eu e não outro?

— Lá isso gostava — respondeu Pascácio.
— Então, diz lá — perguntou Catanada.
— Olha, pagas só metade da mesada. São trinta contos por mês. E a amante toda fica à tua disposição. Podes dormir com ela e tudo menos aos fins-de-semana. E se ela te autorizar a ires lá a casa tens que pagar mais qualquer coisa.
— Ai, tenho? — disse Catanada. — Isso vamos conversar!

Pascácio puxou de um cigarro e Catanada imitou-o. A sala parecia uma chaminé de fumo. Catanada respirou profundamente. Não tinha entendido como a dívida para com Pipocas se instalara nos seus pensamentos. O facto de ter quase a certeza de que Pascácio nunca lhe aceitaria dinheiro algum não acalmava a sua audácia. Apresentava a prostituta a Pipocas para se servir dela, uma ou mais vezes, e o assunto ficava aviado. Se algum dia Pipocas lhe pedisse contas, Catanada podia responder: «Paguei-te com os favores da prostituta.»

Acabaram de fumar e atiraram com as baronas para o cinzeiro e Catanada recordou-se como havia sido feliz nos seus tempos de menino.

— Nessa altura não tinha eu consumições, Pascácio. Não sabia o que era o pecado. Era bem mais feliz.

— Desde então nunca mais fomos como éramos — concordou tristemente Pascácio.