Saturday, October 29, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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3º Episódio
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Com o veneno da posse entranhado dentro de Catanada, logo o mal
triunfou provisoriamente nele



No dia seguinte, Catanada foi conhecer a amante no apartamento. Esta era precisamente aquilo que Pipocas dissera, mas mais alta. Lá estava a sua palmeira-do-brasil, de perna alçada sobre a colcha, a sua almofada cheia de bolinhas, as suas bugigangas diversas espalhadas na gaveta, os seus chinelos vermelhos e o pijama de calções curtos ao lado da cama.

Pipocas tornou-se uma pessoa importante na terra devida a ter casas para rendar e Catanada subiu um patamar por alugar uma prostituta. Não é possível saber se Pipocas contava receber qualquer aluguer ou tirava contra-partidas ou se Catanada contava pagar algum. Se contavam, ambos ficaram associados. Com tudo isto, Pipocas nunca o chateou e Catanada jamais foi chateado.

Os dois companheiros apareciam muitas vezes juntos. Arranjasse Catanada um pacote de investimentos ou juros promissores, que tinha pela certa a presença de Pipocas. E se Pipocas tivesse outra sorte ou engenho no engate, Catanada passava com ele uma paródia de arromba. O bom Catanada teria pago o que fosse se alguma vez tivesse muito, mas nunca teve… pelo menos durante o tempo que demorou para encontrar Pipocas. Catanada era um homem de princípios. Havia alturas em que o chateava pensar na generosidade de Pipocas e na sua própria falta de nota. Um dia arranjou dez contos de uma maneira tão extraordinária que imediatamente tentou esquecer-se do amigo com medo de que a lembrança o fizesse enlouquecer. Em frente do Banco Português do Atlântico um cliente havia-lhe posto um cheque assinado em branco na mão dizendo:

— Anda lá, joga aí nas acções o que palpitares e dou-te percentagem a dobrar. O meu palpite esgotou-se.

Estas coisas acontecem como um milagre — pensou Catanada. Uma pessoa devia aceitá-las como é e não se importar com o resto nem fazer perguntas. Subiu a rua levando a notícia a Pipocas, mas, mais adiante, encontrou alguém e perdeu-se na ladainha. Catanada era um conversador e adorava o convívio. Ergueu os olhos em direcção às horas e a sua paciência esgotou-se para a visita que ia fazer ao amigo. Nova viragem, e fez o retorno. Depois disto, Catanada sentiu-se bem relativamente ao atraso do pagamento do aluguer. Não tido sido o pagador das suas despesas?

Passaram algumas semanas. Catanada começou a preocupar-se agora com a prostituta. À medida que o tempo corria, a preocupação tornava-se maior. Por fim, movido pelo desespero, primeiro, despachou a prostituta do apartamento para fora e, segundo, trabalhou horas a fio a palpitar acções para o cliente do Banco Português do Atlântico e ganhou cinco contos. À noite, pôs a roupa de trazer por casa, toda desportiva, colocou sobre os ombros o coçado casacão de antílope do pai e pôs o carro a descer a rua a fim de dar a Pipocas a notícia da prostituta. Na viagem, porém, comprou um maço de cigarros, e pôs-se a fumar.

«Foi melhor assim», pensou. «O meu amigo, se quiser, que tome conta dela. Do meu dinheiro que me custou os pingos da cabeça a ganhar, não leva nem um chavo. E digo-lhe que a prostituta custava cinco contos por foda.» Isto era parvoíce e Catanada sabia-o bem; no entanto, ficou satisfeito consigo mesmo. Não havia ninguém em Marco de Canavezes que soubesse melhor o preço das prostitutas do que Pipocas.

Catanada guiava, feliz. Decidira-se enquanto avançava em direcção ao apartamento de Pipocas. Os seus pés nos pedais mal tinham deixado de mover-se. Em cima de uma das pernas um caderno de folhas, em cada folha uma cotação da bolsa. O estômago de Catanada nem sequer estava à prova das alturas, visto que, ao contemplar as gaivotas, lembrou-se de que a Senhora do Porto usava algumas vezes gaivotas nas suas comezainas, e essa lembrança deu-lhe apetite, e o apetite aumentou-lhe a ânsia. Catanada prosseguiu na sua viagem. Acabava de chegar à cabana do campo e já estava a pensar como poderia divertidamente passar-se com os telefonemas para os amigos e no tempo em que seria capaz de manter-se divertido.

A escuridão era agora quase cerrada. Já não se via nem a berma da estrada nem o resto que a ladeava. Mas, naquele momento em que a aceleração oscilava entre o depressa e o devagar, nesse momento preciso, Pascácio surgiu, por acaso, a pé, à beira do entroncamento com a pasta da publicidade e com vontade de beber um copo de uísque e de falar um pouco. Pascácio, primeiro, ouviu o ruído do motor, depois viu uma figura obscura e depois reconheceu Catanada.

— Ei, bancário! — chamou entusiasmado. — Que pressa é essa que tu levas?

Catanada estacou e olhou para a berma.

— Julgava que estavas no bairro — disse de malandro. — Ouvi falar numa história com uma mulher da prostituição.
— Estive — retorquiu Pascácio, sarcástico. — Mas não fui bem aviado. A pequena disse que o broche não me fazia nada bem depois do jantar e eu disse a ela que não queria mais nada do que aquilo que estava interessado. E pronto — acabou ofegante —, cá estou mal aviado.

Catanada estava ouvinte. Na verdade, não falou com Pipocas, mas convidou de imediato Pascácio a compartilhar com ele no apartamento que tinha a chave. Catanada e Pascácio entraram alegremente no apartamento. Catanada acendeu a luz e foi buscar duas tigelas para fazer de copos. Trouxe também a garrafa de uísque.

— À tua, meu! — disse Pascácio.
— Chim-chim! — retorquiu Catanada.

E, passados instantes:

— Ao tesão! — disse Pascácio.
— Que nunca se vá! — retorquiu Catanada.

Depois de saborear os primeiros tragos, botaram abaixo o conteúdo da garrafa de uísque, o que é muito, mesmo para uns aficionados. Logo depois do bota abaixo surgiram as conversas com propósitos e despropósitos, contaram recordações suavemente tristes, evocações de antigos e insatisfeitos amores. Um arroto, e reflexões acerca de antigos e infelizes problemas familiares, tristeza geral e confusa. Outro arroto a seguir, canções à desgraça ou à saudade, e todas aquelas lérias que todo o embriagado sabe. Ficam por aqui os arrotos e seus derivados. A partir daí voltam à conversa normal com propósitos e despropósitos, uma vez que foi aí que ambos deram o início.

— Pascácio —, nunca te cansas de andares a dormir em bairro, com a amante, todo feito galifão, sujeito a levares uma farinhola, sem ajuda de ninguém, sempre sozinho?
— Não — respondeu Pascácio.

Catanada pôs na sua voz o doce da simpatia.

— Era o que eu pensava, meu bom amigo, quando era um insignificante rato de aldeia; também eu andava a lestes, pois desconhecia como é bom a gente ter uma vida dupla, e uma amante e um refúgio. Ó, Pascácio, tu é que sabes viver!
— Realmente é outra vida — concordou Pascácio.

Catanada lançou o canto:

— Ouve lá, Pascácio, não gostavas de me alugar uma parte da tua amante? Diminuía para ti a mesada. No teu dia não ia eu; no meu dia não ias tu. Não gostavas que fosse eu e não outro?

— Lá isso gostava — respondeu Pascácio.
— Então, diz lá — perguntou Catanada.
— Olha, pagas só metade da mesada. São trinta contos por mês. E a amante toda fica à tua disposição. Podes dormir com ela e tudo menos aos fins-de-semana. E se ela te autorizar a ires lá a casa tens que pagar mais qualquer coisa.
— Ai, tenho? — disse Catanada. — Isso vamos conversar!

Pascácio puxou de um cigarro e Catanada imitou-o. A sala parecia uma chaminé de fumo. Catanada respirou profundamente. Não tinha entendido como a dívida para com Pipocas se instalara nos seus pensamentos. O facto de ter quase a certeza de que Pascácio nunca lhe aceitaria dinheiro algum não acalmava a sua audácia. Apresentava a prostituta a Pipocas para se servir dela, uma ou mais vezes, e o assunto ficava aviado. Se algum dia Pipocas lhe pedisse contas, Catanada podia responder: «Paguei-te com os favores da prostituta.»

Acabaram de fumar e atiraram com as baronas para o cinzeiro e Catanada recordou-se como havia sido feliz nos seus tempos de menino.

— Nessa altura não tinha eu consumições, Pascácio. Não sabia o que era o pecado. Era bem mais feliz.

— Desde então nunca mais fomos como éramos — concordou tristemente Pascácio.


Friday, October 14, 2011










CONTOS DE RATAZANA
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2. Episódio

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        Catanada foi atraído pela ambição de alcançar uma
    posição de destaque, 
e renunciou a generosidade de Pipocas


Pipocas meteu Catanada no seu Renault, circulou ao ritmo desenfreado a distância até às Antas, no Porto, e só parou à porta da primeira casa. Ficaram em frente do prédio de tijoleira sem pinturas e olharam com admiração o imóvel, um prédio alto e esguio, com varandas por fora, e janelas com cortinas. No corredor, porém, havia uma grande palmeira enfiada num vaso coberto de areia e os halogéneos sobressaíam por entre as tábuas do tecto envernizadas.

— Esta é a mais pequena das duas — disse Pipocas. — Mas é a minha preferida.

Pipocas tirou o porta-chaves do bolso. Atravessou em passos pesados a gasta mármore e abriu a porta principal. O quarto estava tal qual ele havia deixado quando da última noite lá estivera. As roupas da cama com vestígios de alguém lá ter feito uma boa farra, e almofadas sem fronhas. Na mesa o calendário de Marco de Canavezes para 1980, a bandeira de seda no alto com a equipa do F.C. do Porto a olhar para a taça de campeão do último título ganho, o ramo de flores de papel colorido que figuravam nas jarras vermelhas, os apliques de luz indirecta e cestos cobertos de roupas, a cama, os maples de veludo meio sujos.


Catanada espreitou para dentro.

— Um quarto e peras — disse, ofegante. — E uma cama em redondo. Aqui é que a gente vai bombar, Pipocas.

Pipocas avançou rapidamente. Tinha boas recordações dali. Era o seu refúgio à socapa do patrício. Catanada dirigiu-se antes dele, direito à cozinha.

— Olha, uma cozinha em kitchenette! — exclamou. Fez rodar o fogão. — Não tem gás. Tens de chamar um técnico para pôr isto a funcionar.

Sorriram um para o outro. Catanada reparou que no rosto de Pipocas se instalavam os problemas que a propriedade ocasiona. Aquele rosto nunca mais estaria livre de preocupações. Agora que Pipocas tinha propriedades suas, nunca mais queria saber dos outros. Catanada tivera razão. Pipocas elevara-se num patamar acima dos amigos. O seu corpo tinha-se engrossado para superar à complexidade da vida. Pipocas, porém, deixou escapar um grito de lamentação.

— Catanada — disse amargamente. — Quem me dera que esta casa fosse ao pé da outra para que tu pudesses servir dela.

Enquanto Pipocas foi ao banco para lhe mostrarem o extracto, Catanada percorreu o corredor do apartamento que estava cheio de portas separadas umas das outras. Ali havia também caixas de vinho, maduros e verdes, e enlatados diversos que se encontravam em prateleira na dispensa. Catanada, olhou, por cima da vidraça para a marquise do vizinho e viu duas estudantes em topless a apanhar banhos de sol e, depois dum momento de reflexão, pegou nos binóculos e pôs-se à espreita.

«Elas vão gostar de saber que estão ao lado de dois galifões», pensou maliciosamente.

Pensou igualmente na forma de lhes armar uma ratoeira no caso de elas serem lésbicas e nada quererem com os homens.

«A gente aqui vai ser rei», disse novamente de si para si.

Pipocas voltou do banco inconformado.

— O banco não me quer dar o dinheiro.
— Porquê?
— Só me querer dar quando eu tiver vinte e cinco anos.
— Vinte e cinco anos? — disse Catanada com olhar severo.
— Sim. É o que está escrito no testamento.
— Mas tu podes pedir um adiantamento.
— Eu sei — retorquiu Catanada. — Talvez eu possa pedir um adiantamento ao advogado.

A tarde passou.

— Amanhã — disse Pipocas — voltamos cá e trazemos e fazemos umas prostitutas boas. Agora, tapa aí as vidraças para não se ver lá para fora.
— As vidraças? — exclamou Catanada, assustado. — As vidraças, não.

Catanada contou o seu plano acerca das estudantes do vizinho. Pipocas concordou logo.

— Amigo, estou satisfeito por teres vindo ver o apartamento comigo
. Agora, enquanto vou bater uma soneca, tens tu de ir buscar alguma coisa para se comer.

Catanada, lembrando-se do papel dos moços de recados, achou que isto não era correcto.

«Estou a ficar cheio dele», — disse tristemente de si para si. — «A minha paciência vai acabar. Não tarde muito que eu não passe a ser um ajudante de campo por causa deste semítico.»

No entanto, sempre saiu à procura de comprar qualquer coisa para comerem. Passado um quarteirão, perto da rua principal, deu com uma loja de assar frangos do monte, a girar no ferro. Os frangos tinham aspecto de serem novatos, pois eram pequenos, e as pernas, os pescoços e os peitos ainda estavam descobertos de penas. Talvez fosse por Catanada ter estado a pensar, entretido, nas estudantes do vizinho, que estes franganitos lhes despertaram a fome. Continuou na bicha a olhar para o assador, enquanto os frangos giravam à sua volta.

Catanada disse de si para si: «Coitaditas das franganitas sem penas. Porque não vos deixaram crescer mais quando estáveis no vosso tempo de miudagem. Os donos nem sempre são assim tão generosos para os coitados bichinhos.» E pensou: «Andais a dançar aqui no espeto, minhas pobres avezitas. Mas agora chegou a hora que alguém vos vai comer; e se fordes comigo, ainda é a melhor coisa que vos pode acontecer. Mas podeis ficar descansados que, desde as pernas, pescoço, asas e até os ossos, sereis comidos consoladamente. A vida foi demasiadamente cruel para vós, minhas pequenitas.»

Catanada fungava suavemente. De vez em quando, os frangos paravam no ferro, altura do empregado os pincelar com um molho especial, e voltavam outra vez a girar no ferro para a frente. Por fim, chegou a sua vez e Catanada pediu dois frangos como se quisesse ficar bem aviado. Quinze minutos depois, Catanada emergiu da rua e entrou no apartamento de Pipocas. Os pequenos frangos, assados e em bocados, iam embrulhados numa saca de plástico. Ainda a noite não tinha entrado, puseram a mesa com apetrechos. O arrastar da mesa produziu um ruído rasgado. Pipocas e Catanada, bem comidos e bebidos, sorridentes e felizes, estavam sentados voltados um para o outro, e riram-se constantemente. Tinham fumado um charuto de Havana, mas, agora, o fumo que voava através do espaço da cozinha espalhava-se adiante pelo aposento. Para ficar mais perfeito o convívio, o telefone começou a iluminar no mensageiro. Apenas alguns segundos passaram para cair algumas mensagens. Pipocas ouviu rápido de quem eram os envios.

— Está-se a ver que elas querem — disse Catanada. — Pensa nas rapidinhas que curtimos na Xangô. Isto aqui é que vai ser malhar.
— Pois vai. Durante anos curti nas pensões; agora tenho o apartamento. Não posso dormir aqui todas as noites.

Catanada detestava perder uma.

— É isso mesmo que tenho estado a pensar. Porque não metes aqui uma prostituta? — sugeriu.

Pipocas bateu violentamente com a mão na mesa.

— Ó, pá! — exclamou. — Porque é que eu não pensei nisso à mais tempo?

A ideia tornou-se mais atraente.

— Mas depois quem é que toma conta dela?
— Tomo eu. Dou-te dez contos para as despesas do mês.
— Vinte — insistiu Pipocas. — A prostituta consome mais. A despesa dobra.

Catanada aceitou, refilando. Mas teria aceitado de qualquer forma, só para não se separar do homem que tinha propriedades, e ele aspirava chegar a essa ascensão.

— Ficamos então acordados — finalizou Pipocas. — Alugas tu a prostituta. Eu hei-de ser um bom compincha, Catanada. Não te deixarei ficar mal. Vou mandar fazer uma chave dupla.

Nunca Catanada, exceptuando o ano que viera da tropa, tivera vinte contos. Porém, pensou, que antes de ter de pagar as despesas ainda se passava trinta dias, e quem sabe o que pode acontecer nesse prazo. Gingavam nas cadeiras, sorridentes, junto da mesa. Uns momentos depois, Pipocas saiu por um bocado, mas, no caminho, comprou uma garrafa de uísque e, utilizando a cabine telefónica, atraiu duas matronas prostitutas para seu apartamento. Catanada, que ia a sair da casa de banho, ouviu a algazarra e sorriu todo contente.

Pipocas caiu-lhe nos braços e pôs-lhe tudo à sua disposição. Mais adiante, depois de Catanada ter colaborado, dispondo de uma das prostitutas e de metade do uísque, houve uma bela cena de abandalho. Pipocas deu um peido e Catanada ficou com a camisa cheia de leite. As prostitutas assistiam à cena lançando risos histéricos e dando pontapés naquilo que estava mais a jeito. Por fim, Pipocas levantou-se do chão e deu uma patada no cu de uma das prostitutas, que saiu do apartamento a coxear como uma rã. A outra roubou dois copos de cristal e seguiu atrás da primeira. Durante alguns minutos, Pipocas e Catanada carpiram a traição das mulheres.

— Tu não conheces o calibre destas cabras do ataque — disse Pipocas prudentemente.
— Sei, mais ou menos — confirmou Catanada.
— Não sabes nada
— Sei, sei.
Aldra.

Uma paragem, embora não muito longa. Depois disto, Pipocas e Catanada sentiram-se mais relaxantes, mas nenhum se importou quem dera mais coça nelas, visto as excitações os terem estoirados. O silêncio sossegou-os, a respiração foi abrandando, à medida que os corpos arrefeceram. O sinal de televisão extinguiu-se na sua emissão. O apartamento ficou silencioso, envolta em paz.

Saturday, October 1, 2011





Prefácio
    …



Esta é a história de Pipocas, dos seus amigos e da sua herança. Esta história conta como os três se tornaram inseparáveis, de tal modo que, na terra de Marco de Canaveses, quando se comenta da herança de Pipocas, não se tem em ideia uma avaliação tão aproximada do valor real que ela engrossa. Esta é a história de como esse grupo de rapazes se constituiu, de como cresceu e se transformou numa sábia e inteligente organização.

Esta história trata das façanhas dos amigos de Pipocas, do bem que praticaram, das suas borgas e dos seus sacrifícios.

Em Marco de Canaveses, essa pequena povoação do distrito do Porto, sabem bem estas coisas, passam-nas de umas para as outras e, normalmente, acrescentam-lhe uns pós. É bom que este ciclo seja anotado no papel para que, um dia mais tarde, os estudiosos, ao ouvir contar as lendas, não possam dizer, tal como fazem do poeta Bocage, do Gungunhana, e de Zé do Telhado: «Não houve nenhum Pipocas, nem nenhum grupo de amigos de Pipocas, nem nenhuma herança, nem nenhumas casas.

Pipocas é um ídolo da População e os seus amigos são símbolos primitivos da fortuna, do azar e da sorte. Esta história destina-se a evitar agora e sempre, os sorrisos trocistas das bocas de amargos eruditos.



CONTOS DE RATAZANA
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1.Episódio
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                                           A TRUPE DE PIPOCAS

                          Ao chegar a casa vindo das vendas, Pipocas viu-se
                               a braços com a morte do pai que lhe deixou
                           uma herança; e logo pensou proteger os amigos


Quando o Pipocas, depois de se tornar adulto, regressou à terra, soube que tinha herdado uma fortuna. O patrício, isto é, o seu pai, tinha falecido e deixara-lhe uma grossa maquia e propriedades, em Marco de Canaveses e no Porto. Ao ter conhecimento disso, Pipocas sentiu-se um tanto vergado sob o peso da sua responsabilidade de proprietário. Antes mesmo de ir ver a sua conta bancária levou uma prostituta para o apartamento e deu-lhe três fornicadas de seguida sem tirar fora… O peso da responsabilidade deixou-o e o pior de si próprio veio à tona. Berrou, deu alguns apalpões num bar de alternos da Rua Freire de Andrade e teve duas faíscas nas vitoriosas conquistas. Ninguém se preocupou muito com isso. O seu gordo corpo e pesado dentro do seu potente carro acabaram por levá-lo ao porto do rio, onde, àquela hora nocturna, os seguranças da noite, de fatos pretos, estacionavam à porta duma casa de diversão a fim de manterem a ordem. Uma antipatia de momento, dominou o bom senso de Pipocas. Fez-se aos seguranças: insultou-os:

— Corja de rufiões; escória do cais da ribeira, azeiteiros, filhos de azeiteiros, — E gritou: — Fuck you, os dois!

Pôs a mão de fora e fez um gesto obsceno de dedo levantado. Os seguranças limitaram-se a arregaçar os punhos num sorriso, trocaram o passeio e disseram:

— Olá, Pipocas! Quando é que nos pagas um copo? Vem ter connosco agora. Temos sardas novas.

Pipocas sentiu-se na merda. Berrou:

— Ponde as línguas numa amêijoa! Os seguranças retorquiram:
— Adeus, Pipocas. Vai nanar.

Pipocas ficou na lua. Voltou à rua Freire de Andrade, e, à medida que a subia, ia lançando blasfémias aos transeuntes. Na segunda rotunda, um porteiro chamou-o. A grande simpatia que Pipocas sentia pelos homens das portas fê-lo parar de repente. Se não tivesse parado depois de o porteiro o chamar, não teria perdido umas seis horas. Mas, assim, passou, um tempo sentado na mesa dum cabaré do Porto, ora a fazer chupões marcantes nas camareiras ora a pensar na vida que levava nas vendas. Muito gozo lhe dava o tempo que passava naquelas casas do prazer. De vez em quando, lá punham uma striper a entreter a noite, mas a maioria das vezes o barulho mantinha-se estagnado e Pipocas ficava sisudo. A princípio, as camareiras ainda o chateavam um pouco, mas como se foram habituando ao gosto da sua língua, e ele se foi acostumando às suas carícias, passaram a viver em comunhão. Pipocas arranjou então um joguinho sarcástico. Dava um chupão numa camareira, pagava-lhe uma bebida, fazia-a desandar e chamava a «next». Em pouco tempo tinha a mesa decorada com copos escarrapachados. Depois, pegava neles e punha-os debaixo do sofá. O empregado ficou escandalizado, mas não se queixou, visto Pipocas ter a despesa já incluída na sua conta. Uma hora em que havia muito público na sala, a striper entrou na mesa de Pipocas e bebeu duas garrafas de Moêt et Chandon. Minutos depois saiu para ir dançar para a pista e Pipocas foi com ela. Era alegre a dança. Deixaram-se ficar aos pulos na pista do cabaré, onde dançaram “Ó Malhão, Malhão”, até o disco-jockey trocar de música e os por dali a andar. Quando, cerca das seis horas da manhã, o sono intermitente do cansaço o abanou, Pipocas decidiu pagar a despesa e enfiar-se no apartamento durante o dia para escapar ao calor. Deitou-se ao comprido e espreitando por dentro dos lençóis como uma raposa ciente de estar no melhor sítio. Ao meio da tarde, recuperadas as forças que de si despendera, saiu do apartamento e foi tratar da vida. E fê-lo sem problemas. Foi sentar-se num banco de um snack-bar.

— Tem aí carne de vazio para fazer um prego no pão para um gordo? — perguntou ao cozinheiro.

E, enquanto o refinado cozinheiro cortava o bife, Pipocas comeu dois ovos cozidos, dois bolinhos de bacalhau, uma vasilha de batatas fritas e embutiu dois príncipes.

— Um é pouco. Faça já outro — disse.
— Não perde tempo. Eu faço-os quantos você quiser.

Pipocas sentiu-se mais tranquilo em relação ao apetite que trouxera. Se o apetite o devorava daquele modo, nesse caso estava no local certo. Pegou no carro, deu voltas à cidade e ultrapassou uma mão de sinais vermelhos e entrou numa loja de conveniências para comprar uma garrafa de uísque e salgadinhos, e retirou-se para a terra a fim de tratar de negócios. O fim da tarde estava azul vivo e quente. O sol, qual brando, estava fixo dos espaços celestes que, marcava os limites de Marco de Canaveses. Pipocas levantou os olhos e dirigiu o carro para o refúgio da cabana do campo. Adiante topou um indivíduo de andar apressado e logo reconheceu o passo apressado do seu amigo Catanada. Pipocas era um amigo do seu amigo, mas lembrou-se de que comprara uma garrafa de uísque e umas sacas de salgados e ficara sem dinheiro, menos os dois cheques dos clientes.

«Vou fingir que o vou atropelar», pensou e decidiu. «Vai ficar como se estivesse a afogar cheio de ganas e de outras coisas mais.»

Então, de repente, Pipocas reparou que Catanada apertava maciamente a mão contra o pescoço.

— Olá, Catanada, Catanadazinha! — gritou.

Catanada atrasou mais o passo. Pipocas parou numa bolina desenfreada.

— Catanada, ó Catanada, amigo! Nunca mais perdes o vício de andar apressado?

Catanada olhou com admiração a surpresa e aguardou. Pipocas aproximou-se nas calmas, embora se notasse na sua voz uma entoação entusiasmada.

— Andei a pensar em ti, Catanada, ó Catanadazinho, amigo mais querido entre todos os amigos bons que eu tenho. Eu procurei-te porque tenho aqui dois pequenos cheques que os clientes me pagaram, e um saco de aperitivos e uma garrafa de uísque do outro mundo. Serve-te aqui, do meu lanche, ó Catanada querido.

Catanada encolheu os ombros.

— Sem problemas — murmurou, seco.

Entraram juntos na cabana. Catanada estava surpreendido. Por fim, parou e voltou-se para o amigo.

— Pipocas — perguntou numa voz quente —, como é que adivinhaste que eu tinha um apetite devorador debaixo da garganta?
— Apetite? — exclamou Pipocas. — Tu tens apetite? É capaz de ser bom para alguma velha histérica — prosseguiu timidamente. — Talvez estejas à espera que caia alguma do ar. Queres lanchar ou não? Eu sei sempre ao certo o que os amigos consomem. Eu não estou com muita sede. Fico muito feliz em te dar do meu uísque que aqui trago, dos salgadinhos, mas, com respeito aos meus cheques, conto contigo mesmo.

Catanada respondeu-lhe com firmeza:

— Pipocas, não me importa de cambiar os cheques, se não tiver para os dois, tenho para um. Põe aqui o uísque, Pipocas. Põe de maneira que eu o veja antes que tu o bebas todo.

Pipocas, então, trocou de conversa:

— Vou primeiro passar os salgadinhos para as tigelas e tu trazes os copos daquele móvel. Puxa para aqui as cadeiras. Vamos ficar onde a gente veja bem a porta.

Armaram uma mesa e comeram os salgados. O uísque descia rapidamente na garrafa. Depois de terem comido, sentaram-se frente um ao outro, bebendo pequenos goles, suavemente, como moscas moribundas, o líquido da garrafa. O calor desceu sobre eles e pôs-lhes as t-shirts escuras de suor. À sua volta a ventoinha refrescava levemente entre os móveis. Instantes depois a solidão baixou sobre Pipocas e Catanada. Pipocas pensou nos amigos que amava.

— Onde anda o Pascácio? — perguntou, acendendo um cigarro e deitando fumo para o ar. — No bairro, com a prostituta — respondeu a si próprio, ao mesmo tempo que mandava uma bola de fumo contra a parede e deixava estender as pernas, desalentado. — Com a prostituta do vício. Com a prostituta num bairro municipal. Dentro duma casa passam pessoas que não o vêem e não sabem que ele está ali.

Voltou de novo as pernas para cima.

— Onde anda o esponja do Very nice?— Na pub — respondeu Catanada. — O Very nice palmou uns patacos e foi embebedar-se no meio dos amigos; os patacos aqueceram-lhe, Very nice esticou e, tac!, está de cama. Agora está no piano a curá-la por duas semanas.

Pipocas esmagou a ponta do cigarro no cinzeiro e mudou de conversa, pois entendeu que havia assunto a mais. A solidão, todavia, ainda pesava sobre ele e exigia uma saída.

— Aqui estamos nós… — começou por dizer.
— … os nossos corações solitários — acrescentou Catanada, com prosa.
— Não, isto não é nenhum recital poético — disse Pipocas. — Aqui estamos nós, sem um mimo. Damos o cabedal ao manifesto e agora nem uma carícia para nos consolar.
— Nunca falaste tão acertado — acrescentou Catanada, solidário.

Sonhador, Pipocas encheu o copo até Catanada lhe tocar no cotovelo e lhe apontar a medida.

— Isto faz-me recordar — disse Pipocas — o caso de um azeiteiro que era dono de duas prostitutas de rua… — Ficou a olhar. — Catanada! — exclamou. — Ó Catanadazinho amigo! Já me esquecia. Recebi uma herança em dinheiro. E umas casas.
— De azeiteiros? — perguntou Catanada, esfrangalhado. — És um mentiroso e um regador — acrescentou.
— Não, estou a falar verdade. O meu patrício morreu. Agora, sou o herdeiro. O único.
— O único — retomou Catanada, realista. — Onde estão as casas?
— Aqui em Marco de Canavezes e no Porto.
— E essa herança em dinheiro chega para alguma coisa?

Pipocas levantou-se rapidamente, saturado pela comoção.

— Eh, pá! Tinha-me esquecido que tenho que ir ao banco.

Catanada continuou sentado em pause e imerso. O seu rosto tornou-se abatido. Atirou a ponta dum amendoim para o chão e observou as formigas aproximarem-se freneticamente por entre elas e morder. Durante uns minutos olhou minuciosamente para o rosto de Pipocas; depois, suspirou ruidosamente e tornou a suspirar.

— Agora acabou — disse melancolicamente. — Os belos tempos já lá vão. Os teus amigos vão ter pena, mas as penas não servirão de nada.

Pipocas pôs a garrafa no chão; Catanada agarrou nela e pô-la entre mãos.

— Mas agora acabou o quê? Que pretendes tu dizer com isso?
— Não é a primeira vez — continuou Catanada. — Quando uma pessoa é remediada, logo pensa: «Se eu fosse rico ajudava os meus amigos.» Mas venha lá a riqueza que lá se vai a vontade. É o que se passa contigo, meu amigo dos outros tempos. Agora estás em alta. Vais esquecer-te dos amigos que contigo partilharam o bom e o mau, até a solidão.

As palavras de Catanada tornaram-se tristes para Pipocas.

— Eu não sou dessa raça! — exclamou. — Eu nunca te esquecerei, ó meu bom amigo.
— Isso dizes tu agora — disse Catanada com indiferença. — Mas, quando tiveres o dinheiro à mão de semear, vais ver no foguete em que te tornas. Catanada continuará a ser um simples empregado do banco, ao passo que tu comerás com carrinhos de chá.

Pipocas ergue-se, trémulo, e encostou-se direito a uma cadeira.

— Catanada, juro-te por quanto é mais sagrado; o que tenho é para repartir. Enquanto tiver um tecto e nota no bolso para se gastar, o que é meu é teu. Dá um gole.

— Tenho de ver para crer — volveu Catanada, numa voz sem ânimo. — Se isso se passasse como dizes, o mundo ficava surpreendido. Havia de aparecer por aí milhares de escritores a escrever esta história. E, além disso, o uísque foi-se.


Saturday, September 17, 2011







CONTOS DE RATAZANA

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Nuno – Vendedor Ambulante


Nessa época já vivia, na sua agonia do mal que o apoquentara, o vendedor ambulante Nuno — e já por toda a rua se louvava o espírito de sacrifício com que enfrentava o seu mal. Nuno, na verdade, completara nos hospitais uma série de exames ao corpo. Pela incerteza e complexidade da doença que ainda não fora descoberta pelos médicos, ele arrancava dentro de si as pragas mais profundas que lhe ia na alma, e tornava-se um triste e sisudo como um desses velhos resmungões em que o chão anda a querer fugir-lhe dos pés. O seu tormento, durante dez anos de angústia, fora tão duro e tão forte que já não temia o Diabo; e agora, só com o diagnóstico positivo do médico, dominava as suspeições, por mais pavorosas ou por mais satisfatórias, como se fossem apenas sonhos inacabados. Atravessava ele uma rua, quando um rapaz de rosto traquina, lhe sorria e murmurava:

— Bom dia, senhor Nuno!

Ora, um bom dia, é sempre um bom dia, desde que estejamos vivos e sãos. Nesse dia, seguia Nuno para uma consulta no centro de saúde, e olhando o azul e o sol da manhã, passou por algumas casas de hotelaria em baixa, e pensou no seu amigo Fernando, antigo colega como ele no negócio de vendas, em Vale Formoso, que se retirara daquele negócio para se dedicar à terceira idade, e habitava num andar de tijoleira creme e castanho, em frente do jardim de Arca d´Água, passeando e orientando uns part-times, porque a sua vontade era não ficar parado. E como mais de três semanas tinham passado desde que encontrara o colega Fernando, largou a rua, passou o portão de ferro que estava escaqueirado, entrou no posto de saúde de Arca d´Água, e começou a subir, lentamente, as escadas em ziguezague. Depois dos primeiros passos, era amarga a ponta de dor que lhe massacrava os pés doridos. Àquela hora, numa altura onde se esperavam os utentes, ouvia-se o chiar e o bater de portas. Sentada em frente da secretária, rodeada de papelada, atendia o telefone, falando constantemente, uma funcionária gorda, que de caneta na mão, ia marcando as consultas, e devorando uma maçã. O posto de saúde, recentemente restaurado de paredes pintadas em azul do céu e branco, conservava ainda algumas lacunas no funcionamento. A sala de espera, limpa e fresca, não caberiam mais de vinte pessoas que permanentes lá iam às suas consultas. Nuno tirou uma senha, verificou os exames que trouxera dentro dum envelope grande e sentou-se à espera. Em breve pensou na doença, e lamentou a sua sorte desdita. Por fim perdeu-se na contagem das chamadas que a funcionária ia atendendo, e acabou por deitar as costas para trás da cadeira e através daquela paz, daquela frescura, embalou… E asperamente, para não o deixar alongar àquela hora de sesta, a enfermeira abriu a porta de contraplacado branco, que não tinha entrada à passagem de utentes.

— Senhor Nuno!

Do fundo da sala branda, repleta de utentes, que mais parecia grupo de coro, veio um ronco murmúrio:

— Alguém me chama? Aqui neste fundo, neste fundo não ouço nada, menina!

Nuno surgiu em grande estilo; buscou o envelope preso entre as pernas, e com algum cuidado avançou em frente.

— Há quanto tempo estou neste sonambulismo, menina?

Bem-haja, desde á três horas! Só três horas atrás, depois de chegar ali em primeiro e não viu ninguém, se viera esticar naquele canto para meditar… Mas havia semanas que nele se instalara um cansaço, que nem podia dar uma volta ao quarteirão quando voltava do médico.

— E o senhor Nuno trouxe todos os exames que eu possa ver?

O médico de bata branca pegou nos exames e nas radiografias dentro do envelope; olhou para o paciente esticado na cadeira, absorvido em pensamentos, e tão abstracto que o seu rosto, outrora cheio e moreno, era como um velho peregrino muito destroçado, perdido entre as encruzilhadas do caminho. Com elevada estima e amizade o pôs à vontade:

— Ora, vamos lá ver o que você tem feito pela sua saúde!

Compenetrado, amarrotando no peito a gravata lilás em que nas mãos prendia, como se fosse ponta dum lençol, o triste Nuno exclamou:

— Senhor doutor, não sei se é maluqueira, mas durante esta noite, em boa verdade lhe digo, me apeteceu apanhar uma boa borracheira, uma borracheira de cair para o lado!... Mas será maluqueira?

O médico, com a sua imensa paciência, logo o informou. Maluqueira? Sim, claro! Aquele que, por doença, oferece ao seu corpo uma felicidade desequilibrada, desacredita o doutor. Não aconselhava ele aos seus pacientes que bebessem as boas pingas que há no mundo? O corpo nem sempre é servo!

— É uma boa borracheira que lhe apetece? — exclamou sorridente o médico, colocando o aparelho de medição de tensões, no braço transparente do paciente. — Pois acalme-se, senhor Nuno, que bem há-de chegar o dia em que pode fazê-lo!

E logo a seguir, com os olhos a controlar a alta e a baixa, agarrou o aparelho das pulsações, que pousava sobre o carrinho de assistência. Arregaçando as mangas da bata, e pondo um lençol fresco sobre a marquesa, mandou deitar o paciente em tronco nu e, enquanto lhe fazia um exame cardiovascular, correu para uma secção onde se encontrava o telescópio, a fim de visionar as radiografias. E aí, anotando concentradamente os dados na ficha clínica do paciente, desandou até à sala, a ver se estava tudo a ir em ordem. Depois, com os dados todos inseridos na ficha, o doutor passou a sala, entrou no gabinete, gritou para fora contente:

— Senhor Nuno, a tensão alta já não a tem! O colesterol já vai abaixo um pouquinho! O ritmo cardíaco já subiu, meu caro!

Pesado, amuado, Nuno deu um suspiro, recaiu na cadeira de forma brusca. Que mal apanhara, que mal apanhara! O doutor, no seu saber, descobrisse aquele problema que tinha na sua saúde! Só de pensar nisso, até sentia a alma de almeidinha mais forte para a caminhada!.. E o doutor com as mãos cruzadas, mandou-o apertar os punhos da camisa, vestir o casaco, e voltado para ele, murmurou:

— Meu caro, você não pode nunca desanimar… Eu vou estudar estes exames mais profundamente. Mas passarei por cá na semana que vem, e ficarei à espera que você faça esses exames que eu marquei, aí nessas receitas. Deus vos acompanhe entretanto, e vos ampare com a sua fé divina!

Mas Nuno fechara os olhos, nem se pronunciou, tendo guardado as receitas no bolso do casaco. Cumprimentou o médico, tomou o seu rumo, desceu as escadas vagarosamente, de sobrolho cabisbaixo e um pouco abatido… Alargando o passo, pensava quanto era triste a sua situação que não permitia que usufruísse duma vida estável e coesa. Retomou a rua, andou para a rua Vale Formoso. E extraordinário foi, desde esse dia, o dinamismo do seu bem. Através da cidade do Porto, sem parar, andou por muito lado, falando com amigos e não amigos que encontrava na rua. A sua grande força ia para além dos que padecem, até aqueles que vendem saúde de ferro. Durante as mudanças das estações, vezes sem conta dava aos pedintes a sua moeda, as suas palavras amigas; os donos dos restaurantes ricos, as empregadas novas induziam, para aumentar o espírito do seu querer através das pessoas; e sem pejo, na próxima esquina, perante qualquer desgraçado, ele se alargava em falas sorrindo. Quando um dia, em Águas Santas, a cigana saiu ao seu encontro, com sinas prometedoras, às melhoras de saúde, ele correu para uma tabacaria, onde jogou numa rifa e comprou uma cautela, para que se a sorte sorrisse, oferecesse àqueles que o vinham a apoiar uma festa de arromba! Enfim, uma tarde, em véspera de S. João, estando a circular na rua das Fontainhas, avistou de repente, no fundo da rua, uma mulher que assava sardinhas sobre um grelhador que ardia e faiscava. Pensativo, murmurou:

— Eis o que me faz falta; uma sardinhada e um bom verdinho, que se não me fizer mal, bem em mim me cairá!

Deu logo ordem a uma outra mulher que ali servia, que pusesse numa mesa o pedido, que era um desejo muito antigo e muito desejado. Comer, sentir o verdinho, eram, para ele, os dois prazeres completos; nada o satisfazia mais do que chegar jantado a casa, regado, consolado, já era um bom pretexto para se afundar em sonhos… No dia seguinte, sábado, no café, ao levantar a chávena, orou. Sentindo então que ia desmaiar ali, pediu que o ajudassem até à porta de casa, o deixassem lá que ele se desenrascava. E, respirando fraco, só se queixava do seu sofrer.

— O doutor, que tanto estudou, porque não me põe a mim no patamar da saúde?

Não há nada como realmente. De madrugada fugiu da cama, por causa do pesadelo, ao ver o coveiro à entrada, da porta da rua. Veio para a janela, e olhou o céu que clareava, ouviu os pássaros que, na frescura e no silêncio, começavam a cantar sobre o beiral da clarabóia e, sorrindo, lembrou uma aurora assim de frescura e silêncio, em que, passeando com um amigo perto da Residencial Vale Formoso, ambos se detiveram ante uma antiga camareira cheia de caruncho, que, amavelmente, lhe recomendara que olhasse sempre pela saúde! «Meu irmão, porta-te bem, senão queres ir para os anjinhos!» Depois, beijando amigavelmente a face de Nuno que a fitava, a antiga camareira foi-se. Logo que ele fechou os olhos no seu leito, um grande sonho penetrou limpidamente no quarto e levou a alma de Nuno. Durante um instante, na fina flor da madrugada, deslizou por sobre a planície fronteira tão suavemente que nem tocava as pontas húmidas das nuvens altas. Depois, abrindo as alas, radiantes e brandas, transpôs, num voo directo, o espaço, as estrelas, todo o céu que os homens conhecem.

Thursday, August 11, 2011



CONTOS DE RATAZANA
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A RARA PINTURA
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Nesse tempo Glória Isabel ainda se não demarcara de Vilar de Andorinha e das tranquilas, vistosas casas do lugar de Lijó — mas a nova dos seus hobbies chegara já até Avintes, vila volumosa, de muros altos, entre campos e arvoredos, no concelho de Vila Nova de Gaia.

Uma manhã uma mulher de olhos cadentes e mal-amados passou no fresco lugar, e fez-se ouvir que uma nova artista, uma pintora simpática, percorria as ruas e aldeias de Vilar de Andorinha, declarando a chegada da Boa Sorte, pintando todas as coisas boas da vida.

E enquanto descarregava as telas do carro, próximo à beira do Rio da Fonte, contou ainda que essa pintora, no largo de Oliveira do Douro, pintara o rosto dum lavrador, só com escorregar sobre ele a lata de tinta das suas mãos; e que noutro dia, atravessando numa embarcação pequena para a zona da Afurada, onde começava a pesca da enguia, escorraçara o cão que ferrara a filha do pescador, homem amável e instruído que comprava o seu quadro do cavalo imponente de dentes cerrados.

E como se isso não bastasse, maravilhados, serralheiros, doutores, mulheres de ancinho, e os trolhas morenos com a trincha na caiadela, lhe perguntassem se essa era, em boa verdade, a Picasso de Vilar de Andorinha, e se nas telas dela havia o rosto de Mona Lisa, e se outros como os girassóis de Van Gogh, os escuros de Velásquez e de Degas — a mulher, sem mesmo pintar daquela tinta tão pura de que pintara Renoir, apanhou as telas, sacudiu o pó, e meteu-as no carro, logo sumindo entre a espessura dos arbustos ao alto.

Mas uma atracção, deliciosa como o fadista nos tempos em que canta o fado, avivou as gentes simples: logo, por toda a parte que verdeja até ao bairro de Vila d´Este.

Ora então vivia nas Devesas um velho, por apelido Estrela, sem família, que dormitava nas matas do Monte da Virgem, homem de fartos caminhos e de fartas barbas — e com a alma tão vazia de nada como os seus bolsos cheios de cotão.

Mas uma aragem amena e aconchegada, essa aragem de satisfação que ao cuidado da Sorte sopra dos gastos paralelepípedos de Coimbrões, mandara um desconhecido atirar as notas mais gordas dos seus bolsos, e só se detiveram nos degraus onde as pernas do velho se enroscavam ao chão. E Estrela, agachado à soleira da porta da igreja, com a mão estendida à procura dos fiéis, palpava o saco e olhava as notas, cantava a alegria, soltava elogios a favor da Sorte bendita.

O velho pedinte já ouvira falar dessa nova artista de pintura de Vilar de Andorinha que aproximava as pessoas, sensibilizava os cépticos, emendava todas as más sortes — Estrela, homem analfabeto, que viajara por toda a Gaia, logo pensou que Glória seria mais uma dessas habilidosas, tão habituais no Porto, como Lebrac, ou Conde do Pincel, ou Albertino «o futebolista». Esses, mesmos nas noites confusas, murmuram para as estrelas, para eles sempre brancas e fáceis nos seus enquadramentos; com um pincel atraem de sobre as nuvens os trovões gerados nas tempestades de Portugal.

Glória de Vilar de Andorinha, ainda nova, com artes mais vistosas decerto, se ele a acompanhasse e a seguisse, recolheria mais sacas de notas, cresceria os seus proveitos. Então Estrela começou a seguir os seus passos por toda a vila de Gaia a pintora nova, sem que ela se apercebesse, e apertou os cordões das botas já rotas das longas passadas — largou pela estrada das praias que, rodeando a costa, se estende até Lavadores.

Uma manhã avistou sobre o poente, branco como uma mármore muito baça, as areias finas da praia da Madalena. Depois, na secura duma tarde ventosa, a praia de Salgueiros resplandeceu diante dos seus olhos, transparente, praticamente deserta, mais azul que o céu, de rochas de tamanho grandes e pequenas, e de poucas casas por entre os pinhais, sob o uivo dos cães.

Um homem que tirara preguiçosamente a sua cana de pesca duma motorizada, atada num poste, escutou sorrindo, o velho pedinte.

— A pintora de Vilar de Andorinha? Oh! Desde a semana da Páscoa, a pintora passara, com as suas pinturas, para os lados para onde o rio Douro encosta as águas.

O pedinte, andou, seguiu pelas margens do mar, até adianta dum alto, onde se via num ermo, o imóvel duma antiga fábrica de bacalhau, que descansa em completo abandono. Pela beira da água, repousava um velho carro, que era dum corpulento homem, de aparência dum errante, todo vestido de roupas grossas, deitava lentamente pedras para a água, com um livro agarrado à mão. O pedinte humildemente saudou-o, porque o pobre gosta daqueles homens de corpo tão atlético e alto, e sisudo como as suas vestes uma vez por ano lavadas em enxurradas abundantes. O corpulento homem murmurou que a pintora atravessara o hotel Casa Branca, depois se adiantara para baixo…— Mas onde, baixo? — Levando um dedo ao ar, o corpulento homem mostrou as praias de baixo-Lavadores, o areal de Cabedelo.

Na taberna de cor branca, que ladeia o caminho, paravam lá uns indivíduos à procura dumas especialidades de peixes e dumas boas canecas de vinho, contaram ao Estrela que em General Torres, pela lua cheia, uma pintora fabulosa, maior que Miguel Ângelo ou Malhoa, vendera três cus virgens a um picheleiro, e que, com a sua pintura, um sem-abrigo apanhado a palmar pelo agente Cáta-Nada lhe oferecera a sua pintura e recolhera ao seu porto de abrigo.

Mas Glória, nessa tarde, pintava ao lado de um horto, apreciada por uma plateia que mirava e cochichava em sintonia, e em baixo tom, e arrumara as suas trouxas, e no carro rumara em direcção Norte.

Um dia, já com a exposição aberta ao público, pintando já uma jovem manequim, olharam um fuinha sombrio, que se detivera a olhar para o Cristo, sentado na sua cadeira de rodas. Com devota paixão, acabou por adormecer com a cabeça encostada ao Cristo. E grandes foram os seus roncos, sentado na sua cadeira, uivando: «Rru!Rru!», e sem intervalos. O público advertiu para o calar. Um viajante encostou-se à cadeira e deu-lhe um encontrão, ao mesmo tempo, que a peruca do fuinha se soltou, encolheu, e ficou colada ao Cristo — e a sua cólera ecoou como um tambor furioso:

— Oh, ladrões danados! Oh, bandidos! A minha peruca? Onde esconderam a minha peruca? Se eu tivesse a força do Sansão, reduzia-vos a pó e à marreta…

Por essa altura, um professor biológico, de nacionalidade espanhola, Jonas Galego, professava aulas numa escola de Mafamude, próxima de uma estação de televisão. Galego, homem macio, veterano na matéria, aparecera durante o período de férias a dar aulas a algumas alunas, possuía multiplicas funções, e gozava, como favor das suas borlas, a amizade de Flora, filha única, dum sapateiro.

Mas um problema roía o seu plano muito cauteloso, como um mágico rói um cordel muito firme. A filha do sapateiro, era para ele mais desejada que comer ou beber, alinhava com um bem prendado e querido, falara mesmo ao sentir o amasso que ele se aproveitara nas descidas e subidas da sala.

Branca e tímida como a lua num parque ao ar livre, sem um dizer, sorrindo docemente ao seu professor, alinhava, sentada na cadeira da escola, sob uma transparência, alongando curiosamente os negros olhos risonhos pelo azul do quadro de Goya, por onde ela reparara no Museu Teixeira Lopes, numa galeria exposta.

Perto de si, por vezes, um tocador de flauta nos horários nocturnos, entre as cadeiras do meio, riscava vagarosamente numa folha branca, e desenhara uma camareira de bar, olhando de forma melancólica uma taça de bebida, ao lado dum cromo abstracto, num bar. A filha do sapateiro seguia um momento a camareira meditabundo até o tocador de flauta parar de pintar — depois, mais seriamente, com um suspiro, e mais calma, recomeçava a olhar para o Goya.

Então Galego, ouvindo contar, a vendedores de Santo Ovídio, desta pintora excelente, tão grandiosa sobre os acasos, que virava as sortes tenebrosas da alma, pediu a dois alunos para que a procurassem por Vilar de Andorinha, e outras freguesias.

Os alunos enfiaram pela estrada e correram todos os caminhos até à baixa Vilar de Andorinha — e, da pintora, só encontraram o rasto brilhante nos corações. À entrada da ponte ferroviária do Arco do Prado, dois vendedores de farináceos que vinham do Candal com um carregamento de aves, e a quem nunca esqueceram a pintora Glória, pagaram uma bagatela por duas telas de galos de Barcelos para os seus viveiros de pitos, e viram as suas galinhas porem mais ovos que nunca. E da beira do cemitério, as velhas sacudiam como balões as flores, e arremessavam sobre os mortos as Boas Sortes, evocando o bem-estar de Abraião, o Mata-Porcos, da Estação.

Assim, devagar, com a cabeça à roda, como numa partida de ténis, demandaram até ao largo da Lavandeira: não encontraram Glória: e retorceram ao direito da estrada, batendo com os pedantes no asfalto quente.

Uma noite, perto de Canidelo, caminhando numa secundária, avistaram sobre um monte um verde-claro dum pinhal de eucaliptos, os restos duma estrutura duma garagem, onde albergava um grupo de insurrectos, malcheirosos, e drogados. Um rapaz, de compridos cabelos castanhos, vestido com um casaco sem mangas, fazendo um charro de folhas de loureiro e papel cartão, esfregava calmamente as mãos, sobre um resineiro. Em baixo, agitando uma bandeira de cruzes, alguns bradaram à Boa Sorte. Conhecia ele uma nova pintora que surgira em Vilar de Andorinha, e tão ocasional em casos que suscitava os infelizes e pintava o vulgar em invulgar? Calmamente, abrindo os braços, o calmo rapaz exclamou por sobre o verde do campo:

— Oh, vocês! Ainda acreditam que em Vilar de Andorinha ou Alentejo apareçam artistas invertendo sortes? Como podem acreditar em semelhantes baboseiras?... Artistas e Artes são vendedores ambulantes, que pintam a manta à sua cor, para arrebatar os patacos dos mais simples… Acreditem, não há artistas, não há sortes… Só o Invisível conhece o saber das coisas!

E grande foi o pesadelo do sapateiro, porque sua filha era desflorada, sem uma queixa, olhando o quadro (fotocópia) de Goya — e contudo a fama de Glória, criadora dos incríveis acasos, crescia, sempre mais consistente e firme, como a aragem do dia que sopra do alto do Mosteiro da Serra do Pilar.

Então, os drogados enfiaram a boca no charro, embutiram para dentro os fumos de loureiro — e os seus olhos, de noite, brilhavam no topo da garagem, por entre a fumaça ondeante das puxadas seguidas. Assim puseram o corpo em relaxe e, ficaram à espera da chegada do Sol.

Ora ente Olival e Sandim, numa casota desgarrada, sumida num canto duma colina, vivia a esse tempo uma prostituta, mais desventurada mulher que todas as mulheres de Portugal. O seu amante, todo corcovado, passara a maior parte da sua vida a ver obra feita, onde estacionara, dezassete anos vividos, chulando e comendo. Também a ela o vício a pegara dentro do ofício nunca mudado, mais magra e semítica, que um esqueleto arrancado. Até no lugar do cão não se ouvia há muito os seus latidos. E, sobre ambos, densamente a podridão cresceu, como a ferrugem sobre as sucatas deixadas num lugar despovoado. Tão fora de mão do povoado, nunca o correio ou o polícia entrava o portal feito de latões.

Um dia um rico entrou na casota, ofereceu um churrasco, aos dois infelizes, e um momento de pé na frente da cozinha, sacudindo as moscas da cara, espreitou por cima do sofá se o que estava a ver era uma pintura a sério. Os infelizes comiam, com bocas famintas. E essa bonita pintura, tem boa qualidade, onde a apanharam? A prostituta suspirou. Oh, essa bonita pintura! Quantos a desejavam! Depois, chupando uma parte do frango, contou dessa grande protagonista das sortes, essa pintora que aparecera em Vilar de Andorinha, e de um quadro fazia casos, e pintava para todas as classes, e corria todos os cantos. A sua fama andava por toda a vila de Gaia, como o vento que até por qualquer velho guarda-chuva se sente e se espalha; mas para obter uma graça das suas artes, só aqueles ditosos que a sua vontade escolhia.

E então o chulo, num murmúrio mais forte que o troar de uma gaita, disse à mulher que vendesse a pintura ao rico, tão endinheirado, que não largara os seus olhos daquela pintura. A mulher apertou a cara enrugada:

— Oh, homem! E como queres que venda a pintura, e depois perca a sorte, da pintora de Vilar de Andorinha? Ela tem-nos dado sorte! Como queres que venda a pintura? Glória não volta a pintar outra pintura como esta. E mesmo que quisesse, não seria tão igual, nem tão perfeita como esta.

O chulo, com duas boas goladas pela goela sequiosa, murmurou:

— Oh, mulher! Glória não precisa de saber nada. E nós ainda não gozámos tudo, e com um fardo tão pesado, já é hora, não é? E podíamos ter uma abundância maior que a casa do Presidente da Câmara.

E a mulher, em gargalhadas:

— Oh, meu homem, como me fazes rir? Longas são as minhas horas, e curto o dinheiro dos clientes. Tão pouco, tão afanado, tão triste, até as forças me estão a abandonar. Ninguém saberia de nós, é verdade, e logo arranjaríamos uma morada nova. Oh, homem! Talvez tenhas razão… Nem sempre a sorte nos bate à porta. O senhor quer a pintura, o senhor a leve.

O rico, tão rico, pegara a sua carteira recheada de notas de cinco mil, e passou para a mão da prostituta, que por sua vez, lhe passou para as mãos, a pintura de Glória.

O céu escurecia. O rico apanhou o seu carro, desceu pela estreita colina, entre o pinhal e a estrada. A prostituta retocou o seu traje, a prostituta mais tesa, mais corada. O amante seguiu atrás dela até à estrada que conduzia à vila.

De entre uma curva traiçoeira, surgiu um camião desenfreado sobre eles, que os deixou esticados na poeira, erguendo as mãos que tremiam, o chulo desabafou:

— Mulher, vamos ficar aqui…

E logo, aparecendo devagar entre as nuvens e sorrindo, a Sorte disse a ambos:

— Aqui estou.

Thursday, July 21, 2011




CONTOS DE RATAZANA
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JACINTO COSTA
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Quente manhã, meu caro!... Estou aguardando a chegada do caixão do Costa — do Jacinto Costa, dono das casas Paganini, Pérola Negra, Bagdad, entre outras coisas… O amigo claro que o conheceu — um homem risonho, vivo como um rato, com uma conversa cheia de fintas emitida de uma boca faladora, de olhar atento, duma simplicidade provinciana e simples. E muito curioso, muito dado às ideias comuns, tão penetrante que entendeu o meu «Estilo da Ética Boémia!» Esta imagem do Jacinto Costa data de l980: porque da última vez que o vi, numa noite amena de Junho, metido num BMW na Rua da Constituição, transpirava dentro duma camiseta cor de milho, cortada nos cotovelos, e cheirava seguramente a nova.

Mas o amigo, numa altura que o Jacinto Costa recolhendo ao Porto, parou no cabaré Tamariz, na Invicta, falou com ele, no reservado dos boss! Até a Rainha do Cartaz, que preparava o número «Salta na Cueca», para animar mais a plateia entre os clientes e os empresários, recitou aquele seu poema, de tão bom idealismo: «Nas garras do meu coração, o desejo…» E ainda recordo o Jacinto Costa, com um refinado blusão de cabedal preto, por cima da camisa de seda branca, sem largar os olhos dos seios das bailarinas, sorrindo, descaradamente àquele desejo que gemia nas suas garras… Era uma noite de Setembro, de lua minguante. Conversámos depois em grupo, com amigos, pelo meio, e pelo escuro. O José Manuel cantou melancolicamente uma cantiga amorosa da nossa época:

Ontem de noitinha, à beira da ria,
Contemplavas, silenciosa,
A corrente fogosa
Que as tuas mãos arrefecia…

E o Jacinto Costa, debruçado na cadeira da ponta, com o espírito e os olhos perdidos na luz! — Porque não acompanha o amigo este homem atractivo ao Cemitério do Prado do Repouso. Eu tenho um roadster, de capota e de cor preta, como atrai a um empresário da Noite… Não quer! Por causa do vento! O´amigo! De todas as vantagens na viaje, nenhuma mais atraente do que a cabeça descoberta. E o homem que vai a enterrar era um grande desportista! Vem o caixão a entrar no velório… Trá-lo uma carruagem para o acompanhar. Mas realmente, amigo, está um ambiente fúnebre. O indivíduo de óculos de sol à Abrunhosa, dentro do coupé?... Conheço bem, essa cara. É um concorrente pobre, desses que aparecem nos funerais, com a missão de espalhar boatos, agora que o defunto já não se incomoda, nem se compromete. O homem baixo e gordo de cabelo louro, dentro do velório, é o Mateus «Pipo», que tem um tasco e que se chama o Refresco. Que relação o unia ao Costa?... Não faço ideia. Talvez se conhecessem nas mesmas capelas; talvez o Costa lhe desse ultimamente para frequentar o Refresco. Agora é o nosso roadster… Quer que suba a capota?... Mais devagar?... Eu tenho tino. Pois este Jacinto Costa foi um homem aventureiro que, tal como eu, na vida ama a noite boémia.

Na Invicta sempre o consideramos como um sujeito particularmente esperto. Para este raciocínio concorria talvez a sua grande ascensão. Nunca um fracasso brilhante na carreira! Nunca uma mancha estragada nos negócios! Nunca uma acção rebelde do temperamento ou do físico daquele sóbrio feitio que nos intrigava! Além disso, na nossa quente geração, ele foi o primeiro empresário da noite que trouxe as mininas do Brasil; que deu sem tirar ou pôr os Alojamentos; que permaneceu insensível ante a presença da Pê-Jota! E contudo, nesse Jacinto Costa, nenhuma dureza ou inveja ou grosseria. Antes pelo contrário! Um bom parceiro, sempre prestável, e mansamente contente. Toda a sua inabalável pujança parecia provir duma grande força interior. E, nesse tempo, não foi por maldade e ofensa que eu alcunhei aquele moço tão popular, tão risonho e tão mexido, de «Costa Paga Pouco». Quando namorou uma dedicada e bonita rapariga de quem decerto lhe trauteou, como todos nós trauteamos, aqueles versos sabidos, mas sempre bem recebidos:

Era no Verão, quando à luz do arco-íris
A imagem tua…


Pois, como nesse verso, o bom Jacinto Costa, ao regressar da terra de Celorico de Bastos em Novembro, no Inverno, avistou Elisa, um dia no campo, à luz do arco-íris! O Costa nunca tinha olhado uma preciosidade daquele tipo, cheia de encanto e beleza. Baixa, graciosa, simpática, digna da comparação monarquia da Princesa do Povo. Cabelos negros, compridos, e ricos em ondulados caracóis. Uma cor de pele muito macia. Olhos negros, penetrantes, alegres, de longas pestanas… Assim que casaram, partiram para o Porto, tentar a sorte dum sonho que os acorrentava. O amigo sem dúvida que a viu, pelo menos uma vez, essa bonita estampa de simpatia que se chama Elisa, a Elisa do Costa… Foi a bela meiguice romântica do Porto, nos começos dos anos oitenta. Mas realmente o Porto apenas a via pelas viagens constantes das suas idas a Espanha, ou nalguma ida aos copos de que o Costa era um frequentador viciado. Com ar caseiro de provinciana, a super Elisa, ainda conservava os velhos hábitos sobejamente apreciados, por aquela burguesia mundana que nesses tempos, no Porto, se mostravam galanteadores. Mas quem os viu, e com facilidade constante, quase empolgante, logo que criaram bases no Porto, foi o Jacinto Costa — porque, tomando conta de uma casa de alugar quartos no centro da zona alta, ao pé do jardim do Marquês do Pombal, não podia a super Elisa desejar melhor sorte nos seus dividendos, do que ver a sua vida crescer, ao tornar-se dona também duma casa de várias assoalhadas, no meio da rua da Constituição e se chamava a Pensão Costa Verde.

Ó amigo, quando eu, que já então intensamente trabalhava com camareiras, depois de a conhecer numa tarde chuvosa esperando pela abertura da porta do Lord, a adorei durante treze magníficos meses e lhe rasguei os mais variados elogios! Não sei se o Costa lhe deu alguns sermões por isso. Mas todos nós, seus amigos, reconhecemos logo a forte, profunda, absoluta confiança que concebera, desde o dia de Verão, à luz do arco-íris, aquele coração, que no Porto considerávamos de «Paga Pouco!» Bem compreende que homem tão comedido e sereno não se soltou em desabafos públicos. Já no tempo, porém, de Abraias, se contava que amor e dinheiro não se separam; e do nosso fechado Jacinto Costa o amor começou logo a alargar, como o dinheiro fácil através dos casais do amor rápido duma casa de portas abertas que atrai seguramente. Bem me lembro duma tarde que o visitei, na sua nova casa, o Pub Paganini, depois de se ver livre da pensão. Era um domingo à noite. Ele fazia horas para ir jantar com Elisa, que vivia no andar que ambos tinham comprado, na Avenida de França, e onde habitualmente jantavam aos domingos quando estavam juntos. Creio até que só por isso, eu e o Jacinto Costa mantivemos, uma conversa sobre negócios e pouco mais.

As portas do pub do Costa abriam e fechavam num invariável vaivém; e quando voltava do quarto de banho ele palrava com uma das suas mininas, altamente. Nunca admirei, amigo, lábia destravada enrolada por palavreado mais bacoco e bizarro! Piscou-me o olho quando me cumprimentou e deu um sorriso, que vinha das profundezas da alma iluminada; sorria ainda maliciosamente enquanto eu lhe contei alguns das minhas desgraças nocturnas; e sorriu depois, distraído, a acender um cigarro, com o filtro às avessas, fazendo um fumeiro do caraças. E a cada instante, infalivelmente, por um hábito já tão frequente como o voltar a cabeça, os seus olhos atentos, fugazmente observadores, se voltavam para o vaivém da porta da sala… De repente que, seguindo aquele lance fortuito, logo descobri, na porta do pub do Costa, a super Elisa, vestida de ganga azul, com uma blusa branca, esperando calmamente, e espreitando também as mesas da frente, que uma fumaraça voadora de fumo ofuscava de manchas de amarelo. O Jacinto Costa no entanto conversava com o empregado, antes ordenava, através do olhar convincente, coisas ligeiras e variadas. Toda a sua atenção se concentrara diante da máquina registadora, nos talões de entrada e saída para fixar os valores, numa vista rápida ao movimento do balcão, e mandou cumprimentos a alguns deles antes de abalar. E depois de enfiar o blusão de couro, de lhe agasalhar uma boa maquia, foi com passada larga, sem olhar uma vez para trás, que abriu curtamente, fortemente, a porta!

Eu dei discretamente o pira dali também. E, amigo, acredite em mim!, admirei aquele homem a ir para o carro, veloz, firme na sua caminhada sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no carro, na branca mulher vestindo a ganga azul, e tão alheio ao mundo como se o mundo fosse apenas o assento que ela se assentava e firmava com os pés! E este encanto, amigo, durou uma década, assim brilhante, genuíno, distante e imaturo. Não se ria… Certamente se encontravam no andar da Avenida de França: Certamente que telefonavam, e isoladamente, contando as notas em cima dos lençóis que uniam os dois amorosos: mas nunca, em cima desses lençóis, procuraram o pequeno caso duma escaramuça passada ou o caso ainda mais recente duma cena escondida na sombra. E nunca trocaram um ciúme… Não duvide, amigo! Algum apertão de ossos a raspar e tímido, sob os tectos do andar da Avenida de França, foi o máximo da exaltação que a gana lhes marcou ao desejo.

O amigo não entende como é possível se manter assim duas fortes criaturas, durante uma década, em tão incrível e tédio relacionamento… Sim, certamente não lhes faltou, tempo para se coçarem, uma hora de absoluta liberdade ou uma escapadela à fronteira. Depois a super Elisa trabalhava realmente num sítio dos confins do mundo, em que noitadas e cabritadas eram o pão-nosso de cada dia, desgastante mas gratificante. Mas, na fragilidade deste amor, entrou muita baixeza moral e fraqueza sentimental. Era fácil ao Costa, que (sem nós sabermos) nascera desnorteadamente individualista; mas a boa Elisa encontrou também um gozo propositado nessa ideal vocação de vida má, que até ousa chegar, com as notas engelhadas e embrulhadas na bolsa de mão, a rica e estimada. E durante uma década, como o Zé Manel do Bar Boteco, conquistou, firme e deslumbrado, dentro do seu sonho feliz, sonho em que Elisa morou realmente dentro do seu coração, numa junção tão absoluta que se tornou substancial numa só pessoa! Mas um dia, o chão, para o Jacinto Costa, tremeu todo num terramoto de rode tamanho. Em Março ou Abril de 1989, a Elisa já repleta pelas suas aventuras e frustrações, desapareceu sem um aviso. Acreditará o amigo que ele abanou por todo, mesmo passeando sozinho a pé pelos quarteirões do Porto, logo que descobrira no andar da Avenida de França, nessa noite, que o guarda-roupa estava vazio de Elisa!... E este abandono real da sua mais-que-tudo na sua mente criou atitudes novas, no Jacinto Costa estranhas, derivando da perturbação.

Como o Paganini abria cedo, à hora do primeiro café da tarde, Costa depois de chegar, mandou comprar palmas sem dedicatórias, velas e ramos de flores dum gosto sóbrio e variado, e encheu um quarto de banho, onde as depositou, para os amigos e clientes do Paganini tomar conhecimento do luto que o abatera… E ninguém deixou então no Porto de espalhar tão dolorosa notícia, mais triste, o falecimento da mulher do Costa! Assim, logo se tornou romaria, depois da notícia, naquele delicioso e atractivo Pub Paganini, onde o prazer parecia vindo do Céu, e nunca ninguém bebia com velas acesas e o chão espalhado de flores. Porquê? Porque Elisa também ali morrera, para ele. Daí esses murmúrios banhados num sorriso religiosamente atento… Porquê? Porque a estava sempre sentindo! Ainda me lembro de ouvir contar o meu cliente amigo e comparsa nas paródias, aquele brilhante José Novais, acompanhado doutro amigo, o Arnaldo Cruz, irem visitar o Costa, ao fim da tarde, e de ele carregado de inquietação, como revoltado, arrancar do chão uma mesa e gritar com uma cara que não era satisfação, perante a plateia que o rodeava: — O que eu faço? O que eu faço? Parto pescoço ao primeiro que dizer mal de Elisa!... — E depois, exclamou ao olhar o relógio, com um assomo vermelho na face: — O quê? Já são 9 horas? Lá se vai o jantar!...

O dinheiro arrasta ao poder, sobretudo dinheiro de tão fácil trabalhismo: e o Jacinto Costa rentabilizou com sagacidade o dinheiro que ela também partilhava. Claro que não podia levar a lembrança de Elisa para onde quer que fosse, nem consentir que a vaga lembrança roçasse pelos sofás de veludo da sala do pub. Mandou, portanto, uma carruagem para os fins, e onde encarregou o serviço a um tal Juca (como era tratado), um amigo mais antigo e confidencial, que fez chegar o remesso das flores, ao cuidado de uma irmã que morava nos arredores de Sintra. Veja o amigo, como esse endiabrado gozava com esta ideia macabra? Com este acto, assim desfez, logo ali, a amizade com o amor daquela mulher a quem nunca dera um filho! Por estas mesmas alturas, numa pachorrenta conversa de bar, aproveitei a companhia dum cliente, e visitei o Costa, no Paganini, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar condolências antecipadas, mas para que, naquele acto aterrador, ele sentisse ao lado a força mobilizadora da boémia… Encontrei também com ele, o Juca, que já me serviu neste pub, onde agora vêem cá, de vez em quando, todos aqueles clientes a quem chamei traidores de sexo… O Juca chegara de Braga, da sua rotina normal, de madrugada, reclamado por um telefonema do Costa.

Quando entrei, um empregado atrapalhado limpava duas mesas em simultâneo. O Jacinto Costa abalava nessa noite para Lisboa. Já vestira outro blusão de couro, com botas de meio cano pretas: e depois de me estender a mão, enquanto o Juca remexia um gelo, continuou andando pela sala, pensativo, como alarmado, como surpreso da sua sorte bruscamente abalada. Num momento em que ele batera com a porta, murmurei ao cliente, por cima do ombro: — O Costa faz bem em se pirar daqui… — O cliente abanou a cabeça: — Sim, pensou que era mais oportuno… Eu concordei. Mas só durante o tempo do luto falso… — E zarpámos dali. E, depois desse tempo, o Costa? Ó amigo, o sagaz Costa que não parava nem quieto, aventurou-se a comprar uma fracção ao lado do Paganini, e fez dela uma pensãozita. Tão arrojado estava com a sua veia, que apenas umas semanas, tomou posse na Rua João das Regras do Pub Chaminé. Os meses de falso luto passaram, depois vieram outros, e Costa não arredou pé do Porto. Na altura viria a entusiasmar-se por uma jovem de calça justa, blusa às bolinhas, que ocupava a missão de empregada de balcão. Nesse Junho o encontrei eu sentado comodamente nas frentes do Café O Geladinho, onde entretinha a vista do dia solarengo, lendo o jornal (porque voltara ao desporto), e bebendo água gelada até que a tarde caminhava e ele se preparava, se erguia, se ia para dentro do pub.

Quer que lhe diga mais? Nesse Verão, no Café O Geladinho, sempre achei que o Costa, a cada momento da nossa conversa, mesmo embutindo gelada água, mesmo falando dos negócios que o levara à noite, amiúdes vezes gracejara com os seus ditos. Não notei no Costa, nenhum nervoso particularmente miudinho, nem uma revolta com a vida… Pelo contrário! Ao sorriso de radiante firmeza, que nesses anos o iluminara com um caminho de sucesso, por que se debatera numa encruzilhada sempre presente, fatigante e perigosa. Voltei aos eventos, amigo. O Outono passou, muito frio e muito pardacento. Eu trabalhei nos meus Concursos das Sextas-Feiras. Um domingo, dia de folga, no jardim do Marquês do Pombal, quando já se viam mesas improvisadas de reformados a jogar a sueca, avistei a sair dum BMW vermelho a especial jovem, com calça larga e botas de vaqueira. E nessa semana editei no meu pasquim Jornal Dos Traidores a notícia pequena, quase acanhada, da gravidez da especial jovem… De quem, meu amigo? — Do conhecido empresário da noite, o ilustre Jacinto Costa!... O meu amigo abriu aí os olhos, e ficou um pouco, espantado. Eu também fiz o mesmo, mas para os fechar, com a admiração daquela especial jovem, cheia de vigor ao amor! Conquistar sem pressa, serenamente, apenas entrara para o balcão, aquele astuto, rato, empresário Costa! Ah, bem ensinara o Conde do Pincel que a mulher é um monstro de vício, deitada ao centro da cama!

Pois, amigo, quando eu assim dava uso à voz, encontro uma tarde na Rua de S. Brás o amigo Zé Manel, que sai do seu Boteco, me encosta para uma mesa, agarra excitadamente na minha pequena mão, e exclama alvoraçado: — Já sabes? Foi o Costa que comprou a Candeia. Ele esteve no bar, desabafou! Ele nem conseguiu dizer quantas casas tem! Não conseguiu, não senhor! — Fiquei passado. — E então agora… — Encorajado, fortemente apoiado pelas suas mininas, ávido de poder, com aqueles bons trinta e sete anos em fúria, que raio!, investiu, comprou! — Eu ergui as pernas até à sombra da mesa: — Mas então essa ascensão do Costa? — O Zé Manel, seu concorrente e conhecedor, falou com absoluta certeza: — É o mesmo de sempre! Grandioso, único… Mas não fica por aqui! Ambos nos despedimos, e depois ambos nos separamos, trocando uma palmada, com aquele ritual habitual que fica bem aos boss da noite. Depois a especial jovem teve um bebé e continuou habitando o andar com o seu Jacinto Costa no conforto e aconchego que já gozara antes, e exercendo a sua missão laboral. Nos meados da Primavera, Costa recolheu do Porto ao Brasil, ao encontro dos seus contactos, onde tinha negócios preparados. De regresso ao Porto, Costa tomou conta da Boite Pérola Negra, onde modernizou todo o seu interior, com um design para o showbusiness, já de agenda carregada que ninguém queria faltar. Veio o Maio, como sempre no Porto ruidoso e quente. Aos domingos, Costa jantava com a jovem e o bebe, na sua nova habitação, em família.

Havia, porém, uma grande e surpreendente mudança — a do Jacinto Costa! Imagine o amigo, como esse homem vivia os seus loucos dias? Com os olhos, e os números, e o instinto, e todo o sentido cravados nos negócios, nas passagens, nas explorações a outrem! Mas agora, não era de passagens bem mais acessíveis e facilitadas… Não, amigo! O que o preocupava agora, o que lhe cavara longas mossas em curtos meses, era que não tinha um homem, um maestro, um finório, que pudesse gerir os negócios que eram seus, e que de um modo geral, ele pudesse rolar à doucemet, na super-vida inconstante e quase no limite do seu quotidiano! O amigo sorri… E então o Juca? Ó amigo! Esse era estático, e sério, e brando, e já tinha funcionado no Paganini, com a sua brandura e o seu estaticismo, quando ele conhecera o Costa e lhe dera para sempre lealdade e amizade. E os outros que lhe vieram a seguir, esses, cavaram velozmente pela porta fora, logo que Costa desatou aos raspanetes, com os grandes olhos em chispa, e os carnudos braços de manga arregaçada, e o estilo indomável dum domador de gado, e escorraçara aqueles marretas — a quem revelara talvez o que é um rato da noite! Mas, c´os diabos! Esse Juca, ele o reservara para outros afins, quando viu que ele não lhe oferecia, na arte e na manobra dum saca-o-copo ou ainda na manobra do já foste nenhuma táctica ainda avançada que o iluminasse! E agora, aqui no doce lar, ao cabo duns longos meses, com as traquinices do bebé diante dos seus olhos e as diabruras dos dois corpos unidos brincando na carpete, o amor presente, era que ele amara sublimemente uma família, e que a colocara entre os píncaros da lua para mais bela adoração, e que um puro romantismo, de ares mais frescos, arrancara dentro de si uma realidade forte da vida, que nunca suspeitou que chinelos e fraldas malcheirosas de menino são coisas de rara beleza em casa em que entre o sol e haja amor. E sabe o amigo, o que aumentou, mais excitadamente, esta força? Talvez fosse apenas o acontecimento da vinda do menino! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Costa partiu para as suas visitas de expiação na província, a assistir aos espectáculos nas casas de diversões, ele da ponta de uma terra a outra, por caminhos e travessas, falando com artistas e os agentes, sobre eventuais contratos. E quem sabe?... Talvez aqueles dois adorados artistas que viu actuar nos seus números, uma poeta para os delinquentes sedutores e um macho capão para as necessidades dos toscos.

Não creio que se comprometessem por cima dos copos e garrafas, como era a pretensão dos agentes… De resto, Costa era essencialmente oposto em consentir espectáculos de obscenidades, como fito de aumentar as receitas. Enfim, amigo, não falemos mais sobre a noite, atrás do morto que morreu por ela! E foi então que, nesse Verão, comecei a convidar e a organizar o I Convívio de Patrões e Empregados da Noite, um evento festejado no restaurante O Braseiro em Francelos. Parece que de todos os convites por mim endereçados, poucos foram rejeitados. O Costa também compareceu. Reinava no convívio o espírito de solidariedade. Ó amigo, que bonito e espectáculo foi aquilo! Electrizante, durante três horas, mexido, contagiante, reanimou o Porto! São dessa noite algumas daquelas conversas ligeiras… Conhece a da piela do vinho do Porto? Uma piela do vinho do Porto oferecida por um estrangeiro a uma camareira das mais rascas e das mais ordinárias, apanhada na escura sala da Boite Marta, no Largo da Maternidade de Júlio Dinis, que depois mandou montar no chulo, e pesadamente, alegremente, em cima dele, com um chicote, conduziu ao pé da Torre dos Clérigos, para esperar pelo bater do Sino! Por esse tempo, e por causa dum desenrascanço no serviço, contactei o carpinteiro Gomes, que me telefonara rapidamente do seu local de trabalho, na Baixa do Porto, às oito horas, numa noite seca de Outubro. O carpinteiro, enquanto me conduzia para dentro da casa, bem adornada pelas ricas mobílias e carpetes do Paquistão, confessou que aquele negócio era do Costa que ainda não acabara o serviço (negócio emperrado, duma ilegalidade)… E ainda me lembro, com uma surpresa, da impressão causada que me deu o homem do martelo! Estávamos na sala que abria sobre os dois halls. Quando lhe toquei no meu serviço, ergueu num sobressalto o olhar, todo tremido: — Ainda não jantei? — Apenas lhe sorri, num gesto amigo, para o não contrariar, que tinha tempo, que não era de necessidade maior, encheu o peito de ar, e respirou lentamente, passando a mão sobre a careca húmida: — Então, o que há de novo? — Relaxado, sem pressas, escutou o trabalho que eu pretendia dele. Por fim, com um bufo, remexeu uma garrafa de cerveja dentro do balde, encheu um copo, murmurando: — Amanhã… A esta hora!… — Bebeu um gole e caminhou uns passos bem firmes para a janela, a que abriu vagarosamente a vidraça… E ficou quieto, como tolhido pelo escuro, sossego da noite enublada. Eu deitei os olhos, amigo!

Na casa do Costa, futura Residencial Pantanal, uma porta batia, suavemente sem ruído, fechada ao suave aroma. E esse perfume vivo envolvia uma figura robusta, no vistoso conjunto de um traje colorido, chegada ao pé do logradouro, como borboleta numa constelação. Era a mínima, amigo! O Costa tinha agora uma amante brasileira… Por trás, no fundo do logradouro, os materiais das obras estavam atolados, nos cantos. Ela, imóvel, olhava, pensava talvez numa expressão usada pelo seu querido amigo que, a vida é como a roleta — tem é de se apostar certo. E entre eles rescendia, na preguiça da noite, todos as ilusões dos dois amantes… Subitamente a minina recolheu, à pressa, chamada por um simples tlintlim do telefone. E a porta logo se abriu, toda a claridade e vida, se alojaram na Residencial Pantanal.

O tempo corre! Já estamos no S. João das Fontainhas! Como estes manjericos vão arrastando depressa o grupo dos foliões para o bater do martelinho e para a noitada única! Pois, amigo, depois dessa ardente noite, o Costa inteiramente se mandou, se evaporou, sem que me chegassem novas dele, mesmo duvidosas — tanto mais que o confidente por quem as saberia, o seu brilhante Juca, partira para algures, com o seu variado itinerário de percurso, sem horas, para pesquisar a concorrência, das novidades. Todo esse ano, também, andei embrulhado na minha Festa dos Barmans. Depois, uma ocasião, no meio do Verão, descendo pela Avenida da Boavista, com as persianas (olhos) levantadas, à procura do nº 1357, onde se situava a casa nova do Jacinto Costa, quando desço eu às escadas de baixo, e lá avisto a portada do Top Bar Bagdad e dentro dum centro comercial. É belo, amigo, mais aconchegado e mais harmonioso, todo fresco e muito desejável, ainda para mais ter um horário que vai às seis horas da manhã! Mas aquele homem era da grande envergadura de Amorim que, uma mão cheia de anos depois do crescer de Cortiça, ainda deslumbrava os empresários de sucesso e os patrões sem sucesso. E, curiosa coincidência, logo nessa noite, dessa mesma portada do nº 1357 o vi eu também, o vendedor imobiliário, Cebolinha! Mau feitio, problemático, branco, de cabelo comprido, em excelentes condições para encher o bucho de uísque (e portanto ficar grosso), como diz o mandarim. Eu frequentava esse nº 1357, interessado no catálogo do bar, porque o rato do Costa possuía, pelo conhecimento largo dos seus informadores, uma colecção invejável de borrachos dos vários continentes. E passadas semanas, saindo desses borrachos uma noite (o Vigilante andava de noite) e parando à frente, para encostar o carro, enxergo à meia-luz, metido na marmelada com uma prostituta, o habitué, Cebolinha!

Mas que Cebolinha, amigo! Coitado do Cebolinha! Apanhara uma ramada, uma ramada de partir a loiça toda, impertinente, chata, rabugenta como velha esquizofrénica: apanhara uma touca, que lhe saía de dentro em foguetes iluminados de sob uma velha cana; mas todo ele, no resto, parecia irreconhecível, minguado dentro dum fato escuro de muitos vincos, e duma gravata esverdeada, de grandes riscas, onde se viam os enrugados, tão à vista, da maliciosa marmelada. Cada dois minutos, instintivamente, enfiava um uísque para a garganta — e, de olhar à Nero, recolhia na espantada miséria que me tomou, apenas balbuciei: — Você! Então que é isto? — E ele, com o seu sarcasmo indelicado, mas embriagadamente para se desimpedir, e numa voz que o uísque rompera: — Por aqui ao engate duma puta. — Não respondi, andei. Depois, ao fundo, tomei um trago que a empregada me pusera em frente, e dali olhei, o negócio! Pois, amigo, bom negócio fez o Jacinto Costa investindo naquela portada! Era um desses parques automóveis do Porto melhorado, sem horário, sempre de portas abertas, sempre arrumado, lugares de estacionamento acessíveis aos carros dos clientes do bar de dia ou de noite. Ao lado havia o Paganini. Infalivelmente, ao anoitecer, o Jacinto Costa descia a Rua da Constituição, colado às paredes, e como uma sombra, desaparecia na penumbra da porta.

A essa hora já as mesas do Paganini enchiam, de turistas e intrusos mergulhados no calor de Verão, e mulheres de amor-rápido a bater as solas duras no chão, ou fazendo olhinhos aos frequentadores. E parando ao meio, na lateral da sala, o Costa se quedava, — concentrando os olhos vivos na movimentação besta daquela casa, onde a sabia dominada pela sua mão! Sabe, amigo, Costa já descobrira que, dentro daquelas casas, a atender humildemente os seus clientes, com a alma de outrora, já não lá estava o antigo Jacinto Costa!… E acreditará o amigo que então, todas as noites, para fugir do stress do trabalho, guiava pela estrada deserta, a libertar a ideia, que o ajudaria no seu trabalho. O Costa percebera bem isso. No Outono passado, encontrei o Costa, numa meia manhã de frio, tomando café numa confeitaria da Rua de Costa Cabral, e a uma ponta, o Juca, arrepiado, desolado, coçava o cabelo e batia as mãos enluvadas, com os olhos comovidos nas embaciadas vidraças, quando o Costa, para o aquecer, dera-lhe uma palmada nos ombros, acrescentando: «Tás com frio, pá! Manda vir uma cachaça!»

Passou quase dois anos.

Enfim, amigo, ontem, o Vigilante apareceu no meu bar, depois do fecho, esbaforido: — Lá foi o Jacinto Costa, numa ambulância, para o hospital, completamente inanimado! Parece que o encontraram, acompanhado de uma minina, de madrugada, esticado no banco, todo encolhido no blusão negro, inerte, com a cara coberta da morte, voltada para as estrelas da Mealhada. Fiquei silenciado. Fui às capelas. Morrera… Perguntei ao chefe do cabaré, que o conhecia e o considerava, se sabia se ele sofrera. — Não! Teve um choque violento, depois do embate, e ficou. Era o fim da alma. O chefe não sabia mais; nem sabiam os outros; nem o saberia talvez a acompanhante, que no momento do embate, perdera os sentidos! Chegámos à igreja. Ainda bem cedo. Mas, meu Deus, olhe! Ao fundo, à espera, à porta do velório, aqueles indivíduos concentrados na conversa, de voz baixa, com olhares furtivos… São os empregados da velha guarda! E trazem uma grande coroa de flores… De todas as casas da noite, chegam amigos e companheiros para o acompanhar à última morada e cobrirem de flores o seu amigo e companheiro. Mas, ó amigo, soubemos que, certamente, poucos o sabiam, que a minina que acompanhava o Jacinto Costa nessa noite, estaria grávida dele! Grande confusão, amigo! No meio de tudo isto, comentou-se muita coisa, mas o que valeu a pena trazer à sua última morada este brilhante Jacinto Costa, que era talvez muito mais que um boss da noite…

Com efeito, está fresco… Mas que quente manhã!

Saturday, June 25, 2011







CONTOS DE RATAZANA
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O MOTORISTA DE TÁXI
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Era uma vez um motorista de táxi, sexagenário e atrevido, empregador de um carro com imensos quilómetros em cidades e vilas, que partira a trabalhar por terras distantes, deixando abandonada e triste a sua mulher e três filhos, que ainda viviam na sua casa, em Gondomar. A estrela Norte que o vira abalar, levado no seu sonho de aventura e de dinheiro, começava a ruir — quando uma das suas conquistas amorosas apareceu, com a barriga cheia, grávida do calor ardente e duma cena tórrida, trazendo a boa nova de um bem abençoado e do nascimento do rebento, alcançado por muito amor à flor da pele, à volta dos pinhais. A mulher chorou desoladamente a perda de casa do marido, que era jeitoso e alegre. Mas, sobretudo, chora ansiosamente o pai que assim deixava os filhos desconsolados, no meio de tantos problemas das suas difíceis situações e do futuro que seria incerto, sem uns braços fortes que os defendessem, e os encorajassem para a vida. Desses problemas o mais penoso era a outra, amante jovem do marido, rapariga leviana e fraca, consumida de vícios novos, desejando só a boa vida por causa do seu tesouro, e que havia meses vivia numa casa sobre os pinhais, com um desarranjo de trapos, à maneira de uma loba que, dentro do seu poiso, guarda o tesouro.

Ai! O tesouro agora era aquele bebé, dono da mama, senhor de tantos nadas, e que dormia no seu berço com o seu ursinho de plástico agarrado na mão! O menino dormia num berço de verga, filho da modesta e robusta mãe doméstica de vinte e oito anos que amamentava o seu tesouro. Tinha nascido num dia de Primavera. A mãe antes de adormecer, vinha fazer festas ao menino, que tinha o cabelo preto e fino. Os seus olhos reluziam como pedras brilhantes. Naquela terra pequena de Cete, onde o motorista de táxi alugara uma casa, ela tinha a ilusão, a realização dos seus sonhos. Nenhum idílio correra mais depressa do que o seu pelo motorista de táxi à volta dos pinhais. O motorista de táxi, seu amante, estava agora a trabalhar numa outra postura, para lá da cidade, circulando também em aldeias e vilas. O seu carro de trabalho, um Mercedes de 1981, estava ainda aí para as curvas. Os novos clientes, que fosse angariando, prontamente iriam nessas aldeolas voltar a chamá-lo e a ouvir os seus maliciosos ditos. E ela por seu lado, não desejaria mais de que ver a luz a raiar na casa do seu homem, e tomar conta do menino, e ligar a televisão nos seus programas preferidos; era as novelas como os filmes, e ficava feliz na sua servidão.

No entanto uma grande confusão reinava na casa, onde agora a despesa aumentara mais do dobro. O amante, o taxista passava de cavalo para burro viera para a aldeia com a sua experiência, e já através de alguns contactos ia vendo uma praça fraca de clientes assíduos e passageiros. Os comboios da vila tinham sido demasiados gulosos com os clientes. Nas posturas andavam menos passageiros. Um táxi não rola sem um passageiro. Toda a postura parecia um stand de carros abandonados. E a rapariga preguiçosa apenas sabia correr a cada momento ao encontro dos seus vizinhos e mostrar a eles a sua fraqueza de mãe solteira. E às vezes, parecia insegura — como se o serviço que estava debaixo da sua alçada fosse tarefas grandiosas que nenhuma coragem pode transpor.

Ora uma noite, noite de trovão e chuvisco, vindo ele a chegar do trabalho, já exausto, entre os dois houve um chispe, maior que um curto-circuito e de briga, à entrada do quarto de banho. Enraivados um com o outro, atirando cá para fora tudo o que lhes saía pela boca, a relação estourou rotundamente. Depois houve um «vê se te mexes», e cada um foi para o seu lado. Puxou violentamente os cobertores da cama. E, lá no fundo do quarto, o bebé dormia, num sonho que o fazia iluminar, toda a face entre os seus cabelos negros. Num relance, a mãe então, sem uma vacilação, tirou o tesouro do seu berço de verga — e embrulhou-o à pressa num xaile negro, entre um esgar de olhos desesperados, abalou velozmente. O taxista dormia no seu sono pesado. A cama ficara fria no silêncio e no escuro. Mas sinais de alarme de repente tremeram a sua cabeça. Pela mente trespassou o curto vibrar das pulsações. Os suores ressoavam com o bater do coração. E desgrenhado, quase nu, o taxista invadiu a casa, entre os móveis, gritando pelo seu filho. Ao avistar o berço de verga, sem roupas, vazio, caiu num choro, destroçado.

Depois mais frio, mais calmo, ele compreendeu — a casa vazia, a rapariga doida indo embora, roubar o seu menino! Então, rapidamente, correu à cadeira onde as calças estacionavam, sacou o telemóvel, como se saca uma carteira, e falando com alguém no telemóvel, o taxista partiu à descoberta de seu filho... Também ele sofria pelo seu menino! Quantas vezes, com o bebé agarrado ao colo, ele pensava na sua fragilidade, no seu longo crescimento, nos anos lentos que seriam antes que ele fosse ao menos do tamanho de chegar com os pés aos pedais, e naquela mãe imatura, de temperamento mais insosso que o lavado e coração mais insosso que o temperamento, faminta do repouso, e residente com os pais acima da sua antiga casa uns metros adiante! Pobre bebezinho de sua alma! Com uma ternura grande o imaginava entre os seus braços. O taxista lá ia, irrequieto, remexido, devorando quilómetro a quilómetro, num pensamento que o fazia sorrir, lhe molhando todo o rosto, entre os seus cabelos desalinhados. Bruscamente, se acercou da porta da casa da rapariga e recuou, como que adivinhando ir armar grande banzé. Sabia perfeitamente que ia! Então voltou para trás.

E passado momentos, a rapariga chegou a casa dos pais. Bateu à porta com um alívio, como cai um fardo de cima. Um choro abalou o chão de pedra. Era o bebé a chorar, o seu choro madrugador. Nos seus choros havia porém, mais sono que fome. O bebé então parara de chorar! Tocado, ao sentir, entre o mimo e a chupeta, embalado, pela mão forte da mãe, acordara, ele e o seu olhar maroto… — quando a mãe da rapariga, deslumbrada, com os olhos bem abertos, olhou o menino que despertara. Foi um espanto, uma alegria, quando a mãe da rapariga ergueu o menino nos braços, manifestando a sua força hilariante, abraçou apaixonadamente o neto abençoado, e o beijou, e lhe chamou netinho do seu coração… E entre aquela caloria que se soltava ali, veio uma boa, desejada alegria, com promessas de que fosse ajudada, relativamente, a filha regressada para alimentar o seu bebé. Se não como podia ela sustentar um filho? Se não tinha um emprego? Então o velho pai lembrou que ela fosse levada ao tribunal de menores, e dissesse de entre outras coisas, que era uma mãe solteira, desempregada, e que esperava receber todos os subsídios que a lei confere… A rapariga tomou o caminho do pai. E sem que o seu rosto de branca perdesse a rigidez, com um andar de defunta, como num sonho, ela foi assim apresentar-se ao tribunal de menores.

Pais solteiros, mães solteiras, familiares, rode ganapada, lá estavam entre aquela multidão que se apertava na entrada. As altas portas do tribunal abriram lentamente. E, quando um funcionário, se assumiu à porta, de face vermelha, com montes de papelada, e chamou a rapariga e o motorista de táxi, todos os demais se remeteram ao silêncio durante segundos. Um grande «Ah!» voou da boca do taxista que respondera. Depois houve uma pausa, curta. E no meio da sala, envolta na mudez preciosa, a rapariga não dizia uma… Apenas os seus olhos, reluzentes e firmes, se tinham erguido para aquele funcionário que, além dos processos em suas mãos, era portador de determinações e decisões. Era lá, nesses processos de foro conjugal que estava agora o destino do seu menino!... Então a rapariga sorriu e estendeu a mão a uma caneta. Todos seguiam, sem articular uma palavra, aquele lento movimento da sua mão a assinar o documento. Que assinatura grandiosa, que punhado de papeis, estava ela a assinar? O funcionário lia o processo — e a seguir ao ponto final parágrafo, entre uma recolha de testemunhos, revelou a decisão. Era uma decisão assinada pelo juiz a que conferia à mãe a tutela do bebé, a título provisório. O motorista de táxi deixara de ouvir o fim da leitura, e com o semblante carregado de revolta, apontou para a parede, onde um quadro de uma velha balança, com dois pratos carregados de vários símbolos, e que simbolizavam os valores da lei, encarou a rapariga, o funcionário, e gritou:

— Dei-te o meu filho, e agora vou pagar-te o seu sustento e fico sem ele!

E cavou as solas no chão.