Saturday, June 25, 2011







CONTOS DE RATAZANA
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O MOTORISTA DE TÁXI
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Era uma vez um motorista de táxi, sexagenário e atrevido, empregador de um carro com imensos quilómetros em cidades e vilas, que partira a trabalhar por terras distantes, deixando abandonada e triste a sua mulher e três filhos, que ainda viviam na sua casa, em Gondomar. A estrela Norte que o vira abalar, levado no seu sonho de aventura e de dinheiro, começava a ruir — quando uma das suas conquistas amorosas apareceu, com a barriga cheia, grávida do calor ardente e duma cena tórrida, trazendo a boa nova de um bem abençoado e do nascimento do rebento, alcançado por muito amor à flor da pele, à volta dos pinhais. A mulher chorou desoladamente a perda de casa do marido, que era jeitoso e alegre. Mas, sobretudo, chora ansiosamente o pai que assim deixava os filhos desconsolados, no meio de tantos problemas das suas difíceis situações e do futuro que seria incerto, sem uns braços fortes que os defendessem, e os encorajassem para a vida. Desses problemas o mais penoso era a outra, amante jovem do marido, rapariga leviana e fraca, consumida de vícios novos, desejando só a boa vida por causa do seu tesouro, e que havia meses vivia numa casa sobre os pinhais, com um desarranjo de trapos, à maneira de uma loba que, dentro do seu poiso, guarda o tesouro.

Ai! O tesouro agora era aquele bebé, dono da mama, senhor de tantos nadas, e que dormia no seu berço com o seu ursinho de plástico agarrado na mão! O menino dormia num berço de verga, filho da modesta e robusta mãe doméstica de vinte e oito anos que amamentava o seu tesouro. Tinha nascido num dia de Primavera. A mãe antes de adormecer, vinha fazer festas ao menino, que tinha o cabelo preto e fino. Os seus olhos reluziam como pedras brilhantes. Naquela terra pequena de Cete, onde o motorista de táxi alugara uma casa, ela tinha a ilusão, a realização dos seus sonhos. Nenhum idílio correra mais depressa do que o seu pelo motorista de táxi à volta dos pinhais. O motorista de táxi, seu amante, estava agora a trabalhar numa outra postura, para lá da cidade, circulando também em aldeias e vilas. O seu carro de trabalho, um Mercedes de 1981, estava ainda aí para as curvas. Os novos clientes, que fosse angariando, prontamente iriam nessas aldeolas voltar a chamá-lo e a ouvir os seus maliciosos ditos. E ela por seu lado, não desejaria mais de que ver a luz a raiar na casa do seu homem, e tomar conta do menino, e ligar a televisão nos seus programas preferidos; era as novelas como os filmes, e ficava feliz na sua servidão.

No entanto uma grande confusão reinava na casa, onde agora a despesa aumentara mais do dobro. O amante, o taxista passava de cavalo para burro viera para a aldeia com a sua experiência, e já através de alguns contactos ia vendo uma praça fraca de clientes assíduos e passageiros. Os comboios da vila tinham sido demasiados gulosos com os clientes. Nas posturas andavam menos passageiros. Um táxi não rola sem um passageiro. Toda a postura parecia um stand de carros abandonados. E a rapariga preguiçosa apenas sabia correr a cada momento ao encontro dos seus vizinhos e mostrar a eles a sua fraqueza de mãe solteira. E às vezes, parecia insegura — como se o serviço que estava debaixo da sua alçada fosse tarefas grandiosas que nenhuma coragem pode transpor.

Ora uma noite, noite de trovão e chuvisco, vindo ele a chegar do trabalho, já exausto, entre os dois houve um chispe, maior que um curto-circuito e de briga, à entrada do quarto de banho. Enraivados um com o outro, atirando cá para fora tudo o que lhes saía pela boca, a relação estourou rotundamente. Depois houve um «vê se te mexes», e cada um foi para o seu lado. Puxou violentamente os cobertores da cama. E, lá no fundo do quarto, o bebé dormia, num sonho que o fazia iluminar, toda a face entre os seus cabelos negros. Num relance, a mãe então, sem uma vacilação, tirou o tesouro do seu berço de verga — e embrulhou-o à pressa num xaile negro, entre um esgar de olhos desesperados, abalou velozmente. O taxista dormia no seu sono pesado. A cama ficara fria no silêncio e no escuro. Mas sinais de alarme de repente tremeram a sua cabeça. Pela mente trespassou o curto vibrar das pulsações. Os suores ressoavam com o bater do coração. E desgrenhado, quase nu, o taxista invadiu a casa, entre os móveis, gritando pelo seu filho. Ao avistar o berço de verga, sem roupas, vazio, caiu num choro, destroçado.

Depois mais frio, mais calmo, ele compreendeu — a casa vazia, a rapariga doida indo embora, roubar o seu menino! Então, rapidamente, correu à cadeira onde as calças estacionavam, sacou o telemóvel, como se saca uma carteira, e falando com alguém no telemóvel, o taxista partiu à descoberta de seu filho... Também ele sofria pelo seu menino! Quantas vezes, com o bebé agarrado ao colo, ele pensava na sua fragilidade, no seu longo crescimento, nos anos lentos que seriam antes que ele fosse ao menos do tamanho de chegar com os pés aos pedais, e naquela mãe imatura, de temperamento mais insosso que o lavado e coração mais insosso que o temperamento, faminta do repouso, e residente com os pais acima da sua antiga casa uns metros adiante! Pobre bebezinho de sua alma! Com uma ternura grande o imaginava entre os seus braços. O taxista lá ia, irrequieto, remexido, devorando quilómetro a quilómetro, num pensamento que o fazia sorrir, lhe molhando todo o rosto, entre os seus cabelos desalinhados. Bruscamente, se acercou da porta da casa da rapariga e recuou, como que adivinhando ir armar grande banzé. Sabia perfeitamente que ia! Então voltou para trás.

E passado momentos, a rapariga chegou a casa dos pais. Bateu à porta com um alívio, como cai um fardo de cima. Um choro abalou o chão de pedra. Era o bebé a chorar, o seu choro madrugador. Nos seus choros havia porém, mais sono que fome. O bebé então parara de chorar! Tocado, ao sentir, entre o mimo e a chupeta, embalado, pela mão forte da mãe, acordara, ele e o seu olhar maroto… — quando a mãe da rapariga, deslumbrada, com os olhos bem abertos, olhou o menino que despertara. Foi um espanto, uma alegria, quando a mãe da rapariga ergueu o menino nos braços, manifestando a sua força hilariante, abraçou apaixonadamente o neto abençoado, e o beijou, e lhe chamou netinho do seu coração… E entre aquela caloria que se soltava ali, veio uma boa, desejada alegria, com promessas de que fosse ajudada, relativamente, a filha regressada para alimentar o seu bebé. Se não como podia ela sustentar um filho? Se não tinha um emprego? Então o velho pai lembrou que ela fosse levada ao tribunal de menores, e dissesse de entre outras coisas, que era uma mãe solteira, desempregada, e que esperava receber todos os subsídios que a lei confere… A rapariga tomou o caminho do pai. E sem que o seu rosto de branca perdesse a rigidez, com um andar de defunta, como num sonho, ela foi assim apresentar-se ao tribunal de menores.

Pais solteiros, mães solteiras, familiares, rode ganapada, lá estavam entre aquela multidão que se apertava na entrada. As altas portas do tribunal abriram lentamente. E, quando um funcionário, se assumiu à porta, de face vermelha, com montes de papelada, e chamou a rapariga e o motorista de táxi, todos os demais se remeteram ao silêncio durante segundos. Um grande «Ah!» voou da boca do taxista que respondera. Depois houve uma pausa, curta. E no meio da sala, envolta na mudez preciosa, a rapariga não dizia uma… Apenas os seus olhos, reluzentes e firmes, se tinham erguido para aquele funcionário que, além dos processos em suas mãos, era portador de determinações e decisões. Era lá, nesses processos de foro conjugal que estava agora o destino do seu menino!... Então a rapariga sorriu e estendeu a mão a uma caneta. Todos seguiam, sem articular uma palavra, aquele lento movimento da sua mão a assinar o documento. Que assinatura grandiosa, que punhado de papeis, estava ela a assinar? O funcionário lia o processo — e a seguir ao ponto final parágrafo, entre uma recolha de testemunhos, revelou a decisão. Era uma decisão assinada pelo juiz a que conferia à mãe a tutela do bebé, a título provisório. O motorista de táxi deixara de ouvir o fim da leitura, e com o semblante carregado de revolta, apontou para a parede, onde um quadro de uma velha balança, com dois pratos carregados de vários símbolos, e que simbolizavam os valores da lei, encarou a rapariga, o funcionário, e gritou:

— Dei-te o meu filho, e agora vou pagar-te o seu sustento e fico sem ele!

E cavou as solas no chão.


Friday, June 17, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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O EMPREITEIRO


Eu tenho um precioso amigo (o seu nome é A. Jesus de Sousa) que me emprestadado um dia cinquenta contos, num cheque, para eu desenvolver o meu negócio de cervejaria. Foi no tempo, onde me estabeleci, ali perto da zona do Marquês de Pombal, no Porto, investindo todas as minhas economias, para tentar a minha sorte, Jesus de Sousa fora sempre mais correcto e leal, que um companheiro de infância. Construía prédio de andares, grandes e pequenos, com uma rapidez impressionante, substituindo espaços velhos por bonitas habitações rodeadas de bons verdes e de boa localização, logo oferecia àqueles que as comprassem, um variado conjunto de acabamentos e de zonas de lazer, mais comodidade e facilidades do que a vida oferecia ao meu amigo Jesus de Sousa. Não teve subsídios e não teve ajudas de ninguém. Nunca esmoreceu, mesmo no tempo em que se vê uma crise na Europa, os tormentos das prestações. Nos seus empreendimentos foi sempre bem tão sucedido como o feliz dos mortais. Da vida só experimentara o êxito — esse êxito que a vida invariavelmente partilha a quem o conquista, como os leões com ligeireza e valentia. Ambição, sentira somente a de entender bem as ideias gerais, e a «ponta do seu iceberg» (como diz o tradicional Zé-Povinho) não estava ainda a meio do percurso… E contudo, desde os trinta e picos anos, Jesus de Sousa já se tinha distanciado de outros empreiteiros menores, e duas, três vezes por dia, suava, com um suor escorregado e lento, passando os dedos grossos sobre os cabelos compridos loiros, como se neles só apalpasse segurança e riqueza. Porquê?

Era ele, dos empreiteiros que conheci, era aquele o mais simples e amigalhaço que se munira de mais quantidade de obras em pré-início e terminação. Nesse último empreendimento (situado na rua de Gondarém) que ele construíra sobre uma velha moradia do século XX, assoalhada a carvalho e branqueada a azulejo branco — havia, penso eu, tudo quanto uma família opte pelo descanso e pela paz de espírito. A praia — que em duas caminhadas de trinta passos, largos e compassados, circulando a rua desde os passeios até ao areal, donde se deslumbrava o sol e o mar que, reflectiam uma atmosfera brilhante e calma. Uma tarde que eu desejava apresentar um amigo engenheiro negro interessado em investir, percorri, em busca deste empreiteiro ao longo das construções, dezoito quilómetros de ruas! Assim se achava fortemente abrigado o meu amigo Jesus de Sousa, de tantas obras essenciais para o desenvolvimento económico. E o único entrave destes grandes empreendimentos era que todo aquele que lá entrava, inevitavelmente lá não sairia limpo, por causa dos materiais que, provinham de diversos sítios ainda alguns em fase descoberta de janelas ou portas. No fundo, o que interessava mesmo era encontrar Jesus de Sousa, e lá fomos dar com ele ao seu posto de trabalho, na rua do Crasto, sentado numa cadeira-secretária em fina prancha móvel, e em torno dela prendiam imensos apontamentos de papel que, atados a clipes de plástico cor de torrado e cor de areia, pareciam pontos de referência e suspensos numa linha horizontal de tijolos.

Nunca recordo sem pasmo o seu posto de trabalho, repleto todo de pequenos utensílios de escritório para variadas funções! Uns dossiers de várias páginas para escrever; e largas folhas de papel vegetal em que estava desenhado a planta do empreendimento para servir de guia aos promitentes interessados. O que, porém, mais me chamou a atenção àquele posto de trabalho, eram os inúmeros telefonemas recebidos. Constantemente sons curtos e secos emitiam no ar quente daquele piso. Trrim, trrim, trrim!... Era o meu amigo atendendo. Numerosos fios enrolados que atravessavam pelo chão e pelas paredes e nem sempre, infelizmente, se comportavam seguros e eficazes! Jesus de Sousa reconhecera do outro lado do fio a voz do angariador predial, um parceiro estimado, e no momento de o despachar, exclamou com firmeza e autoridade:

— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?

Pois, numa abençoada paragem das comunicações, o meu amigo engenheiro, querendo já sinalizar três ou mais fracções orientado pela planta topográfica, desejou saber valores imediatos. Mas, hábil ou cauteloso, certamente desinteressado de vender nesta fase — porque de repente o meu amigo empreiteiro começa a inventar, sem lógica, valores indetermináveis. Baralha-nos, e retiramo-nos para uma sala do piso abaixo, completamente revestida de acabamentos de primeira, que servia de modelo. E de novo a voz de Jesus de Sousa entoou, entre os adornos dos acabamentos, majestosa e sonora:

— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?

Abalamos para a rua, apertando afincadamente os lábios para nos conter, e sacudimos em vão o pó sobre os fatos. Mesmo à saída, onde nos despedimos, a voz rouquejara, empastada mas sonora:

— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?

Saímos acelerados para o carro. Era de tarde. Um fresco rosto de rapariga, de volta do carro das castanhas, passava exclamando com um cartucho de castanhas:

São quentes e boas
As castanhas da Lurdes Canoa…

Jesus de Sousa, respirando o ar tardio, esfregava os olhos da lenta sonolência. Apareceu no bar, com o sol já pirado. Muito devagar abriu a porta, como no medo dela cair para o chão. Logo que ele se sentou, servi umas águas minerais e fui dar um arranjo para o jantar. Bem me despachei lesto para arranjar a sala de jantar, num preparo simples e íntimo. À mesa só cabiam as camareiras do bar, e amigos como Jesus de Sousa que o bar acolhia no critério da amizade. Realizavam-se ali diariamente jantares que, pela sua versatilidade, lembravam os de Robim dos Bosques. Ao fim da garfada, ouviam-se histórias rocambolescas que cada uma das camareiras contava em forma de entretenimento. E cada uma camareira tornava-se desejosa por conhecer as histórias umas das outras. Assim tornou-se um serão de bom humor e riso. E de convidados havia sempre no repasto uma curiosidade em ver, quem era o senhor presente. A sala, um logradouro forrado a chapa de alumínio, possuía um toldo rolando na manivela, paredes pintadas a branco e ao centro brilhava uma mesa comprida de forma, toda branca e cadeiras da mesma tonalidade, que a tornava convidativa às tertúlias e repastos.

A cozinheira, ex-camareira Mara, era daquelas que não aprendera nos livros o segredo da cozinha, mas que sabia como ninguém a arte divina de «temperar e servir a Goela»; e na sala de jantar, os amigos da casa não havia quem não votasse na cozinheira Mara, para as suas comezainas. A sua sopa de agriões e ovas de pato, os seus filetes de carapau com puré de frutos secos, os seus morangos em calda de velho Porto, e vinho de tigela de barro. Tal menu dessa cozinheira extraordinária parecia, pela apresentação, pela graça dos arranjos das travessas, pelo sabor dos paladares, uma jóia combinada dos grandes mestres da culinária. Quantas noites, eu fotografei e escrevi em Contos de Ratazana aqueles serões de convívio de excelentes histórias, antes que elas enchessem o saco! E esta abençoada hora do comer condizia deliciosamente com a do beber. Por sobre uma toalha de pano castanho, mais curta do que o tamanho da mesa, conversavam, como pitos no aquário, seis camareiras e um porteiro gordo, em alegre confraternização. Os pratos vinham da cozinha pela mão da cozinheira fumegando a olhos vistos.

E se bem me lembro de uma segunda-feira de Abril em que, jantando com Jesus de Sousa um vendedor, o novato vendedor da Predial, a espinha encravou no meio da garganta, sendo preciso que o acudissem, para a extrair, com meia dúzia de cachaços. Nas tardes em que havia «jantares de Robim dos Bosques» (que assim denominei essas tertúlias de convívio salutar), eu, dono e amigo, aparecia ao inicio e deixava-me lá ficar até ser rendido. Quando o meu amigo Jesus de Sousa, chegado na sua roupa secundária, se acercava da sua obra, abria com força uma porta da arrecadação e começava… Começava pelos materiais… Com um bloco de folhas e um lápis grosso e aguçado, contava as faltas e as saídas, nas prateleiras, aos bidões, e latas pequenas… Respirava e pensava. Depois, com uma vara de longo alcance, fixava a altura dos mosaicos e contabilizava coisas de menor monta. E a partir de aqui Jesus de Sousa ficava diante da obra, esperando pelos seus operários, durante quinze minutos. Preparado e fresco, ia alimentar o estômago. Voltava para o seu posto de trabalho logo depois. Dois operários, ao centro, manobravam com mestria e rigor os guindastes da obra — que era apenas um começo dos alicerces monumentais da obra. Nunca eu, para dar um recado, entrei naquela obra sem palco — nagado da manhã cinzenta de Março em que inesperadamente, soltou-se o cano, a força de cimento a cem à hora voou, silvando e fumegando, avassalador… Fugimos todos, apavorados. Um protesto abalou na obra. O veterano trolha, empregado que era mestre de trolha de Jesus de Sousa, ficou borrado de bocados de cimento nas faces, nas mãos vagas.

Quando Jesus de Sousa acabava de se arranjar cuidadosamente para mudar de circulação, corava, com um corar reluzente e veloz. E era este corar, rosado e vistoso, que nos regozijava a nós, seus amigos e empregados. Nada faltava a este homem bom. Ele respirava saúde de ferro, crescido nas obras; uma luz da sabedoria, pronta a tudo iluminar, firme e sem tremer; Meia dúzia de magníficos negócios; todas as admirações duma classe invejosa e caduca; uma vida saída de pesadelos, mais solta e bela do que uma rosa de estufa… E contudo corava constantemente, apalpava a cara, com os dedos grossos, a rigidez e as bochechas. Aos trinta e picos anos Jesus de Sousa arredondava, como sob um balão justo! E pela rápida energia de toda a sua acção parecia ligado, desde a cabeça até aos pés, pelas malhas soltas duma situação que se não via e que o puxava. Era enternecedor testemunhar a vontade com que ele, para aceitar um pedido, mesmo nos seus momentos difíceis, se sentia forte e encorajador, e bradava com o que lhe ia na alma: «A sorte seja servida! A sorte seja servida! Claramente a vida para Jesus de Sousa era uma alegria — ou por trabalhosa e fácil, ou por interesse e fértil. Por isso o meu bom amigo procurava firmemente juntar à sua vida novos fascínios, novos interesses. Um borracho, uma moça de muita fibra e simpatia, estava empregada no bar e enamorada dele, dava-lhe todas as chances dele avançar com o romance. De resto, ele próprio se batia por ela.

E, pelo lado do pensamento, Jesus de Sousa não escusava também de ir buscar interesses e emoções que o fortalecessem com a vida — circulando à cata desses interesse e dessas emoções, pelas zonas mais desmistificadas do prazer, a ponto de beber, desde Fevereiro a Abril, setenta e quatro uísques de reconhecida qualidade. E era então que ele se privava com alguma liberdade, no recanto do bar, nas horas de conversa que ele tirava, porque dizia que quanto mais se sabe, mais se pensa. Ora justamente a partir desse Inverno, em que ele se empenhara na conquista da amizade e focara o olhar no alvo do seu zoom, foi que Jesus de Sousa conheceu Gilda, a moça de muita fibra e simpatia, e foi com demasiada afeição que ele se preparou, durante cinco semanas, para esta grande aventura. Jesus de Sousa logo nos princípios de Abril, conversara demoradamente com Gilda, que morava num quarto de uma hospedaria, incentivando-lhe que alugasse um apartamento, saísse do bar, enveredasse por outro viver. Depois disso tratado, mandou decorar por empresas rápidas, os móveis e outros equipamentos precisos, que proporcionassem todos os confortos necessários. Por fim, partiram numa manhã e tiraram duas semanas de campo para restabelecer forças para a fase seguinte.

Três semanas antes jantara ele com Gilda e mais as empregadas do bar. Nessa noite ouvira a história de Zi sobre o namorado que ela contava de uma maneira original e bairrista, «que quanto mais pesava o namorado, mais ela se encavalitava por cima dele, e por ter menos sessenta quilos, obtinha todos os gozos possíveis e deliciosos…» A gargalhada era tanto como a graça… Dizer os palavrões pelos nomes, não era para todos. Nem creio mesmo que fosse para o amigo Jesus de Sousa. Mas para Zi, aquilo era tão banal e tão simples… Jesus de Sousa à frente, na altura do copo, murmurava:

— Ah! que moça!


Eu ao lado, na cadeira, com as pernas tesas, murmurava:

— Ah! que moça!

Por entre estes «Ahs!» extraordinários, trocamos a sala pelo bar, que nos pareceu confortável e quente. Atirando uma expressão à inglesa para o ar, o porteiro Neves, com o seu Moby Dick na mão, gritava:


— Here, it is!


Depois do jantar a música calma dos Beatles havia embalado para uns momentos agradáveis. E mal Jesus de Sousa se sentou, eu levei-lhe um uísque dos seus, no momento que correu para nós, da entrada do bar, um indivíduo de cabelos esbranquiçados, rápido como uma lebre, com fato e gravata, que erguia para o ar, numa admiração, os braços arqueados. Era o imobiliário, Manuel Costa. E logo ali, nos sofás castanhos, entre o som do ambiente, surgia uma oportunidade de negócio que o bom Costa tentava, sereno, e que enchia o rosto de Jesus de Sousa de corado e de resignação. O imobiliário, Manuel Costa, não esperava tal dificuldade. E andava desde a semana, a tratar de encontrar Jesus de Sousa porque tinha na sua agenda uma proposta para a compra de umas lojas comerciais. E infelizmente para ele, as lojas ainda estavam sem preço, e as vendas sem autorização… Cruzou os braços, num rápido espanto, e fechava os olhos pequenos, onde já dançavam números. E na sua moderação, Manuel Costa procurava entre o não e o sim, ganhar o exclusivo para as próximas vendas… Os preços? Não, não tinha os preços!


Foi então que a namorada de Jesus de Sousa (que trouxera a amiga e agora vizinha) se acercou, e logo o fez sorrir à mesa. Já quando as tinha servido duas taças de sumo e aperitivos secos, o imobiliário, resignado, via assim a conversa interrompida, por interferência das duas jovens. Por isso ele, educado, sem perder a fibra, saíra da mesa — e lá os deixara em sintonia, a sós, embrulhados nos mimos… Manuel Costa estava plantado em frente de mim, com as mãos no casaco:


— Como é?


Nada restava senão acabar de beber, comer os aperitivos do bar, e dar com as pestanas a bater nas meninas do bar. Falamos, sobretudo, onde havia temas para animar o espírito — quando Manuel Costa foi buscar uma menina de companhia, e veio me avisar que «estava preparando para dar uma riparada na sua mademoiselle…» Voltamos ao balcão, Com estas consoantes de copo e cama, lá abarcou acasalado, e levantou para mim um sorriso, murmurando com interrogação:


— Vou bem?


Eu respondi:


— Vais óptimo!


Em ensaio, o ilustre imobiliário apalpou a sua presa e sentiu nela a rigidez dum rochedo. Depois, correndo com ela num impulso louco de desejo, sumiu-se para fora do bar! Tarde, de madrugada, sem rumo, para não adormecer Jesus de Sousa, que, com as mãos sobre o volante do seu Jaguar, sentia impacientemente no seu coração de doçura, a ausência de Gilda. Partimos à sua procura. E durante quatro mexidas horas, por aqueles locais, onde se instalam os vícios e os prazeres imediatos, não demos com ela, que decerto fugira dos seus hábitos e mergulhara no escuro da noite. Depois, descendo por umas ruas mal amanhadas de Monte dos Burgos, de novo trilhámos a rua principal, e fui bater à porta daquela hospedaria onde ela se encontrava, mas ninguém deu qualquer indicação. Assim, esperamos dentro do carro, entre o furioso latir dos jecos (cães). Por fim, a namorada de Jesus de Sousa apareceu alvoraçada a apear-se do táxi. E a sua deixa foi logo que o meu amigo Jesus de Sousa tinha andado lá nas gajas dos copos com os amigos nos bares do Porto.


— Então, onde é que te meteste, Jesus de Sousa?
— E tu, onde é que te meteste, Gilda?
— Andei à tua pergunta?
— Eu também!

Mas que confusão! O meu amigo Jesus de Sousa estava, enfim, povoado de censuras! Assisti impávido. Ambos ralhavam e ninguém se entendia. No palco do asfalto, onde o escuro fora juiz, já não bastava as palavras ternas para resfriar os ânimos — dizia com elas duramente da boca para fora… Onde fui eu? Era uma interrogação. E tudo o que ela contou, atirando aereamente com os desabafos para o ar, foi que se sentira, ao fim de dois dias no quarto sozinha, como abandonada, mandara vir umas cassetes de vídeo, vira cinco filmes nunca terminados, e ali estava…

— Por onde andaste?
— Sei por onde andei! E agora, minha querida, vem fazer uns mimos que eu desejei, e compreende enfim o que é o Amor.

E envolvido naquele turbilhão de linguado remoto, acabei por me esticar na cadeira confortável do carro, fechei instantaneamente os olhos, murmurando:

Felizardo Jesus de Sousa!
O amor é louco…

Já mesmo arrebentado adormecera sobre o abençoado banco de trás, quando me despertou um impulso amigo. Era Jesus de Sousa. E imediatamente o comparei a uma sentinela meio tesa e envolvida no escuro, que fora profundamente acordada e rodopiara em pleno sol. Não corava. De tarde, iniciada a confusão, aparecerem vários clientes da província, para tomar uns copos, e ver umas trutas que eu saquei. Jesus de Sousa estava diante de mim a contemplar as garrafas expostas. Com as mão aberta e forte batia no tampo do balcão, como nas costas de amigos adormecidos. Depois de uma bebida dobrada, apeteceu-lhe um prego em pão, a que a cozinheira Mara teria confeccionado um especial mesmo de carne de primeira escolha. 

— Que espanto, a carne é deliciosa!

Conversamos sobre a Sorte e o Sucesso. Eu citei, com discreta ironia, Ferreira dos Santos e a Nova Gaia… Logo Jesus de Sousa ergueu a cabeça, com seguro apoio. A sua admiração nesses dois colossos da construção aparecera, e consequentemente, sem querer mais acrescentar, como uma brisa que o ar espalha. Variou de tema. Contou que o caso da noite passada, não se passara mais de que uma pequena birra. Mas bastava que um homem fizesse umas festas, para ver as reacções e os conflitos, logo desapareciam. No amor tudo vive -- e só quem sente a dor, conhece a desilusão. Eu escutava-o com discrição, este Jesus de Sousa refinado. Era francamente um postal no magnífico estilo de homem bom. Quando recolhi à minha cama, àquelas horas boas que convém ao corpo e ao Espírito, pensei em mim que ele enfim alcançara a verdadeira tranquilidade, porque possuía a verdadeira estabilidade, gritei-lhe os meus congratulations à maneira do actor de A Volta ao Mundo em 80 dias:

Viva a Felicidade, amigo Jesus de Sousa!

Daí a momento, através do sonho que nos englobava, ouvi uma gargalhada alta e consolada. Era Jesus de Sousa que lia O que hoje ainda se deve fazer: uma rapidinha. Oh bom Jesus de Sousa! Começava a aprender o dom divino de rir! Tantos anos vão passados. Quase trinta anos, Jesus de Sousa já não habita na sua morada. As paredes do seu repouso agora são outras, bem mais diferentes.

De Verão veste uns calções e apanha uns banhos de sol. Com a sua admirável pachorra, já leu o Camões. Não vai a restaurantes. Nos passeios matinais, pára e assobia aos cães. Todos os clientes do antigamente o estimam. Na sua relação com Gilda (que já não existe), nasceu um filho que mantém laços de amizade. Ouço que se vai aposentar com uma boa, gorda e bela pensão social. Decerto viverá dali numa mansão, que será protegida do Senhor!

Como eu, ainda há pouco tempo, andei a basculhar a sua nova morada, fui depois destes trinta anos, ao bar, que já o trespassei. Cada passo meu sobre os coçados mármores de castanho e branco soou melancólico como num funeral de mortos. Todos os amigalhaços estavam reformados dos vícios, fugidos. Emanara dali um ambiente novo de caras desconhecidas — e eu parti, com a mão apoiada no queixo, certo de que naquelas centenas de objectos oferecidos ao bar pelos clientes nas suas viagens, não estavam mais de metade deles no activo! E, como esfriava nessa tarde de Outubro, tive de vir para casa, pedir ao fogão de sala que me aquecesse.

Ao descer a rua da Constituição, entrei no escritório de vendas de Manuel Costa e não dei com ele. Atendeu-me a empregada do contencioso e reparei num monte de projectos, pastas de arquivo, computadores, impressoras, fax, plantas topográficas, secretárias… Empurrei com a mão o oleado que tapava a máquina de escrever, cansada dos seus escritos, com o teclado universal iniciando as letras azerth, era ainda uma relíquia decorativa e estimada. E ali jaziam, tão seguros e confortáveis, aquelas boas invenções, que eu abalei sorrindo, daquele pequeno mini gabinete imobiliário.

O frio de Outubro parara: os vidros remotos da cidade embaciavam sobre um poente de creme. E, através dos passeios mais amenos, eu ia pensando que afinal esta vida dá muita volta, e que muitos homens, com uma profundidade mais profunda do que é a Volta, fariam como eu, com a pedra no charco da sociedade, e, como eu, sorririam alegremente da grande quimera que findara, no termo e coberta de lixo.

Àquela hora, certamente, Jesus de Sousa, no jardim da sua mansão em Foz do Douro, sem cadeira-secretária e sem apontamentos de papel atados a clipes de plástico, reentrado na harmonia, via, sob a tranquilidade serena da manhã, ao reluzir do pôr-do-sol, a maré bazar entre o canto das gaivotas.

Saturday, May 28, 2011








CONTOS DE RATAZANA
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NO BAR



Isabelinha era vista em todo a rua como «uma menina-fina». O senhor João, dono do Café, sempre que se falava nela, dizia de sua justiça, acariciando com respeito uma madeixa de cabelos:

— É uma jóia! É o que ela é!

A rua tinha quase vaidade no seu encanto formoso e enternecedor; era uma branca, de perfil fino, e os olhos escuros de um tom de castanho, e dumas pestanas finas que escureciam mais o brilho fundo e doce. Tinha saído de casa e morava agora numa outra rua, num quarto alugado numa residencial de três estrelas; e era, para a gente que aos fins das tardes ia fazer as palavras cruzadas até ao bar, um desejo sempre novo vê-la por trás de uma mesa, sentada sobre a sua saia, de cor cinza, absorvida e sossegada. Poucas vezes faltava. O bar, interiormente, parecia alegre. Falava-se em tons baixos, porque o dono, nas mudanças que efectuara que lhe davam as ideias, elogiava-se de que assim o ruído era menor; havia sobre as prateleiras envidraçadas uma quantidade de garrafas de diversas bebidas, um balde de gelo, timbrado a letras de marca; algumas tabelas de preços que ornavam as mesas com tampos de vidro, um ar sempre renovado por conta do aparelho ao fundo da sala; e era uma alegria ver algumas vezes meia sala cheia de clientes, ou em volta do balcão, agrupados em conversa com os copos nas mãos.

Isabelinha fugira de casa, tinha dezoito anos. Mesmo em criança, em casa dos pais, a sua existência fora atribulada. Os pais eram umas criaturas conservadoras e rigorosas, que se empenharam por uma disciplina culta e cumpridora. E quando pediam à filha para voltar, apesar da acalmia já, ela não voltou, sem explicação, quase como uma despedida, para salvar a liberdade que adquiriu, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam enervar, saindo pela porta da casa onde antes tinha entrado. Não amava os pais decerto; e mesmo na rua tinha-se lamentado que aquela linda figura de anjo, aquele rosto de fada, fosse cavar por outro caminho que não fosse o mais correcto. Mas aquela família que lhe vinha no sangue, aquelas criaturas inconstantes, que depois pareciam cair-lhe nas mãos, apesar dos seus modos pacíficos, cansavam-na. Às vezes, só, fazendo as suas palavras cruzadas, passavam-lhe as ideias pela mente: uma rebeldia da mocidade invadia-a, como uma chama que lhe fortalecia a alma. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem cor-de-rosa e bem folclore. Sempre quisera desde moça uma curiosidade, um desejo, um capricho: tudo a entusiasmava na Terra desde as horas das discotecas e o convite dos seus amigos. Todo o prazer lhe era gostoso quando era para se passar. Apesar de irrequieta, passeava horas fazendo os Passatempos, que era o mais relaxante, com o tempo que perdia com os seus inúmeros jogos ficava calma. Durante as saídas para as discotecas, não chegava antes da manhã romper, deitando-se sobre a cama, lendo, ouvindo música até cair em sono pegado. De tarde estava um pouco mais branca, mas toda pronta na sua saia cinza, mexida, com os sapatos bem engraxados, compondo-se bonita para ir dar os vistaços do costume ao café. A sua única ocupação era à tarde sentar-se à mesa com o seu livrinho de jogos, e a clientela em roda, alinhando nas suas conversas, falando alegremente, bebendo os copos que lhe davam percentagem. Vendo-a assim tão espevitada e tão declarada, algumas mulheres da sua rua afirmavam que ela era ajuizada: todavia ninguém a avistava de dia, excepto ao domingo, com a visita à oficina do pai ou à casa da madrinha, toda senhoril no seu vestido de bolinhas vermelhas. Na verdade, o seu dever limitava-se a esta visita de duas em duas semanas. O seu modo de vida ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações da família; naquele dever de má filha, cumprido sem amor, tinha descoberto uma nova satisfação suficiente à sua sensibilidade; não necessitava rogar aos Céus, ou enternecer-se com os seus. Além disso nunca tivera estes sentimentalismos de alma chorona que levam ao dever. A sua nova experiência de se tornar independente, de ser ela o centro de comando, o amparo de si própria tornara-a doce, mas realista: e assim era ela que administrava agora as suas economias, com o senso que a situação exigia, uma solicitude de rapariga dotada. Tal ocupação bastava para entreter o seu dia-a-dia: ela, de resto, detestava fazer visitas, a conversa de coisas pessoais, as revelações de confidências; e passavam-se semanas sem que em casa de Isabelinha se ouvisse outro desabafo estranho ao telefone, que não fosse o do pai — que a adorava, e que dizia para ela com a voz roufenha:

— Volta minha jóia! Volta minha jóia!...

Foi assim grande o escândalo, quando os pais de Isabelinha receberam uma notícia dum vizinho, que lhe informou que a quinhentos metros dali da rua, a sua filha era vista num bar de alternos. O bar era uma casa célebre, e a sua clientela era da melhor casta que há de noctívagos. Viajara muita clientela mesmo de Lisboa, só para conhecer o seu habitat e as meninas de companhia. O bar era um ponto de encontro: e o seu nome, «Lord», um toque de inglês, expressado a bom estilo, consagrara-o como um pioneiro. A sua fama, que passara até outras fronteiras, num rótulo de publicidade, apresentava-o como uma paragem obrigatória da cidade do Porto, preferido das bonitonas, sumptuoso e fascinante, destinado a uma alta burguesia na cidade. Os pais ficaram chocados com esta notícia. Viam já a sua filha em confusão na presença de um ambiente daqueles. Depois o contacto daqueles mundanos, com as suas máquinas topo de gama, o cheiro dos seus perfumes, as suas histórias de bons, no barulho ruidoso de um bar, davam-lhe a impressão assustadora de uma perdição. Foi por isso uma surpresa, quase um reconhecimento aos Céus, quando Isabelinha visitou os pais, e muito à-vontade se serviu do frigorífico para tirar um copo de leite fresco e beber… Depois comentou:

— Eu tenho os meus desejos, vocês tem os vossos… Não nos vamos chatear, ah?... O que faço é vir cá visitar-vos. De resto, não estou mal como estou… Estou num bar onde as pessoas são amigas e deliciosas… E ficamos por aqui, ok?

Os pais de Isabelinha olhavam-na assombrados: aquela única filha, aquela cara de anjo por quem choraram tanto, aquela inocente que os bares cobiçavam, era uma rapariga extremamente ingrata — muito mais confusa, mais melindrosa que o que eles pensavam! Nem uma palavra disse mais, cavando dali silenciosa. O serviço do bar era interessante. Era um local de convívio, digno de um bom vivant, sobretudo a partir da tarde em que os clientes lá iam, com a pança bem agasalhada, os corpos esticados no meio dos sofás, e todo o género de piropos de conquista fácil, iludindo, cantadas entre os copos e os apalpões, deixando no ar a fria da ilusão, da aventura, donde saíam as cantadas. O bar ficava num rés-do-chão dum prédio baixo, com a sua velha fachada de vidro espelhado, a sua porta de ferro alta, cor castanha, rodeada de casas comerciais, situado sobre a zona alta da cidade. Isabelinha achou o bar de Fernando digno dum poema de Luís de Camões, e talvez por isso, se tenha encantado. Como ela veio um pouco mais cedo, não se quis sentar, antes quis ficar de pé, beber um drink, ali no balcão… Fernando serviu-a:

— Eu só queria uma pedra de gelo sobre o bourbon, por favor!
— Mas que pedal, menina! — exclamou Fernando admirado. — Um anjo que entende de bebidas!

Pela primeira vez na sua vida Isabelinha corou com a palavra de um homem. De resto tomou logo a iniciativa de lhe tirar as medidas… Nem alto era: e com o seu bigode cheio sobre uma face magra e morena, a camisa alaranjada de meia manga cobrindo a cintura num corpo elegante e pequeno, as suas mãos oradas, parecia-lhe a ela um dos ourives de lojas que às vezes encontrava, quando uma vez por outra ia visitar as ourivesarias no centro da cidade. Além disso não dava bocas; e a primeira vez que veio servir à mesa onde ela se encontrava com o cliente, falou apenas, com grande exuberância, do seu negócio. Falara para ele. Do início do bar, o único bem que possuía, que não desejava além disso trespassá-lo… O que ele desejava era aumentá-lo. E isso parecia-lhe a ele não ser tão difícil como andar na lua!… E vibrava sinceramente ver o bar agora, aumentar dia-a-dia, com a ajuda de todos a dar os seus contributos. No outro fim-de-semana Fernando foi fazer compras e achava-se perto da residencial da Rua da Constituição, e era um dia de Janeiro húmido e cinzento, e ele vinha a pé com duas sacas de compras, da lista das suas faltas para o serviço. Foi por isso, com grande alegria, que ela viu Fernando a acenar-lhe do outro lado da rua, e chamá-la com um sorriso aberto:

— Não queres vir tomar um café comigo?
— Por que hei-de dizer que não? — disse ela.

Ao princípio, acanhada por aquela companhia de um rato, a boa miúda caminhava junto dele com o ar de um rouxinol assustado: apesar de ele ser mais velho e ser uma pessoa tão simples, havia na sua figura vigorosa e seca, no timbre típico da sua pronúncia, nos seus olhos castanhos e vivos alguma coisa de dominante, que a envolvia. À entrada para o café, como ele se deixara ficar para trás para lhe dar a prioridade, o contacto daquela mão branca e forte de artista da noite, nas suas costas motivou-a extraordinariamente. Instalaram-se numa mesa do centro e o empregado trouxe dois cafés — e a conversa de Fernando foi lenta e divertida ao mesmo tempo. Ele parecia solidário daquele problema dela. Deu-lhe uns bons conselhos: o que os pais necessitavam era carinho, amor, uma outra atitude que aquele isolamento de comunicação… Ela também assim o julgava: mas quê!, os duros pais, sempre que se lhe falava de ir passar algumas horas à discoteca, passavam-se logo dos carris: tinham horror às noitadas e às ramadas: a Noite escura fazia-os quase desmaiarem; tornaram-se uns seres postiços, escondidos entre as paredes da casa… Ele então sossegou-a. Decerto deveria haver alguma maneira do caso se tentar resolver… Mas enfim, ela devia saber bem o caminho que desejava seguir além daquelas duas paredes, empastadas do cheiro do vício…

— Que hei-de eu querer mais? — disse ela.

Fernando calou-se: pareceu-lhe anedótico pensar que ela desejasse, realmente, o Príncipe de Gales ou o Rei da Malásia… Já ele pensava diferente, pensava noutros apetites, nos desejos do coração insatisfeito… Mas isto pareceu-lhe tão inoportuno de dizer àquela criatura inocente e pura — que falou do ambiente…

— Já vai para o bar? — perguntou-lhe ela.
— Tenho de acabar o resto das compras, se quiseres ir para lá, só demoro um pouco, menina.
— Vou-me arranjar.

Ficaram de se reencontrar nesse esconderijo de ilusão, que era a aventura do bar. No café, a pequena conversa entre ambos criou uma aproximação maior entre Fernando e Isabelinha. Aquele contacto, que ela curtia com uma habilidade de estudante, colocava entre eles como que um interesse mútuo. Ela falou-lhe já sem muitas reservas quando voltaram. Havia nas atenções dele, dum respeito honesto, uma atracção que a sua mágoa a levava a revelar-se, a oferecer-lhe a sua confiança: nunca se abrira tanto a ninguém. De resto as suas queixas eram sobre a mesma mágoa — a tristeza do seu interior, as divergências familiares, tantas coisas por fazer... E vinha-lhe por ele uma nutrição, como um secreto desejo de o ter sempre ao seu lado, desde que ele se tornava assim confidente das suas mágoas. Fernando voltou para o bar, impressionado, fascinado por aquela miudinha tão só e tão meiga. Tudo nela rimava agradavelmente: o negro do cabelo, a doçura da voz, a simplicidade no trato, e a linha elegante do seu corpo davam uma sedução: era um anjo que vivia há muito tempo numa gaiola fechada e estava por isso atado às trivialidades de família: mas bastaria um bufo para o fazer chegar aos planaltos da lua… Achava disparate e grosseiro fazer a corte à miúda… Mas irreflectidamente pensava no formidável prazer de fazer badalar aquele coração que não estava viciado pelo vício, e de pôr enfim os seus lábios numa boca onde não houvesse batom… E o que o puxava além disso era pensar que poderia percorrer toda a terra em Portugal, sem encontrar nem aquele lindo rosto, nem aquela virgindade de coração ignorado...

Era uma oportunidade que não voltava.

No bar o ambiente era frenético. Depois de Fernando descarregar o conteúdo das sacas nos frigoríficos, voltara-se para a cozinha, que estava cheia de copos sujos: e ali ficara um momento calado, no canto daquele espaço parado e silencioso, quando Isabelinha entrou e pediu um copo de água. Fernando via-a de perfil, um pouco inclinada, tirando duas do cigarro que a cinza invadia o cinzeiro: era amorosa assim, tão fina, tão terna, duma linha tão delgada sobre o fundo branco da esferovite: o seu modo de vestir era de bom gosto, a sua descontracção tão moderna, mas ele considerava isso uma ingenuidade apimentada. O silêncio das vozes em redor isolava-os — e, energicamente, ele começou a falar-lhe alto. Era ainda a mesma conversa pelo abatimento profundo da sua vida naquele patamar, pelo seu fado de alternadeira… Ela escutava-o de olhos nos olhos, animada de se deixar estar ali a ouvir aquele homem tão experiente, toda atenciosa e achando um agradável sabor à sua atenção… Houve uma altura em que ele falou do bom que era ela ficar ali para sempre no bar.

— Ficar sempre? Para quê — perguntou ela, sorrindo.
— Para isto, para estares sempre ao pé de mim…

Ela cobriu-se de um calor, o cigarro comprido e fino escapou-lhe das mãos. Fernando receou ter-se esticado, e acrescentou logo aquecendo as mãos:

— Então não era divertido?... Eu podia fazer-te empregada de mesas, pôr-te ao balcão… Tu havias de me atrair muita clientela...

Isso fê-la dar uma gargalhada; Era mais bonita quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, o sorriso, o brilho dos olhos. Ele continuou gracejando, com a sua ideia de a fazer empregada de mesas, e de a ver ao balcão, cheio de gente a consumir.

— E eu venho de minissaia, patrão! — disse ela, contente pela sua própria gargalhada, pelo contágio daquele homem à sua beira.
— Vens mesmo? — exclamou ele. — Juro-te que te faço empregada de mesas! Que giro, nós aqui dentro do balcão, ganhando alegremente as nossas vidas, e ouvindo as bocas destes fregueses!

Ela corou outra vez. O fervor que recebeu da voz dele, fê-la recuar como se ele fosse já prepará-la para a função. Mas Fernando agora, agarrado àquele plano, moldava-lhe na sua pintura colorida todo um romance principesco, de uma felicidade sem par, naquele esconderijo de ilusão. E de repente, sem que ela opusesse, prendeu-a contra o peito e beijou-a nos lábios, um beijo ardente e prolongado. Ela tinha ficado corada como tomate: e dois bateres de pestanas voaram-lhe na direcção dele. Era assim tão apetitosa e desejada que ele tornou a beijá-la; ela soltou-se, pegou no cigarro e ficou a fitá-lo, com os lábios a morder, murmurando:

— Você beija bem… Você beija bem…

Ele mesmo estava tão desordenado que nem uma palavra disse. E daí a um pouco entraram ambos calados para a sala. Foi só no balcão que ele pensou: «Fui um aproveitador!» Mas no fundo estava satisfeito da sua intencionalidade. À noite, depois de fechar o bar, foi à procura dela: encontrou-a com o cliente na conversa, sentados a uma mesa perto do balcão. E então pareceu-lhe aborrecido distrair aquela rapariga das suas amizades. De resto um momento como aquele no bar não voltaria. Seria despropositado ficar ali, naquele canto aborrecido do café, desmoralizando, a frio, uma pobre moça… Deu meia volta e afastou-se. Ela desapareceu por uns dias e quando apareceu ao fim da tarde, ele suspendeu-a dela permanecer no bar… Ouviu o que ele dizia, sem lhe trocar o olhar, sem lhe inchar o peito. Mas Fernando achou-lhe o cumprimento da mão tão frio como um moribundo: e quando ele virou costas, Isabelinha ficou voltada para o ecrã, escondendo o olhar dos clientes, fixando abstractamente a imagem que aparecia, com o pensamento, dois a dois, voando-lhe no escuro…

Estava apaixonada. Desde os primeiros dias, a sua figura decidida e atrevida, os seus olhos vistosos, toda a virilidade do seu carácter, se lhe tinham tomado conta da imaginação. O que a fascinava nele não era a sua vocação, nem o seu prestígio no Porto, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela pouco lhe dizia e pouco lhe interessava: o que a encantava era aquela versatilidade, aquele ar sério e saudável, aquela força de vida, aquela voz tão característica e tão desgarrada: e antevia, para além da sua situação ligada a um ofício rasca, outras situações possíveis, em que se vê sempre diante do espelho uma outra face forte e sadia, em que as noites se passam a dormir a dois em cadeirinha… Era como uma rajada de ar ameno, que atravessava, subitamente, a sua almofada a cheirar a mofo e respirava-a docemente… Depois, tinha entendido aquelas palavras em que ele se mostrava tão sabedor, tão leal, tão gentil: e à força do seu corpo, que admirava, englobava-se agora um coração afectuoso, dum afecto enérgico e forte, para a atrair… Este amor oculto invadiu-a, assenhorou-se dela uma noite que lhe apareceu esta ideia, esta ilusão: «Se ele fosse meu namorado!» Toda ela entrou em circuito, apertou fortemente as mãos contra a mala, como desordenando-se com a sua imagem focada, prendendo-se a ela segurando-se na sua força…Depois ele deu-lhe aqueles dois beijos no bar. E desistira!

Então começou para Isabelinha uma vida de desamparada. Repentinamente tudo em seu redor — a desligação dos pais, abandono dos estudos, os seus vícios — lhe pareceu sombrio. Os seus jogos de palavras, agora que não punha neles toda a sua vista, eram-lhe chatos p´ra burro. A sua situação representava-se-lhe como desastre extraordinário: não se agitava ainda, mas tinha desses desalentos, em que caía sobre a cama, com os braços estendidos, murmurando:

— Onde vai parar isto?

Abrigava-se então naquele amor como uma indemnização deliciosa. Achando-o todo de alma, deixava-se repassar dele e da sua lenta influência. Fernando tornara-se, na sua imaginação, como uma pessoa de atitudes sensatas, tudo o que é pensado, e que é tratado, e que dá razão à vida. Não quis de algum modo alhear-se a tudo que vinha dele. Soube de todas as suas histórias, inclusive aquela «Lord» que também gostara, e crescera dum sonho. Estas histórias sossegavam-na, como uma onda de satisfação ao desejo. Foi durante semanas um frequentar constante de nocturnos. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo viciado e preguiçoso. A realidade tornava-se-lhe ociosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua morava, onde encontrava sempre encostado à porta, alguém na mirada. Vieram as primeiras agitações. Tornou-se impaciente e dura. Não suportava ser chamada à atenção de questões sentimentais do seu coração. Veio-lhe a ânsia das bebidas, dos cocktails, dos galanteios dos clientes a tentar. Começou a ver novelas. Passava horas só, num escuro, à varanda, tendo sob o seu olhar de virgem branca, toda a rebeldia de uma enamorada. Acreditava nos amantes que trepam os muros, sob o manto das estrelas: e queria ser conquistada assim, possuída num mistério de noite romântica… O seu coração desligou-se aos poucos da imagem de Fernando e estendeu-se a um ser fictício que a encantara nos personagens feitos heróis de novelas; era um estilo meio príncipe e meio pirata, que tinha, sobretudo, a agilidade. Porque era isto que a atraía, que queria, por que ansiava nas noites frias em que não conseguia dormir — dois braços ágeis como molas, que a abraçassem num aperto profundo, dois lábios de fogo que, em dois beijos, lhe chupassem a alma. Estava uma maluca.

E no meio desta excitação toda do temperamento inconstante, eram fraquezas rápidas, sustos de passarinho que cai, um grito ao ver o céu de negro, um esgar de desalento se não havia na recepção recados muito atractivos… À noite suspirava; abria para o café; mas lá dentro, o mofo quente, da estação a chamar o Verão, enchiam-na dum desejo intensivo, duma ansiedade sensual, que chegou ao momento em que bastaria que um homem chegasse ao pé dela e lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços — e foi o que aconteceu enfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois meses. Era o cliente dos imóveis. Por causa dele abandonou toda a rua. E agora muda de quarto para casa de uma amiga, os mirones atrás vigilantes, sem dormir até altas horas, os pais a sofrerem sozinhos na sua casa, todo o plano dos estudo foi pró maneta, tudo num descarrilo total — para andar acompanhada do homem, um peneirento vaidoso e convencido, de cara profunda e fechado, fio dourado com grossa medalha passado por cima da gravata e penteado abrilhantado posto à janota. Vem de noite com ela aos pubes de sandálias sem meias; cheira a álcool; e promete-lhe o mundo azul para depois ir aturar uma Joaquina qualquer, a quem ele chama «a Minha Maria.»


Tuesday, April 19, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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Padrinho e o Porto
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O boletim meteorológico dava sinais de chuva intensa e húmida e o céu apresentava uma lua em quarto minguante em estado de uma obscuridade quase total, e a noite dera lugar a uma tenebrosa trovoada. As árvores abanavam ao sabor do vento que fustigava cada vez mais, ouvindo o ruído de sons agudos que pairavam na rua. A passo lento, segue Padrinho, chapéu enterrado na cabeça, bolsa de cabedal dos documentos fortemente atada à mão direita, enquanto a outra mão se enfiava no bolso da gabardina escura. No silêncio da noite, ele baniu do pensamento todo o remorso pelo período em que duvidara de si mesmo, substituindo por uma ideia nova: devolver a si próprio a imagem do passado. Sentiu que a sua fé o abandonava e encolheu os ombros, numa expectativa de aguardar de momento o que o futuro lhe reservava — embora isso também estivesse para breve. Envolto pelas ruas da cidade que se enroscavam em seu redor, contorceu-se num esgar de frio e olhou para o horizonte. O Porto mostrava-se uma cidade airosa, revelando a sua verdadeira raça de natureza pura, a sua beleza arquitectónica de cidade que tinha ganho a noção de si própria e, por conseguinte, se rebolava num presente auspicioso, diferente, de borgas e paródias, sem nunca ter rejeitado o passado, olhando a escuridão de um futuro promissor.

Padrinho vagueou nas ruas nessa noite seguindo a luz e as trevas da madrugada. Lembrava que muito antes da chuva cair, um certo número de casos que o haviam abalado lhe vieram à memória trazendo alguns nomes que haviam sido expulsos do seu espírito por terem falhado na hora do compromisso e, em consequência disso, haviam-se deixado, como no filme O comboio apitou 3 vezes em que o artista, o xerife, fica a falar sozinho à espera dos meliantes que lhe queriam fazer «a folha». Ó falsas criaturas! Que mal eu vos fiz! — Quando o Deus para uns é cego, não há força da razão que resista tal encomenda. Padrinho estivera à beira do abismo na derradeira queda. Como a Boa-Estrela havia sido benévola para com ele! — Via que a escolha era simples: o amor ao próximo e fé em Deus. Uma possibilidade que não podia deitar a perder, antes que fosse tarde demais. Tirou do bolso da gabardina um pequeno livro de apontamentos que ali se encontrava desde que saíra de sua casa, havia mais de três horas e meia: o livro com os nomes dos meliantes que lhe queriam fazer a tal dita «folha», os dignos companheiros, amigos de longa data, os seus nomes estavam escritos à mão, em tinta preta, e deitou-os a uma valeta… Numa esquina, na zona da Rua Chá, outrora conhecida pela sua população de artistas de várias artes, vagabundos e homens à procura de prostitutas, e agora ocupada por profissionais de comércio e pequenos empresários de negócios, Padrinho teve ocasião de encontrar uma alma perdida à procura de alguém.

Era ainda jovem, de sexo feminino, alta e duma beleza exótica, com um nariz tipo chafariz e cabelo preto e riscas brancas, penteado com azeite e tinha dentes pintados a várias cores. A jovem estava mesmo à beirinha do passeio, encostado a um varão de ferro, de costas voltadas para a estação ferroviária, levemente inclinada para a frente e segurando, na mão esquerda, um objecto rectangular de estimação. O seu comportamento chamava a atenção: primeiro fitava com olhar sombrio o objecto que tinha na mão e depois olhava à sua volta e rodava constantemente a cabeça dum lado para o outro, pondo os transeuntes demasiado concentrados. Padrinho, numa primeira passagem, olhou para o objecto que a jovem agarrava: era um cartaz escrito a letras miudinhas. À segunda passagem, pôs os óculos e leu com atenção o cartaz: Por favor, dê uma esmolinha à ceguinha. A seguir ofereceu-lhe a sua ajuda. A jovem passou o cartaz para a outra mão e voltou a repetir o mesmo refrão.

«Este dinheiro — disse ele — é teu e não é muito, mas é de boa vontade.»

E retomou o caminho, olhando a pequena multidão silenciosa. Ali, na esquina de uma rua movimentada, andavam almas a sondar em busca dum corpo à deriva. Mais adiante, quase ao fundo da rua, Padrinho viu claro uma prostituta a ser assediada por um esgazeado que, sem mais nem menos, agarrou o rosto dela com ambas as mãos e deu-lhe um beijo firmemente na boca. No entanto, ela reagiu de maneira surpreendente ao ser assim agarrada bruscamente, exclamando:

«Vai-te foder», — berrou com toda a força — posso estar desesperada, meu, mas ainda não estou esgazeada a esse ponto.» — Ao que o freguês, dando mostras de mau perdedor, deu-lhe um valente soco no nariz que a pôs a sangrar. A seguir, pirou-se pela rua abaixo e perdeu-se na escuridão. Quando Padrinho foi atrás dele, o freguês já tinha cavado não se sabe para onde mas, em vez disso, encontrou uma amiga dos tempos da desgraça que veio flutuar para a sua beira, já com uns copitos a mais no estômago.

«Olá! A uma hora destas por aqui — disse ela — só se for para curtir o fado do Pescador!» — Padrinho sorriu.
«Olha, que é que queres que te faça? — acrescentou. — Não tenho sono, tenho medo da solidão e, como não consigo dormir, prefiro passear pela noite.» —

As palavras dela continuavam a ser irónicas.

«Está-me a contar essa fita a mim? — olhou maliciosa. — Esse filme vai no Batalha!.» — Ele próprio também foi obrigado a rir. Tal como ela, Padrinho pôs-se na galhofa a lembrar cenas do passado num jogo de perguntas e respostas para fazer passar o tempo.
«Eram todos filhos de Adão», — contava ela uma cena antiga. — Mas quando se deitaram na cama, os cabrões arrancaram logo as suas roupas para mostrar as suas vergonhas.» —

Ouviram-se as suas gargalhadas. E Padrinho, logo a seguir, contou a dele:

«Uma noite, às quatro da manhã, completamente embriagado, já tinha bebido o uísque todo da garrafa, tirara a escova dos dentes e preparava-me para ir à casa de banho, quando se apresentou no meu apartamento, uma jovem sem ser anunciada e não dava mostras de querer sair dali. Eu, educadamente, fui à casa de banho lavar os dentes e, ao voltar, encontrei-a de pé no meio do tapete da sala, completamente nua, exibindo um corpo de tarar. Quando eu vi aquele espectáculo ali diante de mim, gritei: Toma-me! Sou todo teu. Faz o que quiseres!» — Ela pôs-se a mijar em cima do tapete e, a seguir, desapareceu calmamente para fora.» —

Padrinho contara a ela a história num tom franco e risonho, sugerindo, em princípio, que a tempestade já não se desencadeava. O certo é que ela não parava de contar histórias e ele foi obrigado a gritar-lhe:

«Agora chega», — disse ele. — Vou-me embora.» —

Apertando bem o cinto da gabardina ao corpo, seguiu a passo rápido pela rua em frente. O nariz de Padrinho, escorrendo pingos de orvalho, começou a latejar dolorosamente. Nunca fora capaz de suportar o frio. Deu por si a murmurar uns versos que lhe saíam à memória repentinamente,



Morrerá quem suporta o frio?
Quem, não se alheie ao abandono, embora a ele condenado?
Tu também farias isso, e te tornarias um oculto, de qualquer das formas.
Mas longe do frio, onde pudesses trocar,
Um pouco de sossego e paz…


Ele próprio não saberia dizer melhor. Qualquer pessoa que desse por si no meio da noite, ao relento, a falar sozinho, diria que ali ia um maluco… pôs-se a limpar o nariz a um lenço de papel e murmurou:

«Devias era ter ido para poeta», — opinou voltado para o candeeiro da rua. — Podias muito bem ter tido êxito. Eu sei escrever embora só tenha a quarta classe, mas que raio? Uma pessoa não precisa de ter muitos estudos para saber dizer uma dúzia de frases bonitas, não é? É claro que não sou burro de todo: há por aí mais camelos do que eu a pastar que não vão a lado algum mas eu cheguei lá! Mais longe do que eles pensavam, disso tenho a plena certeza e mais digo: esses nem daqui a cem anos chegam onde eu cheguei, disso garanto-te, palavra de Padrinho.» —

Ele desvaneceu-se da fúria e até lhe deu para fumar um cigarro, puxando primeiro pela aba do chapéu para a frente da cabeça, enquanto tirava umas fumaças de fumo para o ar. Nesse instante, reparou que duas pessoas o olhavam com curiosidade, a primeira um jovem de aspecto aguerrido, com roupas de couro guarnecidas com letras em relevo, um cabelo cortado à pica e uns olhos de esfomeado; a outra, uma mulher de meia-idade com um guarda-chuva na mão.

«Vocês tiveram azar», — gritou Padrinho. — Pois já fui assaltado ali atrás e fiquei teso como um virote.» —
«És mais desgraçado do que nós», — disse o Pica lançando uma pedra contra os sapatos dele. — «Ao menos, deixa ficar o tabaco.» —

Depois dele ter pegado nos cigarros, retomou o seu caminho; enquanto a mulher retorceu uns passos para trás e disse:

«Tenho a certeza que nos estás a enganar, mas a tua cara ficará guardada no meu espólio, ouviste, ó gamão?» —

Pelos vistos, aquela era uma noite recheada de atractivos, compreendeu ele com surpresa. «Mas que noite! É caso para eu dizer: o que mais falta para vir?» Padrinho ficou persuadido de que sair à noite sozinho era um perigo numa cidade como o Porto. E, tendo em conta aquilo que viu, a esmurrada no nariz, perseguida pelos Picas, a ceguinha a pedir esmola, a amiga das anedotas. Padrinho ficou mais decidido a recuar caminho e mudar de direcção, seguindo até ao Poente; mais propriamente dito, para a sua morada. Padrinho tinha a certeza que ali ninguém o incomodava.

Monday, April 18, 2011






CONTOS DE RATAZANA





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Em África muita coisa aprendi.

Terra de contrastes, amada e odiada do mato, da savana, da sanzala

e do muceque. E como é usual escrever-se na lápida de uma sepultura

dir-se-á que viverá eternamente no coração daqueles que por lá deixaram um pouco de si.

José Novais

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Enquanto estávamos na conversa, pusemo-nos então divertidos agora a contar piadas e a meter-nos uns com os outros e eu contei algumas das minhas à minha moda e eles partiram o caneco a rir. O condutor recuperou depressa o bom humor e começou a contar a sua passagem pelo Sul, onde esteve na província de São Salvador do Congo. Pepe Rápido disse que esteve mais de seis meses sem ter relações sexuais e, quando quis dar um pirablo, disse ao alferes Novais, mais conhecido pelo Beque-Beque, qual era o problema e o oficial levou-o à sanzala e apresentou-o a uma amiga esquelética que mais parecia uma vassoura, chamava-se Teresinha do Kiende, e bem depressa o aliviou, mas também foi aviada, quando o condutor lhe enfiou o dedo pelo mataco, os gritos eram tantos que o soba pensava que o condutor a estava a desflorar.

— Ó Pepe! Realmente tu és uma desgraça. Nem sei qual é a mulher que vai contigo para a cama, senão puseres antes os teus dedos bem atados. — Disse o cabo Flint, fazendo um intervalo.

Pepe Rápido disse ainda que, dias mais tarde, voltou à sanzala na companhia do alferes Novais para levar uma máquina de costura Singer, do tempo da rainha D. Amélia, que estava avariada e pertencia ao alfaiate da tribo, que na altura tratava de umas calças vermelhas dum metro e cinquenta de cintura. O alferes perguntou-lhe para quem eram as calças e o alfaiate respondeu-lhe que eram para o soba da tribo, Sr. Pedro Armando Boa Vida Zanga, que sofri de reumático, tinha sete mulheres e queria andar à larga… No fim, o soba pôs à disposição deles uma grade de cerveja quente e uma sertã carregada de óleo com gindungo ao lado de uma bacia com mandioca, da qual retirava pequenos pedaços que molhava no óleo mais picante que sei lá…

— Sabeis uma coisa? — disse Pepe Rápido. — Apanhei semelhante caganeira que andei oito dias sem poder olhar para uma cerveja.

Partimos dali, afastando-nos da picada esburacada e descontínua para nos encaminharmos em direcção ao acampamento, à velocidade máxima do carro. Pensei de novo como pensara ao desembarcar em Luanda: «Bem-vinda a tropa». Aquela expressão repentina e impulsiva de um voluntário dizia qualquer coisa que me bateu cá dentro. Enterrei a boina na cabeça e, durante sessenta e tais quilómetros, gastamos o fim da tarde, em cima do unimog. E o pensamento deixou de funcionar.

Thursday, April 7, 2011












CONTOS DE RATAZANA

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Um motoqueiro solitário


Aqui escrito a tinta e papel e sem adornos, a história simples do motoqueiro Queirós. De todos os motoqueiros melancólicos de que tenho conhecimento, é este, certamente o mais pacato. Conheço-o desde os meus tempos de infância, no lugar chamado Devesas, em Vila Nova de Gaia, uma noite mascarada de Fevereiro. Tinha eu chegado do quarto dos meus pais, prostrado por duas horas a cantar diante do espelho… Ah! que pinta! E era só um ensaio sem microfone: mas ali, no quarto dos meus pais, com um chapéu enterrado até às orelhas, como se fosse um sombreiro entusiasmado com as cantigas da época, aos graves e aos agudos — parecia um rouxinol das Canárias…

Apenas entrei na cozinha, eufórico e sorridente, parei no velho fogão de carvão, e ali me deixei uns instantes, consolando-me daquela chama quente em que a cozinha estava adormecida, com os olhos fixados na boa brasa cromada…

E foi então que vi aquele rapaz, mais velho do que eu uma mão cheia de anos, de porte atlético, já de casaco e camisa sem gravata, que do outro lado da cozinha, de pé, com uma postura tranquila, conversava com os meus pais, com uma máscara de Zorro na mão.

O meu pai já tinha fechado a loja e preparado a mesa para o jantar das oito, enquanto a minha mãe, atarefada e risonha, com um avental gasto do uso amarrado à cintura, pousou a sua travessa de variedades de carnes de porco na mesa ao lado de um tacho de arroz de cabidela, e colocou os pratos nos seus lugares acostumados, depois desapertou o avental, fazendo girar o ba nco comprido de madeira para se sentar, e eu ia a caminho da estreita escadaria — quando a figura forte e robusta se dobrou numa gentileza perante os meus pais, e murmurou-lhe numa pronúncia timbrada:

— Já fui aviado do jantar das oito…

Mas ele não queria o jantar das oito. Foi para a farra.

No dia seguinte, quando saí de casa para ir ao café, situado no largo da estação ferroviária, avistei logo, concentrado pensativamente ao pé da montra de vidro, o rapaz forte e solitário. O café estava vazio numa luz frouxa; as chávenas arrefeciam; e fora, no silêncio da quarta-feira, no largo deserto, a chuva caía sem cessar dum céu acinzentado e embaciado.

Eu via apenas as costas do rapaz; mas havia na sua linha forte e um pouco curvada, uma expressão tão sóbria, que me interessei por aquele conterrâneo. O cabelo penteado, de actor, risca ao lado bem aparado sob os cantos, era manifestamente dum figurante; e toda a sua fortaleza calorenta se abria ao aspecto daquelas casas cobertas de chuva, na sensação daquele silêncio deslavado…

Chamei-o. Quanto ele se virou, a sua fisionomia que apenas o vira na véspera, impressionou-me: era um mocetão alto e sóbrio, de rosto moreno, nariz recto e uma cara bem morena. O olhar mexido e vivo com uma corrente de sonho nadando num fluído colorido… E que robustez! Quando andava, as calças ajustadas às pernas roçavam nas botas de meio cano de tipo vaqueiro. Recebeu o meu convite para o café do dia, com olhar surpreso, num sorriso reservado: chegou-se para o balcão onde o empregado do café, passou a chávena pela água quente, e tirou-lhe um quentinho, e disse-lhe numa voz baixa:

— Duas colheres de açúcar. Cheirinho…

O empregado do café recolheu a garrafa do bagaço e eu acomodei-me ao balcão, e abri palheta com ele durante um bocado. Fora continuava a chover sobre o lugar deserto. A uma mesa dos fundos, um homem cor de vinho generoso e todo careca e de suíças à Elvis, que acabara de embutir um bagaço, cansava as vistas no periódico, cigarro no canto da boca e lunetas na ponta do nariz. E um som vinha do altifalante do café, uma voz chorona que a chuva acompanhava num tempo, uma voz reclamante que cantarolava um pedido de amor… Uma quarta feira de Vila Nova de Gaia.

Foi uma conversa curta e parca, aquela que nos relacionou num tempo jovem; foi tudo tão rápido, decerto porque depois de ter entrado um grupo de rapazolas no café, o conterrâneo rodou sobre os calcanhares, e foi plantar-se silenciosamente à monta de vidro, da parte de dentro, de olhar abstracto na chuva a cair.

Nesse dia parti com o conjunto musical no carro alugado para a Régua, e ainda não tinha entrado em Entre-os-rios, encharcada no seu lençol de água, já me olvidara o conterrâneo motoqueiro do lugar das Devesas. Foram passados quase dois anos, ao voltar de África, que entrando no café, na sala dos bilhares, e revendo aquele mocetão de porte atlético jogar uma partida de bilhar, senti renascer a antiga amizade.

E nesse dia mesmo tive tempo mais que suficiente para conhecer as histórias do seu passado. Era já dia adiantado e eu voltava do ensaio, quando no banco das bombas de gasolina, ao largo da estação, encontrei, todo airoso e desconcertante, o meu irmão Jorge.

Não conhecem Jorge? A sua presença é espectáculo; tem o capado magro, o negro espesso do cabelo, o sorriso nos olhos, o despacho de um apressado magro; mas esta sua ligeireza é às vezes temperada, em Jorge, pela calma e pela conversa. Que conversa! Uma conversa desarranjada, que me faz lembrar a dos ardinas do Porto: é o mesmo refrão. Mas a calma! Ah, mas esta calma é a riqueza de Jorge.

Moralmente, Jorge é um habilidoso. Fez-se serralheiro muito novo e enveredou no ofício até ir para a tropa. Dizem porém, que viajou bastante, porque conhece Portugal de Norte a Sul, passou pelas ilhas da Madeira e S. Tomé e Príncipe, Angola, as refinarias e África do Sul: mas é evidente que muitos sabem que a sua existência foi igual a dos vulgares aventureiros do Oeste, de terra em terra, de ferro de soldar nas mãos e em cima de postes: e nunca consegue amealhar uma semana de ordenado, porque é um gastador, e com o hábito de não poupar. É um esbanjador.

Mas tem um ponto forte. É cozinheiro de si mesmo: gosta de confeccionar a seu modo, frangos e fritos, muita carne de porco, e com o paladar ao seu gosto. Abastece-se no supermercado os ingredientes necessários e instala-se em casa, e ali cozinha, com satisfação para gáudio dos seus prazeres, pondo-lhes o sabor afinado para que o repasto se ilumine — e quando sente levado pelo álcool, fica de cabelo desalinhado para a clarabóia e face ardida, o velho cão lhe ladra, lança parvoíces, o bom Jorge, debruçado na cadeira, de braços abertos à padre, o olhar afogado em arrebatamento, murmura no seu calão bairrista:

— Oh! Jeco! Vai às Jecas!

Bom Jorge! Foi realmente um prazer quando o avistei, nessa tarde, no largo da estação ferroviária: e como só nos víamos aos fins-de-semana, fomos jogar juntos snooker ao café. O motoqueiro solitário lá estava no seu mutismo, curvado sobre o jornal da casa. E logo que se viram um ao outro, agarraram-se num abraço; foi um abraço grande, forte e sincero.

Meu Deus, que encontro! Os dois amigos encaminharam-se para o fundo da sala, e eu, vibrando de curiosidade, aguardei com sofreguidão. Quis primeiro ser Queirós a pronunciar, grave.

— Oh! Pá! Tu foste demais!...

— Só eu, Queirós. Vejamos. Conta-lhe a história… Aquela noite ficou na memória…

Queirós então tomou todo o ar turista que se reconhece, o seu saber e as suas experiências, e confessou-me, deixando sair as palavras a conta-gotas, que tinham estado ambos na tropa e em Angola… Jorge foi seu cicerone uma noite… Boa companhia… Tempos Belos… Ei! Jorge!...

Jorge não respondeu, olhando à volta, refugiou-se no seu controlo observador. O meu interesse prendeu-se como a folha que o vento absorve. Quando se tem estado em África, e na tropa, ganha-se facilmente o hábito da amizade: os primeiros tempos que se lidam, sobretudo durante o tempo de adaptação ao clima e ao terreno, cria-se logo os grupos de cada terra, e nas esplanadas das redondezas, e principalmente depois de ter alinhado pelo matos em missões de combate.

E durante a partida de bilhar, Queirós contou-me o que o assustara mais naquela noite, fora o delírio com que Jorge se apossou na mesa de um cabaré em Luanda. Pôs-se a mandar servir champanhe para as bailarinas e uísque para os músicos!... Foi um serão lordesco. Decidi vir-me embora e bati com a porta. Ele lá continuou. Bêbado como um cacho. Perdemo-nos em risos e altas gargalhadas. O sóbrio Queirós também quis entrar numa rodada de três jogadores, dando assim entusiasmo ao jogo.

Nesse princípio do escurecer aconteceu, ao recolher-me a minha casa, que me perdi na hora… O tempo estava foleiro, e eu tinha vontade de beber algo quente. O café da esquina com a Escola do Prado estava ainda aberto; e vi logo Queirós, ainda de casaco, sentado a uma mesa rodeado de catálogos, de testa prensada sobre a mão, olhando.

— Posso-me sentar aqui? — balbuciei.

Ele ergueu na minha direcção um olhar estremunhado; parecia ter surgido de um outro planeta; batia as pálpebras, exclamando:

— Aqui? Sim.

Foi então que eu reparei, debaixo do seu cotovelo, entre os catálogos coloridos e novos, uma foto de uma moto de eleição. Ele viu o meu olhar, o safado, e gabou-se todo numa transparência avermelhada que lhe inundou a face com barba. A minha primeira reacção foi notória ao não reconhecer a marca: como era uma marca famosa e mostrando logo a minha ignorância total à máquina, redimi-me; e apontando o modelo com um dedo firme, disse-lhe:

— É a mota do filme Easy Rider…

Não deu resposta e se deu não a captei, porque eu, apanhado também pelo fascínio que me dava aquelas imagens fabulosas, acrescentei num tom trespassado de justificação:

— Grande mota, não é mesmo? Tenho a certeza que te entusiasmou…

Queirós olhou mais: mas não era para os catálogos: era pensei eu, a descoberta de ver a sua inteligência, o seu gosto motocar adivinhados — e de ter na cabeça a ideia de comprar uma Harley-Davidson. Não me respondeu. Mas as folhas dos catálogos que eu abri, dispensaram comentários. O colorido de ambas as folhas trazia uma série de modelos velhos e novos: Grandioso! Fascinante! Electrizante! — modelos expostos numa feira internacional, montados pela elite dos corredores mundiais.

Queirós permanecia reservado, de cabeça baixa, com a ponta do colarinho fugindo para a lapela do casaco. Pobre Queirós! Atraí-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas desilusões de dependências… Lembrei-me que nada impressiona o homem das Devesas como um gesto teatral; estendi-lhe as duas mãos num movimento à Valentino, e disse-lhe:

— Eu também sou motoqueiro!...

Esta frase fabulosa parecia ridícula e imprudente a um homem do Norte; o conterrâneo viu logo nela a difusão de uma alma gémea.

Daí a pouco, com o tempo a chegar à meia-noite, Queirós contava-me a sua história — ou antes pedaços, piadas desirmanadas da sua meia biografia. É tão fatal, que a contesto. De todo, havia na sua narração faltas de anos — e eu não posso reconstituir com precisão e seguimento a história deste sentimental. Tudo é livre e duvidoso. Viveu efectivamente em Devesas. Andou na escola até se formar, chegando à idade militar, onde cumpriu vários ofícios antes de vir a servir o exército no Ultramar. Aos 22 anos, Queirós servia de vendedor a uma firma de joalharia, e nas viagens do serviço angariava conhecimentos mútuos; estes contactos são frequentes blá-blá, como ele dizia. Atirou-se ao cinema: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos ruins, a ser um figurante em películas de segunda categoria. Desse tempo datam as suas primeiras aparições ao volante duma Harley-Davidson. Isto levou-o directamente ao profissionalismo e às ambições de ser empresário em nome individual. Uma paixão, uma crise leviana, um tipo brutal, ameaças de litígio, forçam-no a espiantar-se. Viajou na Europa, foi em Espanha mecânico numa filial de altas cilindradas, alugou um apartamento ali perto da zona. Reaparece no Porto, com estilo novo, liberto e profissionalizado.

Este período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em destaque; a sua sabedoria de mãos, técnica, recheada de conhecimentos e sabedor de palavras estrangeiras, encantou Porto: tinha o segredo de cativar, como ele dizia, os clientes mais cépticos; de uma discussão de orçamento ou de pagamento. No Porto este talento leva ao topo. Queirós iniciara-se para gerir em alta um stand-expositor na cidade: o local, porém, e com ele a possibilidade de Queirós açambarcar umas boas massas e ainda lucrar com a serventia de uma parte das águas-furtadas, ruiu, sem efeitos práticos… — um buraco negro na história de Queirós.

Volta a aterrar, membro de um clube de ralis de automóveis do Porto, pede num magazine a concentração de Harleys no Algarve e em Espanha organizando uma manifestação monumental de motares. Integra então uma sociedade representando a sua Harley. Tem outra paixão amorosa… — E isto disse-mo sem satisfações — é obrigado a mudar-se para o Porto. Depois de estar em Vila Nova de Gaia numa situação, coloca-se numa firma inglesa de componentes de automóveis.

— É um apeadeiro para a reforma — disse-lhe eu, conversando no banco do jardim, da Arca d´Água.

Ele sorriu com azedume. Era decerto um apeadeiro para a reforma, e estável. É bem estimado; as comissões são razoáveis; tem uma viatura para as suas deslocações — mas as feridas da sua alma são, a todo o instante, dolorosamente sentidas…

Dias sentados, dias parados, os daquele motoqueiro solitário, obrigado a vender numa zona, a oficinas reparadoras e industriais pilões, acessórios e caixas de velocidades! Não é a dependência que o assusta; a sua alma de nortenho não é particularmente sedenta de liberdade, basta-lhe que o inglês seja amável. E, como ele me disse, é-lhe grato reconhecer que os clientes nunca fazem os seus pedidos sem lho dizer; e quando o vêem, chamam por ele, para lhe dar dois dedos de conversa: isso satisfaz a respeitabilidade de Queirós.

Mas o que o atormenta é o contacto permanente com o serviço. Se ele fosse um abastado dum comerciante, primeiro-oficial duma loja de joalharia… Nisso há uma claridade de estilo — os milhares que se envolvem, as viagens constantes, ou então dispor ricamente de uma quantia avultada de ouro… Mas numa oficina como se pode exercer o voo, o panorama rústico, o instinto da velocidade, do vento, da chuva — a separar material para as encomendas ou fazer exposições?!... Depois, como ele contou, dar ao pedal, atender o freguês, é cumprir unicamente a tarefa: na furgoneta, o percurso é ordem; a alma fica ao lado, com o blusão deitado no assento, ou com o jornal que se deixa no tablier. E as concentrações, e a falta de convivência! Nunca mais lhes apanhou o rasto a não ser alguns deles através da internet. Esta falta de parceiros é-lhe muito doloroso.

Além disso o trabalho ocupa-lho o tempo, Queirós desmontou de momento a moto pela arrecadação, e deixou algumas peças oleadas prontas a montar. Às vezes, passeando pelo jardim, de pensamento em queda, Queirós está fazendo uma futurologia; são tudo luares, paisagens amplas de virgem asfalto, horizontes azuis, motores de arranque silencioso… É feliz; está plantado às nuvens voadoras, nos espaços celestes onde os sonhos montam tenda, viajando de órbita em órbita… De repente, uma grossa árvore exausta de estar erguida cai de uma ponta, e bate-lhe de lado na viatura.

— Chapa e pintura!

Ai, aluadas as fantasias batem retirada como pássaros assustados! E aí vem o azarado Queirós, precipitado dos quatros cantos, de costas encolhidas e as abas do blusão balouçando, dirigir-se com um sorriso branco ao guarda da esquadra local.

— Registado ou passam a batata? — pergunta-lhe.

Ah! É um grande galo!

— Mas — perguntei-lhe eu — porque não deixas o carro, num local onde não haja árvores?

Ele levantou as suas gordas barbas de Hércules e disse-me a razão que o prende, quase chorando na minha frente, com a beata da cigarrilha no limite: Queirós encanta-se.

Encanta-o o jardim que gira em torno da praça de Arca d´Água. Encanta-o desde o primeiro dia em que entrou no seu habitat: encantou-o no momento em que se sentou nos seus bancos vendo a liberdade dos pássaros em redor, com os melros pulando nas beiras, e os patos cinzentos, os palradores patos cinzentos que no lago se refrescam, e atraem toda a pequenada que por lá passa e lhes arremessa com pipocas e bocados de pão, forçando-os numa corrida de grupo. E depois a verdura, uma verdura imitação florestal de Palácio de Cristal — árvores e flores…

E o que Queirós tem passado! Todo o seu arrependimento arquiva-o em pensamentos — que armazena em pastas aos fins-de-semana, e dias de folgas. Escutei-o. E eu vi quanto o silêncio pode acalmar um ser inconstante: que pacholice de linguagem, que raios de aceitação, que suspiros de alma despedaçada atirados dali, daqueles bancos de Arca d´Água, para a calada do céu infinito!

Pobre Queirós! Quando saí da minha garagem para o jardim, olhei-o saindo de casa. Tenho-o visto depois, algumas vezes, ao passar em Arca d´Água. Está mais magro, mais sisudo, mais descuidado de brios, mais curvado quando se mexe pelo café com o jornal debaixo do braço, mais irritado no seu sentimentalismo...

Sempre que ele me vê, trocámos alguns comentários citadinos: e depois, ao despedir-nos, aperto-lhe francamente a mão.

Monday, March 21, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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O HOMEM DA PICHA TRISTE…



Começou por me contar que o seu caso era caricato — e que não queria que pusesse o seu nome no pasquim do bar — por isso alcunhei-o de “O Homem da Picha Triste.” Devo dizer que conheci este cliente no meu bar de engate no Porto. Era alto e magro: tinha uma farta cabeleira penteada e lisa: e os seus olhos castanhos, com a pele em volta encarquilhada e amarelada, e olheiras papudas. Tinha a barba cortada, o queixo firme e recto. Trazia uma gravata de cetim azulada adornada numa camisa branca bordada; um fato fino de casaco trespasse cor de pinha, e as calças estreitas e justas por cima dos sapatos. Estávamos em Abril; já as noites vinham mais tarde, com uma aragem primaveril e suave e uma escuridão com clareza. Eu tinha saído da cozinha, maçado, estonteado, murmurando num rodopio de frases sem nexo. Vinha de circular pela praia e os seus aspectos vistosos e aglomerados. Eram oito e quinze da noite. As luzes estavam quentes e brilhantes. E eu pus-me energicamente, a preencher as mesas e comecei a servir o jantar. Costela de porco com osso aparte e fatias enroladas de presunto, um vinho verde que eu fiz espumar no copo, caído de alto de uma garrafa rotulada: o cliente estava defronte de mim, comendo calmamente a sua pêra cozida; a minha curiosidade começou aí, perguntei-lhe com os braços cruzados, o meu pano de limpeza de flanela preso nos dedos — se ele era de Leça da Palmeira.

— Moro lá. Há muitos anos — disse-me ele.
— Terra de mulheres boas, segundo ouço dizer — disse eu.
— Boas e quentes! — Acrescentou ele.

Depois abriu-se num sorriso saliente. Até ao momento estivera cabisbaixo, olhando frequentemente para a porta. Mas agora despoletou o seu sorriso largo. Compreendi que tinha tocado a ferida aberta de uma lembrança. Havia decerto no caminho daquele quarentão uma «aventura». Aí residia o seu estado de alma ou a sua farsa, porque inconscientemente relacionei-me na ideia de que o «caso», daquele cliente, deverá ser excêntrico, e exalar zombaria. De maneira que lhe disse:

— A mim têm-me dito que as mulheres de Leça da Palmeira são as mais boas do Norte. Para braços do campo Régua, para rostos Angeiras, para banhistas a Foz: é lá que se vêem os biquínis requintados de várias cores.

O cliente estava ouvindo, comendo com os olhos altos.

— Eu tenho um cliente que veio veranear à praia de Leça da Palmeira. Talvez conheça. Alcunhei-o de Nudista, um cromo, de pouco cabelo, aposentado.
— O Nudista, sim — disse-me ele, olhando firmemente para mim.
— Veio veranear à praia de Leça da Palmeira como antigamente se ia veranear a Espinho — questão de consolar as vitrinas (olhos) da semi-nudez. — À sua.

Eu tentei evidentemente puxar por ele, mas ele se levantou, foi ao quarto de banho com um passe leve, e eu reparei então nos seus leves sapatos de camurça com sola fina e atilhos de couro. Quando eu pedi para me trazer a bonitona do dia, o meu empregado trouxe-me uma mensagem em código e disse:

— A menina está com outro. Está na pensão.

Na pensão dos avios, às vezes, cada quarto é um palco de rápidas.

— Tá-bem — disse eu.

A pensão era no começo da rua. Havia duas portas de entrada e no interior da pensão os clientes tinham posto os seus carros estacionados: estavam assim longe dos olhares imprevistos. Lá dentro estavam desde, trabalhadores, proprietários, comerciantes, um casal de estudantes, mulheres de vida fácil, um vendedor de electrodomésticos, um cozinheiro, um padre. Todos fodiam. Defronte da recepção estava um casal de biscate aos mimos a aguardar vez: e quando um quarto ficou vago, a porta abriu para o casal entrar. O cliente saiu do quarto de banho.

— Vou para o balcão — disse ele.
— Esteja à vontade. — E para criar melhor intimidade tirei da prateleira uma garrafa de uísque e abri-a para ele beber.

Não direi os porquês por que ele daí a bocado, já meio alegre, me contou a sua história. Há um ditado do engate que diz: «O que não fazes na cama à tua mulher, fá-lo a uma estranha, na pensão.» Mas ele teve laivos inesperados e desconcertantes para a sua comprida e sentida confissão. Foi a respeito do meu cliente, do Nudista, que fora veranear para a praia de Leça da Palmeira. Vi-o pasmar àquele cota de meia idade. Talvez a história seja julgada paranóica, mas conto-o apenas como uma curiosidade pessoal da vigília sedutora… Começou assim por me dizer que o seu caso era caricato — e que não queria que pusesse o seu nome no pasquim do bar — por isso alcunhei-o de “O Homem da Picha Triste.” Perguntei-lhe então se era cliente doutras casas que eu conhecesse. E como ele me respondeu que era crónico dessas, eu tive logo do seu feitio uma ideia porreira, porque os clientes do seu timbre eram uma antiga geração, quase uma raridade de empresários, que mantinham com uma assiduidade permanente o seu consumo elevado de despesas e de luxos. O Homem da Picha Triste disse-me que no tempo de 1981 ou 84, na sua ascensão, tinha em Sines, uma frota de operários a trabalhar sob o seu comando, e era ele quem os contratava. Depois o talento prático e inteligente de O Homem da Picha Triste, deu-lhe dinheiro. E assim tornou-se num «engajador» de operários não especializados. Disse-me ele que sendo naturalmente atrasado e menos evoluído, a sua vida tinha nesse tempo uma grande azáfama. Um trabalho movimentado e seguro, algumas certas dormidas fora de portas, uma mala saliente de roupas interiores e objectos de higiene, era todo o prazer da sua vida. Nesse tempo, a vida, era vagabunda e solta. Uma grande mudança social aclarava os vícios: os sentidos eram mais atrevidos, os sentimentos mais complicados.

Apanhar banhos de sol tranquilamente no carro, esticado na cadeira, vendo bater as ondas nos rochedos — sorrir com os melodramas que ecoavam entre as ruas de Leça, adornados de árvores, eram emoções que bastavam ao seu contentamento. O Homem da Picha Triste, aos quarenta anos, já tinha — como lhe dizia uma velha carocha, que fora querida noutra época — «sentido sexualidade de Gungunhana.» Mas por esse tempo veio tornar-se uma atracção defronte do local do carro de O Homem da Picha Triste, um primeiro andar, uma mulher dos trinta anos talvez, vestida de branco, uma pele amanteigada e um aspecto desejável, O Homem da Picha Triste tinha o seu carro estacionado, ao pé duma palmeira, e dali viu uma manhã aquela mulher com o cabelo louro curto e despenteado, um chambre cor-de-rosa e braços nus, chegar-se a uma pequena janela, a olhar para o mar. O Homem da Picha Triste, afirmou-se e, sem muitas intenções, dizia para consigo que aquela mulher, devia ser uma companhia agradável e cheia de energia, porque os seus cabelos soltos e suaves, o lábio carnudo, revelavam um temperamento vivo e imaginações ardentes. No entanto, deixou-se serenamente alinhavando as suas apreciações. Mas à noite, estava sentado ouvindo música do seu carro, que enchia o passeio: era em Abril e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a música gemia uma balada pimba, que então penetrava e era dum melodrama; a rua estava num deserto e cheia de mistério — e O Homem da Picha Triste, que estava em mangas de camisa, começou a lembrar-se daqueles cabelos louros e curtos e daqueles lábios carnudos que tinham a cor das cenouras descascadas: esticou-se para a frente, rolou calmamente a cabeça pelas costas da cadeira de pele e decidiu bocejando que a sua vida era aborrecida.

E no dia seguinte, ainda entusiasmado, encostou-se ao carro com a porta toda aberta, e olhando o prédio de frente, onde viviam aqueles cabelos louros. Mas ninguém se abeirou à pequena janela de caixilhos de madeira — e as horas foram passando. E quando se fechou dentro do carro sentiu defronte abrir-se a janela; eram certamente os cabelos louros. Oh! E O Homem da Picha Triste veio logo espevitadamente para o passeio limpar os óculos de sol. À outra vista, a mulher loura tinha alguma coisa de diferente da observação que lhe fizera antes. Um lenço às pintas verdes cobria-lhe metade do rosto, os dedos compridos e unhas pintadas, e toda ela era fresca, saudável e tenra. O Homem da Picha Triste disse consigo:

— É boa prá carago.

O Homem da Picha Triste, nesse tempo, era atrevido, com o penteado da moda. A camisa não dispensava a gravata e a sua figura devia ter aquele ar risonho e malandreco que depois da Revolução dos Cravos foi tão vulgar nos novos-ricos. A rapariga loura reparou naturalmente nele, mas naturalmente abriu a cortina de tom azulado, olhando para a frente o mar. Depois franziu suavemente o olhar na sua direcção e bateu duas vezes com as pestanas fazendo notar que por dentro um coração solitário se bate e espera — são velhos truques em que na verdade e na arte começa a conquista. O olhar ergueu-se em câmara lenta e o rosto louro iluminou. O Homem da Picha Triste não me contou por pormenores — a história detalhada da sua aventura. Disse simplesmente que daí a dois dias «estava tolo por comê-la». O seu trabalho tornou-se logo secundário e inseguro e o seu cabriolet Ford americano, bonito e espaçoso, galgou passeios, bermas, rampas, onde mirava toda a aventura impaciente dos seus nervos. Não a podia observar pela manhã: as noitadas boémias de Abril sucediam umas atrás das outras e eram noites perdidas pela certa. Só pela tarde, o sol aquecia, se abria a janela, e ela, vinha dobrando as mãos sobre o peitoral da janela, e pôr-se mimosa e bela com o seu olhar, observando quem passava. Era uma oportunidade magnífica e naquele momento inesperado, o pensamento de O Homem da Picha Triste com esta intuição interpretativa dos românticos, disse à sua curiosidade: «Será mulher dum engate.» O engate vai ao bordel, à rua e vem cheio daqueles clientes dos vícios eróticos, e nem O Homem da Picha Triste sabia porque é que aquela aventura o deixava indeciso assim: mas segundo ele me disse — «aquilo deu-lhe no gozo.» O Homem da Picha Triste, que tinha reparado naquele olhar uma tentação de desejo, quase um «S.O.S», esteve toda a tarde entregue às pestaninhas sedentas do desejo. Andava entretido, ocupado, não deu atenção aos afazeres profissionais que estavam sob as suas ordens. Mal deu conta do calendário se aproximar do fim do mês, e nem se preocupou em ir ao banco ver o seu extracto de conta.

— É costume de me deixar prender por mulheres atraentes — tinha dito para mim na sua expressão irónica. — São uns dias de férias antecipadas. Por minha conta.

Mas sucedeu que ao outro dia, estando ele à coca da janela, e neste momento uma vendedora de peixe passava na rua, que vendo a mulher de cabelo louro a abrir vagarosamente a janela, cumprimentou-a e atirou-lhe com uma confiança toda risonha, o seu «passe bem». O Homem da Picha Triste ficou iluminado: logo nesse instante foi atrás da peixeira, e abertamente, sem meia-tinta, perguntou-lhe:

— Desculpe-me, quem é aquela mulher que você há pouco cumprimentou defronte da esquina?
— É a Foscoa. Boa gente.
— Ah! Sim. E ela não vem à rua?
— Não sei. Encontro-a sempre ali.
— Bem, obrigado.

E O Homem da Picha Triste, desabafando consigo a história da sua aventura despertada e impaciente e falando do desejo com as exaltações de então, fez fé com a sua boa sorte «que ela viesse cá fora». Não era impossível. Logo na tarde seguinte, O Homem da Picha Triste de fato azul-marinho, gravata verde-mar, sentava-se no seu carro a ouvir um poeta afamado do tempo uma quadra intitulada «Sedução ou a ratoeira da loura.»!...

— De sorte que a oportunidade bateu à porta — e quando o poeta se calou, a mulher de louro que se chamava Foscoa apareceu vestida com uma blusa branca bordada, um ar de virgem bela, fresca e um brilho luminoso no olhar — o Sr. O Homem da Picha Triste é que não teve onde se agarrar, porque já estava todo apanhado, olhando Foscoa. E dizia-lhe suavemente:
— Então, noutro dia, gostou de me ver?
— Muito… —

No entanto na estreita rua, o trânsito passava-se dos eixos. O Homem da Picha Triste não pôde ouvir todas as palavras compostas daquela frase. Lembrava-se apenas da última palavra que falava em «suba»: ouviu-a de pé, quando um som brutal abortou de uma buzina ruidosa, e uma frase em terminal dizia: «a porta está aberta!» E O Homem da Picha Triste, desviando-se de um carro, olhava sorrindo — e via-se-lhe os dentes brancos. Depois a enigmática Foscoa, aproximando-se da janela com olhares reveladores ao chamamento, girou com os seus dedos indicando o caminho da porta, o que levou o paciente O Homem da Picha Triste e fã de Don Juan, a dizer ironicamente para consigo:

— Linha!... vamos para bingo!

Depois subiu as escadas côncavas muito usadas no tempo da Maria Cachucha, e quando chegou à casa, Foscoa convidara-o a entrar no quarto onde se encontrava deitada, dizendo-lhe:

— Espero que você honre o meu convite!

E O Homem da Picha Triste que estava boquiaberto, exclamou:

— Honre! Diga goze, minha querida!

Estavam frente-a-frente. A tarde já ia avançada. Foscoa, vestida de combinação lilás, justa ao corpo, toda deitada ao comprido da sua cama, apertando as mãos nas pontas dos lençóis, e ficando a olhar o físico de O Homem da Picha Triste, depois dele se ter livre das roupas. Depois vieram as festas, os gozos, e ela, Foscoa, ficara a gemer de prazer: sentia os bafos dele, as mãos dele segurando a sua cabeça loura amorosa, as chiadeiras da cama, e vira então ele, todo aflito a sair da cama, pôr-se debaixo do chuveiro e tomar um banho frio, e voltar a atirar-se a ela, cheio de fúria! «É um cavalo de força.» Foscoa então desmaiou nos braços dele. E foi quando O Homem da Picha Triste, sem fazer ruído algum, começou a vestir-se, todo absorvido a olhar para ela, quando de repente, afastou o lençol, olhando para as pernas de Foscoa: uma das pernas apareceu desequilibrada da outra e soltara-se da prótese.

— É fantástico — disse para consigo, — eu não senti a perna artificial.

Quando Foscoa voltou a si, achou-se aos pés da cama, curvada como um L, prendia tenazmente a perna à amarra, e a revelação que tivera magoara-a visivelmente. E quando se despediram, O Homem da Picha Triste, todo cortês no seu discurso, dizia sorrindo a Foscoa pela porta:

— Ora, a malandrice da perna, hem! Que coisa! Uma perna de plástico! Só tu me enganavas! Que raio! Eu não ter topado!

Foscoa esteve calada daquele gozo frio. Não lhe respondeu. O Homem da Picha Triste é que acrescentou:

— Um dia destes passo por cá, querida! Que surpresa… Foi bom… Mas foi mesmo! Uma rápida não se perde assim. Que mocada, hem!

E Foscoa tinha vontade de lhe saltar outra vez. Foi nesse termo que O Homem da Picha Triste me disse, com a voz muito sonante:

— Em suma, para encurtarmos pormenores, resolvi-me envolver com ela.
— Mas a perna?
— Não quero saber mais disso! Pe
nsara eu lá da perna! Resolvi-me envolver com ela!