Saturday, May 28, 2011








CONTOS DE RATAZANA
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NO BAR



Isabelinha era vista em todo a rua como «uma menina-fina». O senhor João, dono do Café, sempre que se falava nela, dizia de sua justiça, acariciando com respeito uma madeixa de cabelos:

— É uma jóia! É o que ela é!

A rua tinha quase vaidade no seu encanto formoso e enternecedor; era uma branca, de perfil fino, e os olhos escuros de um tom de castanho, e dumas pestanas finas que escureciam mais o brilho fundo e doce. Tinha saído de casa e morava agora numa outra rua, num quarto alugado numa residencial de três estrelas; e era, para a gente que aos fins das tardes ia fazer as palavras cruzadas até ao bar, um desejo sempre novo vê-la por trás de uma mesa, sentada sobre a sua saia, de cor cinza, absorvida e sossegada. Poucas vezes faltava. O bar, interiormente, parecia alegre. Falava-se em tons baixos, porque o dono, nas mudanças que efectuara que lhe davam as ideias, elogiava-se de que assim o ruído era menor; havia sobre as prateleiras envidraçadas uma quantidade de garrafas de diversas bebidas, um balde de gelo, timbrado a letras de marca; algumas tabelas de preços que ornavam as mesas com tampos de vidro, um ar sempre renovado por conta do aparelho ao fundo da sala; e era uma alegria ver algumas vezes meia sala cheia de clientes, ou em volta do balcão, agrupados em conversa com os copos nas mãos.

Isabelinha fugira de casa, tinha dezoito anos. Mesmo em criança, em casa dos pais, a sua existência fora atribulada. Os pais eram umas criaturas conservadoras e rigorosas, que se empenharam por uma disciplina culta e cumpridora. E quando pediam à filha para voltar, apesar da acalmia já, ela não voltou, sem explicação, quase como uma despedida, para salvar a liberdade que adquiriu, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam enervar, saindo pela porta da casa onde antes tinha entrado. Não amava os pais decerto; e mesmo na rua tinha-se lamentado que aquela linda figura de anjo, aquele rosto de fada, fosse cavar por outro caminho que não fosse o mais correcto. Mas aquela família que lhe vinha no sangue, aquelas criaturas inconstantes, que depois pareciam cair-lhe nas mãos, apesar dos seus modos pacíficos, cansavam-na. Às vezes, só, fazendo as suas palavras cruzadas, passavam-lhe as ideias pela mente: uma rebeldia da mocidade invadia-a, como uma chama que lhe fortalecia a alma. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem cor-de-rosa e bem folclore. Sempre quisera desde moça uma curiosidade, um desejo, um capricho: tudo a entusiasmava na Terra desde as horas das discotecas e o convite dos seus amigos. Todo o prazer lhe era gostoso quando era para se passar. Apesar de irrequieta, passeava horas fazendo os Passatempos, que era o mais relaxante, com o tempo que perdia com os seus inúmeros jogos ficava calma. Durante as saídas para as discotecas, não chegava antes da manhã romper, deitando-se sobre a cama, lendo, ouvindo música até cair em sono pegado. De tarde estava um pouco mais branca, mas toda pronta na sua saia cinza, mexida, com os sapatos bem engraxados, compondo-se bonita para ir dar os vistaços do costume ao café. A sua única ocupação era à tarde sentar-se à mesa com o seu livrinho de jogos, e a clientela em roda, alinhando nas suas conversas, falando alegremente, bebendo os copos que lhe davam percentagem. Vendo-a assim tão espevitada e tão declarada, algumas mulheres da sua rua afirmavam que ela era ajuizada: todavia ninguém a avistava de dia, excepto ao domingo, com a visita à oficina do pai ou à casa da madrinha, toda senhoril no seu vestido de bolinhas vermelhas. Na verdade, o seu dever limitava-se a esta visita de duas em duas semanas. O seu modo de vida ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações da família; naquele dever de má filha, cumprido sem amor, tinha descoberto uma nova satisfação suficiente à sua sensibilidade; não necessitava rogar aos Céus, ou enternecer-se com os seus. Além disso nunca tivera estes sentimentalismos de alma chorona que levam ao dever. A sua nova experiência de se tornar independente, de ser ela o centro de comando, o amparo de si própria tornara-a doce, mas realista: e assim era ela que administrava agora as suas economias, com o senso que a situação exigia, uma solicitude de rapariga dotada. Tal ocupação bastava para entreter o seu dia-a-dia: ela, de resto, detestava fazer visitas, a conversa de coisas pessoais, as revelações de confidências; e passavam-se semanas sem que em casa de Isabelinha se ouvisse outro desabafo estranho ao telefone, que não fosse o do pai — que a adorava, e que dizia para ela com a voz roufenha:

— Volta minha jóia! Volta minha jóia!...

Foi assim grande o escândalo, quando os pais de Isabelinha receberam uma notícia dum vizinho, que lhe informou que a quinhentos metros dali da rua, a sua filha era vista num bar de alternos. O bar era uma casa célebre, e a sua clientela era da melhor casta que há de noctívagos. Viajara muita clientela mesmo de Lisboa, só para conhecer o seu habitat e as meninas de companhia. O bar era um ponto de encontro: e o seu nome, «Lord», um toque de inglês, expressado a bom estilo, consagrara-o como um pioneiro. A sua fama, que passara até outras fronteiras, num rótulo de publicidade, apresentava-o como uma paragem obrigatória da cidade do Porto, preferido das bonitonas, sumptuoso e fascinante, destinado a uma alta burguesia na cidade. Os pais ficaram chocados com esta notícia. Viam já a sua filha em confusão na presença de um ambiente daqueles. Depois o contacto daqueles mundanos, com as suas máquinas topo de gama, o cheiro dos seus perfumes, as suas histórias de bons, no barulho ruidoso de um bar, davam-lhe a impressão assustadora de uma perdição. Foi por isso uma surpresa, quase um reconhecimento aos Céus, quando Isabelinha visitou os pais, e muito à-vontade se serviu do frigorífico para tirar um copo de leite fresco e beber… Depois comentou:

— Eu tenho os meus desejos, vocês tem os vossos… Não nos vamos chatear, ah?... O que faço é vir cá visitar-vos. De resto, não estou mal como estou… Estou num bar onde as pessoas são amigas e deliciosas… E ficamos por aqui, ok?

Os pais de Isabelinha olhavam-na assombrados: aquela única filha, aquela cara de anjo por quem choraram tanto, aquela inocente que os bares cobiçavam, era uma rapariga extremamente ingrata — muito mais confusa, mais melindrosa que o que eles pensavam! Nem uma palavra disse mais, cavando dali silenciosa. O serviço do bar era interessante. Era um local de convívio, digno de um bom vivant, sobretudo a partir da tarde em que os clientes lá iam, com a pança bem agasalhada, os corpos esticados no meio dos sofás, e todo o género de piropos de conquista fácil, iludindo, cantadas entre os copos e os apalpões, deixando no ar a fria da ilusão, da aventura, donde saíam as cantadas. O bar ficava num rés-do-chão dum prédio baixo, com a sua velha fachada de vidro espelhado, a sua porta de ferro alta, cor castanha, rodeada de casas comerciais, situado sobre a zona alta da cidade. Isabelinha achou o bar de Fernando digno dum poema de Luís de Camões, e talvez por isso, se tenha encantado. Como ela veio um pouco mais cedo, não se quis sentar, antes quis ficar de pé, beber um drink, ali no balcão… Fernando serviu-a:

— Eu só queria uma pedra de gelo sobre o bourbon, por favor!
— Mas que pedal, menina! — exclamou Fernando admirado. — Um anjo que entende de bebidas!

Pela primeira vez na sua vida Isabelinha corou com a palavra de um homem. De resto tomou logo a iniciativa de lhe tirar as medidas… Nem alto era: e com o seu bigode cheio sobre uma face magra e morena, a camisa alaranjada de meia manga cobrindo a cintura num corpo elegante e pequeno, as suas mãos oradas, parecia-lhe a ela um dos ourives de lojas que às vezes encontrava, quando uma vez por outra ia visitar as ourivesarias no centro da cidade. Além disso não dava bocas; e a primeira vez que veio servir à mesa onde ela se encontrava com o cliente, falou apenas, com grande exuberância, do seu negócio. Falara para ele. Do início do bar, o único bem que possuía, que não desejava além disso trespassá-lo… O que ele desejava era aumentá-lo. E isso parecia-lhe a ele não ser tão difícil como andar na lua!… E vibrava sinceramente ver o bar agora, aumentar dia-a-dia, com a ajuda de todos a dar os seus contributos. No outro fim-de-semana Fernando foi fazer compras e achava-se perto da residencial da Rua da Constituição, e era um dia de Janeiro húmido e cinzento, e ele vinha a pé com duas sacas de compras, da lista das suas faltas para o serviço. Foi por isso, com grande alegria, que ela viu Fernando a acenar-lhe do outro lado da rua, e chamá-la com um sorriso aberto:

— Não queres vir tomar um café comigo?
— Por que hei-de dizer que não? — disse ela.

Ao princípio, acanhada por aquela companhia de um rato, a boa miúda caminhava junto dele com o ar de um rouxinol assustado: apesar de ele ser mais velho e ser uma pessoa tão simples, havia na sua figura vigorosa e seca, no timbre típico da sua pronúncia, nos seus olhos castanhos e vivos alguma coisa de dominante, que a envolvia. À entrada para o café, como ele se deixara ficar para trás para lhe dar a prioridade, o contacto daquela mão branca e forte de artista da noite, nas suas costas motivou-a extraordinariamente. Instalaram-se numa mesa do centro e o empregado trouxe dois cafés — e a conversa de Fernando foi lenta e divertida ao mesmo tempo. Ele parecia solidário daquele problema dela. Deu-lhe uns bons conselhos: o que os pais necessitavam era carinho, amor, uma outra atitude que aquele isolamento de comunicação… Ela também assim o julgava: mas quê!, os duros pais, sempre que se lhe falava de ir passar algumas horas à discoteca, passavam-se logo dos carris: tinham horror às noitadas e às ramadas: a Noite escura fazia-os quase desmaiarem; tornaram-se uns seres postiços, escondidos entre as paredes da casa… Ele então sossegou-a. Decerto deveria haver alguma maneira do caso se tentar resolver… Mas enfim, ela devia saber bem o caminho que desejava seguir além daquelas duas paredes, empastadas do cheiro do vício…

— Que hei-de eu querer mais? — disse ela.

Fernando calou-se: pareceu-lhe anedótico pensar que ela desejasse, realmente, o Príncipe de Gales ou o Rei da Malásia… Já ele pensava diferente, pensava noutros apetites, nos desejos do coração insatisfeito… Mas isto pareceu-lhe tão inoportuno de dizer àquela criatura inocente e pura — que falou do ambiente…

— Já vai para o bar? — perguntou-lhe ela.
— Tenho de acabar o resto das compras, se quiseres ir para lá, só demoro um pouco, menina.
— Vou-me arranjar.

Ficaram de se reencontrar nesse esconderijo de ilusão, que era a aventura do bar. No café, a pequena conversa entre ambos criou uma aproximação maior entre Fernando e Isabelinha. Aquele contacto, que ela curtia com uma habilidade de estudante, colocava entre eles como que um interesse mútuo. Ela falou-lhe já sem muitas reservas quando voltaram. Havia nas atenções dele, dum respeito honesto, uma atracção que a sua mágoa a levava a revelar-se, a oferecer-lhe a sua confiança: nunca se abrira tanto a ninguém. De resto as suas queixas eram sobre a mesma mágoa — a tristeza do seu interior, as divergências familiares, tantas coisas por fazer... E vinha-lhe por ele uma nutrição, como um secreto desejo de o ter sempre ao seu lado, desde que ele se tornava assim confidente das suas mágoas. Fernando voltou para o bar, impressionado, fascinado por aquela miudinha tão só e tão meiga. Tudo nela rimava agradavelmente: o negro do cabelo, a doçura da voz, a simplicidade no trato, e a linha elegante do seu corpo davam uma sedução: era um anjo que vivia há muito tempo numa gaiola fechada e estava por isso atado às trivialidades de família: mas bastaria um bufo para o fazer chegar aos planaltos da lua… Achava disparate e grosseiro fazer a corte à miúda… Mas irreflectidamente pensava no formidável prazer de fazer badalar aquele coração que não estava viciado pelo vício, e de pôr enfim os seus lábios numa boca onde não houvesse batom… E o que o puxava além disso era pensar que poderia percorrer toda a terra em Portugal, sem encontrar nem aquele lindo rosto, nem aquela virgindade de coração ignorado...

Era uma oportunidade que não voltava.

No bar o ambiente era frenético. Depois de Fernando descarregar o conteúdo das sacas nos frigoríficos, voltara-se para a cozinha, que estava cheia de copos sujos: e ali ficara um momento calado, no canto daquele espaço parado e silencioso, quando Isabelinha entrou e pediu um copo de água. Fernando via-a de perfil, um pouco inclinada, tirando duas do cigarro que a cinza invadia o cinzeiro: era amorosa assim, tão fina, tão terna, duma linha tão delgada sobre o fundo branco da esferovite: o seu modo de vestir era de bom gosto, a sua descontracção tão moderna, mas ele considerava isso uma ingenuidade apimentada. O silêncio das vozes em redor isolava-os — e, energicamente, ele começou a falar-lhe alto. Era ainda a mesma conversa pelo abatimento profundo da sua vida naquele patamar, pelo seu fado de alternadeira… Ela escutava-o de olhos nos olhos, animada de se deixar estar ali a ouvir aquele homem tão experiente, toda atenciosa e achando um agradável sabor à sua atenção… Houve uma altura em que ele falou do bom que era ela ficar ali para sempre no bar.

— Ficar sempre? Para quê — perguntou ela, sorrindo.
— Para isto, para estares sempre ao pé de mim…

Ela cobriu-se de um calor, o cigarro comprido e fino escapou-lhe das mãos. Fernando receou ter-se esticado, e acrescentou logo aquecendo as mãos:

— Então não era divertido?... Eu podia fazer-te empregada de mesas, pôr-te ao balcão… Tu havias de me atrair muita clientela...

Isso fê-la dar uma gargalhada; Era mais bonita quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, o sorriso, o brilho dos olhos. Ele continuou gracejando, com a sua ideia de a fazer empregada de mesas, e de a ver ao balcão, cheio de gente a consumir.

— E eu venho de minissaia, patrão! — disse ela, contente pela sua própria gargalhada, pelo contágio daquele homem à sua beira.
— Vens mesmo? — exclamou ele. — Juro-te que te faço empregada de mesas! Que giro, nós aqui dentro do balcão, ganhando alegremente as nossas vidas, e ouvindo as bocas destes fregueses!

Ela corou outra vez. O fervor que recebeu da voz dele, fê-la recuar como se ele fosse já prepará-la para a função. Mas Fernando agora, agarrado àquele plano, moldava-lhe na sua pintura colorida todo um romance principesco, de uma felicidade sem par, naquele esconderijo de ilusão. E de repente, sem que ela opusesse, prendeu-a contra o peito e beijou-a nos lábios, um beijo ardente e prolongado. Ela tinha ficado corada como tomate: e dois bateres de pestanas voaram-lhe na direcção dele. Era assim tão apetitosa e desejada que ele tornou a beijá-la; ela soltou-se, pegou no cigarro e ficou a fitá-lo, com os lábios a morder, murmurando:

— Você beija bem… Você beija bem…

Ele mesmo estava tão desordenado que nem uma palavra disse. E daí a um pouco entraram ambos calados para a sala. Foi só no balcão que ele pensou: «Fui um aproveitador!» Mas no fundo estava satisfeito da sua intencionalidade. À noite, depois de fechar o bar, foi à procura dela: encontrou-a com o cliente na conversa, sentados a uma mesa perto do balcão. E então pareceu-lhe aborrecido distrair aquela rapariga das suas amizades. De resto um momento como aquele no bar não voltaria. Seria despropositado ficar ali, naquele canto aborrecido do café, desmoralizando, a frio, uma pobre moça… Deu meia volta e afastou-se. Ela desapareceu por uns dias e quando apareceu ao fim da tarde, ele suspendeu-a dela permanecer no bar… Ouviu o que ele dizia, sem lhe trocar o olhar, sem lhe inchar o peito. Mas Fernando achou-lhe o cumprimento da mão tão frio como um moribundo: e quando ele virou costas, Isabelinha ficou voltada para o ecrã, escondendo o olhar dos clientes, fixando abstractamente a imagem que aparecia, com o pensamento, dois a dois, voando-lhe no escuro…

Estava apaixonada. Desde os primeiros dias, a sua figura decidida e atrevida, os seus olhos vistosos, toda a virilidade do seu carácter, se lhe tinham tomado conta da imaginação. O que a fascinava nele não era a sua vocação, nem o seu prestígio no Porto, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela pouco lhe dizia e pouco lhe interessava: o que a encantava era aquela versatilidade, aquele ar sério e saudável, aquela força de vida, aquela voz tão característica e tão desgarrada: e antevia, para além da sua situação ligada a um ofício rasca, outras situações possíveis, em que se vê sempre diante do espelho uma outra face forte e sadia, em que as noites se passam a dormir a dois em cadeirinha… Era como uma rajada de ar ameno, que atravessava, subitamente, a sua almofada a cheirar a mofo e respirava-a docemente… Depois, tinha entendido aquelas palavras em que ele se mostrava tão sabedor, tão leal, tão gentil: e à força do seu corpo, que admirava, englobava-se agora um coração afectuoso, dum afecto enérgico e forte, para a atrair… Este amor oculto invadiu-a, assenhorou-se dela uma noite que lhe apareceu esta ideia, esta ilusão: «Se ele fosse meu namorado!» Toda ela entrou em circuito, apertou fortemente as mãos contra a mala, como desordenando-se com a sua imagem focada, prendendo-se a ela segurando-se na sua força…Depois ele deu-lhe aqueles dois beijos no bar. E desistira!

Então começou para Isabelinha uma vida de desamparada. Repentinamente tudo em seu redor — a desligação dos pais, abandono dos estudos, os seus vícios — lhe pareceu sombrio. Os seus jogos de palavras, agora que não punha neles toda a sua vista, eram-lhe chatos p´ra burro. A sua situação representava-se-lhe como desastre extraordinário: não se agitava ainda, mas tinha desses desalentos, em que caía sobre a cama, com os braços estendidos, murmurando:

— Onde vai parar isto?

Abrigava-se então naquele amor como uma indemnização deliciosa. Achando-o todo de alma, deixava-se repassar dele e da sua lenta influência. Fernando tornara-se, na sua imaginação, como uma pessoa de atitudes sensatas, tudo o que é pensado, e que é tratado, e que dá razão à vida. Não quis de algum modo alhear-se a tudo que vinha dele. Soube de todas as suas histórias, inclusive aquela «Lord» que também gostara, e crescera dum sonho. Estas histórias sossegavam-na, como uma onda de satisfação ao desejo. Foi durante semanas um frequentar constante de nocturnos. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo viciado e preguiçoso. A realidade tornava-se-lhe ociosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua morava, onde encontrava sempre encostado à porta, alguém na mirada. Vieram as primeiras agitações. Tornou-se impaciente e dura. Não suportava ser chamada à atenção de questões sentimentais do seu coração. Veio-lhe a ânsia das bebidas, dos cocktails, dos galanteios dos clientes a tentar. Começou a ver novelas. Passava horas só, num escuro, à varanda, tendo sob o seu olhar de virgem branca, toda a rebeldia de uma enamorada. Acreditava nos amantes que trepam os muros, sob o manto das estrelas: e queria ser conquistada assim, possuída num mistério de noite romântica… O seu coração desligou-se aos poucos da imagem de Fernando e estendeu-se a um ser fictício que a encantara nos personagens feitos heróis de novelas; era um estilo meio príncipe e meio pirata, que tinha, sobretudo, a agilidade. Porque era isto que a atraía, que queria, por que ansiava nas noites frias em que não conseguia dormir — dois braços ágeis como molas, que a abraçassem num aperto profundo, dois lábios de fogo que, em dois beijos, lhe chupassem a alma. Estava uma maluca.

E no meio desta excitação toda do temperamento inconstante, eram fraquezas rápidas, sustos de passarinho que cai, um grito ao ver o céu de negro, um esgar de desalento se não havia na recepção recados muito atractivos… À noite suspirava; abria para o café; mas lá dentro, o mofo quente, da estação a chamar o Verão, enchiam-na dum desejo intensivo, duma ansiedade sensual, que chegou ao momento em que bastaria que um homem chegasse ao pé dela e lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços — e foi o que aconteceu enfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois meses. Era o cliente dos imóveis. Por causa dele abandonou toda a rua. E agora muda de quarto para casa de uma amiga, os mirones atrás vigilantes, sem dormir até altas horas, os pais a sofrerem sozinhos na sua casa, todo o plano dos estudo foi pró maneta, tudo num descarrilo total — para andar acompanhada do homem, um peneirento vaidoso e convencido, de cara profunda e fechado, fio dourado com grossa medalha passado por cima da gravata e penteado abrilhantado posto à janota. Vem de noite com ela aos pubes de sandálias sem meias; cheira a álcool; e promete-lhe o mundo azul para depois ir aturar uma Joaquina qualquer, a quem ele chama «a Minha Maria.»


Tuesday, April 19, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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Padrinho e o Porto
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O boletim meteorológico dava sinais de chuva intensa e húmida e o céu apresentava uma lua em quarto minguante em estado de uma obscuridade quase total, e a noite dera lugar a uma tenebrosa trovoada. As árvores abanavam ao sabor do vento que fustigava cada vez mais, ouvindo o ruído de sons agudos que pairavam na rua. A passo lento, segue Padrinho, chapéu enterrado na cabeça, bolsa de cabedal dos documentos fortemente atada à mão direita, enquanto a outra mão se enfiava no bolso da gabardina escura. No silêncio da noite, ele baniu do pensamento todo o remorso pelo período em que duvidara de si mesmo, substituindo por uma ideia nova: devolver a si próprio a imagem do passado. Sentiu que a sua fé o abandonava e encolheu os ombros, numa expectativa de aguardar de momento o que o futuro lhe reservava — embora isso também estivesse para breve. Envolto pelas ruas da cidade que se enroscavam em seu redor, contorceu-se num esgar de frio e olhou para o horizonte. O Porto mostrava-se uma cidade airosa, revelando a sua verdadeira raça de natureza pura, a sua beleza arquitectónica de cidade que tinha ganho a noção de si própria e, por conseguinte, se rebolava num presente auspicioso, diferente, de borgas e paródias, sem nunca ter rejeitado o passado, olhando a escuridão de um futuro promissor.

Padrinho vagueou nas ruas nessa noite seguindo a luz e as trevas da madrugada. Lembrava que muito antes da chuva cair, um certo número de casos que o haviam abalado lhe vieram à memória trazendo alguns nomes que haviam sido expulsos do seu espírito por terem falhado na hora do compromisso e, em consequência disso, haviam-se deixado, como no filme O comboio apitou 3 vezes em que o artista, o xerife, fica a falar sozinho à espera dos meliantes que lhe queriam fazer «a folha». Ó falsas criaturas! Que mal eu vos fiz! — Quando o Deus para uns é cego, não há força da razão que resista tal encomenda. Padrinho estivera à beira do abismo na derradeira queda. Como a Boa-Estrela havia sido benévola para com ele! — Via que a escolha era simples: o amor ao próximo e fé em Deus. Uma possibilidade que não podia deitar a perder, antes que fosse tarde demais. Tirou do bolso da gabardina um pequeno livro de apontamentos que ali se encontrava desde que saíra de sua casa, havia mais de três horas e meia: o livro com os nomes dos meliantes que lhe queriam fazer a tal dita «folha», os dignos companheiros, amigos de longa data, os seus nomes estavam escritos à mão, em tinta preta, e deitou-os a uma valeta… Numa esquina, na zona da Rua Chá, outrora conhecida pela sua população de artistas de várias artes, vagabundos e homens à procura de prostitutas, e agora ocupada por profissionais de comércio e pequenos empresários de negócios, Padrinho teve ocasião de encontrar uma alma perdida à procura de alguém.

Era ainda jovem, de sexo feminino, alta e duma beleza exótica, com um nariz tipo chafariz e cabelo preto e riscas brancas, penteado com azeite e tinha dentes pintados a várias cores. A jovem estava mesmo à beirinha do passeio, encostado a um varão de ferro, de costas voltadas para a estação ferroviária, levemente inclinada para a frente e segurando, na mão esquerda, um objecto rectangular de estimação. O seu comportamento chamava a atenção: primeiro fitava com olhar sombrio o objecto que tinha na mão e depois olhava à sua volta e rodava constantemente a cabeça dum lado para o outro, pondo os transeuntes demasiado concentrados. Padrinho, numa primeira passagem, olhou para o objecto que a jovem agarrava: era um cartaz escrito a letras miudinhas. À segunda passagem, pôs os óculos e leu com atenção o cartaz: Por favor, dê uma esmolinha à ceguinha. A seguir ofereceu-lhe a sua ajuda. A jovem passou o cartaz para a outra mão e voltou a repetir o mesmo refrão.

«Este dinheiro — disse ele — é teu e não é muito, mas é de boa vontade.»

E retomou o caminho, olhando a pequena multidão silenciosa. Ali, na esquina de uma rua movimentada, andavam almas a sondar em busca dum corpo à deriva. Mais adiante, quase ao fundo da rua, Padrinho viu claro uma prostituta a ser assediada por um esgazeado que, sem mais nem menos, agarrou o rosto dela com ambas as mãos e deu-lhe um beijo firmemente na boca. No entanto, ela reagiu de maneira surpreendente ao ser assim agarrada bruscamente, exclamando:

«Vai-te foder», — berrou com toda a força — posso estar desesperada, meu, mas ainda não estou esgazeada a esse ponto.» — Ao que o freguês, dando mostras de mau perdedor, deu-lhe um valente soco no nariz que a pôs a sangrar. A seguir, pirou-se pela rua abaixo e perdeu-se na escuridão. Quando Padrinho foi atrás dele, o freguês já tinha cavado não se sabe para onde mas, em vez disso, encontrou uma amiga dos tempos da desgraça que veio flutuar para a sua beira, já com uns copitos a mais no estômago.

«Olá! A uma hora destas por aqui — disse ela — só se for para curtir o fado do Pescador!» — Padrinho sorriu.
«Olha, que é que queres que te faça? — acrescentou. — Não tenho sono, tenho medo da solidão e, como não consigo dormir, prefiro passear pela noite.» —

As palavras dela continuavam a ser irónicas.

«Está-me a contar essa fita a mim? — olhou maliciosa. — Esse filme vai no Batalha!.» — Ele próprio também foi obrigado a rir. Tal como ela, Padrinho pôs-se na galhofa a lembrar cenas do passado num jogo de perguntas e respostas para fazer passar o tempo.
«Eram todos filhos de Adão», — contava ela uma cena antiga. — Mas quando se deitaram na cama, os cabrões arrancaram logo as suas roupas para mostrar as suas vergonhas.» —

Ouviram-se as suas gargalhadas. E Padrinho, logo a seguir, contou a dele:

«Uma noite, às quatro da manhã, completamente embriagado, já tinha bebido o uísque todo da garrafa, tirara a escova dos dentes e preparava-me para ir à casa de banho, quando se apresentou no meu apartamento, uma jovem sem ser anunciada e não dava mostras de querer sair dali. Eu, educadamente, fui à casa de banho lavar os dentes e, ao voltar, encontrei-a de pé no meio do tapete da sala, completamente nua, exibindo um corpo de tarar. Quando eu vi aquele espectáculo ali diante de mim, gritei: Toma-me! Sou todo teu. Faz o que quiseres!» — Ela pôs-se a mijar em cima do tapete e, a seguir, desapareceu calmamente para fora.» —

Padrinho contara a ela a história num tom franco e risonho, sugerindo, em princípio, que a tempestade já não se desencadeava. O certo é que ela não parava de contar histórias e ele foi obrigado a gritar-lhe:

«Agora chega», — disse ele. — Vou-me embora.» —

Apertando bem o cinto da gabardina ao corpo, seguiu a passo rápido pela rua em frente. O nariz de Padrinho, escorrendo pingos de orvalho, começou a latejar dolorosamente. Nunca fora capaz de suportar o frio. Deu por si a murmurar uns versos que lhe saíam à memória repentinamente,



Morrerá quem suporta o frio?
Quem, não se alheie ao abandono, embora a ele condenado?
Tu também farias isso, e te tornarias um oculto, de qualquer das formas.
Mas longe do frio, onde pudesses trocar,
Um pouco de sossego e paz…


Ele próprio não saberia dizer melhor. Qualquer pessoa que desse por si no meio da noite, ao relento, a falar sozinho, diria que ali ia um maluco… pôs-se a limpar o nariz a um lenço de papel e murmurou:

«Devias era ter ido para poeta», — opinou voltado para o candeeiro da rua. — Podias muito bem ter tido êxito. Eu sei escrever embora só tenha a quarta classe, mas que raio? Uma pessoa não precisa de ter muitos estudos para saber dizer uma dúzia de frases bonitas, não é? É claro que não sou burro de todo: há por aí mais camelos do que eu a pastar que não vão a lado algum mas eu cheguei lá! Mais longe do que eles pensavam, disso tenho a plena certeza e mais digo: esses nem daqui a cem anos chegam onde eu cheguei, disso garanto-te, palavra de Padrinho.» —

Ele desvaneceu-se da fúria e até lhe deu para fumar um cigarro, puxando primeiro pela aba do chapéu para a frente da cabeça, enquanto tirava umas fumaças de fumo para o ar. Nesse instante, reparou que duas pessoas o olhavam com curiosidade, a primeira um jovem de aspecto aguerrido, com roupas de couro guarnecidas com letras em relevo, um cabelo cortado à pica e uns olhos de esfomeado; a outra, uma mulher de meia-idade com um guarda-chuva na mão.

«Vocês tiveram azar», — gritou Padrinho. — Pois já fui assaltado ali atrás e fiquei teso como um virote.» —
«És mais desgraçado do que nós», — disse o Pica lançando uma pedra contra os sapatos dele. — «Ao menos, deixa ficar o tabaco.» —

Depois dele ter pegado nos cigarros, retomou o seu caminho; enquanto a mulher retorceu uns passos para trás e disse:

«Tenho a certeza que nos estás a enganar, mas a tua cara ficará guardada no meu espólio, ouviste, ó gamão?» —

Pelos vistos, aquela era uma noite recheada de atractivos, compreendeu ele com surpresa. «Mas que noite! É caso para eu dizer: o que mais falta para vir?» Padrinho ficou persuadido de que sair à noite sozinho era um perigo numa cidade como o Porto. E, tendo em conta aquilo que viu, a esmurrada no nariz, perseguida pelos Picas, a ceguinha a pedir esmola, a amiga das anedotas. Padrinho ficou mais decidido a recuar caminho e mudar de direcção, seguindo até ao Poente; mais propriamente dito, para a sua morada. Padrinho tinha a certeza que ali ninguém o incomodava.

Monday, April 18, 2011






CONTOS DE RATAZANA





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Em África muita coisa aprendi.

Terra de contrastes, amada e odiada do mato, da savana, da sanzala

e do muceque. E como é usual escrever-se na lápida de uma sepultura

dir-se-á que viverá eternamente no coração daqueles que por lá deixaram um pouco de si.

José Novais

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Enquanto estávamos na conversa, pusemo-nos então divertidos agora a contar piadas e a meter-nos uns com os outros e eu contei algumas das minhas à minha moda e eles partiram o caneco a rir. O condutor recuperou depressa o bom humor e começou a contar a sua passagem pelo Sul, onde esteve na província de São Salvador do Congo. Pepe Rápido disse que esteve mais de seis meses sem ter relações sexuais e, quando quis dar um pirablo, disse ao alferes Novais, mais conhecido pelo Beque-Beque, qual era o problema e o oficial levou-o à sanzala e apresentou-o a uma amiga esquelética que mais parecia uma vassoura, chamava-se Teresinha do Kiende, e bem depressa o aliviou, mas também foi aviada, quando o condutor lhe enfiou o dedo pelo mataco, os gritos eram tantos que o soba pensava que o condutor a estava a desflorar.

— Ó Pepe! Realmente tu és uma desgraça. Nem sei qual é a mulher que vai contigo para a cama, senão puseres antes os teus dedos bem atados. — Disse o cabo Flint, fazendo um intervalo.

Pepe Rápido disse ainda que, dias mais tarde, voltou à sanzala na companhia do alferes Novais para levar uma máquina de costura Singer, do tempo da rainha D. Amélia, que estava avariada e pertencia ao alfaiate da tribo, que na altura tratava de umas calças vermelhas dum metro e cinquenta de cintura. O alferes perguntou-lhe para quem eram as calças e o alfaiate respondeu-lhe que eram para o soba da tribo, Sr. Pedro Armando Boa Vida Zanga, que sofri de reumático, tinha sete mulheres e queria andar à larga… No fim, o soba pôs à disposição deles uma grade de cerveja quente e uma sertã carregada de óleo com gindungo ao lado de uma bacia com mandioca, da qual retirava pequenos pedaços que molhava no óleo mais picante que sei lá…

— Sabeis uma coisa? — disse Pepe Rápido. — Apanhei semelhante caganeira que andei oito dias sem poder olhar para uma cerveja.

Partimos dali, afastando-nos da picada esburacada e descontínua para nos encaminharmos em direcção ao acampamento, à velocidade máxima do carro. Pensei de novo como pensara ao desembarcar em Luanda: «Bem-vinda a tropa». Aquela expressão repentina e impulsiva de um voluntário dizia qualquer coisa que me bateu cá dentro. Enterrei a boina na cabeça e, durante sessenta e tais quilómetros, gastamos o fim da tarde, em cima do unimog. E o pensamento deixou de funcionar.

Thursday, April 7, 2011












CONTOS DE RATAZANA

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Um motoqueiro solitário


Aqui escrito a tinta e papel e sem adornos, a história simples do motoqueiro Queirós. De todos os motoqueiros melancólicos de que tenho conhecimento, é este, certamente o mais pacato. Conheço-o desde os meus tempos de infância, no lugar chamado Devesas, em Vila Nova de Gaia, uma noite mascarada de Fevereiro. Tinha eu chegado do quarto dos meus pais, prostrado por duas horas a cantar diante do espelho… Ah! que pinta! E era só um ensaio sem microfone: mas ali, no quarto dos meus pais, com um chapéu enterrado até às orelhas, como se fosse um sombreiro entusiasmado com as cantigas da época, aos graves e aos agudos — parecia um rouxinol das Canárias…

Apenas entrei na cozinha, eufórico e sorridente, parei no velho fogão de carvão, e ali me deixei uns instantes, consolando-me daquela chama quente em que a cozinha estava adormecida, com os olhos fixados na boa brasa cromada…

E foi então que vi aquele rapaz, mais velho do que eu uma mão cheia de anos, de porte atlético, já de casaco e camisa sem gravata, que do outro lado da cozinha, de pé, com uma postura tranquila, conversava com os meus pais, com uma máscara de Zorro na mão.

O meu pai já tinha fechado a loja e preparado a mesa para o jantar das oito, enquanto a minha mãe, atarefada e risonha, com um avental gasto do uso amarrado à cintura, pousou a sua travessa de variedades de carnes de porco na mesa ao lado de um tacho de arroz de cabidela, e colocou os pratos nos seus lugares acostumados, depois desapertou o avental, fazendo girar o ba nco comprido de madeira para se sentar, e eu ia a caminho da estreita escadaria — quando a figura forte e robusta se dobrou numa gentileza perante os meus pais, e murmurou-lhe numa pronúncia timbrada:

— Já fui aviado do jantar das oito…

Mas ele não queria o jantar das oito. Foi para a farra.

No dia seguinte, quando saí de casa para ir ao café, situado no largo da estação ferroviária, avistei logo, concentrado pensativamente ao pé da montra de vidro, o rapaz forte e solitário. O café estava vazio numa luz frouxa; as chávenas arrefeciam; e fora, no silêncio da quarta-feira, no largo deserto, a chuva caía sem cessar dum céu acinzentado e embaciado.

Eu via apenas as costas do rapaz; mas havia na sua linha forte e um pouco curvada, uma expressão tão sóbria, que me interessei por aquele conterrâneo. O cabelo penteado, de actor, risca ao lado bem aparado sob os cantos, era manifestamente dum figurante; e toda a sua fortaleza calorenta se abria ao aspecto daquelas casas cobertas de chuva, na sensação daquele silêncio deslavado…

Chamei-o. Quanto ele se virou, a sua fisionomia que apenas o vira na véspera, impressionou-me: era um mocetão alto e sóbrio, de rosto moreno, nariz recto e uma cara bem morena. O olhar mexido e vivo com uma corrente de sonho nadando num fluído colorido… E que robustez! Quando andava, as calças ajustadas às pernas roçavam nas botas de meio cano de tipo vaqueiro. Recebeu o meu convite para o café do dia, com olhar surpreso, num sorriso reservado: chegou-se para o balcão onde o empregado do café, passou a chávena pela água quente, e tirou-lhe um quentinho, e disse-lhe numa voz baixa:

— Duas colheres de açúcar. Cheirinho…

O empregado do café recolheu a garrafa do bagaço e eu acomodei-me ao balcão, e abri palheta com ele durante um bocado. Fora continuava a chover sobre o lugar deserto. A uma mesa dos fundos, um homem cor de vinho generoso e todo careca e de suíças à Elvis, que acabara de embutir um bagaço, cansava as vistas no periódico, cigarro no canto da boca e lunetas na ponta do nariz. E um som vinha do altifalante do café, uma voz chorona que a chuva acompanhava num tempo, uma voz reclamante que cantarolava um pedido de amor… Uma quarta feira de Vila Nova de Gaia.

Foi uma conversa curta e parca, aquela que nos relacionou num tempo jovem; foi tudo tão rápido, decerto porque depois de ter entrado um grupo de rapazolas no café, o conterrâneo rodou sobre os calcanhares, e foi plantar-se silenciosamente à monta de vidro, da parte de dentro, de olhar abstracto na chuva a cair.

Nesse dia parti com o conjunto musical no carro alugado para a Régua, e ainda não tinha entrado em Entre-os-rios, encharcada no seu lençol de água, já me olvidara o conterrâneo motoqueiro do lugar das Devesas. Foram passados quase dois anos, ao voltar de África, que entrando no café, na sala dos bilhares, e revendo aquele mocetão de porte atlético jogar uma partida de bilhar, senti renascer a antiga amizade.

E nesse dia mesmo tive tempo mais que suficiente para conhecer as histórias do seu passado. Era já dia adiantado e eu voltava do ensaio, quando no banco das bombas de gasolina, ao largo da estação, encontrei, todo airoso e desconcertante, o meu irmão Jorge.

Não conhecem Jorge? A sua presença é espectáculo; tem o capado magro, o negro espesso do cabelo, o sorriso nos olhos, o despacho de um apressado magro; mas esta sua ligeireza é às vezes temperada, em Jorge, pela calma e pela conversa. Que conversa! Uma conversa desarranjada, que me faz lembrar a dos ardinas do Porto: é o mesmo refrão. Mas a calma! Ah, mas esta calma é a riqueza de Jorge.

Moralmente, Jorge é um habilidoso. Fez-se serralheiro muito novo e enveredou no ofício até ir para a tropa. Dizem porém, que viajou bastante, porque conhece Portugal de Norte a Sul, passou pelas ilhas da Madeira e S. Tomé e Príncipe, Angola, as refinarias e África do Sul: mas é evidente que muitos sabem que a sua existência foi igual a dos vulgares aventureiros do Oeste, de terra em terra, de ferro de soldar nas mãos e em cima de postes: e nunca consegue amealhar uma semana de ordenado, porque é um gastador, e com o hábito de não poupar. É um esbanjador.

Mas tem um ponto forte. É cozinheiro de si mesmo: gosta de confeccionar a seu modo, frangos e fritos, muita carne de porco, e com o paladar ao seu gosto. Abastece-se no supermercado os ingredientes necessários e instala-se em casa, e ali cozinha, com satisfação para gáudio dos seus prazeres, pondo-lhes o sabor afinado para que o repasto se ilumine — e quando sente levado pelo álcool, fica de cabelo desalinhado para a clarabóia e face ardida, o velho cão lhe ladra, lança parvoíces, o bom Jorge, debruçado na cadeira, de braços abertos à padre, o olhar afogado em arrebatamento, murmura no seu calão bairrista:

— Oh! Jeco! Vai às Jecas!

Bom Jorge! Foi realmente um prazer quando o avistei, nessa tarde, no largo da estação ferroviária: e como só nos víamos aos fins-de-semana, fomos jogar juntos snooker ao café. O motoqueiro solitário lá estava no seu mutismo, curvado sobre o jornal da casa. E logo que se viram um ao outro, agarraram-se num abraço; foi um abraço grande, forte e sincero.

Meu Deus, que encontro! Os dois amigos encaminharam-se para o fundo da sala, e eu, vibrando de curiosidade, aguardei com sofreguidão. Quis primeiro ser Queirós a pronunciar, grave.

— Oh! Pá! Tu foste demais!...

— Só eu, Queirós. Vejamos. Conta-lhe a história… Aquela noite ficou na memória…

Queirós então tomou todo o ar turista que se reconhece, o seu saber e as suas experiências, e confessou-me, deixando sair as palavras a conta-gotas, que tinham estado ambos na tropa e em Angola… Jorge foi seu cicerone uma noite… Boa companhia… Tempos Belos… Ei! Jorge!...

Jorge não respondeu, olhando à volta, refugiou-se no seu controlo observador. O meu interesse prendeu-se como a folha que o vento absorve. Quando se tem estado em África, e na tropa, ganha-se facilmente o hábito da amizade: os primeiros tempos que se lidam, sobretudo durante o tempo de adaptação ao clima e ao terreno, cria-se logo os grupos de cada terra, e nas esplanadas das redondezas, e principalmente depois de ter alinhado pelo matos em missões de combate.

E durante a partida de bilhar, Queirós contou-me o que o assustara mais naquela noite, fora o delírio com que Jorge se apossou na mesa de um cabaré em Luanda. Pôs-se a mandar servir champanhe para as bailarinas e uísque para os músicos!... Foi um serão lordesco. Decidi vir-me embora e bati com a porta. Ele lá continuou. Bêbado como um cacho. Perdemo-nos em risos e altas gargalhadas. O sóbrio Queirós também quis entrar numa rodada de três jogadores, dando assim entusiasmo ao jogo.

Nesse princípio do escurecer aconteceu, ao recolher-me a minha casa, que me perdi na hora… O tempo estava foleiro, e eu tinha vontade de beber algo quente. O café da esquina com a Escola do Prado estava ainda aberto; e vi logo Queirós, ainda de casaco, sentado a uma mesa rodeado de catálogos, de testa prensada sobre a mão, olhando.

— Posso-me sentar aqui? — balbuciei.

Ele ergueu na minha direcção um olhar estremunhado; parecia ter surgido de um outro planeta; batia as pálpebras, exclamando:

— Aqui? Sim.

Foi então que eu reparei, debaixo do seu cotovelo, entre os catálogos coloridos e novos, uma foto de uma moto de eleição. Ele viu o meu olhar, o safado, e gabou-se todo numa transparência avermelhada que lhe inundou a face com barba. A minha primeira reacção foi notória ao não reconhecer a marca: como era uma marca famosa e mostrando logo a minha ignorância total à máquina, redimi-me; e apontando o modelo com um dedo firme, disse-lhe:

— É a mota do filme Easy Rider…

Não deu resposta e se deu não a captei, porque eu, apanhado também pelo fascínio que me dava aquelas imagens fabulosas, acrescentei num tom trespassado de justificação:

— Grande mota, não é mesmo? Tenho a certeza que te entusiasmou…

Queirós olhou mais: mas não era para os catálogos: era pensei eu, a descoberta de ver a sua inteligência, o seu gosto motocar adivinhados — e de ter na cabeça a ideia de comprar uma Harley-Davidson. Não me respondeu. Mas as folhas dos catálogos que eu abri, dispensaram comentários. O colorido de ambas as folhas trazia uma série de modelos velhos e novos: Grandioso! Fascinante! Electrizante! — modelos expostos numa feira internacional, montados pela elite dos corredores mundiais.

Queirós permanecia reservado, de cabeça baixa, com a ponta do colarinho fugindo para a lapela do casaco. Pobre Queirós! Atraí-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas desilusões de dependências… Lembrei-me que nada impressiona o homem das Devesas como um gesto teatral; estendi-lhe as duas mãos num movimento à Valentino, e disse-lhe:

— Eu também sou motoqueiro!...

Esta frase fabulosa parecia ridícula e imprudente a um homem do Norte; o conterrâneo viu logo nela a difusão de uma alma gémea.

Daí a pouco, com o tempo a chegar à meia-noite, Queirós contava-me a sua história — ou antes pedaços, piadas desirmanadas da sua meia biografia. É tão fatal, que a contesto. De todo, havia na sua narração faltas de anos — e eu não posso reconstituir com precisão e seguimento a história deste sentimental. Tudo é livre e duvidoso. Viveu efectivamente em Devesas. Andou na escola até se formar, chegando à idade militar, onde cumpriu vários ofícios antes de vir a servir o exército no Ultramar. Aos 22 anos, Queirós servia de vendedor a uma firma de joalharia, e nas viagens do serviço angariava conhecimentos mútuos; estes contactos são frequentes blá-blá, como ele dizia. Atirou-se ao cinema: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos ruins, a ser um figurante em películas de segunda categoria. Desse tempo datam as suas primeiras aparições ao volante duma Harley-Davidson. Isto levou-o directamente ao profissionalismo e às ambições de ser empresário em nome individual. Uma paixão, uma crise leviana, um tipo brutal, ameaças de litígio, forçam-no a espiantar-se. Viajou na Europa, foi em Espanha mecânico numa filial de altas cilindradas, alugou um apartamento ali perto da zona. Reaparece no Porto, com estilo novo, liberto e profissionalizado.

Este período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em destaque; a sua sabedoria de mãos, técnica, recheada de conhecimentos e sabedor de palavras estrangeiras, encantou Porto: tinha o segredo de cativar, como ele dizia, os clientes mais cépticos; de uma discussão de orçamento ou de pagamento. No Porto este talento leva ao topo. Queirós iniciara-se para gerir em alta um stand-expositor na cidade: o local, porém, e com ele a possibilidade de Queirós açambarcar umas boas massas e ainda lucrar com a serventia de uma parte das águas-furtadas, ruiu, sem efeitos práticos… — um buraco negro na história de Queirós.

Volta a aterrar, membro de um clube de ralis de automóveis do Porto, pede num magazine a concentração de Harleys no Algarve e em Espanha organizando uma manifestação monumental de motares. Integra então uma sociedade representando a sua Harley. Tem outra paixão amorosa… — E isto disse-mo sem satisfações — é obrigado a mudar-se para o Porto. Depois de estar em Vila Nova de Gaia numa situação, coloca-se numa firma inglesa de componentes de automóveis.

— É um apeadeiro para a reforma — disse-lhe eu, conversando no banco do jardim, da Arca d´Água.

Ele sorriu com azedume. Era decerto um apeadeiro para a reforma, e estável. É bem estimado; as comissões são razoáveis; tem uma viatura para as suas deslocações — mas as feridas da sua alma são, a todo o instante, dolorosamente sentidas…

Dias sentados, dias parados, os daquele motoqueiro solitário, obrigado a vender numa zona, a oficinas reparadoras e industriais pilões, acessórios e caixas de velocidades! Não é a dependência que o assusta; a sua alma de nortenho não é particularmente sedenta de liberdade, basta-lhe que o inglês seja amável. E, como ele me disse, é-lhe grato reconhecer que os clientes nunca fazem os seus pedidos sem lho dizer; e quando o vêem, chamam por ele, para lhe dar dois dedos de conversa: isso satisfaz a respeitabilidade de Queirós.

Mas o que o atormenta é o contacto permanente com o serviço. Se ele fosse um abastado dum comerciante, primeiro-oficial duma loja de joalharia… Nisso há uma claridade de estilo — os milhares que se envolvem, as viagens constantes, ou então dispor ricamente de uma quantia avultada de ouro… Mas numa oficina como se pode exercer o voo, o panorama rústico, o instinto da velocidade, do vento, da chuva — a separar material para as encomendas ou fazer exposições?!... Depois, como ele contou, dar ao pedal, atender o freguês, é cumprir unicamente a tarefa: na furgoneta, o percurso é ordem; a alma fica ao lado, com o blusão deitado no assento, ou com o jornal que se deixa no tablier. E as concentrações, e a falta de convivência! Nunca mais lhes apanhou o rasto a não ser alguns deles através da internet. Esta falta de parceiros é-lhe muito doloroso.

Além disso o trabalho ocupa-lho o tempo, Queirós desmontou de momento a moto pela arrecadação, e deixou algumas peças oleadas prontas a montar. Às vezes, passeando pelo jardim, de pensamento em queda, Queirós está fazendo uma futurologia; são tudo luares, paisagens amplas de virgem asfalto, horizontes azuis, motores de arranque silencioso… É feliz; está plantado às nuvens voadoras, nos espaços celestes onde os sonhos montam tenda, viajando de órbita em órbita… De repente, uma grossa árvore exausta de estar erguida cai de uma ponta, e bate-lhe de lado na viatura.

— Chapa e pintura!

Ai, aluadas as fantasias batem retirada como pássaros assustados! E aí vem o azarado Queirós, precipitado dos quatros cantos, de costas encolhidas e as abas do blusão balouçando, dirigir-se com um sorriso branco ao guarda da esquadra local.

— Registado ou passam a batata? — pergunta-lhe.

Ah! É um grande galo!

— Mas — perguntei-lhe eu — porque não deixas o carro, num local onde não haja árvores?

Ele levantou as suas gordas barbas de Hércules e disse-me a razão que o prende, quase chorando na minha frente, com a beata da cigarrilha no limite: Queirós encanta-se.

Encanta-o o jardim que gira em torno da praça de Arca d´Água. Encanta-o desde o primeiro dia em que entrou no seu habitat: encantou-o no momento em que se sentou nos seus bancos vendo a liberdade dos pássaros em redor, com os melros pulando nas beiras, e os patos cinzentos, os palradores patos cinzentos que no lago se refrescam, e atraem toda a pequenada que por lá passa e lhes arremessa com pipocas e bocados de pão, forçando-os numa corrida de grupo. E depois a verdura, uma verdura imitação florestal de Palácio de Cristal — árvores e flores…

E o que Queirós tem passado! Todo o seu arrependimento arquiva-o em pensamentos — que armazena em pastas aos fins-de-semana, e dias de folgas. Escutei-o. E eu vi quanto o silêncio pode acalmar um ser inconstante: que pacholice de linguagem, que raios de aceitação, que suspiros de alma despedaçada atirados dali, daqueles bancos de Arca d´Água, para a calada do céu infinito!

Pobre Queirós! Quando saí da minha garagem para o jardim, olhei-o saindo de casa. Tenho-o visto depois, algumas vezes, ao passar em Arca d´Água. Está mais magro, mais sisudo, mais descuidado de brios, mais curvado quando se mexe pelo café com o jornal debaixo do braço, mais irritado no seu sentimentalismo...

Sempre que ele me vê, trocámos alguns comentários citadinos: e depois, ao despedir-nos, aperto-lhe francamente a mão.

Monday, March 21, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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O HOMEM DA PICHA TRISTE…



Começou por me contar que o seu caso era caricato — e que não queria que pusesse o seu nome no pasquim do bar — por isso alcunhei-o de “O Homem da Picha Triste.” Devo dizer que conheci este cliente no meu bar de engate no Porto. Era alto e magro: tinha uma farta cabeleira penteada e lisa: e os seus olhos castanhos, com a pele em volta encarquilhada e amarelada, e olheiras papudas. Tinha a barba cortada, o queixo firme e recto. Trazia uma gravata de cetim azulada adornada numa camisa branca bordada; um fato fino de casaco trespasse cor de pinha, e as calças estreitas e justas por cima dos sapatos. Estávamos em Abril; já as noites vinham mais tarde, com uma aragem primaveril e suave e uma escuridão com clareza. Eu tinha saído da cozinha, maçado, estonteado, murmurando num rodopio de frases sem nexo. Vinha de circular pela praia e os seus aspectos vistosos e aglomerados. Eram oito e quinze da noite. As luzes estavam quentes e brilhantes. E eu pus-me energicamente, a preencher as mesas e comecei a servir o jantar. Costela de porco com osso aparte e fatias enroladas de presunto, um vinho verde que eu fiz espumar no copo, caído de alto de uma garrafa rotulada: o cliente estava defronte de mim, comendo calmamente a sua pêra cozida; a minha curiosidade começou aí, perguntei-lhe com os braços cruzados, o meu pano de limpeza de flanela preso nos dedos — se ele era de Leça da Palmeira.

— Moro lá. Há muitos anos — disse-me ele.
— Terra de mulheres boas, segundo ouço dizer — disse eu.
— Boas e quentes! — Acrescentou ele.

Depois abriu-se num sorriso saliente. Até ao momento estivera cabisbaixo, olhando frequentemente para a porta. Mas agora despoletou o seu sorriso largo. Compreendi que tinha tocado a ferida aberta de uma lembrança. Havia decerto no caminho daquele quarentão uma «aventura». Aí residia o seu estado de alma ou a sua farsa, porque inconscientemente relacionei-me na ideia de que o «caso», daquele cliente, deverá ser excêntrico, e exalar zombaria. De maneira que lhe disse:

— A mim têm-me dito que as mulheres de Leça da Palmeira são as mais boas do Norte. Para braços do campo Régua, para rostos Angeiras, para banhistas a Foz: é lá que se vêem os biquínis requintados de várias cores.

O cliente estava ouvindo, comendo com os olhos altos.

— Eu tenho um cliente que veio veranear à praia de Leça da Palmeira. Talvez conheça. Alcunhei-o de Nudista, um cromo, de pouco cabelo, aposentado.
— O Nudista, sim — disse-me ele, olhando firmemente para mim.
— Veio veranear à praia de Leça da Palmeira como antigamente se ia veranear a Espinho — questão de consolar as vitrinas (olhos) da semi-nudez. — À sua.

Eu tentei evidentemente puxar por ele, mas ele se levantou, foi ao quarto de banho com um passe leve, e eu reparei então nos seus leves sapatos de camurça com sola fina e atilhos de couro. Quando eu pedi para me trazer a bonitona do dia, o meu empregado trouxe-me uma mensagem em código e disse:

— A menina está com outro. Está na pensão.

Na pensão dos avios, às vezes, cada quarto é um palco de rápidas.

— Tá-bem — disse eu.

A pensão era no começo da rua. Havia duas portas de entrada e no interior da pensão os clientes tinham posto os seus carros estacionados: estavam assim longe dos olhares imprevistos. Lá dentro estavam desde, trabalhadores, proprietários, comerciantes, um casal de estudantes, mulheres de vida fácil, um vendedor de electrodomésticos, um cozinheiro, um padre. Todos fodiam. Defronte da recepção estava um casal de biscate aos mimos a aguardar vez: e quando um quarto ficou vago, a porta abriu para o casal entrar. O cliente saiu do quarto de banho.

— Vou para o balcão — disse ele.
— Esteja à vontade. — E para criar melhor intimidade tirei da prateleira uma garrafa de uísque e abri-a para ele beber.

Não direi os porquês por que ele daí a bocado, já meio alegre, me contou a sua história. Há um ditado do engate que diz: «O que não fazes na cama à tua mulher, fá-lo a uma estranha, na pensão.» Mas ele teve laivos inesperados e desconcertantes para a sua comprida e sentida confissão. Foi a respeito do meu cliente, do Nudista, que fora veranear para a praia de Leça da Palmeira. Vi-o pasmar àquele cota de meia idade. Talvez a história seja julgada paranóica, mas conto-o apenas como uma curiosidade pessoal da vigília sedutora… Começou assim por me dizer que o seu caso era caricato — e que não queria que pusesse o seu nome no pasquim do bar — por isso alcunhei-o de “O Homem da Picha Triste.” Perguntei-lhe então se era cliente doutras casas que eu conhecesse. E como ele me respondeu que era crónico dessas, eu tive logo do seu feitio uma ideia porreira, porque os clientes do seu timbre eram uma antiga geração, quase uma raridade de empresários, que mantinham com uma assiduidade permanente o seu consumo elevado de despesas e de luxos. O Homem da Picha Triste disse-me que no tempo de 1981 ou 84, na sua ascensão, tinha em Sines, uma frota de operários a trabalhar sob o seu comando, e era ele quem os contratava. Depois o talento prático e inteligente de O Homem da Picha Triste, deu-lhe dinheiro. E assim tornou-se num «engajador» de operários não especializados. Disse-me ele que sendo naturalmente atrasado e menos evoluído, a sua vida tinha nesse tempo uma grande azáfama. Um trabalho movimentado e seguro, algumas certas dormidas fora de portas, uma mala saliente de roupas interiores e objectos de higiene, era todo o prazer da sua vida. Nesse tempo, a vida, era vagabunda e solta. Uma grande mudança social aclarava os vícios: os sentidos eram mais atrevidos, os sentimentos mais complicados.

Apanhar banhos de sol tranquilamente no carro, esticado na cadeira, vendo bater as ondas nos rochedos — sorrir com os melodramas que ecoavam entre as ruas de Leça, adornados de árvores, eram emoções que bastavam ao seu contentamento. O Homem da Picha Triste, aos quarenta anos, já tinha — como lhe dizia uma velha carocha, que fora querida noutra época — «sentido sexualidade de Gungunhana.» Mas por esse tempo veio tornar-se uma atracção defronte do local do carro de O Homem da Picha Triste, um primeiro andar, uma mulher dos trinta anos talvez, vestida de branco, uma pele amanteigada e um aspecto desejável, O Homem da Picha Triste tinha o seu carro estacionado, ao pé duma palmeira, e dali viu uma manhã aquela mulher com o cabelo louro curto e despenteado, um chambre cor-de-rosa e braços nus, chegar-se a uma pequena janela, a olhar para o mar. O Homem da Picha Triste, afirmou-se e, sem muitas intenções, dizia para consigo que aquela mulher, devia ser uma companhia agradável e cheia de energia, porque os seus cabelos soltos e suaves, o lábio carnudo, revelavam um temperamento vivo e imaginações ardentes. No entanto, deixou-se serenamente alinhavando as suas apreciações. Mas à noite, estava sentado ouvindo música do seu carro, que enchia o passeio: era em Abril e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a música gemia uma balada pimba, que então penetrava e era dum melodrama; a rua estava num deserto e cheia de mistério — e O Homem da Picha Triste, que estava em mangas de camisa, começou a lembrar-se daqueles cabelos louros e curtos e daqueles lábios carnudos que tinham a cor das cenouras descascadas: esticou-se para a frente, rolou calmamente a cabeça pelas costas da cadeira de pele e decidiu bocejando que a sua vida era aborrecida.

E no dia seguinte, ainda entusiasmado, encostou-se ao carro com a porta toda aberta, e olhando o prédio de frente, onde viviam aqueles cabelos louros. Mas ninguém se abeirou à pequena janela de caixilhos de madeira — e as horas foram passando. E quando se fechou dentro do carro sentiu defronte abrir-se a janela; eram certamente os cabelos louros. Oh! E O Homem da Picha Triste veio logo espevitadamente para o passeio limpar os óculos de sol. À outra vista, a mulher loura tinha alguma coisa de diferente da observação que lhe fizera antes. Um lenço às pintas verdes cobria-lhe metade do rosto, os dedos compridos e unhas pintadas, e toda ela era fresca, saudável e tenra. O Homem da Picha Triste disse consigo:

— É boa prá carago.

O Homem da Picha Triste, nesse tempo, era atrevido, com o penteado da moda. A camisa não dispensava a gravata e a sua figura devia ter aquele ar risonho e malandreco que depois da Revolução dos Cravos foi tão vulgar nos novos-ricos. A rapariga loura reparou naturalmente nele, mas naturalmente abriu a cortina de tom azulado, olhando para a frente o mar. Depois franziu suavemente o olhar na sua direcção e bateu duas vezes com as pestanas fazendo notar que por dentro um coração solitário se bate e espera — são velhos truques em que na verdade e na arte começa a conquista. O olhar ergueu-se em câmara lenta e o rosto louro iluminou. O Homem da Picha Triste não me contou por pormenores — a história detalhada da sua aventura. Disse simplesmente que daí a dois dias «estava tolo por comê-la». O seu trabalho tornou-se logo secundário e inseguro e o seu cabriolet Ford americano, bonito e espaçoso, galgou passeios, bermas, rampas, onde mirava toda a aventura impaciente dos seus nervos. Não a podia observar pela manhã: as noitadas boémias de Abril sucediam umas atrás das outras e eram noites perdidas pela certa. Só pela tarde, o sol aquecia, se abria a janela, e ela, vinha dobrando as mãos sobre o peitoral da janela, e pôr-se mimosa e bela com o seu olhar, observando quem passava. Era uma oportunidade magnífica e naquele momento inesperado, o pensamento de O Homem da Picha Triste com esta intuição interpretativa dos românticos, disse à sua curiosidade: «Será mulher dum engate.» O engate vai ao bordel, à rua e vem cheio daqueles clientes dos vícios eróticos, e nem O Homem da Picha Triste sabia porque é que aquela aventura o deixava indeciso assim: mas segundo ele me disse — «aquilo deu-lhe no gozo.» O Homem da Picha Triste, que tinha reparado naquele olhar uma tentação de desejo, quase um «S.O.S», esteve toda a tarde entregue às pestaninhas sedentas do desejo. Andava entretido, ocupado, não deu atenção aos afazeres profissionais que estavam sob as suas ordens. Mal deu conta do calendário se aproximar do fim do mês, e nem se preocupou em ir ao banco ver o seu extracto de conta.

— É costume de me deixar prender por mulheres atraentes — tinha dito para mim na sua expressão irónica. — São uns dias de férias antecipadas. Por minha conta.

Mas sucedeu que ao outro dia, estando ele à coca da janela, e neste momento uma vendedora de peixe passava na rua, que vendo a mulher de cabelo louro a abrir vagarosamente a janela, cumprimentou-a e atirou-lhe com uma confiança toda risonha, o seu «passe bem». O Homem da Picha Triste ficou iluminado: logo nesse instante foi atrás da peixeira, e abertamente, sem meia-tinta, perguntou-lhe:

— Desculpe-me, quem é aquela mulher que você há pouco cumprimentou defronte da esquina?
— É a Foscoa. Boa gente.
— Ah! Sim. E ela não vem à rua?
— Não sei. Encontro-a sempre ali.
— Bem, obrigado.

E O Homem da Picha Triste, desabafando consigo a história da sua aventura despertada e impaciente e falando do desejo com as exaltações de então, fez fé com a sua boa sorte «que ela viesse cá fora». Não era impossível. Logo na tarde seguinte, O Homem da Picha Triste de fato azul-marinho, gravata verde-mar, sentava-se no seu carro a ouvir um poeta afamado do tempo uma quadra intitulada «Sedução ou a ratoeira da loura.»!...

— De sorte que a oportunidade bateu à porta — e quando o poeta se calou, a mulher de louro que se chamava Foscoa apareceu vestida com uma blusa branca bordada, um ar de virgem bela, fresca e um brilho luminoso no olhar — o Sr. O Homem da Picha Triste é que não teve onde se agarrar, porque já estava todo apanhado, olhando Foscoa. E dizia-lhe suavemente:
— Então, noutro dia, gostou de me ver?
— Muito… —

No entanto na estreita rua, o trânsito passava-se dos eixos. O Homem da Picha Triste não pôde ouvir todas as palavras compostas daquela frase. Lembrava-se apenas da última palavra que falava em «suba»: ouviu-a de pé, quando um som brutal abortou de uma buzina ruidosa, e uma frase em terminal dizia: «a porta está aberta!» E O Homem da Picha Triste, desviando-se de um carro, olhava sorrindo — e via-se-lhe os dentes brancos. Depois a enigmática Foscoa, aproximando-se da janela com olhares reveladores ao chamamento, girou com os seus dedos indicando o caminho da porta, o que levou o paciente O Homem da Picha Triste e fã de Don Juan, a dizer ironicamente para consigo:

— Linha!... vamos para bingo!

Depois subiu as escadas côncavas muito usadas no tempo da Maria Cachucha, e quando chegou à casa, Foscoa convidara-o a entrar no quarto onde se encontrava deitada, dizendo-lhe:

— Espero que você honre o meu convite!

E O Homem da Picha Triste que estava boquiaberto, exclamou:

— Honre! Diga goze, minha querida!

Estavam frente-a-frente. A tarde já ia avançada. Foscoa, vestida de combinação lilás, justa ao corpo, toda deitada ao comprido da sua cama, apertando as mãos nas pontas dos lençóis, e ficando a olhar o físico de O Homem da Picha Triste, depois dele se ter livre das roupas. Depois vieram as festas, os gozos, e ela, Foscoa, ficara a gemer de prazer: sentia os bafos dele, as mãos dele segurando a sua cabeça loura amorosa, as chiadeiras da cama, e vira então ele, todo aflito a sair da cama, pôr-se debaixo do chuveiro e tomar um banho frio, e voltar a atirar-se a ela, cheio de fúria! «É um cavalo de força.» Foscoa então desmaiou nos braços dele. E foi quando O Homem da Picha Triste, sem fazer ruído algum, começou a vestir-se, todo absorvido a olhar para ela, quando de repente, afastou o lençol, olhando para as pernas de Foscoa: uma das pernas apareceu desequilibrada da outra e soltara-se da prótese.

— É fantástico — disse para consigo, — eu não senti a perna artificial.

Quando Foscoa voltou a si, achou-se aos pés da cama, curvada como um L, prendia tenazmente a perna à amarra, e a revelação que tivera magoara-a visivelmente. E quando se despediram, O Homem da Picha Triste, todo cortês no seu discurso, dizia sorrindo a Foscoa pela porta:

— Ora, a malandrice da perna, hem! Que coisa! Uma perna de plástico! Só tu me enganavas! Que raio! Eu não ter topado!

Foscoa esteve calada daquele gozo frio. Não lhe respondeu. O Homem da Picha Triste é que acrescentou:

— Um dia destes passo por cá, querida! Que surpresa… Foi bom… Mas foi mesmo! Uma rápida não se perde assim. Que mocada, hem!

E Foscoa tinha vontade de lhe saltar outra vez. Foi nesse termo que O Homem da Picha Triste me disse, com a voz muito sonante:

— Em suma, para encurtarmos pormenores, resolvi-me envolver com ela.
— Mas a perna?
— Não quero saber mais disso! Pe
nsara eu lá da perna! Resolvi-me envolver com ela!

Monday, February 14, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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OS FEIJÕES DO CASEIRO…

Hoje fui até ao bar, onde me colocaram no canto da parede que desde sempre me alapei, mas que nem sempre arranjei vaga. Também vieram duas joaquinas a acompanhar-me, que serviu para aumentar os números que fui engrossando por isto e por aquilo ao longo destas duas horas que estive no bar, o que me pôs novamente teso.

O lado engraçado da coisa é que fui atraído por uma delas que vi passar na rua. Pelo menos foi isso que me chamou a atenção. Mas fosse pelo que fosse, apareceu lá um indivíduo a dizer que ninguém escrevia uns contos de traições como ele. Nunca li os contos, mas o essencial era ouvir o que ele tinha para dizer. Esclareceu-me que distribuía no começo das semanas uns contos para ajudar um grupo de traidores a alegrarem-se, e como não há nenhum matutino que foque contos do género… no raio deste pasquim as traições andam sempre de mão em mão… é ele o fomentador criativo… e também o dono do bar… e diz chamar-se de Ratazana...

Mas vale a pena ouvir, é claro… focava o caso da gravidez-aborto da infeliz camareira com o tipo divorciado e virgoleiro. São sempre os tipos divorciados e virgoleiros que fazem os filhos às outras… estão sempre com tanta vontade de as engravidarem que não suportam ver alguém esquivar-se a não ter filhos. Portanto tem aqui uma boa história. Durante algum tempo deixei-me ser ouvinte, sem nada dizer, agora vou ser integrado no mesmo grupo. Porreiro.

Bom, estou integrado, portanto vou iniciar a minha traição. E tudo o que eu tenho a fazer agora, na verdade, é apalpar a loirita e a moreninha boa que se farta que eu vi atravessar na rua, com todas as ondulações como eu gosto, mas não se descasam uma da outra.

No bar começo a sentir-me francamente bem-humorado. Mesmo embora nunca tenha passado mais que duas horas por semana naquele local, sinto-me com uma força incrível, fora do trabalho. Vagueio pelo pensamento, tentando resolver qual das duas devo ir comer em primeiro lugar… como um jogador que faz palpite à sorte. Está um belo serão: sinto-me um homem afortunado…

De repente vem-me à ideia que vou ficar teso depois de levar as duas para a cama. Só por causa disso, resolvo ir à fala com o tal Ratazana. Não deve ser difícil orientar-me. Há demasiadas razões para que Ratazana me oriente. Porra, se for preciso até vou cozinhar um tacho de tripas ao meu restaurante para Ratazana comer, mas penso que não será preciso.

Deambulo pelas salas até encaminhar-me para a cozinha, tentando apanhá-lo só. Penso, talvez, lhe deva dizer simplesmente que estava indeciso na escolha por que me apaixonei por uma das suas joaquinas… pelo que ele terá de me ajudar. De qualquer modo, não estou preocupado.

Toco à porta duas vezes, mas não obtenho resposta. Já estou para dar à sola, quando a porta se abre e aparece Ratazana, de avental à cinta. Parece estar um pouco surpreendido…

«Diga… diga…», grita-me ele. «Traz algum problema? Se traz, liberte-o!»

Fecha a porta depois de eu falar e pega numa caneta que se encontra ao canto de um dos lados do balcão, aponta-me o local da pensão com ela.

«Eu mando ela para ali!», anuncia ele. «Saia e fode-a… Meta primeiro uma cobertura…»

Não entendo do que é que ele se está a referir e vou à casa de banho até que entro no quarto… A moreninha está deitada na cama, completamente nua, à minha espera.

«Eh, olhe, este corpo…», diz ela.

«Bom material!», digo eu. «Vamos primeiro aos miminhos...»

«Quer que lhe ponha uma cobertura?» diz ela, «que eu tenho mais jeito. Tenho muitas!» Tira um monte de preservativos de várias cores da bolsa e enfia-me um sobre o instrumento e vou para a cama. Olho para o corpo dela para ver se não há por ali nenhum tipo de mazelas… mas não me parece que a moreninha sofra de qualquer mal. Encavalita-se por cima de mim e agarra-me o instrumento.

«Chupo-o agora, um pouquinho?», pergunta ela. «Agora não quero ver-te a baldar!»

Começa a cena. Avoca durante um bocado. Tento afastar ela do pensamento, e derivo-o para as receitas da minha culinária. Continua agarrada ao instrumento e a lambê-lo…

É uma técnica tão sensual e relaxante que eu fico petrificado. Não sei se foi ela que me enlouqueceu ou se fui eu. Vejo a moreninha a mover-se no sobe e desce… Depois aumenta-o de volume...

«NocNocNocNoc!», geme ela.

A moreninha chupa num compasso forte. Também está stressada, parece que vai apanhar o comboio. Se eu tivesse enlouquecido estaria agora a baldar-me à brava.

«Pára», ordeno eu. «Desce para baixo e muda de posição. Vamos foder ambos… já sabes como é. Também vou querer dar duas… já o fiz noutros tempos…»

«Ouça seu Caseiro», diz ela, «mas que raio vem a ser isto?... O que é que lhe deu?»

«Mas então, não é uma traição, meu bem!», grito eu. «Uma traição onde tudo pode acontecer, onde se aprende coisas que nunca se souberam acerca de nós próprios! É da praxe!» Puxo a moreninha para mim e coço-lhe os bicos dos peitos enquanto continuo a gritar… «Quero conhecer aquela tua amiga… aquela cara de melancia da loirita… penso que vou gostar de ver uma loirita a comer uma morena! Talvez a deixe chupar-me em seguida, se ela der bem conta do recado! Como-as… todas menos aquelas pegas das chupistas. Só quero conhecer as traidoras que andem a foder sem se atirar à nota em primeiro lugar!»

Faço a moreninha levantar o cu para a montar em posição de arco, uma dúzia de vezes. Estou com o instrumento a bombear nela para aí vinte minutos, mas o mais certo é para mais do que para menos, e estamos ambos completamente em ardente labareda que saltamos fora dos carris.

De repente começo a vir-me e, por um momento parece que saiu de cima de mim um fardo de cinquenta quilos de bacalhau. Dou um suspiro longo. O instrumento murcha-se dentro dela e eu fico com cara de ressuscitado enquanto ela se levanta.

«Na próxima vamos fazer uma grande farra, meu bem», digo eu. «Fressura e tudo… uma gaja para a cama contigo! E com o meu tacho de feijões… sim, não podemos esquecer os feijões! Feijões e cona para toda a gente! Vou trazer o tacho para aqui! Vou ser traidor até cagar feijões…»

«Caseiro, acho que você está a ficar passado…»

«Passado? Qual passado? Não estou nada… Quero divertir-me. Quero que me apresentes algumas amigas… hei-de consolá-las até o filho da puta do último feijão mais pequeno que tenham lá dentro! E quando me consolar com elas, sabes o que é que eu te vou fazer? Levo-ta numa folga para a minha banca de cozinha e espeto-te lá o cu em cima das tripas para levares a minha receita para a tua terra!»

Estou ali deitado com a mão na verga e os olhos no traseiro dela, sem saber o que deva fazer ou dizer. Nunca vi um traseiro daqueles… nem sequer sabia que nestes lugares haviam queijos daqueles. Ainda tenho a sensação de que não explorei bem o esqueleto da moreninha. Quer saber se eu realmente vou em frente com o programa entre ela e a cara de melancia para fazerem sessenta e nove.

«Oh, claro… tu tratas disso. Eu apareço logo para te ajudar a foder essa gaja…»

«Minha nossa, quando a vires no trapézio! Sabes como ela faz? Atira-se de cabeça e chupa a buceta à moda brasileira…»

Já tem a calcinha na mão. Arrisco-me e peço um miminho mais e começo a ver a verga de novo a crescer. Agarro-me a ela como um náufrago prestes a afogar-se se agarra a um nadador-salvador…

Como-a por trás antes que ela possa mudar de posição. E naquela posição como-a com um certo jeitinho para não fazer mossa. Vou em andamento de vaivém e não vou deixar de o fazer. Não vou deixar de o fazer até ter esperneado como um galo e me sentir aliviado por dentro e por fora. E quando transpor a porta da pensão, aí vou apressar o andamento mais um bocado.

Corro para o carro para seguir para o restaurante. Vou para o restaurante e vou cozinhar ou fritar uma boa ementa para o prato do dia, umas beiças aos pratos, servidas com bons grelos e que possa constar da lista quando os clientes se repetirem e começarem as marcações.

Tuesday, January 25, 2011





CONTOS DE RATAZANA
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TOZÉ, CHICRINHAS E MEI
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Quanto mais tempo passava sem dormir mais falador se tornava e começou a ficar chanfrado e a disparatar com os condutores dos carros que estacionavam no parque do quarteirão – esses condutores, ante tanta falta de educação por parte dele, revelaram ser tão malcriados quanto ele – «Queres saber porque é que eu estou aqui?», – Chicrinhas ofereceu a Tozé mais algumas confidências. – Mas queres saber ou não? – E disse-lhe logo, sem esperar pela resposta. – «Por causa de uma mulher. Pois é, pá, por causa de uma esperança da minha vida eu ando para aqui a chutar pó, a ver se me esqueço dela, já que ela se esqueceu de mim.» - E: «Como é que te hei-de explicar? É algo que brota aqui do meu mais profundo ser (e apontou com o dedo o coração), juro-te: quando a beijei toda, até fiquei sem saliva na língua, as minhas peles até mingaram que eu quase estiquei do esqueleto, e eu já beijei muitas miúdas mas, como aquela, juro-te que nenhuma. Chiça, pá, ela tem cá um calor que eu derreto-me todo em água.» - Já não sabia que dizer mais, dessa miúda que lha tinha feito o sonho num oito e que levara a sua vida entalada no pó branco, para dizer como fora esse momento, que ela passara a ser a visão desse sonho. «Não estás a entender», – o outro desistiu. – Tu não sabes o que é um gajo ser um teso, não ter um cobertor para poder roncar à vontade. Se eu tivesse um balão e pudesse dar a volta ao mundo, metia-la dentro comigo, só os dois, numa ilha deserta a comer cocos e bananas e a beber água. Depois, fazia-lhe uma dúzia de filhos e nem precisava de abono social!...» Quanto mais Chicrinhas se esforçava para explicar a sua obsessão pela miúda dos seus sonhos, Mais Tozé procurava evocar a imagem de Mei, mas não aparecia. A loucura de Chicrinhas começou a encher Tozé de raiva e frustração, mas Chicrinhas não reparou e deu-lhe um palmadão nas costas anda lá pá, puxa por ti e conta lá a história das tuas gajas.

Oito dias depois de se conhecerem, Chicrinhas aproximou-se da porta do trabalho de Tozé, empregado de mesa da Boite P.A., e chamou-o ao lado. «Meu irmão! Não orientas aí o resto duma cerveja e um cigarrito cá para o amigo que já não fuma desde ontem?» – Foi assim que ele entrou. Tozé fitou-o bem nos olhos e exclamou em tom baixo. «Entra e encosta-te ao balcão mas não pies alto.» – A seguir, ordenou ao colega de serviço que lhe orientasse uma cerveja, não queria correr o risco do patrício(1) manjar e lhe fizesse pagar a bebida. Instantes depois, entrou e empurrou Chicrinhas para o canto do balcão. «Orienta-te aí ao copo e tá calado.» – Disse ele, tratando de dar um arrumo ao serviço. E Chicrinhas não pediu licença a ninguém para beber de lance o gole de cerveja que embelezava o copo de publicidade BEBA SUPER BOCK. Depois disso, esgotou a paciência ao outro que o pusesse a fazer fumo dos queixos. O fumo alimentou o vício. No centro do cinzeiro, uma porrada de beatas foram transformadas por Tozé em charros prolongados com pó de talco, pitas de sal miudinho e cabeças de fósforos. E Chicrinhas deu o primeiro chuto aspirando para dentro todo o fumo possível e, a seguir, fitou Tozé de olhos abertos e disse: «O vício é um martírio privilegiado.» - A seguir ao primeiro estouro dos fósforos, Chicrinhas gritou como um desalmado. «O que é esta merda? Charros a deitar foguetes?» – Chicrinhas caíra na tentação do vício e o fumo alastrara-se até aos fundilhos das calças e ele arrastara-se até à porta cheio de histerismo. Lá dentro do balcão ninguém se mexeu. Cá fora, Chicrinhas, agitando os braços, dizia sem interrupções. «Estou a ver a ressurreição de Cristo, estou a ir para o calvário, e vou falar com o Pilatos.» -

Às vezes essas comoções terminavam em soluços. Chicrinhas, no seu esgotamento-para-além-do-esgotamento, descontrolava-se e punha-se a ganir toda a noite até cair para o chão e dormir. Não a dormir: a sonhar. Na fatídica manhã do seu trigésimo sétimo aniversário, dentro do seu carro, junto à praia do Cabedelo, em Vila Nova de Gaia, Tozé via dormir a amante e sentia o coração a encher-se até mais não de puro amor. Tinha por mais de uma vez acordado aos repelões, antes do nascer do sol, com o traga amargo na boca que lhe deixara um pesadelo, o seu sonho de reconstruir um lar único – dos casais que adoram o ar livre da natureza – e acabara por adormecer de novo enrolado na construção do paraíso ali à beira-mar. Despertando ao som das ondas e envolto no nevoeiro do céu, ficou irritado consigo mesmo por se ter esquecido da parte final do sonho. Ergueu-se sem ruído, agora estava bem desperto, e olhou pela janela do carro em direcção à praia, ainda enevoada. Lá um pouco mais distante, ouviu ligeiramente o chiar da passarada junto ao arvoredo ao pé da Fábrica da Seca do Bacalhau. Tozé puxou o pescoço mais para cima e pôs-se a fumar um cigarro, abrindo um pouco o vidro da janela. A areia da praia estava envolta em névoa, no meio da qual rodopiavam as gaivotas, fazendo a chiadeira do costume.

Desde o início do romance entre Tozé e a sua amante, no local do trabalho onde se conheceram, há mil e quinhentos dias, os sonhos tinham-se desvanecido aos poucos, da mesma forma que as ilusões se criaram no domínio imaginativo em que ele sonhara um dia: construir um castelo de areia à beira-mar para a sua princesa. Por isso, sempre que voltavam à praia, aquilo parecia tratar-se de um presságio de alguma coisa maravilhosa, uma vez que a curtição entre ambos eras totalmente diferente das outras curtições entre eles. Daí, o regresso à praia, em horário de pescador, animara o espírito de ambos e, depois duma boa curtição, dormiam até o sol raiar pelos vidros do carro. Quando ela acordava, via-o em cima do rochedo, tentando pescar com uma cana e uma linha com um anzol e um isco enfiado. Tudo o que é corriqueiro acaba por se tornar impróprio para consumo e Tozé sabia muito bem como devia fazer feliz a amante; tornar-se ele num verdadeiro erudito. Na manhã do seu trigésimo sétimo aniversário, quando a primeira luz do dia afluiu na praia a as gaivotas começaram dum momento para o outro a banharem-se nas águas, a beleza do momento cortou-lhe a respiração. Correu na direcção do carro onde a sua amante Mei dormia ainda e acordou-a com meiguices nas partes íntimas. Tozé sentiu vontade de fazer amor e não esperou sequer pela autorização das gaivotas, estendendo-se sobre ela, beijando-lhe a boca até desaparecer a comichão. Quando terminou, ficou a olhar para a inocência da silhueta meio adormecida. Ela tinha o cabelo comprido, loiro malhado, uma pele branca e os olhos atrás das pálpebras eram dum castanho claro. Os pais dela não eram conhecidos. Por isso, a união dos dois foi fácil e amor à primeira vista. Com o passar do tempo, foram trabalhar juntos para os copos e entendiam-se às mil maravilhas no mundo da copofonia. (2) Como não tinham filhos, transformaram-se numa união sagrada de amor único e soberano, onde a natureza era a rainha-mãe dos seus segredos e mistérios. Cheio de emoção, Tozé observou Mei enquanto ela dormia e expulsou o espírito maligno do pesadelo que o atormentava. «Quem diz que viver assim na praia», – raciocinou alegremente, – «ouvir o relento, cheirar o aroma, fazer amor ao som dos uivos das gaivotas a dançar nas águas frias e tépidas, sem pagar luz nem renda que é maluco: eu direi mesmo que malucos são eles todos.» -

Olhando fascinado a aurora maravilhosa, voltou a dirigir um discurso silencioso à amada adormecida. «Mei, eu faço hoje trinta e sete anos de idade e estou maravilhado com este amor. Só desejo do fundo do meu coração envelhecer ao teu lado.» – Disse-lhe enquanto ela dormia, atirando-lhe um beijo com a ponta dos dedos e inclinou-se para o lado e acabou por adormecer. Baixou logo os olhos. Nem um ai mais disse e ali ficou entregue ao sonho, como ele desejara. Desde o dia dos anos que Tozé andava louco de desejos apaixonados. «Parece que começo agora a viver uma nova vida.» – A união deles estava segura e tornara-se tão firme que nenhum cliente conseguia arrebatar-lhe a amante mesmo com promessas fortes de suborno de dinheiro ou até à base de bebidas espirituosas. Tozé alimentava uma secreta aspiração de dormir com ela na praia, o entusiasmo contava e era maior e, por muito que os amigos dissessem o contrário, ele é que achava que estava no caminho certo. Para isso, o seu carro fazia de quarto, o ar condicionado de frigorífico e os tapetes serviam de mantas. Por conseguinte, a secreta aspiração dele, levando-a todas as noites depois do trabalho findo para a praia, foi acolhida pela amante com um encolher de ombros como quem diz: «tu é que decides.»- Por isso, Tozé chegou à noite depois duma noite de trabalho, disse: «Não achas que seria uma delícia ir ver o mar?» – Ela respondeu: «Como queiras, Tozé.» – Ela compreendeu que aquilo para ele era uma espécie de jogo erótico e, como já estava habituada, resolveu sujeitar-se.

Tozé apareceu com o carro na rua e gritou: «Por favor, vamos embora.» – Ao cabo de vinte minutos, o carro de Tozé estacionou no local do costume, próximo da praia e ele ficou a olhar pelo espelho retrovisor a ver se vinha alguém atrás deles. Depois, olhou para o pequeno espelho da frente e viu o bigode engrossado e mal cortado, o queixo retraído, os lábios manchados de baton. Testa, rosto e nariz, tudo amarelo, amarelo, «O que é que esta mulher viu em mim?» – exclamou e reparou na sua agitação, que realmente estava doente de amor e não era só o erotismo que lhe criara aquela afeição por ela.

«Que raio de maluco eu sou», – suspirou para consigo. – «Merecia era que me dessem com uma vassoura pelo canastro abaixo.» – Mas não era o tipo de pessoa que se deixasse enredar por estas palavras. Em vez disso, encostou a cabeça ao ombro dela e deixou-se adormecer em sonhos: avermelhados como o luar.

O carro, apesar do seu formato pequeno e amanhado, era um sítio sólido, bastante exótico, apenas com o senão de servir numa causa complexa e excitante. Nesses tempos os amigos riram-se daquela aventura mas não faltou quem os quisesse imitar; embora apenas por um período de minutos ou até horas – de apenas tirar uns nabos ou coçar no pêlo – das suas futuras namoradas. Por isso, ali estava o carro, na praia, junto ao areal, ao lado do arvoredo, com as portas e os vidros bem fechados. Quando estava dentro dele, Tozé não se cansava de recitar na sua rouca voz de fadistola. São os seus versos preferidos.

Quem foi que inventou
A vida o trabalho e amor
Fez três coisas maravilhosas
Mas mais sábio


Foi quem se furtou à dor
E fez da vida
Um mar de rosas


Havia quem dissesse que o carro até dava mais brilho à praia e que se tornara numa lenda da praia do Cabeledo. Ao fim de meia dúzia de anos, começava finalmente a integrar-se na sociedade moderna e a deixar apenas o carro para a condução do passeio matinal. Mandou dar uma pintura nova ao carro e até os vidros mudou, bem como os tapetes já coçados e rotos de tanto uso terem. Muito poucos foram os amigos que acreditaram naquela nova mudança e, por isso mesmo, reinava no trabalho uma atmosfera barulhenta de aposta – saber se era para valer ou não – Tozé orgulhava-se de ter apenas uma palavra. Dormia agora num quarto das águas furtadas e a janela branca em flor, a escada tosca e velhas tábuas e a cama onde guardava um grande amor. A vida ali era doce e suave, tão suave e doce como árdua era a que se vivia dentro do carro; mas, mesmo assim, era uma existência tão fofa que valia todos os sacrifícios da vida.
…………....
(1) Patrão
……..…………….
(2) Bar de Alternes