Tuesday, September 23, 2008

CONTOS DE RATAZANA





              «SOB O TECTO
                 LORDESCO»

                       ~~~



Só eu sei que já vivi no Porto o tempo suficiente para não me sentir surpreendido com coisa nenhuma. Aqui não é própriamente necessário procurar aventuras do arco da velha, tal como acontece em Pequim… só é preciso ter um pouco de paciência e esperar; a vida virá ao nosso encontro nos sítios mais incríveis e picantes e as coisas passam-se aí. Mas este caso em que agora me situo… esta catraia de dezassete anos, branca como a cal, na mesa onze, o indiano espalhafatoso a ferrar uma orelha atrás dela, à frente, as duas prostitutas, uma baixa e outra alta, sentadas no sofá… é como se a realidade fosse vista através de um binóculo que embaciasse as imagens, tirando-lhes assim toda a credibilidade. Nunca me imaginara a servir de fiscal… como esses tipos que são controladores dos transportes públicos, de aspecto sempre meticuloso, muito andantes nas flautas, explicando que a catraia tinha o calor em brasa e ele estava a soprar-lhe o frio… Mas agora, tenho de admitir que Fili, com o seu corpo médio e sem pêlos, excita o indiano. Não pelo facto de ela ser uma catraia, mas porque é uma catraia sem inocência… olha-se-lhe dentro dos olhos e vê-se o diabo em figura de gente, a sombra da experiência…está sentada sobre uma das pernas desnudadas e comprime a azeitona debaixo da sua língua…
… e os seus olhos gozam pelo embaraço dele. O indiano roça-lhe com a palma da mão uma das nádegas palpitantes… o corpo ainda mantém a solidez e a imaturidade da infância. É uma mulher em crescimento, um modelo ainda por se fazer. Tem o suor espalhado… Gosta quando ele lhe faz festas ao pescoço. Agarra-lhe o braço… mas ele já entrou no local das bolas de Berlim… Espeta-lhe as unhas aguçadas que não o deixam explorar terrenos alheios e começa a brincar com a azeitona na boca… bom, vai pô-lo mais doente da tola…


A prostituta magra, sorri cinicamente… Ainda lhe chamam catraia… Ainda lhe chamam catraia, diz… a gaja sabe tanto como eu destas coisas. Ela marca com os olhos tudo o que se move. No seu ofício não se podem dar ao luxo de se deixar envolver emocionalmente, já que as prostitutas só conseguem viver depois de aprenderem a vender os seus corpos e, nunca, os sentimentos… mas vejo a perturbação invadir-lhe a alma, enquanto a voz vai ficando destravada... Chama a prostituta alta. A alta não se faz ouvir, mas ela empurra-a da mesa… está quase a caír ao ver-se desamparada. Pergunta-lhe o motivo porque se comporta como uma… bem, como uma sonâmbula, ela não diz nada, mantém-se apática e a magra toca-lhe no braço.
Tu fazes amor com o teu homem, todas as noites? Sim, todas as noites, quando ele está comigo deitado na cama… E quando o teu homem vai trabalhar, quando está fora durante a noite? Os cabritos, às vezes, querem que eu lhes faça umas coisas… eu nunca lhes digo que não, nem àqueles que querem levar com uma pelo telemóvel… O indiano sai irritado da mesa onze. A menina quer fazer o favor de não contar mais histórias dessas … peça uma garrafa e bebam as três uma rodada de um champanhe que vos faz bem ao espírito. A Fili bebe um golinho de espumoso.


Sento-me ao lado da prostituta alta no sofá. Está tão preplexa a olhar para mim, como eu estou para ela; deve ter-se esquecido do compromisso com o cliente de há bocado, senão teria dado à sola e não seria preciso eu ir avivar-lhe a memória… e logo a seguir, deita a mão à testa e levanta as pernas compridas e fortes. Fili está sentada ao lado do indiano. Brinca-lhe com os dedos, enquanto ele desliza a vista pela montra envidraçada... ele levanta o fino dedo mendinho para cima e ela belisca-o com gana.
O telemóvel da prostituta alta está tocando e, quando ela atende, vejo que está a desculpar-se perante o cliente. Não disse mais de cinco letras, tantas quantos dedos tem a minha mão. Ergue o olhar para a frente, tira a mochila do chão e esfrega os olhos, pergunta ainda, se ele me pedir para não usar preservativo, talvez a seco? Ela está morta por ser comida, e o facto de lhe terem prometido pagar três vezes mais aqui na pensão não tem nada a ver com o sítio onde ela faz massagens... neste momento, provavelmente, era capaz de dar ainda mais qualquer coisa só para receber aquele dinheirinho… Fili quer que o indiano a leve prá cama. Está ela debruçada sobre ele, com o copo numa mão, enquanto gesticula com a outra e pede, em voz alta, que eu lhe sirva outra dose e leve azeitonas pretas. Ele vai-me comer, diz-me, quando se encaminha pró quarto de banho, não queremos que os nossos nomes apareçam no pasquim do bar? O indiano reluz como um xeringa,1 agora tudo se parece cor-de-rosa. Está meio esticado no sofá da mesa onze, esperando que a pequena catraia volte. A prostituta baixa pede-me para pôr uns bónus na máquina das bolinhas. Ela está tão em crise por não entrar um cliente, que quase avaria a máquina quando começa a perder bónus e subitamente, o telefone começa a tocar.


Posso ser eu, mas faço também colecção com a minha amiga, exclama e fala ainda mais alto que sou obrigado a aumentar a música para os outros não ouvirem. Volto-me para trás, para não me chatear com ela… está a rir, a cabra, adora estragar as coisas que não são dela… «Comes as duas, se quiseres!» A prostituta baixa continua a chamada e tenta convencer o homenzinho, as palavras saiem-lhe com excitação… baixa o soutien para baixo… os seios exibem-se por fora da camisa. Oiço também o indiano a chamar-me:

«Azeitonas! Tenho de comer mais azeitonas antes de comer a minha querida pequena catraiazinha!»


Fili abre a sua pequena blusa e empurra para baixo, contra as suas calças justas de cor branca... vejo a sua descontracção aumentar-lhe para o dobro. Não percebo como ela consegue sustê-lo… mas o seu olhar reluzento parece devorá-lo, e bebe mais e mais…por instantes, sinto-a tão prevertida aquela catraia, para saber tantas coisas… E continua a saber por aí fora… Afasto-me, levando os pires sujos e os copos vazios e meto-me dentro do balcão e o indiano pede-me a conta.

«Devo estar tão generoso para si, para ter feito uma despesa destas… Com certeza que não estou com a moca… Agora, faça-me o troco, depressa!»
«Mexa-se!», grita ele. Julgo que está assustado com os meus números, mas não… aquele monhé não é da raça dos que se assustam fácilmente. Os olhos activos brilham-lhe quando me olha.


Corro, ligeiramente, para levar o troco.


«Ratazana! Ratazana!» É a prostituta alta que chega da rua. Deita-me a mão com força. «Atirei-lhe o dinheiro à cama, àquele sostro velho?» Vê-me tirar um copo de água.
«Não, não quero água…»


Puxo-a para trás do balcão. Lá está a colega a martelar as teclas da máquina de diversão.


«Oh, filha! Tu nem sabes o que me aconteceu!», choraminga a prostituta alta. «Aquele sostro velho deu-lhe para pegar no cinto para me cascar, enquanto me queria comer! Gritei-lhe como uma desalmada!»


Ela sentou-se na cadeira e esticou as pernas para fora da mesa. Estava tão branca que pensei que lhe ia dar o fanico.


«Oh, filha… se tu lá estivesses…», suspirou ela.
«Sua filha da puta maluca!», grita-lhe a prostituta baixa. «Não te volto a avisar para não te deixares comer de cebolada! Fazes tudo à tua maneira, e ainda por cima, atiras-lhe com o dinheiro!» Enfia o telemóvel nas calças e larga de vez a máquina das bolinhas.
«Agora, morcona! Vou fazer um labrego que engatei do anúncio!

Cava, rapidamente, da sala. Esta prostituta tem uma velocidade nas gambiarras. Não há forma de a apanhar… Pode-se ir de patins, skates, até bicicleta a motor, que a distância continuará a aumentar até nos deixar.

«Adeus!» É o indiano a saír e Fili segue atrás. Já lhe passaram insónias a mais… muitas, sem deixar rasto, meias gastas, todas elas. Mas estar tarde, esta bela tarde, Fili não o vai deixar fugir.
«Ratazana!» Ah! Esta agora, quer paleio. Empurro o copo para perto da sua mão e ela choraminga de novo a lembrar-se daquela saída, sem nada receber, isso baralha-lhe a mente. Neste momento não é uma prostituta… é sómente uma cabeça com problemas, que tem der ser reparada… os problemas vão durar muito.


Vou ter de levar com ela, como vou ter de ouvir as suas memórias desses outros que a lixaram. Está debruçada com a cabeça na porta da sala de jantar, com as pernas firmes para fora e os seus lábios murmuram palavras azedas dirigidas ao sostro velho. Faço de conta que não ouço. Agora, ela está em baixo de moral. Encho-lhe o espírito com palavras bonitas. E faço-lhe ver que não tem de se sentir culpada por não possuír estaleca para ser usada a chicote… é já bastante o que ela faz… Depois de ter aliviado, a prostituta alta mantém-se escarrapachada olhando como um lince a porta do bar. Nem se dá ao trabalho de fechar as pernas… comporta-se como se tivesse esquecido donde está e parece plenamente satisfeita consigo própria. Mas receio que hoje não não apareça ninguém, que lhe pague no mínimo um copo, ou uma ajuda para o táxi, para ela contar a história da mãe no xadrêz por gamanço… Meto a mão no pano e limpo com ele a mesa e tiro a primeira revista que me aparece, coloco-lhe dobrada na página dos anúncios dos casamentos à moda de Campanhã, sobre o tampo de vidro da mesa, como um alívio a servir de distracção.


De súbito, a prostituta alta põe a revista de lado e sai. A rua, tão solitária e despovoada, como nunca vi, acolhem-na.


(1) drogado.

Wednesday, April 23, 2008

CONTOS DE RATAZANA


                                       O CAVALHEIRO DE TESÃO
                                                           ~~~

Não quero embebedar-me. Hoje levei meia dúzia de garrafas de uísque para casa... duas já foram aviadas e desfiz-me delas. Não tinha notado que estavam a escoar-se, que o álcool se tornava progressivamente mais fraco para aguentar a sede... mas já se foram e só as tinha comprado há uma hora ou duas... quando ainda estava para ver o futebol na televisão, é claro. Em que outro programa a não ser o futebol se pode beber uísques a quantidades de granel que se evaporam primeiro do que a pessoa que os bebeu? Mas o tempo cura. Estes gajos da vida da noite que nos dizem que não se importam de apanhar a piela e dar duas, ou cinco ripeiradas... como é que uma besta pode dizer uma asneira dessas, minha sorte? Há tempo para tudo e muito mais e contanto que se esteja a mexer é impossível a alguém cansar-se de não fazer o que lhe der na real gana... Saio e vou à procura de prazer. Entro no O Bar do Traidor. A chavala da Panquecas vem coçar-se no meu casaco após uma troca de olhares. Está cheia de vícios, até às unhas, ou mais... agora é o lesbismo que a atrai. Fala de cabelos, brancos e russos, das Mulheres-Homens, de pentelhos e não pentelhos, de sensabilidade fêmea... Oh, ela tem tudo bem estudado, conhece todas as palavras e fala tudo tão rápido como um papagaio que tudo me leva a crer que não tenha o caco avariado.

Decidiu que já reuniu informações a meu respeito que lhe faço parecer um cavalheiro de tesão e espera um dia chegar a sua vez de me comer. De mim, ouviu ela dizer, mulheres houve que levaram uma ripeirada de engravidarem! E como seria maravilhoso poder ir para a cama comigo, ser acompanhada por, digamos, Panquecas, ou outra gaja que, por motivo de atracção, etc., é inacessível de qualquer outro modo. E ela vibra com esta treta! Tem andado a ver montanhas de filmes eróticos, diz-me ela, e a Panquecas está excitadíssima. Saberei eu, por exemplo, interroga ela, que há, nesta cidade menos de cinco dedos de casas eróticas, cujas clientes se perfilam à adoração do Antipénis? Fala de seduções e joguinhos, e vários utensílios utilizados para fins de prazer e realização sexual. Cos diabos, ao ouvi-la falar quase me convence que todas as noites avia marados e tarados. Até a Panquecas faz a sua entrada na mesa... esgotou as listas nos dois celulares dos grandes senhores da foda de todas as épocas e diz-me que só no Porto existe menos de cinco locais de encontros afrodisíacos que funcionam de noite. E puxa por mim: «Então, Sr. Rui, hoje não vai dar uma rapidinha? Abano a cabeça, simplesmente.» É impossível ir para a cama com uma mulher que não me diz nada ao instrumento. Mais depressa me enrolava com uma rafeira esfomeada. Para ser sincero, estou contente por ela se ter posto ao fresco e mesmo depois de ela ter saído da mesa aindo sinto o vazio que deixou. Não são pancas e taras que me chateiam.

Torres dá também o seu mote para o meu dia! Torres e Panquecas! O industrial da construção que Panquecas gosta de levar para a cama com desejos ardentes, mais ardentes que outros, quanto está só a viver em casa... sente saudades do tempo e sofre daquela doença que faz as amantes sentirem que uma pessoa que tenha estado por dentro da vida um do outro é um amigo para brincar e troçar com toques de ternura e confidências. Por conseguinte, Panquecas anda a dar umas curvas com ele. Não é tão chança como eu pensava... talvez porque tanto ela como ele se sentem divertidos... fizeram a ronda pelas tabernas da periferia. Também não é muito nova... nem percebo como é que ainda não se cansou de aguentar Torres... ele está a ficar pantomineiro... Ele encosta-se-lhe à perna, dá um tremido para ela, mesmo ali à minha frente, e ela aproveita a dar-lhe um beliscão e olha, fixamente, para ele. Torres parece ter decidido que esta noite é mais uma noite para a tourada... há alguns dias que anda a tentar apanhá-la com a chavala que já fez tudo, excepto dizer abertamente para ela trazer a chavala que quer montar as duas. Começa a provocá-la... mete-lhe a língua na orelha, roça-lhe com a mão nas mamas... Ele está a querer que ela aqueça... e parece-me que ele a quer tanto para o seu próprio prazer como para aquecer Panquecas. Oh, ela é uma sabida na matéria, a esse respeito não restam dúvidas. Enquanto isso, a chavala... a chavala afasta-se e desaparece durante uma meia hora, até voltar ao nosso convívio outra vez...

De súbito soa a campaínha da porta do bar e é a meia-irmã de Panquecas.

Voltou do café e trás um pastel para Panquecas que ela não conseguiu comer hoje porque acordou tarde. A chavala regressa também e recebe ordem para dar uma dentada no pastel. Senta-se e faz olhinhos... um pequeno sorriso é tudo o que preciso para a compreender... Aquele pequeno corpinho, deixa-me o pau em sentido que podia pô-lo em exibição... Ofereço-lhe um copo de licor de pêssego e depois ela contempla-me de alto a baixo exibindo o seu primeiro sinal de compromisso em toda a noite. Depois Torres e Panquecas sentam-se e agarram-se um ao outro. Torres fica de frente a olhar para mim, no sofá. Talvez não fosse má ideia irmos os quatro para o cardenho e estávamos mais à vontade! sugere sarcasticamente. Porque é que elas não nos fazem aos dois ao mesmo tempo? Deve estar mais embriagado do que eu... de certeza que sente uma certa temperatura... Panquecas solta uma valente gargalhada. Mas ele ri-se também... os dois desatam a rir, a beberam um copo pelo dito e a chavala faz-se tímida e está bonita.

«Porque é que tu não lhe saltas...? Oh, pá, estás à espera que ela te diga», pergunta-me Torres. «Leva-a para a cama... Eu não me importo. Mas eu gostava de a fazer com a amiga, para ter o prazer de saber o que é que elas têm para me dar que eu não saiba?»

A chavala tosse convulsivamente, colocando a mão à frente da boca. Tenta mostrar um ar alegre... uma coisa que a tosse não a deixa disfarçar. Panquecas carrega o sobrolho... talvez pense que Torres está a querer ir um pouco longe demais... mas estas gajas podem ir bastante mais longe de que isto. Repentinamente a chavala abre a blusa e mostra-nos os seios que emolduram o corpo. É como ter um raio potente dirigido subitamente na nossa direcção, quando ela nos mostra aquilo. Quase que os esfrega no nariz de Torres. O que é que há de mal com eles? Quer ela saber. Ser pequenos... ser descaídos? As duas coisas, digo-lhes eu, o que a faz morder o lábio. A chavala fecha subitamente a blusa, e lança-me um olhar reprovador. Torres quer divertir-se. Para a família, ele está muito longe de casa e, nem sempre isso acontece, segundo nos diz, pode fazer o que muito bem lhe apetecer. Torna-se altamente vendedor de programas ao programar uma farra nocturna. Por fim volta-se para Panquecas. Se ela quiser alinhar num quarteto, vai ver que não se arrepende. Panquecas manda-o enfiar o dedo pelo cu acima... mas realmente não há razão para nos divertirmos.

Não estou muito pelos ajustes de desejar despir as calças com este par por perto... mas ele mostra-se resoluto com tudo. Convenço-me que o seu interesse se centra mais em Panquecas. Está uma pequena confusão na mesa desde que Torres chegou... oh sim, ele pensou mesmo em comê-las, simplesmente a Panquecas não vai no jogo! Mas não é fácil fazer uma coisa destas quando uma parceira não alinha... mas ele nunca vai desistir de as fazer. Porra, não vou ficar aqui feito pateta a ver estes doidos a reinar! Mas estou com uma força no pau que parece fazer parte dos meus bons tempos e se não como a chavala provavelmente vejo-me obrigado a sair e a pagar a outra puta... encosto-me a ela quando se encosta para mim. Esfrega a mão contra o meu instrumento e puxa-o para a frente para medi-lo ao comprimento. A chavala está tão louca a ser levada para a cama como eu estou para a comer... as suas mãos ardem e o suco escorre entre os dedos. E o seu olhar... é uma maçã ardente e cobiçosa... Sinto-me como um homem prestes a entrar na lua quando lhe passo a mão na rata. Ela abre as pernas e firma-se como uma santola. Levanto-me para ir à pensão à procura de um quarto. Torres agora olha-me admirado. Certamente não contava eu ter uma reacção destas. Explico-lhe o porquê. Tens aí uma gaja para fazer cócegas à barriga. Para mim, é agora ou nunca... há tantos dias que ando a tentar comê-la, que agora não me escapa. Oh, My God, fodi-a no quarto 11, no andar de baixo da pensão, em cima do velho móvel da roupa! A chavala está sentada de frente, firme como uma rocha, enquanto lhe tiro as cuecas... e atraio-a a mim e beijo a sua boca mais uma vez... e antes que ela tenha tempo de arrefecer eu monto-o. Monto-a ao estilo de Marlon Brando e começa a dar gemidos tão altos e roufenhos, que eu temo que o homem da recepção apareça com a polícia e me leve para a choça.

Que loucura! A chavala agora grita que lhe está a chegar o orgasmo... Eu estou tão roto que a única coisa que posso esperar é que ela não expluda. A chavala está demasiado concentrada a imaginar-se com o cavalheiro de tesão e só abre os olhos quando me venho e ela, também... Ah! que gozo, parece que o mundo inteiro está a ter um orgasmo!

Sunday, February 3, 2008

CONTOS DE RATAZANA



                                             O ESTILO PINGA-PINGA
                                                               ~~~


A Raquítica já não quer continuar a foder comigo durante mais tempo. Não preciso de ir à bruxa para saber o que está por detrás disto... O homem a quem ela chama de Padrasto fode-a, eu fodo-a, os clientes fodem-a e ela está farta de ser fodida. Como cuspidela final no seu prato, o Padrasto está a intrometer-se com a sua clientela… e Raquítica é tudo o que há de mais fêmea. O Padrasto quer saber se alguma vez ela foi enrabada mas não vai saber, pelo menos da forma que ele pretende. Evidente que ela merece tudo o que de ruim lhe está a acontecer na sua vida… sempre que a voz profunda da consciência vomita qualquer coisa, lembro-me do que esta cabra nua com ataques de engasgos me fez passar; ajuda-me muito a não ter piedade dela. A única coisa realmente admirável, quando penso no seu caso, é Raquítica nunca me ter dado o nega, antes disto. Uma gaja que é desequilibrada como ela é desequilibrada, devia por bem trazer uma tabuleta ao pescoço: «Pretende-se Relações Banais.»

Após alguns meses de relações com Raquítica, um tipo começa a sentir-se possuído. Que ela tenha conseguido pôr-me algum pó de talco afrodisíaco durante este tempo, é simplesmente outro sintoma do declínio geral do meu prazer. Olhem o Padrasto, por exemplo... já anda com ela à muito tempo e já lhe aconteceram tantas coisas como à maioria das outras pessoas, mas se ele não me tivesse, por curiosidade própria, telefonado hoje, possivelmente eu nunca me teria apercebido do jogo deste cabrão que se desmascarou. Pela parte que me diz respeito, eu também sou culpado por deixar ela ter acesso aos meus números de telefones, até hoje. Bom, não acho que a partir de hoje me vá falar muitas vezes ao telefone... Desconfio que a sua abastada famelga vai decorrer pacatamente, com muitos menos pedidos de ajudas... Ratazana está quase em sobressaltos, pois crê que eu escapei de ficar com a língua cortada à dentada mesmo em frente do meu narigão. É um verdadeiro calafrio... algumas histórias semelhantes a esta por que lhe contaram, deixaram-no neste estado de alerta. Pede-me para acabar com isso. Dê-lhe de enxota, diz, e o Padrasto que vá para o maneta... pelo menos, que não lhe volte a chatear. E, se porventura, voltar a comer Raquítica, quando ela não estiver tão em stress, nem dê mostras de começar com engasgos, então sim, deve valer a pena explorar o esqueleto, sugere ele.

«Que julga?», exclamo eu. «Não acha que ela e eu já temos um jeito pró outro que nos derrubámos? Claro… depois de cair-mos na cama!»

Falar a Raquítica como é que se vai pôr na cama é o mesmo que dizer a um homem que se está a despir se ele já pensou onde é que vai começar a brincar... ela não dá tempo para pensar nisso, nem espera que alguém se oponha a ela. Ocorre-me que o motivo pelo qual o Padrasto agarra no telefone dela, e liga para mim, talvez seja o dele pensar que enquanto tenho a ideia da paternidade, eu não a troco por outra. Olho fixamente a minha imagem no espelho, parecendo muito elucidativa a minha tese sobre a intimidade deles e o Padrasto afigura-se como um ás no baralho. Quanto mais penso, surgem perguntas e mais perguntas. Ratazana é de opinião que a devia despachar rapidamente e já. «Bye, Bye, minha linda», diz. Faz-me uma pequena lista acerca das próximas raparigas que podem vir a seguir. O melhor, declara, será não ter cavalo… só pode ser você… a seguinte com apartamento que se veja quem entra e quem não sai. A melhor das hipóteses, parece, é a que conta realmente, aquela que lhe vai pôr os freios no lugar.

«Porra, o que está para aí a dizer?», digo-lhe, com uma voz ligeiramente enrouquecida. «Trato bem as mulheres de forma que nunca mais me larguem… mas isso não basta. Nenhuma delas me dá garantias que não volta a largar-me, o que me obriga a ter de procurar outra… porra, qualquer dia canso-me por isso.»

Ratazana diz-me para cortar e passar por cima. «Tenho eu aí uma sonsa», diz, «mas a gaja não suporta a ideia de dar beijos na boca. Só há uma maneira de a convencer. Pô-la a beijar de olhos fechados como se fosse beijar o Cristo, ou alguém parecido.»

Não entendi muito bem onde é que ele foi buscar esta ideia, mas quem sou eu para pôr em cheque a ratice do mestre Ratazana. Ratazana faz um arranjo no cabelo com a mão direita. A música vagueia suavemente pelas colunas de som. Está lenta como uma lesma e tem todo o estilo de que vai continuar assim.

«Não é que seja difícil comê-la», explica ele. «Mas carago, acabei de lhe apresentar um marreta para lhe saltar na espinha. Não se pode exigir que faça outro a seguir. Não é?»

Quando Ratazana diz isto, vêem-me à imaginação as mãos de Raquítica apertarem-me o pescoço. Ela ainda mexe comigo e dá-me a sensação que tenta apanhar se lhe ponho os cornos. O pescoço está em polvorosa tensão…

«Não a quero mais…» Raquítica sem o stress é extraordinária lutadora e tem quase conseguido fazer-me sentir que eu sou um homem de outro planeta, durante meses… antes disso… só eu sei quantos estafermos esfolei.

Tem-me feito num oito e atirado ao tapete na pensão combinada com hora marcada, batendo em retirada na sombra do táxi de um amigo, vezes bastantes para dar comigo em permanente vigilância e também desconfiado crónico. Mas agora… ELA vai desistir de me fazer a MIM! Quase que aposto que é bazófia da parte dela… se as prostitutas do abaixa-a-tola tivessem boas gajas, só os sticks que eu dava com a mesada de Raquítica ficava consolado. Podia fazer contas à minha conta secreta durante poucos minutos, sem nunca precisar de uma calculadora. Contas e fodas conseguem fazer com que a minha reforma espelhe o meu ritmo de vida. Mas agora, estas cabras estão demasiadas sugadoras… Dou-lhes tudo e mais alguma coisa e nem assim…

«É o raio de uma vida ao estilo pinga-pinga», comenta Ratazana, maliciosamente. «Ou se metem de mais a chupar ou não fazem um só cabrito. Talvez nós, os profissionais, a devêssemos treinar a arte enquanto estivessem por cá. Treinem, porra, ou mudem de ofício…»

Ratazana acaba por me dizer que não me deixe dominar. Você não pode obrigá-la, mas ela não será beneficiada… pode ficar com a sua vontade, mas não com o seu dinheiro, etc.,etc…

«Se calhar tenho de a paparicar», sugiro.
«Pois, parece-me, mas é que tem de mudar as coisas sem ela… olhe, amigo, já alguma vez alguma recusou o seu lindo dinheiro e depois deu-lhe uma goelinha cheia de diversidade para você se saciar? E depois deu-lhe um passeio cheio de meiguices para mais tarde recordar? Ou pediu-lhe pinturas suas para as vender na Feira dos Pássaros e, quem sabe, enviar algumas para os sem-abrigo no Coração da Cidade? Não, penso que não…»

Sorrio-me instantaneamente. Ratazana solta umas engraçadas piadas… sempre desejou dar-me umas alternativas que acabassem com a alternativa… Tem projectos… e vira-se para mim.

«Ou prefere ser um velho simpático a não foder?», pergunta ele. É muito difícil a Raquítica falar duas comigo.

Mas Ratazana prega-me um discurso a sério… Acredita que eu seja capaz de tudo. E exige mais entusiasmo…

«Io Capito», grito-lhe, «santo Pattrono, você tem cá uma lábia que é um espectáculo! Ah! pensa que eu não sei? Eu é que não pratico…»
«É uma lábia exclusivamente made-in-Ratazana», explica ele. «Já é um habitat, ou coisa assim-assim… mas se lhe enfiar qualquer coisa pelo grelo acima, acaba.»
«É só você para me fazer rir», grito-lhe. «Ela é fixe, se ninguém lhe consumir o juízo... porra, já gastei boa nota com gajas bem piores do que esta…»

Ratazana não se comove com o desabafo. Aparenta um ar malandro e diz que ela só gosta do meu dinheiro… e que está simplesmente a sacar umas coroas…

«Ela não tem de sacar ou deixar de sacar», digo eu. «Só tem é de fazer as coisas bem feitas e dar-me prazer. Não lhe parece?..pensa que ela saca?»

Ele não consegue ouvir-me. Está seguindo para a cozinha fazer a limpeza e a mim está-me a vir o sono, por isso sento-me num sofá e observo o pintassilgo dentro da gaiola do outro lado da sala. Ratazana demora pouco tempo os arrumos. Quando as conversas agradam demasiado para ele e está prestes a pirar-se, olha e recomeça e a primeira coisa que faz é sentar-se também. Se eu continuasse a meter-me com ele, levava outro tempo a ouvir a mesma missa, mas assim que ele repara o meu bico fechado ele também não se manifesta. Sinto-me cansado já de o ouvir…

«Sabe, ela afinal não é parva de todo», diz ele, repentinamente, durante uma paragem na higiene. «Se você viesse a saber muitas coisas dela, era capaz de transformar o seu romance num pesadelo de fugir. Daí que...não se pode queixar, amigo?»

Mas as queixas agora já não me atiçam… talvez eu me tenha convencido de que tudo aquilo não passe de especulação, ou talvez seja verdade eu estar a ser levado ao colo. Olho para o relógio do bar... tem estado a aumentar as horas.

«Deixe-se de merdas e despache-a, está bem?», contesta Ratazana. «Consegue sempre engatar outra, porquê ficar assim espectador todo este tempo…

Ratazana aperta o blusão até cima e põe os braços entrelaçados, como se fosse um caranguejo… O pintassilgo solta um piozinho e depois tudo fica silencioso e calmo. Ratazana está voltado para mim quando me diz para não ser parvo… o que é importante é não lhe dar o número do telefone novo. Senão vai ver que não tem sossego…tem uma praga à sua frente, explica ele.

«Já caí uma vez», digo-lhe. «Mas isso era antes de eu aprender a lição. Agora, ela não me volta a apanhar.»
«Muito bem», diz ele, altamente desconfiado. «Agora vamos cavar daqui, antes que apareça por aí algum vigia…»

Dá-me realmente vontade rir, ouvir o seu dito e depois olhar para a porta para ver se vem alguém. Começo a rir e quando Ratazana me acompanha, o bar fica com uma imagem tão monótona, como nunca vi em bar algum. Ratazana dá-me uma palmada no ombro… E abre a bolsa de cabedal enquanto procura a chave da porta. Depois faz um ligeiro discurso de despedida ao mesmo tempo que enfia a chave na fechadura. Que noite! O céu tapa-se como um lençol negro e mantém as estrelinhas reluzentes até acabar a noite.

«A sua companhia foi um prazer», diz-me Ratazana… «talvez possamos voltar a conversar logo… às onze e meia da noite, talvez?... e quem sabe se não tem uma nova amiga que gostaria de conhecer…

Sunday, December 23, 2007

CONTOS DE RATAZANA


  PATACO NO FONTÓRIA
                ~~~




Os ruidosos e barulhentos clientes do bar faziam um chiqueiro tremendo todas as vezes que o cliente gordinho acabava uma anedota, mas não o interrompiam. Nessa tarde havia contado duas de sexo, três de esfola e uma de música contendo fado vadio e uns guisados de grelos indigestos, servidos nuns lençóis de um quarto numas águas-furtadas. Fez um compasso de espera com a mão direita no ar. Conteve a respiração e depois deu o primeiro sinal: um tossido. A anedota a seguir era de grande importância. Podia pô-los de rastos, outra picante como as anteriores, estariam a pôr a língua de fora, de certeza. As anedotas bem contadas provocavam rios de consolação. Mas aquela a seguir ─ era super!... E disso tinha ele a certeza. Pataco, assim se chamava o gordinho, olhou bem para eles:

─ O maior barrete de que eu tomei parte passou-se no meu tempo de tropa, quando fui transferido para uma unidade de Lisboa. No dia da minha folga, depois de me equipar à civil, preparei-me para ir visitar uma boate na cidade de que os colegas me falaram chamada Fontória. Quando entrei a sala estava cheia de gente e havia mulheres bonitas à moda, numa pista de dança e uma artista de strip-tease. Sentei-me numa cadeira e chamei o empregado de mesa: «Quero que me traga a artista de strip-tease. E que a ponha aqui sentada a meu lado acompanhada de uma garrafa de champanhe nacional.»

«Vou tratar do assunto», respondeu o empregado de mesa. Antes dele se afastar toquei-lhe no braço e continuei:
«Quero que peça ao músico do conjunto para tocar aquela música “Daqui não saio daqui ninguém me tira” e que toque em ritmo de mambo, porque me dá uns formigueiros pelos calos acima e quero descontrair. Diga-lhe que venha jeitosa. Por favor, diga-lhe isso. E para pôr aquele perfume da marmelada. E quero que me traga um bourbon em cálice de balão aquecido, e ponha depois, duas pedras de gelo como eu gosto. Já pode ir.

Quando levei a artista de strip-tease a casa depois daquele convívio diabólico, diverti-me imenso e gozei até ao cair da cama. Adorei-a. Nunca tinha visto uma stripper como aquela. O que veio a seguir, é que me derreteu, quando uns dias depois voltei à boate e não a encontrei. Fui ter com o porteiro e perguntei-lhe:

─ Ó amigo! Tenho tentado encontrar a artista do strip-tease, mas não a apanho. Já não está cá? ─
─ Quem? O travesti? ─ Declarou o porteiro fitado em mim. ─ O travesti acabou, ontem, de actuar no cartaz da casa.

Um assombro de me pôr de caixão à cova. Desta vez o barrete cheirou a carne de porco!»

Sunday, December 16, 2007

CONTOS DE RATAZANA


´E os maiores são os cornetas, Fernando.
 Porque têm lábia. São presunçosos.
 E cheiram a azeite`.

            ~~~~


Olhava agora em frente, a ver o sítio para onde o motociclista seguira. Para lá do areal branco como os que no Verão há na Foz, próximo de Matosinhos, via-se o Radar da Capitania e, em frente, o Forte de Leça. O mar parecia uma ardósia azul, e podia ver-se alguns barcos arrastados ao vento e outros ancorados ao porto de Leixões. Tenho de esperar até ela fazer um e voltar de novo à faina de rebola cima, rebola abaixo, para explicar a este nabo, pensou ele. Talvez não demore muito porque isto são corridas de dez em dez minutos. Não, não acredito. A gaja fez o gajo num relâmpago! Isto não é um bordel, pensou ele. É estranho recordar como naquele tempo frequentávamos as ruas do vício e como nunca o vimos. Foi uma vez, quando já estava para as bandas da Banharia, um dia brioso como hoje, que eu vi um corneta a emitir sinais de código à parceira. De qualquer modo, eu era muito rapaz e agora já tenho uma dúzia de anos a mais, eles sempre me trataram bem. Sabes se é por isso que ele te trataram bem?, perguntou a si próprio. Talvez seja porque sou novato no início da minha carreira.

Talvez não seja assim.

Ou talvez assim seja, pensou ele. Conquista-se primeiro a mulher que se deseja, com muitas cautelas para não levantar asas e depois, se há inteligência, deve-se ter o cuidado de saber onde a colocar, por causa de algumas carraças de pés descalços que estarão sempre ressentidos de inveja de sermos bem sucedidos. O grande corneta tem um pensamento rígido. Não têm, aliás um pensamento estúpido como Mosqueira que também era um vagabundo e esfarrapado corneta. Zé-Mau, Cardoso e Grelhas. Três escolas de pensamento avançado. Primeira: prego-lhes um soco no olho à Belenenses. Segunda: meto-me nos copos andando de bar em bar. Terceira: Abafo o dinheiro nas paredes como a pega e depois dou o arregaço. E dar o arregaço é pôr as coisas no bom sítio e governado. Está visto, pensou, sempre que começamos a orientar o barco tornámo-nos gananciosos. Lembra-te de todos os cornetas da zona, lembra-te de Mário Cigano tão conquistador como galanteador e lembra-te como as pessoas eram boas. Lembra-te dos teus amigos e das tuas amigas e lembra-te dos teus entes queridos. Não sejas sisudo nem burro. E que tem isto que ver com a minha carreira hoteleira? Vamos lá, acaba com isso, disse ele de si para si. Está a curtir uma cena.

─ Lá está o homem ─ disse ele. ─ Vou encostar junto à berma para darmos uma mirada, Tony.

O Chefe e o ocupante ficaram dentro do carro na estrada que dava para Matosinhos e olharam para o farol fustigado pelo vento frio que descia do céu, vendo-se a silhueta de uma mulher que bamboleava a sua anca como um manequim da alta moda.

─ Estás a ver ela a balancear a mala no ar? ─ Apontou o Chefe. ─ Está a fazer-lhe chegar a notícia que a carteira está recheada.
─ Sim, estou a entender.
─ Os cornetas do Porto ─ disse o Chefe, ─ eram todos bons conquistadores. Meteram as suas catraias em lugares chaves da cidade e construíram um soberbo pé-de-meia. Foram os cornetas do Porto que criaram os códigos entre parceiros. Eram duros e rijos como tabuletas de sabão e partiam as ventas ao mais pintado que se atravessasse com as suas catraias. Todos eles tinham aula de boxe. Mas arrastavam trás de si uma corja de penduras que eram piores que eles. Onde entravam só faziam cagada, que era para dar nas vistas.

Fez uma pausa.

─ Queres ouvir o resto, Tony?
─ Continua. Estou a gostar.
─ Foi um corneta do Porto, ao pôr a sua catraia no engate no café Derbi, quem utilizou os primeiros sinais de código. E foi ele também quem pôs três mulheres na vida a prostituírem-se para ele e se fez passar por médico, mandando imprimir quinhentos cartões de visita com o seu nome a relevo e entregou com muita honra às suas próprias prostitutas.

Mas nesse tempo ele metia-se tanto com raia graúda como raia miúda que eu achava fruta demasiado bizarra para o meu gosto. Nunca voltaram a aparecer por lá figuras tão extrovertidas como aquelas que eu conheci ao início no Derbi. E de facto assim reza a história.

─ O café que tu dizes é aquele onde há muitas regueifas deformadas e uma decoração que parece mais um daqueles salões dos mineiros que se vê na fita americana, não é verdade?
─ É esse todo. Se esse é o aspecto que tu achas, então acertaste. Agora tu não te esqueças que no outro lado da rua existe outro café, o Royal, que tem uma frequência semelhante e uma panorâmica quase tão idêntica como o Derbi. A rua Chã é uma pequena rua muito comercial, onde as mulheres da vida fazem picolés saborosos e os homens fazem sobe e desce e pregam gazeta ao trabalho, normalmente ao dia de segunda-feira, dia do sapateiro. Isto não quer dizer que os homens passe os dias no sobe e desce, isso não. Isto é para quebrar o stress da puta-mania. À noite, também passam o tempo inteiro com as suas mulheres a fazerem meninos. E se há luar, é marmelada a dobrar.

Fez nova pausa.

─ É melhor estar aqui do que ir ao cinema.
─ O.K. ─ disse o Chefe. ─ Vamos de vela.

Sunday, November 4, 2007

CONTOS DE RATAZANA












MENINO BOM E
FILETE DOURADA EM
SESSENTA E SEIS MINUTOS E MEIO 
DE PRAZER
   _______


Ainda antes de trocar de emprego por outro que lhe oferecia melhores regalias sociais, Menino Bom teve uma ascensão imparável, e o seu sucesso fenomenal reforçou a sua crença na boémia e nas noites perdidas pelos nigths-clubs. Mas começou a ter igualmente consequências bem mais desastrosas.

…«Sabe uma coisa? ─ disse ele levando a mão ao copo para beber um pouco de uísque. ─ Hoje estou mesmo chateado.» ─

Enchi a cabeça dele com a história da vendedora de panelas que representava no palco da cama a personagem da mulher serpente. A sua falta e tacto fez dele uma espécie de passageiro curioso. Eu acrescentei:

«Acredite que é o melhor remédio que tem para a sua dor de cabeça.» ─ Ficou um tanto abismado a olhar para mim.
«Como assim?» ─ Permaneceu calmo, sem pressas, como se preparasse para a cena futura.
«Espere aí que já vai ver ─ disse-lhe eu, sorrindo. ─ Venha comigo.» ─

Foi o seu primeiro passo. Depois de ele me seguir, apresentei-o a Filete Dourada que o recebeu de beijo na cara. Momentos depois, tinham sumido à socapa. Fizeram um circuito à volta do quarteirão, para entrar num lugar que ambos conheciam mais ou menos bem: o motel. Depois de estarem lá dentro, fecharam a porta e fixaram o olhar.

Ele começou:
«Quem começa primeiro?» ─
«É usual ser o cavalheiro.» ─
«Sou um bocado tímido.» ─
«Estamos iguais, também sou tímida. ─
«Então, em que ficamos?» ─
«Não sei. E se tirássemos peça a peça?» ─
«Valeu.» ─
«Espere uma peça das minhas vale por duas das suas, tenho menos roupa.» ─
«Valeu à mesma.» ─

Foi ele o primeiro, tirou a gravata e juntou ao casaco, arrematando as roupas para cima do sofá. Depois, foi a vez dela tirar os sapatos. A seguir, escolheu ele os sapatos, juntamente com as meias, enquanto ela escolheu despir o casaco. Seguidamente, despiu as calças e tirou a camisa, por sua vez, ela puxou a saia abaixo. Na fase seguinte, tirou ele a camisola e a camisa interior, e ela despiu a camisa. Na parte final, ficaram em cuecas, olhando-se mutuamente. Quando resolveram ficar nus, fizeram-se ao retardador, iniciando a contagem: um, dói e três. De imediato, saltaram para a cama, rindo-se a perder. Quando o riso parou, ela acercou-se lentamente dele e colocou-lhe um das mãos sobre o corpo.

«Onde estão os seus pontos fracos?» ─
«Se os descobrir, dou-lhe um presente.»─
«Prepare-se, pois vou à procura deles.» ─ Não demorou muito tempo, ele a começar a rir-se: ah, ah, ah,
«Está com cócegas?» ─
«Não, estou a rir porque não consigo ganhar tesão.» ─ Continuou, ah, ah, ah…,
«O que é que faz na vida?» ─ diz ela olhando meigamente.
«Por amor de Deus! Não me venha falar em trabalho, anda hoje mandei foder o meu patrão. Disse-lhe que estava com um esgotamento nervoso.» ─
«És divertido, uma mulher à tua beira sente-se bem.» ─
«Só se for por não me vir!» ─ Voltou às risadas, ah, ah, ah,

Ela virou-lhe as costas, mantendo-se silenciosa. Ele exclamou:

«Dói-lhe alguma coisa?» ─
«O meu pipi.» ─
«Quem é esse gajo?» ─ Riram-se.
«Começo a gostar de ti porque me fazes rir.» ─
«Vá lá, ao menos, és a primeira pessoa a dizer que tenho alguma utilidade.» ─ Fitou-o nos olhos.
«Vamos brincar às casinhas?» ─
«Se quiseres, podes começar primeiro.» ─
«Mas agora não temos roupa para trocar» ─
«Trocamos por exemplo de mãos. Tens as unhas afiadas?» ─
«Tenho, e se for para te mexeres, pico-te já!» ─

De repente, dobrou-se por cima dela, quase nem a deixava respirar. Durante uns bons instantes, deu provas de como se deve fazer um bom coito. Todavia, a dado momento, absteve-se, soltando de cima dela, deixando-a estupefacta de olhos abertos.

«Não pares, não pares» ─ Os olhos dela pareciam dois vulcões em chama ardente. Ele retorquiu:

«Desculpa lá, mas vou parar para intervalo.» ─
«Agora, que eu estava a chegar à lua, é que havias de parar.» ─
«Não te atormentes, breve, vou levar-te ao planeta Júpiter.» ─
«Por este andar, nunca mais chegamos lá.» ─

Desafiou-o com o seu olhar trocista, ele levou a peito. De súbito, levou-a ao ar e puxou-a a si, executando alguns movimentos em exercício flexível dos membros inferiores. Ouviu-se o vibrar das suas emoções. Os gemidos confundiram-se com os suspiros. Quando tudo parecia encaminhar-se para o surgir do eclipse total, a ruptura aconteceu.

«Não pares, não pares» ─ Atirou o corpo para o lado, ficando em completo relaxe. Ela não cabia no seu descontentamento.
«Nunca acabas o que começas. Deixas sempre o trabalho a meio.» ─
«Ó que caraças! Não me fales em trabalho, senão, piro-me já daqui.» ─

Menino Bom levantou as mãos aos céus e jurou que só queria mesmo era brincar e que, para a próxima vez é que era a valer mesmo. Mesmo assim, Filete Dourada dava o tempo por merecido. Realmente aqueles momentos, foram mesmo interessantes.

«E quando é a próxima vez?», exclamou ela, fungando o nariz, mas Menino Bom deixou-a com o enigma de um sorriso para a próxima data.
«O teu problema», ─ disse ela olhando para o tecto ─ é não saberes o que queres, porque senão punha-te por minha conta.» ─ Ouviu uma gargalhada dele, ah, ah, ah.

Mas as mulheres eram assim mesmo, pensava Menino Bom nesse tempo, quando as deixava deliradas por uns minutos de prazer. E a verdade era que ninguém o censurava por se ir embora, pelos seus sessenta e seis minutos e meio de prazer, conforme deixou Filete Dourada de boca aberta entre as nuvens a chorar por mais.


Depois desapareceu.

Sunday, October 28, 2007

CONTOS DE RATAZANA


 2 AMIGOS INCORRIGÍVEIS
           ___________



O Inglês: um turbilhão ao Deus-dará, um sujeito disfarçado de playboy, tinha transformado uma banalíssima agência de trapos ─ Mister English ─ numa loja de marmelada. Sobejamente famoso pelas suas aventuras com estrelas de cabaré e algumas rainhas das casas de massagens e, segundo as más mínguas, pela sua apetência às mulheres de mamas grandes e traseiros bem redondinhos, a quem «comia pelos olhos» norma utilizada no seu caso que «recompensava generosamente». Para que é que a Miss Zara se tinha ido meter com aquele aventureiro do Inglês, com os seus truques das argolas no corpo e o seu Rover de eleição? Para homens daquele escalão, as chavalas mesmo mamudas e vem avantajadas de traseiro – eram para dar uma moca e não repetir. – Devemos também dizer que o vício, quando surge, reverso e tentador, é incontrolável do poder indígena. Miss Zara telefonou na noite seguinte, dos arredores da cidade do Porto. A funcionária chamou o Inglês ao telefone mas ele quando atendeu o telefone, ela já tinha desligado, mas voltou a ligar.

«Estou a falar duma cabina e não tenho mais moedas.» «Zara», disse ele, deixando transparecer na voz um fio de desespero. «Tu não me disseste que me ias dar com os pés» «E tu não me disseste que me ias trocar por aquela nojenta da preta», respondeu ela. «Cada um de nós tem as suas razões.» Ele voltou a dizer: «Zara, volta que eu vou-te pôr uns brincos giríssimos no teu pipi para nós brincarmos como dantes.» ─ «Põe antes no cu da preta.», disse ela num tom brincalhão. «Parece que estou a imaginar a cena. A preta a guinchar, quando quiser arriar o calhau e os brincos a tilintar uns aos outros, ah, ah, ah.» ─ Ele deixou-a rir até voltar a dizer: Zara, eu estou só no mundo e só te tenho a ti. Não me faças atirar da ponte D. Luís I ao rio Douro, que agora a água está gelada.» ─

Ela ficou como o gelo. «Inglês, ouve bem o que te vou dizer. Não quero discutir contigo outra vez porque, no fundo de todas as tuas parvoíces, se calhar até me amas. Por isso vê se entendes que eu sou uma miúda inteligente e, porra pá, deixemo-nos de merdas; nenhuma branca gosta de ser trocada por uma preta. Quando dou o meu amor é porque estou consciente que amo essa pessoa, estou a falar de nós evidentemente, por isso é que eu te digo, Inglês, não me queiras explorar mais. Ainda tu andavas nu como o macaco e já os teus descendentes exploravam as parvas como eu. Vai para África ou para a Índia que lá não devem faltar mulheres que gostam de pôr brinquinhos nos sovacos, cotovelos ou quem sabe, até nos próprios calos dos pés; dizem que elas os têm a rodos.» ─ «Neste caso, admites que não me amas e que não me queres mais.», objectou Inglês, mas a voz atraiçoou-o. «Desta vez é de vez.» ─ «No fundo, acho-te divertido, um velhaco, e único no teu género. Mas vou fazer-te uma lista e duas a três coisas que me interessam; nada de brincos, nada de pretas, e um exclusivo só par mim; dia e noite.» ─

«Zara», disse o Inglês. «Mas assim, tenho que ter uma língua de aço…» ─ Mas a chamada foi abaixo e ele já não a ouviu. Poisou o auscultador no descanso. Ela voltou a telefonar, dias depois, e, nessa altura, já a lista das promessas estava consumada; ela não lhe perguntou se ele já tinha dado mais uma queca na preta ou noutra qualquer, nem lhe perguntou onde ele andava, como ele também não lho disse e tornou-se evidente para ambos que se tinham de afastar um do outro, era tempo de dizerem adeus.

«Inglês», ─ disse Zara. ─ «Aconteceu-me uma coisa estranha. Apaixonei-me por um amigo teu…» ─ E ela ainda estava a relatar-lhe o novo filme da sua vida quando ele atirou com o telefone contra a parede. Uns segundos depois, o telefone tornou a tocar. Ele foi atender. Era a voz dela. Zara continuava entusiasmada a não falar de outra coisa que não fosse do amigo dele: os nossos planos são fazermos filmes sobre os piratas em Portugal e na Espanha, buscando as grandes vedetas, Hermanias, Miro Azevedo, Filipo Gonzalez, para desfilarem diante da Igreja dos Congregados ou do Mosteiro do Pilar ─ «já imaginaste reunirmos estas personagens sem cachet», ─ acrescentou ela alegremente. A verdade é que as coisas estavam a aquecer para o lado dela. Inglês nem quis acreditar quando ela disse que o amigo se chamava Champalimão.

Inglês lera, no pasquim do GAS (Grupo de Atiradores de Sexo), o nome dele associado às fajardices com mulheres de pior espécie e manobras fraudulentas, mas era assim mesmo, vigarista um dia, pirata toda a vida.

Disse Zara: «Então ele perguntou: queres um casco de visão? Eu disse, Champalimão, não precisas de me comprar coisas tão caras, mas ele insistiu: minha querida, nada tema comigo. Vamos às compras e está tudo dito.» ─

Tinha voltado a dar uma visita pelas ruas Sá da Bandeira e Santa Catarina e Champalimão trouxe a sua bomba. Ao chegarem ao centro ele encostou a bomba na baixa e pediu-lhe para aguardar um instante; parecia um xeque do petróleo. Ao fim de alguns minutos ele regressou com um embrulho debaixo do braço e disse: «Aqui está minha querida, o casaco; vista-o que é seu.» ─ Ela deitou a mão ao casaco. «Que bonito» Ele segredou ao ouvido dela. «Foram só quatrocentas donas marias, mas você merece tudo de bom que há no mundo.» ─ Era uma tarde sexta-feira, as lojas estavam superlotadas de gente a fazer compras para o fim-de-semana. Champalimão entrara na segunda loja e comprara um anel de brilhantes, enquanto Zara ficara à espera dento da bomba. Cinco minutos depois, ele chega e coloca-lhe o anel no dedo, perante o espanto dela que não queria crer em tanta coisa bela. «Meu Deus, isto deve ter custado uma fortuna.» ─ Ele segredou-lhe: «São duzentos mil, mas já está pago.» ─

No dia seguinte, de manhã, abriram as lojas comerciais e Zara deu um passeio pela baixa e foi ver as montras, vindo a descobrir que o casaco de visão não era verdadeiro; afinal, aquela pele não passava sequer duma pele ─ de coelho bravo. ─ Ela nem quis acreditar e pôs-se a protestar com o lojista que tencionava processá-la por difamação e pedir-lhe uma indemnização. E, dai a uma hora, chateada com aquele mau dia, resolveu entrar numa casa de penhores e foi avaliar o anel de brilhantes. Ali lhe disseram que em vez de brilhantes, tratava-se de «esmeraldas» e valia uns cinquenta e picos contos, mediante pagamento adiantado. «Não é má ideia. Digo que o perdi e meto o dinheiro ao bolso.» ─ Pensou Zara e assim o fez, vindo recheada de notas na carteira.

À beira dessas fajardices todas, eu sou um autêntico homem, percebeu Inglês, que não sabia bem como as coisas se tinham passado e vivia um mundo de salve-se-quem-puder. Na sua agência de trapos, continuava inexplicadamente a tratar as funcionárias como suas almas gémeas, apesar de todos os seus esforços para as não roer, principalmente, às flausinas que lhe batiam com «ele» nos olhos… Lá dentro do escritório era um ser admirado, como a figura dum arrombador de gavetas, o gentleman do mico, o explorador de ingénuas; de um modo geral, um artista da arte e de as comer bem. Nesse período corrigiu-se a si próprio. Mais nenhuma Miss Zara seria capaz de lhe roubar o coração. A título de experiência, contou-lhes a história de Champalimão e do casaco com pele de coelho bravo e do anel que foi para o chaço. Os olhos delas brilhavam e, no fim da história, riram deliciadas; a vigarice paga pela mesma vigarice, dava-lhes vontade de rir. Assim compreendeu Inglês, tinha as funcionárias de outros tempos aplaudidas e soltado gargalhadas ante as proezas de pessoas sem classe e, neste caso, Champalimão, outrora amigo e presentemente inimigo…

«Há pessoas reles e sem categoria.» ─ Exclamou a nova empregada de escritório, rindo com o seu ar provocador, traduzindo uma série de nomes sensacionalistas, enquanto exibia o seu corpo delgado e, como Inglês agora reparava, loucamente apetecível, em várias formas eróticas não muito exageradas. Fazendo beicinho com a maior desfaçatez, sabendo bem que o tinha excitado, acrescentou afectuosamente: «Um beijinho? ─ A colega mais nova não quis ficar atrás e tentou copiar a pose da outra, mas com bastante menos êxito. Desistiu da tentativa, não sem alguma irritação.


Abandonado por aquela que ele considerava ser a sua amiga dos tempos modernos, Champalimão teve, para seu desencanto, notícias desagradáveis que lhe foram bater à porta do pequeno apartamento onde habitava – o berro do recibo da luz – «Trriimm» – a campainha da porta preveniu-o a tempo; mas, antes disso, teve que desligar o rádio e deixar-se estar sereno durante uns bons minutos, até o funcionário dos serviços da luz se retirar. Depois de se certificar que o homem já se tinha ido embora, abriu as portas do quarto e ouviu uma voz que partia de dentro: –


«Quem era?» – Perguntou a sua nova amiga. «Era o vendedor da casa da sorte a ver se eu queria comprar uma lotaria.» – Mentiu ele. A moça saiu do quarto com quase tudo à mostra e tapou meia cara. «Podias ter comprado o 69, é o meu número preferido.» – Champalimão deu-lhe vontade de rir e berrou-lhe: — «És uma desavergonhada, já viste como estás? Vê se te vestes.» – «Oh! Não me fazes a vontade, também não te faço a tua.» ─ Resmungou ela entre dentes, cravando um par de olhos rebeldes nele. Lá no fundo do corredor via-se a moça mostrando tudo de bom aos inquilinos do prédio de frente. – «Quereis, mas não vos dou…» – «O que estás para aí a dizer?» – Perguntou de novo Champalimão. Mas a moça desaparecera para o quarto de banho, – deixando a janela entreaberta; – e pôs-se descontraída a tomar um duche frio.

Champalimão pegou no fato completo e nos sapatos e arranjou-se, desde há muito que mantinha aquele apartamento na zona chique do centro da cidade, para não perder o contacto de gente de bem, queque como se diz na linguagem fina, e tinha boas relações com gentes de todos os níveis, embora fosse acusado por alguns amigos de ser um grande pantomineiro. E escapuliu-se no elevador, deixando a moça a tomar banho, saindo cá para fora afim de resfriar os ânimos. O que seria feito da sua indústria de filmes? Dizem que todo não passou de uma grande manobra e tinha agora um negócio m mão, que os amigos lhe asseguravam óptimos rendimentos: telemóveis e rádios para carros.

Mas continuando:

A notícia no Jornal Dos Traidores do bar do Ratazana dizia que a empresa do Inglês tinha sido estruturada na sua totalidade e virara-se para a exportação, produzindo calças e camisas de caqui, marca: Quemerda, e assinalando o regresso da marca – Mister English. – Agora revelava-se um autêntico self-made-man. É a hora da verdade, escrevia o pasquim: ou ele se atira de cabeça, ou então vai p´ró maneta e aí nunca se sabe o que pode vir a acontecer! A notícia causou grande impacto entre os leitores, mas outras pessoas não fizeram caso, pensando tratar-se duma brincadeira.

«Sabem que eu não sou homem para brincadeiras», ─ disse ele, depois de ler as notícias. – Sempre que me atiro tenho êxito e, se assim não fosse, estava quieto na praia a apanhar sol nas ventas.» ─

A sorte, porém, voltou ao fim de algumas semanas e ele sentiu que a exportação para a Colômbia e Brasil subira o volume das encomendas.

«Aceitei este repto com todo o empenho e com a mais sincera das virtudes», ─ procurar o êxito. ─ «E parece que o estou a conseguir: ─ o lançamento das calças Quemerda. ─

Que calças eram essas? Um tipo de calças destinadas a combater o sol, com refrigeração no seu interior, era uma das novidades do mercado internacional.

«O problema das calças», ─ explicava ele aos amigos. ─ «É se um indivíduo vai para uma pista de baile dançar com uma miúda e põe-se no roço, o calor transforma as calças em água.» ─ Não faltarem risadas aos comentários dele.

«Desculpem a confidência, mas as calças, para quem sofrer de falta de calorias na gaita, é uma maravilha, está sempre no braseiro.» ─
«Uma espécie de calor artificial» ─ Disse um deles.

Quando a notícia se espalhou pelo bar do Ratazana e Champalimão tomou conhecimento, horas mais tarde, ele teve o mais famoso dos risos de troça que alguma vez já teve; um riso que quase o obrigava a mijar pelas calças abaixo. Calças com refrigeração para combater o calor?» ─ riu-se perdidamente. ─ «Aquele homem perdeu o juízo. E então, para as mulheres, que tipo de cuequinha vai arranjar? Para elas têm que ser ao inverso; um ventilador para as pôr em banho-maria!...» «Aquelas idas a Londres puseram-lhe o miolo danificado, de certeza.» ─ Champalimão acalmou-se e passou o lenço pela boca.

«Hoje em dia, ouve-se cada uma, vá lá o diabo lembrar-se destas coisas.» ─
«Também ninguém acredita em bruxas», ─ encorajou-o um amigo, ─ «mas, que as há, isso é uma certeza.»-

O amigo saiu, deixando Champalimão a sós com a ironia daqueles momentos, sem se aperceberem que aquilo lhe dava um prazer fantástico. Mas não há que o censurar por isso, as zangas entre Champalimão e Inglês, é um facto que remontam desde há uns tempos atrás. Manda a verdade que se diga que nenhum dos dois sabe quem começou primeiro e que tem motivos para apontar o dedo ao culpado. Mas o que foi que aconteceu? O seguinte: durante algum tempo foram amicíssimos mas, numa breve discussão por causa de saias e de copos entre eles, pegaram-se e diminuíram a amizade. Inequivocamente, alguns furos abaixo da tabela de 0 a 10, ficaria aí uns três… Seja como for; o oportunismo da reportagem no pasquim veio a revelar-se infundado de algum realismo; pois, alguns dias depois, a imprensa comunicara que a empresa do Inglês tinha sido abordada para apresentar a sua obra-prima: ─ as calças Quemerda ─ e fora alvo duma chacota juntamente com a sua nova secretária no concurso de danças de salão em Genebra. Para que não nos acusem de falta de informação, devemos acrescentar que os bailarinos ─ dentro de umas calças com ventiladores (a delicadeza não nos autoriza que divulguemos pormenores mais concretos), expuseram-se demasiado ao calor, e mais não diremos. O Inglês teria sem dúvida classificado a ideia como «uma grande golpada», não fosse o imprevisto da dança em que se deixou adormecer, ao compasso dos francos suíços.


«Quando um homem vende uma ideia não pode comprá-la de novo. ─ O Inglês não chegara a embolsar francos nenhuns, muito pelo contrário, tivera que se fisgar muito rapidamente pois a comunidade mundial dos bailarinos ansiou por lhe deitar a luva.
«Estava tudo tão real como Lúcifer ser generoso para com Deus. ─ Invocou ele para o seu espírito interior.»

O dois piraram-se de lá muito mansinhos sem grande algazarra e contando algumas aventuras por cá passadas à Menina Jalouneix, que no dia anterior entregara ao casal um pedido de indemnização destinado aos bailarinos, na ordem de um milhar de contos. A menina Jalouneix tinha alguma influência no Departamento do Turismo e os inspectores chegaram tardiamente ao hotel, enquanto o Inglês e a sua secretária já galgavam a fronteira para Portugal. Quero que vocês se lixem. Durante uma temporada nunca mais se falou nas calças de caqui com ventiladores para o sol.