Tuesday, September 4, 2007

CONTOS DE RATAZANA


                        O Guitarrista Caspa e o
                                                           Viola Caguinchas
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O viola Caguinchas nunca gostou daquele guitarrista, o Caspa, como era apelidado no meio fadista. Uma ocasião, dei com eles a discutir:

«Ouve o que te digo, o tom é si bemol e não mi menor.» ─ Dizia o Caspa. Contrariado, o Caguinchas viria a não aceitar aquele raspanço e não tem outra alternativa senão responder-lhe:
«Não digas asneiras! Eu é que sei qual é o tom.» ─ O Caspa preferiu não responder. Nunca cheguei a entender porque era que eles passavam o tempo do ensaio a discutir.
«Já está melhor assim? ─ interrogava Caguinchas em frente de Caspa. ─ Vê lá se esta combinação de tons não te soa melhor aos ouvidos! ─ O guitarrista esteve quase a zangar-se.
«És teimoso e burro! ─ disse. ─ Só tu é que tens a mania que sabes tudo e depois só fazes cagada em palco.» ─ Agora foi a vez de Caguinchas não lhe dar resposta.

E os momentos mais interessantes eram quando havia espectáculos com os dois a intervir lado a lado no programa. E eles eram promovidos à categoria de estrelas profissionais, conduzindo os outros artistas na programação do show. Na hora de irem embora, depois do programa acabado, eles nunca perdoariam a si próprios senão molhassem a goela com uns bons copos de verde tinto ou branco (não interessava a cor) da região.

«Não acreditas que já toquei dentro de uma pipa de vinho? ─ disse Caspa entornando mais uns copos pela goela abaixo.
«Já estás bêbado! ─ responde Caguinchas limpando a boca à manga do casado. ─ Eu também te podia dizer que já pus uma garrafa de vinho a tocar música!» ─ O guitarrista engasgou-se a beber e a seguir tossiu… e depois respondeu-lhe:
«Olha para ele! ─ disse Caspa com a voz estrangulada. ─ Tu nem com as cordas te safas quanto mais com as garrafas.» ─
«Vamos mas é embora antes que me chateie.» ─ Gritou ele.

E ambos, um pouco grossos, tiraram a rolha de uma garrafa de tintol, maduro, e encheram mais dois copos para a despedida e taparam o gargalo com a palma da mão. E, com a outra mão, pegaram nos copos.

«À partida» ─ bradou o Caguinchas.
«À saída» ─ responde o Caspa.

Lá vão eles para o Fiat Bravo. Caguinchas abre a porta e entra no carro; a seguir entra o Caspa. Dirigem-se para o Norte, mais propriamente dito para o Norte da cidade tripeira. Pela estrada de Famalicão passam junto duma ponte velha. Ao longo do caminho, há juntas de bois a pastar nos campos, e lavradores a cultivar centeio. De repente, ouve-se um estrondo! Caspa mandar parar o carro: «MATASTE A VACA!» -
O carro pára mais à frente e descem ambos. Ficam diante de um campo silvestre, junto de uma lomba, de pé; a brisa do ar refresca-lhes os rostos; Caguinchas põe-se em bicos de pés olhando para cima e para baixo e volta-se para trás:

«Eras tu a sonhar ou quê? ─ diz ele de ar sisudo. ─ Vês alguma vaca?» ─
«Ali abaixo – diz Caspa apontando – eu vi a vaca a voar por cima de nós.» ─ Caguinchas voltou a pôr-se em bicos de pés e olhou pela ravina.
«Ali – volta a dizer Caspa. – O que é que vês?» ─
«Nada – responde Caguinchas desorientado. – Tu deves estar é c´os copos.» ─
«Não é ali, é acolá» – insiste o Caspa e Caguinchas vê o dedo do outro a apontar para o fundo do campo.
«Ali! Acolá! Ali? – pergunta. – O que é que tu viste? Uma vaca a voar pelo ar? Deves estar cá com uma visão como eu ver um elefante andar por baixo das asas de um jacto a voar no espaço…

Caspa, vermelho como um chouriço, dá em filosofar:

«És teimoso como um burro! Eu bem te avisei que tivesses cuidado. Eu vi a vaca voar à minha frente e agora? Foi-se!... Desorientado, Caguinchas berra:
«Vai-te lá comer com a vaca ou com o boi; burro sou eu em estar para aqui armado em elefante a aturar-te.

E correu para o carro. Caspa seguiu atrás dele. Instantes depois, lançou-se ao encontro da estrada, seguindo em marcha mais lenta. Talvez por recear que aquele estoiro de há momentos atrás estivesse relacionado com a história que Caspa referiu, ou talvez porque o outro estivesse mesmo um pouco pingado do álcool. E foi com a visão da vaca a voar no ar que chegou ao local do regresso e deixou ficar Caspa, seguindo depois para casa. Quando desceu, olhou com a vista mais acentuada para a chaparia do carro e viu à frente uma grande amolgadela!... Coisas que acontecem; depois do Caguinchas se deitar no choco, embora tentasse dormir o mais rápido possível, o corpo sentia arrepios de frio. No momento, com os dedos gelados de raiva, ele não suportou durante muito tempo aquelas visões de uma nuvem passageira coberta de uma manada de vacas em perseguição dele pela estrada adiante…

Friday, July 20, 2007

CONTOS DE RATAZANA


A HISTÓRIA DO MORTO-VIVO
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«Tenho boas notícias ─ disse-me Galileu. ─ Queres saber que comprei uma revista e acabei por ser sorteado com um fim-de-semana em Espanha para duas pessoas? O meu problema é que não quero que a patroa saiba; mas é preciso arranjar companhia; não me ajudas? ─
«Não vai ser fácil» ─
«E eu que o diga ─ explica Galileu, ─ não estou com problemas monetários e tu sabes melhor que eu como se trata de arranjar uma companhia dessas.
«Nem pense nisso, ficava-lhe um encargo tremendo e, lá por Espanha, arranja fruta mais barata, em conta, peso e medida.»─
«Não me digas isso!» ─ exclama Galileu que, surpreendido, deixa cair o cigarro ao chão ─ vais ver como me vou desenrascar.» ─

E logo saiu.



Tinha de ser. As amarguras de Galileu apareciam estampadas no seu rosto. Murmurou:

«Estou com azar! ─ não consigo arranjar uma companhia que queira ir comigo para Espanha.» ─
«Eu bem lhe disse que não é fácil ─ disse, compondo a gravata ─ experimente ir falar com aquelas duas amigas que estão ali na sala a conversar.»--

Dirigiu-se a elas e poucos minutos bastaram de conversa para tirar as suas conclusões. Regressou ao balcão de semblante abatido.

«Estas fulanas devem ser malucas, querem-me esfolar como se fosse um cabrito.»


Respondi, cheio de humor.


«Ah! Só agora é que entendeu?» ─ Galileu sorriu: «Realmente só agora é que estou a entender muitas coisas.» ─



O carteiro trouxe o correio. Ao arrecadar as cartas, uma delas chamou-me a atenção. Voltei o envelope e vi a assinatura de Galileu. Abri a missiva…

─ “Já me encontro em Espanha. Encontrei alguém que me encheu as
medidas. A chavala é uma pérola, e talvez dê casamento…”

A carta vinha acompanhada duma foto da chavala. Era realmente uma chavala formosa. Até me custava a crer como aquele nabo teve arrojo para conquistar semelhante borracho.



Tinha vinte e quatro dias para o carpinteiro me fazer um tecto novo no bar. O actual estava mesmo a precisar duma remodelação. Com o meu optimismo habitual, deitei mãos à obra e mandei o homem fazer o trabalho; todos os dias de manhã, acordava mais cedo e ia abrir-lhe a porta; depois entretinha-me pelo café a ler os jornais ou aproveitava o tempo a fazer umas compritas. Naquela época fiz bastantes remodelações no negócio. Senti que era um bem necessário para o engrandecimento da minha obra.

«Tem uma chamada para atender ─ dizia-me o carpinteiro vindo-me chamar ao café ─ fiquei indeciso ─ e sabe quem é que está ao telefone?» ─
«Fala do Jornal “O Comércio do Porto”.» ─ Acrescentou ele.

Mais indeciso fiquei.

«Eu vou atender.» ─ E saí do café. Passado uns minutos, estava com o auscultador na mão a responder à chamada.
«Estou sim! Tenha a vontade de dizer.» ─ Encostado ao banco, a notícia que recebi pôs-me afectado durante uns dias… Segundo o que ouvi da boca do jornalista, Galileu tinha sofrido um acidente mortal juntamente com a sua companheira, em terras de Espanha; recusei-me a dar a notícia à família e passei para o jornalista essa missão. Sentei-me no banco durante uns minutos calado; custava-me a ingerir aquela notícia. Quando saí, fui comprar o jornal do dia e lá vinha a notícia do acidente toda escarrapachada no jornal…

5

Quando mais tarde a notícia circulou pelo bar, os clientes ficaram atarantados com o teor do acontecimento. As moças com quem Galileu falara antes para o acompanhar naquela fatídica viagem; Bochechas e Belga deitaram as mãos à cabeça:

«Olha se tinha ido, a esta hora estava nos anjinhos.» ─ A Belga adiantou num tom mais moderado:
«Foi preciso ter azar, o homem era uma boa pessoa.» ─

Os comentários não paravam à volta do caso. Mais tarde, Baixinho, ao tomar conhecimento da notícia, ficou absorvido pela ansiedade.

«Mas será mesmo verdade?» ─ Respondi:
«Tanto quanto sei, tem ali o jornal para certificar-se da verdade.» ─ Ao que acrescentou Baixinho:
«Ainda ontem estive a falar com ele na mesa; vá lá um homem dizer que está bem.» ─ Engoliu um seco ─ estou como diz o velhinho: o que se leva deste mundo é o que se come, o que se bebe, o que se fode, o resto é pagode.» ─

6

O suspense atrai o suspense; e, apesar da frase trovejante de Baixinho, continuei convencido de que, naquele momento de acontecimento imprevisto, algo se confundia no obscuro da incerteza! Foi um daqueles dias em que eu também me senti atraído por uma força estranha; mas, para me fazer entender melhor, começarei por contar numa tarde igual às outras, uma tarde em que Galileu era a personagem de quem se falava…

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A sala a abarrotar de clientes que se divertiam com as garotas, falavam sobre os seus atributos íntimos e aquelas palavras bonitas que um homem sabe dizer às pequenas; os membros do Grupo Traidor que procurava criarem um estilo de independência total; alguns habituais ao balcão como de costume; havia também alguns mangoneiros que só sabem desconversar. A atmosfera ia ficando pesada com as discussões e não só:

«Só vos digo uma coisa. Uma pessoa para morrer, basta estar vivo.» ─ Diz Baixinho à plateia que o escutava ao balcão. ─
«Olhava-se para a cara dele, parecia que vendia saúde! ─ E agora o que é que ele vende, Baixinho? Explica lá à gente…» ─ «Baixinho, tu que és um homem inteligente, explica lá!» ─ E o pobre Baixinho, olhando para todos, com algum frenesim:
«Hum! Acho que agora o desgraçado vende o morto!» ─

8

… O ruído do telefone conjugava-se com a balbúrdia da sala: gente a conversar e a discutir; e eu estava de pé no balcão a vê-los conversar, quando ouvi de novo o ruído do telefone e levantei o auscultador:

«Por favor, fale alto, não estou a ouvir nada.» ─ Do outro lado, ouviu-se uma voz esganiçada, que suplantou o ruído:
«Sou eu; o Galileu.» ─ Fiquei com a ponta das orelhas em alerta máxima. Respondi à voz que me escutava:
«Vá para o diabo que o carregue. Que eu saiba o Galileu está morto!» ─ A voz voltou a pronunciar:
«É uma longa história. Dentro de instantes, estou aí para vos contar.» ─

O ruído parou! Mas não interessa adiantar-me aos acontecimentos. O caso do estranho telefonema de Galileu veio alterar o rumo dos acontecimentos. Agora, eu ficara sozinho no balcão. Baixinho estava entretido na máquina Perestroyka a jogar os puzzles. Os clientes do balcão entretinham-se à procura dos corações solitários. Dirigi-me a ele:

«Se lhe dissesse que recebi uma chamada telefónica de Galileu, o que é que pensava?» ─
«À partida, como está sempre na brincadeira, não acreditava.» ─ Disse ele.
«Pois então, prepare-se para acreditar ─ respondi ─ dentro de instantes; a porta vai-se abrir p´ra deixar entrar: o morto-vivo.» ─ Baixinho deu um pulo da cadeira.
«Não me assuste, senão piro-me já daqui.» ─ Murmurou ele.

9

Dirigi-me à sala e falei com as moças que estavam inteiradas do caso… e deu choque. A mão de Bochechas voou no ar:

«Ah! Vire para lá essa boca já estou arrepiada.» ─ A voz da Belga é mais baixa, com um fundo malicioso e as palavras penetram no meu ouvido:
«Já estou a ficar excitada!» ─ Levantei-me e em voz alta comentei:
«Muito bem! Vamos preparar-nos para e festa.» ─ Fiz-lhe uma festa na cabeça e regressei ao balcão. Mantive-me silencioso durante uns minutos; o bastante até a campainha da porta se ouvir; mas agora, era o Rifeiro que entrava no jogo.


«Este agora até me assustou ─ disse Baixinho em voz baixa. ─ Já pensava que era o fantasma.» ─

De novo, ouviu-se a campainha e todos voltaram os rostos para a porta.

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… E os momentos que se seguiram foram enternecedores, quando da aparição de Galileu na sala… Ouviram-se gritos. O regozijo de alguns espalhava-se na angústia de outros. Os abraços apertam-se cada vez com mais força mas ele nem dá conta disso… Sou também envolvido num abraço de tragédia. Baixinho contorce-se pela sensação estranha e ouço-o dizer:

«Isto é mesmo uma casa de chalados.» ─ Na sala a confusão instala-se. A um canto, o Rifeiro geme:
«Perdoei-lhe a dívida de trinta contos de jogo pensando que ele tinha morrido mas, como ressuscitou, agora, vai ter que me pagar.» ─ Ouviu-se uma voz superior:
«Deixai o homem falar.» ─

Galileu, despertado por este grito macabro, tenta libertar-se do pesadelo e exclama visivelmente comovido:

«Antes de mais, dai-me de beber.» ─ Servi-lhe um uísque duplo no copo. Embutiu uma golada e sentou-se na cadeira. Fez-se silêncio. Alguém resolve tossir naquele instante e logo uma voz se faz ouvir.
«Vai tossir para a rua.» ─ Volta o silêncio a reinar. Galileu está sentado com o cabelo em desalinho, tem na mão o copo da bebida.

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Inicia a narração:

«Meus amigos, vou contar-vos a aventura mais excitante da minha vida. Naquela noite, ao sair daqui, fui comer uma bucha ao restaurante e lá encontrei uma chavala de sonho, que não se importou mesmo nada de me fazer companhia. Durante a viagem, não reparei que o seu gigolô me foi a perseguir até chegarmos ao destino. Quando chegamos ao apartamento, deixamos as malas e fomos curtir numa discoteca até de madrugada. Antes de nos deitarmos, fizemos um trequibreque (coito) e só depois tomei o calmante da ordem para dormir. De manhã cedo fui acordado, olhei à minha volta e vi a polícia espanhola a revistar-me as malas. Um deles perguntou-me: ─ Usted, como te lhamas? ─ Ainda meio a dormir, levantei-me da cama para ir buscar os documentos. Então reparei que a minha companheira desaparecera e vi que ficara sem documentos, sem dinheiro, sem ouro e, para cúmulo, sem o meu automóvel.

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De seguida, levaram-me para a esquadra e lá fiquei a saber de tudo o que se tinha passado: ─ Depois deles me terem extorquido todos os meus pertences, os amantes fugiram de abalada para Portugal, só que tiveram azar e foram embater mortalmente contra um camião TIR.» ─ Depois de ter explicado uma parte do seu trajecto, Galileu bebe outro gole e prossegue:

«Quando prestei as declarações na esquadra, fui à casa mortuária, afim de reconhecer os corpos. Aí sim! Recebi um choque, ao dar de caras com a minha patroa! Ela mal me viu, caiu ao chão e desmaiou…» ─ Perante uma borrasca de risadas, até Galileu mudou de tom.
«Quando a patroa reanimou, quis saber toda aquela história; inclusive quem foi comigo na viagem; porém, insisti em dizer que tinha ido sozinho apenas com o intuito de descansar uns dias e, na volta do passeio, fui assaltado e roubado por aquele casal depositado na casa mortuária. Em princípio, a patroa acreditou na história; agora, vamos a ver como ela reage quando ouvir as outras histórias. Vejam bem no que um homem se mete. Pensei gozar um fim-de-semana do outro mundo e, no fim de contas, a aventura saldou-se alucinante e trágica. Do mal, o menos, estou vivo!» ─

13

Ao cabo de uma hora de falatório, Galileu fica exausto e pede mais bebida. A inconstância e a algazarra dos amigos e clientes estavam cada vez mais excitantes com o final da história. Grita uma voz:

«Saia uma salva de palmas para o morto-vivo.» ─ A confusão está no rubro. Alguém exclama:
«Isto só visto, porque contado ninguém acredita.» ─ Baixinho contrapôs:
«Parece fita à americana.» ─ Ouvem-se risos. E o champanhe jorra das garrafas. Era dia de comemoração. Pus o letreiro em frente de uma mesa que dizia: ─ A satisfação não tem limites, quando o objectivo é alcançado.

Thursday, May 24, 2007

CONTOS DE RATAZANA



 O VENDEDOR DE TRAPOS
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Lano, o vendedor de trapos, mais conhecido pelo Cigano, vendia roupa que se fartava para completar a sua vida boémia e ofertava roupas por contactos mais íntimos. Quando entrava no bar, as mais novatas perguntavam às mais velhas coisas sobre o Cigano e ficavam dissuadidas pelos comentários dele em relação às novatas. «Aquela não tem estaleca. Aqui me queres, aqui me tens. E se mão me mexer, ainda acabo por adormecer.» Após ter-se encostado ao balcão, o Cigano dirigiu-se ao empregado:

─ Nunca experimentaste levar um alfinete contigo e picá-las de vez em quando?
─ Acho que todos nós temos uma tara uma vez por outra.
─ Eu conheço bem esse truque ─ disse o Cigano arregalando os olhos. ─ Uma vez, pá, namorava uma cachopa que tinha um par de mamas do tamanho da lua. Um dia, estávamos a namorar, pus-lhe a mão por cima dos ombros e fui-lhe enfiando o alfinete até ao fundo. A gaja, nem um ai, disse…

Pouco tempo depois da chegada das novatas, o Cigano fez uma pausa e pediu ao empregado que levasse à mais nova uma mini-Gancia. Depois foi pela sala com o mostruário da roupa do Verão e sentou-se ao lado da novata.

─ É você a novata do bar ─ perguntou ele.
─ Parece que sim.
─ Mas tinham-me dito que era uma miúda feia e mal amanhada.
─ Está mal informado.
─ E disseram-me que sofria de moleza.
─ Moleza, não, mas serena sim. Informaram-no mal.

Depois destas palavras, ele mostrou-lhe a sua colecção de saias e blusas.

─ Você tem aí uns padrões muito bonitos.
─ Só agora é que sabia? São moda em Paris.
─ É pena você não ter trazido consigo uma amostra.
─ Quem lho disse? Venha ali à minha botique.
─ Onde é a sua botique?
─ Lá fora. Aqui já ao pé da porta.

Ela deu um pulo até à porta e ficou espantada a olhar para a rua.

─ Chama uma botique a uma furgoneta? ─ perguntou ela.
─ Exacto. Deixe de ser tão antiquada.
─ Você agora lixou-me.
─ Espere aí que vou abrir a porta de trás.
─ Como é que vou vestir a saia?
─ De pé. Isto tem altura suficiente.

Arrumou a roupa rapidamente para um lado e mandou a miúda pôr-se a um canto.

─ Ora escolha lá o padrão que quer.
─ Quero ver aquela saia às riscas. É parecida com o pano das barracas da praia da minha terra.
─ Já vi que você tem bom gosto ─ disse o Cigano, fazendo chegar à mão a peça pretendida.

A miúda trocou a saia num relâmpago, sem contudo, o Cigano não deixar de arregalar o olho até trás, perante um par de pernas que fazia a delícia do mais primário dos estilistas.

─ Que tal? ─ perguntou ela.
─ Que tal, o quê? ─ disse ele sem pensar na resposta. ─ Maravilha. Prefere essa? Fica-lhe mesmo canja.
─ Bem, mais ou menos.
─ Você tem um corpo espectacular. Agora tire a blusa e experimente vestir este polo por cima da saia.
─ Não posso. Não trago soutien.
─ E qual é o problema? Já não lhe vi as pernas? Os meus olhos não vêem...


Acabou finalmente por tirar a blusa; quando o olhar cego do Cigano tornou-se visível e reparou que o peito dela era tal e qual como ele o imaginava; afinal não precisava de utilizar o alfinete, murmurou ele para si: «Isto sim. Isto é que são umas mamas!».

─ Que foi? ─ disse a miúda receosa com o estrábico olhar de Cigano.
─ Oh, passou-me aqui um arrepio pela vista. Mas já passou.
─ Veja lá, o que é que tem.
─ Não se preocupe, já passou. Como você é boa pequena, vou-lhe oferecer o polo. Mas não diga nada a ninguém.
─ Muito obrigado.

Começou a tirar o pólo, curvando-se ligeiramente para a frente acabando por esbarrar com o nariz dele, embrulhando-se os dois no chão da furgoneta. A miúda mandou logo vir:

─ Você está louco? Aqui a apalpar-me toda?
─ Que é que quer? Você é que me provocou.
─ Não consegue parar com as mãos?
─ Não consigo, não senhor. Perdi o controlo. Já fui ao médico para engessar-me os dedos.

A miúda e o Cigano passaram aos encontrões e aos apalpões estendidos ao comprido.

─ Você pôs-me tolo.
─ Você é doido ─ disse a miúda irritada. ─ Bem me avisaram lá dentro para eu ler a sua biografia no pasquim do bar.

Ele lançou-se por cima dela.

─ É só um instante ─ disse o Cigano com a respiração a bater no máximo. ─ É só um instante.
─ Pare! Não vê que estamos na rua?
─ Mas eu só quero um instante… ele vem aí!
─ Ele, quem?
─ Ele vem aí… o leiteeeeee…

O Cigano estrebuchou como um comboio a descarrilar e enrolou uma toalha ao pescoço e passou para o banco da frente, que servia agora de casa de banho, para se arranjar e dar um toque pessoal.

─ Não há dúvida que você é uma lasca.
─ Por favor, não olhe para mim e não digo nada. Enerva-me. ─ A miúda deu um arranjo à sua indumentária e afastou-se.

Friday, May 11, 2007

CONTOS DE RATAZANA

                  O VIAGRA
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«Mas que naco de chichinha! Meu Deus! Aquilo é só febrinha…» ─ disse-me o Baixinho naquela noite.
Ele não consegue parar e quer estar com ela de novo. Eu observo-o atrás do balcão. Estamos apenas três pessoas na sala. Eu, ele e Menino Bom. Os ponteiros do relógio aproximam-se das dez e meia da noite. Ele não consegue deixar de palrar. «Podeis duvidar, mas hoje vou explorar aquele corpo no máximo das minhas capacidades, vou gozar a Ucraniana até à quinta pata do camelo!»─


Ninguém podia destruir a sua ideia. Nem o próprio Menino Bom dissuadiu quando disse: «Deixe que lhe diga mas, para uma mulher daquele calibre, um homem só lá vai se enfiar no bucho dois ou três Viagras!»
Ele ficou indeciso a olhar. E daí, eu aproveitei a meter a minha dose de veneno. (Tirei uma caixa de Viagra, escondido no balcão.) «Também não tem problemas, se quiser experimentar um comprimido destes, já pode dançar as valsas que quiser.» Mais grave do que o seu pensamento é o calor que sente por ela. «Deixe cá ver o raio do comprimido e um copo de água.» ─ A água levaria o comprimido a dissolver o seu estômago rapidamente, dando-lhe uma energia capaz de derrotar um leão da Escandinávia! E começa a partir daí, a sua odisseia. A caminhada não era longa e, quer por sim quer por não, resolvi marcar o tempo; passavam poucos minutos das onze da noite e voltei-me para Menino Bom. «Vale uma aposta que nem quinze minutos lhe dou para ele ir abaixo do cavalo?» ─ Ele encolhe os ombros e responde: «Não digo nada, até pode ser, que o comprimido o fortaleça ainda mais.» ─ Ficamos numa expectativa inquietante. Enquanto isso, recordo a Menino Bom como ele gostava voltar das cavalgadas nocturnas cheio de histórias pomposas e aliciantes, naquele oásis ali tão perto da porta. Um lírico, um fantasista mas, acima de tudo, um romântico por natureza este apóstolo do judeu Ratazana. Histórias que lhe fazia brilharem os olhos e depois o deixavam alheado de tudo. Recordo os momentos de excitação que o possuíam como um demónio: a paixão que argumentava quando queria contar as suas fitas à Vasco Santana durante toda a noite se o deixasse, para demonstrar que os bons velhos tempos tinham sido os melhores. Quando Baixinho volta, olha para nós tomado de uma fadiga auto destruidora. É que nem tinha passado os vinte minutos!
«Ponha-me aí de beber antes que me dê o fanico.» ─


Ele não consegue evitar um certo nervosismo quando pega o copo pela mão.

«Então, Baixinho, fez ou não fez efeito?» ─ diz Menino Bom enquanto ele passa o guardanapo pelo rosto suado.
«Se fez? Fez tanto que até larguei o pombo na primeira estocada.» ─ E eu intercedi junto deles: «Mas assim não deu para explorar a mulher?» ─ E Baixinho pôs-se a olhar para mim de lado: «Espera aí, se não me punha a pau que era explorado era eu!» ─ Ele volta a beber um pingo do copo e põe os seus olhos em cima de mim.
«Você e as suas histórias só dão merda! Se não viesse com a porra do medicamento, talvez aguentasse mais um bocado.» ─
«E quem lhe disse que tomou esse medicamento?» ─ Exclamou Menino Bom para ele que fica apalermado a olhar para nós. E concluiu o resto da conversa.
«Sabe que tomou dois grãos de café e água… ─ foi o termo que ele usou ─ mas pelos vistos o medicamento não aprovou.» ─
«É verdade o que estou a ouvir?» ─ grita Baixinho olhando na minha direcção. ─ Foi mais uma das suas brincadeiras?» ─
«Por acaso, não estava a pensar que eu lhe fosse dar um medicamento sem receita médica? Vamos lá que lhe dava o badagaio e, depois, que é que pagava as favas?» ─ Baixinho repreende-me com brandura: «Quantas vezes será preciso dizer-lhe que é um tinhoso e que já estou farto de o aturar? Se não fosse uma pessoa bem-educada mandava-o pró carvalho!»

Wednesday, May 9, 2007

CONTOS DE RATAZANA

─ O BAR DO TRAIDOR ─


O Bar do Traidor não pode ser comparado ao Casino de Espinho ou ao Bar do Twins. Era no entanto um local acessível e limpo com tabuletas bem desenhadas onde se lia O SEU PONTO DE ENCONTRO É DAS 14H ÀS 24H, com uma música seleccionada a sair de um take colocado junto da caixa registadora. Um espaço comprido e largo castanho-claro, iluminado por lâmpadas halogéneas. Um mundo onde os homens e as mulheres abancavam à volta de mesas de madeira, forradas a vidro no tampo, que servia de leitura a muitos dos meus manuscritos, espalhados pelas quinze mesas nas duas salas, bebendo umas bebidas espirituais e outras gasificadas. 



E, todos os dias de tarde, cedo o bar era uma compilação de desejos sem conta e desde logo se enchia da fina-flor dos ociosos de fora da cidade, vendedores, pequenos comerciantes, empresários de maior e menor escala, gente há muito chegada à cidade, com a ambição de dar uma boa troçada, possuir a sua garota, a sua conquista fácil. Porque todas as tardes, às quatro, a sala abarrotava de pequenas vindas à conquista de uma boa cena no Muro dos Prazeres (Pensão). As pequenas saíam então acompanhadas pelos mais bafejados da sorte, o bar esvaziava-se e tornava a recompor-se só depois da hora de jantar.
À hora do café entrava no bar outro tipo de clientes, que lá passavam a tarde debruçados sobre as mesas, entretidos na conversa, bebendo as suas bebidas preferidas, clientes diferentes com outro tipo de carteiras diferentes. Eu sabia tudo o que se passava à minha volta, mas ao princípio da tarde o bar era o ponto de encontro da maioria dos clientes.

Numa mesa central lia-se o dístico: ─ Os bares são o melhor ponto de encontro para as pessoas se conhecerem e avaliarem bem os seus fracassos. ─ Também os provérbios têm os seus significados: Bar é má sina. Pontos de encontro, depende da conjectura e da inspiração das noites, da magia e fracassos, que durante muito tempo considerei o meu código principal da desgraça e do infortúnio… Mas estou a brincar…



CONTOS DE RATAZANA
_____________________

(1)


Meia-noite, mais ou menos. Um homem de chapéu enterrado na nuca vem do fundo da sala e caminha direito à casa de banho; pára, agacha-se para desapertar a portinhola das calças e tira a gaita para fora, pondo-se a mijar para o urinol mas mija para o chão… e, em vez de mijar, põe-se a rir como um desastrado e murmura: «Olha para isto? E volta a mijar fora do urinol!...

Esta está boa! Mas quem, seria o filha da puta que pôs ali aquele letreiro na retrete?... E ele sai cá para fora e diz: «Que lindo serviço! Mijei no chão porque me assustei com aquele reclame que está lá escrito a letras gordas que diz: ─ QUEM MIJAR PARA O CHÃO FICA SEM GAITA!... ─ E o homem de chapéu enterrado na nuca sai para a rua desnorteado, fora de si, a levar na mente aquela tesoura no ar que viu na casa de banho, quase que lhe cortava a gaita!...

(2)

─ A alternadeira tinha acabado de comer uns ovos estrelados com batatas fritas em detrimento de tripas à moda do Porto, visto ser propensa a gazes. No fim do jantar, passou o guardanapo suavemente pelos cantos da boca, e diante de uma colega, fez um resuma da sua aventura por terras francesas com mo seu ex. namorado Joaquinzinho.

Fui louca por aquele homem. Há uns tempos a esta data, fui passar uns dias em segundas núpcias, alugamos uma suite no hotel e durante três dias não saímos do quarto; ─ foi comer, beber e fornicar, ─ somente estas três coisas maravilhosas da vida, que de bom lá passei. (respirou fundo)
Ao fim de três dias bem passados, levantei-me da cama para abrir a janela do quarto, mas as forças eram tão poucas que deixei cair a janela em cima das mãos e desmaiei, caindo para o chão. A colega olhou estupefacta para ela e disse: «Ó mulher, e tu conseguiste estar tantos dias seguidos na cama com um homem? Ela respondeu. ─ «Claro, desde que o homem me agrade…» 

Wednesday, February 14, 2007