Sunday, September 1, 2019

    



   No ano em que o Clube das Devesas, em Vila Nova de Gaia, apresentava a peça O Senhor Comandante, o recinto estava à pinha, e todas as cadeiras, preenchidas de um público ávido de emoção.
   No palco, o bombeiro Adolfo, um homem de um olho só, que se considerava o Vasco Santana da companhia, quando lhe apareceu o Senhor Comandante – com uma raquete e bater bolas de pingue-pongue – e o bombeiro carregado de genica, deu uma cabeçada na bola que foi embater num espetador, atitude reprovável a que o Senhor Comandante exclamou:
   - «A cabeça que bateu na bola deve ser cortada!»
   O Senhor Comandante desaparecia com novo bater de bolas, deixando o homem de um olho só à deriva com a sua consciência no pequeno palco.
   Era um dos momentos mais dramáticos e todo o público, silencioso, espera a grande reação do personagem. Este pensou, e repensou, passou a mão pelo cabelo e disse:
   - «A cabeça que bateu na bola deve ser cortada! Vou cortar a cabeça!»
   Todavia, o bombeiro era bastante frouxo de ouvido, e assim, não ouvia o que o ponto bufava cada vez que ele se atrapalhava, com a frase seguinte. Então, tentando remediar a situação o melhor possível, repetiu:
   - «A cabeça que bateu na bola deve ser cortada! Vou cortar a cabeça!»
   Aí pela terceira ou quarta vez de «A cabeça que bater na bola deve ser cortada! Vou cortar a cabeça!», no meio daquele silêncio, escuta-se uma voz vinda da assistência:
   - Vai, vai, meu grande nabo… que ainda ficas com duas!...



                                                                                                       Abraão, Porto.

Sunday, August 4, 2019




                               
 RATAZANA

         − RATAZANA, PSEUDÓNIMO DA NOITE, transformou um dos seus sonhos de adolescente em toda aquela obra fantástica – disse Lucinda Encarnação, conhecida na noite por Nani, colega e amiga de Ratazana.
         Esse adolescente, Ratazana, nasceu uns anos após a II Guerra Mundial e cresceu no período da ditadura. Traria para o palco da noite a sua criatividade e a sua inteligência pessoais, modeladas por uma época que apenas podemos visualizar em fotos destorcidas e semi-apagadas de imagens.
         Ratazana contou-me que veio ao mundo num mês primaveril a um dia de segunda-feira, por volta das sete da tarde, «porque esse tinha sido um dos poucos meses em que a sua mãe não ouvia novelas radiofónicas. A taberna da família ainda existe, em Vila Nova de Gaia, no centro das Devesas, próximo da estação ferroviária local.
         − Contaram-me que, em pequeno, e enquanto miúdo da escola, muito corri – disse Ratazana. – Mesmo nesse tempo, era a favor de consumo de energias. Sempre corri para me livrar das chibatadas de meu pai em público, por causa das patifarias que eu lhe pregara.
         «Como era muito mais rebelde do que os outros meus três irmãos, não se interessaram muito para o que eu fizesse enquanto eu crescia. Por isso, tinha-me a mim próprio quase inteiramente para mim. E usei a minha liberdade para fazer macacadas e ver o tempo a correr, em frente à taberna do meu pai.»
         Muito cedo, o rapaz Ratazana sentiu-se fascinado pela banda desenhada, então constituída sobretudo por livros usados para revenda. – Havia um forte cheiro à imaginação. Na verdade, pode dizer-se que havia um fascínio intenso. Também havia muita emoção, do aventureiríssimo dos protagonistas e das histórias contadas. Penso que foi assim que começou o seu interesse de toda a vida pelas aventuras.
         «Em rapaz, sabia que queria aventurar-me, logo que chegasse a hora. Quando se tem a sorte de poder aventurar quando se é jovem, tudo quanto lemos torna-se uma parte de nós, que podemos recordar durante toda a vida.»
         No princípio dos anos sessenta, os livros usados para revenda foram substituídos por lições de viola. – Lembro-me dos seus acordes e dos trinados das cordas de nylon, antes de serem transformados em solos, de passarem de um tom para outro, levando rapidamente os tocadores para músicas que só podia imaginar. E a taberna cheirava a música.
         «Quanto tinha para aí treze anos, fiz a minha primeira aparição numa rádio local a cantar Ai Jalispo, uma coisa que o meu pai considerou merecedora de uma prenda. Ainda me lembro qual foi o mês, Setembro, mas, o dia escapou da minha memória.
         «O meu pai mandou-me ir ao quarto, sem correrias. Avancei pelos degraus das escadas com serenidade, até abrir a porta do quarto, onde estava por cima das roupas, uma viola braguesa em segunda mão mas que provavelmente me pareceu nova. ´É isto que me fazia falta`, disse para mim.
         «Nunca me separei daquele instrumento. Desde então, tive todo o empenho para aprender a ler a escala. Nunca faltei aos ensaios, nem sequer nos dias de jogar à bola com os outros rapazes da rua, porque queria evoluir bastante.
         «Ainda me parece ouvir o lamiré do professor-guitarrista, depois de eu ter tirado o instrumento da saca.
         «Sempre disse à minha mãe que queria ser um rapaz artista quando fosse grande. Na verdade, os artistas sempre me atraíram, e o artista cantor era o mais atraente de todos. Talvez isso se deva ao meu cinema de infância ou talvez seja porque os artistas cantores foram os primeiros que vi, quando era miúdo e, por isso, me pareciam mais artistas do que os outros. Acho que parecem mais coquetes por serem tão bem-comportados, com todas aquelas boas performances!»
         A família Abraão era trabalhadora, um dado adquirido desde muito pequenos. – O facto de sermos trabalhadores significava que éramos cumpridores – disse Ratazana. A colocação dos porcos abertos ao meio da semana e pendurados ao comprido nos ganchos em cima do tecto da loja impressionava o pequeno Ratazana que, mais tarde, viria a confessar-se de ter dó do bicho. A sua mãe era natural de Miragaia, no Porto. O seu pai descendia de uma família de agricultores em Vale de Cambra.
         Abraão de Almeida vendia carnes de porco a retalho, mercearias e vinho de pipa ao copo na taberna das Devesas, em Vila Nova de Gaia. – Quando estava a organizar o Concurso de Sextas-Feiras, no bar − recorda Ratazana – veio ter comigo um homem maduro que disse que conhecia o meu pai, do tempo em que ele negociava porcos para a matança no Matadouro Municipal de Vila Nova de Gaia. 
         «Os meus pais achavam que eu tinha mais queda para trabalhar no balcão, do que os outros meus irmãos. Talvez tenha revelado ao meu pai uma certa inclinação pelo seu negócio e interesse em seguir as suas pisadas. Conseguia muito bem entender por que motivo um osso de porco rapado fazia jeito ao meu pai.
         «Apesar de meu pai conseguir ganhar a vida razoavel-mente como negociante de carnes, mercearias e vinhos, lidar com presumíveis bebedores contribuía para um certo receio de insegurança na nossa família. O meu pai era activista por natureza mas o seu trabalho colocava-o na posição de pacifista.  

De todo o modo, não é muito diferente da minha própria actividade. Embora por natureza, não seja um ordenador, a aventura que escolhi como o trabalho da minha vida colocou-me numa posição não muito diferente da do meu pai… um pacifista com bebedores. Mas, na nossa família, nunca ninguém passou traça. É a vantagem de ser-se filho de um negociante de carnes de porco e mercearias.
         «A minha mãe era boa cozinheira e chegava a fazer mais de cinquenta refeições diárias. Era o seu trabalho a todo o tempo, e ainda sobrava tempo para deitar uma olhadela à loja, quando o meu pai ia às compras. Não me lembro de alguma vez chegar a casa e não a encontrar lá.
         «O nosso prédio onde vivíamos tinha mais de noventa anos e pertencia a uma família abastada de republicanos. Embora não fosse uma casa nova, a minha mãe era escrupulosa na limpeza e higiene. Usava um médio avental às cores que cobria o vestido menos as pernas. Nunca saía de casa sem se apresentar o melhor possível: asseada, vistosa, o vestido de bolas, os sapatos engraxados, uma mala pequena, os cordões de ouro a enfeitar o peito e uns trocos no porta-moedas, sempre para um remedei-o. Sempre admirei as pessoas que trazem trocos.
         «Não era mulher de queixumes. Nunca a ouvi queixar-se. Também não era dada a meter-se na vida alheia. Nunca a ouvi dizer mal de ninguém. Só se preocupava com a família. As amigas que lhe apareciam lá na loja, não eram muitas, mas eram boas companhias
         «O meu pai gostava de desmanchar o porco e trazer a carne que a minha mãe lhe pedia para a cozinha. Por isso, a nossa cozinha tinha sempre as mais variadas miudezas do animal. Lembro-me de meu pai ir trabalhar de grande bata bege que cobria tudo menos os socos de madeira calçados nos pés. Nunca o vi com a barba por fazer ou cabelo despenteado. Não era por causa do porco. Era por causa do respeito por si mesmo.  
         «Muito cedo, alguns clientes gostavam de gozar do aspecto do porco pendurado no gancho e um deles chamou o meu pai a atenção. Eu ouvi o que ele disse.
         − Ó, Abraão! Tens cabeça de porco? – Perguntou-lhe, mas o meu pai não lhe respondeu. Respondeu-lhe o outro.
         − Então, ronca! – E cavou depressa, levando com um osso atrás das costas, com o pequeno.       
         «Os meus pais gostavam muito dos passeios domingueiros e levavam-nos com eles, sempre que era possível desfazer-se dos seus afazeres secundários. Nunca me esqueci das visitas ao Palácio de Cristal, dos pássaros nas gaiolas, do leão dentro da sua jaula, de vez em quando, dando o seu grito tenebroso. O passeio era sempre acompanhado por um farnel que a minha mãe trazia numa saca, com bolinhos de bacalhau, pão e sumo, para aquecer os nossos estômagos.»
         «Quando eu era adolescente «levei uma vida exterior muito viva. Os outros rapazes julgavam os outros pela sua vida interior. Posso não ter sido disciplinado mas era bem atinado.» Ratazana acrescentou que não participara em jogos e passatempos que considerava uma perda de tempo. Nesses primeiros tempos, a viola foi a sua melhor prenda e melhor companhia. 
         − A minha viola estava sempre ao meu alcance e eu andava com ela por todo o lado, como um bem adquirido, o que é uma coisa boa para um adolescente. Sentia que era a minha aliança.
         «Eu era um rapaz popular e, por isso, era obrigado a estender a minha imaginação e penso que isso me ajudou a de-senvolver os recursos criativos. Não preciso de muita ajuda do lado interior. Além disso, o meu trabalho trouxe-me uma espécie de apreciação, pode mesmo dizer-se de amor, que nunca esperei. Talvez isso tenha tornado tudo mais belo, a branco em cima do escuro.
         «O meu verdadeiro eu, é uma pessoa muito simples, tal como tem a ver com o aspecto publico. O homem não é muito diferente do rapaz. Quem queira entender-me tem de aceitar que sou deveras simples, como toda a vida fui. Quando se é assim em novo, é raro mudarmos. E eu continuo a ser o mesmo. Quando era adolescente, soltava-me na companhia da minha viola e da minha.»
         Uma paixão de rapaz a que pôde dedicar-se nas horas vagas foi armazenar tudo quanto tinha a ver com programas, especialmente programas de espectáculos e fotografias. – A minha colecção de panfletos, medalhas, cassetes e discos estavam rigorosamente guardadas. Gostava de ver cada coisa em seus devidos lugares e em perfeitas condições.            
         Ratazana sonhava a tocar por todos aqueles palcos e, mais tarde, foi mesmo o que fez. O seu percurso estendeu-se a outros locais. – Nunca tinha actuado no Casino de Espinho − contou-me. – Mas, a primeira vez que pisei o palco do casino, senti que podia ir tocar a qualquer palco do mundo, porque tinha dominado a pressão.
         De pequeno Ratazana era tratado por Zé, na tropa por Almeida e Mambo e na vida civil por Fernando e, bem mais tarde, começou a ser conhecido por «Ratazana» pelos colegas do ofício, embora às mulheres a quem era apresentado, gostasse de dizer: − Pode chamar-me Rato, sem Ratazana!
         − A minha infância não foi uma infância fácil, mas também não foi difícil. Nessa época não tinha uma noção muito diferente do que era harmonia. Tinha mais consciência do que estava certo ou errado.
         Ver filmes e ler eram umas das actividades preferidas de Ratazana durante a infância e os filmes e os livros continuaram a influenciá-lo durante toda a vida. – Fui influenciado por Charlie Chaplin, Westerns e pelos argumentistas que criaram as personagens da BD. Travei conhecimento com vários artistas e músicos já qualificados quando era muito novo. O meu filme preferido de Chaplin foi Tempos Modernos. No mundo de Charlot dar oportunidade a alguém era um milagre, um caso que também vivi. Mesma nas histórias fictícias é importante não subestimar os outros. Os talentosos não podem ser deitados ao caixote dos papéis.    
         Iniciando-se a trabalhar aos onze anos, altura em que completou a quarta classe, o jovem Ratazana foi o último dos irmãos a trabalhar por fora. A família Abraão vivia o suficiente mas havia sempre uma preocupação manifesta de amealhar o dinheiro que sobrava ao fundo da gaveta do apuro em latas, que a
a minha mãe me tentava fazer entender – guarda do riso p´rá chora. – Só mais tarde me apercebi da grande lição que a minha mãe me estava a querer ensinar a poupar.
         «Sempre gostei de cantar e tocar viola e alinhei num conjunto de música popular de Vila Nova de Gaia. Lá, surgiu a oportunidade de actuar em clubes e arraiais e achei os arraiais maravilhosos.»  
         Ratazana foi tocar para o Conjunto Regional Realidade, convidado para tocar viola de acompanhamento. Conseguiu mostrar-se porque sabia alguma coisa de composição e, porque durante o tempo da aprendizagem, praticara a arte de solar. Não tardou a cansar-se das marchas e das valsas e começou a reunir outros elementos, onde viria a formar o conjunto, Os Mambos, de ritmos sul-americanos. O seu trabalho foi apreciado e inscreveu o conjunto no I Festival de Música Portuguesa, no Coliseu do Porto. A indumentária original do agrupamento apropriado às suas raízes musicais, ajudou a receber do júri do festival, o prémio para o melhor conjunto original apresentado.
         Ratazana queria elevar o grupo a voo mais altos, embora os outros elementos não partilhassem as suas ideias. – Tinham demasiados problemas com os empregos. Pior ainda: as mulheres andavam sempre atrás deles, quando souberam que eu queria levá-los para fora.
         Decidiu incorporar-se no serviço militar para combater na Guerra do Ultramar e aderiu ao corpo de voluntários da 11.ª Companhia de Comandos, mal fez as provas, foi imediatamente incorporado. Foi para Angola, o que representou para si uma grande aventura.
         − Foi realmente uma aventura longa. A minha curiosidade foi saciada e acho que razoavelmente gostaram do meu con-tributo. Sou um pau para toda a obra. Sempre fui prestável mas julgo que pensaram que servi com brio e zelo o meu posto.»
         Aderiu ao grupo de guitarristas, violistas e fadistas que frequentavam o Tropical no Porto, que tinham trabalho e que procuravam iniciadores para programas extras.
         − Desde a infância que me sentia profundamente agarrado pelo cinema e pela música. Profundamente agarrado. Os filmes e
a música eram a minha paixão. Tal como a canção que tornou famoso Marco Polo Eu Tenho Dois Amores, eu também tinha dois amores. Lia e via tudo que era magazine do ramo.
         Em 1971, Ratazana relacionou-se nas mesas do café com várias pessoas enquanto parava no Tropical. − Alguém, que me conhecia, que sabia que eu andava à procura de um parceiro para tocarmos juntos. Na verdade, na altura, a ideia era começar um projecto novo, e felizmente tive essa oportunidade para me aventurar. Foi numa altura em que aquilo que não sabia era tão ou mais importante do que aquilo que sabia. Fomos a correr buscar os instrumentos, uma consagrada figura fadista ensaiou-nos e, ficamos a tocar numa confeitaria de Cimo de Vila até muito tarde durante várias semanas, coisa que sempre gramei fazer – disse Ratazana. Eu tinha vinte e três anos.     
         «Foi bastante bom conhecer Rufino Borges, porque me ajudou a construir o duo musical Os 2 do Norte. Era muitíssimo bom na primeira voz. Quando concluímos o nosso repertório, contactámos um primo do Rufino, dono de um night-club, a pedir uma actuação, eu até lhe disse: ´Nós até tocamos de graça.` O meu entusiasmo foi notório. O nosso repertório, que sabia ser razoável, foi elogiado e, por aquilo que disseram de nós, o dono ofereceu-nos três meses de espectáculos. Assim, a nossa primeira actuação no mundo nocturno foi na Boite Roma, um night-club em ascensão na cidade do Porto.»  
         Entre 1972 e 1973, o duo actuou em festas e clubes, até desligar-me do Rufino por motivos pessoais e enveredei por uma carreira a solo, ao mesmo tempo que desempenhava outras tarefas. – Era o novo empregado de sala a tocar viola e cantar e fazer acompanhamento à artista de striptease que acabava o programa. Fazia qualquer tarefa que fosse preciso fazer na sala, fazendo por vezes o trabalho do balcão, na copa a lavar copos e o serviço do porteiro, na folga do titular. Sentia-me muito feliz no meu trabalho.
         «Naquela época, as camareiras da noite eram todas mulheres maduras e foi com elas que aprendi o vocabulário próprio. Nessa época, as mulheres maduras tinham muitas hipóteses de trabalhar na boémia. Esse tipo de trabalho andar ao 
copo era considerado apropriado para as mulheres maduras, tal como a limpeza. Quando as novas casas começaram a aparecer, essas camareiras passaram as ser menos procuradas, essas funções passaram a ser facilmente acessíveis às raparigas novas.»

         EM 1973, encorajado com o ambiente nocturno, Ratazana optou pela sua adaptação no ofício, seguindo as pisadas dos colegas, e candidatou-se a trabalhar na nova casa a estrear e, foi contratado. Durante este período, Ratazana acumulou a funções de chefe de mesa, e o facto de ter trabalhado com bons profissionais, toda a gente o levava muito a sério. A eles se juntou e, aos poucos, Ratazana exibia o sorriso, que queria ser boss.   
         − Nos meus primeiros meses, pratiquei a técnica nas mesas, baseadas nos contos das camareiras até passar por outras casas evoluindo como barman – contou Ratazana. – Quando apareceu o negócio de António Cândido, convidaram-me a tomar conta do estabelecimento. Depois, do negócio realizado, em reflexão com as paredes, perguntei a mim próprio: ´E quem vai emprestar o dinheiro para as obras?´ Respondi-me que podia fazê-lo.
         «Tinha um amigo na noite, que era como se fosse meu pai, que ia ser o financiador da obra para eu prosseguir com o meu projecto. Só me pediu uma estimativa. Eu disse que me en-carregava do projecto de obras, que comprava os materiais, etc. Confiou em mim e fiz alguns esboços para lhe mostrar. E assim passei a ser também um boss da noite.»     
         Ratazana designou para o seu bar um nome moderno e atractivo com toque inglês que começara a funcionar no dia 3 de Outubro de 1980. Chamava-se Club Lord.

Sunday, July 21, 2019




                                                        Zé da Micas
                                                      
   Um dia, há cerca de dez anos, alguém me perguntou:
   - Ouviste falar no Zé da Micas?
   - Eu não.
   - Pois é um malandro, e um malandro de mérito. Abençoado. Está na sua última fase, ele sabe-o. Mas quer publicar um livro de contos da noite, e que certamente será o seu cinquentésimo livro. E deseja que tu leias esse livro. Quando pode ser?
   - Quando ele disser.
   Na manhã seguinte encontrei-me com Zé da Micas, na cervejaria Bica d´Água. Não esquecerei nunca a alegria que existia naquele homem, em cujas palavras revelavam ainda uma força enorme. Sentámo-nos numa mesa de canto, e com rouquidão na voz, durante algum tempo, eu ouvi a leitura de folhas sorteadas, entoada com tamanha fervor. A empregada passava, servindo clientes aquela hora do café da manhã, e, à nossa mesa do canto, eu assistia ao desenrolar das imagens, a música vindo do rádio, e via desfilar as peripécias daquele espírito malandro.
   Recordo-me que naquele momento me lembrei, como ainda hoje me lembro, a página de paródia de Ratazana, nos Escritos Traidores, quando Galileu, o professor biológico, faz loucura na penumbra de um quarto aos olhos do Grupo de Traidores, o triunfo de levar cinco mulheres para a cama (uma de cada vez). 
   Jamais o ouvi ler assim, e espero voltar a ouvi-lo ler assim. Zé da Micas, com a sua rouquidão na voz, quase nem me deixava respirar. Mais tarde, tive oportunidade de o reconhecer quando me chegou às mãos um dos primeiros exemplares saídos da tipografia. Num dos seus trechos, que a sua enternecedora amizade me dedicou, leio estas palavras, escritas pela sua mão, debaixo de meu nome: Ao leitor e ao amigo - Porto, 21.08.2017 - Zé da Micas. Quando o seu punho traçou estas linhas, só lhe restavam meia dúzia de meses de vida. 
                                                                                   
   Zé da Micas  
       ----
   Recordando-o hoje, após cinco anos que ele, o malandro, morreu; aí fica essa meia dúzia de linhas traçadas numa custosa hora de saudade:
   Passava lentamente pela rua barulhenta, como um abrir de boca em meio de uma romaria, uma carrinha levando um morto á paz do tumulto. Quatro carros acompanhavam a melancólica poupa fúnebre, e sob a cortina do sol que espalhava a sua glória no céu, a minha curiosidade inquietou o meu tédio. E numa curva do trajeto, o cortejo ganhou pressa, como se o cadáver, dentro do caixão, gritasse a sua aflição de repouso.
   Havia murmúrios lentos nos troncos, últimos gemidos nos beirais, e os que passavam compunham um sorriso, como quem prende uma irónica máscara de felicidade. Só o morto, àquela hora, pálido e frio, renunciava a sua indiferença, o terno desdém, a fé abençoada, o último bater do seu coração que o silêncio da cerca iria apodrecer. E como de dentro de um carro alguém me bracejasse, perguntei:
- Quem vai aí?
A voz magoada respondeu-me:                                                                            
- O Zé da Micas.
   Era um malandro que ia a enterrar naquele fim de mês de Agosto, quando as folhas se soltavam e o nosso coração estremecia de dor unicamente.
   De repente, passou ante os meus olhos abatidos, toda a malandrice longa da sua sorte desdita, o naufrágio da esperança, alguém na enxurrada do vício, a borga, a boémia - a sua única e fiel amante - o descanso derradeiro. 
   E lá ficou, por uma tarde sem sol, na vala comum dos deserdados e dos esquecidos, esse grande malandro do divertimento; com flores que lhe falavam a nossa saudade, com palavras que lhe diziam o nosso amor. A sua carcaça ficou entregue á bicharada materna da terra, como se a sua alma parasse surpresa nas páginas divertidas do seu livro.
   Vejo-o ainda num banco do jardim de Arca d´Água olhando o silêncio repousado dos pássaros. Aquele último dia de revisão de escritos, em que lia as últimas façanhas de um boémio; Falámos e despedimo-nos:
   - Até quando?
   Sorriu, não sei se um sorriso, se uma lágrima, porque encolheu os ombros e, numa voz fraca, respondeu-me:
 - ... Quem sabe.
   E nunca mais se viu.

Sunday, June 23, 2019






  
De
viola à mão, fiz o percurso da minha vida como violista de fado e enfrentar as saudades de casa faz parte do ofício. Porém, um dia, uma cantadeira deu-me um souvenir para combater a solidão. Tinha olhos castanhos arredondados, um laço laranja e uma viola rústica: um boneco de borracha com 10 cm de altura. Agarrado à cremalheira trazia um escrito com o dizer «Eu amo a minha viola!»
   No espetáculo seguinte, meti o boneco no estojo da viola. Desde aí, passou a acompanhar-me nas minhas idas; tão indispensável como o meu lamiré ou as minhas cordas suplentes. E criamos amizades pelo caminho. Em Espinho, abri o estojo no camarim, tirei a viola e saí para o palco. Quando voltei, a empregada de limpeza tinha fechado o estojo e colocado o boneco recostado na mala. Na RTP, em Vila Nova de Gaia, fui dar com ele agarrado ao xaile da fadista.
   Um dia, dei pela sua perda, e quando telefonei, nervoso, para casa, descobri que o deixara no quarto de banho, enquanto fazia a barba, onde tinha sido guardado pela minha dona. Andei 50 km para ir buscá-lo, e quando cheguei, ao palco, uma hora depois, o elenco estava à minha espera para começar o programa. A cantadeira está agora algures e eu já não ando tanto por fora. O boneco continua dentro do estojo e é uma lembrança de que a amizade é um fantástico companheiro de espetáculos. Em todos estes anos nos palcos, foi a única coisa que nunca deixou de andar comigo.

                                                                                            Escrito por Abraão para Nel Garcia, Porto.  

Thursday, May 30, 2019






                          Padrinho e o Porto

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   O boletim meteorológico dava sinais de chuva intensa e húmida e o céu apresentava uma lua em quarto minguante em estado de uma obscuridade quase total, e a noite dera lugar a uma tenebrosa trovoada. As árvores abanavam ao sabor do vento que fustigava cada vez mais, ouvindo o ruído de sons agudos que pairavam na rua.
   A passo lento, segue Padrinho, chapéu enterrado na cabeça, bolsa de cabedal dos documentos fortemente atada à mão direita, enquanto a outra mão se enfiava no bolso da gabardina escura.  
   No silêncio da noite, ele baniu do pensamento todo o remorso pelo período em que duvidara de si mesmo, substituindo por uma ideia nova: devolver a si próprio a imagem do passado. Sentiu que a sua fé o abandonava e encolheu os ombros, numa expectativa de aguardar de momento o que o futuro lhe reservava — embora isso também estivesse para breve.
   Envolto pelas ruas da cidade que se enroscavam em seu redor, contorceu-se num esgar de frio e olhou para o horizonte. O Porto mostrava-se uma cidade airosa, revelando a sua verdadeira raça de natureza pura, a sua beleza arquitectónica de cidade que tinha ganho a noção de si própria e, por conseguinte, se rebolava num presente auspicioso, diferente, de borgas e paródias, sem nunca ter rejeitado o passado, olhando a escuridão de um futuro promissor.
   Padrinho vagueou nas ruas nessa noite seguindo a luz e as trevas da madrugada. Lembrava que muito antes da chuva cair, um certo número de casos que o haviam abalado lhe vieram à memória trazendo alguns nomes que haviam sido expulsos do seu espírito por terem falhado na hora do compromisso e, em consequência disso, haviam-se deixado, como no filme O comboio apitou 3 vezes em que o artista, o xerife, fica a falar sozinho à espera dos meliantes que lhe queriam fazer «a folha». Ó falsas criaturas! Que mal eu vos fiz! —
   Quando o Deus para uns é cego, não há força da razão que resista tal encomenda. Padrinho estivera à beira do abismo na derradeira queda. Como a Boa-Estrela havia sido benévola para com ele! — Via que a escolha era simples: o amor ao próximo e fé em Deus. Uma possibilidade que não podia deitar a perder, antes que fosse tarde demais.
   Tirou do bolso da gabardina um pequeno livro de apontamentos que ali se encontrava desde que saíra de sua casa, havia mais de três horas e meia: o livro com os nomes dos meliantes que lhe queriam fazer a tal dita «folha», os dignos companheiros, amigos de longa data, os seus nomes estavam escritos à mão, em tinta preta, e deitou-os a uma valeta…
   Numa esquina, na zona da Rua Chá, outrora conhecida pela sua população de artistas de várias artes, vagabundos e homens à procura de prostitutas, e agora ocupada por profissionais de comércio e pequenos empresários de negócios, Padrinho teve ocasião de encontrar uma alma perdida à procura de alguém.
   Era ainda jovem, de sexo feminino, alta e duma beleza exótica, com um nariz tipo chafariz e cabelo preto e riscas brancas, penteado com azeite e tinha dentes pintados a várias cores. A jovem estava mesmo à beirinha do passeio, encostado a um varão de ferro, de costas voltadas para a estação ferroviária, levemente inclinada para a frente e segurando, na mão esquerda, um objecto rectangular de estimação.
   O seu comportamento chamava a atenção: primeiro fitava com olhar sombrio o objecto que tinha na mão e depois olhava à sua volta e rodava constantemente a cabeça dum lado para o outro, pondo os transeuntes demasiado concentrados.
   Padrinho, numa primeira passagem, olhou para o objecto que a jovem agarrava: era um cartaz escrito a letras miudinhas. À segunda passagem, pôs os óculos e leu com atenção o cartaz: Por favor, dê uma esmolinha à ceguinha. A seguir ofereceu-lhe a sua ajuda. A jovem passou o cartaz para a outra mão e voltou a repetir o mesmo refrão.
   «Este dinheiro — disse ele — é teu e não é muito, mas é de boa vontade.»
   E retomou o caminho, olhando a pequena multidão silenciosa. Ali, na esquina de uma rua movimentada, andavam almas a sondar em busca dum corpo à deriva.
   Mais adiante, quase ao fundo da rua, Padrinho viu claro uma prostituta a ser assediada por um esgazeado que, sem mais nem menos, agarrou o rosto dela com ambas as mãos e deu-lhe um beijo firmemente na boca. No entanto, ela reagiu de maneira surpreendente ao ser assim agarrada bruscamente, exclamando:
   «Vai-te foder», — berrou com toda a força — posso estar desesperada, meu, mas ainda não estou esgazeada a esse ponto.» —
   Ao que o freguês, dando mostras de mau perdedor, deu-lhe um valente soco no nariz que a pôs a sangrar. A seguir, pirou-se pela rua abaixo e perdeu-se na escuridão.
   Quando Padrinho foi atrás dele, o freguês já tinha cavado não se sabe para onde mas, em vez disso, encontrou uma amiga dos tempos da desgraça que veio flutuar para a sua beira, já com uns copitos a mais no estômago.
   «Olá! A uma hora destas por aqui — disse ela — só se for para curtir o fado do Pescador!» —
   Padrinho sorriu.
   «Olha, que é que queres que te faça? — acrescentou. — Não tenho sono, tenho medo da solidão e, como não consigo dormir, prefiro passear pela noite.» —
   As palavras dela continuavam a ser irónicas.
   «Está-me a contar essa fita a mim? — olhou maliciosa. — Esse filme vai no Batalha!.» —
   Ele próprio também foi obrigado a rir. Tal como ela, Padrinho pôs-se na galhofa a lembrar cenas do passado num jogo de perguntas e respostas para fazer passar o tempo.
   «Eram todos filhos de Adão», — contava ela uma cena antiga. — Mas quando se deitaram na cama, os cabrões arrancaram logo as suas roupas para mostrar as suas vergonhas.» —
   Ouviram-se as suas gargalhadas. E Padrinho, logo a seguir, contou a dele:
   «Uma noite, às quatro da manhã, completamente embriagado, já tinha bebido o uísque todo da garrafa, tirara a escova dos dentes e preparava-me para ir à casa de banho, quando se apresentou no meu apartamento, uma jovem sem ser anunciada e não dava mostras de querer sair dali. Eu, educadamente, fui à casa de banho lavar os dentes e, ao voltar, encontrei-a de pé no meio do tapete da sala, completamente nua, exibindo um corpo de tarar. Quando eu vi aquele espectáculo ali diante de mim, gritei:
   -Toma-me! Sou todo teu. Faz o que quiseres!» — Ela pôs-se a mijar em cima do tapete e, a seguir, desapareceu calmamente para fora.» —
   Padrinho contara a ela a história num tom franco e risonho, sugerindo, em princípio, que a tempestade já não se desencadeava. O certo é que ela não parava de contar histórias e ele foi obrigado a gritar-lhe:
   «Agora chega», — disse ele. — Vou-me embora.» —
   Apertando bem o cinto da gabardina ao corpo, seguiu a passo rápido pela rua em frente. O nariz de Padrinho, escorrendo pingos de orvalho, começou a latejar dolorosamente. Nunca fora capaz de suportar o frio. Deu por si a murmurar uns versos que lhe saíam à memória repentinamente,

Morrerá quem suporta o frio?
Quem, não se alheie ao abandono, embora a ele condenado?
Tu também farias isso, e te tornarias um oculto, de qualquer das formas.
Mas longe do frio, onde pudesses trocar,
Um pouco de sossego e paz…

   Ele próprio não saberia dizer melhor.
Qualquer pessoa que desse por si no meio da noite, ao relento, a falar sozinho, diria que ali ia um maluco… pôs-se a limpar o nariz a um lenço de papel e murmurou:
   «Devias era ter ido para poeta», — opinou voltado para o candeeiro da rua. — Podias muito bem ter tido êxito. Eu sei escrever embora só tenha a quarta classe, mas que raio? Uma pessoa não precisa de ter muitos estudos para saber dizer uma dúzia de frases bonitas, não é? É claro que não sou burro de todo: há por aí mais camelos do que eu a pastar que não vão a lado algum mas eu cheguei lá! Mais longe do que eles pensavam, disso tenho a plena certeza e mais digo: esses nem daqui a cem anos chegam onde eu cheguei, disso garanto-te, palavra de Padrinho.» —
   Ele desvaneceu-se da fúria e até lhe deu para fumar um cigarro, puxando primeiro pela aba do chapéu para a frente da cabeça, enquanto tirava umas fumaças de fumo para o ar. Nesse instante, reparou que duas pessoas o olhavam com curiosidade, a primeira um jovem de aspecto aguerrido, com roupas de couro guarnecidas com letras em relevo, um cabelo cortado à pica e uns olhos de esfomeado; a outra, uma mulher de meia-idade com um guarda-chuva na mão.
   «Vocês tiveram azar», — gritou Padrinho. — Pois já fui assaltado ali atrás e fiquei teso como um virote.» —
   «És mais desgraçado do que nós», — disse o Pica lançando uma pedra contra os sapatos dele. — «Ao menos, deixa ficar o tabaco.» —
   Depois dele ter pegado nos cigarros, retomou o seu caminho; enquanto a mulher retorceu uns passos para trás e disse:
   «Tenho a certeza que nos estás a enganar, mas a tua cara ficará guardada no meu espólio, ouviste, ó gamão?» —
   Pelos vistos, aquela era uma noite recheada de atractivos, compreendeu ele com surpresa.
   - «Mas que noite! É caso para eu dizer: o que mais falta para vir?»
   Padrinho ficou persuadido de que sair à noite sozinho era um perigo numa cidade como o Porto. E, tendo em conta aquilo que viu, a esmurrada no nariz, perseguida pelos Picas, a ceguinha a pedir esmola, a amiga das anedotas. Padrinho ficou mais decidido a recuar caminho e mudar de direcção, seguindo até ao Poente; mais propriamente dito, para a sua morada.
   Padrinho tinha a certeza que ali ninguém o incomodava.

Sunday, May 12, 2019




   «HÁ ANOS fiz uma descoberta com uma cabriteira chamada Ondina que não parecia mais do que um simples esqueleto ─ recordou Ratazana.
   E consegui, por muito que estranhasse, fazer coisas extraordinárias como trabalhá-la num só esquema, com algum êxito que não pensava. O esquema teve saída e senti-me lisonjeado ao saber que toda a manobra tinha a ver comigo. Esforçara-me a conduzir aquele ´bife-se-sal`, enquanto fazia o seu trabalho.
   Alguns meses depois da sua ida embora, numa aparição na sala de estar da Residencial X, no Porto, Ondina confessou-me que ficara muito satisfeita com o esquema de Ratazana. Ela vivera intensamente essa ideia; disse-me que esta fora a principal razão por que se deixara prender pelo Bar do Traidor.
   ─ Eu fiquei reconhecida a Ratazana e disse-lhe que estava imensamente grata por todos os momentos que lá passei. Agradava-lhe que os esquemas fossem bem sucedidos e que os clientes daqueles bons momentos pudessem falar disso durante muitos anos. Para mim, aturar qualquer um cliente era uma seca mas Ratazana foi muito perspicaz e até me deu uma dica nova para a entrada de mesa. Foi importante Ratazana ser o tipo de boss que era, porque muitos não teriam ido ter comigo, para me levarem às mesas dos clientes com todas as etiquetas. Francamente, preferia o cardenho (quarto) directo para o servicinho, embora alguns não fossem nessa corrida, apesar de estar ali tão perto, o cardenho...
    O cardenho que Ondina se tinha referido era o quarto da Residencial X, uma vez que era para lá que levava os clientes depois da conquista.
   ─ O meu esquema ficou tão conhecido que cedo demais começou a ser aproveitado por outras colegas de profissão mal me viram pelas costas. Seguiram-me logo as pisadas. Eu sei que Ratazana gostaria de me ter lá por mais tempo mas não podia, uma vez que eu tinha recebido uma proposta bem querida.
   Ondina confessou ainda:
   ─ Para sair da mesa, eu dizia: «Vamos, lá!» E o cliente, respondia:
   «Vamos, lá, onde?»
   Isto era ele a desconversar. Eu punha-me mula. Antes de um piscar de olhos, ele chegava-se para mim e dizia:
   «Pronto! Vamos, lá!»
   E lá íamos nós.
   Eram só dez metros de frente por dez metros de lado.
         ─ Uma certa parte da astúcia baseia-se nas dificuldades que tem uma rapariga de fraca pinta, quando tenta superiorizar-se a uma rapariga de boa pinta ─ disse Ondina, referindo-se aos esquemas. ─ Esse tipo de astúcia não é muito bom para os profissionais mas dá um certo gozo.
   Como me dizia Ratazana: “Pela astúcia chega-me o palmo e meio que tenho”.