Thursday, May 30, 2019






                          Padrinho e o Porto

                              ~~~

   O boletim meteorológico dava sinais de chuva intensa e húmida e o céu apresentava uma lua em quarto minguante em estado de uma obscuridade quase total, e a noite dera lugar a uma tenebrosa trovoada. As árvores abanavam ao sabor do vento que fustigava cada vez mais, ouvindo o ruído de sons agudos que pairavam na rua.
   A passo lento, segue Padrinho, chapéu enterrado na cabeça, bolsa de cabedal dos documentos fortemente atada à mão direita, enquanto a outra mão se enfiava no bolso da gabardina escura.  
   No silêncio da noite, ele baniu do pensamento todo o remorso pelo período em que duvidara de si mesmo, substituindo por uma ideia nova: devolver a si próprio a imagem do passado. Sentiu que a sua fé o abandonava e encolheu os ombros, numa expectativa de aguardar de momento o que o futuro lhe reservava — embora isso também estivesse para breve.
   Envolto pelas ruas da cidade que se enroscavam em seu redor, contorceu-se num esgar de frio e olhou para o horizonte. O Porto mostrava-se uma cidade airosa, revelando a sua verdadeira raça de natureza pura, a sua beleza arquitectónica de cidade que tinha ganho a noção de si própria e, por conseguinte, se rebolava num presente auspicioso, diferente, de borgas e paródias, sem nunca ter rejeitado o passado, olhando a escuridão de um futuro promissor.
   Padrinho vagueou nas ruas nessa noite seguindo a luz e as trevas da madrugada. Lembrava que muito antes da chuva cair, um certo número de casos que o haviam abalado lhe vieram à memória trazendo alguns nomes que haviam sido expulsos do seu espírito por terem falhado na hora do compromisso e, em consequência disso, haviam-se deixado, como no filme O comboio apitou 3 vezes em que o artista, o xerife, fica a falar sozinho à espera dos meliantes que lhe queriam fazer «a folha». Ó falsas criaturas! Que mal eu vos fiz! —
   Quando o Deus para uns é cego, não há força da razão que resista tal encomenda. Padrinho estivera à beira do abismo na derradeira queda. Como a Boa-Estrela havia sido benévola para com ele! — Via que a escolha era simples: o amor ao próximo e fé em Deus. Uma possibilidade que não podia deitar a perder, antes que fosse tarde demais.
   Tirou do bolso da gabardina um pequeno livro de apontamentos que ali se encontrava desde que saíra de sua casa, havia mais de três horas e meia: o livro com os nomes dos meliantes que lhe queriam fazer a tal dita «folha», os dignos companheiros, amigos de longa data, os seus nomes estavam escritos à mão, em tinta preta, e deitou-os a uma valeta…
   Numa esquina, na zona da Rua Chá, outrora conhecida pela sua população de artistas de várias artes, vagabundos e homens à procura de prostitutas, e agora ocupada por profissionais de comércio e pequenos empresários de negócios, Padrinho teve ocasião de encontrar uma alma perdida à procura de alguém.
   Era ainda jovem, de sexo feminino, alta e duma beleza exótica, com um nariz tipo chafariz e cabelo preto e riscas brancas, penteado com azeite e tinha dentes pintados a várias cores. A jovem estava mesmo à beirinha do passeio, encostado a um varão de ferro, de costas voltadas para a estação ferroviária, levemente inclinada para a frente e segurando, na mão esquerda, um objecto rectangular de estimação.
   O seu comportamento chamava a atenção: primeiro fitava com olhar sombrio o objecto que tinha na mão e depois olhava à sua volta e rodava constantemente a cabeça dum lado para o outro, pondo os transeuntes demasiado concentrados.
   Padrinho, numa primeira passagem, olhou para o objecto que a jovem agarrava: era um cartaz escrito a letras miudinhas. À segunda passagem, pôs os óculos e leu com atenção o cartaz: Por favor, dê uma esmolinha à ceguinha. A seguir ofereceu-lhe a sua ajuda. A jovem passou o cartaz para a outra mão e voltou a repetir o mesmo refrão.
   «Este dinheiro — disse ele — é teu e não é muito, mas é de boa vontade.»
   E retomou o caminho, olhando a pequena multidão silenciosa. Ali, na esquina de uma rua movimentada, andavam almas a sondar em busca dum corpo à deriva.
   Mais adiante, quase ao fundo da rua, Padrinho viu claro uma prostituta a ser assediada por um esgazeado que, sem mais nem menos, agarrou o rosto dela com ambas as mãos e deu-lhe um beijo firmemente na boca. No entanto, ela reagiu de maneira surpreendente ao ser assim agarrada bruscamente, exclamando:
   «Vai-te foder», — berrou com toda a força — posso estar desesperada, meu, mas ainda não estou esgazeada a esse ponto.» —
   Ao que o freguês, dando mostras de mau perdedor, deu-lhe um valente soco no nariz que a pôs a sangrar. A seguir, pirou-se pela rua abaixo e perdeu-se na escuridão.
   Quando Padrinho foi atrás dele, o freguês já tinha cavado não se sabe para onde mas, em vez disso, encontrou uma amiga dos tempos da desgraça que veio flutuar para a sua beira, já com uns copitos a mais no estômago.
   «Olá! A uma hora destas por aqui — disse ela — só se for para curtir o fado do Pescador!» —
   Padrinho sorriu.
   «Olha, que é que queres que te faça? — acrescentou. — Não tenho sono, tenho medo da solidão e, como não consigo dormir, prefiro passear pela noite.» —
   As palavras dela continuavam a ser irónicas.
   «Está-me a contar essa fita a mim? — olhou maliciosa. — Esse filme vai no Batalha!.» —
   Ele próprio também foi obrigado a rir. Tal como ela, Padrinho pôs-se na galhofa a lembrar cenas do passado num jogo de perguntas e respostas para fazer passar o tempo.
   «Eram todos filhos de Adão», — contava ela uma cena antiga. — Mas quando se deitaram na cama, os cabrões arrancaram logo as suas roupas para mostrar as suas vergonhas.» —
   Ouviram-se as suas gargalhadas. E Padrinho, logo a seguir, contou a dele:
   «Uma noite, às quatro da manhã, completamente embriagado, já tinha bebido o uísque todo da garrafa, tirara a escova dos dentes e preparava-me para ir à casa de banho, quando se apresentou no meu apartamento, uma jovem sem ser anunciada e não dava mostras de querer sair dali. Eu, educadamente, fui à casa de banho lavar os dentes e, ao voltar, encontrei-a de pé no meio do tapete da sala, completamente nua, exibindo um corpo de tarar. Quando eu vi aquele espectáculo ali diante de mim, gritei:
   -Toma-me! Sou todo teu. Faz o que quiseres!» — Ela pôs-se a mijar em cima do tapete e, a seguir, desapareceu calmamente para fora.» —
   Padrinho contara a ela a história num tom franco e risonho, sugerindo, em princípio, que a tempestade já não se desencadeava. O certo é que ela não parava de contar histórias e ele foi obrigado a gritar-lhe:
   «Agora chega», — disse ele. — Vou-me embora.» —
   Apertando bem o cinto da gabardina ao corpo, seguiu a passo rápido pela rua em frente. O nariz de Padrinho, escorrendo pingos de orvalho, começou a latejar dolorosamente. Nunca fora capaz de suportar o frio. Deu por si a murmurar uns versos que lhe saíam à memória repentinamente,

Morrerá quem suporta o frio?
Quem, não se alheie ao abandono, embora a ele condenado?
Tu também farias isso, e te tornarias um oculto, de qualquer das formas.
Mas longe do frio, onde pudesses trocar,
Um pouco de sossego e paz…

   Ele próprio não saberia dizer melhor.
Qualquer pessoa que desse por si no meio da noite, ao relento, a falar sozinho, diria que ali ia um maluco… pôs-se a limpar o nariz a um lenço de papel e murmurou:
   «Devias era ter ido para poeta», — opinou voltado para o candeeiro da rua. — Podias muito bem ter tido êxito. Eu sei escrever embora só tenha a quarta classe, mas que raio? Uma pessoa não precisa de ter muitos estudos para saber dizer uma dúzia de frases bonitas, não é? É claro que não sou burro de todo: há por aí mais camelos do que eu a pastar que não vão a lado algum mas eu cheguei lá! Mais longe do que eles pensavam, disso tenho a plena certeza e mais digo: esses nem daqui a cem anos chegam onde eu cheguei, disso garanto-te, palavra de Padrinho.» —
   Ele desvaneceu-se da fúria e até lhe deu para fumar um cigarro, puxando primeiro pela aba do chapéu para a frente da cabeça, enquanto tirava umas fumaças de fumo para o ar. Nesse instante, reparou que duas pessoas o olhavam com curiosidade, a primeira um jovem de aspecto aguerrido, com roupas de couro guarnecidas com letras em relevo, um cabelo cortado à pica e uns olhos de esfomeado; a outra, uma mulher de meia-idade com um guarda-chuva na mão.
   «Vocês tiveram azar», — gritou Padrinho. — Pois já fui assaltado ali atrás e fiquei teso como um virote.» —
   «És mais desgraçado do que nós», — disse o Pica lançando uma pedra contra os sapatos dele. — «Ao menos, deixa ficar o tabaco.» —
   Depois dele ter pegado nos cigarros, retomou o seu caminho; enquanto a mulher retorceu uns passos para trás e disse:
   «Tenho a certeza que nos estás a enganar, mas a tua cara ficará guardada no meu espólio, ouviste, ó gamão?» —
   Pelos vistos, aquela era uma noite recheada de atractivos, compreendeu ele com surpresa.
   - «Mas que noite! É caso para eu dizer: o que mais falta para vir?»
   Padrinho ficou persuadido de que sair à noite sozinho era um perigo numa cidade como o Porto. E, tendo em conta aquilo que viu, a esmurrada no nariz, perseguida pelos Picas, a ceguinha a pedir esmola, a amiga das anedotas. Padrinho ficou mais decidido a recuar caminho e mudar de direcção, seguindo até ao Poente; mais propriamente dito, para a sua morada.
   Padrinho tinha a certeza que ali ninguém o incomodava.

Sunday, May 12, 2019




   «HÁ ANOS fiz uma descoberta com uma cabriteira chamada Ondina que não parecia mais do que um simples esqueleto ─ recordou Ratazana.
   E consegui, por muito que estranhasse, fazer coisas extraordinárias como trabalhá-la num só esquema, com algum êxito que não pensava. O esquema teve saída e senti-me lisonjeado ao saber que toda a manobra tinha a ver comigo. Esforçara-me a conduzir aquele ´bife-se-sal`, enquanto fazia o seu trabalho.
   Alguns meses depois da sua ida embora, numa aparição na sala de estar da Residencial X, no Porto, Ondina confessou-me que ficara muito satisfeita com o esquema de Ratazana. Ela vivera intensamente essa ideia; disse-me que esta fora a principal razão por que se deixara prender pelo Bar do Traidor.
   ─ Eu fiquei reconhecida a Ratazana e disse-lhe que estava imensamente grata por todos os momentos que lá passei. Agradava-lhe que os esquemas fossem bem sucedidos e que os clientes daqueles bons momentos pudessem falar disso durante muitos anos. Para mim, aturar qualquer um cliente era uma seca mas Ratazana foi muito perspicaz e até me deu uma dica nova para a entrada de mesa. Foi importante Ratazana ser o tipo de boss que era, porque muitos não teriam ido ter comigo, para me levarem às mesas dos clientes com todas as etiquetas. Francamente, preferia o cardenho (quarto) directo para o servicinho, embora alguns não fossem nessa corrida, apesar de estar ali tão perto, o cardenho...
    O cardenho que Ondina se tinha referido era o quarto da Residencial X, uma vez que era para lá que levava os clientes depois da conquista.
   ─ O meu esquema ficou tão conhecido que cedo demais começou a ser aproveitado por outras colegas de profissão mal me viram pelas costas. Seguiram-me logo as pisadas. Eu sei que Ratazana gostaria de me ter lá por mais tempo mas não podia, uma vez que eu tinha recebido uma proposta bem querida.
   Ondina confessou ainda:
   ─ Para sair da mesa, eu dizia: «Vamos, lá!» E o cliente, respondia:
   «Vamos, lá, onde?»
   Isto era ele a desconversar. Eu punha-me mula. Antes de um piscar de olhos, ele chegava-se para mim e dizia:
   «Pronto! Vamos, lá!»
   E lá íamos nós.
   Eram só dez metros de frente por dez metros de lado.
         ─ Uma certa parte da astúcia baseia-se nas dificuldades que tem uma rapariga de fraca pinta, quando tenta superiorizar-se a uma rapariga de boa pinta ─ disse Ondina, referindo-se aos esquemas. ─ Esse tipo de astúcia não é muito bom para os profissionais mas dá um certo gozo.
   Como me dizia Ratazana: “Pela astúcia chega-me o palmo e meio que tenho”.


Saturday, March 30, 2019




    
                                        

                                 UMA NOITE DE COPOS
                                                ______

   E numa noite fria de Fevereiro, Nicha disse:
   «Vou ter de voltar a trabalhar.» -
   Foi uma surpresa para mim. Num dos períodos controversos da sua vida, sentiu-se um pouco só e voltou aos palcos que tão bem conhecia noutros tempos. Neste caso, Nicha com a sua idade e o seu servilismo, era apenas uma mais valia à espera da hora, em lento tiquetaque.
   Nicha esperara pelo momento para contar a sua narrativa de entretenimento. Algo nervosa, levantou-se da cadeira, começando a contar a sua desgraça num desespero total. Aquela desventura com o colega de trabalho que conhecera no bar, apareceu a nu e deixou-a de rastos, conforme salientou através das suas palavras:
   ─ Acabei a minha ligação com esse homem. ─
   A cozinheira tentou confortá-la.
   ─ Ó mulher, ainda há dias estavas tão feliz com ele? ─
   Ela não esteve pelos ajustes. Cheia de fúria, atirou com a tigela da sopa para o chão.
   ─ Se sois minhas amigas, não me faleis mais desse cavalo. ─
   O silêncio tornou-se irrespirável. Menino Quim, o porteiro, tirou os óculos da cara, pondo-se a limpar calmamente as lentes, com o guardanapo de papel. Bilontra, a colega, tentou pôr água na fervura.
   ─ Tem paciência, sei muito bem o que é gostar desses bardamerdas que não nos merecem sequer uma unha do nosso pé. ─
   A cozinheira voltou a interferir.
   ─ Ontem, ri-me tanto, quando contaste que foste com ele beber um copo à discoteca, depois levou-te a casa, querias que ele subisse ao quarto mas ele não quis; às tantas, tiraste-lhe os sapatos e obrigaste-o a ir descalço para casa. ─
   Ouviram-se risadas.
   Repentinamente, Nicha bateu fortemente com a colher na mesa. Voltaram-se todos.
   ─ O cavalo não quis subir mas fiz com que fosse para casa sem sapatos, só para a mulher o ver descalço. ─
   Soltou uma valente gargalhada. O jantar havia terminado, olhei de esguelha para as garrafas de vinho sobre a mesa, estavam completamente vazias. Fez-me lembrar certo provérbio:
   «O homem bebe para embebedar-se ─ mas a mulher bebe para alegrar-se.» Cada um de nós voltou para a sala.
   Lá dentro, outra festa ia começar.

Saturday, February 23, 2019





Seus inesquecíveis bares de Club Stop a Club Lord, valeram-lhe rasgados elogios e simpatizantes.

FERNANDO
ABRAÃO
"RATAZANA"                                O "MESTRE" DA RATICE
                                                               O JORNAL DOS TRAIDORES

   No ultimo ano da sua atividade, Fernando Abraão estava se parecendo mais com a personagem de Rambo, quando imitou o seu isolamento, do que com ele próprio. Tinha o cabelo esbranquiçado. Umas rugas pouco salientes, faziam realçar seus olhos marotos mas vivos, que pareciam observar tudo aquilo que o rodeava.
Esses olhos seguiram atentamente dezenas dos melhores empregados hoteleiros, enquanto Abraão os teve como dirigentes em muitos dos seus melhores anos. Em 1970, ele foi dirigido pelo boss J. Loureiro: ambos protagonizaram momentos fantásticos na Boite Marta. Em 1972 chefiou a Boite Electra Club - 4 anos depois - chefiou a Boite O Inferninho; essa passagem valeu-lhe a experiência de tomar conta em horário diurno do café Cubango em sociedade com um colega de trabalho.
Em Julho passado, aos 62 anos, Abraão aposentou-se, esgotado de uma azáfama total, onze mese antes de ter estreado no ecrã do bar 28 Anos  a sua 4ª curta-metragem. Baseado  num guião seu, e sob a realizaão do filho Daniel Abraão. Era mais um hobbie dos muitos que foi acumulando à sua função de barman, que o tornavam um homem de sete instrumentos. 
Qual era a virtude de Abraão? «Persistência», diz o empregado de mesa Belinha. «Nada o fazia retorcer uma ideia bem planeada. Ele simplesmente não permitia que nós fôssemos maus profissionais.»    
 José Fernando de Almeida Abraão ou Ratazana para outros, nasceu a 6 de Abril de 1948, num lugar chamado Devesas, Vila Nova de Gaia, em Portugal. Filho de um salsicheiro e de uma cozinheira de Miragaia, que exploravam uma casa de pasto perto da estação ferroviária. Abraão era o quarto membro da família. e quando saíu da escola aos 11 anos, passou a trabalhar num escritório de um despachante alfandegário como paquete, era muitas vezes imcumbido de levar encomendas e amostras aos armazéns de Vinho do Porto, pela Calçada das Freiras. Durante esse período de vida, tornou-se um rebelde sonhador.
Em jovem praticou viola e canto na casa de pasto, e agrupou vários conjuntos musicais e teve mais de sete ofícios variados. Durante a guerra colonial, Abraão ofereceu-se como voluntário para prestar serviço militar no Centro de Comandos e Serviços, no Cazenga, Angola. Foi artista de cabarés na cidade Invicta, diretor do semanário O Jornal Dos Traidores, um popular pasquim do Club Lord, autor e contista. Em 1987, casou-se com Maria Manuela.
Nessa época dedicou-se a escrever às escondidas as confidências que os clientes lhe contavam ao balcão nas suas aventuras amorosas com as garotas, confidências essas, que mais viriam a chamar-se Contos Traidores, cuja apresentação foi bastante discutida por ser uma obra´fofoqueira´. «Foi aí talvez a mais importante experiência que um livro me deu. Abriram-se os horizontes», recorda. 
Desde criança, Abraão foi sempre um apaixonado pelas lvros, cinema e música. Então acrescentou à sua carreira: a de guionista. Foi guionista das suas curtas-metragens Isto Vai de Mal a Pior e Os 4 Quatro Vícios da Noite. Baseado nos seus contos, essas curtas é outro empreendimento caseiro: Martinik, de 72 anos, é o cliente-realizador.  O guião de Um Gosto a Cheirar a Torrado (O Ébrio), valeu-lhe mais de um milhar de visiulizações nas redes sociais. O prazer de Abraão pelo cinema levou-o a fazer mais guiões. Selecionou A Nota de 10 Euros, baseado num conto seu e dirigido pelo seu filho Daniel Abraão.
O Lançamento do Club Lord foi o coroar de uma carreira ímpar e trabalhosa que Abraão teve de percorrer para chegar ao cume do estrelato. Satisfeito com o seu trabalho, Abraão agradeceu a ajuda monetária a José Oliveira , o empresário que ele sempre considerava como um verdadeiro amigo acima de tudo. Com o Lord nasceu uma grande amizade entre Abraão e José Oliveira, que iria durar toda a vida.
Abraão foi o primeiro dono da noite portuense a criar o sistema do amor-instantâneo fora do local do trabalho. A sua técnica adiquirida ao longo de mais de 30 anos, levou-o ao contato com filiais da rapidinha do Norte a Sul.
Quando em 1983, fundou o semanário O Jornal Dos Traidores com mais de 1000 membros com apelidos para não passar para o exterior, foi o elo de ligação entre uma comunidade a favor do sexo-livre.
Quando em 2007, adoeceu que o levou para a  cama do hospital, teve de fechar o bar durante uma semana. Abraão, que acabou por recuperar bem, chegou a dizer, que teve até medo de não sair vivo de lá. No fim desse pesadelo, chegou uma proposta ao local do bar, para o trespasse, e Abraão, achou que era a hora certa de findar um ciclo.
No Verão de 2011, quando Abraão estava compondo umas músicas para editar um cd, num estúdio no Alto da Maia, soube que José Oliveira adoecera. Passou a visitar o amigo todos as semanas, e divertia-o contando-lhe as ratices com os seus clientes-traidores. Quando José Oliveira morreu, a ___ de _____ de ___20?? foi à supultura e pronunciou em voz baixa: «Adeus amigo. A sua vida foi longa, foi rica e plena. Descance em paz.»
Entre o fim do ano 2009 e o princípio do ano 2010, Abraão aceitou um partime para cobrador de uma agência morturária. Quando o contrato acabou, Abraão a pedido dum empresário de carros de aluguer habilitou-se a tirar um cap e foi para motorista de táxi. Pegou num Mercedes e fixou-se na praça de táxis em Cete, junto à estação ferroviária. Ali criou amizades e fez amigos. Saia de casa às 06 da manhã e regressava às 08 da noite. «Esse meu novo ofício é óptimo», confessou-me Abraão. «Mas não me parece que fique por aqui muito tempo.» E assim foi.
Abraão, passou a administrador de condomínios onde reside, voltou aos fados pelas adegas e restaurantes, e reentregou o duo Os 2 do Norte, e ainda, passou a ser motorista-mordono do avô do seu filho Diogo.
Durante muitos anos, Abraão faz vários ganchos para levar uma vida confortável, porque estar parado, não é com ele. «Estes trabalhos fazem-me recordar quando era jovem: estava sempre em movimento e esse movimento é que me faz sentir bem comigo próprio», recordou Abraão um dia destes. E sorri feliz.
Abraão, continua a vida em pessoa. Lembra uma certa frase que o seu amigo José Oliveira dissera 15 anos antes: «Fernando é uma das boas almas que existem neste bar.»

Monday, November 12, 2018

 
                                                         O CONVITE
                                                               ~~~~


   O convite tocou-me numa calma manhã de domingo. Era um amigo a convidar-me para uma festa na aldeia, e recusei a princípio, mas depois ele recorreu a uma dica: «Há matança de porco.» Dei-lhe vinte minutos para me aprontar.
   Estava uma brisa suave na quinta, desses que levantam os cabelos e atraem as formigas, e eu ia vestido com traje sport. Levantei a capota do meu carro desportivo preto, e disse ao meu amigo: «Ficas a dever-me uma.» Ele sorriu.
   Chegámos a uma quinta aglomerada de gente ao mesmo tempo que uma desconhecida que tirava os óculos de sol e os metia na sua maleta ao ombro. Lá dentro, enquanto o meu amigo foi captado por amigalhaços seus da aldeia, eu vagueei pelas mesas dos petiscos, sentindo-me comilão. Talvez reparando nisso, a desconhecida aproximou-se a mim, de sumo na mão, e metemos conversa. Falámos de passeios e festas; depois aventuramo-nos nas carreiras. Ela disse-me que desde pequena trabalhava na vida doméstica. As palavras me deixaram pensativo: «Quem estaria disposta a trabalhar nisso durante tantos anos? Passámos aos filhos. Ela tinha um. Quando eu disse dois, de duas mulheres, ela não tremeu.
   Por altura dos rojões à moda da cozinheira, a desconhecida já tinha nome, era Maria. Depois do café, sentámo-nos sozinhos, a um canto. Pedi-lhe o contato telefónico. Ela deu-mo com algumas restrições: não telefonar antes das 8 horas da tarde, quando chegava a casa do trabalho. Não podia demorar mais de 1 hora, porque se tinha que se deitar. E[F1]  não saía aos dias de semana. Eu convidei-a para sair na próxima sexta-feira. Deu-me tampa. Perguntei se podia telefonar no sábado. Ela não disse sim nem não, mas deixou um promissor, talvez.
   Telefonei-lhe mesmo no sábado. Durante quase um mês, encontramo-nos diversas vezes por semana para jantar e ir ao cinema. No domingo, ela ia com o filho até à aldeia. Eu fui dar um passeio de carro pela praia-mar do Porto a Aveiro. Separados por umas centenas de quilómetros, não deixamos de pensar um no outro.
   Os familiares e amigos estavam pasmados com o nosso idílio. Determinado eu, cautelosa ela, tínhamos sido considerados o par com menos chances de curtir uma história apaixonada, mas os preconceitos não valem de grande coisa contra o amor. Ela e eu conhecemo-nos há dois meses. O amor foi repentino, pois ambos necessitávamos amar e sermos amados. E assim quando a amor chega não há barreiras. Tem uma forma enternecedora de nos tocar nos ombros, erguer o queixo, e beijar-nos em cheio na boca. Quando isso acontece, solta-se um Uau. Aos 23, atirei-me de olhos fechados e coração aberto. Aos 41, cavei com olhos abertos e coração marcado.
   Eu jurara a mim mesmo que um terceiro relacionamento estava a lestes do meu planeamento. Ainda dorido pelos meus desaires sofridos, queria dedicar-me à missão que me tinha proposto: cuidar dos filhos sozinho. Sempre que havia uma relação à vista, sabotava-a. Usava os filhos ou as responsabilidades do trabalho como pretexto. Recusava-me a arriscar. Mas a sorte tem vida cómica. Deixou-me estabelecer regras de todo o estilo para defender o meu papel de pai só e depois enviou-me a Maria para mudar o embaraço.
   A primeira vez que pedi a Maria para iniciarmos uma relação, quase três meses depois de nos termos conhecido, ficou indecisa. Fiz a pergunta de uma forma fortuita, mais como constatação que como pergunta. Ela respondeu-me com o que penso ser uma franqueza caraterística: «Tira daí a ideia!», ou outra coisa parecida.
   Quando lhe pedi a segunda vez, ela estava preparada. Estávamos na sala do meu apartamento, quando lhe coloquei um anel de compromisso no dedo e ela soltou uma pequena exclamação de alegria que me fez sentir mais alegre. «Aceito! Aceito!». Agora, não há uma noite em que não agradeça à sorte a boa hora do nosso encontro.

   Os amigos nem queriam acreditar. Uma terceira relação, informaram eles, não traz nenhuma da novidade da primeira e tem obstáculos a menos. Não há penhoras, filhos crescidos, os ex-parceiros – esquecidos ou desaparecidos – e as cicatrizes são somenos. As nossas histórias são similares. Mudamos do subúrbio de Leça para um andar de 150 metros quadrados, no Porto. Não precisamos de vender nada e passamos a viver a meio-tempo nas nossas próprias casas, e a pagarmos as despesas a meias. A família ficou unida.   
   No fim de tudo, pesado na balança, não conseguimos imaginar-nos viver um sem o outro. O que não quer dizer que tenha sido fácil. Demos por esquinas e travessas, por mais curvas e lombas que retas.
   Às vezes eu acordo de matina e fico a olhar para aquela mulher, este milagre aqui ao meu lado, dormindo serenamente, e deixa-me atraído como nunca. É como se ela e eu fôssemos um só. Ambos queremos ser amados, e guardamos uma certa reserva da mente e do coração.   
   Às vezes via-a sentada numa cadeira ao telefone ou a passar a ferro. «Preciso de um lugarzinho», argumentava ela, pela primeira vez. Quanto mais o fazia, mais eu reparava no aumento do serviço que ia pela casa. Que contraste com aquilo a que ela estava habituada. Essa constatação fez-me gostar mais dela.
   Acerca da terceira vez: a Maria e eu esperamos do relacionamento, que seja mais sortalhão e menos azarento. Escolhemos de livre vontade, o que achamos de bom para os dois e o que preferimos fazer a sós, sem sentimentos de culpa. 
   A questão, meus amigos, é fundamentalmente a esperança. Agarrar-se ao amor já com três «falhanços», e um castigo de um rompimento anterior; e acreditar, contra tudo e contra todos, que se vai ter êxito para a vida toda.

 [F1]

Thursday, November 8, 2018


                       
                                                          O meu “Bolinhas”
                                                                   ~~~

Já lá vai um bom par de anos, numa segunda-feira, quando comprei o meu primeiro carro. Ainda recordo da sua matrícula; BF-19-03 – Morris Minor de 1953, cor vermelha e riscas lilás. Era propriedade de um colega meu do conjunto onde eu tocava viola que, o tinha lá encostado na sua velha garagem. E eu gostei daquele automóvel. Comprei-o a prestações e custou-me quatro contos e quinhentos escudos. Era um carro à inglesa; tinha o banco de trás comprido e forrado a pele e dava a impressão de uma sala de visitas. Tinha um espaço quanto baste para duas pessoas pôr as pernas à vontade. E às vezes servia como beliche; tinha as cadeiras da frente que, quando rebaixavam, o tornavam íntimo e prestável. Conduzi por um cemitério local a cem metros de distância. Não havia lá nada que me estorvasse, mas ao curvar o muro, calculei mal a curva, e lá deixei a minha marca. Levei algum tempo a limpá-lo e a pô-lo bonito, puxando o lustro aos cromos com graxa dos sapatos, e pintando os pneus a branco estilo barão. Não me lembro de me haver sentido mais entusiasmado e com enorme alegria. Demorou poucas horas para que o meu “Bolinhas”, como o batizara, se transformasse no meu objeto de eleição. Andava comigo para todo o lado. 
Naquela época eu trabalhava em night-clubs, como violista de um duo. Lembro-me do frio que ele fazia no Inverno quando eu levava as catraias a casa pela madrugada e como estas desatinavam aos gemidos. Era um carro de muitos buracos. Não aquecia ninguém. E às vezes eu abria os vidros para elas respirarem para dentro, e só depois os fechava, para sentir mais calor. Quando a noite estava mais fria, o remédio era uns bocados de cartão e pano grosso que, assim, tapavam os furos. Por essa altura mantive namoro com uma camareira, que me pediu para levá-la à sua terra, perto de Chaves. Antes de ir levá-la, fui lavar o carro e perfumei-o todo por dentro. A viagem até à sua terra correu de feição, o pior foi o regresso. Atravessámos as terras de Chaves no meio de uma tempestade de neve a cerca de 50 metros da estação ferroviária. A minha companheira deitou-se ao comprido no banco traseiro, e cobriu-se com uma manta. De repente, um camião em sentido contrário, saiu fora de mão e barrou-nos a passagem. Saí do carro e fiz então parte da equipa de automobilistas que tentaram retirar a neve dos trilhos. Passado algum tempo, o limpa vidros bloqueou e tive que o substituir; pondo a mão de fora para tirar a neve e desembaciar o vidro. Chegamos ao Porto praticamente gelados, porque o sistema de aquecimento deixou de funcionar e o carro converteu-se num frigorífico… e era isso mesmo. Levei cinco a horas a chegar ao destino. A catraia parecia ter saído de um caixão. Ela nunca havia confiado muito no Bolinhas; aquela viagem não concorreu para melhorar a sua opinião.   
Com a falta de trabalho que se gerava, não sobrava muito dinheiro para a gasolina e um fadista meu amigo, quando precisava que o levasse para um espetáculo, chegava-se a mim e dizia: “Mete dois litros…” e, lá íamos numa calma. E depois de alguns minutos, propagou-se no interior um cheiro a borracha queimada. O meu amigo fadista e os seus acompanhantes, saltaram do Bolinhas, gritando: “Pára! O carro vai incendiar-se!” Parei o carro e eles saíram para fora. A princípio, não sabia donde vinha aquele cheiro. Talvez um curto-circuito; talvez um fio a bater na chapa. Mas aos poucos fui desvendando o mistério. Eu já tinha adquirido um certo instinto para estes serviços. O problema era passar a luz de mínimos para médios; a fase entrava em choque. Assim, a viagem foi feita em mínimos.    
Lembro-me da crise económica dos 70 e as complicações que eram na bicha nos postos de gasolina. Não havia muita paciência para muito e num domingo à tarde, fiz uma viagem com o Bolinhas pela terra de meu pai, com uns amigos. De vez em quando alguns carros passavam por nós, apitando; seus motoristas e seus passageiros gostavam de pegar com quem conduzia antigos carros. Mas naquele tempo, ou a gente era descontraído com o próprio carro, ou não ia a lado algum. Após dois quilómetros de viagem, consegui ultrapassar o carro que me tinha ultrapassado antes, creio que era um Peugeot cabriolet, de matrícula francesa. Ele deixou-se enganar na estrada pela bicha à gasolina, e eu passei por ele com uma vaia em voz alta e áspera: “Comi-te, franciú!” Depois, escondi o Bolinhas no primeiro cruzamento, e uns minutos depois, lá apareceu o Peugeot a todo o gás. E nós adorámos aquele momento.       
Durante a minha louca juventude fazia um rode de coisas que naquele tempo pareciam banais, mas que hoje seriam consideradas completamente loucas. Um amigo meu, por sinal, era meu companheiro do duo, convenceu-se que um dia havia de me comprar o Bolinhas. O carro, porém, não estava mecanicamente em condições. Disse-lhe que não se aventurasse a isso; não queria vê-lo no hospital. Andei meio quarteirão antes que um ruído suspeito aumentasse na parte de frente do carro e a mangadeixa se desintegrasse com um estrondo semelhante à pancada duma marreta. Logo a parte da frente afunilou. Não sei qual foi a minha ideia, mas o que fiz foi concreto: vendi o Bolinhas conforme estava ao sucateiro por 5oo paus.

                                                                                                                                                                       Abraão, Porto.