Saturday, July 28, 2018



O Bar do Traidor tem a honra de apresentar do Mestre da Ratice, Abraão, a sua obra imortal: Gente de Vícios.
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              O SONHO DE PADRINHO



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«Serve-me o último copo para a estrada.» - Exclamou Padrinho, bebendo um trago dum gole e ficou a molhar os lábios junto à porta da taberna, a meio da noite. Limpou os óculos de lentes de visão distante, franziu as pálpebras fechadas sobre os olhos e tornou a pôr os óculos.
«Para se criar um vicio, tem que se aprender a viciar primeiro, -prosseguiu Padrinho, saindo para a rua e respirando uma lufada de ar fresco. «Para ser viciado, é preciso ser praticante e viciar-se ....» -
Numa madrugada de inverno, mal começou o coro da alvorada, um homem alto e corpulento descera a pé pela rua em direcção a casa, a cambalear mas seguro do seu caminho, atravessando a faixa dum lado para o outro sem olhar para qualquer dos lados.
«Eu vi a vida por em tanta dimensão, ai vi, ai vi !»1, e mais não disse, porque a seguir soltou uma sonora gargalhada que rasgou silêncio.
«Vai cantar pró diabo mais as tuas canções» - E na noite branca e fria, voltou a murmurar no interior das suas entranhas, «Poupa-me essa voz de ganso e não acordes os vizinhos.» -
Padrinho, o cartola inspirado na noite cristalina, tinha-sregulado pelo luar enquanto descia o ultimo troço da rua, improvisando mais uma quadra da canção, abrindo os braços para o ar. «E também aprendi a viver na sua ilusão, ai vi, ai vi!» 1

- Agora, alargou o passo e falou para a sua voz
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1Extracto da letra da canção «Por terras de Abraão» de F.A.

de ganso. «Estás melhor assim, excelente, pá!» - Na sombra do prédio, olhou para cima da varanda em direcção à janela parecendo dar-se conta de que alguém o estava a espiar, mas não! Uma careta de sono e piscou os olhos com alguma sonolência estampada no rosto. «Aí vou eu, a caminho de casa.» - Sem uma ponta de barulho sequer, entrou em casa, segurando os sapatos na mão pelo corredor em bicos de s... um prato em cima da cómoda estoirou ao cair no chão sem pedir licença, ao fundo do corredor, na cama, a sua santa mulher, vestida de branca de neve, dormisilenciosa, enquanto Padrinho piscava os olhos e prosseguia a caminhada lenta sem interferir no sono profundo dela.
Caiu em cima do sofá! Agora sim, vou sonhar!...
O combóio desligou-se do seu todo, seguindo as carruagens para cada lado, levando cada uma o seu mistério. Dois homens, o saloio Padrinho e o pêras São Nicolau, caíram como formigas à procura dumas migalhas que os fizessem crescer. Vai acima, vai abaixo, atrás deles no vácuo, pairavam secretárias reguláveis, telefones portáteis, stripes de salão, cartões de relevo, bilhetes de embarque, jogos, bebidas internacionais, televisores via satélite isentos de impostos, tanta coisa meu Deus! Que era impossível numerá-las! E também -pois não, uma quantidade de mulheres que haviam sido escolhidas a dedo por altos funcionários competentes do Ministério dos Fundos pró Bolso para as mais variadas funções. À medida que o sonho voava levava-o para os confins do pesadelo, igualmente absurdo, onde flutuavam os detritos da alma, recordações destroçadas, privacidades violadas, falsos amigos e amores perdidos, o sentido olvidado de palavras ocas e um caminho sem rota. Embalados pelo sonho, Padrinho e São Nicolau mergulharam como trouxas recém-chegados à capital e largados pela cegonha de bico doirado que os deixou à porta dos fundos perdidos na posição de recomendados para entrarem numa vaga que os preenchia nos novos quadros da tramóia ... Padrinho voava sobre o espaço  como  um passarinho enquanto São Nicolau se enlaçava no ar cingindo-o com os braços e as pernas abertas, esforçado e sem técnica de saltador. em baixo, coberta de nuvens, aguardando a chegada em cena dos dois homens, as correntes ventosas e geladas empurraram-nos para a zona designada centro litoral do Norte.
«Já me doíam os meus calos nas solas dos pés», cantou Padrinho com a sua voz desafinada, traduzindo uma quadra de um fado antigo.

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Na cabeça de São Nicolau um vermelho chapéu russo agasalhado por um coração português. As nuvens espumosas vinham ao encontro deles dando-lhes as boas vindas e o facto de terem sido poupados a altos conhecimentos prévios conferia-lhes um estatuto de intermediários... mas fosse qual fosse o motivo, os dois homens condenados àquela separação das carruagens, infinita mas não acabada, não tomaram a consciência do facto em que teve o inicio do processo da tramóia.
Tramóia?
É verdade, sim senhor, sujeito ás consequências. em baixo no ar que respiramos, nesse domínio brando, em que tudo se torna possível, convertendo-se numa localização que arrasta o movimento de encher o poder, a mais insegura ilusória tramóia -que tudo que se atira ao ar tudo cai - em baixo, como disse, operaram-se neles grandes mudanças que alegraram os seus corações; sob uma pressão extrema do sistema cujos programadores foram adquiridos.
Que programadores para cada um deles? Calma! Mais devagar; julgam que um projecto desta natureza cai do céu aos trambolhões? Claro que não. O que é que notam de especial? Nada. Apenas dois homens altos e espadaúdos, tipo fura-vidas, que se precipitaram no vácuo, com inexperiência na política mas experiência no expediente, poderão vocês imaginar; subiram alto de mais na escada do sucesso, elevaram-se acima de si próprios, voaram até demasiado perto do vale do tombo caído, será isso?
Talvez não seja bem isso. Escutem:
O pêras São Nicolau, ante o horror dos ruídos saídos da boca de Padrinho, ripostou com versos mais a seu gosto. «Te dou o céu...», trauteou São Nicolau com os lábios molhados do bagaço. Padrinho, enervado, pôs-se a cantar cada vez mais alto a cantiga dos seus calos nas solas dos pés, mas não conseguiu interromper o louco recital de São Nicolau: «E vou transformar os anjos em amantes!» - Era impossível que eles se ouvissem um ao outro, mais impossível ainda que conversassem e cantassem ao desafio. Na sua queda acelerada, cercados pelos ruídos da atmosfera, foi o que aconteceu.
Ia caindo a noite e o frio do inverno que lhes encerrava as pestanas ameaçava gelar-lhes o coração, estava prestes a despertá-los do seu sonho delirante. Estavam ambos quase a dar-se conta do milagre de tais canções, do espaço e do bagaço de que faziam parte, e do horror do destino que se precipitava ao seu encontro quando os acolheu.
Encontravam-se naquilo que parecia ser um longo túnel em forma de labirinto. São Nicolau, empertigado, de pêra enrugada e ainda de cabeça em baixo, viu Padrinho, com o sua camisa de flanela de cor azul, vir na sua direcção e teria gritado: «Foge, afasta-te de mim.» - O começo de um alvoroço que o levou, em vez de proferir palavras de rejeição, a abrir os braços até ficarem enlaçados, cabeça e pés, e a força da colisão fê-­los deslizar até ao mundo de Alice no País das Maravilhas. Enquanto eles abriam caminho através duma ranhura, surgiu uma sucessão de formas semi-escuras, anjos convertidos em galinhas, deuses com porcos, mulheres com araras, homens com chimpanzés. Flores com peitos abonados de silicone, gatos de lábios carnudos e cães suspensos de antenas nos cornos, e São Nicolau, na sua semi-inconsciência, foi invadido pela sensação de que também ele fazia parte daquele lote de preciosidades raras e únicas no planeta.
«O que é que te aconteceu? - saudou-o Padrinho. - Perdeste-te no caminho do céu?» - São Nicolau, apertando as pernas, falou sem compreender o que se passava à volta: «0 que está a acontecer?»-
«Não vês? -berrou Padrinho. -Não vês o tapete da sorte?» - Teve que segredar-lhe ao ouvido; não esperes que ele venha parar à tua mão. Ele não está aqui apenas pelos teus lindos olhos, talvez seja a nossa única oportunidade e não podemos deixá-la fugir em vão. Com a sorte vem o dinheiro, meu caro, e com dinheiro vem poder, por isso, abre-me os olhos.
São Nicolau acabou por ver o tapete da sorte mas não disse nada. Foi a vez de Padrinho ter que enfrentar a situação sozinho. «Não devias ter feito o que fizestes. - disse, em tom de censura. -Não, senhor.» -
«Não deixa de ter a sua graça, ouvir-te falar em moral. Foste tu que o quiseste - lembrou o voz dele ao seu ouvido. - Foste tu, meu querido amigo.» -
Agarraram-se um ao outro e ambos irromperam pelo túnel abaixo, à velocidade dum raio. «Voa, - gritou São Nicolau para Padrinho -Agora, voas tu.» -
E quando a luz do sol incidiu em Padrinho, deu-lhe a novidade para trazer ao mundo. E como é que ela nasce?
De fusões, de várias conjunções em que entram os compromissos, os acordos, as traições da sua natureza comercial e, depois, como é obrigada a fazer parar essa conjectura?
Será no fim da queda? Ou será preciso voar no espaço?

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Foram eles os únicos sobreviventes do desastre, os únicos que caíram do comb6ío e escaparam. Encontraram-nos à porta dum boteco onde deram à costa e foram bebeu um caneco. O mais falador dos dois, o de camisa de flanela em tom de azul, jurou nas suas divagações que já tinha comido o pão que o diabo amassou; mas o outro não lhe ficou atrás e disse: «Tiveste sorte, ou melhor, nunca julguei que se pudesse ter tanta sorte.» -
Eu sei a verdade, obviamente. Ouvi tudo. Não quero por agora, afirmar quaisquer pretensões, mas São Nicolau ordenou e Padrinho fez o que foi ordenado.
Foram estas as primeiras palavras que Padrinho disse ao balcão do bar: «Vamos viver a vida, tu e eu, e o resto são cantigas da gente.» -
Ao que São Nicolau tossiu, resmungou e, como lhe competia, pôs-se a beber para aquecer.
A noite foi sempre uma paixão muito especial de Padrinho, vinte anos a esta parte, ainda antes dele derrotar os medíocres. Por isso talvez alguém devesse ter previsto, que ninguém o fez, por assim dizer. E onde os medíocres tinham falhado, ele foi bem sucedido e saiu para sempre da sua velha vida, um mês antes do seu quadragésimo quinto aniversário, desaparecendo da sua terra sem mais nem menos, como um passe de magia, fazendo puf!.
As primeiras pessoas que deram pela sua ausência foram os dois elementos da sua equipa. Padrinho recordava o seu passado entre os refilões distribuidores de confusões e palavras anárquicas da fábrica de molas (aos quais tornarei a referir-me). E, no fim desse tempo, Padrinho instalava-se na cadeira do poder e tornava-se no maior, onde o cortejavam, aplaudiam e lhe entregavam os documentos para preencher do FPB (Fundos pró Bolso), com todas as benesses. «Uma cadeira do poder -dizia ele à sua fiel equipa - é tal e qual como eu correr o País de lés a lés e está!» -
E onde foi parar Padrinho:
Os glutões, deixados em péssimos lençóis, entraram em pânico acelerado. E diziam entre eles: «Vejam, ali, no campo de golf do Club Elite - Acolá, nas salas de jogo dos bingos, ou mais acima nas casas de passe que flutuam a rodos por e nos folhetins das donas-marias baralhadas no meio das mulheres por à toa, lhes restavam um único nome - a taberna do Rato - mas isso os glutões não sabiam, excepção àparte de meia dúzia de amigos, somente.
Pela cidade inteira, depois do esforçado mas inútil labor de telefonemas e contactos para aqui e para acolá, num dos sete palcos nocturnos que rodeavam o jardim do Marquês do Pombal, a menina Fífia, a mais recente aquisição apimentada - é uma verdadeira pólvora pura, capaz de pôr a cabeça dum homem feita num morteiro - vestindo um vestido curtíssimo e justo de bailarina do tempo da pedra, rebolava-se pela sala toda, proporcionando um espectáculo delirante aos clientes entretidos a beber e  a  fumar os seus cigarros. Ladeada por umas colegas do ofício, exclamou num tom irónico. «Hoje era capaz de fazer uma cena de amor com chichi com o batateiro das batatas podres e pô-lo a beber do meu chichi» - Ouviu-se a zombaria das colegas, enquanto ela batia com os pés no chão.
«Ainda bem que os whiskys não têm paladar do chichi senão eles fartavam-se de ir à casa de banho para mijarem!.» -
Sai de cena Fífia. correndo um bocadinho em direcção da retrete.
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As exaltações proferidas de Padrinho, essas nuvens carregadas de vícios fragmentadas de enxofre podre, sempre lhe haviam dado - juntamente com o seu nariz aguçado e cabeleira de pêlo encurtado - um ar mais nocturno que diurno, apesar da rima não ser muito académica. Depois dele desaparecer, houve quem dissesse que era fácil procurá-lo, que bastava ir atrás duma «fífia» ...  e, uma semana depois da sua partida, uma saída em grande de uma cena-ás-três-pancadas mais a Fífia, contribuiria para lançar umas bocas para a fogueira do boato que começava a associar-se a esse nome de cheiro tão intensificado como de mau era repudiado. As pessoas sabem quem fede e quem não fede. - Fedeis que tombais. -
No apartamento privado de Padrinho, situado no nono piso do arranha céus Dallas, em plena Boavista, o alojamento com vista para o mar, de onde se via o pôr do sol, permitiu a ele relaxar pelo bom trabalho que havia feito na escola de formação da sua parvónia. Tinha gasto uma pipa de  massas a criar uma vertiginosa ideia para tempos futuros, enquanto se pôs a seleccionar os melhores títulos que dessem mais entoação à sua ilusão sonhadora. A ESCOLA DO PADRINHO, achava não estar lá muito bem assim, e se fosse antes, JOVEM, APRENDE NOS FUNDOS PRÓ BOLSO. Depois de algumas hesitações, acabou por ausentar-se, dormindo uma boa soneca, em cima do sofá junto da janela virada para o mar.
  Depois de ele partir, perdera-se à porta das grandes casas de Lisboa, vendo enormes efígies dos conquistadores dos mares de andarilho e pôs- se a ler os seus pergaminhos escritos em placas de ferro.fundido. Por fim comprou os jornais e revistas da época cheias de fotografias de pessoas famosas, perdendo algum tempo a olhar.Andou mais meio caminho a pé e, depois, entrou numa casa de relaxamento espiritual com muita gente à volta. Padrinho passara a maior parte desse tempo a viver com perfeita convicção dos seus ideais de infância. Fazia parte da sua ilusão de fantasia. De pele branca como Simone, viu-a cantar, de microfone na mão, uma canção de embalar:

Luar de Agosto
                                   Quem faz ufilho fá-lo por gosto...

Os fãs bateram com as palmas das mãos erguidas ao alto. Sereno, ele

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meditava, como Camões, sobre o valor artístico dum povo à luz dum candeeiro frouxo. Nas raras ocasiões em que eles se encontraram, a fronteira que separa a cantora do deixara muitas pistas para o bom enquadramento duma amizade de copos. E o rosto de Padrinho, reduzido ao tamanho de estrela, no meio dos comuns imortais, revelava-se um bom comediante. Gostos não se discutem, pois claro. Seja como for, concordarão com certeza que não é pequena a surpresa detectar num bom comediante  uma qualquer coisa, talvez,  até  mesmo  em São Nicolau, mas especialmente nele.
  
Golias encontrava-se instalado num gabinete esverdeado, atrás duma porta branca, por cima de uma loja de velharias. Figura imponente, forte como buda, uma das grandes forças vivas do nocturno, possuindo o dom de permanecer absolutamente de copo de whisky na mão, enquanto falava com alguém, nunca saindo da sala e travando conhecimento com todas as pessoas que cruzavam o seu espaço privado .
A Menina da Saca Preta era uma rapariga de baixa estatura, arredondada como uma bola de Berlim e transbordava de boa a tal ponto que Golias babava-se todo quando ela abria a saca e mostrava os utensílios sexuais mais actualizados da moda.Ao fim da tarde, quando ela chegava ao seu pequeno apartamento, metia-lhe bolas de açúcar na boca e regava-as com champanhe bruto fresco. De seguida, ela punha­-se ás cavalitas em cima dele e gritava: «Yo, yo!» - E ouvia os protestos do grande secretário-geral do «GAS» 1
    
     «Larga-me, mulher, deixa-me primeiro despir.» - A seguir a um pequeno aquecimento de pernas e mãos, obrigava a Menina da Saca Preta a utilizar alguns dos seus utensílios que ocultava na mala, enquanto lhe preparava um chá especial de marmelo e, antes de saltarem para o piano, escovava-lhe as costas e penteava-lhe o cabelo.
Eram um casal perfeito, e a rapariga entendeu que naquela noite o Golias queria compartilhar consigo o seu peso e os seus desejos.
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1Tradução da sigla: «Grupo de atiradores do sexo».
Durante o aquecimento, porém, Golias tratou a rapariga com todas as honras de uma grande senhora de cama, rendendo-lhe os maiores atributos sexuais que um cavalheiro pode render a uma senhora. «Bem vês, que só uma boa tecnicista sabe fazer um bom linguado!» - Disse ela ao ouvido dele que confirmou: «Sim, reparei nas suas qualidades e não deixo de tratá-la com o máximo respeito.» - A Rapariga da Saca Preta rompeu em risadas histéricas, exclamando por fim: «Mas, espera aí! -   olhou firmemente para ele -tens tudo o que me falta; és meu pai, o meu senhor e o meu amante. Se não te agrado nem sei o que será de mim.» - Golias voltou a entusiasmar-se com os ditos dela e atirou-se de novo ao tapete. De facto, era um homem bondoso, embora ás vezes distribuindo insultos por uma palha, mas logo recebia um consolo e ficava tudo como dantes.
Um dia (contou a Rapariga da Saca Preta) a saca tinha sido requisitada por uma criatura tão enigmática que eu me lembrei de a apelidar de Jeremias e pus-lhe algumas questões como estas. Queres o sexo livre?, e a saca, que até tinha estado parada, começou a correr dum lado para o outro dando saltos como a macaca até que parou de repente, sem se mover um milímetro sequer, nestes, quietinha. OK, disse eu e peguei na saca, voltei a fazer-lhe outra pergunta. Ou queres o sexo comercializado?. Então a saca começou a rodopiar tão depressa como um combóio, pôs-se aos saltos no ar e bateu na parede tantas vezes que acabou por despedaçar-se totalmente quando caiu no solo. «Acreditas ou não? - disse ela ao seu pupilo. - aprendi a lição: nunca te metas naquilo que não saibas entender.» -
Esta história teve um profundo efeito na consciência do jovem pupilo, que  dias antes se convencera que existia um mundo irreal. Especialmente à noite, quando olhava à sua volta, quando o ar se tomava mais sofisticado e a luz se tornava mais obscura, o mundo visível, nos seus contornos, davam-lhe a impressão de   que  tudo sprolongava para além da superfície do ar. Pestanejava e a ilusão desvanecia-se, mas o rasto desta quimera nunca o abandonava. O jovem pupilo cresceu acreditando em Deus, nos anjos, nos demónios, em tudo, como se tratasse de acreditar nos nabos, nas cebolas ou nos carros de bois e sentia uma aberração por nunca ter conhecido um fantasma. Sonhava descobrir um porco oculista a quem comprasse umas lentes para descobrir uma porca do seu tamanho que corrigisse a sua miopia; veria então, através do ar denso, o mundo fabuloso do lado de lá.

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Monday, June 25, 2018

                                   
                                           O HOMEM E O ROTTWEILER
                                                                   ~~~
                                                  FERNANDO ABRAÃO

   O HOMEM sentiu os olhos do rottweiler fixados nele enquanto procurava aconchegar-se o melhor possível, mas a sua cabeça foi invadida pelo meio da manhã. Ficou completamente imóvel, tentando conter as ondas de fadiga que lhe percorriam o corpo. Uma sensação de dor na perna alertou-o de que havia desmaiado durante alguns momentos. 
   «Mas logo hoje?» perguntou inquieto a si mesmo. mirando aquele vulto que parecia estar se aproximando cada vez mais.
   «Não te aproximes, feioso! Eu ainda estou aqui, maldito!», murmurou ele num tom baixo e moderado.
   O rottweiler olhava insensível. 
   O homem estudou o animal. Ele certamente apanhara-o ali, olhando-o, durante parte da manhã, mas ele não conseguia se lembrar quando o vira pela última vez. Aquele feioso era quase tão novo como ele mesmo, a julgar pelo aspeto do seu nariz húmido. Quando o rottweiler bocejava o homem podia ver os seus dentes brancos e aguçados, que um dia seriam terríveis caso mordesse alguém.
   «Queres lerpar-me, não é?» berrou de repente. «Vou-te fazer esperar!»
   O homem estava com a perna partida. Depois do embate havia caminhado 3 km com a ajuda de um pau a servir de muleta, até que a dor e o cansaço o dominaram. Jazia agora ali deitado à sombra de uma árvore, com o corpo magro e frágil acomodado num tapete de ervas do mato que haviam crescendo ao longo do tempo. A brisa leve drenava as forças que ainda lhe restavam e, sem nada mais poder fazer, ele se pusera a percorrer as suas lembranças, numa tentativa de escapar à ratoeira que lhe haviam armado os seus 43 anos - um tropeção de bicicleta num calhau e um arremesso que acontecera de imprevisto.
   Viu-se relembrando na casa de sua família e no modo como ele e o seu gato Relâmpago, haviam corrido através dos corrimões, pisgando-se com as meias em corridas rápidas. Tem graça, pensou, há tempos que eu não me lembrava do Relâmpago.
   «Bom traço», dissera o irmão ao trazer o felino para o lar. «Siamês com mistura de gato vulgar.» Relâmpago saiu um bom companheiro para casa. Era brincalhão, inteligente, e sabiam que o gato não era capaz de dormir sem que as luzes todas se apagassem.
   «Aquilo é que é um felino», disse o homem em tom baixo. «Relâmpago, põe as meias aqui! Já! Já aqui!»
   Abanou a cabeça como se tentasse recuperar de um choque e viu o rottweiller avançar para ele num passo irregular e coxo.
   «Para aí, feioso!», gritou amedrontrado. «Ainda cá estou, ainda cá estou!» Uma ou duas horas mais, pensou aflito, e minha mulher notará que não apareci para o almoço. Tenho de aguentar.
   O cão interrompeu e sentou-se de novo, um pouco mais para perto. Estava aquecendo quando o homem sentiu os primeiros fios de suor caindo levemente em sua testa. «A mulher e a família vão ficar fulos comigo», murmurou. «Primeiro, eu me estampei com  a bicicleta; depois eu fraturei a minha perna e de certeza que vou levar duas palmadas das boas.» Respirou. «Está a ficar quente!»   
   O sol que se abria há pouco refletia o azul céu nas duas figuras separavas por cinco metros, se tanto.

   «OLHAI EM BAIXO!» gritou Baltazar, que liderava um grupo de amigos. «Ali!» Enquanto o grupo corria para ele, Baltazar voltou a gritar: «Um rottweiller o apanhou, mas parece que ele ainda tem força para o matar.»
   Os homens se aproximaram dos dois vultos deitados no chão. Baltazar se ajoelhou e observou a maneira como o braço do homem rodeava o pescoço do animal, com sua outra mão repousava com frieza o pau estendidos no focinho húmido do animal que estava parado sobre o seu peito  e, finalmente, o sorriso tranquilo no rosto franzido do homem.
   «Não», ponderou ele. «Não foi nada disso que aconteceu.» Tocou a face do homem e depois o pelo ensanguentado do pescoço rottweiller. Piscou para acabar com a ardência nos olhos e olhou para cima, para os rostos de seus amigos.
   «Não foi mesmo nada disso», murmurou. E se cavou dali.
 
            Dedicado ao Rufino Saraiva por amizade de Fernando Abraão, no dia do Animal, Porto.

Friday, March 30, 2018




                                             
                                            BIOGRAFIA
                        1970 – 2014

                                      OS 2 DO NORTE_______
ENDEREÇO
Praça 9 de Abril, 139 / Amial
4.200-422 - Porto
CONTATO
Fernando - 966762381

EMAIL
BLOG
bardotraidor.blogspot.com
ahistoriadeumboemio.blogspot.com

LIVROS – de - Fernando Abraão
A Música Que Eu Dou / Escritos Traidores

FERNANDO ABRAÃO fundou o duo
Os 2 do Norte em 1970.
Rufino e Mário foram os elementos  do duo.
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Depois de uma carreira artística auspiciosa pela passagem por alguns conjuntos de música variada, Abraão formou com Rufino o duo em 1970, estreando-se na Boite Roma.______________________________

Não negarei que, nos princípios dos anos 70, fomos ensaiados ali na Confeitaria Miami, em Cimo de Vila, na rua dos comes e bebes. O nosso ensaiador era o grande fadista Neca Rafael. Durante um ensaio, a meio da cantiga, Neca explodiu: ─ Vocês não vão lá? Mas quem é que disse que vocês não vão lá? ─ Saímos do ensaio e fomos ao tasco mais próximo comer um pão com presunto e beber uns negos de vinho. Na nossa frente estava uma sala repleta de comedores e bebedores que só falavam em voz grossa. Depois de satisfazermos as necessidades dos nossos estômagos, voltamos ao ensaio. Fizemos muitas versões diferentes de alguns trechos populares à nossa moda. E aproveitamos para levar ─ os originais ─ ao máximo para fugir ao demasiado banal. Ao fim de dois meses de ensaios, o segundo teste depois da Boite Roma, foi no nigth club A Candeia e fomos classificados de “vulgaríssimo” por alguns especialistas na matéria: estão ainda muito verdes e o que vem a ser um dueto Além demais, acrescentam, se ainda querem melhor prova de que se trata de uma treta, ouçam bem: não faz sentido cantarem em espanhol a não ser que acredite que o grande Neca já esteja cheio do fado e pô-los a cantar galego. ─ Para que se saiba, nós estamos em 1970, ─ zombam os cronistas ─ E, até esta data, o Papa já tinha ouvido desde há muito falar da grande Amália e do fado português.
Em 1972, foi a vez de Mário Reis integrar o duo ─ Os 2 do Norte ─ por troca com Rufino, e o duo, prosseguiu uma carreira aumentada pela gravação do seu primeiro disco.___________________________
Mas, nesses tempos, no Porto, o lançamento de um artista estava na primeira infância. Não havia T.V. a levar os novatos ao colo, os empresários só se ralavam com as vedetas puras. Além disso, as maiores casas de variedades estavam proibidas de apresentar estreantes do tirolês franciscano, tendiam para os catedráticos do Passeio da Fama ou a música da Emissora de Carcavelinhos. A imprensa era também parola. Não me lembro de ver nenhuma fotografia de um artista do pé rapado em revista de especialidade, quanto mais nos jornais diários. E esse foi também o ano de Ó Tomás, Ora Chega Lá P´ra Trás e Troquei Porquê, de autoria de Neca Rafael, que nos lançou na rampa do sucesso, um tema classificado “Só para ouvir a dormir”. Contudo, um cronista assegurou que nunca ouvira falar no Duo Os 2 do Norte, nem visto os seus retratos até àquele dia por aí espalhados pelos jardins da Cordoaria. Sempre assegurou que o seu único dueto fora ele e a sua sogra, quando estavam com visível bebedeira a discutirem com quem ia dormir a filha…
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O que é uma “dor de corno”? Vejamos no dicionário: “dor de cotovelo”. Um ato motivado pelo ciúme, e é tudo: uma experiência amorosa mal conduzida que se torna uma praga. A maioria de nós contenta-se em, debruçar-se sobre uma garrafa de vinho e chama a isso sina: e até nos babamos quando embriagados dessa «desgraça». Como se fôssemos uns coitados que votam a favor da infelicidade. Uma das maneiras de entender a história dos “cornudos” é realmente pertencer à classe deles. A maior parte de nós tira uma rifa quando escolhe a sua parceira: para toda a vida, para um momento de tédio sexual, para companheira das horas vagas, para criada de todo o serviço, tudo é mais alguma coisa. Mas os infelizes exigem para si mesmo aquilo que se pode chamar desgraça alheia. E o fado, o fado da dor de cotovelo, é o sedativo que abre as portas da solidão para eles; a porta do desanuviamento total.

Em Portugal é voz corrente que o fado a que me refiro é precisamente um daqueles tónicos com que todo o guitarrista, cantadeira e fadista tem no abecedário do seu repertório, para abrilhantar os serões noturnos de qualquer casa de fados, ou locais de romantismo puro, contra o qual todos os amantes sentem o respirar das suas mágoas. Nenhum portugês se esqueceu das suas raízes e de uma cultura como o fado, que passou a fazer parte dos nossos jovens.
Era uma ideia fixe: cantarmos fados de dor do cotovelo que batessem fundo na alma dos desesperados. E foi assim que sucedeu. Depois de termos passado «a nossa dor» pela sala do ensaio da Miami ou pela Candeia ou pelo Roma. E foi Neca o primeiro a ouvir-nos cantar o fado e a dizer-nos que o fado atravessava todas as classes sociais, que pertencia a toda a gente por igual ─ e que fazia parte da minha geração, ─ porque amadureceu a nossa inquietude quando nós éramos chavalos, passou a sua dor durante a nossa cavalgada pela aventura, tornou-se o nosso fardo e está a ficar barrigudo à custa das nossas lágrimas. Assim, de acordo com a versão de Neca, fortalecemos a nossa alternativa no repertório e nós, o duo, começamos de facto a entoar fados da dor de corno, sempre que algum cliente precisava de aconchego à alma. Tal como dizia Neca, “Fado of Oporto” ou então “Made in Portugal” e não “produto enlatado”.
Depois do sucesso Ó Tomás, ora chega lá p´ra trás, Abraão e Mário, empreenderam novas carreiras profissionais e cada um seguiu a sua vida. Por esse motivo, Os 2 do Norte atuaram em alguns espetáculos ao longo dos anos seguintes.
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Nigth-clubs (Outros)                      Grandes Palcos
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Roma                                                                 Coliseu do Porto
Candeia                                                             Casino de Espinho
242                                                                     Festas da Aldeia
Porto à Noite                                                    Feira Popular
Severa                                                               Mutamba
Tamariz                                                             Clube das Devesas
Gato Negro                                                       Estrela Vigorosa           
Japoneza                                                           Circo Arrayolos
Club Lord                                                         Circo Maravilhas
Casa da Mariquinhas                                      Estalagem Santiago
Adegas do Norte                                              O Braseiro      
                                                                                                                                                    
            O porquê de Os 2 do Norte, no Café Tropical. Alcunha surgida na
             conversa de café, por um empresário ao chamar Abraão à mesa:
                                               “ Ó tu, que és do Norte?”_______________

·         2 Discos gravados
·         6 CD musical (FA)
·         Mais de 100 músicas originais
·         Com resenhas em vários livros do autor.
                                              Os 2 do Norte (1973)
                             “O fado? ─ Todos o trazemos dentro de nós.”
                                                 Neca, O Humorista
Ser Artista
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Embora eu sonhasse, em certa medida, vir um dia a tornar-me num artista de carreira, tenho de confessar, por instantes, que a tarefa não era nada fácil. Para que o leitor possa compreender melhor como isto chegou ao que chegou, vou levá-lo até onde o pai do humor fadista, Neca, então nos seus cinquenta e tais, sentado à mesa do café Tropical, de olhar perdido no horizonte, com um copo de água e uma chávena de café ao lado, pensando… Sempre que pensava, pensava com a manobra da vida ou o fado. O fado como ele adorava, era quadra ou sextilha sempre a rimar, aritmeticamente numerado, com um sentido p´rá galhofa e a condizer com o seu estilo inconfundível de humorista de primeira água. Era um fadista constantemente chamado para os melhores espetáculos da cidade. E levava sempre com ele os guitarristas habituais, além da fadista que fazia parte dos seus ─ humorísticos ─ e donde saíam os momentos de charadas mais interessantes e pitorescos da sua veia narrativa com que fazia uma letra de fado alegre.
Circo Danzer
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Nos tempos dos circos, quando Neca ia lá cantar uns faduchos e o público delirava com a sua forma de cantar com a boca de lado e os escarros enviados para o chão. A minha lembrança fez-me recordar uma vez, quando Neca, que estivera com gripe e não pudera comparecer ao programa circense. O dono do circo, um indivíduo de nacionalidade romena cognominado Don Manolo, tão danado ficara que não conseguira aguentar o ímpeto do público em pé nas cadeiras aos berros: Queremos o Neca ou Restitui a massa. Esses berros estridentes representavam para Don Manolo a ruína e o descalabro da companhia e pôs a imaginação e o engenho unidos a funcionar. Pegara nu microfone e falara de uma só vez. - Ustedes, tenham calma, - disse ele abanando a cabeça com respeito – O fadista Neca não pôde aparecer por estar engripado mas, em seu lugar, eu tenho uma estreia internacional. Senhoras e Senhores convosco: O Senhor Camelo!... Tal como Don Manolo previa , o público ficou irritado e teria deitado o circo abaixo não fosse a rápida intervenção da polícia chamada de urgência ao lugar. A juventude fadista admira-o e procura seguir-lhe os passos. Por consequência, esperam-se represálias por parte do fadista quando soube da afronta em que o seu nome foi envolvido. -Fazer de ti um camelo, nem faz lembrar o diabo! – Fez notar o amigo. – Precisava mesmo de levar uma lição. Mais tarde, debaixo do desespero, o fadista Neca, fora de controle, foi ao café Palladium e, no meio da discussão com Don Manolo, disse-lhe que não admitia o insulto e mandou-lhe com uma cadeira à cabeça. – Se estás a pensar que sou algum camelo estás enganado. Eu não vou consentir em ser tratado com esse vexame por um badameco como tu.
Quando eu digo que sonhava ser um dia ─ um artista ─ não me queria referir incluir no seu grupo, porque o fadista Neca foi o maior artista popular de sempre. Aquele cujas letras do seu repertório traduziam à letra os problemas do quotidiano, aquele cujos rivais nunca conseguiram superar, estou certo que o mais difícil dos meus leitores vai concordar com os meus escritos. Ele era o maior da família fadista, cujas letras faziam os rádios da cidade andarem numa constante fona à procura de inundar as ondas locais. Ele mesmo dizia, era melhor pôr um disco ou uma cassete das suas músicas no rádio e ouvir atentamente, do que ir ao dentista, ou então, dar uma ´braitada` mal dada. Desde o princípio comentou que o fado faz parte da vida de um bom português.    
Resenha Literária

Um mês e um dia, por acaso, uma exceção, coincidiu com o abandono de Rufino à música, e o novo duo fez a sua apresentação na Boite Tamariz. Após os primeiros espetáculos, Mário Reis, um rapaz tecnicamente bem dotado da mão para ritmos sul-americanos e para o dedilhar abafado de cordas para o fado, mostrou ser um praticante à altura das exigências profissionais. No intervalo de uma atuação, enquanto nós afinávamos as violas, Mário pôs-se a olhar de pestaninha para a artista de variedades que teve um grande à-vontade de despir-se totalmente à nossa frente. - Ora bolas, Mário - disse eu, irritado - desce o mi grave dois tons abaixo e deixa-te de estar p´ra aí a olhar, ainda partes a corda. Mas os olhos dele brilharam de novo. - Como é que se pode afinar um instrumento de madeira com um instrumento de pêlo aqui ao nosso lado? ─ Sim, claro que se pode – disse eu, franzindo o nariz – se estiveres concentrado. Cinco minutos depois, o processo de afinação estava concluído.
Na Casa dos Discos

Na casa dos discos, fui indagar sobre a venda de discos do duo e dirigi-me ao balcão para falar com o gerente da loja. – Então, as nossas vendas vão bem? – disse eu, dando uma vista de olhos às últimas novidades discográficas. – Suponho que irá ter saída – desafio eu, a trautear uma frase da primeira canção da segunda faixa Lá Vem o Comboio. – Quando o duo alcançar o top, senhor Abraão – disse o gerente muito baixo, estendendo-me a mão para me cumprimentar – vai ter que ter mais juizinho nessa ânsia de beber. – E, dizendo isto, as suas feições alteraram-se e riu-se na minha cara. Eu saí da loja dos discos, fazendo ouvidos moucos ao dito do baixinho e segui na direção da rua dos tascos, onde fiz uma paragem de emergência para embutir um traçado de tinto com branco.      

Na Casa de Fados____________                                                         

No Outubro de 1972, fiz finalmente a minha estreia no casino de Espinho, com que sonhava há vários anos, integrando o duo, ao lado de Mário Reis. Nesses últimos tempos, tanto Mário como eu, retomamos os ensaios e preparamo-nos afincadamente para uma rampa de lançamento a sério. Uma nova geração de empresários da noite, incluindo casas de fado e divertimentos turísticos, dedicava-se agora a lançar e promover novos talentos em troca dos consagrados artistas vindos da grande Lisboa. Na sua maneira de falar à malandro, Mário tentou contagiar o dono da casa de fados com o seu entusiasmo por esta nova linha de orientação que tão útil fora para os desempregados: “força”, “assim é que é”, “maravilha”. E, depois desta surpreende-nte troca de impressões, o dono da casa de fados mandou-nos ir aquecer as vozes para entrarmos em cena. E foi assim que fizemos. No camarim, Mário começou a afinar lentamente a nota de dó pelo lamiré e depois, mais calmo, disse; - Apostas que já temos aqui trabalho para um mês?
Deus te ouça – respondi eu. – Se preciso de ganhar umas massas, é neste preciso momento. ─ Pois, então, prepara-te para encher os bolsos – disse Mário, pondo a mão nos bolsos. ─ Cuidado! Nunca ouviste dizer, - repliquei eu, - que nunca se deve deitar foguetes antes da festa? ─ Não baralhes, pá. – Murmurou Mário. – Espera para veres. ─ Ótimo – disse eu, e fui procurar dois copos. – Vamos brindar. Mário soltou uma gargalhada e bebeu de chimpam uma rodada de verde branco, agarrando o copo c´as duas mãos e, depois, rosnou: - Põe aqui mais um bocado. À terceira vez, foi de vez. O tom de dó ficou afinadíssimo, e ambos começamos a cantarolar. Fez-se na sala uma chiadeira de vozes que até o dono veio ver se algum de nós tinha adoecido. Mário suava abundantemente, tinha a viola colada à barriga, bem como o copo ao pé dele. Depois do dono ter saído da sala, voltamos a falar. – Vamos ensaiar o folclore, - disse Mário e bebeu o resto da bebida. À quinta vez, estávamos afinados e ensaiados. Mário foi ter com o dono e mostrou-lhe uns versos que tinha composto para ele mandar encaixilhar e colocar na sala de jantar. Leu devagar em pose:
Entre tu e ela, entre a cortina e a janela, entre o homem e o amante, entre a paixão e a traição, entre o pensamento e o sentimento, mora… ???
O dono da casa de fados ficou tão fascinado com o poema de Mário que lhe pediu para o autografar e deu ordem ao empregado para ir arranjar um quadro onde o pudesse meter. Passaram algumas semanas. Mário tivera razão, pois trabalho não nos faltava.
                                                                                            
O TIROLÊS
Aí vai mais uma. Foi o dia em que me pediram para cantar o tirolês. Fui cantar a solo uma: Cowboyada, nem mais nem menos. A música rancheira estava em voga no Porto e eu sabia fazer o tirolês com a perícia de um guardador de cabras quando chama o rebanho. A única lembrança que tenho desse momento foi ver-me a cantar numa carroça atrelada a uma pileca, num espaço aberto. A zona estava cercada de gente, na sua maioria, moradores de ilhas e bairros das redondezas; fiquei desapontado quando vi os guitarristas com a cantadeira a cantar o fado, porque o ambiente pedia música mais alegre e desgarrada. Depois, agarrei no sombreiro e cantei. Mexicano tradicional. Eu gostava, de vez em quando, confesso. E cantei à minha maneira.  
      Pelos prados do belo Arizona / Vou montado no meu alazão
     A meu lado uma bela amazona / Que é dona do meu coração…

E depois: ─ veio o tirolês. ─ O público ficou assombrado com o jeito que eu dava à minha garganta, juro. Mas a pileca, pelo jeito, não tinha a mesma opinião e desatou aos pinotes, distribuindo coices à carroça que acabou por se soltar e fugiu dali para fora, que mais ninguém a conseguiu apanhar. Este concerto ao ar livre em cima da carroça com a pileca ficou famoso pelo que aconteceu, um espetáculo que pôs todos em alvoroço. Assim que os aplausos, um tanto vibrantes, acabaram, o locutor anunciou música para bailar. – Oh! Que coisa mais estúpida, - berrei eu e saltei para o chão atrás do locutor. – Não tapaste os ouvidos ao burro, - sorri para ele, indo ao seu encontro. A minha maneira de cantar o tirolês era sem dúvida atrativa, mas o som saía-me da garganta aos tropeções, era um som soluçante, tentando passar por um carneiro aos berros, mas não fazia mal a ninguém, porque eu era o protótipo do cow-boy solitário. Mal o espetáculo findou, a multidão começou a dispersar. Mas eu fiquei agarrado à minha viola, rindo-me da cena do burro a fugir pela calçada abaixo.                                                                                               
O Guitarrista Caspa e o Viola Caguinchas                                                              
E outra mais: o viola Caguinchas nunca gostou daquele guitarrista o Caspa, como era alcunhado no meio fadista. Uma ocasião, dei com eles a discutir: «Ouve o que te digo, o tom é si bemol e não mi menor.» - Dizia o Caspa. Contrariado, o Caguinchas viria a não aceitar aquele raspanço e não tem outra alternativa senão responder-lhe: «Não digas asneiras! Eu é que sei qual é o tom.» - O Caspa preferiu não responder. Nunca cheguei a entender porque era que eles passavam o tempo do ensaio a discutir.
«Já está melhor assim?» interrogava o Caguinchas em frente de Caspa. «Vê lá se esta combinação de tons não te soa melhor aos ouvidos!» - O guitarrista esteve quase a zangar-se. «És teimoso e burro!», - disse. – Só tu é que tens a mania que sabes tudo e só fazes cagadas em palco.» - Agora foi a vez de Caguinchas não lhe dar resposta. E os momentos mais interessantes eram quando haviam espetáculos com os dois a intervir no programa. E eles eram promovidos à categoria de estrelas profissionais, conduzindo os outros artistas na programação do show. Na hora de irem embora, depois do programa acabado, eles nunca perdoariam a si próprios senão molhassem a goela com uns bons negos de verde tinto ou branco (não interessa a cor) da região. «Não acreditas que já toquei dentro duma pipa de vinho?» - disse Caspa, entornando mais copos pela goela abaixo. - «Já estás bêbado!» responde Caguinchas, limpando a boca à manga do casaco. «Eu também te podia dizer que já pus uma garrafa de vinho a tocar música.» - O guitarrista engasgou-se a beber e tossiu… e depois respondeu-lhe: «Olha para ele!» disse Caspa com a voz estrangulada. «Tu nem com as cordas te safas quanto mais com as garrafas.» - «Vamos mas é embora antes que me chateie.» - Gritou ele. E ambos, um pouco grossos, tiraram a rolha duma garrafa de tintol maduro, e encheram mais dois copos para a despedida e taparam o gargalo com a palma da mão. E, com a outra mão, pegaram nos copos.
                                     
«À partida», bradou o Caguinchas. ─ «À saída», responde o Caspa. Lá vão eles para o Fiat. Caguinchas abre a porta e entra no carro; a seguir entra o Caspa. Dirigem-se para o Norte, mais propriamente dito para o norte da cidade tripeira. Pela estrada de Famalicão, passam junto de uma ponte velha. Ao longo do caminho, há uma junta de bois a pastar nos campos e lavradores a cultivar centeio. De repente, ouve-se um estrondo! Caspa mandar parar o carro: «MATASTE A VACA!» - O carro pára mais à frente e descem ambos. Ficam diante de um campo silvestre, junto de uma lomba, de pé; a brisa do ar refresca-lhes os rostos; Caguinchas põe-se em bicos de pés olhando para cima e para baixo e volta-se para trás: «Eras tu a sonhar ou quê?» diz ele de ar sisudo. «Vês alguma vaca?» - «Ali abaixo» diz Caspa, apontando. «Eu vi a vaca a voar por cima de nós.» - Caguinchas voltou a pôr-se em bicos de pés e olhou pela ravina. «Ali» volta a dizer Caspa. «O que é que vês?» - «Nada» responde Caguinchas desorientado. ─ «Tu deves estar é c´os copos.» - «Não é ali, é acolá», insiste o Caspa e Caguinchas vê o dedo do outro a apontar para o fundo do campo. «Ali! Acolá? Acolá! Ali?» pergunta. «O que é que tu tens? Uma vaca a voar pelo ar? Deves estar cá com uma visão como eu ver um elefante andar por baixo das asas dum jato a voar no espaço…» - Caspa, vermelho como um chouriço, dá em filosofar: «És teimoso como um burro! Eu bem te avisei que tivesses cuidado. Eu vi a vaca a voar à minha frente e agora? Foi-se!...» - Desorientado, Caguinchas berra: «Vai-te lá comer com a vaca ou com o boi; burro sou eu em estar para aqui armado em elefante a aturar-te.» - E correu para o carro. Caspa seguiu atrás dele. Instantes depois, lançou-se ao encontro da estrada, seguindo em marcha mais lenta. Talvez por recear que aquele estoiro de há momentos atrás estivesse relacionado com a história que Caspa referiu, ou talvez porque o outro estivesse mesmo um pouco pingado do álcool. E foi com a visão da vaca a voar no ar que chegou ao local do regresso e deixou ficar Caspa, seguindo depois para casa. Quando desceu, olhou com uma vista mais acentuada para a chaparia do carro e viu à frente uma grande amolgadela!...


Coisas que acontecem; Depois de Caguinchas se deitar no choco, embora tentasse dormir o mais rápido possível, o corpo sentia arrepios de frio. No momento, com os dedos gelados de raiva, ele não suportou durante muito tempo aquelas visões de uma nuvem passageira coberta de uma manada de vacas em perseguição dele pela estrada adiante…  

   OS 2 DO NORTE____________2012/2014