Sunday, June 5, 2016





                 FERNANDO ABRAÃO

                 O VELHO
                        E O SEXO

                        2008
                        ~~~
                                                                     PRÓLOGO


Um velho pintor amante de sexo
sem grande esforço, conquista uma esperta prostituta.
Antes de se aperceber na alhada em que se meteu,
terá de fazer face a uma rivalidade tenaz com
aqueles que a querem comer.
Da contenda pela prostituta e da briga com o  ambiente
que os rodeia
nasce uma grande amizade entre o pintor e a
prostituta.

___________ //// ___________

                        CAPÍTULO 1
      

1. CENA ___________________________________________________

EXT: RUA – DIA

Caminhando em passada curta,CONDE DO PINCEL murmura para dentro de si próprio:

“O nome que me deu mais notoriedade
é o meu apelido de traidor,
Conde do Pincel. Tenho 72 anos.
Minha relação com a vida…
       consiste em divertir-me com ela e em goza-la.
Foi por isso que me aproximei
por vontade própria
de toda a minha vida privada.

Isso tornou minha velhice romântica.
         Sempre adorei o sexo,e sou grato por isso.
Comecei a estudar
para me tornar independente…
e acabei amando a pintura.
Tenho a sorte de ter uma santa mulher.
Ainda me atura há muitos anos.

Talvez deva confessar
que sou um velho sentimental…
O que às vezes torna a vida alegre…
Tanto para mim quanto para
os que convivem comigo.”


2. CENA ___________________________________________________

EXT: RUA – DIA

No passeio, CONDE DO PINCEL encontra-se com VIGILANTE e começam a falar sobre assuntos boémios.


VIGILANTE
Gostava de o levar comigo à folia.
Apanhei bons rabos de saias.

CONDE DO PINCEL
Tem um faro apurado.
Continue com ele.

VIGILANTE
Recorda-se de quando passava
vários dias a conquistar tudo?
E agora, de repente,
conquistei eu boas ratas.
Todos os dias,
durante três semanas.

CONDE DO PINCEL
Lembro-me.
Não pensei que você tivesse ido...
porque duvidara...

VIGILANTE
Um amigo quis
que nós fossemos.
Não tem muito faro.

CONDE DO PINCEL
Mas nõs temos.
Não temos?

VIGILANTE
Sim.

3. CENA____________________________________________________

INT: BAR – DIA

Entram três raparigas que são encaminhadas para uma mesa junto à parede. São duas loiras e uma morena.

RATAZANA
Um sumo para aqui.
Um licor para ali
─ e uma coca-cola para acolá.
                                                      ─ Obrigada.

UMA LOIRA
Fizeram grande festa?

RATAZANA
Ah, sim. É a entrega dos dinheiros
 da caixa de 20 amigos. E o seu amigo, menina?

UMA LOIRA
Está à espera que eu lhe telefone
O tipo acha que sou empregada dele.

RATAZANA
Sente-se bem, aqui?

UMA LOIRA
Muito bem.
Não se preocupe se ele não
me telefonar.

RATAZANA
A maioria das loiras não tem paciência.

UMA LOIRA
Eu tenho calma de sobra.

RATAZANA
Ainda bem.


4. CENA ___________________________________________________

EXT: RUA – DIA

CONDE DO PINCEL e VIGILANTE aproximam-se da porta do bar. VIGILANTE deixa-se ficar para trás e pede um favor.

VIGILANTE
Pode-me oferecer um
uísque da sua garrafa
no bar?

CONDE DO PINCEL
Porque não?
             Entre amigos…(Olha para a miúda que sai do bar)


5. CENA ___________________________________________________

INT: BAR – DIA

As três raparigas falam entre si e olham para as mesas repletas de gente.

UMA LOIRA
Se calhar eu podia
ser membro da caixa.
Vocês esperavam aqui na mesa
cheias de frenesim
que eu distribuísse o guito.

MORENA
Era giro.

UMA LOIRA
Não acham a ideia divertida?

OUTRA LOIRA
Só a ideia,
não.
11

6. CENA ___________________________________________________

INT: BAR – DIA

Entram CONDE DO PINCEL e VIGILANTE e dirigem-se para o balcão, olhando em seu redor.

VIGILANTE
Ratazana, um uísque
da garrafa do meu amigo!

      CONDE DO PINCEL(Saúda os presentes)
Olá, meus senhores.

Um cliente que faz parte de um grupo de três, estende a mão e fala alto.

  CLIENTE DA MESA
 Conde do Pincel!

CONDE DO PINCEL
Sim?

CLIENTE DA MESA
Não teve nega?

CONDE DO PINCEL
Não.

CLIENTE DA MESA
Há quantos minutos andava atrás da miúda,
meu amigo?

CONDE DO PINCEL
Minutos, não.
Segundos.

CLIENTE DA MESA
Este é um pesadelo
 para nós.
12


AMIGO DO LADO
    É um dos melhores clientes de sexo.

CLIENTE DA MESA
           A sorte dele é que paga como um lorde.
Não tardará a influenciar as nossas gajas.

7. CENA ___________________________________________________

VIGILANTE apela a CONDE DO PINCEL.

VIGILANTE
Quer que lhe arranje um esquema
para coçar o umbigo?

CONDE DO PINCEL
Já tenho quem me coce.

VIGILANTE
Gostava de lhe poder agradar
de qualquer jeito.

CONDE DO PINCEL
Fez-me um pouco de companhia.
Já é um amigo.
8. CENA ___________________________________________________

INT: BAR – DIA

As três raparigas olham para CONDE DO PINCEL e VIGILANTE.

OUTRA LOIRA(Toca no braço da Morena)
Achas que são...
                     ...pai e filho?

MORENA
Sei lá.
A curiosa és tu.
13

9. CENA ___________________________________________________

VIGILANTE entusiasma CONDE DO PINCEL numa aposta.

VIGILANTE
Sei como conseguir
os dois esquemas
para hoje à noite.

CONDE DO PINCEL
Não.
Hoje estou um
bocado cansado.

VIGILANTE
Deixe que eu arranje
os dois esquemas
para a gente farrar.

CONDE DO PINCEL
Um, chega.

VIGILANTE
Dois?
                         ─ Está bem, dois.

CONDE DO PINCEL
Está a fazer bluff?
Talvez esteja...
                                                       Vamos a ver.

10. CENA __________________________________________________

O CLIENTE DA MESA do grupo de três amigos começa a querer sair da mesa.

CLIENTE DA MESA
Vou falar com ele.

AMIGO DO LADO
Não, deixa-o em paz.
14


       CLIENTE DA MESA(Levanta-se da mesa)
Desculpe, Conde do Pincel.
     Como passa?(Estende-lhe a mão)

   CONDE DO PINCEL(Regeita)
Bem.

CLIENTE DA MESA
Todos sabemos que é perito em mulheres.

CONDE DO PINCEL
Não.

CLIENTE DA MESA
Sim.
Eu e os meus amigos queremos saber
porque razão a Sophia Loren...
... não fez nenhum filme
últimamente.

CONDE DO PINCEL
Está inactiva.
Teve uma paragem
na carreira.

             CLIENTE DA MESA(Volta-se prós amigos)
Estão a ver?
Eu sabia que havia alguma coisa.
Agora já sei
porque é que ela parece
uma velha cansada.

CONDE DO PINCEL
Engana-se.
Mesmo inactiva, a Loren
é sempre bela.
15


CLIENTE DA MESA
Se tu o dizes...
Mas eu penso, corrige-me
se me engano, Conde do Pincel...
Mas penso que ela já deu o que tinha a dar.
É que a sua fama supera a sua arte, sim.
Mas isso não é pouco usual.
Dizem que você...
Foi campeão de sexo do grupo de atiradores
do Bar do Traidor.
Desde Janeiro a Dezembro
do ano de 2006.

CONDE DO PINCEL
Diz-se, está dito.

CLIENTE DA MESA
Mas eu não acredito nisso.

AMIGO DO LADO
Vamos embora, Morcela.
Sim, vamos.
Vamos beber mais uma cerveja.
Um momento, por favor!

CLIENTE DA MESA
Estou a falar com o Conde do Pincel.
O campeão-da-truca-truca.
Ele diz que foi um grande campeão e,
... gostava de ter o prazer
de o ver deitar abaixo uma daquelas beldades
ali da mesa da parede.

AMIGO DO LADO
És um insolente, Morcela.

CLIENTE DA MESA
Que dizes, velhadas? Atreves-te?
16


          CONDE DO PINCEL(Fixa o olhar dele)
Sim.
Fica a ver.
      O dono será o apresentador.(Volta-se para o dono)
Leve-me àquela mesa.

CLIENTE DA MESA
Boa sorte, velhadas.

CONDE DO PINCEL pousa o copo de uisque em cima do balcão e segue o dono pela sala. Depois, inicia-se as apresentações junto das raparigas e segue-se o diálogo.

CLIENTE DA MESA(Aproxima-se)
Desculpem! Esperem um momento.
Estava enganado.
     Olhem para esta figura.(Volta-se para trás)
Não é a figura de um campeão.
É apenas um esqueleto de um humano
velho e atiradiço.
  Será capaz de se escaqueirar
como se fosse um castelo de areia.

CONDE DO PINCEL
Tens letra.

 CLIENTE DA MESA
Desculpe, Conde do Pincel.
Estava mal informado.
Ratazana,
não faça conta.
Não nos destabilizes
com o teu preço alto, velhadas.
Não nos destabilizes.Saiem)

VIGILANTE
  Teria dado cabo dele.
17

CONDE DO PINCEL
      Hoje, não estou em forma.(Volta pró balcão)
        Amanhã, será...(Olha prás garrafas)
um grande dia.

VIGILANTE
Onde vai?

CONDE DO PINCEL
Não muito longe.

VIGILANTE
Não seja guloso. Uma para si chega e
duas dá para mim.

CONDE DO PINCEL
Existe uma delas...
que me está esperando.

VIGILANTE
Eu estou no meu trabalho
a fazer o meu serviço.
Assim, se sobrar algo para mim,
poderei ajudá-lo.

CONDE DO PINCEL
Você gosta de ajudar-me muito…

VIGILANTE
Você sabe que sim.
E tenho-lhe indicado
onde ir, como sabe.
Ainda quer ir sózinho?

18
CONDE DO PINCEL
Sim.

VIGILANTE
Tem força para ratar
uma gaja boa?

CONDE DO PINCEL
Acho que sim.
   Além disso faço truques.

VIGILANTE
Tem sono?

CONDE DO PINCEL
Um pouco;
e você?

VIGILANTE
Eu não.
Vom fazer uma vigía.

CONDE DO PINCEL
Agora, vou sentar-me no sofá.
Vou ver o filme.
Sabe quem mo emprestou?
O Ratazana.
Vou excitar-me com as mamas da Sophia Loren.

VIGILANTE
Vou ver as putas.
Depois conte-me o filme.
Adeus,
até amanhã.

CONDE DO PINCEL
Até amanhã.
19

11. CENA __________________________________________________

INT: BOATE – NOITE

VIGILANTE dirige-se ao balcão e deita uma mirada à sala.

VIGILANTE
Olá Luís,
quero umas águas sem gás.

LUÍS
Estás farto de olhar as raparigas, Vigilante.
Temos…
morenas, loiras, portuguesas,
brasileiras, ucranianas.

VIGILANTE
Dá-me de beber.

LUÍS
Queres escolher uma?
Não, não.
E duas?

VIGILANTE
Duas mulheres juntas.
Quanto é que é?

LUÍS
Meto tudo na conta.

VIGILANTE
Não.

LUÍS
És um mau negociante,
Vigilante.
20

12. CENA___________________________________________________

INT. APARTAMENTO DE CONDE DO PINCEL – NOITE

CONDE DO PINCEL entra sorrateiro em casa mas a mulher está à sua espera.

MULHER
Já é tão tarde.
Onde estiveste?

CONDE DO PINCEL
Por aí…
A ver as modas na noite.

MULHER
Já vi.
O teu retrato não
está onde devia estar.

CONDE DO PINCEL
Deixei-o em cima da cómoda.
Assim olho menos para ele.
Fez-me sentir mais velho.

MULHER
Anda para a cama.

CONDE DO PINCEL
Deixa-me estar um pouco aqui.

MULHER
Não te vens deitar?

CONDE DO PINCEL
Vou já.

MULHER
Não demores muito.
Tá-bem.

____________________________________________________


Wednesday, April 6, 2016


                                        
                                                           
                                           CONTOS PARA REINAR

                        «Aprendi que cair no vício não é o cabo dos trabalhos.»
                                                ____________


MARIA ODETE criou uma das «pegas-espertas» mais badaladas da noite portuense. Mas a alternadeira de 37 anos, que passa por turista nos locais choques da moda, tirou o curso nos bares dos hotéis e é conhecida por ser uma mulher inteligente, sagaz e intuitiva. Apesar de ter trabalhado nos bares e nos cabarés de segunda classe, Odete não considerava o mundo da noite como uma carreira. «Achava que todas as alternadeiras eram estúpidas cujo modo de vida não resultava», diz. «Tinha medo de que, se me tornasse viciada, as pessoas não me quisessem.» O que lhe metia medo também era apanhar algum vício. Mas o desejo de mudar de vida era grande e, por volta de 1971, juntou-se a um grupo de viajantes e viajou em alguns cruzeiros de férias. Mesmo assim continuou a evitar correr riscos. Raramente ia em grupos. E a sua vida social era bem mais preenchida tal como a sua carteira. «Era o medo de estar no caminho viciado que me continha», diz. «Até que finalmente aprendi que podemos apanhar vícios e que não é o cabo dos trabalhos.» Fez um bom pé-de-meia em 1975, e daí passou a lojista de uma sapataria em 1977. Casou-se em 1976, e teve um filho em 1979, apresentando uma forma física invejável. «As pessoas perguntam se não estou nada preocupada com o facto de só vender sapatos», diz ela. «E daí? Incomoda-me que pensem que sou uma estúpida? Incomodei-me mais com isso quando era mais novata. Agora, passa-me ao lado.»

                                                                Abraão, em ahistóriadeumboemio.blogspot.com. Porto. 




POR ESTRANHO que se pareça, nunca foi editado nenhum dos 39 livros de Fernando Abraão, um autor sem formação académica, apenas a 4ª classe e uma grande inspiração para a escrita e para os seus contos de amigos. Quando em 2000, publicou A história do Morto-Vivo, uma obra teatral, encorajou-se em enviar ao Círculo de Cultura Teatral que lhe respondeu: «Agradecemos e analisaremos, na primeira oportunidade.» Em 2002, o autor escreveu Escritos Traidores, e a editora Dom Quixote rejeitou a oportunidade de publicar a sua obra: «Infelizmente a Editora não pode dar-lhe uma resposta positiva por dificuldades de enquadramento na nossa programação.»  
No mesmo ano, em que publicou Gente de Vícios, um outro editor: Edições Mortas, não se deixaram impressionar pelo relato de Abraão sobre os boémios da noite: «Lembramos, no entanto, que temos o nosso catálogo de edições preenchido até finais do ano 2004.»
E ao rejeitar As Lauras, em 2008, a Editora Caminho escreveu ao autor: «Infelizmente, a nossa programação encontra-se demasiado sobrecarregada, impedindo-nos de assumir novos compromissos e, por conseguinte, de aceitar o trabalho proposto.»
Mas outros editores através de emails não foram mais simpáticos. Em 2009, o livro O Pasquim do Lord, obteve o seguinte comentário: «Em Portugal as histórias de boémios são pouco recomendáveis.»
Em 2010, a biografia de Ratazana O que hoje ainda se deve fazer: uma rapidinha; obteve de O Jornal Dos Traidores o seguinte comentário: «A missão de um boss à frente de um bar de estilo tem o seu atrativo, mas para a maior parte das pessoas que lá conviveram.»
Em 2012, quando da sua obra nº 37, Abraão disse aos intérpretes de A Trupe de Pipocas: «O problema é que sem conhecimentos com editores ou pessoa responsável, uma pessoa não vai lá. É uma agulha no palheiro encontrar entre eles uma alma amiga que nos dê apoio ou uma mão.»  
E em 2013 disseram a Fernando Abraão: «Desculpe, Sr. Abraão, o senhor não sabe contar outras histórias a não ser desgraças da noite?»


                                                                                               Ratazana, Porto.

Saturday, March 19, 2016


                    



                                  ESTE PAÍS PRECISA É DE INVENTORES
                                  DE IDEIAS BOAS!!!
                                                   __________________/


ABRAIAS, empresário portuense, está ensaiando um projeto a que chama: «carro-táxi», sob o qual ele espera racionalizar os transportes citadinos. “Abraias”, cujo negócio se situa num dos locais mais movimentadas do Porto, reparou que quase todos os carros na hora de ponta só continham, na sua maioria, um ocupante, o condutor. Os autocarros, por sua vez, rolavam superlotados, sem meios de servir as longas filas de trabalhadores exaustos. Os donos de carros e andantes são convidados a entrar para o clube do «carro-táxi» ao preço de 100 euros anuais, incluindo o seguro. Por essa filiação o condutor recebe um autocolante para colocar no carro e o andante um cartão identificativo com fotografia, número de telefone, e com a palavra «carro-táxi» em letras maiúsculas, e anexo destas um espaço ao qual porá seu destino. A distância através do qual o passageiro é transportado, já está indicada na tarifa do único pagamento do passageiro. Este tema está despertando a atenção da União dos Pobres Andantes e dos Idosos de Muletas que dedicaram especial atenção ao «carro-táxi», onde esperam ansiosamente que a ideia passe à prática.    

                                                                                                                                                  


NUNCA ESQUECEREI esse dia chuvoso passado em casa da tia Justa. Eu ia a caminho da aldeia quando fui apanhado por uma enxurrada de água que me deixou como um pintainho, e fui bater à porta da tia Justa que me acolheu. Depois de tirar a roupa, agasalhei-me num cobertor e sentámo-nos sozinhos à lareira a fumar e a beber uísque, em amena conversa. Quando ficámos animados, falamos dos nossos tempos e contamos das nossas piadas preferidas. A tia justa já nem me via nem me ouvia. Bebeu a última pinga de uísque e atirou às malvas a vergonha por ares e ventos. Eu sentia-me o mais feliz dos mortais, e só desejava que o dia tivesse mais horas. Infelizmente… adormeci a ressonar… num segundo, um balde de água fria voou na minha cabeça e atirou-me da cadeira ao chão. «Reles! ─ gritou a tia Justa. Reles, imundo. Vai rosnar para a tua rua!» Rolei pelo soalho, exclamando: «Ei! Que mal eu fiz?» ─ «Já te digo. Tratei-te tão bem e esta é a paga que tu me dás?» Abriu a porta e com o dedo esticado fez sinal de marcha. Saí pela porta, enxugando o cabelo com as mãos. «Mas que mal eu fiz!»


Monday, January 25, 2016


A MULHER DO MANCO
             _______



… Enquanto isso, o telefone pôs-se a tocar. Atendi. Era uma amiga.
   «És tu? Sou eu, América.» - Retribui a gentileza. «Estou em casa de uma amiga, zanguei-me com o meu homem, não está por aí alguém que nos queira distrair um bocado?» - Respondi:
   «Dá-me só uns minutos, que ligo já.»
Desliguei o telefone para atender os clientes que chegaram naquele instante. Faziam parte do clã de Pipa, chamavam-se Tin-Tin e Carocha. O primeiro exclamou:
   «Boas tardes, meus Senhores, já vi que estão em boa companhia.» -
Os restantes cumprimentaram-se. Pipa dirigiu um olhar carrancudo a Carocha, ao mesmo tempo que lhe dava uma palmada nas costas.
   «És bom rapaz, ali feito morcão, á tua espera; pregaste-me o manguito mas deixa estar que para a próxima tu levas.» - O outro ajeitou os óculos. «Esse filme vai no Batalha.»
A jovem vestida à moda fric entrou na sala, levando atrás de si alguns olhares provocadores. Múmia foi o primeiro a dar o mote:
   «Mas que pinta tem a miúda» - Pipa intrometeu-se.
   «Tem, sim senhor, mas tire daí o cavalinho da chuva, porque dali não leva nada.» -
Múmia quis saber o seu nome. Respondi:
     «Chama-se Profe.» - Torceu o nariz. Enchi alguns copos de bebidas e aproveitei a falar a Pipa e Carocha se estavam interessados em aceitar o convite.
     «Então, como é, vão buscar as minhas amigas ou não? –
Não se fizeram rogados. Escrevi a direcção no papel e sumiram-se pela sala fora.

… O que se passou com Pipa e Carocha, quando foram buscar as minhas amigas, foi desconcertante.
   «Nunca supus que nos enganasses», diz Pipa com olhar espantado, meteste-nos numa alhada que estava a ver que o manco, ia dar com a muleta ali nos costados do Carocha.» -
Olhei admirado para eles.
   «Que história é essa do manco?» - Carocha interpôs-se:
   «Tu quiseste foi despachar-nos para levar a Profe a ver as estrelas e nós é que nos lixámos.» -
Estava confuso.
   «Francamente, cada vez percebo menos do que vocês estão para aí a dizer.» -
Carocha deitou mão à garrafa de cerveja e mandou uma golada abaixo.
   «Nós fomos à direcção que nos destes, saí do carro e fui bater à porta do apartamento. Em vez de aparecer a tal menina América, saiu de lá um manco a refilar.
   «Aqui não mora nenhuma América, ponha-se daqui a calcantes, antes que me enerve» -
   «Insisti com ele, mas o estupor do manco encrespou-se para mim e gritou para alguém dentro de casa. “Chega-me aí a minha muleta que este gajo está a incomodar-me.”
   «Não me quis chatear com o desgraçado e virei as costas, vindo para o carro.»
Padeiro deu uma gargalhada.
   «Está mas é calado, piraste-te antes que o manco te desse uma cacetada por esse lombo abaixo…» -

                                                                                                                                      Extraído do livro: Escritos Traidores.  


Wednesday, December 30, 2015





A pensão do avio ficava bem perto da Praça dos Poveiros. No Largo do Padrão, os únicos que andavam por ali perto eram os homens da rapidinha, à procura de um consolo. Nos dias esfriados, ao cair da noite, as gordas e magras mulheres do avio costumavam manear-se pelos passeios da rua e pensar que, numa boa hora, estariam a apanhar um freguês, para o levar para o cardenho. Chegavam, até, a fazer de sentinela um pouco antes de aparecer a aurora. Havia um café a cerca de quarenta metros mais à beira na rua onde, por vezes, com as malas aos ombros, as mulheres, encostadas às montras mostravam os seus atributos. Mas, habitualmente, engatavam-nos ao passar com um piscar de olhos acenando a cabeça, pois já era habitual. A pensão do avio era conhecida como a velha pensão de Coelho Neto. Na verdade, Coelho Neto era apenas o nome da rua. A pensão era num prédio antigo pintada de cor deslavada com três andares, e tinha janelas, com vistas para a rua. O dono pedinchara aos proxenetas para porem as suas prostitutas a servirem de taxímetro nas ruas e levar os homens para os quartos. Os proxenetas gostavam muito da dormida de Coelho Neto. Diziam que uma dormida naquela pensão sabia tão bem como uma boa golada de vodka para os aquecer nas longas frias noites de sentinela à espera delas. A pensão de Coelho Neto amontoava as prostitutas à volta dos passeios, até pareciam uma verdadeira escolta. É claro que a vizinhança já não se importava com aquele cenário porque já estavam habituados. Mas não era suposto alguém se incomodar com aquilo durante estes anos todos. De resto, quando havia quaisquer escaramuças, os proxenetas eram os primeiros a refugiarem-se num qualquer local da cidade. Depois de a procissão passar, o dono voltava a oferecer-lhes uma dormida e trazerem as mulheres para o negócio, e tudo voltava à mesma forma.

Naquela noite de Dezembro, a rua parecia escura e solitária e as poucas prostitutas que se aventuravam no vaivém, como era habitual, sempre que passava alguém pelas proximidades, diziam vamos subir aos homens que as olhavam, uns por acaso e outros para um caso. Jó, a prostituta da rua, acabava de iniciar a sua faina e puxava os colarinhos do blusão para cima quando viu umas pernas longas atravessar a rua ao fundo. Era um homem alto. Parecia tão alto como um gigante e tinha despertado nela uma curiosidade súbita. Avançou na sua direção e, agarrou um velho exemplar da Nova Gente, preparado para o atrair. Jó gostava deles assim. Altos, fortes e grandalhões. Se tivesse sorte podia ganhar com ele o equivalente a dez cabritos. Já não era a época dos camones, mas aquele devia ter estado a emburricar por ali perto ou algo semelhante. O camone foi direto a ela, batendo as mãos para se aquecer e exclamou num português tacanho “tu fode?”. Ela disse que sim e enfiaram-se os dois dentro de um cardenho aquecido por um aquecedor a gás. Ainda estava algum calor lá dentro... O alemão atirou uma nota para cima da cama que agradou a ela e preparou-se para o trabalho. Sorrateiramente, Jó olhou de soslaio por entre a enroscada camisa e, reparou que as suas duas longas pernas já tinham saído para fora da cama. A seguir veio o serviço. Mas o camone nem lhe deu tempo para respirar e, atirou-se para cima dela. Uns minutos depois, caiu para o lado com um suspiro profundo e, por fim, ouviu-se apenas uma exclamação ofegante Oh, My God. Não mais do que um espernear de corpo; a satisfação era visível. Vestindo-se trauteando, já que a noite estava ganha, Jó voltou a pisar os passeios para fazer-se à vida. Foi nesse momento que um tiro entoou. Correu para uma portada de um prédio, colocando os braços sobre a cabeça, de maneira a proteger-se e procurou ver o que se passava lá à frente. Aguardou e contou os segundos, sustendo a respiração. Dezoito, dezanove, vinte. As estrelas brilhantes sobre a cidade ofuscaram-na. Escurecera; ouviu um ah ténue à distância e a primeira luz surgiu dum prédio. Um feixe de luz branco e brilhante, pouco luminoso quanto baste. Lá no fundo, por entre a luz de um carro, um grupo de homens deixava um rasto que se assemelhava a sangue humano. Rapidamente, Jó, sacou do telemóvel e ligou para o 112. E, então surgiu outro feixe de luz e depois outro. Três, quatro, cinco, todos voltados em direção ao corpo, estendido no chão, que procurava levantar-se a custo. Depois, surgiram pessoas vindas de outros lados. Jó correu até ao fundo. O corpo ainda mexia. E foi nesse momento, com a ajuda de algumas luzes que o reconheceu, com a sua velha revista numa mão. Vermelho como um pimento, agarrado ao braço ensanguentado. O camone agarrou a mão de Jó e esboçou um esgar sofredor. «Polissia! Polissia! Roubaram meus marcos...!» De repente, ouviu-se a sirene, muito veloz, à entrada na rua. Tinoni, tinoni! A ambulância estava a chegar. E, mal o enfermeiro o ajudou a pô-lo na ambulância, Jó apercebeu-se que não era tão grave. O seu estômago contraiu-se como um soco. Não estava com medo; apenas lamentava. Subitamente, toda aquela cena escura se transformou num lívido e brilhante branco. O barulho da ambulância a arrancar ecoou pela rua. O frio notava-se nos rostos gelados das pessoas. Todos permaneciam em silêncio, excetuando o frenético ladrar de um cão; numa varanda. De seguida, ficou tudo tão tranquilo na Rua de Coelho Neto! Apenas na rua alguns transeuntes citadinos que podiam muito bem ser confundidos com os mecos... E passo a passo, com o olhar concentrado, Jó voltou às lides.

Naquela altura, teve início uma segunda procura de consolos. Alguns homens chamavam as prostitutas, através dos carros, originando uma onda de palavrões incorrigíveis. Podia ter feito alguns deles, mas não se atreveu a aventurar-se. Certa vez, assistira ao que um gangue tinha feito a um dos clientes da pensão, o velho picheleiro Tomás. Foi Jó, precisamente, quem o encontrou. O vidro do carro partido e Tomás jazia como uma almofada sangrenta. Roupas rasgadas, golpeado no pescoço, num estado lastimoso e ofegante... Rastejava, penosamente, de um lado para outro. A princípio, Jó, pensou que ele estivesse morto. Mas o pobre Tomás ainda dava sinais de vida, esticando as pernas na direção da porta e, após esticar um bom bocado, respirou devagar, mas muito profundamente. Subitamente, decidiu que preferia ser cortada pelo gangue do que ficar testemunha daquela embrulhada. Colocou a saca sobre os ombros, numa tentativa de não perder o que ia lá dentro, e correu em direção ao posto policial mais próximo. Enquanto percorria, uma respiração muito forte alastrou-se. Recordou que percorreu como o corredor de pista até alcançar a meta. Achou que nunca na vida correra tanto. Mas os seus esforços revelaram-se preciosos. A polícia levou-a de volta até ao local e encaminhou o pobre Tomás numa ambulância para o hospital. Começou a olhar para o relógio. Em breve, o trabalho da putaria acabaria. Em breve, estava a deixar a rua e a entrar no seu quarto... Um táxi buzinou. Era sempre fácil identifica-los, porque os táxis traziam um candeeiro aceso sobre o tejadilho. Uma voz vacilante, exclamou: «Me-ni-na! Me-ni-na!», fazendo o gesto com a mão. Como uma cobra, esgueirou-se rente aos prédios. Uma corrida de cem metros livres. «Me-ni-na!», levantou de novo a mão em direção ao braço. Queria dar a atender onde tinha sido ferido. Apontou para baixo para o braço atado ao peito. «Mim...tá...vivo!» Parecia muito radiante consigo próprio. Tomou outro fôlego e exclamou: «Mim... ter sorte». Jó fitava-o sorridente, pacientemente. «Portuguese, não ser bom atirador!» A seguir exclamou em voz alta e calorenta. «Tu... me-ni-na grande... ami... amiga ser».  Jó nem queria acreditar, nesse momento, viu uma lágrima a descer pelo seu rosto. Estendeu os braços e deu-lhe um abraço. «Friend, Friend», a sua mão enorme, em busca, à volta do corpo dela, até que a segurou. «Friend, Friend.»Assim permanecerem enquanto o taxista aguardava e zumbia o taxímetro à volta deles, e as luzes se apagavam intermitentes e poucos carros se ouviam na rua. E foi assim que as colegas foram dar com eles, quando se despediram. Olharam, estupefactos, para os dois, à luz do candeeiro da pensão de Coelho Neto.

Naqueles tempos, criar amizade com um camone era um caso raro. Seria considerado leviandade. Chamava-se Jack Smith. O camone escrevera a Jó depois de chegar a Inglaterra para lhe agradecer. Enviou-lhe uma fotografia da mulher e do filho. Jó ficou contente. Pela família. Mas nunca lhe respondeu. Sentia-se demasiado confusa. 
Ainda se sente.



Tuesday, December 8, 2015





A entrada no alterne de Elisa Mota começara quando tinha a menoridade e fazia gazeta ao trabalho para ir beber um drinque a um pequeno bar de Nevogilde, com uma saia justa. Um freguês aproximou-se dela e perguntou-lhe se alguma vez tinha pensado em entrar para o alterne. Por intermédio de um amigo do freguês, Elisa (cujo alcunha era Bomba-Loira) conseguiu estagiar aos fins-de-semana num cabaré do centro. A «rapariga da saia justa» ganhou fama durante o estágio e tornou-se a mulher preferida dos clientes boémios. O seu primeiro casamento à moda de Campanhã, (juntamento) com o chefe de mesa durou três meses, provocando-lhe um vazio no coração. O segundo juntamento, um afamado boémio chamado Tony Chucha, convidou-a para uma ida ao casino em palpite de uma sorte, juntando-se a ela dois dias depois; era mais velho quinze anos. O seu terceiro juntamento foi com um comercial, Morgado; o quarto com o chamado Grego do Grupo de Traidores, Lacerda. Teve também um numeroso grupo de flirtes sobejamente conhecidos, com o Cavaleiro da Triste Figura, Dom Paco e o grupo dos Cartolas. Em meados dos anos 90, a sua imagem de «rapariga da saia justa» foi esquecida com a idade e a sua carreira estava a apagar-se.
                                                                                       
Depois de ela acabar a relação com o Grego, Serrão, antigo pretendente à vista, apareceu-lhe repentinamente, convidando-a para tomar um copo, apesar de ter o carro avariado. Serrão era um tipo frangalhote, com uma cor esbranquiçada, que tinha por alcunha «Pintor», manifestamente porque uma parte do seu vocabulário tinha por hábito pintar todas as telas. Como a maioria das loiras, Bomba-Loira gostava de homens dominadores e grosseiros. Num dia, Serrão dissera-lhe: «Quando eu digo cala-te, tens de calar; quando digo vem, tens de vir». Bomba-Loira não se opunha a receber as ordens, mas, quando estava com os gazes à solta, o seu temperamento era conflituoso. É verdade que havia uma obsessão mútua. Quando ela veio à residencial fazer amor com o Grego, Serrão esperava-os no átrio e, depois de uma discussão tão barulhenta, ameaçaram-se um ao outro de pistola em punho, os amigos viram-se forçados a separá-los. De regresso ao trabalho, foi com Serrão passar um fim-de-semana para a Foz e a cama fê-los esquecer os conflitos.

No Dia do Trabalhador de 1995, Serrão e Bomba Loira foram para o apartamento desta, na Senhora da Hora, discutindo violentamente. O barulho era tão intenso que Bomba Loira receou que ele fosse deitar a casa abaixo. Mas quando começou a gritar, pedindo-lhe que se fosse embora, um vizinho bateu à porta para ver o que se estava a passar; o pintor abriu a porta e pisgou-se numa brasa. Nesse momento, a Bomba Loira correu para o vizinho a gemer, de olho pisado «à Neca». Pouco depois, o olho de Bomba Loira deixou de inchar. O caso apareceu na primeira página de O Jornal Dos Traidores e juntou achas à fogueira, quando o antigo homem de Bomba Loira, o Grego, declarou aos amigos que se o pintor lhe batesse outra vez, lhe pregaria um tiro na cabeça. As fofoquices de desgraça apressaram-se a divulgá-las em maior escala. Revelavam concretamente que ela estava desesperadamente apaixonada por Serrão. A sós, Bomba Loira e Serrão tiveram toda a noite na marmelada e, juraram um pacto de não-agressão. Nessa altura, os bares não tinham dúvidas de que, para espanto de todos, a desgraça teve um efeito favorável; a clientela de Bomba Loira, que estava em baixa, renasceu em grande. Durante a passarela para a eleição de Miss Lord — o concurso que englobava as mulheres de bares — clientes da sala gritavam: «Estamos na bicha, Bomba Loira». E a sua clientela aumentou uma vez mais, como sucedera no início dos anos 80. A desgraça revelou-se o melhor meio de promoção.



Quando Novais ou «Baixinho», veio para O Mundo da Noite, no início dos anos 80, consta-se que riscou no papel de um guardanapo uma lista de nomes de prostitutas com quem queria ir para a cama, e depois, riscava-os um a um depois de conseguir os seus intentos. Contava-se a piada que, para os empregados de mesas de O Mundo da Noite a definição de «mulher esquisita» era aquela que não tinha caído nas graças de Baixinho. Mas os fala-baratos do bar aproveitavam-se em catapulta para se baterem a todas as doçuras que adoravam Baixinho pela calorenta balela da sua voz e pelo seu sorriso atrevidote.