Saturday, October 3, 2015
Friday, September 4, 2015
Eis como, nas mais diversas
situações, Artur Bófia foi ao encontro do amor
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Para
Artur Bófia, o amor era como o atuar.
Esta é a história de um dos seus casos
amorosos. Tinha regressado da esquadra do Porto, depois de mais uns dias de
licença. O dia estava chuvoso. Poucas eram as pessoas que andavam a pé pelas
ruas, mas de todos os estabelecimentos topava-se pessoas a ver a chuva a cair,
e outras enroladas numa conversa. O ar cheirava a lavado e fresco. Quando, às
quatro da tarde, a chuva pareceu querer escassear por uns instantes, Artur
Bófia que tinha passado um bocado no café, saiu e pôs-se a caminho da casa do
Pipocas. Estava com frio e com saudades. Na altura em que chegava precisamente perto
da loja de frutas, levou com uma tromba de água em cima. Artur Bófia ficou como
um gato-pingado. Correu da chuva, e procurou a casa mais próxima, que era
aquela onde habitava a tia Justa, uma viúva de cerca de trinta e oito anos,
cuja recente viuvez a deixara razoavelmente calçada. A tia Justa era em geral
aberta e descomplexada, o que de certo modo, dispunha-se sempre alegre. Quando
Artur Bófia bateu à porta, tinha ela acabado de tomar um banho e estava a secar
o cabelo. Quando abriu a porta, Artur Bófia estava á entrada pingando água para
cima do soalho.
—
Entra e aconchega-te, antes que te constipes — disse a tia Justa.
Artur
Bófia, olhando para os seios como um mirolha observa um elefante, tirou o
casaco. A chuva batia no telhado. A tia Justa pegou numa garrafa de uísque e
colocou-a no centro da mesa.
—
Queres tomar um copo de uísque?
Ainda
o primeiro copo de uísque não estava emborcado e já os olhos de Artur Bófia
estavam de novo pregados nos seios. Bebeu o copo de uísque antes de proferir
palavra. A tia Justa bebeu também, pois só assim conseguiria descontrair e
começou a saborear o uísque quando bebeu uma boa dose.
—
Este uísque não é do mercado?
—
Ah, pois não; uma amiga minha, uma senhora espanhola é que mo orienta.
Embutiu
novo copo.
Começara
a escurecer. A tia Justa atirou umas achas para o lume. «Já que a chuva tem de
cair, que caia», disse de si para si. Fixadores, os seus olhos prenderam-se no
enorme físico de Artur. O peito encheu-lhe um pouco.
—
Andas a vir muito para estes lados, meu malandro. Chega-te, dá-me a roupa, que
é para a pôr a secar, e cobre-te aí com o cobertor.
Artur
Bófia não usava muito a mentira. O seu pensamento não atinava lá com esse
processo.
—
Tive no café a fazer horas com uns amigos.
—
Mas estás feito numa rodilha.
Captou-o
em busca de alguma reação em relação à sua generosidade, mas o rosto de Artur
Bófia não alterou uma unha sequer, a não ser o contentamento que sentia por
estar coberto da chuva e a beber uísque. Estendeu o copo para beber de novo. A
tia Justa emborcou outro copo para si. O fogo aquecia, deu uma sensação de
bem-estar que contrastava com o bater da chuva no telhado. Artur Bófia não fez
o mínimo esforço para se mostrar grato para com a anfitriã. Bebeu o uísque em
pequenas doses, sorria estupidamente para o fogo e fumava na cadeira. A ira e o
desespero crescerem na tia Justa. «Olhem para este animal», disse de si para
si. «Olhem que besta esta que me havia de aparecer. Antes tivesse eu abrigado
um cão da chuva. Outro homem qualquer teria para mim, pelo mínimo, uma palavra
amiga.»
Artur
Bófia pediu para encher mais um copo. Foi a vez de tia Justa dizer o que ia
dentro da sua alma.
—
Quando a chuva cai e o fogão arde, não há como um grupo de amigos aconchegados
no calor, não achas?
—
Acho.
—
Talvez as persianas te incomodem — arriscou ela. — Queres que as feche?
—
Não me incomoda — respondeu Artur Bófia —, mas se vê inconveniente, não faça
cerimónia.
A
tia Justa fechou as persianas e a sala mergulhou no semiescuro. Depois, voltou
a sentar-se esperou que Artur despertasse a sedução. Aos seus ouvidos chegou o
ruído do brusco atirar do fumo do cigarro de Artur.
—
Pensar — disse ela —, que ainda há minutos estavas lá fora, a correr da chuva,
e agora, estás aqui, sentado na cadeira, a beber bom uísque, a fumar a teu
bel-prazer e na companhia de uma viúva que te estima que quer o teu bem.
De
Artur Bófia nem uma palavra se ouviu. A tia Justa não o via nem ouvia. Bebeu o
último trago do uísque e atirou às malvas a vergonha por ares e ventos.
—
A minha amiga Xanana Maluca contou-me que alguns dos teus amigos a visitaram
numa ocasião em que chovia a rodos e ela tratou-os tão bem que eles foram muito
gentis com ela.
Da
direção de Artur veio o som de um pequeno ronco. A tia Justa quando se aproximou,
nem queria acreditar no que os seus olhos estavam a ver. Artur Bófia estava
mergulhado num profundo sono. A cabeça voltada para trás, os pés atirados para
a frente, a boca toda escancarada. Enquanto a tia Justa, atordoada e chocada,
comtemplava a cena, um tremendo ronco saiu da boca de Artur Bófia. Passou-se
dos carretos. Nas suas veias correu uma boa dose de revolta e frustração. Não
gritou. Não, embora a sua vontade fosse tanta, dirigiu-se à banca da cozinha,
encheu um balde de água, deixou-o atestado, e pegou nele. Depois, voltou-se
lentamente para Artur. O primeiro lanço apanhou-o na metade da cabeça e
atirou-o da cadeira ao chão.
—
Reles! — gritou a tia Justa —, reles imundo! Vai roncar para a tua rua!
Artur
rolou pelo soalho. O lanço seguinte fez-lhe um penteado novo no cabelo todo
puxado para trás. Artur Bófia despertava agora rapidamente.
—
Ei! — disse. — Que mal eu te fiz?
—
Já te digo! — gritou ela.
Abriu
a porta para trás e com o dedo esticado fez sinal de marcha. Artur Bófia
levantou-se meio cambaleante sob as enxurradas de água. Saiu pela porta fora,
enxugando o cabelo com as mãos.
—
Não atires mais água — implorou. — Mas que mal eu te fiz?
Com
uma fúria animal, agarrou-se a ela e caíram no carreiro do jardim. A fúria dele
era terrível. Sem deixar de a largar, segurou-a forte contra si, enquanto ela
agitava violentamente os braços, para se libertar dele. Continuando a agarrá-la
e estado abraçado a ela, o amor surgiu nele. Acariciou-lhe o cabelo,
percorreu-lhe o corpo com as mãos grossas, sacudiu-a como se sacode uma trouxa.
Apertou-a por uns momentos até a calma dela abrandar.
—
Reles imundo — gritou —, cão!
À
noite, no Marco de Canaveses, um guarda-noturno patrulha as ruas a pé para
impedir que as coisas boas se transformem em más. Desta vez José Gabardines
equipava uma gabardina impermeável com um brilho semelhante ao alcatrão. José
estava triste e chateado. Não era nada difícil fazer patrulhamento nas ruas
pavimentadas; mas parte do seu itinerário estava localizado nas ruas de
paralelepípedos e nos caminhos lamacentos do Marco de Canavezes e aí, os seus
calos sofriam mais. A pequena lanterna iluminava aqui e ali. A noite
resplandecia com intensidade.
De
repente, José Gabardinas gritou, espantado, e olhou para o chão.
—
Ei, lá! Isto já vai aí?
Artur
Bófia voltou a cabeça.
—
Oh, és tu, José? Ouve, já que de qualquer modo viste o que não devias ver, não
podes mudar de rua uns minutos?
O
guarda-noturno fez as pernas mudar de rota.
—
Acabem mas é lá com isso. Ainda alguém vos topa e vocês ficam nas bocas.
O guarda-noturno
desapareceu por detrás do edifício dos correios. A chuva batia de mansinho por
entre as árvores do Marco de Canaveses.Monday, July 13, 2015
NÃO
VOS PASSA PELA CABEÇA OS CASOS QUE SE PASSAM
NOS CAMPOS DO
FUTEBOL.
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NUNCA
VOU ESQUECER A PRIMEIRA VEZ que fui à bola. A primeira foi no estádio das Antas
em 1959, quando o Porto jogou frente ao Atlético e ganhou. Tinha 13 anos e
passei semanas a comportar-me bem para ver o meu nome na lista dos
bem-comportados. Nos primeiros cinco minutos, julguei que me iam levar ao colo,
tal era o fluxo da multidão, mas logo, aqueci com o ambiente. E, fartei-me de
levar encontrões e pontapés nas canelas. Jamais tinha ouvido tamanha barulheira
de gritos como na entrada da equipa do Porto, e naquela tarde, deviam estar
mais de 30.000 pessoas no estádio, mas quando eles se punham a gritar todos ao
mesmo tempo, parecia que o estádio ia abaixo. É uma experiência que fica
marcada para sempre. Eu fiquei apanhado para a bola. Basta ver, quando o
jogador chamado Hernâni, toque subtil na bola, faz um sprint veloz, já sabemos
que o avançado tinha meio golo nas botas.
Vinte
anos depois, tornei-me sócio do F.C. do Porto, e voltei ao mesmo local onde
tinha estado, vinte anos antes. Muitos dos momentos mais memoráveis da minha
vida, sem dúvida, saíram-me dos campos do futebol. Vinte anos depois, quase uma
centena de jogos vistos, os casos mais extrovertidos ainda perdura na minha
memória. Recordo o homem das rifas da Ribeiro que começara a ficar nervoso, no
jogo em que o meu clube empatou em Coimbra, contra a Académica; viajamos quatro
no carro e repartimos as contas à moda do Porto, e entramos aos repelões no
estádio às 3 da tarde. O jogo começava uma hora depois. Apareceram aqueles
chatos rapazes da terra, cabelo à escovinha, que se fartaram de nos picar,
quando deixamos de os ouvir, já o rifeiro tinha enviado um sapato à cabeça de um
deles. Menos de 5 minutos para acabar o jogo, há um livre soberbamente marcado
por Cubilas e o empate surge, e o delírio nas bancadas passa-se dos carretos.
Logo o segundo sapato voa em direção à cabeça dos rapazes, que fogem em
debandada. Ele começara a rir-se e não conseguira parar. Troquei de turno ao
trabalho, em 1978, para ver o jogo em que o meu clube se tornou bicampeão
contra o Barreirense, no estádio das Antas. Recordo o momento em que o jogador
Oliveira, o nosso cérebro da equipa falhou o golo ao poste contrário por uma
unha negra. Quando um sócio do meu clube de rádio ao ouvido, ouvindo o encontro
do rival, grita para ele aos altos berros, chamando-o de aselha e boémio para
logo a multidão cair numa barulheira infernal durante 5 minutos, para aclamar o
genial golo de Oliveira, já se sabe que o rádio voa das mãos do sócio e alguém
vai ficar em mau estado.
Mais
uma.
Que
rica tarde soalheira nos aguarda à chegada ao campo do Varzim para assistir ao
jogo que interessa ao meu clube: a vitória dá-nos o título de tricampeão. E nas
bancadas, logo a seguir ao primeiro pontapé na bola, a emoção sobe ao rubro em
jogadas a rondar a baliza contrária, perante o arrastar das vozes da multidão
em pulgas, na eminência de ver uma bola entrar. Uma escapadela do jogador azul
e branco põe tudo em choque, mas o avançado sem acerto atira a bola pró monte.
E
o último quarto de hora é de gritos. Quando soa a apitadela final, o empate
persiste, e a equipa do Varzim dirige-se à nossa bancada para a despedida da
praxe, é claro que sai vaia e em seguida um coro de raiva. Quando um rapazito
dos nossos, sufocado em lágrimas, sobe ao gradeamento debaixo de uma emoção
forte para um polícia de cassetete na mão cair em cima dele, já se sabe, que a
nossa claque e massa associativa solta um longo Ah, Ah, Ah, durante 20 segundos, e rápido o polícia cavar dali em
passo de corrida.
E
mais outra.
Ir
a Viena de Áustria em 1987, quando vencemos o Bayern de Munique na final da
Taça dos Campeões Europeus, e ver o fenomenal calcanhar de Madjer, é coisa
única no nosso historial. Sumir chiclete atrás de chiclete até os engolir durante
uma das maiores aflições de uma tarde gloriosa do Porto trazer a taça UEFA, em
Sevilha, no ano de 2003. Essa era uma das minhas histórias que tinha para
contar daqueles jogos e nunca deixei de o fazer.
Porque
gostava de as contar.
Tuesday, June 2, 2015
─ Recordo-me de casos ─
~~~
Nas
casas da noite da minha cidade havia patrões que foram empregados da hotelaria.
Eram bons profissionais. Tinham de ser. Se não fossem, os empregados
sabê-lo-iam logo. Sabe muitas coisas, essa gente da noite. E recordo-me de uma
noite, era ainda um novato, em que me encontrava no começo da minha carreira.
Havia uma boate na cidade aberta há pouco tempo. A sala estava cheia de gente e
havia mulheres bonitas vestidas à moda, uma pista de dança e uma artista de strip-tease. E durante a noite as
pessoas divertiam-se e bebiam que se fartavam. No reservado do centro, um dos
patrões chamou o sócio-trabalhador e disse: «Quero que me tragas a artista do strip-tease. E que a ponhas aqui
sentada ao meu lado, acompanhada de uma garrafa de champanhe francês.» «Antes de
actuar ou depois?», perguntou o sócio trabalhador. O grande boss deitou-lhe a mão no ombro e
prosseguiu: «Quero que digas ao rapaz da cabina para pôr aquele disco “Je
T´aime Mon Amour” e que abaixe a luz da pista, porque me dá uns calores
diabólicos e quero relaxar. Também desejo não ser incomodado, nem pelos
clientes, nem pelos amigos, pois quero estar à vontade. Estou em minha casa e
os meus amigos que se divirtam. Diz-lhe que venha bonita. Diz-lhe isso. E
diz-lhe também para pôr aquele perfume nocturno. O barman que faça umas tapas variadas e pede-lhe também para pôr umas
fatias de presunto como eu gosto. Trata disso rápido.»
─
Porque lhe teria dado para aquilo? ─ perguntou o cliente.
─
Tinha visto a stripper ─ respondi eu.
─ Não era capaz de passar sem vê-la. Assistia a todos os shows e, passados uns dias, pegou no dinheiro todo que tinha no
banco e começou a procurar uma casa. Foi então que resolveu abrir uma boate.
Arranjou um sócio-trabalhador para orientar o negócio e deu-lhe uma cota
adiantada. O boss nunca mais largou a
stripper. Adorava-a.
─
Deixe-me só dizer-lhe isto ─ interveio o cliente. ─ Ele meteu-se no negócio da
boate com todo o dinheiro que tinha, apenas porque viu uma strip-tease?
─
Ele não era o dono da boate ─ esclareci eu. ─ Os clientes nunca são donos das
casas que frequentam. Mas por amor de uma stripper
habilitou tudo.
O
cliente ao lado estava a falar no seu sotaque citadino e, para eles, baralhado.
─
Acredito que o gajo, pá, teria pensado que era uma dança sensual e nunca
tivesse assistido a um espectáculo de strip-tease,
mas depois um gajo, pá, acaba por se habituar a tudo. Num bairro um
indivíduo habitua-se a viver em meia dúzia de horas, depois pensaria noutras
coisas.
─
É uma história bonita ─ declarou o cliente, com total espontaneidade que os
outros votaram para ele os olhos sorridentes.
Abraão, em: bardotraidor.blogspot.com/ Porto.
Monday, May 4, 2015
Nesta
cidade tudo se resolve. És Chefe de mesa, rapaz. Não podes ter o aspecto da
Padeira de Aljubarrota nem do Zé do Telhado. Esse belo salteador. Deve ser
atraente ser-se assim, ter uma vida atribulada e terra em vez de miolos. Mas
deve ter pensado que não nascera para ser mártir quando acabou deportado
naquela província colonial, em Benguela, com os nativos correndo à volta das
fogueiras, e as silvas esmagadas pelos mocassins dos seus pés, e sem mais nada
que os conformasse além do trepidante e adorável som do batuque, e os seus
próprios guerreiros a rebolarem-se uns contra os outros, com medo que as
fogueiras se apagassem. O seu corpo estava indescritível, escrevem aqui em O Primeiro de Janeiro. E foi naquela
terra de Angola, onde conheceu a sua hora fatal, a última e para sempre. Pobre
salteador, pensou. O fim de todas as suas ilusões. É a única coisa boa que têm
os salteadores. Nunca têm ilusões, excepto más ilusões.
O
Chefe, em Os Rapazes da Noite.
MANUEL
DIAS,
que foi considerado o melhor motorista de todos os condutores que por aí
circulam nas estradas, nesses tempos, ele guiou desde bicicletas, motorizadas, furgonetas,
camionetas de carga, tractores e carros de todas as cilindradas até chegar ao
famoso R.R. (Rollys Royce.) E ainda guiou uma avioneta que sobrevoou Vila Nova
de Gaia sem uma asa. Ele conta esse acidente com grande satisfação: Assim que vi a avioneta sem uma asa, pensei
logo em safar-me e levei o aparelho para a zona do Cabedelo e fui perdendo
altura até embater contra um pescador e, por coincidência, foi o pobre
desgraçado que serviu de asa, acabando por equilibrar a avioneta e, assim,
aterrei na areia sem danos maiores, a não ser o pescador, que fracturou meia
dúzia de costelas e partiu a cabeça.
Extraído do livro,
A Música Que Eu Dou.
Saturday, April 4, 2015
Doc
e Sapatas
____
A
NOITE, era
frequentada por gente de diversos escalões sociais. Uma tarde, numa mesa
encostada à parede, o médico Doc ficou sozinho na mesa, mandando-se ao lado do
copo de conhaque, de olhos abertos, sorrindo, sorrindo e sorrindo. Enquanto
isso, o cliente sai dos lavabos e dá com ele e pergunta:
«Vai
consultar alguém, doutor?» – Doc abriu os olhos de espanto: «Sapatas! –
respondeu, sorrindo. – Que andas por aqui a fazer, meu tratante?» -
Era
um homem muito calmo e tinha uma deficiência física; manejava ao caminhar.
Abeirou-se dele, o doutor Doc não abriu a boca enquanto ele se aproximava,
somente sorria:
«Só
vim beber um copo.» - Disse o manco, «admira-me é vê-lo por cá!...» -
«Eu
Sapatas? Diz Doc olhando-o nos olhos. - «Engana-me que eu gosto.» -
«Com
licença, doutor», disse Sapatas, sentando-se ao pé dele. «Vou beber aqui uma
bebida à sua beira; sabe que gosto muito de falar consigo.» -
«Eu
sei que sim», responde ele. «É o desgosto de te atraiçoar com a tua amiga que
te dá a volta à cabeça. Como é que eu podia saber uma coisa dessas?»
O
empregado interrompeu-os e trouxe mais duas bebidas para eles beberem. Voltaram
a recorrer à conversa, mas num molde diferente. Doc pergunta-lhe:
«Já
que resolveste passar o tempo ao pé de mim, vais ter de me dizer, como é que
vai o teu romance com a amiga brasileira?» -
Sapatas
encolhe os ombros e responde:
«Sei
tanto como o senhor!» exclamou, levando o copo ao ar. «Ela tanto está comigo
como com o doutor.» -
Doc
sentia uma enorme dor de cabeça e olha para ele pelo canto do olho. «Continuas
a não ter juízo. Qualquer dia, prego-te com uma injecção nessas flautas»,- diz o doutor numa voz rompante, «de maneira a que fiques coxo!
Talvez assim te possas endireitar mais!...» - Riu-se desabafadamente. Sapatas,
aborrecido, vira a cara para o lado. Momentos depois, o doutor Doc levanta-se e
põe-lhe a mão sobre o ombro, dizendo: «Vamos às putas.» -
Citado
por, Doc e Sapatas, em Escritos
Traidores.
O Cliente e o Travesti
_________________
O
cliente recordou o momento em que ele, militarista, tinha sido incorporado para
o Ultramar, quando resolveu entrar num njght-club
de Lisboa e foi apanhado pela atuação da stripper e olhara, em profundas miradas, que era uma artista cheia
de curvas, atraente e boa dançarina e, muito dada a exibicionismo. Nessa noite
levara-a para um motel silencioso e um calor derretera-o com as labaredas a
subirem-lhe pelo corpo, de modo que, quando a manhã se abriu, tinha dado o
frosque em delírio. «Dois pratos! Consolaste-te, meu rapaz!» Na terra tinha
confessado aos amigos que nunca apanhara quem lhe fizesse um bico como aquele! Nunca lhe passara pela
ideia ter gozado tanto como nessa noite. Quando voltou a visitar o night-club, duas noites depois,
verificou que a stripper já não fazia
parte do programa. E perguntara ao empregado de mesa que lhe comentara: ─ Quem?
O rabeta? ─ Ele principiara a rir-se e não conseguia parar. Essa era outra das
muitas histórias que tinha para contar daquela situação e nunca deixava de o
fazer. Porque gostava de contar.
A
RUSSA DE ESPINHO era endiabrada. Sentada à mesa de
clientes seus conhecidos, só se conformava quando estava a beber. Em
determinada altura, virou-se para o cliente: ─ Ó Manecas, só sabeis discutir de
futebol, parem lá com isso, e põe-me a beber, senão, piro-me já da mesa. ─ Os
amigos riam-se, mas ele não gostou da piada. ─ Vê lá, mas é se te calas, não
penses que me esquecei da partida que me pregaste ontem à noite, não senhor. ─
Ela refilou: ─ Não comeces a chatear-me o juízo, ontem à noite fui para a cama
e adormeci, não tenho culpa quando acordei já teres saído do quarto. Um deles
opinou:
─
Ó Manecas, então não acordaste a pequena? ─ Ele exaltou-se e deu um murro na
mesa. ─ Sabeis que este estupor, ontem à noite, deitou-se na cama com a roupa
vestida, nem os vitorinos descalçou;
passados uns minutos ressonava que nem uma porca, ainda fui ao bidé, enxuguei a
toalha em água fria, bati na fuça dela várias vezes mas, mesmo assim, não
acordou…
Abraão, em Escritos Traidores.
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