Saturday, February 7, 2015




O PALHAÇO ZECA era quem me ensinava a dominar a arte de equilíbrio sobre rolos. Não há problemas, dizia ele: “Se caíres o melhor que tens a fazer é pores-te de pé”… E a dominadora dos cães vadios que passavam por tigres de Moçambique? Quem não a conhece? Fico deslumbrado ao vê-la de chicote na mão a fustigar os pobres animais aos berros: “Salta” uma, “Salta” duas, e à terceira vez, o cão que se esquecesse de saltar a argola de fogo levava com semelhante chicotada pelas orelhas abaixo que só parava na porta do vizinho das salsichas, a cerca de duzentos metros dali.

                                                                           Abraão, em A Música Que Eu Dou.

     
                                              O tirolês…  
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Ai vai mais uma. A música rancheira estava em voga no Porto e só Berto Conga sabia fazer o tirolês com a perícia de um guardador de cabras quando chama o rebanho. A única lembrança que tenho desse momento foi vê-lo a cantar numa carroça atrelado a uma pileca, num espaço aberto. A zona estava cercada de gente, na sua maioria, moradores de ilhas e bairros das redondezas. Depois apareceu Berto Conga, agarrou no sombreiro e cantou. Mexicano tradicional. E cantou à sua maneira.

                                        Pelos prados do belo Arizona… 

E depois: ─ veio o tirolês. ─ O público ficou assombrado com o jeito que ele dava à sua garganta, juro. Mas a pileca, pelo jeito, não tinha a mesma opinião e desatou aos pinotes, distribuindo coices à carroça que acabou por se soltar e fugiu dali para fora que mais ninguém a conseguiu apanhar. Assim que os aplausos, um tanto vibrantes, acabaram, o locutor anunciou música para bailar. ─ Oh! Que coisa mais estúpida ─ berrou Berto e saltou para o chão, atrás do locutor. ─ Não tapaste os ouvidos ao burro, ─ sorriu o locutor para ele, indo ao seu encontro.


                                                                   Extraído do livro A Música Que Eu Dou.


Thursday, December 25, 2014


                                             
                       
                                                   O meu “Bolinhas”
                                                           ~~~

Já lá vai um bom par de anos, numa segunda-feira, quando comprei o meu primeiro carro. Ainda recordo da sua matrícula; BF-19-03 – Morris Minor de 1953, cor vermelha e riscas lilás. Era propriedade de um colega meu do conjunto onde eu tocava viola que, o tinha lá encostado na sua velha garagem. E eu gostei daquele automóvel. Comprei-o a prestações e custou-me quatro contos e quinhentos escudos. Era um carro à inglesa; tinha o banco de trás comprido e forrado a pele e dava a impressão de uma sala de visitas. Tinha um espaço quanto baste para duas pessoas pôr as pernas à vontade. E às vezes servia como beliche; tinha as cadeiras da frente que, quando rebaixavam, o tornavam íntimo e prestável. Conduzi por um cemitério local a cem metros de distância. Não havia lá nada que me estorvasse, mas ao curvar o muro, calculei mal a curva, e lá deixei a minha marca. Levei algum tempo a limpá-lo e a pô-lo bonito, puxando o lustro aos cromos com graxa dos sapatos, e pintando os pneus a branco estilo barão. Não me lembro de me haver sentido mais entusiasmado e com enorme alegria. Demorou poucas horas para que o meu “Bolinhas”, como o batizara, se transformasse no meu objeto de eleição. Andava comigo para todo o lado. 
Naquela época eu trabalhava em night-clubs, como violista de um duo. Lembro-me do frio que ele fazia no Inverno quando eu levava as catraias a casa pela madrugada e como estas desatinavam aos gemidos. Era um carro de muitos buracos. Não aquecia ninguém. E às vezes eu abria os vidros para elas respirarem para dentro, e só depois os fechava, para sentir mais calor. Quando a noite estava mais fria, o remédio era uns bocados de cartão e pano grosso que, assim, tapavam os furos. Por essa altura mantive namoro com uma camareira, que me pediu para levá-la à sua terra, perto de Chaves. Antes de ir levá-la, fui lavar o carro e perfumei-o todo por dentro. A viagem até à sua terra correu de feição, o pior foi o regresso. Atravessámos as terras de Chaves no meio de uma tempestade de neve a cerca de 50 metros da estação ferroviária. A minha companheira deitou-se ao comprido no banco traseiro, e cobriu-se com uma manta. De repente, um camião em sentido contrário, saiu fora de mão e barrou-nos a passagem. Saí do carro e fiz então parte da equipa de automobilistas que tentaram retirar a neve dos trilhos. Passado algum tempo, o limpa vidros bloqueou e tive que o substituir; pondo a mão de fora para tirar a neve e desembaciar o vidro. Chegamos ao Porto praticamente gelados, porque o sistema de aquecimento deixou de funcionar e o carro converteu-se num frigorífico… e era isso mesmo. Levei cinco a horas a chegar ao destino. A catraia parecia ter saído de um caixão. Ela nunca havia confiado muito no Bolinhas; aquela viagem não concorreu para melhorar a sua opinião.   
Com a falta de trabalho que se gerava, não sobrava muito dinheiro para a gasolina e um fadista meu amigo, quando precisava que o levasse para um espetáculo, chegava-se a mim e dizia: “Mete dois litros…” e, lá íamos numa calma. E depois de alguns minutos, propagou-se no interior um cheiro a borracha queimada. O meu amigo fadista e os seus acompanhantes, saltaram do Bolinhas, gritando: “Pára! O carro vai incendiar-se!” Parei o carro e eles saíram para fora. A princípio, não sabia donde vinha aquele cheiro. Talvez um curto-circuito; talvez um fio a bater na chapa. Mas aos poucos fui desvendando o mistério. Eu já tinha adquirido um certo instinto para estes serviços. O problema era passar a luz de mínimos para médios; a fase entrava em choque. Assim, a viagem foi feita em mínimos.    
Lembro-me da crise económica dos 70 e as complicações que eram na bicha nos postos de gasolina. Não havia muita paciência para muito e num domingo à tarde, fiz uma viagem com o Bolinhas pela terra de meu pai, com uns amigos. De vez em quando alguns carros passavam por nós, apitando; seus motoristas e seus passageiros gostavam de pegar com quem conduzia antigos carros. Mas naquele tempo, ou a gente era descontraído com o próprio carro, ou não ia a lado algum. Após dois quilómetros de viagem, consegui ultrapassar o carro que me tinha ultrapassado antes, creio que era um Peugeot cabriolet, de matrícula francesa. Ele deixou-se enganar na estrada pela bicha à gasolina, e eu passei por ele com uma vaia em voz alta e áspera: “Comi-te, franciú!” Depois, escondi o Bolinhas no primeiro cruzamento, e uns minutos depois, lá apareceu o Peugeot a todo o gás. E nós adorámos aquele momento.       
Durante a minha louca juventude fazia um rode de coisas que naquele tempo pareciam banais, mas que hoje seriam consideradas completamente loucas. Um amigo meu, por sinal, era meu companheiro do duo, convenceu-se que um dia havia de me comprar o Bolinhas. O carro, porém, não estava mecanicamente em condições. Disse-lhe que não se aventurasse a isso; não queria vê-lo no hospital. Andei meio quarteirão antes que um ruído suspeito aumentasse na parte de frente do carro e a mangadeixa se desintegrasse com um estrondo semelhante à pancada duma marreta. Logo a parte da frente afunilou. Não sei qual foi a minha ideia, mas o que fiz foi concreto: vendi o Bolinhas conforme estava ao sucateiro por 5oo paus.
Hoje nada é igual. Agora é tudo eletrónico, cromado e pinturas brilhantes. No passado um carro era uma coisa tão familiar, tão próxima, tão importuna e querida quanto uma mulher. Hoje nada é igual. Espero que nunca mais seja…


                                                                                                                                                                                                 Abraão, Porto.


Saturday, December 13, 2014


                                                             Os «Peidos» da Artista
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Tal como diz a letra do fado Recordações dum breve amor, os dois subiram por uma escada tosca de velhas tábuas; a cama negra e tão esburacada, e de alguns lençóis iguais, deixaram recordações dum breve amor. Mal ele pôs os pés no quarto, despiu-se e foi ao bidé lavar as partes de baixo (banho de puta), enrolou-se no lençol em forma de charuto e meteu o braço por debaixo da cabeça, pondo-se a contemplar a cantadeira com os olhos em bica. Ela foi a seguir. Despiu-se a temperatura rondava os 20º, lavou-se da forma que o companheiro fez. A voz dele cortou o silêncio.
─ Tomara muita rapariga nova ter o teu cabedal! ─ Ela envaideceu-se e pôs-se a cantarolar uma cantiga, deixando a água correr pela torneira do bidé. De súbito, os efeitos de gazes do champanhe acumulados na sua barriga, fizeram um estrondo no quarto: pum, pum, e logo a artista se descontrolou, atirando com semelhante peido cá para fora, que entoou pelo ar.
Padeiro saltou da cama aos berros:
─ Que grande badalhoca ─, tinha o rosto de uma escultura. ─ Isso não se faz a um homem. ─
Mamuda levantou-se, cambaleando, e percebeu que as lágrimas que lhe caiam pelos olhos tinham também desespero. No instante em que, ele já equipado com a roupa, revoltado, arrancava o passo para a saída, voltou-se para trás.
─ Ó mulher, tu nem digas nada, olha que azar o meu, vir aqui para gozar um pouco e levar com o peido da artista, essa é boa. ─
Abandonou o quarto às gargalhadas. Quem o visse, até diria que era maluco. 
                                                                       

                                                                                                                                 Abraão, em Escritos Traidores.


                                                      Uma Noite de Copos
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E numa noite fria de Fevereiro, Nicha, algo nervosa, levantou-se da cadeira, começando a contar a sua desgraça num desespero total. Aquela desventura com o colega de trabalho que conhecera no bar, apareceu a nu e deixou-a de rastos, conforme salientou através das suas palavras:
─ Acabei a minha ligação com esse homem. ─ A cozinheira tentou confortá-la. ─ Ó mulher, ainda há dias estavas tão feliz com ele? ─ Ela não esteve pelos ajustes. Cheia de fúria, atirou com a tigela da sopa para o chão.
─ Se sois minhas amigas, não me faleis mais desse cavalo. ─ O silêncio tornou-se irrespirável. Menino Quim tirou os óculos da cara, pondo-se a limpar calmamente as lentes, com o guardanapo de papel. Bilontra tentou pôr água na fervura.
─ Tem paciência, sei muito bem o que é gostar desses bardamerdas que não nos merecem sequer uma unha do nosso pé. ─ A cozinheira voltou a interferir. ─ Ontem, ri-me tanto, quando contaste que foste com ele beber um copo à discoteca, depois levou-te a casa, querias que ele subisse ao quarto mas ele não quis; às tantas, tiraste-lhe os sapatos e obrigaste-o a ir descalço para casa. ─ Ouviram-se risadas. Repentinamente, Nicha bateu fortemente com a colher na mesa. Voltaram-se todos.

─ O cavalo não quis subir mas fiz com que fosse para casa sem sapatos, só para a mulher o ver descalço. ─ Soltou uma valente gargalhada. O jantar havia terminado, olhei de esguelha para as garrafas de vinho sobre a mesa, estavam completamente vazias. Fez-me lembrar certo provérbio: «O homem bebe para embebedar-se ─ mas a mulher bebe para alegrar-se.» Cada um de nós voltou para a sala.

Lá dentro, outra festa ia começar.


                                                                               Abraão, em Escritos Traidores.

Friday, November 14, 2014


NÃO VOS PASSA PELA CABEÇA OS CASOS QUE SE PASSAM NOS CAMPOS DO FUTEBOL.
                                                                          ~~~~
                                           



NUNCA VOU ESQUECER A PRIMEIRA VEZ que fui à bola. A primeira foi no estádio das Antas em 1959, quando o Porto jogou frente ao Atlético e ganhou. Estava eu internado na Casa de Correcção do Porto, e a direção do Porto ofereceu gentilmente bilhetes à instituição. Tinha 13 anos e passei semanas a comportar-me bem para ver o meu nome na lista dos bem-comportados. Nos primeiros cinco minutos, julguei que me iam levar ao colo, tal era o fluxo da multidão, mas logo, aqueci com o ambiente. E, fartei-me de levar encontrões e pontapés nas canelas. Jamais tinha ouvido tamanha barulheira de gritos como na entrada da equipa do Porto, e naquela tarde, deviam estar mais de 30.000 pessoas no estádio, mas quando eles se punham a gritar todos ao mesmo tempo, parecia que o estádio ia abaixo. É uma experiência que fica marcada para sempre. Eu fiquei apanhado para a bola. Basta ver, quando o jogador chamado Hernâni, toque subtil na bola, faz um sprint veloz, já sabemos que o avançado tinha meio golo nas botas.
Vinte anos depois, tornei-me sócio do F.C. do Porto, e voltei ao mesmo local onde tinha estado, vinte anos antes. Muitos dos momentos mais memoráveis da minha vida, sem dúvida, saíram-me dos campos do futebol. Vinte anos depois, quase uma centena de jogos vistos, os casos mais extrovertidos ainda perdura na minha memória. Recordo o homem das rifas da Ribeiro que começara a ficar nervoso, no jogo em que o meu clube empatou em Coimbra, contra a Académica; viajamos quatro no carro e repartimos as contas à moda do Porto, e entramos aos repelões no estádio às 3 da tarde. O jogo começava uma hora depois. Apareceram aqueles chatos rapazes da terra, cabelo à escovinha, que se fartaram de nos picar, quando deixamos de os ouvir, já o rifeiro tinha enviado um sapato à cabeça de um deles. Menos de 5 minutos para acabar o jogo, há um livre soberbamente marcado por Cubilas e o empate surge, e o delírio nas bancadas passa-se dos carretos. Logo o segundo sapato voa em direção à cabeça dos rapazes, que fogem em debandada. Ele começara a rir-se e não conseguira parar.

Troquei de turno ao trabalho, em 1978, para ver o jogo em que o meu clube se tornou bicampeão contra o Barreirense, no estádio das Antas. Recordo o momento em que o jogador Oliveira, o nosso cérebro da equipa falhou o golo ao poste contrário por uma unha negra. Quando um sócio do meu clube de rádio ao ouvido, ouvindo o encontro do rival, grita para ele aos altos berros, chamando-o de aselha e boémio para logo a multidão cair numa barulheira infernal durante 5 minutos, para aclamar o genial golo de Oliveira, já se sabe que o rádio voa das mãos do sócio e alguém vai ficar em mau estado.

Mais uma.
Que rica tarde soalheira nos aguarda à chegada ao campo do Varzim para assistir ao jogo que interessa ao meu clube: a vitória dá-nos o título de tricampeão. E nas bancadas, logo a seguir ao primeiro pontapé na bola, a emoção sobe ao rubro em jogadas a rondar a baliza contrária, perante o arrastar das vozes da multidão em pulgas, na eminência de ver uma bola entrar. Uma escapadela do jogador azul e branco põe tudo em choque, mas o avançado sem acerto atira a bola pró monte. E o último quarto de hora é de gritos. Quando soa a apitadela final, o empate persiste, e a equipa do Varzim dirige-se à nossa bancada para a despedida da praxe, é claro que sai vaia e em seguida um coro de raiva. Quando um rapazito dos nossos, sufocado em lágrimas, sobe ao gradeamento debaixo de uma emoção forte para um polícia de cassetete na mão cair em cima dele, já se sabe, que a nossa claque e massa associativa solta um longo Ah, Ah, Ah, durante 20 segundos, e rápido o polícia cavar dali em passo de corrida. 

E mais outra.
Ir a Viena de Áustria em 1987, quando vencemos o Bayern de Munique na final da Taça dos Campeões Europeus, e ver o fenomenal calcanhar de Madjer, é coisa única no nosso historial. Sumir chiclete atrás de chiclete até os engolir durante uma das maiores aflições de uma tarde gloriosa do Porto trazer a taça UEFA, em Sevilha, no ano de 2003.


Essa era uma das minhas histórias que tinha para contar daqueles jogos e nunca deixei de o fazer. Porque gostava de as contar.

Thursday, November 6, 2014


                                                     .

Meia-noite, mais ou menos. Um homem de chapéu enterrado na nuca vem do fundo da sala e caminha direito à casa de banho; pára, agacha-se para despertar a portinhola das calças e tira a gaita para fora, pondo-se a mijar para o urinol mas mija para o chão… e, em vez de mijar, põe-se a rir como um desastrado: «Olha para isto!» E volta a mijar fora do urinol!... «Esta está boa! Mas quem seria o filho da mãe que pôs ali aquele letreiro na retrete?...» E ele sai cá para fora e diz: «Que lindo serviço! Mijei no chão porque me assustei com aquele reclame que está lá escrito a letras gordas que diz: ─ QUEM MIJAR PARA O CHÃO FICA SEM A GAITA!... E o homem de chapéu enterrado na nuca sai para a rua desnorteado, fora de si, a levar na mente aquela tesoura no ar que viu na casa de banho, quase que lhe cortava a gaita!...

                                                                                                              Abraão em, Escritos Traidores.




                                                     O Fascista e o Candongueiro
                                                               ______________

     
Um fascista entra numa loja de mercearias e é abordado por um empregado. ─ O que deseja o senhor comprar? ─ pergunta o empregado com uma lista na mão. O cliente passa uma vista de olhos pela lista e pede um garrafão de cinco litros de vinho verde e um presunto e questiona: ─ Posso servir-me da mercadoria e deixá-la aqui a aguardar?
─ Muito bem. Mas quando pensa vir buscá-la?
─ Daqui a seis meses ─ responde o fascista.
─ Seis meses?
─ Desculpe, mas eu ainda não disse tudo. É que só penso pagar daqui a seis meses.
─ Isso é ridículo. E porquê esse tempo?
─ É que, daqui a seis meses, vou ter no cemitério um encontro marcado com um candongueiro. É uma pós-ditadura. 


                                                                                                     Abraão em, A Música Que Eu Dou.

Sunday, October 5, 2014


Conto Instantâneo



                                                                  Vassouras e o Vídeo
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Perto do centro da cidade, Vassouras descobriu, através das nascentes das águas e, acrescente-se, do mijo dos cães que abundavam a potes pelos cantos das esquinas, descobriu dizia eu, um produto eficaz para eliminar os ratos todos que vagabundeavam pela superfície da terra ; quando começou a matar os ratos e ratazanas pelos estabelecimentos, rapidamente criou o seu império de dinheiro que os amigos se pasmaram a pensar no negócio! Mas ninguém se atrevia a aproximar-se do seu negócio e lá ficou ele a vaguear pela cidade e a dar cabo da ratice toda que por lá abundava. Bem disso se quis aproveitar a namorada Batoque, começando por exigir algo mais que uns alternes.
─ Não me queres oferecer um vídeo para ver filmes? Sabes que não gosto de sair à noite de casa ─ O seu olhar meigo cativou-o num ápice, contrastando com o mau feitio dele. Não era capaz de lhe dizer não a nada. O pior vinha depois; um pouco gabarola, era frequente dizer aos amigos o que dava e o que não dava; daí, quando ela soube, foi aos arames e pregou-lhe uma partida. Um dia, pela manhã, esperou por detrás da persiana da sua janela, que ele viesse ao escritório situado a poucos metros do prédio onde habitava; quando o viu aproximar-se, gritou para a rua: Toma lá a merda do vídeo que me deste, podes dá-lo aos teus amigos. ─ Atirou o aparelho pelo ar, que foi estatelar-se contra as pedras da rua, ficando em bocados pelo chão. Ele não cabia na sua revolta, gesticulando com a sua mão no ar: ─ Ah! Minha rafeira, deixa estar quando voltares a pedir mais alguma coisa, vais ver o que te acontece. ─ Mandou um pontapé no resto do vídeo, que acabou por escaqueirá-lo ainda mais.           
                                                                                                                                  Escritos Traidores, de Abraão.





EM JANEIRO DE 1996, a senhora Tina, de cabelos loiros, apanhou o vício de fazer uns arranjinhos, e nunca mais desaprendeu. Era uma senhora de meia-idade conhecida por «Miss Piggy», num trocadilho usado em O Jornal Dos Traidores. A sua carreira foi premiada, quando se tornou dona de uma casa de passe em Rio Tinto, no Porto, — para satisfação dos clientes em geral, a maioria dos quais achava que as obscenidades escandalosas que se passava na sua casa suburbana eram mais para um gozo do que para injuriar. «A minha casa é suficientemente ARRUMADA para ser frequentada... e suficientemente INDECENTE para ser feliz».
Em Fevereiro de 1999, o nome da senhora Piggy apareceu em foco, de novo, no cabeçalho do pasquim, que anunciava a barafunda do estacionamento na casa junto à igreja de Rio Tinto. Contudo, desta vez não era necessário chamar a guarda, e dizia-se que a senhora Piggy afirmava: «Fi-los ver para porem os carros longe». Contou a um repórter mau-olhado de O Jornal Dos Traidores: «Hoje em dia, os vizinhos vêm algumas vezes uma quantidade de carros parados à minha porta e dizem: ´Então, já atendeste a tua família toda, Tina?` — ´Ai, já estava a contar com eles...

                                                                                                                                                  Abraão - Porto