Sunday, October 5, 2014


Conto Instantâneo



                                                                  Vassouras e o Vídeo
                                                                             ____


Perto do centro da cidade, Vassouras descobriu, através das nascentes das águas e, acrescente-se, do mijo dos cães que abundavam a potes pelos cantos das esquinas, descobriu dizia eu, um produto eficaz para eliminar os ratos todos que vagabundeavam pela superfície da terra ; quando começou a matar os ratos e ratazanas pelos estabelecimentos, rapidamente criou o seu império de dinheiro que os amigos se pasmaram a pensar no negócio! Mas ninguém se atrevia a aproximar-se do seu negócio e lá ficou ele a vaguear pela cidade e a dar cabo da ratice toda que por lá abundava. Bem disso se quis aproveitar a namorada Batoque, começando por exigir algo mais que uns alternes.
─ Não me queres oferecer um vídeo para ver filmes? Sabes que não gosto de sair à noite de casa ─ O seu olhar meigo cativou-o num ápice, contrastando com o mau feitio dele. Não era capaz de lhe dizer não a nada. O pior vinha depois; um pouco gabarola, era frequente dizer aos amigos o que dava e o que não dava; daí, quando ela soube, foi aos arames e pregou-lhe uma partida. Um dia, pela manhã, esperou por detrás da persiana da sua janela, que ele viesse ao escritório situado a poucos metros do prédio onde habitava; quando o viu aproximar-se, gritou para a rua: Toma lá a merda do vídeo que me deste, podes dá-lo aos teus amigos. ─ Atirou o aparelho pelo ar, que foi estatelar-se contra as pedras da rua, ficando em bocados pelo chão. Ele não cabia na sua revolta, gesticulando com a sua mão no ar: ─ Ah! Minha rafeira, deixa estar quando voltares a pedir mais alguma coisa, vais ver o que te acontece. ─ Mandou um pontapé no resto do vídeo, que acabou por escaqueirá-lo ainda mais.           
                                                                                                                                  Escritos Traidores, de Abraão.





EM JANEIRO DE 1996, a senhora Tina, de cabelos loiros, apanhou o vício de fazer uns arranjinhos, e nunca mais desaprendeu. Era uma senhora de meia-idade conhecida por «Miss Piggy», num trocadilho usado em O Jornal Dos Traidores. A sua carreira foi premiada, quando se tornou dona de uma casa de passe em Rio Tinto, no Porto, — para satisfação dos clientes em geral, a maioria dos quais achava que as obscenidades escandalosas que se passava na sua casa suburbana eram mais para um gozo do que para injuriar. «A minha casa é suficientemente ARRUMADA para ser frequentada... e suficientemente INDECENTE para ser feliz».
Em Fevereiro de 1999, o nome da senhora Piggy apareceu em foco, de novo, no cabeçalho do pasquim, que anunciava a barafunda do estacionamento na casa junto à igreja de Rio Tinto. Contudo, desta vez não era necessário chamar a guarda, e dizia-se que a senhora Piggy afirmava: «Fi-los ver para porem os carros longe». Contou a um repórter mau-olhado de O Jornal Dos Traidores: «Hoje em dia, os vizinhos vêm algumas vezes uma quantidade de carros parados à minha porta e dizem: ´Então, já atendeste a tua família toda, Tina?` — ´Ai, já estava a contar com eles...

                                                                                                                                                  Abraão - Porto


Saturday, September 20, 2014


Conto Instantâneo



                                               Frank e Cabide
                                                    _______


Na primeira semana de Maio, Frank rendeu-se aos encantos da Cabide e tornaram-se namorados numa noite de conversa fiada. Durante esse tempo todo, Frank acabou por confessar:
─ Agora que te encontrei, não me foges mais. ─
Noite após noite, Frank e Cabide estenderam a amizade criando um elo forte entre ambos.
─ O melhor que tu fizeste ─ disse Frank, ─ foi dizeres que me amaste a partir daquela noite. ─ E Cabide responde: ─ Também me ajudaste, não é? ─ Passou uma onda passageira pelo olhar de Frank. ─ Gosto do teu olhar de esgriva! ─ E a Cabide: ─ E eu gosto do teu estilo de samaritano! ─ Enquanto os outros clientes se divertiam no bar em contos e histórias, eles abandonavam a sala e desapareciam de repente. Apenas o recado: «volto já» Não muito longe da cidade, no 191, o número da porta do motel, os impulsos traidores esperavam por eles. Frank ficou de sentinela à espera que Cabide tirasse a mantilha de trapos que lhe aquecia os ossos do seu corpo esguio.
─ Cabide! Oh, Meu Deus como és tão magricela? ─ Ela dá pulos de galinha na cama, enquanto ele fica de crista no ar a olhar pasmado. Cabide vai ao encontro dele. ─ Tinhas-me de dizer isso? ─ Agarrou-lhe no braço. ─ Não vês que assim fico sem vontade?
─ É isso mesmo ─ diz Frank. ─ Diz-me onde é que eu me vou agarrar com este griso. Se ao menos tivesses umas banhas onde eu pudesse deitar a luva!...
─ Cala-te, que excitação a tua! ─ grita ela. ─ Arre que sarna! Embora seja magra, tenho um corpo para dar e vender! ─ Ele dá-lhe uma palmada no rabo e diz:
─ Ainda o dizes, rapariga! Mas eu, quando te apalpar, é para te partir toda! E finalmente, estou a ver-te com essa cara de galinha do mato!...
                                                                                                     Escritos Traidores, de Abraão.




                                                  A Despedida de Solteiro
                                                              ________

O meu bar tem duas salas que são utilizadas para todos os convívios. Numa noite, houve uma festa de despedida para um cliente de descendência alemã que ia casar no fim-de-semana. Como ia haver um evento na tarde seguinte, o pessoal da casa teve que deixar as mesas recheadas com pratos de frios e quentes. Pouco depois de terem ido saudar os clientes, umas artistas da rapidinha foram convidadas para a festa em que lhes foi pedido que «dessem uma goelinha». Contentes por já estar tudo em ordem, estavam a formar-se pares quando viram um letreiro escrito com o seguinte: «Felicidades para lá do Muro dos Prazeres» (Pensão).

                                                                                     ABRAÃO, em O BardoTraidor.blogspot.com


Tuesday, September 9, 2014



Conto Instantâneo                   


«Aprendi que cair no vício não é o cabo dos trabalhos»

MARIA ODETE criou uma das «pegas-espertas» mais badaladas da noite portuense. Mas a alternadeira de 37 anos, que passa por turista nos locais chiques da moda, tirou o curso nos bares dos hotéis e é conhecida por ser uma mulher inteligente, sagaz e intuitiva. Apesar de ter trabalhado nos bares e nos cabarés de segunda, Odete não considerava o mundo da noite como uma carreira. «Achava que todas as alternadeiras eram estúpidas cujo modo de vida não resultava», diz. «Tinha medo de que, se me tornasse viciada, as pessoas não me quisessem.» O que lhe metia medo também era apanhar algum vício.

Mas o desejo de mudar de vida era grande e, por volta de 1971, juntou-se a um grupo de viajantes e viajou em alguns cruzeiros de férias. Mesmo assim continuou a evitar correr riscos. Raramente ia em grupos. E a sua vida social era bem mais preenchida tal como a sua carteira. «Era o medo de estar no caminho viciado que me continha», diz. «Até que finalmente aprendi que podemos apanhar vícios e que não é o cabo dos trabalhos.»

Fez um bom pé-de-meia em 1975, e daí passou a lojista de uma sapataria, em 1977. Casou-se em 1976, e teve um filho em 1979, apresentando uma forma física invejável. «As pessoas perguntam se não estou nada preocupada com o fato de só vender sapatos», diz ela. «E daí? Incomoda-me que pensem que sou uma estúpida? Incomodei-me mais com isso quando era mais novata. Agora, passa-me ao lado.»                                                                             
                                                                                ─ ABRAÃO, em ahistoriadeumboemio.blogspot.com                          




 Dinheiro fácil                                                   
                    
   
DEPOIS DA ABERTURA AO PÚBLICO do bar Tempo de Mimos, o proxeneta Tono da Rola ganhou dinheiro fácil. «Num dia eu andava por aí engatando mulheres», recorda ele, «e noutro dia eram as mulheres que engatavam a mim.» Mas o ser engatado constantemente não o arrefece; é realista no que respeita ao poder do dinheiro e delicia-se com o proveito que ele tem representado para si. «Fiquei revoltado quando me puseram na choça por fomentar a prostituição. Estava agarrado às grades e pensei: ´Vou comprá-lo.` Chamei o guarda e disse-lhe: ´Veja isto ─ não é uma nota de cem euros tão sedutora?` É o tipo de coisa com que falamos quando somos confrontados.» Contudo, agravou ainda mais a situação ao ser-lhe anexado mais uma folha ao seu grosso processo. «Quando nos tornamos conhecidos, o nosso espaço torna-se muito perigoso. Passamos a estar um bocado mais sós porque nos limitamos às pessoas que conhecemos melhor. A família é a única coisa que tenho que é minha.»

                                                                                   
 ─ ABRAÃO, em bardotraidor.blogspot.com 



CONTOS DE RATAZANA
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O homem de inventar alcunhas e contos noturnos para escrever
Dêem-lhe uma dica e ele fabrica logo um conto


Aos 33 anos tornei-me boss de um bar de belezas, como eu lhes chamo, na cidade do Porto, e tudo o que desejava era escrever. Chegava a casa de madrugada e levantava-me às 9 da manhã para a escrita. Já era sabido por, à noite ou de dia, escutar com os meus ouvidos de mercador as conversas dos clientes quando era tocado por uma ideia que me fazia agachar no balcão, para pegar no papel e caneta para anotar.

Num dia de Setembro, um cliente e eu estávamos a tentar planear algo para chamar mais pessoas ao bar. «E se eu me dedicasse à escrita, e criasse um pasquim só para o bar?», perguntei. «Podia escrever aí, e anunciar como um daqueles ardinas dos jornais e ia dizendo: «Escândalos! Traições!» É certo que nunca o tentei. O desejo de escrever para os clientes incentivava-me, não como profissional, mas ao meu jeito. Por detrás dos copos, saquei um monte de rascunhos de pessoas que me contaram os seus desabafos, e peguei na minha máquina de escrever portátil comprada numa feira, e sentei-me à mesa. Se mais não fosse, daria uns bons contos para contar aos meus clientes. «Então o que dizem disto?», perguntei, olhando em volta do balcão, como um deputado à cata de votos. «Bem», disse um cliente, «é um pouco fofoqueiro». Não me ralei, a intenção era mesmo essa. Pus mão à obra e apresentei um ensaio ao primeiro grupo de clientes. 

E assim, numa cinzenta segunda-feira, dia 3 de Outubro de 1983, publiquei um pasquim chamado “Jornal Dos Traidores”, em que os protagonistas eram os clientes do bar, para todos criei alcunhas, todos aceitavam as regras, e pus o jornal ao fundo do balcão, onde colei um letreiro ao lado: «Contos Hilariantes de Amor e Traição dos Anos 80», ─ e convidei os clientes a lerem uns contos, enquanto bebiam. Alguns riam com ironia e diziam: «Que grande aldrabice!» Outros mostravam simpatia, «Um traidor com fome de amor!» Uma beleza perguntou se a notícia ao fundo, «Lésbica à solta na casa de banho!», aquém se referia. Nunca me senti tão embaraçado. A certo momento, aproximou-se um par traidor. «Não sei o que estás prá aí a escrever», disse a beleza, «mas seja lá o que escreveste, quero ler». Com um sorriso conivente, o homem acrescentou: «Não há dúvida de que o jornal é uma ideia absolutamente original!» Pedi-lhes para chegarem à frente (e fiz-lhes uma confidência) e contei-lhes um caso surpreendente. Título do conto: «A História do Morto-Vivo».

À medida que os jornais saíam, fui-me apercebendo do aumento de clientes-leitores no bar, seduzindo-se cada vez mais pelas notícias bombásticas. Por detrás de mim havia bate-boca e risinhos. Quando criei nova alcunha, levantei a folha do livro de registos, e deparei com cerca de quinhentas alcunhas à minha disposição. «Como me chamo!», perguntou o cliente. Logo respondi. «Bom Rapaz!». E fui aplaudido. Nesse período, o movimento do meu negócio triplicou-se. O jornal era o elo de ligação da malta, e estava a dar resultado. Escrevi contos atrás de contos. Em vez de me acomodar e reduzir ao stress, criei o blog: ´bardotraidor.blogspot.com`. A família traidora puxava por mim. Era a paga da minha invenção. Assim me transformei num Henry Miller, de contos eróticos.
    

Nesse primeiro aniversário de O Jornal Dos Traidores, tornei-me uma espécie de Grande Atração Noturna: Ratazana (eu), o criador de alcunhas e contos noturnos de escrever. Lance-lhe uma dica, ele fabrica um conto. Temi cansar-me pouco tempo depois. Mas 4 anos e dezenas de contos, incluindo livros, continuo expectante.

Desde então ligado ao meu trabalho dediquei a minha disponibilidade a escrever estes contos noturnos: no bar e no computador, em ruas e jardins, em cafés e festas. Nenhum lugar é impróprio desde que a veia se liberte. Quanto mais me instruo, mais pessoas procuram abrir-se comigo. Dão-me as suas dicas. Eu dou-lhes contos que são um passatempo interessante: Mas antes de escrever a primeira linha, dou-lhes os meus olhos, os meus ouvidos, a minha atenção total a mais de 100%. Neste momento a lotação disponível no Coliseu do Porto já não chega para sentar os clientes para quem escrevi e convivi ao longo destes anos (o número ultrapassa os 4.500).

Desde o primeiro dia que guardo na vitrina da minha sala os CD´s de todos os contos. A mesma que guarda os livros de capas brancas, vermelhas, verdes, azuis e cor-de-rosa ─ um arco-íris de contos, uma torre de pequenas lições de vida. Quase que posso dizer que ganhei a minha persistência. Mas gostaria de pensar que há mais alguma coisa que diz respeito ao fenómeno poder dos contos que contamos acerca de todos nós. Apesar de tudo, cada um nasce com dom de autor… do seu próprio conto de vida. Aqui vai a minha preferida: numa casa de lavradores de uns patrícios a 150 metros da Lixa, escrevi este conto para uma rapariga bonita e morena chamada Manuela e atrevi-me a ler a sua sina:

«Um Passeio Junto Ao Rio»
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Manuela não tinha namorado, não porque não lhe aparecessem mas, na altura sentiu-se um pouco confusa. Mas hoje, Manuela pensa que foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido. Uns meses entretanto decorridos, Manuela passou a visitar com assiduidade a sua vizinha e amiga, uma rapariga muito expedita, atinada e efectuosa. Quando está com ela, Manuela sente-se muito alegre, reencontra o afeto e o riso. Mas encontrará alguma vez a felicidade verdadeira? Um dia, após visitar a amiga, Manuela irá dar um pequeno passeio à beira-rio com um homem que conhece na casa da amiga. Ele far-lhe-á umas perguntas e a primeira coisa que ela pensará será: «Puxa vida! Este tipo agrada-me!», e depois irão namorar e apaixonar-se.

Talvez ele tenha vindo à festa da matança do porco, ou talvez estivesse a relacionar-se. Talvez passeasse. O certo é que vem da cidade e a encontra depois de uma visita a casa da amiga, quando ela nem sequer pensava nele. Há muitas raparigas na cidade, e muitos homens também.

 O CASO DE MANUELA e eu nos termos conhecido na marginal do rio não me acorreu no dia em que escrevi o seu conto. Uns meses mais tarde, sentei-me à mesa e peguei em papel e caneta para escrever. «Recorda-se de mim?», perguntou-me a pessoa ao lado. Era Manuela. Estamos casados há sete anos e temos dois filhos.



E FOI ASSIM que a minha ideia doida de escrever contos noturnos no bar não só me proporcionou uma aprendizagem fantástica na escrita, como me deu uma mulher e família. Poderia dizer-se que o meu sonho de me tornar autor de contos noturnos também se tornou realidade. Não certamente como pensara nas entrelinhas, mas a escrever livros no bar com uma folha A4 sobre uma personagem de cada vez. Mas também nenhum bom conto tem o desfecho que se esperava.   

Friday, August 15, 2014



CONTOS DE RATAZANA
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O Cliente e a lésbica…


Rtu!

O Cliente cuspiu no chão; ao mesmo tempo que se ergueu de um salto, como que impulsionado por uma mola; desejou amar ardentemente a Pina-Colada – como já anteriormente – muitas vezes repetira esse desejo. E, naquele dia, começou a sacudir o pó das mangas do casado e deu um jeito ao seu decoro olhando para o espelho: «Caraças, – gritou ele, andando para trás e para a frente – tenho que matar este desejo.» A seguir, tomou o caminho e começou a dar passos pelo passeio tipo militar – um, dois, um, dois, – entoando uma quadra chalada dum poema de Ratazana «Quando a sorte não penetra, três na peida, etc.» - Aproveitamos para referir que era um hábito, de alguns clientes, do Bar do Traidor de Ratazana, entoar os seus poemas malucos… «Vamos embora, meu velho, adianta o passo», – gritou o Cliente, fervendo com a ideia. – «Vamos tomar de assalto esse plano.» – Voltando costas às ruas, lembrando as boas recordações, apaixonado como sempre fora pelas boas novidades, ele teria dado ali (caso trouxesse consigo tal objecto) um tiro para o ar, tomando conta da Pina-Colada de assalto. Ao chegar à porta, inclinou-se para a frente, murmurando: «Já chegamos, agora porta-te bem.» – Pina-Colada era uma mulher lésbica; tinha à volta dos trinta e picos anos e olhava de uma forma sensual. E todo o seu corpo revestido de uma fina pele, lisa como o vidro, um sonho das Caraíbas…

Quando ele se aproximou, invadiu-o um calor tórrido de estalar, e sentiu o sangue a correr vertiginosamente pelas veias e a sua pele ferver como caldos de galinha. Estava cheio de palavras para lhe dizer tudo mas um «Olá» bastou para ele ficar ali como um morcão na expectativa a olhar para ela, como no filme A Vida é Bela, quando o Roberto Begnini choca com a sua Princesa e caem ambos junto ao celeiro e ele afasta-lhe as palhas do rosto, em vez de apalpar os marmeleiros, mas não, aqui não foi assim, porque, a acontecer isso, ele poderia levar uma lambada nas ventas e então sim, o caldo ficaria entornado… Tinha os olhos fitos na prateleira das garrafas e reparou então, através dos espelhos, que meia dúzia de lesmas estavam sentados à mesa a beber umas bebidas quaisquer. Às tantas, piscou os olhos com tanta força que ela finalmente sorriu, dando origem à ideia deles se sentarem a conversar. Escolheram um sítio recatado a um canto do bar. «O que é que julgas que eu vim cá ver?» Disse o Cliente de olhar sereno, enquanto, ela lhe pegou nas mãos e lhe fez uma meiguice. Começou a tremer; a vibração era tão intensa que ele receou que ela se apercebesse e puxou dum cigarro para descontrair. «Eu sei, eu sei.» – Respondeu Pina-Colada. E depois não disse mais nada. Estavam ambos no vazio do silêncio e, se ele quisesse apalpá-la, teria que inventar uma cena, só que não valia a pena preocupar-se agora com tais assuntos, pois ali, diante dele, surgiu o inevitável; a figura alta e desengonçada da Preta, com laço vermelho ao pescoço e um chapéu de coco na mão, calçando umas botas à cowboy verde-azeitona. «Isso é propriedade privada.» – Disse uma voz trémula e excitada. A seguir, a Preta inclinou-se para Pina-Colada e beijou-lhe os lábios, enquanto o Cliente se levantou silenciosamente e deixou-a a sós. E, à roda da cabeça do Cliente, desvanecem-se as ideias e perde-se na rua,

Quando mais tarde, Pina-Colada encontrou a figura bizarra do Cliente, deu-lhe uma explicação anda lá, esquece isso. Ao vê-lo através do vidro do carro, com os olhos enevoados de sono, sentiu pular o coração, tão forte eram as pancadas que receou que ele fosse parar; e foi naquela forma complacente que ela julgou esquecer o assunto como se nunca tivesse existido e desceu a ladeira do caminho acompanhando-o, de modo a nanar o problema. Normalmente ela era intransigente na defesa dos seus vícios, e quando os seus amigos, aos fins-de-semana a assediavam com propostas maliciosas, argumentava contra eles como uma fera danada, como ela costumava referir, ao explicar: – aqui é o meu paraíso, onde está o meu jardim, entendem? – E se eles respondiam malcriadamente – qualparaísoqualcaralhosuafressureira – ela ia ao balcão buscar um copo de uísque com gelo até cima, dirigia-se para a mesa do canto, sentava-se com uma revista na mão; tudo isto com um sorriso encantador nos lábios: Os cavalheiros não se importam que eu saboreie a minha bebida, pois não?... Oh!, ela era uma figura única, famosa na noite, rainha dos tablados onde os homens eram artistas e nenhum deles se pode gabar de ter conseguido pôr-lhe as patas em cima, não porque eles não quisessem, disse ela, mas porque foi ela sem apelo nem agravo que lhes deu de sopa. Para o Cliente não houve patas nem sopas e muito menos negas. Para ele no seu contexto, a amizade perdura para sempre quer haja baldas ou não. No seu padrão, a amizade é intocável e está acima dos desejos da pessoa. Depois dele molhar os lábios com a bebida que tinha na mão, tapou o nariz enquanto cheirava qualquer coisa à distância. Foi quando a Preta (que ainda continuava de chapéu de coco na tola), se aproximou. Depois, com um aceno de timidez, saudou-o com um ar altivo e murmurou um convite; – é melhor sentar-se aqui ao pé de nós para não apanhar frio. – Tornou a afastar-se a passo lento, deixando-o grato por lhe ter avermelhado o rosto, com aquela frase – um bom motivo para sorrir. Quando era uma miúda, Pina-Colada possuíra um rosto de uma inocente, verdadeiramente excepcional, um rosto que parecia de anjo. A sua pele suave e macia era como a de uma mão de Princesa. As suas feições gaiatas ajudaram-na bastante nas suas relações com as mulheres e fora, por assim dizer, um dos primeiros motivos apresentados pela sua primeira namorada, Susana Carrapito, para se ter apaixonado por ela. «Tens um rosto tão redondinho, pareces um queijo», – maravilhava-se ela, apertando-lhe o queixo entre as mãos. – «Um queijo amanteigado da serra.» Ela rendeu-se aos ditos. – «Não digas isso», – respondeu. – «Senão babo-me já toda.» - «Aqui dentro?», – perguntou a outra. – «Com toda esta gente?» Ela afastou-se para dentro. A partir daí atormentou-a durante algum tempo a ideia da sua atitude perante as mulheres; qual a medida a tomar para combater essa sensação e apurar esse desejo que era agora a sua segunda natureza. Teve, no entanto, a sua gravidade o facto de Pina-Colada, ao acordar de um longo sonho maléfico, transformado por várias cenas nas quais se destacavam imagens de Susana Carrapito na série de uma sereia cantando em cima de uma gigante baleia, não podendo pôr os pés em terra firme; chamando-a, chamando-a; – mas, quando foi ter com Susana, ela foi engolida pela baleia e o seu chamamento passou a ser um tributo de culpa e tormento… e quando Pina-Colada acordou e olhou para o espelho e descobriu a imagem de Susana a fitá-la com o seu rosto sedutor, atirou com o espelho contra a janela, partindo-o aos bocados pelo chão, dando sinais de indícios de que sentia uma enorme e forte dor de cabeça. Quando, mais tarde, pegou noutro espelho olhando para o seu rosto alterado, vendo um par de inchaços à volta dos olhos, horrivelmente feia, nem julgou ser quem era. Era já noite. Ela não sabia as horas. Além de não ter relógio consigo, no quarto não havia relógio. Vestiu-se à pressa e desapareceu pela rua a correr, em direcção ao bar. Volta de novo ao seu local de trabalho, como uma tresloucada à procura da sua amada. Visita a sala toda e descobre que a amante, sentindo-se sozinha, meteu-se na marmelada com outra rameira qualquer. Fica durante algum tempo imóvel, no escuro dum recanto da sala, sente-se traída e luta contra os seus próprios sentimentos. Depois, tira a fotografia da amante da carteira e rasga-a aos bocadinhos para o chão; e parte sem dar a conhecer a sua presença. Pina-Colada volta ao quarto e deita-se com a roupa vestida em cima da cama a chorar. «Putas malditas.» – Gritou para a roupa da cama que lhe amortecia a voz, enquanto esmurrava as fronhas cheias de folhos, compradas no Armazém Samberi da rua de Antero de Quental, com tanta força que o tecido velho de dois contos se desfez em trapos. «Mas que raiva. Que ordinarice, foda-se a puta, que pega.» Voltou a sair e foi para o mundo… O mundo da noite.

Passados dois dias, o Cliente voltou ao bar de Pina-Colada, que lhe havia dado toda a sua amizade. A um canto da sala, lá mesmo nos fundos, Pina-Colada quando o viu, serviu-lhe uma bebida e sentou-se ao seu lado, oferecendo-lhe um pouco de companhia. «Já em tempos falamos disto», – disse ela sem vontade de bater naquela tecla – «Uma mulher nesta vida não pode fazer planos, sem correr o risco de ir parar ao malagueiro - Ele respondeu-lhe: «Estou a ver que para ti não existe o amanhã nem o futuro.» – E ela confessou: queria dizer para ele deixar de exprimir certas coisas mas não era capaz. Não só por tirar-lhe a esperança vã, como sentir por ele uma paixão bacoca, conforme ela preferia dizer. «Não pensas ter um filho?», – disse o Cliente pondo o dedo na ferida. A princípio Pina-Colada protestou: – Mas qual é a tua? – mas depois, acalmou-se, bebendo um pouco de uísque e limpando a boca ao guardanapo de papel que trazia entre as mãos. «Quero ter um filho, mas só meu, e da Preta!...» - «Tu deves é estar doida dessa cabeça.» – Insinuou o Cliente. Havia quanto tempo que não falava assim. E desta vez, quem sabe, se não seria a última…Estava a ficar quente e escaldante o ambiente dentro do bar! Uísque de 18 anos só com gelo! Puríssimo! O Cliente, olhando à sua volta, confrontou-se com a opinião de que o jogo das mulheres da noite tinha a sua origem na carteira. «Quando o cliente não puxa das lecas à vista grossa», – explicou ao parceiro do lado – «quando o cacau não reluz como a luz dos candeeiros, é evidente que a mulher deixa-se adormecer e não vê nada à sua frente.» - O Cliente enumerou diversas vantagens sobre o sistema ao parceiro do lado que o ouviu atentamente. Numa instituição de vício e prazer, onde os modelos de comportamentos variam entre a casta de clientes, é deveras importante: música popular ou empatada de boa qualidade, caras giras e atraentes (de preferência, nacionais). Mais higiene e limpeza na sala e nas retretes, jarros de flores berrantes (cor de pêssego com lilás) a adornar os cantos. Um novo sistema sem pagamento de alternes e contas vultuosas, ar condicionado e ventoinhas de tecto em todas as divisões, separadores para os fumadores e não fumadores. Maior atracção do mercado, melhores bailarinas e uso de água destilada para os seus pés, além do papel, nos quartos de banho e bolas de naftalina para mal cheirosos. Desvantagens: chatos, lêndeas, baratas, barulho, chulos, preços em demasia. O parceiro do lado estava de boca aberta. Abrindo os braços, gritou: «É assim mesmo. Diz-me lá ó parceiro, onde mora uma casa dessas?» - Mas três coisas aconteceram, muito depressa. A primeira foi que pararam de conversar. A segunda foi que, assim que a garrafa acabou, eles pararam de beber. E a terceira foi que o Cliente abriu os olhos e olhou para o relógio; os ponteiros passavam do limite e ele achou que era tarde demais. «Ó Meu Deus, a que horas é que me vou deitar!» - Ele, mal chegou a casa, meteu-se na cama; sentia-se para lá dos confins do sono, mergulhado de cabeça enrolada entre o travesseiro e os lençóis com a miragem da cena do bar. Para lá do acontecimento tenebroso, passara horas de bom convívio. «É um vício lixado; os bebedores atraem os bebedores», – disse o seu subconsciente. – «Nunca mais ganho juízo.» – Deu uma volta para o outro lado da cama. Por fim, lá deixou escapar o último suspiro da noite.      


Tuesday, July 29, 2014



CONTOS DE RATAZANA (10)
UMA NOTA DE 2O EUROS
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A minha aposentação antecipada aconteceu aos 61 anos com uma média de 300 e picos euros mensais. A minha família era composta de quatro pessoas. Não conseguia arranjar um trabalho. Quem poderia ajudar-me?
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Pus pés ao caminho e andei porta a porta a deixar cartões a oferecer trabalho, que cobrisse o meu orçamento mensal: vinte euros por dias eram o suficiente. Uma empresa de V.N. de Gaia, convidou-me para prestar provas. Lá fui ter com uma doutora de vestido comprido e um penteado moderno. Ainda não me sentara e já ela abria a boca. «Qual é o ordenado que o senhor pretende ganhar?», disse ela. «Precisamos de alguém que tenha conhecimentos de software e armazém.» Aos 61 anos, eu parecia mais novo e não passava dos 65 quilos de peso. «Trabalhei no ano passado a segurança de um condomínio fechado», exclamei eu. «Doze horas seguidas, controlar relógios e fazer turnos não são coisas que me metam medo.» ─ «Qual é o ordenado que o senhor pretende ganhar?», insistiu ela. ─ «A doutora é que sabe. Se for o ordenado mínimo, tudo bem», respondi. ─ «Fico aqui com o seu contato e dentro de dois dias, dou-lhe uma resposta.» Assim foi. Dois dias depois, a doutora telefonou-me, dizendo que a minha candidatura ficara sem efeito. O que suponho haver candidatos que se ofereceram por menos ordenado. Isto passou-se em Setembro de 2010. A minha família acabara de se mentalizar quanto á minha nova forma de vida. Há algum tempo no desemprego, tive alguma sorte em conseguir uns part-times: administrar condomínios, às vezes motorista particular e também músico de adegas dois a três dias por semana. As minhas magras poupanças, guardadas numa lata, iam-se evaporando com a rapidez de um raio, e sendo o principal esteio da família, com os dois filhos a estudar, eu era o único que podia ajudar. Respondi a anúncios e pedi trabalho em casas comerciais, mas sem uma cunha os comerciantes não queriam apostar num sexagenário. Então, uma terça-feira, o telefone soou. Tinha sido escolhido para concorrer a um anúncio para cobrador de uma associação funerária. Aqui a idade não era impedimento, valha-nos isso! A seguir ao pequeno-almoço, meti-me no autocarro e fui para o centro da cidade. Com um jornal nas mãos, atravessei a rua e passei para o passeio do outro lado. Entrei na porta da associação, apresentei-me e fiquei há espera que mandassem subir para um salão na parte superior do prédio, os seis candidatos a duas vagas para o lugar de cobrador-comissionista. Lá dentro, sentado numa cadeira artesanal, estava um homem alto e com pouco cabelo. Mal a porta se fechou, dizia ele numa voz carregada de suspense: “Sejam bem-vindos à associação funerária.” Os meus companheiros estavam pregados às cadeiras. O rosto do parceiro ao lado parecia uma rocha. O presidente queria a nossa atenção. Garantiu-nos a quem ficasse c´o a vaga dos dois cobradores-comissionistas, que teria um ordenado chorudo: 850 euros por mês ou mais. Mas teríamos que apresentar uma caução no valor de vinte e cinco mil euros. Eu já estava desempregado há bastante tempo para entender como um trabalho era fundamental, ainda para mais, para um chefe de família. Galguei os degraus até à porta, meti a primeira e dei uma volta pelas ruas a puxar pela cabeça. Quem é que me poderia valer com uma caução de vinte cinco mil euros? Quem é que podia confiar em mim como meu avalista? A primeira pessoa que me veio à ideia, era um amigo ligado à imobiliária. Mas a sua resposta foi nula. A mulher teria de assinar e isso era um problema bicudo. Voltei à rua, subi o elevador, e toquei à campainha à espera que me abrissem a porta. «Olá, meu caro! O que o trás por cá?», sorriu o advogado, M´Cardoso, estendendo a mão para me cumprimentar. Engasgando, contei-lhe o problema: a associação, as comissões, a exigência que eles me fizeram sobre a caução. «De maneira que… será que o doutor pode ser o meu avalista dos vinte e cinco mil euros?», finalizei, entendo como aquilo soava despropositado. M´Cardoso olhou para mim como se quisesse ler o meu pensamento. Todavia, foi muito rápido na sua resposta. E sorriu para mim. «Descanse que não é por mim que perde este trabalho», disse, tirando uma folha da escrivaninha. Depois, pediu-me alguns dados pessoais, enquanto ia escrevendo, deixando a parte final para a sua assinatura e releu o documento em voz alta. Dobrou duas vezes o documento, colocou-o num envelope e disse: «Aqui está a caução de vinte e cinco mil euros. Quando sair daqui, vá ao notário reconhecer a assinatura, e está feito.» ─ «Muito agradecido, doutor», disse eu, estendendo-lhe a mão. «Quer que eu assine algum papel?» Ele abanou a cabeça. «Não, meu caro. Confio em si.» Entrei em casa eufórico como se me tivesse saído o euro milhões, e a minha mulher percebeu logo da minha felicidade. «Não demores!», gritou a minha mulher. «Leva a caução e vai já à associação.» Meti-me no autocarro, segui para o centro da cidade até à chegar à associação funerária. Subi os degraus como se fosse o homem-voador, e calmamente, entreguei o envelope à funcionária e disse: «Guarde bem a caução no cofre, dê-me o livro das cotas e as listas das moradas dos sócios.» Tinha preparado bem o discurso no autocarro. Na associação funerária, ao fim-de-semana, entrava-me na pasta uma montanha de notas e moedas, para pagamento de cotas. Eram quase três mil sócios para cobrar. Eu subia e descia quatro andares nos blocos dos bairros, num ritmo infernal… Ao fim do trabalho, mal podia com os calos de andar dez horas a pé sem descanso. No primeiro dia do mês, à medida que se aproximava a hora de entregar as contas, estava cada vez mais ansioso. Não fazia bem ideia de quanto iria receber de comissões. Quase ao abrir a porta da receção, a funcionária levou-me para dentro e perguntou: «Quanto é que trás aí?» ─ «Cinco mil, quinhentos e vinte e cinco euros.» ─ «Você trabalhou bem», disse ela. «Começou com 27,e 62 ao dia.» ─ «Três euros e quarenta e cinco por hora», murmurei. «Quase o dobro do ordenado mínimo.» Estava disposto a trabalhar por menos. Ao longo dos meses que se seguiram, aprendi muito na associação funerária. Quando não havia grande movimento, procurava angariar novos sócios. Nos cemitérios tentei falar com familiares que tinham jazigos e ofereci-me para limpeza e arranjo de flores, o que me valeu uma corridela do cemitério por parte dos coveiros, que vinham em mim, um intruso nos seus negócios. Passava algum tempo a assistir a alguns funerais. Então, um dia, um deles chamou-me a curiosidade. Era um funeral pomposo e cheio de etiqueta. Por si só, fazia um aparato tremendo para as minhas vistas em entusiasmo. Três homens saíram de uma carrinha fúnebre e cobriam o chão com uma passadeira vermelha até à entrada da igreja. Depois, ornamentaram com cordões à volta da passadeira e, por fim, puseram castiçais ao fundo. Ao olhar bem para o serviço, deixei escapar um sorriso sarcástico e perguntei a um deles. «Então, e o morto?» Ele olhou bem para mim como se me quisesse ralhar. «Não se atrapalhe, pois ele não vai faltar!» Voltei costas e segui o meu rumo. Entretanto, ia aumentando todos os meses as minhas comissões, até que no Verão estava a ganhar 30 euros ao dia, o melhor do que quando iniciara. Trabalhei para a associação até acabar o ano, um ano mais tarde, e ir tirar um curso para motorista de táxi. Devolvi a caução ao M´Cardoso, e mantivemo-nos sempre em contato durante décadas, nunca o perdi de vista e sei que lhe devo esta gratidão. Foi ele o verdadeiro salvador, que não só me salvou do infortúnio, como também me ajudou a construir um ambiente familiar melhor. 



CONTOS DE RATAZANA




O motorista de táxi de Massarelos, Francisco, era então, em toda a zona de Miragaia, o condutor mais mulherengo e o mais avarento. Na praça do Infante, passava ele as manhãs desse Outono, enfiado no seu blusão de couro, lendo o jornal sobre o volante, atrás de uma fila de carros, onde desde muito não saía uma carro da periferia, nem se via movimento na rua. Ao escurecer devorava uma sopa e umas sandes, acompanhadas com vinho. Depois, olhando o céu, ia dormir a casa da amante, para aproveitar o calor dela que, atirada como ele, rangiam as tábuas da cama. E o sexo tornara estes dois amantes mais bravios que lobos. Ora, no Inverno, por um calmo aproximar do escurecer de sábado, andando ele na Foz à cata de apanhar um turista de praia, o taxista Dias deparou por trás de um supermercado, uma velhota a olhar para o táxi. Francisco, olhou e viu que a velhota lhe acenava, voltou o táxi na sua direção. «Senhor motorista! Leve-me ao bairro do Aleixo, por favor!» Ao ouvir a palavra «Aleixo», o taxista ficou mais branco que a cera. Depois, gesticulando nervosamente, murmurou: «Não, minha senhora, para esse bairro não! Eu ainda de lá vim a semana passada, e só por recusar trazer três rapazotes, partiram-me o farol e fui corrido à pedrada! E perdi também a bandeirada, com uma vagabunda, que me pôs a secar no carro, pedindo para eu esperar, e até hoje, ainda não apareceu! Oh, minha senhora, para o Aleixo, não! Se aceitar que eu a deixa à entrada do bairro, que não me aventuro a entrar, já que o meu carro está marcado, eu levo-a, e levo-a já!» ─ «Estou tramada!» gritou a velhota, velha mais alta que um pinheiro, de curto penteado, e com uma cara tão risonha como a cor do tomate. Então Francisco, que era alto e moreno, e o mais indiscreto motorista de táxi, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por esperar o que a velhota decide. Por fim, brutalmente: «Minha senhora! O tempo tem horas… Eu quero trabalhar e levar a minha vida!» ─ «Também eu quero levar a minha, que raios!» gritou a velhota. O taxista sorriu, decerto, decerto, quem não quer! E logo ela, agarrada à carteira, murmura: «Senhor motorista, não sei como dizê-lo, mas tenho de estar esta noite no bairro. Vamos fazer um acordo! Eu lhe pagarei o dobro da viagem, se você me levar, ao meio do bairro!» Vivamente, Francisco agarrara o braço da velhota e abrira a porta traseira, para a deixar entrar. E partira satisfeito. «Ali à frente, ao meio da estrada da Circunvalação, há um sítio mais curto, e vamos pelas traseiras.» ─  «Qualquer sítio me serve, desde que me deixe lá.» Foram. O carro se enroscou por trás de um sítio que dominava o atalho, estreito e esburacado como um terreno de batatas. Francisco, saltitando no terreno, já tinha dado uns quantos solavancos. Enquanto coçava o bigode, calculava o tempo pelos pulos. Um grupo de ciganos passou por eles, resmungando. E Francisco, que lhes apanhara o rasto, recomeçou a pensar, com números, pensando nas voltas e reviravoltas que tivera no percurso. Enfim! Bairro do Aleixo! Entrara por um antigo caminho, e parou o carro na berma, murmurando em voz rouca: No meio do bairro! Daqui não passo!» A velhota puxou vagarosamente a carteira, mas oscilou, largando o dinheiro e papéis que caíram ao chão, e ambos se curvaram para os recuperar. Depois de pagar, ainda lhe deu dez escudos de gorjeta: e depois, ao sair, desejou-lhe boa viagem. Francisco voltou para casa. No regresso meditava na sua corrida vantajosa, enquanto a noite ia escurecendo, abriu um pouco mais o vidro, apanhando a brisa do ar que o fez tilintar os dentes. Depois de passar em torno do jardim, e encontrando dois pares de aos abraços e beijos, sentiu uma imensa fome de sexo. Desde uns dias só fizera uma à lá-minuta. E há quanto tempo não dava uma grande! De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar no acelerador, entre os tapetes, um pequeno pape sobressaía. Puxou-o por uma das pontas dos dedos, para junto dos olhos, e verificou a data. Como raio, aquilo viera parar ali? Era uma cautela da lotaria, andava à roda no dia seguinte. Guardou-a no bolso e entrou em casa. Com que apetite se deitou na cama, com as pernas abertas, e entre elas a amante loura, que acordara, e o desejo os unira. Rapidamente, essa necessidade a imaginação de trocadilhos de amor, de amantes acalorados, apoderou-se dele. Levantou uma perna da amante: beijava a deliciosos beijos. A noite escurecia, pensativa e doce, com sonhozinhos cor-de-rosa. Francisco ergueu à luz o corpo da amante. Com aquela cor nova e quente, não demoraria muito a aquecer. Pondo os mamilos à boca, sorveu com carícias lentas, que lhe faziam levantar os pêlos do peito peludo. Oh, carícias benditas, que tão prontamente aquecia o desejo! Depois, estendeu-se sobre o cotovelo, descansando, pensava em Massarelos coberta de casinhas pequenas em cima umas das outras, nas altas temperaturas do ambiente, por noite de frio, e a sua casa com aquecedor, onde teria sempre a amante. De repente, voltado para o ar, virou-se para o lado e adormeceu. Na manhã seguinte, ao levantar-se da cama, pela hora do silêncio, a amante loura entrou na cozinha para preparar o pequeno almoço, quando ergueu o olhar para o amante e foi como se uma mola a tivesse empurrado para pôr ordem nas roupas dele em total desordem pelo chão.  De repente, teve desejo de lhe ir aos bolsos. E fixou os olhos na pequena cautela… Depois de examinar a validade, pegou no pequeno papel, com vagarosa cautela, na ponta dos pés, voltou para a cozinha e ligou o rádio, porque estava na hora da extração. E, sorrateiramente, afinou os ouvidos, a ponto de ouvir, a cantada vibrante e prolongada, atirada aos microfones:

2! 4! 7! 3! 9!
3º Prémio,
      Quinhentos mil contos…

E imediatamente, com os olhos a reluzir de excitação e ansiedade, agarrou na cautela e saiu, correndo pela rua, até uma casa de lotarias. E aí, entregando a cautela, e o bilhete de identidade, esperou pacientemente, até receber o cheque endereçado, com as mãos a tremer de frenesim. A amante, correu pela rua ao banco, gritou para diante de si alegremente: «O! Sorte, nunca me vou esquecer do dia de hoje! E eu, que tantas vezes te implorei!»

                                                                 II

Mal a tarde chegou, Francisco, dentro do quarto apagado, ergueu-se da cama, sonolento e nu, correu para o chuveiro. E, animado com o banho, sem necessidade de mudar de toilette, vestiu-se. De repente, lembrou-se da cautela e foi ao bolso, e contemplou-a. Já entre as quatro da tarde o sol se refugiava. Puxou de uma caneca e bebeu um trago de café. Depois, ligou o rádio, ouvindo a repetição dos números sorteados:

2!4!7!3!9!
3º Prémio,
   Quinhentos mil contos…

Agora estava rico, só ele, e os quinhentos mil contos!... E Francisco abrindo os braços respirou deliciosamente. Mal se aprontou, com a cautela enfiada no bolso, apressou o passo pelas ruas que conduzem à casa da Sorte Grande, para receber o seu prémio! E quando ali se apresentou, para além dele e de um funcionário acompanhado de um agente policial, recebeu de imediato voz de prisão por frande… Fraude como? Recuou, caiu na cadeira, e levou as duas mãos aflitas à cabeça. Ainda se ergueu; com uma baba espessa a escorrer-lhe nos bigodes; e de repente, esbugalhando copiosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim toda a traição da amante, todo o pesadelo! «Maldita!» Oh! Francisco, o dinheiro era tentação! Porque a amante loura, apenas fora a uma papelaria tirar um fotocópia da cautela, mesmo antes de levantar o prémio, correra feita uma andorinha do mato a casa para deixar a cópia, e voltar a um banco, por detrás da igreja, a depositar o prémio e receber um cartão multibanco que, a tornaria a ela, a ela somente, dona de todo o dinheiro.

                                                                  III


Dois meses se tinham passado, sobre o roubo da cautela. A amante, cantando e rindo, levava uma vida de sonho no outro lado do Atlântico. Meia solteira, no seu chalé, toda ela se tornara morena a apanhar banhos de sol. Uma estrelinha do céu amparou-a. O dinheiro da cautela está lá, no chalé da baía.