Tuesday, July 29, 2014


CONTOS DE RATAZANA




O motorista de táxi de Massarelos, Francisco, era então, em toda a zona de Miragaia, o condutor mais mulherengo e o mais avarento. Na praça do Infante, passava ele as manhãs desse Outono, enfiado no seu blusão de couro, lendo o jornal sobre o volante, atrás de uma fila de carros, onde desde muito não saía uma carro da periferia, nem se via movimento na rua. Ao escurecer devorava uma sopa e umas sandes, acompanhadas com vinho. Depois, olhando o céu, ia dormir a casa da amante, para aproveitar o calor dela que, atirada como ele, rangiam as tábuas da cama. E o sexo tornara estes dois amantes mais bravios que lobos. Ora, no Inverno, por um calmo aproximar do escurecer de sábado, andando ele na Foz à cata de apanhar um turista de praia, o taxista Dias deparou por trás de um supermercado, uma velhota a olhar para o táxi. Francisco, olhou e viu que a velhota lhe acenava, voltou o táxi na sua direção. «Senhor motorista! Leve-me ao bairro do Aleixo, por favor!» Ao ouvir a palavra «Aleixo», o taxista ficou mais branco que a cera. Depois, gesticulando nervosamente, murmurou: «Não, minha senhora, para esse bairro não! Eu ainda de lá vim a semana passada, e só por recusar trazer três rapazotes, partiram-me o farol e fui corrido à pedrada! E perdi também a bandeirada, com uma vagabunda, que me pôs a secar no carro, pedindo para eu esperar, e até hoje, ainda não apareceu! Oh, minha senhora, para o Aleixo, não! Se aceitar que eu a deixa à entrada do bairro, que não me aventuro a entrar, já que o meu carro está marcado, eu levo-a, e levo-a já!» ─ «Estou tramada!» gritou a velhota, velha mais alta que um pinheiro, de curto penteado, e com uma cara tão risonha como a cor do tomate. Então Francisco, que era alto e moreno, e o mais indiscreto motorista de táxi, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por esperar o que a velhota decide. Por fim, brutalmente: «Minha senhora! O tempo tem horas… Eu quero trabalhar e levar a minha vida!» ─ «Também eu quero levar a minha, que raios!» gritou a velhota. O taxista sorriu, decerto, decerto, quem não quer! E logo ela, agarrada à carteira, murmura: «Senhor motorista, não sei como dizê-lo, mas tenho de estar esta noite no bairro. Vamos fazer um acordo! Eu lhe pagarei o dobro da viagem, se você me levar, ao meio do bairro!» Vivamente, Francisco agarrara o braço da velhota e abrira a porta traseira, para a deixar entrar. E partira satisfeito. «Ali à frente, ao meio da estrada da Circunvalação, há um sítio mais curto, e vamos pelas traseiras.» ─  «Qualquer sítio me serve, desde que me deixe lá.» Foram. O carro se enroscou por trás de um sítio que dominava o atalho, estreito e esburacado como um terreno de batatas. Francisco, saltitando no terreno, já tinha dado uns quantos solavancos. Enquanto coçava o bigode, calculava o tempo pelos pulos. Um grupo de ciganos passou por eles, resmungando. E Francisco, que lhes apanhara o rasto, recomeçou a pensar, com números, pensando nas voltas e reviravoltas que tivera no percurso. Enfim! Bairro do Aleixo! Entrara por um antigo caminho, e parou o carro na berma, murmurando em voz rouca: No meio do bairro! Daqui não passo!» A velhota puxou vagarosamente a carteira, mas oscilou, largando o dinheiro e papéis que caíram ao chão, e ambos se curvaram para os recuperar. Depois de pagar, ainda lhe deu dez escudos de gorjeta: e depois, ao sair, desejou-lhe boa viagem. Francisco voltou para casa. No regresso meditava na sua corrida vantajosa, enquanto a noite ia escurecendo, abriu um pouco mais o vidro, apanhando a brisa do ar que o fez tilintar os dentes. Depois de passar em torno do jardim, e encontrando dois pares de aos abraços e beijos, sentiu uma imensa fome de sexo. Desde uns dias só fizera uma à lá-minuta. E há quanto tempo não dava uma grande! De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar no acelerador, entre os tapetes, um pequeno pape sobressaía. Puxou-o por uma das pontas dos dedos, para junto dos olhos, e verificou a data. Como raio, aquilo viera parar ali? Era uma cautela da lotaria, andava à roda no dia seguinte. Guardou-a no bolso e entrou em casa. Com que apetite se deitou na cama, com as pernas abertas, e entre elas a amante loura, que acordara, e o desejo os unira. Rapidamente, essa necessidade a imaginação de trocadilhos de amor, de amantes acalorados, apoderou-se dele. Levantou uma perna da amante: beijava a deliciosos beijos. A noite escurecia, pensativa e doce, com sonhozinhos cor-de-rosa. Francisco ergueu à luz o corpo da amante. Com aquela cor nova e quente, não demoraria muito a aquecer. Pondo os mamilos à boca, sorveu com carícias lentas, que lhe faziam levantar os pêlos do peito peludo. Oh, carícias benditas, que tão prontamente aquecia o desejo! Depois, estendeu-se sobre o cotovelo, descansando, pensava em Massarelos coberta de casinhas pequenas em cima umas das outras, nas altas temperaturas do ambiente, por noite de frio, e a sua casa com aquecedor, onde teria sempre a amante. De repente, voltado para o ar, virou-se para o lado e adormeceu. Na manhã seguinte, ao levantar-se da cama, pela hora do silêncio, a amante loura entrou na cozinha para preparar o pequeno almoço, quando ergueu o olhar para o amante e foi como se uma mola a tivesse empurrado para pôr ordem nas roupas dele em total desordem pelo chão.  De repente, teve desejo de lhe ir aos bolsos. E fixou os olhos na pequena cautela… Depois de examinar a validade, pegou no pequeno papel, com vagarosa cautela, na ponta dos pés, voltou para a cozinha e ligou o rádio, porque estava na hora da extração. E, sorrateiramente, afinou os ouvidos, a ponto de ouvir, a cantada vibrante e prolongada, atirada aos microfones:

2! 4! 7! 3! 9!
3º Prémio,
      Quinhentos mil contos…

E imediatamente, com os olhos a reluzir de excitação e ansiedade, agarrou na cautela e saiu, correndo pela rua, até uma casa de lotarias. E aí, entregando a cautela, e o bilhete de identidade, esperou pacientemente, até receber o cheque endereçado, com as mãos a tremer de frenesim. A amante, correu pela rua ao banco, gritou para diante de si alegremente: «O! Sorte, nunca me vou esquecer do dia de hoje! E eu, que tantas vezes te implorei!»

                                                                 II

Mal a tarde chegou, Francisco, dentro do quarto apagado, ergueu-se da cama, sonolento e nu, correu para o chuveiro. E, animado com o banho, sem necessidade de mudar de toilette, vestiu-se. De repente, lembrou-se da cautela e foi ao bolso, e contemplou-a. Já entre as quatro da tarde o sol se refugiava. Puxou de uma caneca e bebeu um trago de café. Depois, ligou o rádio, ouvindo a repetição dos números sorteados:

2!4!7!3!9!
3º Prémio,
   Quinhentos mil contos…

Agora estava rico, só ele, e os quinhentos mil contos!... E Francisco abrindo os braços respirou deliciosamente. Mal se aprontou, com a cautela enfiada no bolso, apressou o passo pelas ruas que conduzem à casa da Sorte Grande, para receber o seu prémio! E quando ali se apresentou, para além dele e de um funcionário acompanhado de um agente policial, recebeu de imediato voz de prisão por frande… Fraude como? Recuou, caiu na cadeira, e levou as duas mãos aflitas à cabeça. Ainda se ergueu; com uma baba espessa a escorrer-lhe nos bigodes; e de repente, esbugalhando copiosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim toda a traição da amante, todo o pesadelo! «Maldita!» Oh! Francisco, o dinheiro era tentação! Porque a amante loura, apenas fora a uma papelaria tirar um fotocópia da cautela, mesmo antes de levantar o prémio, correra feita uma andorinha do mato a casa para deixar a cópia, e voltar a um banco, por detrás da igreja, a depositar o prémio e receber um cartão multibanco que, a tornaria a ela, a ela somente, dona de todo o dinheiro.

                                                                  III


Dois meses se tinham passado, sobre o roubo da cautela. A amante, cantando e rindo, levava uma vida de sonho no outro lado do Atlântico. Meia solteira, no seu chalé, toda ela se tornara morena a apanhar banhos de sol. Uma estrelinha do céu amparou-a. O dinheiro da cautela está lá, no chalé da baía.


Wednesday, July 9, 2014





CONTOS DE RATAZANA
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                            O LUPANAR

A Banheira era o lupanar mais famoso da cidade, um rés-do-chão comprido em forma de labirinto, cercado de quartos com banheiras de imersão, decorados todos do mesmo estilo, sempre com as mesmas tendências da caligrafia do Amor, uns tapetes com figuras de burros e jericos no chão, um grande chafariz de pedra encostado à parede e uma estátua do Senhor do Chicote, de pila na mão, simbolizando o amor afrodisíaco. Poucos dos clientes d´ A Banheira conseguiam sozinhos descobrir o caminho para o quarto. Era necessário ser acompanhado pela cortesã escolhida ao local especificado. Deste modo, as meninas estavam protegidas das visitas dos indesejáveis clientes que não tinham a menor hipótese de fugir sem pagar. Era um mundo sem janelas nem varandas, dirigido pela quarentona e sabida Dona da Banheira, cujas afinidades com os clientes eram um dado adquirido, ao longo dos anos, para o bom funcionamento da casa. Nem o pessoal nem os clientes conseguiam desobedecer às suas ordens, que eram logo posto fora à vassourada, enxovalhados e atirados para o meio da rua, se isso fosse necessário, para manter a ordem e o devido respeito da casa. Por isso, quando o emproado Lano, vendedor de trapos e ganga barata, se apresentou diante dela a troco de pôr as suas meninas a vestir-se em roupas vistosas de várias cores, convenceu a Dona da Banheira e foi imediatamente aceite sem vacilações. O negócio para Lano resumia-se na venda de roupa às raparigas e receber em troca «uns favores» de prazer e gozo com as modelos que ele escolhia. E, quando a força policial fora fazer uma rusga ao local, a Dona guiara-a numa viagem curta e mal cheirosa pelos labirintos peçonhentos. Até os guardas ficaram com a cabeça a andar à roda pelo que, após terem espreitado para dentro daqueles quartos de massagens e cheiros exóticos e deparados apenas com latas de conserva, restos de pão, cascas de maças e garrafas de cerveja, se foram embora resmungando energicamente, não suspeitando sequer que uma hora antes a Dona recebera um telefonema a avisá-la daquela rusga, o que lhe dera tempo de pôr os clientes na rua. Depois disso, a Dona mandou fazer um fumeiro de eucalipto e, a seguir, desinfectou com Tide toda a casa, deixando um aroma suave e atractivo, de forma a não levantar suspeitas da tramóia que ela pregou aos polícias.

As visitas de Lano à Dona da Banheira tornaram-se permanentes e nem por sombras o privou de rapidamente ganhar a sua confiança, tornando-se um recoveiro, levando e trazendo confidências. Cada vez se tornava mais importante a sua presença, e a Dona ordenou às prostitutas que o tratassem bem do pêlo, autorizando-lhe a utilizar a sua banheira especial hidromania, pois a sua falta de dentes  e cabelo não deixaria de fortalecer e recuperar o mais rápido possível. Uma vez que os seus favores iam aumentando conforme as suas vendas, obrigou-se a depender mais horas de exercícios, recebendo com agrado as carícias das prostitutas e dando ao vendedor de trapos um alcance de visão superior do que poderia obter, se acaso andasse pelas ruas à procura das chamadas «mulheres do povo»… A ganância era às vezes um obstáculo: criava vícios no seu modo de habituação e Lano, que era obeso, tinha mais olhos que barriga. Depois do terceiro favor directo que recebera num dia, ao ouvir os murmúrios das prostitutas que acompanharam com ele o acto da fornicação, teve um chilique e caiu na banheira, sendo socorrido por uma delas que o tirou pelo cachaço e pôs no chão esticado num lençol. A seguir, deram-lhe um chã de tília para ele recuperar. Pela boca da rabugenta Dona da Banheira chegou a notícia que, a partir de agora, era obrigatório o uso do preservativo e o preço para uma espetadela passava de quatro para oito contos, com direito a vinte minutos de massagem autêntica ou sintética. As orgias animalescas em que interferiam quatro ou mais parceiros, só eram permitidas em dias feriados.

«Mas que diabo, estas novas tabelas são altas e só vieram dificultar o cliente habitual. Quero o livro de reclamações para apresentar o meu protesto.» - Murmurava um deles ao montar a menina da sua escolha, mas teve que encaixar das boas.
«Os preços são altos porque as mulas são melhores», ─ respondera a Dona para o cliente que atrevidamente retorquiu:
«Por este preço tenho direito a dois pratos.» - E, ao dizer aquilo, começou ele a guinchar, presumivelmente por motivos de gozo. E o carniceiro da carne, Coxo, confessou ao ajudante do talho que os hábitos são difíceis de quebrar e que, quando lá ia levar a carne, nunca vinha de lá sem espetar na sua favorita «duas nas nádegas e às vezes também na serviçal do pó; passava o espanador, o que é que um homem há fazer ao vê-las assim: como vieram ao mundo?» - E foi assim que o carniceiro aprendeu a lição de que ─ mais vale roer do que sofrer. ─

Lano começara a mudar e a tomar consciência de que, a partir da meia idade ─ nunca é demais ─ enjeitar os desejos quando em demasia. A notícia que o médico lhe dera que o enfarte estivera próximo e que poderia ter sido fatal, fê-lo mergulhar numa profunda calmaria pois, mesmo quando o cio do desejo lhe chegava aos testículos através das novidades que iam chegando à Banheira, ele revelava-se mais cauteloso e consciente de que era preferível comer pela qualidade do que pela quantidade. Mas, quando o primeiro fôlego se espraiou dentro do seu espírito voraz, Lano aproveitou ─ a ocasião para esganar a ilusão ─ e atirou-se com todas as forças à última novidade que chegara, a troco de um conjunto de roupa variada que se vendia na feira pelo valor de mil escudos. Perdeu o medo e ganhou de novo a segurança que o amor na Banheira lhe inspirara e, a partir daí, nada o assustava.
«Tens um corpo jeitoso. Com aquele decote da Princesa do Cai-Cai e as calças de caqui do Hommer Simpson», ─ disse ele com o rosto sério. ─ «Ficavas cá um pito que nem  a Shifar te passava a perna.» - E ela muito lampeira respondeu:
«Não é assim que se diz, mas sim, Claudia Schiffer.» -
No fim de uma visita devotadamente aventureira, Lano descobriu, para sua grande surpresa, que cada vez ganhara mais erecção e desejo sexual o que lhe dava motivo de querer estar sempre a molhar o pincel em cima das telas que paravam no lupanar. E que capacidade era essa? ─ Nunca tinha entendido muito bem ─ sem que isso fizesse dele um Gungunhana. Em suma, Lano chegara ao máximo. Começou, sem hesitar, a deixar para trás a conquista de raparigas sem técnica nem estofo de cabriteiras e estabeleceu uma regra que determinava a si mesmo; comer pouco e melhor, era indispensável. O facto dessa regra implicar um aumento na tarifa que cobrava uma rapariga com estofo de primeira qualidade, nada o impedia de abrir os cordões à bolsa ou, em segundo via, cambiar a relação por um conjunto de vestes de melhor qualidade. E, quando o carniceiro um dia resmungou com ele a propósito das raparigas de estofo, no final vai tudo dar ao mesmo, um homem vem-se e pronto, já está. Lano abanou a cabeça como a dizer: isso è o que tu pensas, meu artola, mas não será bem assim.

As meninas da Banheira eram afamadas de possuírem toda a técnica de combate de que uma boa funcionária da Dona pode prezar. Feita uma apreciação global à equipa de trabalho às suas ordens, a mais velha era uma mulher de quarenta e picos anos, enquanto a mais nova, com dezoito, tinha mais traquejo que muitas das outras colegas de profissão. E elas tinham-se afeiçoado ao ardido e rufião Lano, e a verdade era que lhe agradava a sua companhia, pelo que, fora das horas do expediente, se punham a rebolar a bilha numa casa de dança sem muitos requisitos que por aí abundam pela cidade, deixando-o exibir a sua mestria de razoável dançarino de rumba. E, depois da dança dos pés, aparecia a dança do corpo, num quarto qualquer, onde as duas mulheres se punham a provocá-lo maliciosamente, exibindo o corpo e fazendo topless, mostrando-lhe os seios e, depois enlaçando-lhe a cintura com as pernas, beijando-se ardentemente uma à outra a um passo dele, até que o vendedor de trapos ficava loucamente excitado; e então elas riam ─ como malucas de vê-lo de pau feito e tanto riam que o faziam voltar à estaca zero. Ou seja, de vela em baixo. A partir daí, Lano já perdera a ideia de passar um bom bocado e já trocava os favores pela roupa que voltou a parar nas suas mãos. E assim, qual pau qual caraças, deitou mãos às roupas e deu o piro dali, deixando-as a chupar uma à outra, pensando na forma de se vingar, mas ainda foi capaz de mandar o seu palavrão da ordem: «Ordinárias, sois mas é cá um putedo!» -

Foi numa dessas pausas do trabalho em que a casa não tinha um cliente sequer, quando as mulheres estavam a sós na galhofa umas com as outras, que se puseram a cochichar. Falara a mais nova delas acerca do seu cliente Coxo, o carniceiro.
«Que tolo de homem!», ─ disse ela. ─ A grande mania dele são os pêlos. Cisma que eu tenho pêlos nos seios e obriga-me a tapá-los com uma toalha e depois só se excita quando lhe ponho a fazer cócegas no ânus. E depois diz-me tantas asneiras que até me venho a rir. Que eu sou parecida com a vaca da mulher dele, que tenho as mesmas curvas físicas que ela, só que, para me realizar, rio-me, enquanto a mulher dele chora…» - A quarentona interveio também na conversa.
«Escutem só, os homens não falam de outra coisa a não ser do preservativo, que não se excitam com aquela camisa transparente plastificada, que têm nojo de pôr aquilo nas mãos, e as mulheres de cá têm de fazer como eu faço. Meto antes a camisinha debaixo da língua e depois, sem o pascácio dar por ela, já está: trigo limpo e farinha amparo.» - Concordou uma delas:
«É o que se deve fazer. Tens de nos ensinar.»   
«Especialmente para certos clientes», ─ acrescentou a mais nova ─ «Para aqueles de quem nós não temos a mínima confiança. Sobretudo os que não se lavam, ou aqueles que querem fazer fantasias com o pau a nu a boiar em cima da água na banheira.» - Depois, comentou outra prostituta que estivera calada até então.
«As pessoas também fazem mais fantasias daquilo do que parece. Eu pergunto sempre ao cliente: com ou sem? Se ele diz com, eu vou por baixo, se ele diz sim, eu vou por cima.» -
«E como é que fazes?» -
«Como disse a nossa veterana colega. Enfio antes o artigo na vagina enrolado numa esponja e ninguém dá por ela.» -
«Meu Deus», ─ disse a rapariga. ─ Se eles topam, ainda te fritam os mamilos com molho de tomate.» - A de dezoito anos tornou a confidenciar às outras que a escutavam com curiosidade. Acto contínuo acendeu uma luz nos olhos dela.
«Eu conto-lhes tudo», ─ disse. ─ Como nasci, quando comecei a ler, o primeiro beijo que dei foi quando fui desflorada numa cavalariça, aos treze anos, pelo ferreiro do meu pai. No fim, ele deixou-me dar uma volta em cima da égua mas, no fundo, não gozei nada e ainda estou à espera de passar os melhores anos da minha vida.» - As seis prostitutas do lupanar desde há muito tempo que davam conta do recado, aumentando os lucros à gananciosa Dona e prometendo ainda aumentar mais. Onde há vício e beleza não falta chouriço nem mesa. Lano revelou à Dona a sua ideia de lhe arranjar umas estrangeiras para A Banheira; esta ajuizou do problema com a polícia. «Isso é muito perigoso», ─ exclamou. ─ «Mas é capaz de ser aliciante para o negócio. Eu vou nessa. Podes avançar, meu sacana.» -

Quando se espalhou pelas casas de passe a notícia de que tinham chegado umas caras novas e brasileiras na casa da Banheira, a excitação dos clientes da cidade foi notória; porém tinham medo que a casa fosse vistoriada ─ quer por saberem que numa rusga ao local poderiam ter chatice com a polícia, quer pela nova tabela do lupanar de que o novo serviço cobrado ia quase ao dobro… mas a notícia não chegou aos ouvidos das autoridades. Por essa altura, Lano tinha falado a toda a gente o que conhecia do ambiente e levou-os lá a troco de tomarem uma bebida e prevenira-os que iam conhecer a fina flor do nordeste brasileiro. «As brasileiras são tão doces como o mel», ─ fez referência perante eles. ─ «É melhor conhecê-las com calma.» - Assim, os novos clientes atracaram-se às beldades brasileiras e logo o negócio registou um aumento de quinhentos por cento no total do apuro. Por motivos óbvios, era aconselhável marcar hora para não haver bicha na entrada da porta e, para muitos, o tempo da massagem encurtava cinco minutos por sessão. Cada cliente recebia como bónus um preservativo e a Dona, ao observar através do vidro camuflado no escritório as figuras dos clientes com os preservativos na mão, punha-se às gargalhadas que até assustava o papagaio em cima duma gaiola a palrar; Enfia a camisinha, sim… Nos termos a seguir, o pessoal da Banheira afeiçoou-se à nova realidade. A prostituta de dezoito anos, «Elizabete», era a mais solicitada da clientela pagante, tal como a sua partenaire, «Beta», o era em segundo plano e, depois, vinha a «Seu Bombom» que vivia com o seu prostituto nos aposentos da Dona. Esta Beta mamona começou a mostrar-se ciumenta do lugar que ocupava de mais amada. Ficava contrariada quando via as outras a registar um maior número de saídas e receber gorjetas mais generosas. A prostituta mais velha e mais redonda, que adoptara o nome de «Bolacha Maria», dizia à sua clientela ─ de resto, farta dela, pois muitos eram aqueles que a procuravam para lhe oferecer o lanche da tarde (chã e bolachas) e outros para um corridinho à moda do Minho ─ a história de como o Barão da Piroca praticara com ela a primeira vez o coito, numa tarde à chuva, quando ela era principiante no ofício.

«Ele deu-me três tão mal dadas», ─ dizia ela, excitando imensamente os clientes. ─ Que eu chorei todo o dia. Deu-me a primeira molhada, a segunda recriada e a terceira bombeada, que só me lembro de ficar toda ensopada.» - Ouviram-se risos. A prostituta «Bibi» fez-se por seu turno, tão melodramática como a sua colega e exclamou:
«Ó filha, tiveste mais sorte do que eu, que perdi os três a cagar; ouvi falar da bomba atómica e olá; não aguentei a pressão…» - As gargalhadas subiram ao rubro.

Todas as prostitutas têm os seus quês. Quer pelos seus encantos maternais, quer por outras agradáveis surpresas. Mas tinham um lado negativo. Por exemplo, entravam constantemente em guerrinhas por tudo e por nada, em conflitos com as duas prostitutas brasileiras mais formosas. As outras sempre as tinham achado um bocado peneirentas e que tinham o vício de lhe sacarem os clientes mais requintados do bordel. No fundo da questão, o trivial é sempre o mesmo. As prostitutas só falavam em dar mocadas para fazer dinheiro e mais dinheiro, de dinheiro e de sexo a conversa era sempre a mesma, mas não julguem que era só falar, por falar. Ao fim de alguns meses, as seis beldades, conforme o tempo avançava, as suas performances começavam a apagar-se e a deixar de dar o rendimento desejado. Lano, mais desdentado e com menos cabelo de mês para mês, viu também as suas vendas fraquejarem e os favores a diminuírem, acabando por cavar e deixar ali apenas o seu rasto. As raparigas também começaram a demandar-se para as casas da concorrência e a Dona não teve outro remédio senão alterar as regras. Nesse tempo era usual as prostitutas, ao entrarem para o trabalho, deixarem os seus amantes à porta, ou então, nos cafés mais próximos do local a fazer horas ─ enquanto elas esgravatavam o graveto para à noite darem um de pé de dança, beber uns copos, e ficar com algum pataco para o almoço do dia seguinte. ─ Mas agora essas regras foram quebradas e chegou o dia em que as raparigas pediram autorização à Dona para deixar entrar os seus amantes, pois sentiam necessidade do seu apoio, além de que consumiam despesas para a casa, coisa que, afinal de contas era importante para os cofres da Dona. Esta a princípio tentou dissuadi-las dessa ideia, mas, quando viu que elas não desarmavam, não teve outra saída senão ceder nas pretensões delas, embora citando de que na primeira bronca que houvesse, corria à latada, fosse com quem fosse pela porta fora. No fim, pôs-se aos risinhos e às cotoveladas a elas, ordenando com a sua voz autoritária: «Ide a eles, não os poupeis.» -

Os proxenetas das raparigas deixaram bem claro que esperavam cumprir à risca os seus deveres como clientes e criaram entre eles um sistema rotativo no qual, um de cava vez por semana, passava a acumular as funções de porteiro, sendo o dia para o trabalho e negócios e a noite para o divertimento com as suas parceiras. Assim que eles embarcaram nessa missão, as prostitutas trabalhavam com maior convicção, ou seja, entregavam-se mais afincadamente à função para mostrarem aos seus «homens» que eram umas autênticas máquinas de fazer dinheiro.
«Porque é que não vais fazer aquele tipo?», ─ perguntou a indignada «Bolacha Maria», mas logo se opôs «Beta» terminantemente.
«Aquele gajo não faço, porque o meu homem não gosta dele», ─ declarou, ─ «além disso, tenho a mínima ética. Não gosto de fazer os amantes das minhas colegas de trabalho. A minha tarefa é fazer uns gajos, não sei se entendes.» -
«Bom, seja lá como for», ─ disse «Maria, a gorda», encolhendo os ombros. ─ «Eu aqui dentro não conheço ninguém. Por isso, vou lá aviar o tipo.» -

No fundo da moral, as prostitutas d´ A Banheira eram as mulheres mais convencidas e antiquadas da cidade. O seu metier que tão propício se tornava a deixá-las cínicas e amarguradas (e elas, eram evidentemente capazes dos piores raciocínios) tinha-as, em vez disso, feito numas incorrigíveis sonhadoras. Presas do mundo exterior, tinham concebido uma fantasia da vida normal em que não queriam outra coisa senão ser pessoas obedientes e submissas dum homem que fosse reguila, amante e cavalão. Quer dizer: todos estes anos a dar o corpo ao manifesto das fantasias dos outros tinham acabado por lhes aniquilar aos poucos os sonhos, ao ponto de, mesmo no fundo do íntimo dos seus corações, já não se sentirem uma sensibilidade que superasse um novo sonho. E o perverso Lano começou a aparecer de novo e a ganhar confiança com as novas atracções da casa. E descobriu que, de seis mulheres, ainda lhe faltava comer três, pelo que se pôs a competir com os seus trapos em câmbio dos seus favores, pela graça de um sorriso seu, e aguardar a melhor altura para atacar. Certa ocasião em que as disputas com elas o irritaram, repudiou-as a todas ao mesmo tempo. «Ainda haveis de vir a cair à minha mão.» - Quando, passados dez minutos foi ter com «Sua Bombom», ela zombou dele e chamou-lhe: «Você é um bobo.» - Mas, naquele dia, «Sua Bombom», apanhou-o no quarto com «Bolacha Maria» e, minutos depois, com «Beta.» - Ele pediu a «Sua Bombom» para não contar nada a «Elizabete», por quem estava redondamente apaixonado; mas ela contou à outra e Lano viu-se obrigado a evitar durante alguns dias a «Rainha dos ovos de ouro» do bordel. A obsessão que assim nascia era a mais atractiva que algumas vezes sentira. Às vezes, quando estava com outras na cama, sentia-se tomado como se uma droga tivesse ingerido e ficava lento, as pernas pesavam-lhe o triplo e tinha de acalmar. «É estranho», ─ dizia ele. ─ «É como se tivesse comido um boi, ou tivesse pegado em dez sacos de batatas.» - Estas sintonias começaram a baralhar-lhe as ideias. Certa vez, deu-lhe o sono e adormecer no sofá do quarto ao lado de «Sandra.» Quando acordou, horas mais tarde, doía-lhe o corpo, parece que tinha partido o pescoço, que mal conseguia endireitar a cabeça e repreendeu-a:
«Porque é que não me acordaste?» - Ela respondeu:
«Estavas a ressonar que nem um justo, até tive pena.» - Ele abanou a cabeça.
«OK, já entendo. O que quiseste foi deitar-me abaixo para dizeres às tuas amigas que já foste para a cama com o grande Lano. Mas fica a saber de quem eu gosto, não é de ti.» -

Duas semanas e dois dias depois de Lano fazer uma abstinência aos seus apetites sexuais, Coxo, o carniceiro, viu-se de cor amarelada no rosto e de calças justas à gigolô e os sapatos bicudos de sola. Lano saía do quarto de «Sandra» quando o carniceiro o topou e apontou para ele, gritando:
«Então, já acabou o jejum?» - Sandra saiu à porta do quarto, pondo-se a espreitar. Mas Nano disse: «Pira-te já para dentro, antes que o Coxo te coma com os olhos.» - Convidou o carniceiro para beber uma bebida e, instantes depois, abriu no bar uma garrafa de whisky escocês e enfiaram dois dedos de conversa animada e sempre relativa a barretes.
«Ande lá, beba um copo», ─ expressou Lano com a garrafa na mão, enquanto, o carniceiro insinuou:
Nunca bebes o primeiro copo. Foi um marroquino que me disse isso, derivado à sua religião.» -
Lano olhou surpreendido para ele:
«E você como o faz?» - Perguntou.
«Bebo sempre a partir do segundo.» - Respondeu Coxo, muito risonho.
«Essa tem piada. Estamos sempre a aprender.» - Concordou Lano, bebendo o primeiro copo com sofreguidão.
Coxo abriu os braços num gesto de desencanto e disse:
«Estou aqui porque marquei um encontro com as brasileiras que me encomendaram miúdos de pato para o jantar», ─ disse ele, com um brilho no olhar. ─ «E vou aproveitar a ter uns momentos de prazer, isto é, se elas vierem com disposição para fazermos ─ o carroucel do amor!» ─ Depois de Lano ter soltado um risada pelo dito dele, o Coxo sentou-se de pernas esticadas e cruzadas na cadeira estofada de napa. A sua esperança e a sua ambição tinham sido bem regadas pelo álcool.
«As mulheres só nos pregam ilusões», ─ disse ele, bebendo muito rapidamente. ─ «Mas sem essas ilusões estamos feitos ó bife! Vou esperar mais uns minutos; se elas não aparecerem até o ponteiro estar entre as duas, deixo-as ao seu critério.» -
Mas Lano não ficou muito convencido disso. 
«Deixe lá isso. Você nem a um cão dá um osso, quanto mais dar duas trutas dessas que fazem o consolo a um moribundo.»
À medida que a garrafa se ia esvaziando, Coxo voltou outra vez a focar o tema, com o Lano já esperava, das brasileiras terem-lhe enfiado o urso ou o barrete como se costuma dizer. Contou ele a Lano uma história curiosa, entre ele e a rapariga da boite, relatando o barrete como facto humilhante.
«A rapariga do night-club chupou-me de bandeja quatro garrafas de champanhe francês, prometendo que depois do fecho da casa ia ter comigo ao quarto do hotel, para me brindar com uma cena das mil e uma noites», ─ disse Coxo. ─ Ela falava tão meiguinho e não sei que mais que eu deixei-me escorregar. Como havia eu de saber? Depois, no fim, ela entrou em transe ─ estava-se mesmo a manjar ─ e atirou-se para a alcatifa com um desmaio prolongado e, pouco depois, saiu para um táxi que a levou não sei para onde. E eu caí como um patinho, na mesa de braços cruzados, a olhar para a bola giratória da pista cheia de efeitos especiais. Ora bem; fui ter com o empregado. O que é que ele me ia dizer? Sabes o que é que o estafermo me disse? Ele disse assim: “a menina ficou inchada do estômago e foi ao hospital esvaziar as tripas. Quando recuperar, vai dar-lhe uma explicação.” Caraças! Apeteceu-me mandar o empregado àquela parte, mas olhei de lado e aguentei os nervos, não fosse ele enervar-se mais do que eu e dar-me uma porrada.» -
Lano deixava Coxo falar sem cortar o diálogo. Os barretes das raparigas da noite chateavam bastante o carniceiro.
«Já estou cheio de levar com eles», ─ exclamou. ─ Cada vez perco mais a paciência de ser sempre o mesmo Cristo.» -
Ao fim dum bocado de tempo, Lano começou, também, a contar os seus barretes e Coxo ficou pasmado a ouvir tanta fita à americana. Lano concluiu:
«O meu sistema é que faço isso de propósito, deixo-as primeiro enfiarem-me o barrete», ─ raciocinou Lano. ─ Para depois ser eu a seguir; não pago e remeto-lhes uma factura de despesas.» -
«E elas não se zangam por isso?», ─ perguntou calmamente Coxo. E Lano respondeu rapidamente: «E isso faz-me cá uma diferença do carago! É da maneira quer ficamos quites e não nos chateamos mais.» -
Por esta altura já Coxo estava bem embriagado e começou a olhar para o relógio aos esses e a praguejar acaloradamente, mas Lano levantou a mão e disse:
«Não vale a pena esperar mais. No seu lugar», ─ disse ─ amanhã, punha-lhes junto à borda da cama uma saca de plástico com os miúdos de pato e, a seguir, dava-lhes duas de borla para elas não enfiarem o barrete a mais ninguém.» - Mas Coxo coçou o pescoço e abanou a cabeça:
«Deixe-me antes contar-lhe a última. Uma história do outro mundo. Hummm! E relaciona-se com o que estamos a contar.» -
O conto de Coxo: O maior barrete de que eu tomei conhecimento passou-se na minha terra com a filha do carniceiro de lá. No dia da sua boda e depois de toda aquela cerimónia, o noivo preparava-se para comer a febra da noiva quando um caso insólito aconteceu. Ao que consta, a noiva, no acto importante, começou aos berros e, no momento em que o noivo se encontrava como que transportado para um mundo invisível, sentiu-se todo arranhado com as unhas da noiva que não lhe poupou uns valentes rasgões na pele. E, pior que isso, veio a seguir, quando o sangue vindo da noiva começou a trespassar pelo lençol numa mancha vermelha, aterrorizando o noivo que se passou dos carretos e fugiu da cama, trancando-se nos arrumos do quintal. E, mais tarde, começou a sair o boato cá para fora que a noiva era uma jovem com uma rodagem bastante alargada nos «nocturnos», e que o noivo era afinal de contas, muito mais velho do que ela e que fora redondamente enganado na história daquela virgindade por uma saca forjada de sangue de porco agarrada à cintura dela e pelas unhas aguçadas de javali, escondidas no soutien. Portanto, a noiva armou todo aquele banzé para se sentir atraída por alguém que a desposasse. Um escândalo de ficar solteiro toda a vida.» - Comentou Coxo, bebendo mais um copo.
«E o que é que o noivo agora vai fazer?» - 
«Nada, já fez», ─ respondeu Coxo. ─ Foi falar com os sogros e depois deu de frosque, tendo repudiado a noiva e amaldiçoado o dia em que a conheceu. Só isso.» - Coxo colocou o copo sobre a mesa. «E desta vez, meu amigo, o barrete cheirou a esturro!» -

Lano, o vendedor de trapos, partiu na manhã seguinte com a carrinha carregada de roupas, para vender pelas aldeias de Trás-os-Montes, seguindo sempre o rumo ao norte. Ao despedir-se de Coxo, estendeu-lhe a mão e disse:
«Espero que para a próxima vez, quando cá estiver, possamos fazer uma farra e comer um peixinho melhor.» - Coxo respondeu:
«Afinal de contas, você tinha razão. As brasileiras deram-me seca e não apareceram.» -
O rosto de Lano uma expressão. «Talvez não tivesse perdido muita coisa.» -E foi-se embora.

Naquela manhã, uma ordem veio através do comando geral e os guardas foram comunicar à Dona da Banheira que tinham ordens para encerramento do lupanar. Chegava de imoralidade. E já bastava os vizinhos que passavam o tempo a queixar-se daquelas poucas vergonhas. Por dentro das suas lamúrias, a Dona pediu ao oficial da guarda que lhe desse uma hora e que não fizesse grande alarido de maneira a permitir que os clientes saíssem sem serem incomodados, e o oficial fez-lhe a vontade. A Dona deu ordem aos amantes das raparigas que avisassem as meninas para conduzirem os clientes sem espalhafatos pela porta de emergência.
«Façam favor de pedirem desculpa por esta interrupção. Vão cortar a luz de propósito, para fazer de conta que o quadro geral da electricidade teve uma avaria eléctrica.» -
Ordenou aos amantes:
«E digam que hoje a corrida é grátis, não pagam nada. É tudo por conta da casa.» -
Foram as suas últimas palavras. Quando as assustadas raparigas compareceram diante dela querendo saber se aquilo era mesmo verdade, a Dona não respondeu a nenhuma das perguntas assustadas.
«Então vamos ficar sem o nosso emprego, sem direito a subsídio de desemprego, logo agora que estava a ganhar alta nota? Ponha umas velas na banheira!...» - Até que a Dona deu um berro:
«Calem-se suas histéricas e vão-se mas é arranjar.» -
Quando ela se afastou, todas viram uma mulher frágil e amargurada, fazendo lembrar uma grande dama que acabara de perder o seu tesouro mais valioso ─ o sagrado tostão.
O comandante Fiúza não se coibiu de manifestar o seu apoio por acabar com semelhante esterqueira que abalava a estrutura da nova cara que a cidade estava a querer implantar aos seus habitantes. Voltou-se para as meninas:
«Bem, arranjem-se lá e tragam os B.I. na mão, para vos tirar as vossas identificações.» -
Gritou e ordenou aos seus homens que deitassem os olhos às «galdérias», não fossem elas pirarem-se dali à má fila. As mulheres fizeram um vasqueiro desenfreado e desataram a dar pontapés nas portas e a lançar palavrões, pedindo ajuda aos amantes que ficaram a ver sem poderem fazer nada se não serem espectadores de cena, pois Fiúza tinha-lhes dito:
«Elas vão ser identificadas mas: quanto a vocês, não há provas nenhumas da vossa actividade. Por isso, pirem-se daqui para fora e não armem sarilho nenhum, se não querem levar umas chicotadas nesse lombo.» 
Eles mantiveram-se em respeito e quietinhos, observando a cena. Momentos depois, a mais nova das prostitutas voltou-se para o oficial e gritou:
«Vou fazer queixa aos índios do meu bairro, tu vais ver, vão-te pôs o canastro a arder!» - O comandante do pelotão achou graça àquilo.
«Qual de vocês é o chulo dela?» Perguntou, olhando atentamente um a um.
«Confessem, ou ponho-vos já a toque de cavalo marinho.» - Um deles respondeu:
«Ela é virgem; e não quer chulo.» - O oficial deteve-se diante dele:
«Ouvi dizer virgem? Tás-me a gozar ou quê?» - O mesmo indivíduo acrescentou:
«Bom, é uma maneira de dizer. Nem todas as raparigas querem ter amante; como é este o ca…»
Sem aviso prévio, o oficial puxou o proxeneta pelos cabelos e apertou-lhe o pescoço com as duas mãos.
«Uma prostituta sem amante?», ─ disse. ─ «Essa é boa. Pois fica a saber que nunca ouvi tamanha besteira. Só por isso, vou-te mandar rapar o cabelo à escovinha para aprenderes a não dizer mais asneiras.» - E voltou-se para os outros amantes.
«Desapareçam já daqui», ─ ordenou. ─ «E que não volte a pôr-vos a vista em cima; senão meto-vos no xelindró uns tempos. –

Os amantes saíram para fora do lupanar e sentaram-se no passeio, alguns com as mão na cabeça e outros a chorar a perda das suas mulheres. O Comando Geral mandou identificar as seis prostitutas da Banheira e cada uma delas foi obrigada a pagar uma multa simbólica, como castigo das suas actividades, que reverteu para os cofres da comarca, sendo advertidas para procurarem outro modo de vida. E o oficial, depois dum raspanço, concedeu-lhes uma última oportunidade de se regenerarem. E assim o bordel foi encerrado e, quando os guardas fecharam a porta e puseram um cadeado à volta da fechadura, o senhorio colocou um cartaz na janela: Aluga-se para mudança de actividade. O oficial entregou a chave ao senhorio, dizendo na sua boa fé.
«Espero que tenha mais sorte na próxima vez e não alugue a sua casa à prostituição ou a gente dessa ralé.» - O senhorio respondeu:
«Prostitutas e ralé, não vejo muita diferença. O que eu quero é o dia 8 de cada mês para receber o aluguer:» 


Acabou assim o lupanar.      


   

Wednesday, July 2, 2014

CONTOS DE RATAZANA
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 ROSA MARIA E O MORTO

Numa espelunca de copos, a uns quinze quilómetros da cidade, no Club do Azeite, ex-Leitaria da Corneta! Numa noite dos anos 80, em que o rectângulo da sala estava bem frequentado por uma clientela rasca,
sente-se o barulho da música a envolver as pessoas como um trovão. O ritmo invade-os completamente mas, lentamente, essa sensação passa. «O Azeite movimenta o leite.» - Disse Rosa Maria ao cliente, numa mesa cheia de copos e garrafas de champanhe. «Quando uma pessoa bebe sem conta e medida, fica cá com um gás que só apetece fazer amor. E o que é que cá faz nós bebermos? É o calor da garganta, penso eu, é uma coisa que nos invade cá dentro, que uma pessoa não aguenta muito tempo sem beber.» - Ficaram algum tempo a conversar e a beber e a contar confidência um ao outro. Dizia ela que fazia amor três a seis vezes por dia. «Porra! Eu dou uma e fico logo como o coelho a espernear-me todo.» - Disse-lhe ele com a boca cheia de cerveja. «Comigo isso não sucederia.» - Corrigiu ela e ele acenou com a cabeça. «Calculo, és uma rapariga maravilhosa, eu sei, mas vou dizer-te honestamente, contigo acho que serei diferente.» - A estratégia dele estava lançada. Agora, a coitada da Rosa Maria iria ter de passar, se calhar, um mau bocado. Porém tranquilizou-a bastante saber que as mulheres com quem ele, o cliente, esguio e esquelético com cara de fuinha, se relacionara, não eram do seu tipo mas sim «cavalas e façanhudas», só que, para além disso, também eram descaradas e algo desmioladas; faziam tudo na corda bamba e gritavam que nem umas cabras só para o excitar; faziam as maiores fitas que se possa imaginar, para ele aumentar o seu entusiasmo e tudo isso, essencialmente, por causa do livro de cheques. Ele era um cliente da velha guarda, gostava de pagar generosamente. A partir daí, o cliente chamara-a a sua «coelha sem preço» e sonhava com ela todos os dias e a todas as horas, além de prever para ela um grande futuro, quem sabe como dona duma casa de Tia, ou uma leitaria de leite à mão. «A tua amiga é uma burra», - disse o cliente uma semana antes de bater a bota para o outro mundo, a uma colega dela na mesa recheada de copos. ─ «Tinha um palacete forrado a vidro e espelhos de latão, que ele dizia ser uma dádiva de amor da sua parte, numerosas folhetas, incluindo estimulantes sexuais que davam ligeiras cócegas, e uma edição do Tarados e Chanfrados do autor.» ─ «Rosa Maria tem mais desejos do que ideias.» - Ele pronunciou o nome com tal força que cuspiu para cima do copo. Apesar de todas essas contrariedades, ele parecia ainda amá-la. «Ele era um bem amado.» - Disse a amiga, enquanto aspirava da boca uma fumaça do cigarro. O cliente de Rosa Maria tinha mais de sessenta anos, nunca lhe quis dizer o seu nome e morreu na noite em que fez amor com ela na cama. Era um assunto de que ela evitava falar, embora sempre palradora para discutir qualquer assunto que fosse tabu. Porque é que logo aquele velho havia de morrer em cima de mim? Agora que tinha tanta coisa para me oferecer, um palacete e um casaco de visão e um cadillacc pintado a carvão. Rosa Maria, cuja primeira reacção pela morta do cliente fora uma sensação de angústia e medo, desculpava-se diante das amigas que não tivera qualquer culpabilidade no cartório. Depois da morte do cliente que, veio a saber-se, se chamava João Mávida, Rosa Maria a vida boémia e moinante de camareira e dedicou-se à venda de flores numa loja que alugara na ocasião. «Uf!», - confessou ela a uma amiga. - «Já tinha saudades de voltar a ser uma senhora.» - Trazia cabelo russo com madeixas azuis num penteado de banana mal feito, usava um vestido ao xadrez por baixo de um avental de flores estampadas, abandonara as pinturas mas não deixara de fumar, e vendia flores e plantas de todos os géneros ─ naturais e artificiais ─ Rosa Maria acabou por se alhear dos copos à noite e principiou a beber água, ficando por vezes amuada no seu quarto sem saber com quem falar. Por isso, comprou um periquito e mantinha acesa a lâmpada do passado. «Já te disse que hoje não me apetece beber», ─ ou então, «Não me assobies alto que eu não sou nenhuma cadela!» - As amigas dela acharam estranho a mudança de Rosa Maria (conforme disseram no trabalho à noite) e a atitude dela no tocante à sua vida. «Quem a ouve falar até fica pasmada com ela, nem parece a mesma», - disse uma delas. - «Ainda bem», - respondeu outra das amigas, pondo-se de pé – É sinal que uma pessoa viciada em copos, se deixar de beber deixa de ser viciada!...» - Instantes depois, voltaram as costas umas às outras e dirigiram-se para o trabalho. Um dos aspectos da sua educação tinha sido bem descuidado. Um domingo, pouco tempo depois da morte do seu cliente, ela foi comprar cigarros ao quiosque da esquina, quando o ardina dos jornais lhe anunciou: «É o meu último dia. Há tantos anos a vender jornais e só agora é que os Picas haviam de me querer arruinar o negócio.» - Ela escutou com atenção a palavra p-i-c-a-s e teve a ilusão de ver uma junta de médicos com seringas nas mãos a darem várias injecções no ardina dos jornais do domingo. «O que é isso de picas?» - Perguntou totalmente e a resposta saiu com rapidez: «São drogados», - acrescentou ele. – Como não dormem de noite, aproveitam para me gamarem os jornais, fazem fogo para aquecer os pés, mortalhas para fumar, estrumeira de merda e outras e tantas variadas coisas, tudo por causa do vício.» - Rosa Maria afastou-se e voltou para o quarto. Depois de fumar uns três cigarros e beber outros tantos copos de vinho (tinha começado a beber recentemente), deitou-se em cima da cama e, instantes depois, adormeceu. Durante o sono, reparou que tinha ali, na sua cama, aquele indivíduo já idoso meio labrego com quem ela mantivera uma relação marcante. Havia já algumas semanas que não entrava na arena sexual com tamanho apetite, e nunca antes desejou ter uma aventura tão veloz que a deixasse de rastos. O prolongado silêncio dele (que silêncio! até que soube que o seu nome constara da lista de defuntos do caso do cliente que morrera na sua cama) fora doloroso. A notícia da morte dele suscitara-lhe uma data de problemas, principalmente com a vizinhança, que teve que dar a volta ao quarteirão para se refugiar. Estava pasmada a olhar quem é que ele julgava ser, para entrar assim sem bater, sem um aviso, à porta dela, pensando encontrá-la de braços abertos, como retribuição dos copos que lhe pagara diariamente no trabalho… em suma, sentira-se invadida. Mas depois pensava para si, repetindo tais ideias para as profundezas, afinal de contas, João Mávida tinha pago bem cara a sua presunção, se realmente disso se tratava. ─ Um morto na cama, merece o benefício da dúvida. ─ E depois viu-o caído a seus pés, sem sentidos, no chão da cama, sem respirar, levando-a por segundos a perguntar como é que havia de fazer para se ver livre daquele embrulho? ─ preferia esta expressão à palavra morto. O esforço de o levantar do chão, de atirar o braço dele por cima dos seus ombros e de o semi-carregar até à sala, custou-lhe porque ele era bem pesado. Doeram-lhe horrivelmente os pés para o erguer e ela sufocara até o deixar cair. O que ia fazer ela daquele trambolho escarrapachado em cima de sua cama? Meus Deus, e a vizinhança quando soubesse? Mas outros sentimentos vieram ao de cima a dominar. Tinha que fazer qualquer coisa; avisar a polícia por exemplo e fugir dali rapidamente; ao fim de algum tempo, resolveu meter pés ao caminho e desandou dali. O morto dormiu vinte e quatro horas, repartidas ali na cama para satisfazer as exigências policiais e outras tantas na morgue. O seu sono era irrequieto; mexia-se muito na cama e escapara-lhe dos lábios uma ou mais palavras: Rosa Maria, o palacete é teu. Nos momentos de vigília parecia querer ressuscitar mas o sono era demasiado grande. Ele não conseguia imaginar sequer o que lhe tinha acontecido naquela fatídica noite do amor. Rosa Maria veio deitar a última mirada para o corpo, franziu os lábios e murmurou: «Coitado dele, parece que ainda está c´os copos.» - Olhou uma vez mais cheia de superstição. «Envia-lhe uma mensagem ao ouvido dele.» - Recomendou a amiga, acompanhando-a
até à porta. Entretanto, Rosa Maria voltou-se para trás e disse: «Eu depois mando-te notícias.» - No sétimo dia ele acordou de repente, dobrando as pernas com um passarinho e arregalando os olhos até trás como o mocho e só depois estendeu a mão para ela, murmurando em baixo tom: «Minha rosinha, vamos terminar o nosso trabalho que não foi acabado.» - A subtileza do pedido deu tanta vontade de rir a Rosa Maria como o seu descaramento inesperado e, de novo, a invadiu uma sensação de acerto; disse sorrindo: «Está bem, já que assim queres, que seja feita a tua vontade.» - Tirou o vestido largo, de pregas, e o casaco folgado ─ não gostava que as roupas revelassem a moldura do seu corpo ─ e começou assim a maratona sexual que deixou ambos felizes, exaustos, quando chegou ao fim. Ele contou-lhe que lhe dera um enfarte em que o mandou desta prós anjinhos. Mas voltara a viver. E ficara sempre com aquele espinha entalada na sua alma por não ter conseguido o que demais sagrado deixara à superfície da terra: o seu amor. «Está bem, eu acredito», - disse ela. - «Mas não te canses tanto, antes que vás outra vez.» - Ainda dias antes ela vira um filme na televisão em que os mortos voltaram a nascer. A ideia disso acontecer parecia um milagre. Tinha ouvido tantas histórias de bebés que caíam de arranha céus e ficavam na mesma. Há quem diga; ao menino e ao borracho Deus põe a mão por baixo. Não será bem este o caso, mas havia uma cena no filme que deu na televisão em que o artista morre mil vezes e está sempre a nascer… Retomou o fio à sua meada. «Às vezes.» ─ Resolveu dizer ─ acontecem coisas milagrosas.» - A névoa tornou-se mais espessa à volta dela. Por isso, quando deu conta, tinha conseguido passar por debaixo do céu. Atravessou o rio quando a neblina se adensou para, instantes depois, se dissolver por completo, levando consigo o sonho. «Mas ele estava lá.» Repetiu ela.

Friday, June 27, 2014

CONTOS DE RATAZANA __________________ BOCHECHAS E O SEU JULINHO Agarrando bem a sua bolsa, lá estava Bochechas sentada ao lados seus amigos. À frente, Serrador dizia: «Digam lá o que disserem, ela está aqui e não me deixa mentir: tem tido muito juízo na cabeça e põe todo o dinheirinho que ganha no banco.» - Ela compartilha da mesma opinião, enquanto Vassouras entra no conflito e diz: «Se ela tem cinco milhões de escudos guardados? ─ ele respirou fundo ─ «Acho muita corda para a viola!...» - E eu espero que eles parem de falar para intervir: «A ganância às vezes é um sintoma do caos que está para suceder. Não acham que é muito dinheiro para uma rapariga só?» - Serrador volta a confirmar: «Vós estais redondamente equivocados. Ainda ontem fui ao banco com a moça e vi com os meus próprios olhos o seu extracto bancário. De certeza, ela não se importa que vos diga, mas não são cinco milhões mas antes sete milhões de escudos.» - Ficamos a olhar uns para os outros. «É absurdo ─ comenta Vassouras ─ mas tudo é possível: como diz o ditado; grão a grão a galinha enche o papo.» - Bochechas soltou uma gargalhada. E logo a seguir, responde: «Não se admirem. ─ Olhou para todos ─ sou uma moça sem vícios; não fumo, não bebo fora do trabalho, não jogo e, essencialmente, não tenho chulo.» - A conversa estava interessante. E, deste modo, por mais que o optimismo de Bochechas fosse convicto, não estava preparado para o que depois viria a acontecer; jogava no amealha-debaixo-da-roupa e ignorava o imprevisto da ocasião. Atirei-lhe o meu remate final: «Mas acautela-te, porque já vi por aí a farejar uns pequenos tubarões. Se um dia aparecer por cá um daqueles ferozes, leva-te daqui, tão certo como nós os quatro multiplicados por dois sermos oito…» - … As bocas às vezes, tornam-se realidade e são tão úteis como os factos. De acordo com a boca o sujeito depois de olhar à sua volta foi sentar-se numa cadeira. Notava-se nas suas feições um rosto de puto. Olhou com alguma timidez para o ambiente até mandar chamar Bochechas que se sentou à sua frente. O diálogo entre eles foi curto, sendo acompanhado por um champanhe bruto e bem fresco. Também houve direito a brinde, embora não fosse bem especificado o porquê. Ele apresentou-se: «Chamo-me Julinho.» - A pele da cara dele era amarelada, sinal que não ia para a praia; tinha os dentes da cor do tabaco. Nos meus ouvidos ressoara o seu sotaque de pacóvio. Era uma vez um encontro amoroso, cujos versos não rimavam, mas mesmo assim, eram bonitos de se ouvir pelo menos de noite. Os próximos encontros entre eles sucederam em catadupa. Foi chegada a altura dele lhe apresentar uma proposta aliciante ─ ser empresário de nome individual. Ela quis saber o significado daquela palavra. «Mas que negócio é esse?» - Respondeu-lhe ao ouvido. «Engate por linha.» - Gerou-se uma confusão na sua cabeça e deixou-se ficar nas estrelinhas do seu pensamento. Mais tarde, quando tomou uma atitude fê-la de cabeça bem erguida. Partiu para a grande aventura da sua vida… Todos os locais têm o seu significado. Os labirintos do caminho têm sempre razão. Este chamava-se ─ A rampa do cavalinho. Um sítio ermo e descampado, ao cimo de uma encosta. O primeiro amigo a visitá-lo foi Vassouras. «Não acreditas nas voltas que já dei para descobrir este miserável buraco.» - Ele esfregou o nariz. «Ainda não acabou! ─ disse Bochechas. ─ Vais ter de me acompanhar.» - Levou-o por um corredor estreito e escuro, até chegar junto de uma lareira, onde algumas raparigas de aspecto chunga se aqueciam ao fogo. Disse Bochechas numa voz abafada: «Enquanto vou buscar uma bebida para ti, deixa-te ficar a fazer companhia às meninas.» - Ele puxou-lhe de imediato por um braço e encostou-a à parede. «Estás louca ou quê? Não fico um segundo junto destes monstros, piro-me já a léguas daqui para fora.» - Retrocederam juntos para o corredor. «Já as viste bem? São obscenas e práticas ─ disse ela, sorrindo. ─ Nem sabes o que perdes.» - Serviu-lhe um copo de cerveja. Mal acabou de beber, Vassouras despediu-se à lavrador e desceu, suando as estopinhas, pela rampa do cavalinho feito num cavalão… Estamos a 7 de Abril do ano de 1992. O projecto de Julinho avançou num traçado rocambolesco mas atractivo. Apareceu acompanhado de um agente de imobiliária e propôs a Bochechas o negócio de comprar uma mansão. Desde que entrara para esta vida, sempre se imaginara na pele de Madame Vovó, uma personagem idealizada na sua mente, quando se formou na arte do engate. O negócio acabou por se realizar em cima de uma mesa, depois dela ter assinado os papeis e passado os cheques para a transacção comercial. «Esta casa vai dar-nos muito dinheiro em pouco tempo ─ diz ele ao ouvido dela. ─ Vamos ser ricos.» - Passou-lhe o braço por cima dos ombros. «Espero bem que sim. ─ Ela fechou os olhos. ─ Agora que fui às lonas.» - Abraçaram-se fervorosamente. A frequência no local à noite tornava-se devastadora por causas das quezílias entre os vários grupos de clientela, havendo quem apelidasse ─ Impróprio para consumo ─ E sempre que os grupos se pegavam à troilada, era o raio do caneco. É que nem sempre Julinho, resolvia a contenda à força de cabeçada… Subitamente, ouvem-se os cânticos dos pielas a fazer um chiqueiro enorme. Toda a gente corre para o mesmo lado, desafiando os regulamentos, do bar. Às tantas, voam as mesas e bancos pelo ar e ouvem-se os estilhaços de vidros a cair no chão. O pânico generaliza-se. Julinho diz a Bochechas: «Vou já pôr aqueles cabrões em sentido… se der para o torto chama a ramona.» - Chegou juntos dos prevaricadores. «O que é que se passa aqui?» - A maioria deles estavam embriagados. Um deles disse: «Não se passa nada, apenas dei uma galheta naquela estúpida por me chamar atrofiado dos cornos.» - Ele puxou o indivíduo pelos colarinhos. «Mas quem é que te disse que podes bater em alguém?» - O outro nem teve tempo de respirar. Logo a seguir, ele atirou-lhe com semelhante marrada que o pôs de cu para o ar a gemer de dores. O sangue jorrou pelo chão. O tipo deitou as mãos à volta da cara toda ensanguentada. «O cabrão fez-me um lanho na cabeça.» - Segue-se uma luta campal, parecia mesmo as rixas do far-west. Todos batiam em todos e já ninguém se entendia. No momento em que uma voz roufenha grita lá do fundo. «Lixai o proxeneta do azeite.» - A confusão aumentou. Ouvem-se gritos, choros e garrafas a voar pelos ares. Bochechas sobe para cima dum banco de madeira e põem-se aos berros. «Fujam que vem aí a guarda.» - Aumentara as confusões. As pessoas saem a correr e atropelam-se umas às outras. A rampa tornou-se num inferno. Ouvem-se os cães a latir, não se sabe se é de susto ou de medo. O disparo de uma arma seguido de um gemido paralisa toda a gente. Fez-se silencio à volta. Não há ruídos de nada. Até que chega o som do carro da patrulha. Os clientes descem a passo de galgo pelos caminhos adiante sem olhar uma vez sequer para trás. O chefe da patrulha apeia-se do carro e inspecciona o local. Sente-se no ar um cheiro a trampa. O chefe mistura-se com o pessoal da casa, é um homem importante, apesar de tudo, as pontas do seu bigode retorcido dão-lhe um ar autoritário. «Quem foi o causador (ou causadores) deste imbróglio?» - A resposta não foi lá muito convincente. O estabelecimento foi encerrado e o negócio acabou por ruir pela rampa abaixo. A guarda encetou outro tipo de investigação e fez uma visita a casa de Bochechas que prontamente abriu a porta. «O senhor guarda está enganado. O meu homem não fugiu, simplesmente foi tratar de negócios.» - O guarda voltou a falar. «Vai ter que nos acompanhar ao posto policial.» - Vestiu-se apressadamente e seguiu no carro da guarda. Ao chegar ao posto, sofreu um grande abalo quando soube que o negócio da mansão não passava sequer de um logro. Levou as mãos à cabeça. Mostraram-lhe os papeis, tudo não tinha passado duma fajardice tramada pelos dois homens. Quantos sonhos terão sido sonhados durante aquele tempo? Terá sido nesse momento ─ sim, porque não? ─ que Bochechas pensou pela primeira vez que fora usada tão infantilmente. Foi nesse momento que olhou para uma tabuleta em cima da cabeça do guarda e ficou boquiaberta ao ler o escrito: ─ Se acreditares em ti és um vencedor ─ Uma coisa é certa: durante aquela noite, viu-se de súbito prisioneira dentro dos grandes círculos metálicos da nostalgia e acordou com eles a esmagarem-lhe o peito com interrogações. Ate que, finalmente, às três da madrugada do dia 4 de Novembro, foi arrancada por um pesadelo que a atirou para cima do mocho do posto da guarda. Com violenta e nostálgica fúria, acordou e olhou com espanto quando viu entrar Julinho algemado a umas correntes, diante dói seu nariz. Durante o interrogatório, Bochechas passou-se totalmente ao escutar o juiz – inquiridor, quando apresentou o processo. Ironicamente, disse, credo senhor, nem o famoso cadastro de Jesse James seria tão volumoso…

Sunday, June 8, 2014

CONTOS DE RATAZANA (7) __________________ Durante a manhã, quase sempre ia tratar de fazer as compras para o bar. Depois das nove horas,era acordado pelo velho despertador que nunca falhava o seu toque, depois do pequeno almoço, leite e café, com um pão torrado ou tostas, conforme o que houvesse em cima da mesa, e saia para a rua. Gostava de utilizar as zonas pouco demarcadas dos locais habituais, afim de fugir a uma certa rotina. É dia de peixe. Mas nem sempre havia o que me interessava. Depois das compras feitas, voltava de regresso a casa. Pelo meio, fui tomar um pingo de leite com café. Entrei no café e ouvi chamar por mim: Psst. Rodei a cabeça e vi um grupo de mulheres sentadas a olhar. Reconheci uma delas e aproximei-me do grupo. «Se ainda duvidas quem eu sou, chaga-te cá.» - Exclamou a mulher que reconheci. Franzi o sobrolho: «Sabes bem que de manhã ando sempre a dormir.» - Trocamos as saudações da praxe. Depois dela me apresentar as suas amigas, disse: «Como conheces muita gente, podias ajudá-las a vender as suas tralhas.» - Achei óptima a ideia. «Com todo o gosto, não sei os preços que levam por vender as vossas tralhas, mas de uma coisa sei eu; fazer tachos é a minha especialidade…» - Ao mesmo tempo, pisquei-lhes o olho, elas entenderam. Perdi alguns minutos a conversar até voltar à minha vida. Prometeram fazer uma visita ao bar. Não eram umas novatas mas, pensando bem, ainda rompiam umas meias solas. Eu estava sozinho, no bar, cercado de copos para arrumar em cima de uma bandeja. Elas, ao verem-me, exclamaram: «Eh lá, lamentamos incomodá-lo mas podemos tomar um cafezinho?» - Eu, cheio de simpatia, levantei a mão e fiz-lhe sinal para se sentarem, saindo ao encontro delas. Sentámo-nos à mesa. Elas tomaram café e umas bebidas gasosas. Uma delas, a loira, arregalou os olhos: «Mostre-nos lá a sua casa. Já vi que é muito bonita.» - Levantei-me e fiz-lhe as honras da casa. Depois, voltamo-nos a sentar. A entrada de clientes na sala interrompeu a nossa conversa. Pedi licença e fui atender: «O que vão tomar?» - Perguntei eu. Eles não paravam de olhar para o fundo da sala. «Para mim, serve-me o habitual.» - Disse Cola Meu. O parceiro ao lado, Caga Milhões, não se fez esperar. «Um whisky com muita água.» - Enquanto os servi, arranquei os meus pensamentos para a manobra. Voltei-me para os dois: «Tenho ali aquelas vendedoras que querem vender os seus artigos; por acaso não estão interessados em ir ver?» - Cola Meu sorriu: «Vamos lá, mas só se o preço for convidativo.» - Levei-os à mesa e apresentei-os. «Chamo-me Filete Dourado.» - Depois dela se apresentar, disse Caga Milhões: «Parece que a conheço.» - Tinha de ser. Aquele homem conhecia tanta gente que raramente alguma pinta lhe escapava ao seu olhar de avestruz. «Eu a ti também ─ disse ela, compondo-lhe a gravata. ─ Fica melhor assim.» - Os outros olharam para eles com alguma inveja. Momentos depois, Cola Meu pôs-se de pé, de ombros largos para trás. «Não queres mostrar-me… as tuas peças?» - A outra pegou na maleta de mão. «Aceito. ─ Mas nada de apalpões à ganância.» - Deram entrada no coreto ao lado, tendo ele jurado que não a apalpara daquele modo que ela expressara. Caga Milhões e Filete Dourado foram foxtroteando como manda o regulamento do bar. Quando a dança acabou ele, radiante de prazer, propôs: «Queres ir até à varanda apanhar ar?» - Ela sorriu. «Só um bocadinho, mas cuidado com essas manápulas.» - Os outros estavam encantados. Quando eles se cruzaram no caminho, a outra pareceu admirada. «Ena! ─ diz Cola Meu ─ Conseguiste?» - E ele: «Cala a boca!» - intervém Caga Milhões: «Deixa lá. ─ Responde a outra ─ Não ligues!» - Arrebentaram de rir. Mas fica-se por aqui o encontro. Os dois seguem os seus destinos, enquanto elas vão tratar de preparar as próximas encomendas que estão para acontecer, se a sorte não desaparecer. O próximo encontro no café deu para conhecer mais uma cara nova, amiga das vendedoras de panelas. Dirigi-me até elas. «Temos mais uma vendedora?» Ripostou, com um ar que a enterneceu. «Não. Sou uma aprendiza.» - Gaguejei um pouco. «OK, não há problema.» - Devo confessar que aquele grupo era endiabrado. E lá vem Caga Milhões com as sobrancelhas arrebitadas: «Por aqui?» - Enviei-lhe uma saudação com a mão. «Até foi bom aparecer. Chegue-se para aqui.» - Aproximou-se. «Estás bem acompanhado.» - Sorri para ele. «Chegue-se cá. Quero apresentar-lhe esta cara bonita.» - Estendeu a mão, a moça da cara bonita não tirava os olhos dele. Parece que tinha visto o Conde da Batata Frita!... E foi assim que eles se conheceram. «Deve ser bom andar num carro daqueles ─ disse a moça da cara bonita. ─ Que marca de carro é?» A voz dele sobressaiu: «É um Porsche.» - «Sabe que nunca andei num carro daqueles?» - «E qual é o problema? Se quiser, damos já uma volta pela Avenida da Boavista e ponho-a cá num instante.» - Não hesitou e saiu atrás dele em direcção ao carro. Quando os vi entrar para o carro, não deixei de rir. Lembrava-me das palavras dela quando disse: ─ Nunca andei num carro daqueles. ─ Francamente, não é que eu tivesse alguma coisa contra a máquina, nada disso, simplesmente aquele carro tinha mais de vinte anos. Ao ligar o motor, fazia mais fumo que a caldeira do fogão a lenha do tempo do meu avô. Pus-me a vê-los arrancar. Mal o carro avançou, o fumo espalhou-se pelo ar, deixando um rasto de cheiro a óleo queimado. E Caga Milhões descreve uma volta pela avenida adiante. O vento hoje sopra a Norte e vem carregado de calor. Alguns transeuntes olham curiosos. Os olhos dela eram como verrugas, penetrantes, mas a falar era suave e simpática. Caga Milhões tinha-lhe oferecido uma espécie de corrida e tinha-a entusiasmado com uma volta ao longo da avenida, até passar por cima do jardim, parando junto dos arbustos… Pergunta-lhe: «Que tal? Gostou da viagem?» - «Ufa, deixe-me respirar, ainda estou meia tonta.» - «E vá lá que ainda não carreguei o prego a fundo!...» - «Essa é boa… Não me assuste mais.» - «Há uma coisa que não sabia. É assim tão rechonchuda?» - «Sou, mas chegue-se para lá; já estou a sentir os calores por mim acima.» - «Mas que coxa gorda!...» - «Cuidado, não ponha as mãos nas pernas que o varredor está a espreitar!» «Quero que o varredor vá dar uma volta ao sobreiro!... Com a traça que estou, ainda o deito abaixo!» - «É doido ou quê? Pare de me apalpar as mamas.» - «Ó! Meu Deus! Que mamas…» - «Que homem este que me põe… tão tola… aiaiaaaai!» - «Ó filha, e se déssemos aqui uma braitada? O varredor até se mijava todo.» - E Caga Milhões abre o vidro do carro e põe a cabeça de fora, papagueando todos os disparates, insultando o varredor… «Se dás mais um passo em frente, passo-te o carro por cima desse esqueleto de peru…» - «Ah! Sim ─ disse o varredor pouco risonho. ─ Vai mandar postas de pescada para a tua rua.» - E, cinco segundos depois, Caga Milhões gracejava sobre os braços dela e tocou-lhe nos cabelos. «Ó filha, chega-te mais para cá.» - «Pare de me apalpar, senão começo aqui a gritar.» - «Boa ideia tiveste agora, grita que eu gosto.» - Um grito solitário rasga o silêncio da manhã. No interior do carro os dois corpos envolvem-se numa marmelada franciscana… Ao longe, o varredor murmura para a relva. «São completamente doidos! Filhos de uma puta!» - E nove minutos depois, no interior do carro, tudo se acalma. Que peso sai daquelas cabeças tontas e perversas e produz semelhante gritaria? Ele sai do carro e dá um arrumo às roupas. Depois, volta-se na direcção do varredor. «Também estás com a traça? Espera aí que já te faço a folha.» - «Vai roncar prá tua rua. Tens cara de chouriço!» - Espingardou o varredor. «Chiu! Eu calo-te já.» - Entrou para dentro do carro e ligou o motor. «Fica a saber que eu tenho os meus impostos em dia.» - Deu uma aceleração ao carro que passou velozmente por cima do jardim pondo o varredor a correr por tudo quanto era relva! O carro, depois de galgar para estrada, perdeu-se pela avenida.

Sunday, March 30, 2014


FERNANDO ABRAÃO
E RATAZANA
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O
MUNDO
DA
NOITE
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Por volta dos anos 83 aguardava-se que um serralheiro da construção civil mostrasse a sua virilidade de machão. António Glória vinha fodendo as raparigas dos bares, desde meados dos anos 80, com os seus gestos excêntricos de atirar as notas para cima da mesa. Quando iniciou a tarefa de trabalhar por conta própria, em 1983, trouxe com ele, para Sines, um grupo recrutado de homens, começando logo a trabalhar com eles. Embora fosse um homem casado, passava a maior parte do tempo fora de casa, altura em que o seu nome estava ligado a várias prostitutas. Era frequente a forma como tratavas as prostitutas com tal rigor que mesmo um proxeneta teve-o de o aconselhar a ter mais calma e serenidade (isto é, ser menos bruto). Depois de ter subido na carreira profissional, por empreendimentos de maior dimensão, em 1987, uma empregada da noite de

um cabaré contou como Glória a tinha feito sua amante, quatro anos atrás. Antes de formar uma firma individual, Glória contou ao barman do bar que frequentava assiduamente que tinha levado para a cama quase mil raparigas. Um livro publicado após a sua aposentação, Escritos Traidores, conta que em noites de sangue quente, ia até um bar da sua preferência, fosse em Lisboa ou no Porto, e sacava uma rapariga e levava-a para o seu apartamento privado. Mesmo durante a sua passagem, ninguém levava a mal com engates deste género; eram de esperar de um homem cheio de notas e cheio de speed.

Toninho Alves, o terrível «Gungunhana do sexo», dos anos 85, tentou decidir exceder Glória ao engatar duas ou mais raparigas no bar, havendo alturas em que parecia que estava louco por relações sexuais. Muitas vezes, acabava a sua relação batendo com a cabeça do pénis na cabeça da acompanhante, e uma ocasião pô-la coberta de chocolate-baunilha. Rodeado permanentemente por «grupos», Alves era capaz de «servir-se das raparigas como algumas pessoas comem tremoços». A sua virilidade era manifestamente extraordinária. Duas cabriteiras fizeram uma aposta interessante a ver quem dos clientes mantinha a gaita de pé depois de uma relação; um deles provocava a ereção pelo sexo oral. Alves foi um dos raros clientes que conseguiu ser capaz de manter a sua gaita de pé até elas se cansarem, mas também, aquele a quem as cabriteiras não conseguiram acompanhá-lo, porque a sua gaita se recusava a murchar. Em 1985, com trinta e cinco anos, Alves contratou numa noite um grupo de raparigas de ballet para animar os amigos na sua vivenda e bebeu demasiados uísques para gozar que a seguir desmaiou ao aspirar o próprio vomitado. Foi reanimado tão rápido e tão espontâneo que não deixou de fazer amor como todas elas, como nos bons velhos tempos do ano 83. Ficou célebre a sua fórmula. ´Se me foderes primeiro, apresento-te o melhor de mim`.


O acontecimento mais relevante do cabeçalho de O Jornal Dos Traidores do ano 83 foi o título que anunciava a morte de João Cesário, também conhecido pelo Galileu, e mais a sua acompanhante, em 7 de Junho de 1984. Galileu, o professor biológico e a acompanhante empregada de um bingo da cidade de nome Elsa, divertiam-se num fim-de-semana, num apartamento em Mérida, em Espanha, quando o amante de Elsa com a sua cumplicidade, entrou de sorrateiro na sala, munido de uma lanterna e de uma faca. Cesário não deu por nada e foi roubado e depois deixado ao abandono — Galileu, que continuava a dormir, assim ficou. Abraão, dono de O Bar do Traidor, encontrava-se no café quando recebeu a triste notícia. Imediatamente a seguir vieram os boatos. Um mau-olhado de O Jornal Dos Traidores escreveu: «Durante meia semana os boateiros sobre a desgraça de O Mundo da Noite falavam de comprimidos, droga e exibicionismos sexuais. O primeiro boato referia-se que as mortes foram cometidas por excesso de velocidade e especulava-se que tinha havido falha mecânica. Falava-se também de comprimidos relaxantes e perversão sexual. Na noite seguinte às mortes de Galileu e Elsa, o próprio Abraão foi com uns amigos, ao restaurante onde o Galileu tinha jantado e conhecido a jovem Elsa — conquistada ao acaso —, onde combinaram seguir para o apartamento em Espanha, depois de tudo acertado entre ambos. Dois dias mais tarde, no bar, uma prostituta chamada Teresa, sentada à mesa de um grupo de clientes, admitiu perante uma companheira de mesa que estivera quase para se envolver nessa viagem e a companheira contou que também fora convidada. Desabafou. «Olhai, onde é que eu tinha ido parar? Debaixo dos torrões». Depois de um dos casos mais chocantes e arrebatadoras das histórias dos bares do Porto, Abraão reuniu-se com os seus traidores (como chamava ao grupo), para receber nessa tarde, no bar, o famigerado morto-vivo. Tornou-se evidente, durante a receção ao Galileu, que a sua morte fora praticamente um lapso — o seu corpo tinha sido confundido, porque no seu carro e no seu lugar seguiam o amante e Elsa. O carro embateu contra um camião na autovia de Vigo, tendo-se incendiado de seguida, e os corpos ficaram carbonizados. Depois de Galileu ter sido recebido com estupefação por parte de toda a gente que enchia o bar, estes ofereceram-lhe de beber e deixaram-no contar a sua façanha. Após ter narrado a sua história, o Galileu retirou-se e juntou-se às raparigas da rapidinha. Depois embrulhou-se e, após alguns mimos, mandou vir umas bebidas para elas, para o sofá. «Não restam dúvidas sobre como escapei», diz o Galileu no seu comentário final. «Abri o coração à aventura e quase me ia lixando com ela. Não estava para morrer. Quando regressei a casa e perguntei à minha patroa se ainda gostava de mim, recorreu à sua expressão atual. «Sim, morto-vivo». Cinco anos depois, a história do morto-vivo tinha fascinado todo o cliente do bar. Em 1990, é recebido com saudade — um gesto, sem dúvida, mais salutar. Um ano depois, o Galileu veria publicada a sua história no livro de Ratazana ´Escritos Traidores`, com uma narrativa fabulosa, falando com alguma verdade das diversas mulheres que foram com ele para a cama e contando toda a história que o obrigou a afastar-se dos bares e da «nait» (noite). O livro conta tudo. (Não só dele como dos outros clientes-traidores) Descreve, por exemplo, a tuléria da sua tentativa de bater o recorde dos traidores ao levar cinco mulheres para a cama e fazer amor com todas elas, e o que aconteceu depois da sua vinda de Espanha. Uma artista de sexo feminino, levou-o para um cubículo, onde dois sofás ao comprido estavam transformados numa casa improvisada.