Wednesday, June 6, 2012




CONTOS DE RATAZANA
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15. Episódio



 Eis como o Pipocas se pôs a cismar e ficou amalucado. Como enganou o Papagaio, na venda da cabana



Quase todos os dias, de manhã cedo, o sol bate nas janelas do lado poente das ruas; e, de tarde, brilha no sentido oposto. Diariamente, o autocarro creme passa, barulhento, no seu percurso entre Marco de Canaveses e as localidades vizinhas. Todos os dias as casas comerciais abrem as suas portas para o público ávido de intenções o que aumentam o negócio. Todas as tardes, o vento sopra do monte e agita os pinheiros nas colinas. Os reformados à bica sentam-se nas pedras de cigarro na mão e no rosto vinca-se-lhes a paciência e o descaramento. Por cima do Marco de Canaveses, a rotina ainda se mantém inalterável, pois a Xanana não deixa de ter um indeterminado tipo de aventuras com o seu repertório de amantes de rápida substituição. É bem conhecido o facto de ela aceitar outra vez um homem há muito deixado de lado.

Na casa do Pipocas, as mudanças eram mais significativas. Os amigos tinham subido na vida que podia ter sido benéfica para toda a gente, principalmente para eles: levantar cedo de manhã, ficar agarrado ao trabalho e regressar com novidades para contar. O Faísca continuava a levar as latas do lixo e vender bugigangas no jardim do Marco de Canaveses, mas agora gastava com despesas os 10 escudos que ganhava todos os dias. De vez em quando os amigos lá arranjavam uma farra e lá vinha o vinho, as cantigas e as zaragatas para a acompanhar. O tempo ainda é mais complexo junto ao comércio do que em qualquer outro lugar, pois, além do girar do dinheiro e do movimento das vendas, há o bater do crédito mal parado, sobrepondo as margens dos lucros, e o subir e descer do negócio como os de uma grande tômbola.

Pipocas começou a sentir o andar do tempo. Olhava para os amigos e via que todos os dias as coisas se passavam da mesma forma. Quando de noite acordava na cama e concentrava os olhos no escuro, ficava assustado consigo próprio por ter acordado com o escuro. Na loja, olhando a rua, o Pipocas começou aos poucos a sonhar com os dias em que fora viajante; Durante o Verão dormira nas pensões; no Inverno, quando a chuva se fazia sentir, passara as tardes nos frescos bares de entretenimento. Sobre os seus ombros havia o peso da propriedade. Lembrava-se de como o nome de Pipocas era um nome de boa pronúncia.


Oh, as farras de sexo! As idas pela estrada fora para o apartamento no Porto com uma mal-arranjada rapariga de ocasião! O esconderijo da cabana quando um desgraçado perdido pedia ajudas. Bebedeira e borga, doce borga! Quando o Pipocas se lembrava desses velhos tempos idos, era capaz de sentir novamente na cabeça o bom gosto da fajardice atribulada e enchia-se de saudades. Desde que a herança o elevara na escala social, só raramente se metia em barafundas. Esborrachava-se, é verdade, mas não da mesma maneira vagabunda. Sobre os seus ombros havia sempre o peso das casas; sempre a diferença em relação aos seus amigos. Como começasse a ter uma expressão sombria, quando se sentava no quintal, os amigos pensaram que estivesse infeliz.

— Gemas batidas de ovos de faisão, fazia-te bem — sugeriu Catanada. — Mete-te no choco, Pipocas, que a gente acende umas velinhas ao Santo Protetor!

Mas não eram atenções que o Pipocas queria, era pândega. Durante uma temporada andou cismado, olhando fixamente para a frente, encarando com uma expressão brusca os seus queridos amigos e batendo as mãos enxotando as incómodas moscas que se lhe deparavam na frente. Por fim pôs termo às saudades. Uma manhã desapareceu. Meteu-se na carrinha em direção do monte e fugiu da circulação. Quando, ao fim da tarde, os amigos bateram à sua porta e deram pela sua ausência Catanada disse:

— Aqui anda saias. Está apaixonado.

Não pensaram mais nisso, pois toda a gente tem direito ao amor. Continuaram a viver como dantes. Mas, como passasse uma quinzena e o Pipocas não desse conta de si, começaram a ficar preocupados. Uniram-se em grupo, e foram ao monte procurá-lo.

— O amor é magnífico — disse Catanada. — Não se pode criticar um homem por ir atrás duma rapariga, mas uma quinzena é demais. Deve tratar-se duma rapariga com muito esplendor, para conseguir manter o Pipocas há uma quinzena fora de portas.

Pascácio comentou:

— O amor numa pequena quantidade é como um gole de uísque. Ambos em excesso faz um homem descontrolado. Quem sabe se o Pipocas não está descontrolado. Talvez essa rapariga seja temperamental de mais.

Very nice estava em desacordo total.

— Não é costume o Pipocas ausentar-se tanto tempo. É capaz de lhe ter dado alguma coisa de mal.

O Faísca levou o cão para o monte. Os amigos disseram ao jeco:

— Procura o Pipocas. Se calhar está a dar alguma troçada. O bom homem que às vezes te acolhe e abriga em sua casa é capaz de lhe ter dado alguma macacoa.

O Faísca acariciou-lhe as orelhas:

— Cão fiel e amigo, procura o nosso amigo.

O cão, porém, abanou o rabo alegremente, seguiu a pista de uma galinha-do-mato e foi atrás dela. O grupo andou até ao escurecer pelo monte fora, chamando o nome do Pipocas, procurando em sítios que eles poderiam ter escolhido para uma aventura. Conheciam os lugares onde um homem podia aventurar-se, mas não viram nem sombra do Pipocas.

— Talvez tenha ficado amalucado — prognosticou Catanada. — Se calhar foi alguma chatice que lhe deu volta ao miolo.   

No calor da noite fizeram uma viagem ao apartamento do Pipocas no Porto; tocaram à porta e esperaram. Ficaram um bocado em expetativa. Mas de lá de dentro não ouviram ruido nenhum. Catanada olhou rapidamente para Artur Bófia e depois teve uma ideia.

— Tu conheces os bares todos. Leva-nos até eles. Fazemos de conta que somos uma rusga policial.
— Temos de dar com ele — afirmaram os amigos uns aos outros, — não vá acontecer-lhe alguma ruindade. Temos de procura-lo por todas as casas até o encontrarmos.

Sacudiram a preguiça dos ombros. Todos os bares foram revistos e, então, começaram a ouvir boatos curiosos:

«Sim, o Pipocas esteve aqui ontem à noite. Oh, aquele bêbado! Oh, que fajardo! Vejam bem, o Pipocas atirou a camareira ao chão com um encontrão que lhe deu e sacou-lhe a garrafa de champanhe. Que pifo ele enfardou!»
«Sim, vimos o Pipocas. Tinha um buraco na camisa e estava a cantar: “Venham cá minhas pegas, vamos para o sofá coçar”, e a gente foi. Não tivemos medo. Ele parecia não estar lá a regular muito fixe.»     
    
Na Ribeira do Porto encontraram mais notícias do amigo.

«Ele passou por cá», disseram os empregados. «Queria embebedar toda a gente. O Bruno Chouriço mamou-lhe uma garrafa de uísque de 15 anos. Depois o Pipocas partiu os vidros da cabina da música e um segurança pô-la na rua.»

Continuaram calorosamente a seguir o rasto do seu endiabrado amigo.

— Martelão deixou-o na rua a noite passada — informou o gerente —, mas ele arranjou maneira de se pôr a lestes antes que chegasse a polícia. Quando o apanharmos damos-lhe uma coça.

Os amigos deram por terminada as buscas. Foram até à cabana e, com grande espanto seu, viram que o novo saco-cama do Pipocas, arrumado por Catanada nessa manhã, tinha sido usado.

— Agora é de rir! — exclamou Catanada. — O Pipocas está chalupa e em fúria. Se não o agarramos, ainda lhe acontece ir parar ao manicómio.
— Iremos à procura onde ele se terá metido — disse Very nice.

Catanada pôs a cabeça a refletir.

— A coisa não bate certa. Sempre que procuramos o Pipocas, ele já de lá saiu. Temos de proceder com inteligência e não como burros.
— Mas onde pensas que ele irá?

Imediatamente se abriu uma luz ao fundo do túnel no espírito deles.

— À adega do Papagaio! Mais cedo ou mais tarde, o Pipocas acabará por lá ir. E aí temos de o apanhar, para travarmos com esta loucura toda.
— Claro, claro — concordaram todos —, temos de ajudá-lo.

Dirigiram-se à adega do Papagaio. Este, contudo, já tinha a porta fechada.

— Estão a querer saber — gritou através do postigo — se vi o Pipocas? Ele veio-me cá com duas pulseiras e um relógio e eu dei-lhe meia caixa de uísque. Querem saber o que esse gordo fez depois? Injuriou a minha patroa, e a mim insultou-me do piorio, escorraçou os gatos aos pontapés e roubou-me a cana de pesca que eu tinha na arrecadação. — O tasqueiro fumegava de comoção. — Fui no seu encalço para ir buscar a cana de pesca e, quando voltei, estava ele na marmelada com a minha patroa! Pérfido, larápio, borrachão, é o que o vosso amigo é. Hei-de metê-lo nas grades.         

Os olhos dos amigos fizeram faíscas.

— Ó meu boi da Índia — disse Catanada serenamente —, olha como falas do nosso amigo que ele não anda bem.

O Papagaio fechou o postigo. Ouviram-no correr o ferrolho, mas Catanada prosseguiu, mesmo com o postigo fechado.

— Javardo! Se não fizesses falcatruas com o teu vinho martelado, estes casos não aconteceriam. Vê lá mas é se deixas de nos enlamear com essa língua de jacaré. Se não fores bom para ele e para nós, a gente abre-te essa barriga como um porco.

Dentro do postigo, o Papagaio nem tossia nem rugia, mas a ferocidade das palavras de Catanada fazia-o tremer de raiva e medo. Só ficou aliviado depois de ouvir os passos deles que se afastavam indo pelo carreiro. Nessa noite, depois de os amigos terem ido para a cama, tristes com a fraqueza nas pernas em baixo, os amigos sentiam a maior necessidade de se esticarem ao comprido para recuperarem forças para a etapa seguinte. Pela calada da noite, o Pipocas, a quem as sombras da noite ajudava a encobrir a sua passagem, introduziu-se em casa, silencioso como a sua própria sombra e, pesadamente, atirou-se para cima da roupa e assim ficou. De manhã, dirigiu-se resolutamente ao monte, e cavou outra vez. A casa ficou em estado de deserta. Por todo o lado, em redor, o silêncio tomara conta daquela área.

Dificilmente o rosto do Papagaio apresentava outras feições que não fossem a desconfiança e a cólera. No seu negócio de fabricante clandestino de bebidas a martelo, e no seu relacionamento com as pessoas da terra, o seu rosto socorria-se muitas vezes dessas duas feições. Além disso, nunca o Papagaio fora a casa de alguém. Todos o visitavam na sua casa. Por esse motivo, quando, de tarde, o Papagaio se dirigiu à cabana do Pipocas com um sorriso de feroz animal estampado no rosto, as crianças desataram a fugir para os pátios e puseram-se a espreitá-lo por detrás dos muros, os cães meteram o rabo entre as pernas e fugiram lançando grossos latidos e os homens, ao passar por ele, afastaram-se para o lado e fecharam os punhos para se defenderem de um doido. Nessa tarde o céu estava de cor cinzenta. O Sol, já há muito se tinha refugiado por detrás das nuvens escuras. O velho Rola, vendo o Papagaio sorrir, foi para casa e disse à mulher:

— Aquela besta acabou de tramar alguém e de o lixar. Tu vais ver!
   
O Papagaio estava feliz, pois levava dentro do porta-moedas um papel importante. Os seus dedos não largavam o porta-moedas vezes sem conta para lhe garantir que o documento ainda lá, se encontrava. Nessa tarde cinzenta, à medida que ia avançando, o Papagaio ia murmurando para si próprio:

— Ninho de corujas. Hei-de pôr cobro a essa peste dos amigos do Pipocas. Jamais lhes hei-de dar vinho fiado ou vender vinho em troca das coisas e ficar depois sem elas. Quando estão sós, não arrebitam cabelo, mas quando se juntam, parecem um bando de fariseus! Quando voltarem outra vez a fazer fajardices no monte, vão ver o que os espera. Hão-de saber que o Papagaio venceu. Pensam que me derrotavam, que me tiravam os tarecos de casa e a virtude da patroa! Hão-de ver que o Papagaio, o grande lutador, lhes vai dar água pela barba. Ah, sim, eles vão ver!

Assim murmurava o Papagaio enquanto ia andando apertando a mão no porta-moedas. Semelhante ao cinzento do tempo, o Papagaio aproximava-se da cabana do Pipocas. Lá dentro imperava a desolação. Os amigos não podiam alegrar-se nas cadeiras escaqueiradas, porque não havia de beber. Tinham trazido do vizinho o jornal sacado e estavam agora a ler apinhados em volta, e João-Ninguém, que viera visitá-los, contava as últimas da semana.

— Nino Cardoso — disse — já não é chefe na brigada da noite. Esta manhã, o comando distrital mandou-o para as multas.
— Eu até curtia ele — disse Catanada. — Quando um homem estava em apuros, o tipo trazia-lhe um baralho de cartas. E sabia mais truques do que cem jogadores juntos. Porque é que ele foi recambiado?
— É isso que vim cá dizer-vos. Como sabem, Nino Cardoso esteve muitas vezes na patrulha e era um guarda às direitas. Sabia como poucos como se deve controlar um quarteirão. Punha tudo a andar como devia ser. Só tinha um pequeno defeito. Quando bebia uísque, esquecia-se de que era chefe e embebedava-se, e depois tinham de levar com ele.

Os amigos concordaram com um aceno de cabeça.

— Eu sei — disse Pascácio. — Já ouvi constar que é difícil falar-lhe na ocasião. Esquece-se.
— Pois é — continuou João-Ninguém — Mas tirando esse aparte, é o melhor chefe que eles já lá tiveram. Bem, foi isto que vim cá dizer. A noite passada, no Porto, o Pipocas tinha uísque que chegava para uma dúzia de homens e bebeu-o todo. Depois pôs-se a escrever versos na parede. Estava carregado de dinheiro e comprou flores para oferecer a uma bailarina. Mas a bailarina não era uma mulher; era um travesti. De modo que teve de fugir.
— Mas o Pipocas — exclamou Catanada —, que anda por lá a fazer?
— O Pipocas — retorquiu João-Ninguém —, o Pipocas curte também, mas não para quieto em lado algum.

Os amigos suspiraram, aliviados.

— O Pipocas está a portar-se mal — disse Catanada com olhar grave. — A ser assim não vai dar bom resultado. Sempre gostava de saber onde é que ele foi arranjar o dinheiro?

Foi nesse preciso momento que o vitorioso Papagaio arrastou a porta e avançou a passos de general pela entrada da cabana. Irrequieto, o cão de Faísca, levantou-se do canto e aproximou-se, rosnando. Os amigos ergueram a cabeça e interrogaram-se uns aos outros. Artur Bófia agarrou no cabo da vassoura que ultimamente tinha sido utilizada contra ele. O andar pesado e confiante do Papagaio ressoou no chão da cabana. E, ele surgiu, sorridente. Não se mostrou fanfarrão, bem pelo contrário, mostrou-se tão amável como um gato e deu-lhes umas leves festinhas, como faria um bichano a brincar com uma mosca.

— Ah, meus queridos amigos — disse com suavidade, ao ver o receio instalar-se-lhes no rosto —,meus queridos amigos e fregueses! O coração parte-se-me ao meio por ter de dar tão amargas notícias àqueles a quem eu adoro.

Catanada ergueu-se de um salto.

— É sobre o Pipocas, está ferido? Diz-nos.

O Papagaio abanou suavemente a cabeça.

— Não, meus queridos meninos, não é sobre o Pipocas. O meu coração sofre, mas sou obrigado a dizer-vos que a partir de hoje sou o novo proprietário da cabana.     

Os olhos abriram-se-lhe de tamanha satisfação ao ver o espanto que as palavras tinham causado. Os amigos ficaram de boca aberta até trás e arregalaram os olhos de estupefação.

— Compraste a cabana do campo? — perguntou com delicadeza Catanada. — Como é que fizeste para comprar a cabana?

O Papagaio meteu demoradamente a mão no bolso e retirou do porta-moedas, o precioso documento, dançando com ele à frente dos olhos.

— Está aqui o documento da venda. O Pipocas veio ter comigo a noite passada e vendeu-ma por cinquenta contos. É o que se chama um contrato de venda.

Pascácio aproximou-se dele, calmamente.

— Embebedaste-o, com o dinheiro. E ele não soube dizer que não. Fala, boi da Índia?

O Papagaio riu com cinismo. (Põe-te à légua, Papagaio. Não vês que essas mulas te olham de esguelha? Lá estão eles em frente à porta, prontos para o que vier. Repara como os dedos do Artur Bófia perdem a cor ao agarrar qualquer coisa dura por dentro do casaco.) O Papagaio prosseguiu:

— Vocês percebem pouco de negócios, seus insurretos de uma figa. — O sorriso transformou-se-lhe e toda a crueldade iluminou-lhe o rosto. — Quando sair daqui, vou à polícia apresentar...

Quando as últimas palavras lhe saíram da garganta, as gargalhadas dos amigos fizeram semelhante estrondo, com a agravante do bater dos pés no chão. Depois, o Papagaio, ouviu abrir a porta da cabana.  

— Riem-se! — berrou. — O sangue congestionou-se no pescoço e no rosto. — Riem-se, um raio vos leve! Vazem daqui.

Catanada, que estava defronte dele, tinha um ar espantado.

— Vazem daqui! — perguntou com suavidade. — Que vazar é esse de que falas com tanta agressividade?
— Isto é o meu futuro lugar de repouso. Tenho planos para a cabana. Só preciso comunicar à polícia.
— Que eu saiba isto é pertença da comarca — replicou Catanada. — Pascácio, sabes se a comarca pôs a cabana à venda?
— À venda? — perguntou Pascácio. — Será a cabana do amor ou a cabana do desamor?

Catanada prosseguiu:       

— João-Ninguém?
— Esse tipo é capaz de estar doente da moelinha — respondeu João-Ninguém.
Very nice? Sabes alguma coisa acerca da venda da cabana?
— Acho que ele está mas é a sonhar — retorquiu Very nice numa voz galvanizada — e é demasiado cedo para se estar a sonhar.   
— Artur Bófia?
— Eu cheguei agora mesmo.
— Faísca?
— Ele não sabe o que diz. — Dirigiu-se ao cão: Sabe?

Catanada voltou-se para o erubescido Papagaio.

— Foste enganado, meu amigo? É possível que tu não soubesses que isto aqui é propriedade rural do concelho, mas, quando fores à polícia queixares-te, ninguém, a não ser tu, vais ser motivo de chacota. A gente faz poiso aqui; mas não somos donos nenhuns. Talvez fosse melhor ires para a adega e pores a cabeça a descansar.

O Papagaio estava demasiado baralhado para continuar a discutir. Os amigos rodearam-no, acompanharam-no até à porta e fizeram-no sair rapidamente, envolto na sua derrota. Depois, olharam uns para os outros e puseram-se a rir às bandeiradas; o humor voltara de novo e, desta vez, abrira uma brecha através da aldrabice. Os amigos voltaram para casa do Pipocas. Sentaram-se, contentes, no quintal.

— Cinquenta contos — disse Catanada. — Bem gostava eu de saber o que é que o Pipocas fez com tanto dinheiro.

O humor, uma vez aparecido na sua primeira edição, varreu de dentro o pessimismo. As conversas da ordem aqueceram o ambiente e os ânimos vieram ao de cima. A frescura instalara-se nos amigos.

— Fê-la bem — disse Pascácio, sorrindo. — O Pipocas devia receber uma medalha por fazer vendas destas.
— Para contrabalançar o Papagaio passamos a comprar sempre lá as nossas bebidas — propôs Very Nice.

Um periquito veio pousar na terra e maneou as penas, fugindo a seguir. Os cães, no pátio ao lado, cheiravam o chão, pensativamente, aqui e ali, e abanaram o rabo. Ao ouvirem o ruído de passos vindos da rua, os amigos ergueram as pestanas e depois puseram-se de pé exibindo sorrisos de boas vindas. Pipocas e Nino Cardoso, cada um deles com dois bons sacos, abriram o portão. Very nice correu para ambos e trouxe o saco do Pipocas. Os amigos repararam que o Pipocas apresentava um aspeto fatigado quando pôs as garrafas na mesa.

— Chegar até aqui faz suar — disse.
— Nino Cardoso — gritou João-Ninguém —, ouvi dizer que tinhas sido transferido para as multas.
— Fui — respondeu Nino Cardoso, exausto —, e ainda lá estou.

As tijelas encheram-se de uísque velho. Uma grande satisfação saiu do peito dos amigos, por tudo ter terminado. Catanada, bebeu um bom duplo.

— Pipocas — disse —, aquele boi do Papagaio veio ao bocado à cabana com aldrabices. Trazia um documento assinado e disse que tu a tinhas vendido.

O Pipocas ficou engasgado.

— Onde é que se viu fazer uma venda num papel tipo merceeiro rubricado com uma rúbrica? — indagou.
— Bem — continuou Catanada, — nós sabíamos que era grupo, de maneira que o informámos. Tu não te vais zangar com ele, pois não?
— Não — respondeu o Pipocas, metendo o copo à boca e acabando com aquela garrafa.
— Era bom termos qualquer coisa para empurrar a bebida — observou Very nice.

Pipocas sorriu com doçura.

— Já não me lembrava. No fundo desse saco há várias caixas de aperitivos e um salpicão e pão.

Tão grandes foram o apetite e o prazer de Catanada que se levantou para fazer um breve discurso.

— Onde é que há uma alma tão boa com o nosso amigo? — declamou. — Enche-nos de gozo no seu apartamento, partilha connosco a boa mesa e o seu bom uísque. Oh, que homem dum caraças, que amigo tão querido!

Pipocas ficou embaraçado e, pondo os olhos no chão, exclamou:

— Não tem importância. Os amigos são assim.

A alegria de Catanada, porém, era tão grande que abarcava o paraíso e até mesmo o inferno.

— Um dia destes temos de prazentear com uma boa despesa o Papagaio.     

Saturday, June 2, 2012


CONTOS DE RATAZANA
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14. Episódio


Eis como, da boa vida em casa do Pipocas, de uma caixa de pó-de-arroz dado como presente, das histórias dos irmãos Trindade e do amor frustrado do jovem Ricardo


 
Poucos eram os habitantes do Marco de Canaveses que usavam relógios de boa marca de parede ou de bolso. De vez em quando, um dos amigos arranjava um relógio de alguma maneira muito afamado, mas só o tinha durante o tempo suficiente para o trocar por qualquer outro que realmente se sentisse agradado. Na loja do Pipocas, os relógios tinham boa procura e havia dois escalões, mas apenas como objetos de venda. Para uso normal havia o relógio vulgar. Era mais barato e de funcionamento prático, do que um relógio de marca afamada. No Verão, aos domingos de manhã, quando as pessoas iam à feira dos selos, nas imediações da Caixa do Povo, é certo e sabido, que era uma bela altura para uma pessoa trocar ou comprar um relógio de outra marca, mais em voga, nos vendedores ambulantes que por lá se cruzavam. Quão melhor não é uma marca mundial? É uma bela ocasião em que nem as posses de uma pessoa derretem nos bolsos nem a bondade tem interrogações por não levar nada.

O Faísca e o cão seguiam, firmes e seguros, no seu trajeto habitual para o trabalho. A loja do Pipocas só abria passado três horas depois de o Faísca passar por lá. Quando o Pipocas fechou a loja, o dia ainda estava claro. O Sol já se tinha refugiado para lá do monte. O tempo tinha um cheiro seco e agradável, como o perfume das flores. E quando chegava o momento do grupo se juntar, havia sempre qualquer coisa para se contar, e as boas notícias guardavam-nas para essa ocasião.

— Vi o Arnaldo Curto — disse o Pipocas, — saia da casa da Xanana Maluca. Não há um dia que aquela mulher não se meta em barafundas.
— Só sabe viver assim — comentou Pascácio. — Quem sou eu para atirar a primeira pedra, mas em dado momento penso que a Xanana é um bocado atiradiça de mais. Só lhe acontecem duas coisas na vida: amor e sarilhos.
— Mas que é que vocês esperam? — disse Catanada.
— Nunca tem paz nenhuma — lamentou Very nice.
— Também a escorraça pela porta fora — retorquiu Catanada. — Dar-lhe a paz é acabar com ela. Amor e sarilhos... Está visto. Ah, mas não esqueçamos a pinga, porque aí está uma mulher sempre fresca, sempre feliz. Mas que é que aconteceu à Xanana?
— Vocês conhecem bem a Xanana — começou. — Há homens que algumas vezes lhe levam presentes, um frasco de água-de-colónia, um par de cuequinhas de fio dental ou um sutiã. Não passam de pequeninas coisas, mas Xanana aprecia-as. Ora bem, ontem, salvo erro, Manuel Chapadas levou-lhe um pó-de-arroz, uma caixita assim brilhante e bonita, que ele comprara num salão de beleza. A Xanana ainda deitou um pouco de pó-de-arroz na cara quando ele se envolveu com ela, mas ele foi-se abaixo antes da Xanana ter despertado.

«Como sabem, dinheiro é coisa que não falta ao Chapadas. Disse ele à Xanana: Não há nada melhor do que uma mulher ter um cheiro agradável. Sabe bem. Este pó aqui é muito bem-cheiroso. Vais gostar muito dele.»

Os amigos sorriram francamente e Catanada disse:

— Chapadas tem artes de Don Juan. Vejam lá o que ele não fez com o pó-de-arroz... gozo e amor. Um dia destes tenho de ir ter com ele.

Mas os amigos viam bem que Catanada estava era com inveja dele.

— Anda lá com essa história do pó-de-arroz — disse Pascácio.
— Bom — disse Catanada, — a Xanana ficou com o pó-de-arroz e mostrou-se amável para com o Chapadas. Disse-lhe que quando ficasse cheia do pó-de-arroz, ele podia dar outro presente qualquer. Depois, o Chapadas foi-se embora e a Xanana guardou o pó-de-arroz na cómoda para quando fosse visitada pelos amigos especiais.
  
«Depois, veio um amigo daqueles especiais visitá-la e a Xanana deixou que ele abrisse a caixa do pó-de- arroz e a borrifasse toda com ele. A certa altura o Barbas, como era apelidado, beijou a rata de Xanana. Nem imaginam. A língua entrou por ali dentro à procura do prazer. Os lençóis e os cobertores voaram e as almofadas abafaram os gritos. E, depois, quando o gozo se foi embora, o Barbas ficou com a cara como um palhaço. Agora a Xanana anda endiabrada e diz que há-de comprar mais caixas de pó-de-arroz iguais à do Chapadas.»    

— Ai a viciada! — disse Pascácio — O prazer é mesmo assim, quando corre conforme os nossos desejos. Já quando o  jovem André se estreou, foi do mesmo jeito.

O rosto dos amigos do Pipocas alterou, interessadamente, na direção de Pascácio.

— Vocês devem saber aquém eu me refiro, ao jovem André — começou Pascácio. — Parece mesmo um cobói, tronco largo e pernas compridas; mas não é lá grande coisa a pinar. Nas rapidinhas é muitas vezes atirado ao tapete. Pois bem, o homem não quer outra coisa senão que o convidem. Quando há noitadas, gosta de levar a pequena; nos quartos é sempre o primeiro a dizer: «Vamos a ver se aguentas com esta!» Não há duvida, está ali um homem que quer ser um grande cobridor, que as mulheres olhem para ele, que o desejem e, até que gostem de fazer amor com ele.

«Porventura vocês se lembram daquela vez na receção da residencial em que ele armou uma cena monumental. Ia acompanhado, muito sério, com uma grande cavalona loira. Mesmo em frente do balcão da receção, a doida da cavalona puxou a saia para cima e o André topou-a sem cuequinhas e deu-lhe uma chupadela no grelo, que ela deu um grito e foi deitar-se no sofá, aos tremeliques.     

Catanada riu-se, apanhou um pauzito e atirou-o contra a perna da cadeira.

— Lembro-me das cenas dele — disse o Pipocas. — Esse André não tem os parafusos todos. O Ratazana é que o conhece bem, quando vocês falarem com ele. Às vezes põe as gajas na mesa do André e os clientes pensam que foi ele que as chamou e dizem: «Ora aí está um sujeito que sabe do seu ofício.» Não é assim tão fácil apanhar gajas quando se faz por obrigação.


Very nice, que tinha estado a pensar de cabeça encostado ao braço, comentou: 

— É pior falarem mal de uma pessoa do que lhe darem com uma paulada. Toda a gente gozou daquele estouvado amalucado do jovem André até ele se mostrar. Mas depois ficaram com inveja de se terem divertido dele. Essa história do André é reinante. É também uma história que dá vontade de rir.

— Ouvi contar coisas a respeito dele — disse Catanada —, mas são tantas que nem sei por onde começar.

— Bem — disse Very  nice, — eu vou conta-la e vocês logo veem se são engraçadas ou não. Quando eu era puto, costumava brincar com o Trindade. Era um bom miúdo e esperto, mas andava sempre à procura de se meter em sarilhos. O clã era composto por cinco pessoas. O pai, a mãe, e três irmãos. A maioria dessa gente já cavou daqui. Um dos irmãos perdi-lhe o rasto, o outro está na Madalena e o outro foi apanhado por uma peixeira da Afurada por lhe andar sempre a comprar amêijoas.

«De modo que me dei sempre bem com o Trindade e o irmão mais novo Ricardo. Trindade cresceu comigo e os sarilhos nunca o abandonaram. Passou uma temporada no serviço noturno e depois voltou para casa. Aos sábados apanhava uma liberdade e ia dormir para a praia até segunda-feira. O irmão mais novo era um daqueles rapazes de boas intenções e todas as semanas se enrolava com uma cachopa. De modo que estavam quase sempre os dois à distância. O mais novo Ricardo sentia-se só quando não tinha o Trindade ao pé de si. Adorava o irmão. Tudo o que o irmão mais velho fazia, o mais novo fazia também, mesmo quando já tinha passado dos limites.
«Talvez vocês se lembrem da Graça Gracinha — continuou Very nice. — Não era uma rapariga lá muito séria. Não tinha mais de dezassete anos quando uma rusga policial veio ao Porto e ela ficou logo retida por não ter documentação. Era gaiata e esperta e não deixava ninguém ficar sem levar resposta. Parecia andar constantemente a fugir dos polícias e os polícias bem seguiam no encalço dela. E algumas vezes levavam-na. Mas uma pessoa não lhe podia dirigir palavra quando ela estava com os azeites. A moça parecia ter o demónio dentro dela.       

— Eu sei disto — prosseguiu Very nice — porque também me atirei a ela; eu e o Trindade. Só que o Trindade tinha outro feitio. — Very nice olhou os amigos bem nos olhos fincando esta tese. 

«Trindade desejava tanto o que Gracinha tinha que uma noite saiu em sua defesa e deu um pontapé nos tomates dum polícia e fugiu pela rua abaixo como os corredores de cem metros livres. Não conseguia deixá-la ser injuriada e agiu. O irmão foi falar com a Gracinha e disse-lhe: “Se não fores simpática para com o Trindade ele desaparece.” Ela, porém, limitou-se a sorrir. Não era lá muita coisa.
«Que é que vocês pensam que eles depois fizeram? — continuou Very nice. — Trindade foi apanhar sol para a praia e deu apalpões a Gracinha, chochos grandes de artista, carícias, festas. Depois, pegou-lhe pelas ancas e sentou-a no colo e em seguida, deu-lhe uma varada ao som das ondas.
«Gracinha passava-se com tanta marmelada, mas vinha-se e chorava como uma criança. Vocês deviam ter ouvido como ela gemia. Uma pessoa ficava com ganas de lhe dar outra varada e, ao mesmo tempo, de a calar. Eu imagino como era. Andei na cuca dela e o Trindade disse-me, também. Só que, ao Trindade dava-lhe cabo dos nervos. Já só conseguia dormir com comprimidos. Um dia confessou-me: “Se a Gracinha quiser ser minha amante, deixará de ter coragem de se meter nos copos, pois nessa altura é comprometida e é um crime desrespeitar o amante.” De maneira que pediu-a para ser sua amante. Ela desatou a beber daquela maneira maluca que dava vontade de a mandar àquela parte.
«Oh! O Trindade ficou desnorteado. Foi para o quarto, prendeu uma corda a uma perna da cama e pôs-se à espera dela. Quando a Gracinha entrou, deixou-a despir-se; em seguida colocou a corda à volta dela e atou-a à cama. Depois fechou a porta e foi-se embora. Mas ainda se passaram duas horas antes de Gracinha conseguir se libertar das cordas e três dias antes de poder insultá-lo.»

Very nice intervalou-se. Via, com alegria, que os seus amigos acompanhavam a história com interesse.

— A coisa era deste estilo.
— Mas a Graça Gracinha foi amante do Trindade! — exclamou Catanada, excitado. — Eu conheço-a. É uma boa dona de casa; nunca nos deixa sair sem nos oferecer de beber e vai à missa todos os domingos.         

«As coisas também se compuseram da maneira que o Trindade tinha desejado. O confessor disse a Gracinha que fosse uma boa mulher e ela foi uma boa mulher. Deixou de andar nos copos e de insultar os homens. Como não bebia, deixaram de se intrometer com ela. Trindade continuou a ir dormir para a praia e, passado algum tempo, arranjou lá um emprego para segurança de condóminos. Não tardou muito a entrar nos eixos. Como veem, esta história é magnífica. Era digna de ser apresentada nos palcos do cinema por um realizador se terminasse aqui.»

— Pois era — disse Catanada com olhar sério. — Esta história também nos ensina algumas coisas.

Os amigos acenaram com a cabeça em sinal confirmativo, pois adoravam de uma história emotiva.

— No Douro conheci uma rapariga como essa — disse o Pipocas. — A única diferença é que não se modificou. Chamavam-lhe a rapariga da segunda escolha. «A Senhorita Segunda Escolha», era o nome que eles lhe davam.

Pascácio fez um gesto com a mão:

— A história ainda não terminou — disse. — Deixa lá o Very nice contar o resto.
— Sim, ainda não terminou. E, no fim, a história não é lá boa como vocês imaginam. Ricardo passava já dos vinte e cinco anos. Trindade e Gracinha foram morar para uma casa isolada. Ricardo ficou sozinho, pois acabara com a peixeira. Não tinha sossego nenhum. Passava a vida na estroina, embriagado; até que um dia conheceu uma chavalita chamada Celina. Tinha dezasseis anos e era mais bonita do que a Gracinha. Todos os clientes da cervejaria andavam atrás dela como se fossem lobos. Então, o que se tinha passado com o Trindade, deu-se com o Ricardo. O desejo corrompia-lhe o corpo todo. Bebia mais do que comia. O olhar ficou estrábico e ganhou aquele aspeto alarmado que os fumadores de droga têm. Enviara-lhe chochos atirados de mão, mas ela ria-se dele. “Vem cá, meu passarinho, vem cá ao teu príncipe.” Ela não parava de fazer chacota.

«Como vendia livros sempre que arranjava uma promoção guardava-a em presentes para a Celina, magazines e agendas. Pagou-lhe um concerto de música ao ar livre. 
«Então o Ricardo contou ao Trindade o que se passava. Trindade riu-se também. “Meu tolo”, disse, já tiveste na tua frente tanta rapariga. Não andes atrás de miuditas que sabem mais do que tu.” Mas aquilo de pouco lhe serviu. Ricardo ficou louco de desejo. Esses Trindades é gente de sangue na guelra. Escondia-se nas esquinas para a ver passar. O coração saltava-lhe do peito.
«Ela não fazia outra coisa senão esquivar-se, e Ricardo estava quase paranoico. De maneira que agiu em conformidade. E, assim, pediu-a para sair com ele. Ela riu-se como nunca e, sacudindo as saias, fez-lhe sinal de never para o afinar. Era um diabinho, aquela miúda.»

— E ele um idiota — disse Catanada com descaramento. — O dever dele é meter-se com raparigas da sua idade, e não chavalitas.

Very nice, arreliado, prosseguiu:

— Os Trindades são irresistíveis; aquece-lhes a veia.
— De qualquer das formas, foi incorreto. Foi uma vergonha para o Trindade — disse Catanada.

Pascácio voltou-se para ele.

— Deixa lá o Very nice contar. É a história dele e não a tua. Um dia destes contas a tua.

Very nice mostrou-se grato pela intervenção de Pascácio.
       
— Como ia dizendo, Ricardo não podia com aquilo mais, mas não era capaz de mudar fosse o que fosse. Não era como o Catanada. Como não tinha jeito para inventar nada de novo, deixou aguardar uma oportunidade.
  
«Vocês devem saber — prosseguiu Very nice — que lá no quarteirão há uma hospedaria. Uma tarde, Ricardo convidou Celina a dar uma volta no carro com ele e levou-a até lá. Depois, esperou até a convencer a uma rapidinha numa desportiva. Viu o tempo passar. Passou o braço à volta da cintura dela e puxou-a bruscamente para si. Ele a fazer isto e ela a retribuir-lhe com uma sonora galheta.»

Largos sorrisos surgiram no rosto dos amigos. Algumas vezes, pensaram, a vida tinha coisas do arco-da-velha.

— Ricardo mal se conteve — continuou Very nice. — Disse de si para si: «A miúda é capaz de andar por aí atrás de algum, mas isso não dou.» Só passado um minuto é que abriu a porta da hospedaria.

 Very nice olhou à volta. Os largos sorrisos mantinham-se em foco.

— Vocês estão a topar — disse Very nice — a coisa é engraçada, mas também tem o seu quê.
— O que é que a Celina disse? — perguntou Catanada. — Acedeu ao impulso e mudou de procedimento?
— Não. Não mudou nada. Ricardo aguentou-se e ela mandou-se. Mandou-se também, mas ficou fulo. E disse para si mesmo: «Que miúda parva ela me saiu. Uma noite destas vai ser ela a puxar-me para a levar para o pinhal.» Depois Ricardo entrou no carro sem ela.

Catanada queixou-se:

— Essa história não vale. Tem rodriguinhos a mais e podem tirar-se dela demasiadas lições, e alguns delas são contraditórias. É uma história que não vale a pena guardar na memória. Não se chega a conclusão nenhuma.
— Eu atino com ela — disse Pascácio. — Atino com ela porque não tem nenhum sentido à-priori; contudo, parece que realmente quer dizer alguma coisa, embora eu não saiba bem o quê.

A manhã já ia a meio e o ar estava quente.

— Que é que vamos comer? — disse Pascácio.

— Na adega há lá um sável de escabeche — observou  o Pipocas.

Os olhos de Catanada reluziram.

— Estive a pensar numa coisa — disse. — Quando eu era pequeno vivia nas férias com o meu tio ao pé do elétrico. Todos os dias, quando o elétrico passava, os meus amigos e eu pulávamos por trás e íamos à boleia e o guarda-freio enxotava-nos com correia. Havia alturas em que o elétrico enchia de passageiros que aí ninguém nos enxotava. Pensei agora que talvez a gente pudesse comer à borla na adega. Quando o empregado se aproximar, chamamos nomes uns aos outros e distribuímos galhetas por todos. Como é que o empregado pode responder-nos? Atirando-nos com os pratos ou com as cadeiras? Não. Só pode é deixar-nos sair em grande.   

Pascácio levantou-se cheio de contentamento.

— Ora aqui está uma bela ideia! — exclamou. — Isto é que o Catanada é um génio! O que é que a gente fazia sem ele? Vamos lá; eu sei onde há um grande empregado medroso.
— E o sável é o meu peixe predileto — disse o Pipocas.

Sunday, May 13, 2012






CONTOS DE RATAZANA
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13. Episódio


Eis como os amigos do Pipocas se prestaram em proporcionar uma ajuda a uma senhora em apuros


A senhora Mariazinha vivia com a sua única filha e o seu velho pai numa pequena casa arrendada situada no cruzamento de duas ruas na parte norte do Marco de Canaveses. Mariazinha, que tinha cerca de trinta e cinco anos, era o que se chama uma mulher de estações, ora muito bem arranjada, ora muito mal desarranjada. O pai, esse velho borrachão e sem dentes, estampa de uma geração passada de outro tempo, tinha quase sessenta. Desde a última vez que alguém se lembrava que o seu apelido era o Enrola, muito tempo já passara. Seis dias por semana o velho ocupava o seu tempo no trabalho, pois tinha por compromisso ganhar para comer, inventar, intrujar, vestir e pôr a neta na escola. Mariazinha ocupava-se das limpezas para as patroas e fazia os preparativos para casa.

Aos domingos, porém, o velho, vestido de calças de fazenda e casaco sport ainda em bom estado e usando um penteado comprido ao meio ao qual mudara a cor do cabelo castanho para cinza-claro, atirava com os deveres ao largo e dirigia-se decidido à adega, onde se encostava ao balcão tão teso a tomar uns copitos como os pássaros nos riachos. Uma vez por semana, de tarde, embebedava-se. Seria interessante saber-se que quantidade de vinho encaixava e onde é que ia arranjar pedalada para os conter, uma vez que em casa de Mariazinha não faltava quem berrasse, andasse a dar ordens, fosse para o que fosse, gritasse, sujasse louça e pusesse a música alta. E, pois, de salientar que a alma deste velho andasse alheada e o seu nervosismo fosse de ferro? Ou outra coisa qualquer ter-lhe-ia saído do corpo aos repuxões como pequenos fogachos. Durante o tempo em que tenho estado a contar isto, o velho perdeu o hábito de fumar e de ficar definitivamente desobrigado a mais uma despesa. Por esta altura, começou a ser moda no concelho as mulheres de prestação de serviços alinharem nuns arranjinhos e assim aumentar a féria mensal. Na primeira altura, Mariazinha foi chamada para ir ao escritório do patrão, pois achavam que ela andava despistada.

O patrão, pessoa experiente em tratamento de pessoal, disse num tom afável:

— Mariazinha, lá em casa tá tudo bem?
— Como — respondeu Mariazinha.
— Bem, e então que é que te preocupa?
— Contas a mais e dinheiro a menos — respondeu Mariazinha.

O patrão dirigiu-lhe um comprido aceno de cabeça.

— E o que é que fazes quando vais para casa?
— Tudo e mais alguma coisa.
— Então não é nada comigo, pois não?
— Pois não. Tenho o patrão em linha de conta.

Desta vez o sorriso chegou a declarar-se nos lábios do patrão, mas este dominou-se.

— Isto cá para nós, que é que tu tens para me dar?
— Tudo e mais alguma coisa.

O patrão acariciou-lhe as mãos.

— Queres tu dizer-me que eu estou à bicha de semear para tudo e mais alguma coisa?

Marazinha ficou atónica.

— Arre, patrão! Que quer que eu lhe diga mais?

Na devida altura, o patrão ouviu a baralhada história dela. Um certo dia, dirigiu-se a casa de Mariazinha para se averiguar da situação. Enquanto chegava ao muro, saía da janela aberta, um terrível som. A porta da entrada estava semiaberta. O patrão espreitou aí e viu com os seus próprios olhos o velho aproximar-se da caneca, emborcar uma grande quantidade de vinho e soltar um feroz berro pela garganta fora. Imediatamente relaxou. O velho voltou a sentar-se a fim de gozar uns momentos de sossego. O patrão aguardou lá fora uma hora, pois o seu interesse observatório fora adiado. Acabou por ir-se embora, com a cabeça a abanar.    

No Inverno, o velho levava a neta Alexandra que já andava no liceu para o salão de festas aprender um curso de canto e dança. Os professores eram particulares, mas ela adorava aquilo. Era grande encargo aquele para a família que tinha de desembolsar cem a cento e vinte escudos por mês. O velho tinha por hábito beber um traçado durante a espera pela neta. No tempo de que falo, os trabalhos estavam escasseados e a despesa fora aumentada. Em casa de Mariazinha as reservas estavam voando. As prateleiras estavam vazias e limpas.Um nevoeiro caiu.

Para as casas houve uma corrida precipitada. Mais pessoas se apressaram a fugir das ruas e regressarem aos seus lares. O velho bebeu outro traçado. Caiu mais nevoeiro. Depois o velho comprou uma cocha de frango com uma moeda das grandes que há muito tempo não tirava dos alforges. De novo, voltou a beber outro traçado e quando olhava para o tonel desenhava-se-lhe nos lábios um sorriso de zombaria. «Ficaste com a minha moeda», dizia de si para si. «Sim, sim, lá guloso por moedas és tu. Sacador.» E, de repente, contou ao parceiro do lado a insatisfação com que tinha ficado. «Pois é, muitas vezes a gente também não é capaz de se opor», disse maldosamente o parceiro do lado.

Tem-se contado que Very nice era um homem de grandes ideias. Tinha também aqueles princípios, que alguns filósofos possuem, de ser inevitavelmente arrastados pelos seus instintos quando necessário. Quantas vezes não tinha ele encontrado jovens raparigas que necessitavam de comodidade? Era irresistivelmente atraído por qualquer chamamento ou aflição. Há muitas semanas que não ia a casa de Mariazinha. Sentado na cozinha, descontraidamente sacudindo a cinza do cigarro para o cinzeiro, olhava para Mariazinha com uma expressão simpática e atrativa, enquanto ela lhe comentava a conflituosa situação. Fascinado, viu-a abrir o armário para lhe mostrar que lá dentro não morava nem uma lata de conserva. Maneou a cabeça, entendido, quando Mariazinha apontando para as couves do quintal, tão depressa lhe fazia ver que não passariam fome como as mostrava já apetecíveis.  Depois, o velho contou, angustiado, como fora corrido do último trabalho. A esse respeito, Very nice não se mostrou agradado.

— Que é que tu fizeste de mal, ó velho? — disse com autoridade. — Talvez o patrão tivesse visto qualquer coisa de errado.
— Mas eu portei-me tão bem — retorquiu o velho, esticando-se.

Very nice fitou-o com um olhar duro.

— Qualquer coisa mal tu fizeste a ele? Vi uma vez tu dirigires-te a ele insolentemente? Velhos não lhe faltam.

A amargura de Mariazinha, porém, pôs-lhe o espírito em alerta. Nessa noite, em casa do Pipocas, dirigiu-se aos amigos de uma maneira convincente e comovida. Extraiu dentro de si uma narrativa apaixonada em favor dela que vivia em curva descendente. E tão eficiente foi a sua resenha que o fogo do seu coração se alastrou ao dos amigos. Estes, de olhos cintilantes, exclamaram:

— A Mariazinha não terá problemas! Nós olharemos por ela!
— Vivemos na riqueza — disse Catanada. — Dar-lhe-emos do que pudermos — concordou o Pipocas. — E se precisasse de um empréstimo podia vir aqui.
— Amanhã mesmo lançamos mãos ao trabalho — exclamou Pascácio. — Acabe-se com a malandrice! Vamos a isso, que há coisas à nossa espera!

 Very nice sentiu a alegria de ser um leader com acompanhantes. Os amigos não ficaram parados. Trouxeram comida. Fizeram uma rápida limpeza aos armários de casa. Era um ato cheio de vontade. Que pode haver de mais abonatório? O Faísca aumentou o preço dos santinhos para vinte por cento e passou a limpar dois novos restaurantes todas as noites. Artur Bófia multou o tasco do senhor Murteira vezes sem conta, mas sempre que tal acontecia a multa variava de infração. Na casa do Pipocas a receção começava a ganhar forma. No quintal havia alguidares de frutas, o cheiro ativo de laranjas podres enchia o ar da zona. A chama da vontade mantinha-se iluminada nos amigos. O portão da rua abria de um lado para o outro. Aqui, chegavam uns com galinhas e salpicões; outros com cestos de abóboras e outros ainda com quatro caixas contendo cada uma vinte e cinco quilos de amêijoas em cru. Os amigos andavam sem descanso nas entregas e falavam com Mariazinha os desejos deles.

De início, Mariazinha ficou louca de alegria ao ver tanta ajuda e profundamente sensibilidade com a atitude deles. Uns dias depois, já tinha certas reservas. O Artur Bófia andava com piropos. Catanada tinha umas gozações demais e o olhar do Pascácio denunciava uma intenção provocatória. Os outros que ainda não se declaravam passavam por ela a olhar para trás. Mariazinha tinha receio de se meter com eles e atrapalhar tudo. Andou vários dias a pensar neles; durante esse tempo chegaram aos seus ouvidos umas promessas de gozo e um pão-de-ló especial. Por fim teve de se decidir. Os vizinhos estavam a começar a falar para ela de modo desajeitado. Esperou pelo jantar na casa do Pipocas. E, depois, simpática e acolhedora entregou-se aos pratos de comida com apetite e sem cerimónias. Os vizinhos estavam todos satisfeitos pela sua companhia. Olhavam de sobrolho arregalado. 

Pipocas, pôs uma questão.

— A abóbora e a laranja não fazem bem à noite — explicou. — A banana faz prisão de ventre a alguns adultos depois de comê-la.
— O que vens a resolver com isso? — perguntou Catanada    
— Feijão — respondeu o Pipocas. — Feijão é qualquer coisa que mexe com uma pessoa.

Os amigos riam-se às bandeiradas. Alegres com eles próprios que tinham ficado animados, mas sabiam que há vários dias lhes vinha crescendo o fulgor inicial do seu entusiasmo. Na cozinha do Pipocas havia uma elevada pilha de talheres e pratos sujos. Muito próximo das onze da noite, a casa ficou à escura, a luz fora abaixo, e os amigos deslocavam-se como sombras pela casa. Duas confusas silhuetas andaram rastejando, sem dar nas vistas, para o sótão da casa. Mais tarde, o vizinho disse que tinha ouvido barulhos; investigara, mas nada detetara. Não podia acrescentar mais nada. Só quatro homens sabem que o vizinho ressonava a bom som e nunca o incomodarão.
Um pouco mais tarde, quatro sombras desceram o sótão agachadas à altura da curta escada que as fazia arquejar em dois tempos. Às sete da manhã, Mariazinha foi acordada ao ouvir a porta do seu quarto ser aberta.

— Quem está aí? — gritou.

Como se despertasse de um pesadelo, Mariazinha olhou para a cama e só então deu conta que se encontrava deitada e vestida. O velho entrou no quarto e foi direto a ela.

— Oh, que borracheira tu apanhaste! — revoltou-se. — Oh, Mariazinha, aqueles que te trouxeram a casa ainda são bem piores do que tu!

Em casa do Pipocas, contentes, quatro amigos estavam sentados nas cadeiras. Acordaram bem pela manhã cedo, pois os seus desejos estavam realizados. E Mariazinha, ao deitar a mão no bolso, descobriu, um volume de notas das pequenas, perguntou brandamente a si mesma qual dos amigos do Pipocas seria o responsável.     


Wednesday, April 25, 2012



CONTOS DE RATAZANA
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12. Episódio



      Eis como os amigos do Pipocas contribuíram para premiar o feito de Artur Bófia e, como, o Faísca achou por bem colaborar na despesa, acabando o seu cão por ter uma visão do outro mundo




Todos os dias, o Faísca guiava o carrito de pedais cheio de bugigangas, pelas ruas em frente, e enfiava-se no jardim. Encostava-o junto a uma árvore e abria-lhe a porta com um alfinete. Em seguida, deixava o material à venda, pois, como toda a gente sabe, as pessoas metidas no jardim tornam-se muito mais solidárias. Só no fim da tarde voltava para casa. De uma bolsa que trazia presa ao braço, tirava os vinte e cinco escudos que apurara nesse dia e depositava-as na lata da graxa, as novas moedas. Este vício durava há muito tempo. Depois, na companhia do cão, sentava-se numa cadeira e das sacas repartia duas refeições. O esconderijo do dinheiro do Faísca tornara-se o centro emblemático da concórdia, e o ponto de confiança do qual girava a amizade. Os amigos estavam esquecidos do dinheiro, esquecidos de nunca lhe terem deitado a mão. É uma bonita coisa um homem saber que respeitam ele. No espirito dos amigos esse dinheiro há muito deixara de ser uma obsessão. É verdade que, durante um certo período, os amigos tinham imaginado com a quantidade de moedas que ele devia ter arrecadado, mas com o tempo, deixaram de considera-las importante. O dinheiro era ganho pelo suor e sacrifício e esse potencial dom era propriedade do Faísca. É muito pior roubar um pobreta do que se permitir desfraldar a lei.

Uma manhã, trazida por aquela rápida boca de um motorista de camião que ninguém duvida, chegou a notícia de que uma camioneta de coelhos tinha ido por uma ribanceira abaixo próximo de Baião. Artur Bófia estava ocupado em assuntos seus, mas o Pipocas, Pascácio, Catanada, Pascácio, Very nice, o Faísca e o cão puseram-se alegremente a caminho pelo monte acima, pois se havia coisa de que adorassem era de andar no monte à caça de coelhos aos saltos. Achavam esse desafio o mais excitante do mundo. Chegaram um pouco tardio ao local, mas recuperaram o tempo perdido. Percorreram o monte durante parte da manhã; no fim, apanharam uma boa quantidade de coelhos; um latão de comida, diversos caixotes partidos, meia dúzia de garrafões de água, uma corrente para prender à carroçaria e um atado de tronchudas. Quando a tarde rompeu, tinham à sua conta um achado muito razoável. Por um casal de coelhos aceitaram dez escudos dados por um dos presentes, pois a hipótese de fazerem algum dinheiro com alguns daqueles bichos era simplesmente pensável. Depois, exaustos, mas levando na alma o bom cumprimento da missão, iniciaram o caminho de volta para o Marco de Canaveses através do monte. Passava das seis da tarde quando entraram pela casa do Pipocas seguidos pelo cão. Primeiramente, o Pipocas abriu o saco e sacudiu os bichos para dentro de um anexo. O grupo entrou no quintal. Pipocas meteu a mão dentro da camisa e tirou um cigarro para fumar. Arremessou o fumo para trás e depois voltou-se calmamente para os amigos; os olhos tinham-se-lhe tornado risonhos como os de um bebé. Olhou cara após cara e todos viram um sorriso e uma satisfação difíceis de enganar.

— Bem, malta... — disse o Pipocas num tom amigável. — Não foi nada mau. Há dias de estimar.

Lentamente, os amigos saíram do quintal e entraram para a sala. Pipocas, dirigiu-se aos anexos. Aí, pegou em dois pesados coelhos por debaixo das orelhas... e tac... deu-lhes uma troçada com a mão. Tirou a pele para trás, esticou-os ao comprido e retirou os enchidos e depois meteu-os numa bacia. Pascácio entrou na dispensa e trouxe um tacho com batatas. Very nice afiou as facas e pôs mãos à obra. O Faísca olhava-os perplexo. Na sala todos conversavam animadamente. O Faísca alongou o olhar para a rua.

— Ele? — perguntou.

Pipocas acenou rapidamente com a cabeça. O seu olhar era luminoso e acolhedor; o queixo inclinava-se-lhe para cima. Quando se sentou na cadeira, todo o seu corpo foi projetado por um impulso como o de uma rocha a poisar no solo. O Faísca dirigiu-se ao quintal e armou a mesa. Continuaram a conversar durante algum tempo. Ninguém despregava das cadeiras, mas uma onda de emoção sentida dominava a sala. Havia na sala uma sensação semelhante à de que uma rapariga experimentaria quando o rapaz está a pedi-la em casamento. A tarde acabava; o sol escondeu-se por detrás do monte. A população estava mergulhada numa autêntica acalmia. Dir-se-ia que os dez escudos que os coelhos tinham rendido pouco tempo aqueceram os bolsos do Pipocas; agora, porém, já tinham destino encomendado. Pipocas e Catanada foram ao mercado comprar dois quilos de batatas e cebolas, uma saca de pimentos e uma garrafa de azeite e outra de óleo. Pascácio e Very nice foram ao café buscar dois garrafões de vinho. Na rua ouviram-se os passos de Artur Bófia; os pratos foram postos com mais vigor. Artur Bófia aproximou-se caminhando pelo passeio e entrou pelo portão. Trazia na mão um jornal desportivo. O seu olhar passou de cara para cara com satisfação; os amigos, de imediato, deixaram de estar sentados e, logo o encararam diretamente.

— Olá — disse Artur Bófia.
— Olá — respondeu o Pipocas ao mesmo tempo que se espreguiçava e só depois se levantava fixando o olhar em Artur Bófia. Foi direito a ele e, quando se encontrou defronte dele, abriu os braços com a rapidez dum voador. O abraço foi em cheio que, Artur Bófia ficou redondamente sem fôlego.

Repentino, o Pipocas libertou as mãos dos ombros dele e, agarrando a mão de Artur Bófia, elevou-a ao ar.

— Palmas — disse.

Pascácio bateu com a colher na panela com tanta força que partiu a colher. Voltou a pegar noutra colher e desta vez bateu com menos força na panela e encarou sorridente os amigos. Os amigos levaram as mãos ao ar e fizerem um chinfrim danado. Very nice estava encarregado da cozinha. Catanada sentou-se à direita e o Pipocas à esquerda. Artur Bófia, desconfiado, olhava de lado e, então, gritou de surpresa:

— Estais-me a venerar? — berrou. — Pelo amor da nossa amizade, o que é que se passa?
— Quantas é que lhe destes? — indagou o Pipocas num desvio de voz.
— Duas no chão, e duas na cama. Eu escanei como um leão e volto lá outra vez.

Pipocas levantou-se e voltou a pedir uma salva de palmas. Os amigos bateram as mãos com o mesmo entusiasmo. As palmas tornaram-se mais fortes, e só pararam quando Artur Bófia pediu-lhes para cessar.

— Acho que agora passarás e ser cobiçado — disse o Pipocas.
— Devíamos levá-lo à Xanana Maluca — observou Catanada. — Há muito tempo que não a visitámos.

Abriram o garrafão que Pascácio trouxera e encheram as tijelas, pois estavam cansados do paleio e a emoção esgotava-se-lhes. Nessa noite, com o fogo a arder na lareira, os amigos encheram-se até não poderem mais. A comezaina era em honra de Artur Bófia. Este comportava-se como nunca. Embora ao primeiro fosse apanhado em contrapé, depois sorriu sem intervalo. Pascácio cobriu-lhe o prato de coelho estufado e batatas. Cada batata era do tamanho de um molete. Depois de terem ingerido uma grande dose de coelho acompanhado de uma salada de pimentos e cebolas, encostaram-se e puseram-se a fumar e a beberricar o vinho das tigelas. Chamavam a Artur Bófia «o nosso fodilhão.»

Depois foi a vez de ouvirem a história dos quatro coitos e os olhos deles vidraram-se.

— ...e depois, rapaziada — disse Artur Bófia —, a tiazinha tinha o nariz empinado, e os seus olhos faziam lembrar o brilho das gatas quando se apanham com o cio e ela gemia porque tinha calores lá por dentro. E depois, rapaziada, prometi à tiazinha que lhe dava uma por cada estação do ano. Ela é mesmo tarada, podem crer, rapaziada. E depois chegou-se ao Sul! A tiazinha fechou o rabo e começou logo a dormir. Foi S. Pedro que foi o causador, não foi, rapaziada?    

Os amigos manearam a cabeça com força.

— Foi — respondeu Catanada. — Foi a chuva do nosso bom amigo S. Pedro. Eu só queria lá ter estado no teu lugar.

Artur Bófia ficou muito contente, pois não era caso para menos ver-se naquela situação por um acontecimento fenomenal. Se o caso começasse a constar-se, Artur Bófia passaria a ser uma atração para as mulheres do Marco de Canaveses. Depois, cantaram uma cantiga em estilo coral e, galvanizados, voltaram a cantá-la.

— Faísca — exclamou o Pipocas —, já todos entramos para as despesas! Já não temos mais dinheiro! Chegou a altura de comprares dois garrafões de vinho para a malta!

O dia fora demasiado cansativo para o Faísca. Retirou-se com o cão e foi a casa. Pegou num monte de moedas antes de fechar a lata e pensou nos seus novos amigos com uma generosidade que parecia desmentir o caso de que há cerca de dois anos não gastava uma moeda mal gasta. Regressou como um cavaleiro andante a casa do Pipocas, trazendo os bolsos atestados de moedas. Pipocas pôs o dinheiro debaixo de um armário. Os seus amigos olharam para as moedas com surpresa.

— Mas pró que é que te deu trazeres tantas moedas? — perguntou o Pipocas, abismado. — Bastavam duas para comprares os garrafões de vinho. Temos que guardar as restantes para a próxima vez.

Voltaram a cantar uma canção obscena acompanha pelos urros do cão. O Faísca sentiu que praticara uma boa ação. Os seus amigos estavam satisfeitos por lhe verem trazer as moedas, pois, assim, até eles partilhavam um pouco da generosidade do gesto. Catanada sentia-se aliviado por não lhe ter deitado a mão ao dinheiro logo ao início. Que terrível coisa não poderia ter acontecido se tivesse rapado umas moedas que pertencia a um pobre diabo! Todos os amigos se mostravam dominados como se estivessem em família. Durante muito tempo a festa esteve animada. Artur Bófia redobrou as forças e soltou um berro, pois o álcool estava a fazer-lhe efeito na cabeça. Os amigos olharam-no com estupefação. Por fim, Very nice, esse amigo do amigo, desatou aos risos e deu-lhe um cigarro dos seus.

— Até os amantes do lugar invejam por um consolo — disse, animando-se.

Esta frase fez crescer o ânimo. Os amigos voltaram a cantar. Estavam entusiasmados. Se á coisas de que gostassem era de beber e de cantar. O histerismo do Faísca acabara. Bebia o vinho e o rosto iluminara-lhe de prazer ao ouvir as palavras que o Pipocas dizia.

— Se levarmos todos estes coelhos ao mercado, pensarão que os roubamos dalgum galinheiro numa quinta. Devemos é vendê-los nos particulares. Depois, cada um de nós trás o dinheiro para aqui, e guarda-se para as nossas patuscadas. Talvez, no domingo seja boa altura, o Faísca deve lá estar na igreja para tentar vender.  

Catanada olhou com desagrado para as roupas sujas e remendadas que o Faísca vestia.

— Domingo — disse com tom severo —, agarras nos coelhos que sobram e vais á igreja vendê-los. Mas deves levar roupa mais decente, senão pareces um rato do bueiro. Deixavas ficar mal os teus amigos.

O Faísca sorriu.

— Faço tudo o que vós dizeis — prometeu.
— Temos que lhe emprestar roupa — disse Very nice. — Eu tenho um casaco e um colete. Catanada empresta o chapéu que ficou do pai. Tu, Pipocas, tens muitas camisas e cedes-lhe uma e o Pascácio empresta as suas bonitas calças de bombazine vermelhas.  
— Mas não me borras as calças — protestou Pascácio.
— Também não me amasses o chapéu — replicou Catanada. — Os fiéis provavelmente não nos vão dar qualquer elogio.

 O Faísca estava embriagado de tanta felicidade devido às benesses que lhe prestavam.

— O meu Vigília viu uma cadela no largo do jardim — disse o Faísca. — Estava doudo, quase a babar-se, e eu próprio tive de gritar-lhe:

«Estou a ver que hoje te vou mandar capar. Meu rafeiro, cheio de tesão.»

— Há alturas em que os bichos andam com o cio — comentou o Pipocas. — Tive um jeco não muito entesuado, mas algumas vezes viu-o coçar o instrumento nas pernas das mesas. Dependia de como estava. Se estava com a tusa atirava-se às galinhas, coelhos, era um perigo, se não estava não se atirava a nada. Já alguma vez o levaste às cadelas, Faísca?
— Não — respondeu o Faísca. — Ficava com medo se visse os olhos dele.

Durante algum tempo a conversa gerou-se sobre o tema. Era desconcertante como nessa noite bebiam abertamente. Passaram três horas depois mesmo de esvaziarem a segunda série dos garrafões. Só bastante tarde os seus sentidos descambaram para o sono e alguns pareciam bebés de olhos fechados. Essa noite constituiu uma noite fantástica das suas vidas. No domingo de manhã os preparativos foram executados. Deixaram primeiro o Faísca, vestido como manda a sapatilha, calças de bombazine vermelhas, casaco e colete, na cabeça posto ao jeito amalandrado, o chapéu do pai de Catanada. Convenceram o Faísca a não levar a gravata estampada de um clube, de modo a que não criasse divergências com os fiéis doutras cores clubistas. Os sapatos é que continuaram a ser um obstáculo. Nenhuns sapatos dos seus amigos lhe eram suficiente compridos e largos para os pés do Faísca, sendo assim, não houve outro remédio se não, que o Faísca utilizasse os seus sapatos com dois buracos abertos por onde os calos podiam respirar melhor. Finalmente deixaram-no junto ao muro da igreja. Deu uns passos em roda com o corpo para os amigos o toparem. Estes comtemplaram-no, intimamente.

— Vende os coelhos, Faísca.
— Não os tragas de volta.
— Deixa de pedir muito.
— Quem te vir pensará que não estás habituado a vender coisa boa.

Por fim, o Faísca virou-se para os amigos.

— Se ao menos um de vocês pudesse ficar comigo — queixou-se. — Eu talvez tivesse mais arrojo.

Os amigos não cederam.

— Não — disse o Pipocas. — Eles têm que ir vender. A gente depois encontra-se lá em casa.

O Faísca saiu sorrateiramente através do caminho até chegar ao adro da igreja, na mão levava o saco com os coelhos e o cão seguia atrás. As portas do vaivém não se cansavam do abre e fecha, mas a missa ainda não tinha começado. O Faísca colocou-se debaixo da árvore, puxou o colarinho da camisa para baixo, pôs a saca com os coelhos junto da roseira e sentou-se. A igreja era bastante comprida e algumas vezes a população enchia a igreja para cumprirem as suas obrigações. Durante uns momentos, o Faísca ficou sentado a olhar para os fiéis, mas estes quase o ignoraram, tão habituados a vê-lo aos domingos com a roupa velha e o carrito a vender santinhos. O Faísca aguentou, enervado. E, embora os fiéis entrassem, os coelhos estivessem ensacados, a missa começava e o Faísca não queria tirar os coelhos do saco com medo que eles fugissem. Como era difícil depois apanhá-los! Falou a uns fiéis para ver se os coelhos lhe interessavam. Tinha esperança de que, um entre os fiéis, havia de se mostrar interessado em comprá-los. Nem que fosse apenas um. Em seguida, o padre começou o sermão. O Faísca ouvia-o contar a história do cão amigo do homem, que nunca abandona o dono, a história das formigas voadoras e das araras surdas. Maravilhado, o Faísca escutava-o fazendo carícias ao Vigília e vertendo lágrimas de emoção.

De repente, ouviu-se gritar e latir furiosamente. As portas abriram-se com estrondo e pela igreja dentro surgiram os coelhos, Vigília e o Faísca. Correram uns atrás dos outros, lançaram-se à porfia na direção dos bancos de madeira, e esgueiraram-se por baixo dos bancos, gemendo e soltando pequenos latidos. O Faísca ficou apavorado com os olhos à procura deles. E não esperou muito. Deitou-se sobre o chão, esticou-se totalmente para a frente, deixando descair a cabeça em busca dos coelhos. Foi nesse preciso momento que topou um coelho. Tinha ultrapassado os primeiros bancos e parara junto do canto do banco. Ergueu a cabeça para o escuro e ficou-se. O Faísca ficou em pulgas. Sentia os nervos subirem-lhe aos cabelos. Todo o seu fracasso, todos os seus ressentimentos se voltaram para o coelho. Com uma boa dose de calma, concentrou-se em ser mortífero.

— Ah, seu filho da... — pronunciou baixinho — pensas que estou trôpego? Já vais ver.

Devagarinho, muito devagarinho, arrastou-se como pôde, levou a mão até ao sapato, trazendo-o de volta. O seu olhar águia não descolava do coelho. Este encontrava-se na mesma posição. O Faísca pegou no sapato, pô-lo em posição de lance. Fez mira com um olho fechado a distância. Não podia falhar. Deixou deslizar o braço o máximo que pôde.

— Vou despachar este filho da... — declarou —, preparando o corpo para o lançamento final. O coelho continuava lá, com as orelhas viradas para baixo.

O Faísca esticou o braço e aspirou todo o ar dos pulmões. Apertou com mais força o sapato e esticou mais o braço. Desferiu o golpe com toda a força que tinha. O sapato voou como uma bala. Bateu no santo e gerou um barulho. Os cacos espalharam-se e o Faísca ficou estátua. A igreja estava ruidosa e num burburinho. Os coelhos passaram velozes pela porta do vaivém, descrevendo alguns oitos, correndo para o outro extremo da rua. O padre interrompeu o sermão e olhou com severidade para a confusão. O Faísca levantou-se, débil e atormentado. Os seus esforços tinham sido frustrados; o prejuízo fora cometido. Então, o padre exaltou-se, e os fiéis, também.

— Leva o cão lá para fora — disse. — Procedeste mal. Estou muito zangado contigo; estou envergonhado pelo que fizeste. E tu espera até eu acabar a missa.

O Faísca não conseguiu articular uma palavra, cheio de gestos de desculpa, trouxe o cão para a rua.

— Vamos — disse-lhe —, o que tu foste arranjar. Mordestes os coelhos, desataste atrás deles para a igreja, e eu fui no vosso encalço. Agora vê quem vai pagar as culpas de ter quebrado o santo, meu patife? Tu ajudaste-me a cometer um estrago.

Deixou-o, por uns momentos, deitado no chão a ganir tristemente. Em seguida desatou numa corrida amiúde pelas ruas na direção do monte, seguido pelo cão, que corria e saltava à sua frente. No alto da colina havia uns bancos entre os pinheiros e o ar estava cheirando a resina. A brisa fazia os pinheiros murmurar suavemente. Impondo-se, o Faísca disse:

— Aqui estamos melhor. Vigília, meu grande doido, senta-te aí e não faças ondas. O senhor padre não nos vai perdoar.

O cão, sentado no chão, observava-o com atenção. Depois, deu um ar grave, mas o Faísca, dirigindo-se-lhe, disse:

— Aqui não é preciso pôr-te assim. Os coelhos não se importariam, mas eu não gosto que me olhes gravemente quando estou a falar para ti. Agora, descontrai.

Nesse dia a palavra do Faísca estava inspirada. O Sol, entre intervalos, lançava fogachos de luz nas folhas dos pinheiros. O cão, pacientemente sentado, não tirava os olhos da boca do dono. O Faísca dobrou e esticou as pernas um pouco, apertou os cordões dos sapatos, depois disto, fitou solenemente o cão.
       
— Os coelhos fizeram muito mal em separar-se de nós.

As folhas dos pinheiros deixaram de abanar. O monte ficou iluminado e em silêncio. Subitamente, ouviu-se um seco ruído por trás do Faísca. Logo o cão levantou as orelhas. O Faísca não teve coragem para voltar a cabeça. Decorreu uns longos minutos. Depois o tempo passou. O cão baixou os olhos. O vento voltou a abanar as folhas dos pinheiros que se agitaram de novo. O Faísca ficou tão comovido que o coração lhe parou. 

— Tu viste-os? — exclamou. — Eram os coelhos? Oh!, que cão bondoso tu deves ser para veres uma miragem destas!

Ao ouvir estas palavras, o cão levantou-se dum salto, abriu a boca e deu uma de olhar grave.       

Friday, April 6, 2012


CONTOS DE RATAZANA
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11. Episódio
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Eis como, nas mais diversas situações, Artur Bófia foi ao encontro do amor


Para Artur Bófia, o amor era como o atuar. Esta é a história de um dos seus casos amorosos. Tinha regressado da esquadra do Porto, depois de mais uns dias de licença. O dia estava chuvoso. Pouca gente andava a pé pelas ruas, mas de todos os estabelecimentos topava-se gente a ver a chuva a cair, e outras enroladas numa conversa. O ar cheirava a lavado e fresco. Quando, às quatro da tarde, a chuva pareceu querer escassear por uns instantes, Artur Bófia que tinha passado um bocado no café, saiu e pôs-se a caminho da casa do Pipocas. Estava com frio e com saudades. Na altura em que chegava precisamente perto da loja de frutas, levou com uma tromba de água em cima. Artur Bófia ficou como um gato-pingado. Correu da chuva, e procurou a casa mais próxima, que era aquela onde habitava a tia Justa, uma viúva de cerca de trinta e oito anos, cuja recente viuvez a deixara razoavelmente calçada. A tia Justa era em geral aberta e descomplexada, o que de certo modo, dispunha-se sempre alegre. Quando Artur Bófia bateu à porta, tinha ela acabado de tomar um banho e estava a secar o cabelo. Quando abriu a porta, Artur Bófia estava á entrada pingando água para cima do soalho.

— Entra e aconchega-te, antes que te constipes — disse a tia Justa.

Artur Bófia, olhando para os seios como um mirolha observa um elefante, tirou o casaco. A chuva batia no telhado. A tia Justa pegou numa garrafa de uísque e colocou-a no centro da mesa.

— Queres tomar um copo de uísque?

Ainda o primeiro copo de uísque não estava emborcado e já os olhos de Artur Bófia estavam novamente pregados nos seios. Bebeu o copo de uísque antes de proferir palavra. A tia Justa bebeu também, pois só assim conseguiria descontrair e começou a saborear o uísque quando bebeu uma boa dose.

— Este uísque não é do mercado?
— Ah, pois não; uma amiga minha, uma senhora espanhola é que mo orienta.

Embutiu outro copo. Começara a escurecer. A tia Justa atirou umas achas para o lume. «Já que a chuva tem de cair, que caia», disse de si para si. Fixadores, os seus olhos prenderam-se no enorme físico de Artur. O peito encheu-lhe um pouco.

— Andas a vir muito para estes lados, meu malandro. Chega-te, dá-me a roupa, que é para a pôr a secar, e cobre-te aí com o cobertor.

Artur Bófia não usava muito a mentira. O seu pensamento não atinava lá com esse processo.

— Tive no café a fazer horas com uns amigos.
— Mas estás feito numa rodilha.

Captou-o em busca de alguma reação em relação à sua generosidade, mas o rosto de Artur Bófia não alterou uma unha sequer, a não ser o contentamento que sentia por estar coberto da chuva e a beber uísque. Estendeu o copo para repetir a dose. A tia Justa emborcou outro copo para si. O fogo aquecia, deu uma sensação de bem-estar que contrastava com o bater da chuva no telhado. Artur Bófia não fez o mínimo esforço para se mostrar grato para com a anfitriã. Bebeu o uísque em pequenas doses, sorria estupidamente para o fogo e fumava na cadeira. A ira e o desespero crescerem na tia Justa. «Olhem para este animal», disse de si para si. «Olhem que besta esta que me havia de aparecer. Antes tivesse eu abrigado um cão da chuva. Outro homem qualquer teria para mim, pelo mínimo, uma palavra amiga.» Artur Bófia pediu para encher mais um copo. Foi a vez de tia Justa dizer o que ia dentro da sua alma.

— Quando a chuva cai e o fogão arde, não há como um grupo de amigos aconchegados no calor, não achas?
— Acho.
— Talvez as persianas te incomodem — arriscou ela. — Queres que as feche?
— Não me incomoda — respondeu Artur Bófia —, mas se vê inconveniente, não faça cerimónia.

A tia Justa fechou as persianas e a sala mergulhou no semiescuro. Depois, voltou a sentar-se esperou que Artur despertasse a sedução. Aos seus ouvidos chegou o ruído do brusco atirar do fumo do cigarro de Artur.

— Pensar — disse ela —, que ainda há minutos estavas lá fora, a correr da chuva, e agora, estás aqui, sentado na cadeira, a beber bom uísque, a fumar a teu bel-prazer e na companhia de uma viúva que te estima que quer o teu bem.

De Artur Bófia nem uma palavra se ouviu. A tia Justa não o via nem ouvia. Bebeu o último trago do uísque e atirou às malvas a vergonha por ares e ventos.

— A minha amiga Xanana Maluca contou-me que alguns dos teus amigos a visitaram numa ocasião em que chovia a rodos e ela tratou-os tão bem que eles foram muito gentis com ela.

Da direção de Artur veio o som de um pequeno ronco. A tia Justa quando se aproximou, nem queria acreditar no que os seus olhos estavam a ver. Artur Bófia estava mergulhado num profundo sono. A cabeça voltada para trás, os pés atirados para a frente, a boca toda escancarada. Enquanto a tia Justa, atordoada e chocada, comtemplava a cena, um tremendo ronco saiu da boca de Artur Bófia. Passou-se dos carretos. Nas suas veias correu uma boa dose de revolta e frustração. Não gritou. Não, embora a sua vontade fosse tanta, dirigiu-se à banca da cozinha, encheu um balde de água, deixou-o atestado, e pegou nele. Depois, voltou-se lentamente para Artur. O primeiro lanço apanhou-o na metade da cabeça e atirou-o da cadeira ao chão.

— Reles! — gritou a tia Justa —, reles imundo! Vai roncar para a rua!

Artur rolou pelo soalho. O lanço seguinte fez-lhe um penteado novo no cabelo todo puxado para trás. Artur Bófia despertava agora rapidamente.

— Ei! — disse. — Que mal eu te fiz?
— Já te digo! — gritou ela.

Abriu a porta para trás e com o dedo esticado fez sinal de marcha. Artur Bófia levantou-se meio cambaleante sob as enxurradas de água. Saiu pela porta fora, enxugando o cabelo com as mãos.

— Não atires mais água — implorou. — Mas que mal eu te fiz?

Com uma fúria animal, agarrou-se a ela e caíram no carreiro do jardim. A fúria dele era terrível. Sem deixar de a largar, segurou-a forte contra si, enquanto ela agitava violentamente os braços, para se libertar dele. Continuando a agarrá-la e estado abraçado a ela, o amor surgiu nele. Acariciou-lhe o cabelo, percorreu-lhe o corpo com as mãos grossas, sacudiu-a como se sacode uma trouxa. Apertou-a por uns momentos até a calma dela abrandar.

— Reles imundo. — gritou —, cão!

À noite, no Marco de Canaveses, um guarda-noturno patrulha as ruas a pé para impedir que as coisas boas se transformem em más. Desta vez José Gabardines equipava uma gabardina impermeável com um brilho semelhante ao alcatrão. José estava triste e chateado. Não era nada difícil fazer patrulhamento nas ruas pavimentadas; mas parte do seu itinerário estava localizado nas ruas de paralelepípedo e nos caminhos lamacentos do Marco de Canavezes e aí, os seus calos sofriam mais. A pequena lanterna iluminava aqui e ali. A noite resplandecia com intensidade. De repente, José Gabardina gritou, espantado, e olhou para o chão.

— Ei, lá! Isto já vai aí?

Artur Bófia voltou a cabeça.

— Oh, és tu, José? Ouve, já que de qualquer modo viste o que não devias ver, não podes mudar de rua uns minutos?

O guarda-nocturno fez as pernas mudar de rota.

— Acabem mas é lá com isso. Ainda alguém vos topa e vocês ficam nas bocas.

O guarda-nocturno desapareceu por detrás do edifício dos correios. A chuva batia de mansinho por entre as árvores do Marco de Canaveses.