Thursday, February 16, 2012




CONTOS DE RATAZANA
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8. Episódio
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Eis como, na véspera de São João, os amigos de Pipocas, andaram à procura de conquistar raparigas. Como Catanada as encontrou e como, mais tarde, um striptease tornou a noite mais fascinante.


Se tivesse sido um estudioso, Artur teria tido na polícia um tempo desgraçado. O facto de Artur Bófia ser senhor de um forte físico ganho na academia policial, só o poupou à porrada nas suas missões ao combate e a defender a sua integridade física. Durante o tempo que incorporou as brigadas policiais, Artur Bófia esteve mais vezes à civil do que fardado. No mundo da noite é-se beneficiado por aquilo que se faz, mas a isto acrescenta o código policial uma nova alínea... pune um indivíduo por aquilo que ele não faz. Artur Bófia nunca compreendeu bem isto. Não usava o crachá, não se embebedava; e, uma vez por outra, estando de folga, não voltou a barbear-se. A estes defeitos aliava-se a sua pretensão em arranjar amigos fixes quando o escalavam no serviço extra. Em geral, passava metade do tempo na rua; dos vários anos que estava na polícia, poucos foram os anos que ele passou na esquadra. Muito pouco satisfeito ficou Artur Bófia com a vida que se levava nas esquadras. Na brigada havia camaradagem e à-vontade; na esquadra, só encontrou trabalho. No comando, havia contra ele sempre a mesma queixa; «Pacholice e Feitio Desordeiro.» Na esquadra, as queixas que lhe faziam desconcertavam-no tão completamente que o efeito exercido na sua cabeça foi certamente permanente.

Quando as brigadas mudaram e todos os guardas voltaram às esquadras, Artur Bófia ainda tinha a gozar quinze dias de férias. Aproveitou então, a tirar um descanso para visitar os amigos de fora. Quando Artur Bófia saltou do comboio no Marco de Canaveses envergava um blusão, uma calça de ganga e um par de sapatos de borracha de cor preta. A vila não estava muito diferente; apenas se proibira as casas de diversões nocturnas, mas isso não afectara o negócio do Marco de Canaveses. Artur trocou uma moeda por um copo de cerveja e foi à procura dos amigos. Amigos bons, não encontrou nenhum nessa tarde, mas no Marco de Canaveses não lhe faltaram aqueles fala-baratos e chupistas, sempre prontos a levar um homem ao tapete. Artur, cujo forte não era a moral, não tinha qualquer aversão ao tapete, gostava dele. Depois de algumas horas decorridas, já estava sem cerveja e sem moedas — então os chupistas procuraram retirar Artur do tapete, mas ele não se mexeu dali. Sentia-se lá maravilha. Quando tentaram fazê-lo à bruta, Artur Bófia, movido por um forte instinto terrível, deu cabo da louça, atirou com os copos todos e com os chupistas à cabeçada, meios pifados e aos berros, para a berma da rua. Depois de um momento sereno, decidiu lançar todos para fora da taberna. Não era nada fácil segurar Artur Bófia, quando estava em estado de choque. Por fim, um velhote interveio e acalmou-o. Artur suspirou de felicidade. Estava outra vez em forma.

Artur gostava das gentes do Marco de Canaveses. Era um bom teste para aquecer. Se lá estivesse a viver permanente, todos os seus amigos estariam protegidos e defendidos. O tempo lá passava lindamente. Entristeceu-o um pouco o facto de ter de ir-se embora; regressar, porém, sem encontrar os amigos dava-lhe um pouco de tristeza. Percorreu as ruas à procura dos seus velhos amigos, Pipocas, Catanada e Pascácio, mas não conseguiu encontrá-los. No mercado, o lojista disse-lhe que já há uns dias não lhes punha o olho em cima.

— Devem ter encalhado nalgum sítio — disse Artur.

Vagueou solitariamente até ao café do centro, mas o dono pouco troco lhe deu, embora no fim dissesse que Pipocas tinha herdado uma casa no Porto e outra no Marco de Canaveses e uma boa soma em dinheiro. A amizade e o desejo de ver os amigos apossou-se de Artur. Ao fim da tarde, quando descia a rua encontrou o Catanada, que ia a passar com um ar atarefado.

— Ei, Catanada. Ia mesmo agora a pensar em ti.
— Olá, Artur Bófia — disse Catanada, repentino. — Onde é que tens andado?
— Na esquadra — respondeu Artur.

O espírito de Catanada estava longe deste encontro.

— Tenho de ir rápido.
— Eu acompanho-te — disse Artur.

Catanada estacou e olhou-o de alto a baixo.

— Não sabes que hoje é véspera de S. João?

Então Artur Bófia lembrou-se; pois nesta noite toda a rapariga que não tivesse namorado errava sem parança pelas ruas fora. Era a noite em que todos os corações solitários emitiam um brilhante sorriso através do olhar. As ruas estavam povoadas de gente. Todos os anos Marco de Canaveses fora muitas vezes invadida e todos os forasteiros eram oriundos de terras próximas. A noite estava clara. Catanada energia do seu rijo esqueleto, como o fazia todos os dias. Nessa noite era o folião, o dançarino de martelo na mão. Nessa noite estava empenhado numa missão de conquista.

— Podes acompanhar-me, Artur Bófia. Mas, se engatarmos alguma moça, sou eu quem dirige as operações. Se não aceitas, podes ir andando à procura da tua.

Artur Bófia não era dotado em dirigir as suas próprias conquistas.

— Eu vou contigo, Catanada. Não quero saber de raparigas nenhumas.

Caia a noite quando chegaram ao início da feira. Os seus pés estavam ofegantes. Catanada sabia agora que a noite estava como devia estar. O céu estava coberto por uma camada de geada. Adiante, os carrosséis rolavam de tal forma que enchia o entusiasmo dos participantes numa alegria contagiante. Os gritos das crianças, em sintonia, entoavam numa atmosfera brilhante. Nessa noite os casais podiam andar à vontade sem terem de recear as batidas dos martelinhos nas suas cabeças, pois a festa era dos foliões e só um intruso ignorava. De vez em quando, Catanada e Artur Bófia cruzavam-se com outros que, com a mesma alegria, seguiam sem descanso, por entre as ruas. Caminhavam em euforia, de cabeça levantada, sem dar mostras de cansaço. Quem podia afirmar que todos eles não eram amigos? Catanada e Artur Bófia sabiam que alguns eram amigos dos seus amigos e, como tal, amigo do meu amigo; meu amigo é. À volta dos ombros, por cima da camisa, Catanada levava um pulôver, para não deixar entrar o frio. Artur Bófia caminhava dando martelada em tudo que se mexesse. Embora, naturalmente, tivessem alegria, sabiam que precisavam de meter conversa com umas raparigas para fazer jus, àquela noite especial.

No fundo, lá diante, frente a eles, a bateria do conjunto abriu o baile; juntara todos os pares acasalados para o bailarico e todos os outros que, ali, não tivessem par, encontrariam o seu par. Rezou um padre-nosso. Catanada estremeceu e bateu com as mãos, embora a noite estivesse agradável. Pararam ao pé de duas moçoilas de cabelos aos caracóis que estavam de olhos postos no chão e que não lhes passou bola. Uns minutos depois, ainda Catanada e Artur Bófia vagueavam sem rumo por entre os dançarinos que enchiam o local.

De súbito, Catanada parou e agarrou o braço de Artur Bófia.

— Topa? — perguntou num murmúrio.
— O quê?
— Ali em frente. Já galei uma.
— To... topo; parece que sim.

Catanada aproximou-se do sítio das raparigas, cerca de doze metros à sua frente, um tronco duma loura de olhos azuis.

— Artur Bófia — sussurrou —, vê se não deixas escapar a amiga da loira. Eu não quero desviar os olhos dela, não posso perder aquela de vista.

Catanada acercou-se da rapariga loura e fez-lhe convite para a dança.

— A menina dança? — Ela aceitou o convite. Sorte igual teve o amigo.

Catanada rodopiou com a sua dama para o meio da pista, olhando como um cão de caça, enquanto Artur Bófia sorria para a sua, procurando não largar Catanada de vista. Catanada procurava não tirar os olhos da sua dama tão firme era ela que algumas vezes estremecia nos seus braços. Algumas vezes, Catanada tentou entrelaçá-la mais. Não olhou para o lado quando Artur Bófia tomou a sua dianteira. Quando se aproximou o fim do baile, Catanada retirou o braço da cintura da rapariga loura e disse:

— Que melhor prenda o S. João me havia de dar? Eu não posso deixar-te fugir — disse, como se recitasse um verso.

Em seguida soltou um profundo suspiro e sentou-se ao lado de Artur Bófia.

— É esta, meu amigo — exclamou. — Procurei-a durante a noite, mas agora encontrei-a.
— Vamos levá-las a casa? — disse Artur Bófia.

Catanada, contudo, abanou a cabeça com impaciência.

— Com toda a vizinhança ali filada? És tolo ou quê, Artur Bófia. A gente despede-se mas é aqui, depois demos-lhes os nossos contactos e amanhã à noite é que avançamos. Agora ninguém lhes pode tocar porque eu topo a vizinha em cima. Amanhã à noite já não há vigia. Agora que estavam sentados nas escadas, a noite parecia mais melancólica, mas da despedida vinha um calor de inocência e esperança, como se no coração houvesse uma fogueira a arder. Catanada traçou no chão um grande coração atravessado por uma seta e ficou-se a meditar por uns momentos.

— Que nenhuma vizinha má interfira nesta seta; abençoado seja a festa do S. João — disse, como se falasse para si próprio.

Depois levantou-se de novo. Tanto ele como Artur Bófia sentiam-se melhor. O ruído abafado dos passos das pessoas que caminhavam cansadamente chegava até eles: viam ao longe as luzinhas das diversas barracas que começavam a apagar-se. A festa estava quase no seu termo.

— Que é que vais fazer à rapariga? — perguntou Artur Bófia.

Catanada encarou-o de soslaio.

— Vê-se que nunca andaste à conquista de raparigas, pois de contrário sabias como se deve agir. Eu não quero ficar com esta rapariga. Se a conquistar com essa intenção ela fecha-se ainda mais, como uma amêijoa no prato, e eu nunca a apanharei. Não, não é assim que se deve agir. Eu quero conhecer a rapariga para apresentá-la ao Pipocas.

Então, Catanada manifestou todo o seu amor aos amigos. Disse a Artur como Pipocas era amigo dos seus amigos.

E nós pouco lhe damos a ele. Não pagamos farras. Utilizamos o apartamento com ele. Às vezes esborrachámo-nos e deitámos-lhe fogo ao apartamento. Quando andamos com ele, comemos as suas pegas e chamámos-lhes nomes. Somos muito acelerados. De modo que todos nós, Pipocas, Very nice, o Faísca e eu, fizemos um acordo. Virmos todos esta noite á festa do S. João conquistar as raparigas para lha darmos. Ele é tão nosso amigo, Artur Bófia; tão bondoso; e nós somos tão acelerados. Mas se lhe levarmos uma mão cheia de raparigas ele ficará muito contente. E é pelo meu coração não estar manchado de avareza que eu sou capaz de conquistar a rapariga.
— Não aproveitas um bocado para ti? — perguntou Artur Bófia, pasmado. — Nem mesmo uns beliscões nas pernas?
— Não, nem que ela me oferecesse o virgo! É tudo para o Pipocas, tudo, mas tudo!

Artur ficou desiludido.

— Andei esta noite toda e nem sequer tenho direito a nada? — lamentou-se.
— Quando o Pipocas conhecer a rapariga — disse Catanada com doçura — é bem menino que faça uma farra. É claro que eu não lhe falarei nisso, pois a rapariga é dele, mas creio que é bem capaz de o fazer. De modo que, se fores bom para ele, talvez te convide para uma farra.

Artur Bófia ficou sereno, pois conhecia o Pipocas há bastante tempo. Achava que era possível que Pipocas o convidasse para uma boa farra. A noite avançava. A lua desapareceu e deixou a vila envolta em nevoeiro. O barulho apagara-se de vez. Catanada tirou um cigarro do bolso e pôs-se a fumar nervosamente. Olharam algumas vezes para o local à volta, procurando arquivá-la na memória. Por fim, afastaram-se dali, e meteram pés ao caminho. Catanada sentia os pés pesados, mas estava satisfeito. Quando a casa de Pipocas surgiu diante deles, sacudiu Artur Bófia com uma cotovelada.

— São horas de irmos pregar olho. Esta é a casa do Pipocas.

Em casa do Pipocas, encontraram um estafado grupo de amigos.

— Conquistaram muitas raparigas? — perguntaram.
— Nenhuma — disse rapidamente Catanada para impedir que Artur Bófia falasse.
— Pascácio pensou ter conquistado uma sopeira, mas ela cavou com outro antes dele a ter conquistado. E o Faísca meteu-se com uma velha que tinha andado com ele.

A boca do Faísca abriu-se numa cortina.

— A velha disse-me que ainda fazia feliz um homem.
— Está aqui o Artur Bófia, que vem de férias — anunciou Catanada.
— Olá, Artur.
— Vocês tem aqui uma boa casa — disse Artur, sentando-se, estafado de andar a pé, numa cadeira.
— Na minha cama só durmo eu — avisou Pipocas, pois antevia que Artur Bófia vinha para ficar uns dias.

O Faísca saiu com o carrito e dirigiu-se às ruas para vender bugigangas; os outros cinco homens, entretanto, deixaram-se ficar ao sol que abria através do nevoeiro. Passado uns momentos estavam a beber. A manhã já ia no meio sem que nenhum se levantasse para erguer uma palha. Por fim, abriram as bocas, e olharam uns para os outros. A padeira deixara o pão e o leite numa saca em cima do muro, e os amigos abriram-na e começaram a comer e a beber. Artur Bófia desceu a rampa em direcção ao velho portão.

— Eu venho já — disse para Catanada.

Catanada ficou a olhar curioso para Artur Bófia até ver que caminho é que ele tomava. Os quatro amigos sentaram-se e contemplaram com pacholice o sol a chegar. Pouco depois, Artur Bófia regressou. Catanada foi falar com ele á rampa, de modo que os outros não os ouvissem.

— Pedimos a elas para virem connosco tomar uma cerveja — disse Catanada. — Ao pé da casa delas há um cinema.

Quando já estava a começar a escurecer saíram.

— Vamos ter com uns amigos do Pipocas — explicou Catanada.

Saíram de passos largos para o local onde ficaram de se encontrar com as raparigas. Depois, Artur Bófia tirou um maço de notas de dentro de um envelope que estava no fundo do bolso do casaco.

— Fodeste algum gajo! — gritou Catanada, assustado. — És um sacana, meu bófia de uns sustos!

Artur Bófia acalmou-o de perto.

— Eu não disse como é que o fui buscar — afirmou com certa autoridade. — Não disse, mas vou dizer. «Não te quero multar, és amigo do Pipocas. Quando falar com ele, peço-lhe emprestado e pago isto».

Catanada ficou perplexo.

— E assustou-se e emprestou-te o dinheiro?
— Bem... — Artur Bófia hesitou. — Perdoei lá uma coisa que se fosse a notificar levaria mais dinheiro.
— Que é que lá perdoaste?
— Foi só uma infracção — respondeu Artur Bófia, num desabafo. — Foi só uma.

Catanada pôs-se bem perto dele, dando risadas com vontade.

— Safado, safado dum raio; chulão! Ou tratas de me dar uma comissão ou chibo-te!

Artur Bófia tentou acalmá-lo.

— Pensei retribuir uma farra que devo ao Pipocas...
— Engana-me que eu gosto! — exclamou Catanada — Por causa da tua habilidade, és tu que logo vais pagar a despesa. Vamos embora.

Artur Bófia ganiu como um lobo e seguiu adiante. Durante bastante tempo tentaram dar com o local do encontro. Já era tarde quando Catanada apontou para as três casas em fila.

— É ali — disse.

Depois de terem andado à procura, encontraram a porta do quintal. Como não iam bater à porta, deixaram-se a aguardar.

— Algumas vezes as raparigas estão metidas a espreitar nas janelas — disse — e as janelas não deixam ver. — Olhou para o relógio para marcar o tempo. — Bem, vamos esperar cinco minutos e depois é que vamos bater à porta.
— Tu não bates agora? — perguntou Artur Bófia.

Catanada, desatinou furioso.

— Ouve lá, eu ando a querer levar isto numa boa, sabes? — Falou alto.
— Eu não sei nada — disse Artur Bófia.

Catanada tirou um cigarro do maço e fumou, nervoso, oferecendo outro a Artur Bófia. Quando passou cinco minutos, o cigarro tinha-se queimado no canto da valeta. Os cães da zona ladraram. A noite apareceu por detrás das casas. Por fim, Catanada perdeu a paciência e foi bater à porta. Bateu e tornou a bater. O silêncio era palavra de ordem.

— Fomos comidos, pá! — exclamou Artur. — As raparigas não moram aqui, Catanada!

A frustração era grande e tremenda. Freneticamente, desataram a bater há cegos, sem ninguém os atender. Quando a paciência chegou aos limites, Catanada viu um vulto e inclinou-se para ver. A luz cinzenta da noite mostrou uma velhota seguida de um cão, que saía de uma porta lateral.

— Eh! — proferiu Catanada —, não fuja de nós!

De ombros curvados sob o peso da idade, a velhota parou no meio do caminho e fez-lhes sinais de dedos apontados à boca.

— É muda! — disse Artur Bófia, lastimoso.

Catanada não lhe respondeu.

Artur inspeccionou a traseira da casa. No fundo deparou-lhe uma quantidade de desarrumação. Voltou-se para o aborrecido Catanada.

— Talvez se a gente seguisse a velhota e visse a falar com alguém.

Catanada saiu do aborrecimento.

— Vamos, mas é embora.

No seu agastamento, Catanada o que queria era mesmo cavar dali o mais depressa possível. Começou a descer a colina. A noite já escurecera quando chegaram à placa informativa de Marco de Canaveses. Arrastaram-se ao longo dos caminhos desviados até à paragem do autocarro, e sentaram-se no banco de madeira. Catanada tirou outro cigarro; depois, como a bondade é a padroeira do amor ao próximo, passou o maço do tabaco para Artur se servir.

— O que é que a gente planeia — exclamou Catanada. — Como vamos em prol dos nossos sonhos. E tinha eu pensado levar raparigas ao Pipocas. Até parece que estava a ver a alegria dele. Que surpresa ele não teria. Durante muito tempo nem havia de esquecer — tirou o maço do tabaco das mãos de Artur e guardou-o no bolso. — Foi tudo por água abaixo hoje.

A noite estava cada vez mais fria e eles iam ficando cada vez com mais frio. Apesar do seu desalento, Catanada, na sua maneira imaginativa, estava já a tentar descobrir alguns pontos bons da situação.

— Visto bem — filosofou ele —, se tivéssemos conquistado raparigas, talvez isso não tivesse sido nada bom para o Pipocas. Ele sempre foi doido e a sexualidade podia dar-lhe volta ao miolo.

Artur Bófia acenou solenemente com a cabeça.

— A amizade é melhor do que a sexualidade — disse Catanada. — Se procurarmos fazer o Pipocas feliz, será melhor do que lhe dar sexo.

Artur Bófia, acenou de novo e atirou com um escarro para o meio da estrada.

— Fazê-lo feliz é bem melhor.

Catanada voltou-se para ele, sorridente.

— Quem te conheça que te compre — disse brandamente.

O itinerário para o centro variava constantemente, cortando e metendo por calhas e travessos numa maratona de encurtar caminho.

— Tu não és mau amigo — disse Catanada.

Artur Bófia, porém, já ia adiantado. Despira o casaco e pusera-o debaixo do braço. Momentos depois, seguiam lado a lado pelo desvio. Os poucos cafés abertos ao longo da vila contavam-se pelos dedos. Um grupo de clientes olhou-os. O taberneiro serviu-os. Artur puxou do dinheiro e mandou vir uma rodada.

— Vamos a isto — disse Artur Bófia.

Escorropicharam os copos. O taberneiro repetiu a dose, e pôs-lhes um prato de moelas à frente. Um canário palrou. Duas quarentonas que estavam na mesa da entrada, olharam para os seus copos vazios, e depois olharam para os deles cheios, e ficaram a contemplá-los. Pela cabeça de Artur Bófia, era uma deselegância que nenhum homem se tivesse oferecido para lhes dar de beber. Voltou-se para o taberneiro.

— Ponha-as a beber — disse.

Elas voltaram-se para Artur e agradeceram-lhe cheias de sorrisos. Artur, então, não esteve com cerimónias e deitou mão a uma cadeira, sentou-se de frente para elas.

— Catanada! — chamou.

Catanada, contudo, não estava longe. Pegou numa cadeira e debruçou-se sobre os cotovelos e olhou para as mulheres. «Uma esfrega fazia bem a estas carochas», pensou. Inclinou o copo, e fez um brinde, e conseguiu um consolo para os seus olhos. Depois, esticou para dentro as pernas na intenção de encostar a perna à mais próxima das quarentonas, enquanto estivera a brincar; algum calor, porém, acontecera. Catanada olhou para Artur Bófia numa atitude interesseira. «Rico menino», pensou. «Quando for a pagar nem vai saber da conta. Se eu soubesse que ele era esta prenda, já o tinha chamado.» Abanou Artur Bófia algumas vezes. Como Artur apenas falasse para a sua parceira e fizesse ouvidos de mouco, Catanada escutou-lhes as afirmações, ao mesmo tempo que, olhou um pequeno letreiro sobre uma pipa que dizia «No tasco bebe-se melhor.» Catanada encostou-se na cadeira. Não adiantava. Tinha de ficar ali na seca, enquanto a parceira lhe pedia mais pinga. Fez sinal ao taberneiro para trazer nova rodada para todos. Reparou nas mãos de Artur que passava os dedos pelas coxas da quarentona. «Bom sinal», disse de si para si. «Por este andar vamos longe.» Reparou então como as coxas da quarentona eram gordas, como a pele era lisa, como os joelhos eram perfeitos. «Estas coxas faziam feliz um homem de bom apetite.»

Lembrou-se do namoro que Artur Bófia tivera com a rapariga no bailarico, parecia um anjo da guarda. «Como é que este nabo tão grande se atreveu a uma iniciativa destas?! Quando ele estiver comigo a sós, dou-lhe um par de abraços.» Deu um ligeiro toque a Artur, mas este apenas fez um compasso de espera como se precisasse dum prolongamento. Entretanto, Artur tirou descaradamente os óculos à quarentona, convencendo-a a fazer um striptease para eles.

A quarentona abanou a cabeça com sorrisos.

— Mas repara — disse Artur —, tu só estás a ver a mesa e nós. Olha-me para este grosso de notas. Pensa só! Tu tiraste a roupa e passei-te as notas para a mão. Cada peça de roupa é equivalente a uma nota. Nós entramos em êxtase. Então, tu mostra-nos esse teu belo físico. Como os nossos olhos se faíscam! Como ficamos cheios de prazer! Pegamos em ti ao colo, cobrimos-te. Uma mão de notas é um valor demasiado alto para tanto frenesim?

— Há fregueses lá atrás — replicou ela.

Artur ergueu-se para trás.

— Tu consegues ver sem óculos? Não! Estes gajos já perderem o faro do corpo e só se confortam com a pinga. Não nos faças desesperar.
— Tenho receio — retorquiu ela com rubor.
— Tu és cruel para nós; recusa-nos o prazer. Não pensava que fosses mais cruel que as outras mulheres. Fico então com o dinheiro?

Por fim, a resistência da quarentona foi vencida; Artur Bófia passou o maço de notas para a mão da colega e bebeu um bom trago de seguida.

— Tu estás a procurar provocar o nosso prazer — avisou Artur. — Devias era fazer-nos dois stripteases.

A quarentona subiu para a mesa decidida como nunca. Catanada e Artur Bófia não cabiam em si de contentamento. Catanada curvou-se para trás, meditando. «É um pedaço duma viga, é o que ela é. Dominamo-la, mas fica com as notas do Artur.» Catanada pensou com tristeza nos amigos que ficaram na casa do Pipocas. Se eles soubessem o que perderam? Se lhes pudesse avisar, era canja. Mas não era possível. Catanada sentiu-se inteiramente contagiado pelo striptease.

— Não sei se vou aguentar — disse ele à outra.

Os olhos estavam pregados na cena do despe-despe.

— Vais ver que vais — disse ela ao ouvido, ao mesmo tempo que se chegava mais para ele.

A quarentona, ao dar a primeira volta, tirou a saia; à segunda tirou a blusa; à terceira não tirou só o sutiã mas também as calcinhas. Em seguida, voltou para o centro da mesa onde se encontrava Artur Bófia e atirou-lhe as calcinhas para as mãos.

— Tome lá, Artur Bófia. Podes dar-te por feliz, por seres o bafejado.

Durante uns instantes, não conseguia ver onde punha os pés e guiava-se apenas pelo instinto. Mas, por fim, ela desequilibrou-se da mesa, em queda, estatelando-se no chão, aos gritos. Aproximaram-se rapidamente o grupo dos homens aos fundos. Artur Bófia dava-lhe umas palmadinhas no rosto como se faz a um bebé.

— Pronto, pronto, minha beleza, já passou.

Delicado, Artur Bófia sentou-a entre Catanada e a colega que trazia as roupas para a vestir. Artur Bófia colocou a mesa no lugar e pagou a despesa. Em seguida, lado a lado, puseram-se a caminho ao longo da estrada envoltos nas trevas, na direcção ao centro, onde as poucas luzes acesas, umas atrás das outras, se recrutavam contra a colina. A hora estava tardia e distanciada. Artur Bófia estava ainda a meditar e Catanada compreendeu quão profundos eram os entusiasmos do seu amigo. Por fim, Artur Bófia, voltando-se para Catanada, disse:

— Estas coisas assim é que nos mostram que brincar com uma mulher é uma loucura em grande.
— Foi uma cena que me levou às nuvens — exclamou Catanada, entusiástico. — Não foi? Eu dava cabo dela.

Artur Bófia, porém, abanou alegremente a cabeça, como o velho boémio que, ao percorrer meio mundo vê quanto o seu mundo é fabuloso.

— Já está pronta para outra — disse. — Pode dizer-se que foi ela que se tentou a si mesma e pelas notas. Era ela que tinha a falta do pilim; ganhou-os, levada pela ambição, e o prazer foi nosso.

Catanada disse humildemente.

— Obrigado por teres conseguido dar-me um espectáculo de eleição, Artur.

Este, porém, estava tão embrulhado na meditação que até os agradecimentos não tinham muito valor.

— Não tens de quê, pá. Em todo o caso só o gozo que a gente teve vale bem a noite.

Saíram do passeio e passaram junto da grande porta de alumínio metalizado do mini mercado.

Artur Bófia sentia-se feliz na companhia de Catanada. «Ora aqui está um homem que estima os seus amigos», disse de si para si. «Mesmo quando eles estão a exibir-se, ele está em sintonia e não nos deixa ficar mal.» Resolveu ter outro dia um gesto simpático para com Catanada.

Tuesday, January 24, 2012



CONTOS DE RATAZANA
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7. Episódio
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Eis como os amigos de Pipocas enveredaram por um caminho do bem e ajudaram o pobre Faísca


Muita gente via o Faísca quase todos os dias; uns riam-se dele, outros tinham pena, mas ninguém se metia com ele. Era um homem pequeno mas magro, estreito de costas, de cabelo encaracolado e penteado ao lado. Usava calça de fazenda, camisa às cores e não fumava. Na vila andava de pulôver. Quando estava perante qualquer ilustre, havia nos seus olhos um certo retraimento, a expressão reveladora do indivíduo que não gosta de ser muito mirado. Devido a essa expressão, os guardas de Marco de Canaveses sabiam que a sua mente não tinha crescido com o resto do corpo. Chamavam-lhe o Faísca por causa de aparecer em todo o lugar. Todos os dias as pessoas o viam passar para o jardim empurrando o seu carrito de pedais com bijutarias até vender a sua carga. E, sempre atrás dele, seguia o seu cão de vigilância. Chamava-se Vigília, fazia lembrar um texugo, embora o seu tamanho fosse volumoso. Quando, cansado de pedalar o carrinho, ele se punha de pé encostado a uma parede, o cão subia para o selim para que ninguém se atravesse a roubar-lhe a carga. Havia quem tivesse visto o Faísca logo de manhãzinha no Beco do Repouso, havia quem o tivesse visto a comer laranjas no mercado, havia quem soubesse que ele vendia santinhos; mas mais ninguém melhor que Catanada, sabia todos os passos que o Faísca dava. Catanada conhecia toda a gente e sabia tudo relativo a todos.

O Faísca vivia fora da vila nos arrabaldes do Marco de Canaveses numa casa térrea com um pequeno quintal na frente. Teria achado vaidade da sua parte mesmo morar junto à rua. O cão vivia ao redor e dormia na cama aos pés dele, e isto agradava-lhe, pois nas noites de Inverno, o bicho aquecia-o. Se as noites gelassem, bastava-lhe pôr umas achas na fogueira, amarfanhar-se nos cobertores e pôr-lhe em cima o esqueleto quente do Vigília. A casa era tão solarenga que o Faísca só tinha problemas quando chegava o Inverno. Bem cedo pela manhã, bem antes de o comércio abrir, o Faísca saía para fora de casa, seguido pelo cão que rosnava ao contacto com a atmosfera fria. Depois, desciam ao Marco de Canaveses e punham-se a trabalhar ao longo duma rua. As traseiras de dois ou três restaurantes davam para essa rua. Por todas elas o Faísca entrava direito aos recantos malcheirosos a comida. Empregados mandriões deixavam-no carregar bidões besuntados de restos de comida e caixas com garrafas vazias, porque não queriam ser eles os transportadores do lixo. Depois de ter limpado cada um dos recantos traseiros e ter os braços cansados, o Faísca voltava a subir a rua, a que ele baptizara de “Largo da Gota” e, seguido do cão fiel, sentava-se num banco do tasco. A seguir, tomava o mata-bicho oferecido pelo dono pelo trabalho e tinha direito a uns ossos para o cão. O cão sentava-se em volta dele, roendo calmamente os ossos. O cão do Faísca nunca deixava ninguém se meter com o dono, mesmo na brincadeira, que atirava-se logo como se eles fossem gatos.

Quando o Sol raiava já o mata-bicho havia terminado. Sentado agora no beiral de fora, o Faísca aconchegava-se perante o sol que tingira de azul-marinho a manhã. Observava, lá em baixo, os vendedores de peixe nas carrinhas a fazerem-se à vida, chamando a freguesia. Ouvia o apito do comboio, soar repetitivamente ao longe da estação do Caminho de Ferro. O cão deitado, em redor dele, esticava-se como um bacalhau, deliciando-se a apanhar sol. O Faísca parecia mais estar a pensar na morta da bezerra, pois os seus olhos tinham uma expressão concentrada. Acariciava, distraidamente, a sua magra perna pela barriga do cão e coçava-lhe os tomates. Uma hora depois, o Faísca ia a casa, tirava o carrito coberto por um oleado e metia-lhe um pouco mais de gasolina no depósito. Em seguida, rua acima, rua abaixo, guiando o carrito, encaminhava-se pelo jardim dentro até encontrar um banco ao sol e sem ninguém. Pelo meio da tarde, tinha já vendido uma dúzia de santinhos; depois, seguido pelo cão, andarilhava as ruas principais até vender algumas bijutarias por dez escudos. O que ele fazia ao dinheiro ao certo é que ninguém o sabia. Andava sempre pendurado. De noite, encoberto pelas trevas da noite, ia à parede e levantava uma pedra, e escondia as moedas na lata vazia de engraxar sapatos ao pé de dezenas de outras latas. Seja como for, o Faísca tinha armazenado uma grande quantidade de dinheiro.

Catanada, empregado de banco a quem não escapavam os particulares da vida dos seus semelhantes e que ficava a falar sozinho para a sua gravata sobre os seus conhecidos, descobriu o tesouro do Faísca por um processo matemático. Então, raciocinou: «Todos os dias o Faísca arranja em média dez escudos. Quando tem muitas moedas de tostão vai à loja e cambia o dinheiro por uma moeda de dez escudos. Portanto, deve guardá-la.» Catanada pôs-se a adivinhar a quantidade de moedas guardadas. Há anos que o Faísca vinha fazendo este modo de vida. Seis dias por semana ele limpava os bidões e aos domingos vendia santinhos na igreja. A roupa orientava-as nas feiras e a comida e os mata-bichos nos restaurantes e tascos. Catanada ainda andou um bocado à nora com grandes somas, mas logo desistiu. «Deve ter açambarcado pelo menos dez mil escudos», pensou. Há já algum tempo, Catanada tinha meditado nestas coisas. Mas foi só depois de, louca e entusiasticamente, a aventura de sustentar a prostituta no apartamento de Pipocas ter sido anulada que o pensamento recaiu, sobre o tesouro do Faísca e ganhou para ele um contorno pessoal. Depois de se debruçar acerca do problema, Catanada prosseguiu o caminho da solução. «Mas seria louvável», pensou, «tentar fazer-lhe um seguro de vida! Oferecer-lhe umas roupas novas? Ele até tem estilo. Mas não tenho dinheiro», lembrou-se, «para comprar essas coisas, embora isso não seja caso de grande monta. Como é que vou levar a cabo esta marosca?»

Chegava-lhe agora uma luz ao fundo do túnel. Como um rato que, durante uns longos minutos se acerca de um bocado de queijo, Catanada estava preparado para utilizar o seu tema. «É isto!», exclamou a sua cabeça. «O Faísca tem dinheiro, mas não tem seguro de incêndio e roubo? Eu tenho-o! Vou pô-lo a fazer um seguro para ele e para o cão também. Será esta a minha marosca para avaliar aquele pobre diabo.» Era uma das muitas habilidades que Catanada estava apto. A vontade irresistível do finório de apresentar o seu projecto a um amigo invadiu-o. «Vou falar com Pascácio», pensou. Mas não sabia se devia fazê-lo. Era Pascácio realmente firme? Não quereria ele cobrar-lhe alguma parte do seu dinheiro para seu proveito próprio? Pelo sim pelo não, Catanada resolveu não correr já esse risco. E não esperou pelo amanhã. Nessa mesma noite foi dar uma ronda pela casa onde o Faísca vivia com o cão. Pipocas, Pascácio e Very nice sentados ao balcão do café, viram-no passar mas não disserem nada. Porque, pensaram que ele não demoraria muito a vir para o pé deles. Estava uma noite cinzenta, mas Catanada prevenia-se com uma lanterna na algibeira, pois sabia que, tinha que ter cuidado, uma vez que era do conhecimento geral que o cão, se suspeitasse que alguém queria fazer mal ao dono, se transformava em vampiro sanguinário. Levava também numa pasta pequena uns brindes, que tinha orientado no banco e uma garrafa de cachaça que, a empregado do restaurante lhe tinha dado, como agradecimento de uma fórmula para conseguir o empréstimo bancário para uma ida a Paris. No pensamento de Catanada, o Faísca ia adorar a cachaça. A noite estava mais cinzenta. Catanada cortou por uma ruela ladeada de terrenos abandonados e cobertos de ervas. Assim que Catanada se acercou da cancela, viu o cão rafeiro do Faísca sair a rosnar do quintal, e Catanada, para o manietar, atirou-lhe uma chiclete.

— Chupa, cãozinho, chupa — disse suavemente —, que vais ver como vais ficar docinho.

O cão, logo ficou entusiasmado pelo aroma, pois retirou-se para o interior.

— Faísca, é o teu grande amigo Catanada que quer dar-te uma palavrinha.

Fez-se silêncio.

— Faísca, sou eu, o Catanada.

Uma voz seca e azeda respondeu-lhe:

— Vai-te daqui. Estou na cama. Não enerves o cão. Vai mas é dormir.
— Tenho aqui uma garrafa de cachaça — retorquiu Catanada. — A tua rouca voz ficará tão fina como a voz de um tenor. Tenho também uns brindes para ti.

Na casa ouviu-se um barulho repentino.

— Entra lá, então — disse o Faísca. — Eu digo ao cão que és meu amigo.

À medida que avançava pelo meio do pátio, Catanada viu o Faísca falar baixinho com o cão, dizendo-lhe que Catanada não fazia mal a ninguém. O Faísca estava em frente da escaqueirada porta da entrada desfigurado rodeado pelo cão. Vigília rosnou e logo voltou a ficar sossegado.

— Este só faz mal se o dono o mandar fazer — disse o Faísca, envaidecido.

Os seus olhos eram os olhos risonhos de um homem divertido. Quando abriu a boca, o seu grande bafo empestou à luz da lua. Catanada abriu a pasta.

— Trago-te aqui uma boa garrafa de cachaça — disse.

O Faísca pegou na garrafa e olhou para dentro, depois abanou-a, e sorrindo, tirou-lhe a rolha. O cão arreganhou os dentes, olhou para ele, e lambeu as beiças. O Faísca buscou dois copos. O primeiro foi para Catanada, sua visita.

— E agora tu, Vigília.

O cão recebeu a sua parte na tigela, bebeu-a e ficou à espera de mais. O Faísca bebeu um bom gole e esticou a cabeça para o ar.

— Que mata-bicho!

O Catanada olhou para ele e colocou a pasta à sua frente. O Faísca, curioso, interrogava-o com os braços abertos. Catanada mantinha-se calado a fim de deixar que pela cabeça de Faísca passassem muitas perguntas. Até que disse:

— És uma tremenda dor de cabeça para os teus vizinhos.

Os olhos do Faísca encheram-se de espanto.

— Eu? Para os meus vizinhos? Quais vizinhos?

Catanada mudou o tom da voz.

— Tens muitos vizinhos nas imediações que pensam em ti. Nunca vêm visitar-te porque de dia andas sempre fora. Julgam que talvez não gostes que te venham visitar à noite. Mas esses teus vizinhos andam sempre preocupados porque têm medo que um dia a casa se incendeie e roubem-na e te ponha a vida em risco.

Apalermado e boquiaberto, o Faísca seguia o raciocino do outro, tentando entender as coisas novas que estava a escutar. Não punha em dúvidas sequer a sua veracidade, uma vez que era Catanada quem as proferia.

— Eu tenho assim tantos vizinhos? — perguntou, admirado. — Juro, que eu não sabia, Catanada. E eles preocupam-se comigo? Que raio de coisa, Catanada. — Engoliu a saliva para controlar a emoção que lhe tomava a garganta. — Tu compreendes, Catanada, o cão e eu gostamos de aqui estar, por causa deste sossego. Não pensava era que causava preocupações aos meus vizinhos.

As faces ficaram-lhe esbranquiçadas.

— Contudo — continuou Catanada — o teu estilo de vida causa muita apreensão aos teus vizinhos.

O Faísca botou os olhos ao chão e tentou pensar rápido em qualquer coisa, mas, como sempre lhe acontecia quando forjava uma ideia, a caixa cinzenta bloqueava e daí não surgia nada. Depois, seriamente, fitou Catanada nos olhos.

— Então, o que é que tu achas que eu devo fazer. Eu não estava a par disto.

Era demasiado simples. Catanada não estava a contar com esta. Repensou; esteve quase a mudar de táctica; sabia, no entanto, que isso ia pô-lo danado consigo mesmo se o fizesse.

— Os teus vizinhos são pessoas civilizadas — disse. — Gostariam que defendesses os teus bens. Se tens dinheiro guardado fá-lo investir num seguro da casa. Num seguro ao cão também. Compra acções. Tira o dinheiro do sítio onde o escondeste, Faísca.

Enquanto falara, Catanada tinha fitado atentamente os olhos do Faísca. Vira-os fugir para o lado com suspeita e depois com desconfiança. Num momento teve a certeza de duas coisas. Primeiro, que o Faísca tinha dinheiro escondido. Segundo, que não era fácil deitar-lhe a mão. O Faísca estava agora de novo a olhar para ele. Nos seus olhos haviam sofisma e, ilustrando-a uma estudada ratice.

— Não tenho dinheiro nenhum — disse.
— Mas todos os dias, amigo Faísca, vejo-te receber cerca de dez escudos de vendas e nunca te vi gastar um centavo.

Desta vez o raciocínio do Faísca não o tramou.

— Dou-os à Minha Sorte — disse. — Não guardo dinheiro em nenhum lado.

E com este drible encerrou firmemente o assunto.

«Aqui deve haver pardal», pensou, Catanada. Por fim, lançou o último às ao jogo. Deitou mão à pasta e pô-la debaixo do braço.

— Eu apenas tive o cuidado de proteger-te. Como sabes, o seguro morreu de velho — disse em toada crítica. — Se não quiseres tentar precaver-te, não posso fazer nada por ti.

A bondade voltou aos olhos do Faísca.

— Diz aos meus vizinhos que estou bem de saúde — pediu. — Diz-lhes que venham visitar-me sempre que queiram. Têm é que avisar-me antes. Ficarei muito contente por os receber. Dizes-lhes isto por mim, Catanada?
— Digo — respondeu Catanada com dureza. — Mas os teus vizinhos não vão ficar muito satisfeitos quando souberem que tu não fazes nada para os sossegar.

Catanada passou a pasta para a mão e afastou-se encoberto no escuro. Sabia que o Faísca nunca abriria boca onde escondera o dinheiro. Este tinha de ser descoberto furtivamente e arrancado à força. Depois far-se-iam todos os seguros para o Faísca. Não havia outro remédio. E a partir daqui, Catanada meteu pés ao caminho a seguir o Faísca. Segui-o no jardim quando ele ia vender bugiganga, e aos domingos na igreja quando vendia santinhos. Ficava à espreita, de noite, junto da casa. Teve com ele algumas conversas a jeito, mas daí nada surgiu. As longas e desgastadas vigílias deram cabo do juízo de Catanada. Achava que tinha de pedir ajuda e opinião pessoal a Pipocas, Pascácio e Very nice. Quem melhor lhas podia dar? Tinha que lhes conceder a sua confiança, mas primeiro mentalizou-os como tal se tinha mentalizado a si mesmo. Quando chegou a altura, os amigos estavam numa, “Um por todos e todos por um”. Aplaudiram-no. O rosto iluminou-lhes de boa vontade. Pascácio chegou a fazer contas de somar e concluiu que o Faísca era bem menino de possuir mais de dez mil escudos.

— Temos de o seguir — disse Pascácio.—
--- Eu tenho-o seguido — retorquiu Catanada. — Mas é que ele só aparece à noite e o cão parece um demónio atrás dele. A coisa não é assim tão fácil.
— Usaste os pormenores todos? — perguntou Pipocas.
— Todos.

Por último, foi Very nice, esse pensador homem, quem encontrou a chave da solução.

— A coisa só é difícil enquanto ele não ganhar confiança connosco — disse. — Mas supúnhamos que ele convivia com a gente? Seria mais fácil para nós ganhar a cumfia dele.

Os amigos consideraram lentamente essa hipótese.

— Alguns empregados dos restaurantes dizem que ele se governa bem — disse Pascácio. — Já tenho visto que a comer é um pisco, mas a beber é bem melhor.
— É capaz de ter aí uns vinte mil escudos — disse Catanada.

Pipocas pôs uma questão:

— Mas os seguros? Ele há querer o cão no seguro.
— O cão é um autêntico robô — afirmou Catanada. — É-lhe fiel cegamente. Pode pôr-se um saco à volta do pescoço, mandá-lo ao recado e dizer-lhe: «Vai buscar pão», «Vai buscar leite.» Ele diz-lhe e o animal não falha uma. É um águia.
— Um dia, de manhã, vi o Faísca; tinha no bolso quase meia vintena de cascalho — disse Pascácio.

O assunto ficou encerrado. A conversa converteu-se em assembleia e a assembleia foi ter com o Faísca. O Faísca nem sabia como disfarçar a felicidade de ver a casa apinhada com todos lá dentro. Usou um tom rude.

— O tempo não tem ajudado muito — disse ele, na sua entrada inicial. — Talvez não devesse contar-vos, mas encontrei na barriga do Vigília uma cambada de carraças do tamanho de um ovo de pombo. — Depois, no seu papel de anfitrião, desfez de desculpas — A casa é muitíssimo pequena. Mas é quente e aconchegada, especialmente para o cão. Lamento não ter nada para oferecer aos vizinhos.

Foi então, a vez de Catanada, falar. Disse ao Faísca que os seus vizinhos estavam extremamente dispostos a ajudá-lo a fazer o seguro, e que se ele fosse almoçar com eles poderiam criar um elo forte de amizade. O Faísca ficou muito sensibilizado ao ouvir estas palavras. Olhou para eles; depois, para o cão, à procura de apoio, mas aquele não o fitou. Por fim, com a palma da mão, limpou o nariz de ranho, e passou a mão no grande blusão de fazenda.

— E o cão — perguntou docemente. — Vocês não se ralam que ele também vá? Vocês têm cães?

Catanada acenou com a cabeça um sinal de concordância.

— Temos; o cão também faz parte da família. Põe-se de lado um canto só para o bicho.

O Faísca era muito orgulhoso. Tinha receio de não portar-se à altura deles.

— Vão agora à vossa vida — rogou. — Tenho que ver se faço alguma coisa. Amanhã ou depois vou ter convosco.

Os vizinhos sabiam como ele se sentia. Saíram para fora e deixaram-no só.

— Ela há-de se dar bem com a gente — disse Very nice.
— Pobre diabo; por aí anda ao quem será — acrescentou Pipocas. — Se eu tivesse sabido, há mais tempo que o tinha convidado, mesmo que ele não possuísse um tusto.

Um brilho de alegria brilhou em todos eles. Em breve as novas amizades ficaram estabelecidas. Pipocas, com uma longa corda, fechou um círculo em volta do quintal, onde o cão tinha de comer quando viesse lá a casa. O Faísca tinha agora um lugar central para ficar de frente para o cão. Pipocas e os amigos entenderam que o convite feito ao Faísca fora inspirado por aquele fatigado e desejoso momento que olhava pelos seus destinos e os protegia do mal. Todas as manhãs, muito antes de os seus vizinhos saírem de casa, o Faísca passava com o seu carrito e, seguido pelo cão, fazia a ronda do tasco e restaurantes. Era daquelas figuras da terra por quem toda a gente sente simpatia. As recolhas tornaram-se vantajosas. Os empregados eram seus amigos, dizia de si para si, dias a fio, quando rebocava o lixo e deixava os bidões vazios para eles os encherem. Estes empregados gostavam tanto dele que os afligia deixarem-no emborrachar-se sozinho. Muitas vezes o Faísca tinha de recolher a casa para dormir. Era tão grande o seu medo de não executar as tarefas, se por acaso não fossem lá limpar. Durante dois dias, os vizinhos limitaram-se a esperar pelo Faísca. Mas, por fim, ele acabou por vir visitá-los. Sentaram-se em redor da mesa, jantaram, e discutiram o que se passava no Marco de Canaveses numa voz arrastada de espertos saciados, os olhos do Faísca bailavam de rosto para rosto e os seus próprios sorrisos sobressaíam-se conferindo as conversas que ouvia. No fundo do quintal, satisfeito, o cão olhava para eles. Nessa noite, a discussão surgiu do tema das pessoas esconderem o dinheiro. Catanada falou:

— Tive um tio, um grande avarento, que abafava o dinheiro no sótão. Ora um dia, um incêndio deflagrou, e ele ficou sem nada. Ninguém chamou os bombeiros. O meu tio era preguiçoso, ficou sem dinheiro nenhum e depois internou-se.

Catanada notou, com uma certa satisfação, que no rosto do Faísca surgira uma certa inquietação. Pipocas reparou também e, por sua vez, prosseguiu:

— O meu patrício, que me deixou esta casa e a outra, também enterrou dinheiro. Não me lembro quanto, mas, como era considerado poupado, devem ter sido aí uns quatrocentos ou quinhentos contos de réis. O patrício fez um esconderijo no tecto e pôs o dinheiro em cima; depois marcou o sítio com uma cruz. Mas, um dia, quando lá voltou os ratos tinham-lhe comido o dinheiro e deixaram lá umas pontas.

Os sorrisos do Faísca seguiam os rostos. No olhar estampara-se-lhe o medo. Os seus dedos metiam-se por entre o miolo da broa. Os vizinhos trocaram um olhar e, habilmente, mudaram de tema. Passaram a falar dos amores de Xanana. Pela noite dentro, Catanada saiu furtivamente de casa e, dirigiu-se rapidamente a casa do Faísca, saltando com destreza por cima da cancela e passado o quintal. Depois de tirar o canivete do bolso e ter aberto a porta, pôs-se a revistar gavetas e armários, e todo o local onde o Faísca poderia ter escondido o dinheiro. Mexeu e remexeu aqui e acolá e, por fim, deu por terminada a busca. Uma hora mais tarde, Catanada voltou para trás num desalento e aborrecido. Por essa altura, o Faísca já estava em casa dormindo o sono aberto deitado ao lado do cão. No dia seguinte, realizou-se uma assembleia na casa do Pipocas.

— É impossível dar com o esconderijo — informou Catanada. — Escondeu bem. Não se vê nem um chavo. Temos que conhecer bem os cantos à casa. Temos de arranjar outro esquema.
— Talvez seja melhor irmos todos — sugeriu Pascácio. — Se todos formos revistar a casa, talvez um de nós tenha mais golpe de vista.
— Hoje voltamos a convidá-lo — disse Very nice. — Um senhor que é meu amigo, vai dar-me uma garrafa de uísque — acrescentou com modéstia, Very nice. — Quem sabe, o Faísca, com uma pinga destas, não se levante da mesa e fique por aqui a sonhar.

Assim ficou combinado.

O amigo de Very nice oferecera-lhe a garrafa de uísque. Não podia haver mais prazer para o Faísca nessa noite quando lhe passaram para a mão uma tigela com uísque acompanhada de uma chouriça assada e ele se sentou ao pé dos vizinhos, bebericando e ouvindo falar. Raras vezes tivera uma oportunidade de beber uísque por uma tigela. Como lhe soubera tão bem. Desejou poder abraçar esta gente contra o peito e dizer-lhe quanto os adorava, mas isso não podia fazer, não fossem eles chamar-lhe de bêbado.

— A noite passada falamos sobre o dinheiro abafado — disse Catanada. — Agora, lembrei-me de uma madrinha minha, uma mulher esperta. Se havia alguém neste mundo capaz de descobrir um buraco onde ninguém desse com ele, esse alguém era a minha madrinha. De modo que um dia pegou no dinheiro e escondeu-o. Mas de nada lhe valeu. Um dia deram com ele e roubaram-lhe todo.

A inquietação voltou ao rosto do Faísca.

— É melhor ter o dinheiro à mão debaixo de olho, gastar um pouco e pronto e emprestar algum aos vizinhos — concluiu Pipocas.

Tinham estado a olhar cuidadosamente o Faísca e tinham reparado que, durante a história mais arrebatadora, o cansaço lhe aparecera no rosto e um abrir e fechar de olhos tornava-se evidente. Agora o Faísca consumia o uísque em doses triplas e os olhos carregavam-lhe de peso. O sono apoderou-se dele. Todos os seus sentidos tinham bloqueado. Ficara profundamente ébrio. Depois de toda aquela chouriçada e de todo o álcool ingerido, acabou por tombar a cabeça para baixo e adormecera. Pouco depois deu-se a saída furtiva dos vizinhos e sem que o cão do Faísca acordasse, cavaram dali para revistarem a casa do Faísca. Um momento depois, os quatro entraram na casa do Faísca. Quando abriram a porta o fedor era enorme. Os quatro vizinhos foram ao encontro dos cantos e apalparam buracos e bateram nas tábuas; mas durante bastante tempo ouviram o Faísca caminhar na sua retaguarda. Saíram para fora e esconderam-se atrás duns arbustos; de repente, só o silêncio, o abanar das folhas e o fraco vento da noite. Revisaram o arvoredo e atrás dos pinheiros, mas o Faísca desaparecera de novo. Por fim, cheios de frio e abatidos, arrastaram-se na direcção do centro. O céu escureceu e o manto da madrugada cobria já sobre a vila. Marco de Canaveses desceu até eles a luz dos primeiros candeeiros da noite. O Faísca, sorrindo de alegria, veio ao quintal cumprimentá-los. Passaram por ele de má cara e meteram-se dentro de casa. Em cima da mesa encontrava-se um saco de serapilheira. O Faísca seguiu-os.

— Enganei-te, Catanada. Disse-te que não tinha dinheiro porque estava com receio. Nessa altura eu não conhecia os meus vizinhos. Agora vocês disseram que me ajudavam a fazer o seguro da casa e do cão que já estou interessado de vez. Só depois de descansar é que me veio à cabeça a solução. No cofre do banco o dinheiro estará em segurança. Ninguém conseguirá tirá-lo de lá se os meus vizinhos me ajudarem.

Os quatro vizinhos olhavam-no, estupefactos.

— Pega no teu dinheiro e esconde-o no monte — disse Pipocas, indignado. — A gente não vai querer saber.
— Não — contestou o Faísca, — não me sentia seguro se o escondesse. Mas ficarei aliviado sabendo que os meus vizinhos me ajudaram a guardá-lo no banco. Vocês são capaz de não acreditar em mim, mas nestes últimos dias, alguém me revistou a casa para me roubar o dinheiro.

Embora o golpe fosse duro, Catanada tentou iludi-lo.

— Antes de esse dinheiro vir parar ao banco, se calhar, tu vais querer tirar algum? — sugeriu amavelmente.

O Faísca abanou a cabeça.

— Não. — Não quero fazer isso. Tenho quase mil moedas de dez escudos. Quando tiver mil, compro um porco para oferecer à Minha Sorte. Tive uma vez um galo do campo que adoeceu, e então, prometi à Minha Sorte que lhe compraria um porco para criar com o dinheiro junto durante mil dias se o bicho escapasse. E escapou — concluiu, estendendo as mãos pequenas.
— Muito bem. Ficamos esclarecidos — concluiu Catanada.

Assim se terminava toda a ilusão em volta do desvio do dinheiro. Pipocas e Pascácio levantaram o pequeno saco de latas da graxa carregadas de moedas de cobre, levaram-no para a outra sala e puseram-no debaixo dos papéis na gaveta de Pipocas. Tempo viria em que experimentariam um certo gozo em saber que aquele dinheiro estava debaixo dos papéis na gaveta, mas agora a sua derrota era azeda. Nada podiam mudar. A oportunidade surgira e cavara-se de vez. O Faísca estava ali defronte deles; tinha os olhos chorões de felicidade, para provar o seu amor pelos vizinhos.

— E pensar — disse — que todos estes anos vivi naquela casota e não conheci qualquer prazer. Mas agora — acrescentou —, agora, estou muito feliz.

Monday, January 2, 2012

CONTOS DE RATAZANA
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6. Episódio
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Eis como os amigos de Pipocas
juraram ser mais companheiros


O Sol já aquecia acima dos pinheiros, o chão estava quente e o rescaldo da noite ia secando nos arbustos do monte quando Pipocas saiu da cozinha para se sentar à soalheira do quintal e meditar, ao calor, acerca de alguns acontecimentos. Arremessou os sapatos e as meias para o lado e deixou que os dedos dos pés apanhassem ar sobre o cimento aquecido pelo sol. Manhã cedo tinha ido ver os fios esturricados e a tomada feita em bocados do seu apartamento. Entregara-se a uma pequena raiva momentânea contra os seus desmiolados amigos e lamentara por momentos o abuso de confiança.

«Se ainda pagassem renda, teria a consolação de receber algum», pensou. «Os meus amigos vão ter que me ficar a dever dinheiro. Agora vou ser eu a pagar os prejuízos.»

Pipocas, porém, sabia que devia castigar um pouco os seus amigos, ou estes considerá-lo-iam lorpa. Por isso, enquanto estava sentado com os pés ao sol no quintal, afastado as moscas com as mãos que eram mais avisos de que ameaças, meditou no que havia de dizer aos amigos antes de os aceitar no apartamento. Tinha de lhes fazer ver que não era homem que se deixasse abater. Desejava ser sempre aquele Pipocas de quem toda a terra gostava, aquele Pipocas que as pessoas procuravam quando tinham uma aflição de urgência ou um problema de maior. Como dono de uma herança e dono de duas casas, tinha sido considerado rico e ganhara inúmeras coisas boas. Catanada, Pascácio e Very nice dormiram cada um em suas casas. Tinha sido um dia cheio de acontecimentos excitantes e estavam exaustos. Mas o quente sol da parte da manhã acabou por brilhar-lhes no rosto e obrigá-los a sair da cama. Encontraram-se; sentaram-se; e, então, perguntou Pascácio, lamentoso.

— Como se deu o curto-circuito?

Ninguém sabia.

— Talvez — disse Very nice —, fosse melhor deixarmos de nos ver por uns tempos.

Catanada tirou as fotografias da algibeira e passou os dedos sobre as imagens desnudadas coloridas. Depois, ergueu-as contra a claridade e olhou através delas.

— Isso só trazia problemas para nós — concluiu. — Penso que o melhor era irmos ter com o Pipocas e confessar o nosso descuido, como os filhos fazem com os pais. Assim, ele não pode censurar coisa alguma sem sentir dó. E, além disso, não temos nós aqui um presente para ele?

Os amigos aprovaram com um gesto de cabeça. Os olhos de Catanada vaguearam novamente pelas fotos, franzindo o nariz um pouco, como o de um coelho. Sorriu, absorvido em calma quimera.

— Vou dar uma curva, amigos. Daqui a pouco encontro-me com vocês no quiosque. Não tragam más notícias se puderem deixar de ouvi-las.

Pascácio e Very nice fitaram-se tristemente enquanto Catanada se afastava, pelo meio das pessoas, direito ao quiosque. Por volta das catorze e trinta os três companheiros caminhavam lentamente em direcção a casa de Pipocas. A saca ia preenchida com ofertas de reconciliação: caixas de cigarrilhas, pastilhas elásticas, garrafa de uísque e uma revista da Playboy. Pipocas vi-os chegar, levantou-se e tentou lembrar-se daquilo que tinha a dizer-lhes. De olhos em baixos, os três perfilharam-se em frente dele.

— Javardolas, fodilhões das gajas das ratas peludas, marados! — chamou-lhes.

E mais não lhes chamou, porque de imediato, Catanada tirou da saca e exibiu as pastilhas elásticas. Pipocas disse que já não tinha confiança nos amigos, que a sua amizade tinha sido lesada. Depois a conversa tornou-se um pouco difícil, pois Pascácio tinha aberto a garrafa de uísque e deu-lha a estrear. Catanada sacou das fotografias enroladas no papel com o número do telefone delas e, indiferente, deixou-as ficar viradas de pernas pró ar, no cimento. Pipocas então esqueceu-se de tudo. Sentou-se no quintal, os amigos também e tiraram tudo de dentro da saca. Beberam e fumaram até se satisfazerem. Uma hora mais ou menos tinha passado, confortavelmente recostados, e a gozar as delícias do sol airoso, quando Pipocas perguntou por acaso, como se tratasse de qualquer coisa remota.

— Como é que se deu o início ao curto-circuito?
— Desconhece-se — explicou Catanada. — Fomos malhar e logo aconteceu. Talvez a corrente eléctrica não queira nada connosco.
— Talvez — repetiu Pascácio numa voz de menino do coro, — talvez haja nisto o espírito de Satanás.
— Pode alguém saber o que leva Satanás a fazer isto? — acrescentou Very nice.

Quando Catanada lhe entregou as fotografias e explicou que elas o queriam conhecer, Pipocas ficou reservado. Olhou um tanto indiferente para as fotos. Os seus amigos, pensou, estavam a tentar adormecê-lo.

— Vocês não pensem que eu nasci ontem — disse, por fim. — Muitas vezes ficamos presos a uma amizade pelos copos de uísque que lhe oferecemos.

Não podia mostrar aos seus amigos o gozo que se instalara dentro de si desde que ficara a saber do curto-circuito no seu apartamento nem podia, por delicadeza para com o vizinho que o informara, descrever como esse gozo o agradava.

— Vou pôr estas fotografias arrumadas para aí. Pode ser que algum dia me lembre delas.

Quando a tarde começou a escurecer, Pipocas meteu-os no seu carro e rumou para o Porto, para o seu apartamento. Mas muito antes, tinha dado ordens ao electricista para tratar da ligação eléctrica. Pipocas, como prova do seu perdão, foi buscar uma garrafa de gim e ofereceu aos seus amigos. Habituaram-se facilmente à nova bebida.

— Quando é que nos levas a conhecer os novos pitos da Senhora do Porto? — perguntou Catanada.
— Na sexta-feira ela vai apresentar-me um tridente de pitinhos — disse Pipocas.

Catanada sorriu satisfeito.

— Os pitos da Senhora do Porto costumam ser tenrinhos. Eu disse-lhe uma vez que precisavam de roços jovens e não roços velhos, mas ela mandou-me bugiar.
Beberam os últimos tragos da garrafa, o que chegava e sobrava para fomentar a doçura da camaradagem.
— É bom ter amigos — disse Pipocas. — Como é triste uma pessoa não ter amigos para compartilhar o gim!
— Ou as bifanas — acrescentou Pascácio, rapidamente.

Pascácio ainda não estava completamente liberto dos remorsos, pois não tinha dúvidas de quem tinha provocado o curto-circuito do apartamento.

— Em Portugal inteiro há poucos amigos como tu, Pipocas. Poucos se gabam dessa consolação.

Antes de embalar completamente sob os piropos dos seus amigos, Pipocas lançou um repto.

— Quero as chaves do meu apartamento — ordenou. — Quero-as todas na minha mão.

Embora nenhum deles o tivesse citado, cada um dos quatro sabia que ia haver festas no apartamento de Pipocas. Catanada deu um suspiro de alívio. Passada estava a preocupação com as despesas, passada estava a responsabilidade de dever dinheiro. Já não era devedor. Em meditação, deu graças pelo curto-circuito no apartamento.

— Vamos ser mais felizes agora, Pipocas — disse. — No fim do mês quando tivermos dinheiro, vamos dar uma grande comezaina. E talvez tenhamos aqui, se as convidarmos, uns borrachos da Senhora do Porto para gozarmos à fraternidade.

Então, Very nice, numa excitação grata, fez uma ousada promessa. Era o gim quem o fazia, a noite do curto-circuito e todas os momentos picantes. Imaginou que tinha recebido grandes prendas e queria dar uma também.

— Será nossa parte e obrigação fazermos com que neste apartamento nunca ao Pipocas falte pito — disse com arrojo. — O nosso amigo nunca se há-de fartar.

Catanada e Pascácio levantaram os olhos, pasmados, mas a coisa já estava dita. Ninguém a podia desmentir. Até Very nice compreendeu, depois de a ter lançado cá para fora, semelhante afirmação. Só podiam ter esperança de que Pipocas não a lembrasse.

«Porque», disse Catanada para si próprio, «se esta promessa fosse exigida, seria pior do que as despesas. Seria um comércio.»

— A nossa palavra de honra, Pipocas! — disse.

Sentaram-se à volta da mesa, com os copos nas mãos. A amizade que havia uns pelos outros era quase intolerável. Com as costas da camisa, Pascácio limpou os queixos molhados e repetiu a afirmação de Catanada.

— Seremos mais felizes aqui — disse.

Thursday, December 15, 2011



CONTOS DE RATAZANA
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5. Episódio
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Eis como a paródia mudou o rumo dos acontecimentos e castigou severamente Catanada, Pascácio e Very nice.                           ~~~~



A tarde apresentou-se tão límpida como a idade toca o homem bom. Branco penetrou no espaço solar. As sombras da rua ficaram mais claras e frisadas pelo sol que espelhava pela rua. Os seguranças juniores que acreditam que o chinfrim aquece durante a noite alta deixaram os seus trabalhos, e os seus lugares foram preenchidos por aqueles que estavam convencidos ser na noite baixa que o chinfrim pega a sério. À uma e meia a sombra mudou e refugiou-se de mansinho para o mar, sobressaindo todo o aroma dos cheiros das comidas. Os seguranças, que nos sítios movimentados do Porto vigiavam as entradas, puseram de parte as vigílias e enrolaram conversa nas pontas. Pelas ruas da cidade, homens gordos, em cujas pupilas havia o cansaço e a moleza que tantas vezes se vêem nos olhos de outros, iam sentados em variadas marcas de automóveis a caminho da baixa, a fim de tomarem vinho e café com bagaço. Na rua estreita e funda, o barbeiro, colocou na porta do estabelecimento um letreiro que dizia «Não demoro» e foi para casa passar o resto do dia. Os toldos decoravam estáticos e tesos. Os cães, que, às dezenas, eram livres e passageiros de ruas, regozijaram pacificamente a sua bela sina.

Catanada e Pascácio, sentados, debaixo de um toldo amarelo-torrado na esplanada do café da esquina das Antas, bebiam serenamente o seu uísque e deixavam que a tarde passasse por eles, pouco a pouco, como a barba.

— É bom que a gente não dê ao Pipocas as duas amigas da vizinha — disse Catanada. — É homem que pouco freio põe no sexo.

Pascácio concordou.

— Pipocas tem um ar animalesco — disse — é gente assim que, vai-não-vai, se estoira. Olha o Caga-Milhões, olha a Faroleira.

O realismo de Catanada veio levemente ao de cima.

— Caga-Milhões caiu na banheira do seu apartamento, no Covelo — comentou num tom reprovável —, a Faroleira comeu um gajo que tinha a picha estragada. Mas — prosseguiu, amável — eu sei onde queres chegar. E há muita gente que lerpa por abusar do sexo.

Toda a cidade começou a preparar-se para o inicio da tarde. A cozinheira do restaurante cortou pequenos nabos para a sua sopa preferida. O tasqueiro das pipas ao alto, deitou água no vinho e marcou-o para o vender depois das três da tarde. Depois despejou um pouco de pimenta no bagaço que ia servir ao fim da tarde. No salão de dança Mexe o Pé, o marcador de sala abriu uma caixa de chocolates e dispô-los, envolvendo-os nuns guardanapos de papel vermelho, em pequenos piris de cerimónia. Um pequeno grupo de reformados que tinha passado um bocado da tarde dentro do jardim do Campo 24 de Agosto jogando dados com os amigos pôs-se a caminho da estação de São Bento para a chegada do comboio, vindo de Rio Tinto. Famintos, os pássaros levantaram voo dos telhados em frente das casas e lançaram-se na direcção dos quintais traseiros. Nas lojas de comércio, os proprietários levantaram as cortinas em todas as montras. A mulher gorda da máquina das pipocas, de 114 quilos de peso, levou, como todos nos dias, a sua gata de raça siamesa, e pôs-se a vender na parede exterior da Igreja dos Congregados.

Na vizinha e acolhedora Vila Nova de Gaia, os participantes da Corrida Boas Pernas reúnam-se para tomar café e bagaço e participar, ao mesmo tempo que esperavam pelo presidente da comissão. Uma senhora baixota discutia com ligeireza e cor o problema do vício da prostituição no Porto. Dizia ela que uma brigada devia visitar essas casas do vício carnal a fim de ver exactamente como, na verdade, eram penosas as condições aí existentes. O Sol dirigiu-se para o poente e ganhou uma tonalidade alaranjada. No café da esquina, debaixo do toldo, Pascácio e Catanada beberam o primeiro mata-bicho da tarde. O dono do café saiu do estabelecimento e passou ao lado sem reparar nos seus novos fregueses. Estes esperaram que ele desaparecesse a caminho do mercado; depois, entraram no estabelecimento e, com um conhecimento de causa, levaram a rapariga a acrescentar-lhes uísque. Deram-lhe uns beliscões nos braços, chamaram-lhe «Meu limãozinho», permitiram-se umas bocas levianas com a sua pessoa e, por fim, foram-se embora, deixando-a corada e um tanto despenteada.

Iniciara-se a tarde no Porto e as lojas tinham-se aberto. Nas montras havia uma claridade total. Os panfletos lançados na rua anunciaram em relevo: «Os Socos do Abana-Abana — Os Socos do Abana-Abana». Um pequeno mas endiabrado grupo de homens que acreditam que o chinfrim pega de noite montaram vigilância nas lojas principais do quarteirão. Através da rua deslizou um suave respiro que ficou a flutuar à roda das casas; o ambiente encheu-se do belo aroma que o ar larga ao ser respirado. Pascácio e Catanada voltaram para o toldo e encostaram-se na parede, mas já não estavam tão contentes como antes.

— Está calor aqui — disse Catanada, bebendo um gole de uísque para refrescar.
— Devíamos ir para o apartamento do Pipocas. Não tens aí as chaves? — retorquiu Pascácio.
— Tenho. Mas não temos uísque para beber.
— Bem — continuou Pascácio —, se encontrar ali um amigo da garrafeira, encontro-me já contigo à porta do apartamento.

E foi o que fez, passados quase quinze minutos.

Catanada esperou pacientemente, pois sabia que há coisas que mesmo os nossos amigos não podem resolver. Enquanto isso, Catanada olhava atentamente a rua na direcção que Pascácio havia tomado. A sua vigilância, porém, foi pouca. Passado um bocado, Pascácio veio ter com ele e Catanada reparou com alívio e satisfação ao ver que o amigo trazia uma garrafa embrulhada em jornal debaixo do braço. Até entrarem no apartamento, Pascácio não fez qualquer comentário acerca do seu recente desenrascanço. Depois repetiu as palavras de Pipocas:

— Uma mulher de ajuda, aquele «Meu Limãozinho».

Catanada, no escuro, fez um sinal de concordância ao abanar a cabeça, ao mesmo tempo, que exprimia uma calma sabedoria:

— Raramente se consegue tudo no mesmo café: uísque, comida e amor. Qualquer dia temos de lhe oferecer um presente.

Catanada abriu as janelas para trás. Em breve o ar estabilizava airosamente. Os dois amigos puxaram as cadeiras para o meio da sala e seguraram nas tigelas perto das janelas para relaxaram melhor o ambiente. Nessa tarde a ânsia era enorme, pois Pascácio havia comprado um vibrador para fazer uma pequena brincadeira. Alguma coisa, porém, distraíra o seu pensamento antes de esse camuflado plano ter sido levado avante. Agora o pequeno embrulho jazia, amarfanhado no bolso das calças.

— Dava uma moeda de dez escudos para saber por onde é que Very nice anda — disse Catanada.
— Já passou um bom bocado desde que disse que voltava — disse Pascácio. — Não sei se é homem para se fiar nele, ou não?
— Talvez tenha acontecido alguma coisa que o levasse a perder-se. Very nice, com aquela lábia de locutor e aquele seu coração de galo, anda quase sempre em sarrabulhadas por causa das mulheres.
— Ele tem é cantos de cigarras — respondeu Pascácio. — Nunca leva as coisas a sério.

Não esperaram por muito tempo. Mal tinham emborcado a segunda tigela com uísque quando Very nice chegou meio a cambalear e abraçado em três raparigas de aspecto patusqueiras. A camisa estava aberta e o nariz cheio de ranho. Entrando, a claridade de fora revelou uns olhos pesqueiros que apregoavam estar bem tocado. Pascácio e Catanada precipitaram-se para eles.

— O nosso amigo está bonito!
— Mas trás com ele um comboio, Catanada!

Não havia nestas palavras o mais ligeiro sentido sarcástico, mas, Very nice reconheceu nelas o mais destruidor género de sarcasmo. Encarou-os fixamente com os olhos pesqueiros que em tais circunstâncias ainda tinha algum querer,

— Vós sois uns grandessíssimos bois! — exclamou.

Ambos recuaram estupefactos perante a grosseria da afirmação. Das palavras aos actos, uma das raparigas agarrou-se a Castanada e a outra ficou-se pelo Pascácio. Subiram para o quarto grande tão depressa quanto possível. Very nice dirigiu-se para o quarto de banho e levou os amigos atrás dele.

— São estas as amigas da vizinha? — perguntou Catanada.
— Sim — disse Very nice —, desta vez vieram mais tarde.
— Devem ter uma boa pedalada — comentou Pascácio, a fim de elogiar as conquistas do amigo. — A gente sabe que em engates és um homem habilidoso.

Very nice pareceu ter ganho um novo fôlego.

— São da aldeia — disse. — A vizinha também ajudou. Deu-me uma garrafa de uísque para trazer.
— Essas varredoras das limpezas que não vão por dinheiro são traidoras, amigo — interveio Pascácio. — Sempre lhes destes aquela coisa que põe a cabeça à roda?

Very nice meteu a mão no bolso e tirou um amarrotado papel enrolado numas fotos.

— Não tinha chegado o momento — disse. — Estava no preparo; além do mais, ainda não tínhamos entrado na paródia.

Catanada fungou e tirou as fotografias da mão de Very nice e, passando os olhos por elas, pôs-se a pensar. Passado um instante os olhos brilharam-lhe de intensidade.

— Já sei! — exclamou. — Vamos dar isto ao Pipocas para ele lhes telefonar.

Logo aplaudiram a ideia e voltaram para o quarto grande, onde as raparigas aguardavam impacientemente por eles. A porta é fechada. Há pensamentos ao redor, de ambos os lados, tirando as suas roupas, ao estilo português, como se fossem puros casais. A pouco a pouco, como Catanada gostava, o cenário ia ganhando forma. Dava força de um programa gozá-lo calmamente. Uma boa paródia reside nas brincadeiras meio contadas que devem ser preenchidas pela própria experiência do leitor. Catanada tirou o soutien do peito da rapariga e, passando os dedos pelos peitos dela, pôs-se a massajá-los. Passado um bocado os olhos brilharam-lhe alegremente.

— Que mimosos! — exclamou. — Se o Pipocas visse isto, caía da cama abaixo!

Todos, sem excepção, apalparam-se uns aos outros. Pascácio, com uma dedicada atenção de barman, botou uma porção de uísque nas três tigelas para ser dividido por seis. Instantes depois, os três homens começaram às piadas. Catanada contou uma história super brincalhona a respeito de um caso que acontecera ao tio. A satisfação começou a reinar; cantaram. Very nice levantou os pés numa imitação de número para provar que não estava com a moca toda que não fizesse um, oito. Dentro da garrafa, o uísque ia desaparecendo cada vez mais. Mas antes de se acabar os três amigos começaram a ficar com excitação. Pascácio sacou a vizinha e dirigiram-se para a cama do quarto pequeno, meios grossos. Very nice esticou-se confortavelmente na cama redonda, ao lado do par Catanada e de uma rapariga.

O amor acendeu-se. As camas encheram-se dos ruídos profundos que os casais faziam a fazer amor. Na cama do quarto pequeno apenas uma coisa fazia um ruído estranho. O comprido vibrador, de cabeça arredondada como pénis, que a pilha controla, entrava e saía no ânus da vizinha com alguma rapidez. A pouco e pouco a pilha foi ficando mais gasta. Pascácio, cuja gulosa acção era responsável pelo divertimento, gozava ainda mais satisfatoriamente do que os seus companheiros. Mas, uma vez que não há força na pilha, Pascácio colocou um simples cabo eléctrico à tomada da parede. Tal acto gerou um aumento de corrente eléctrica que perpassou através da tomada da parede. O curto-circuito lambeu a corrente e correu direito ao disjuntor que deu um rebentamento. O apartamento encheu-se com a gritaria deles. Very nice assustado, virou-se e, sem se lembrar onde se encontrava, caiu da cama e, começou a vestir as calças. Então, a rapariga em saltos, caiu-lhe em cima. Levantou-se com um berro e ficou perplexo perante o nervosismo que à sua volta se apoderara.

— Catanada! Pascácio! — gritou.

Correu para o outro quarto, abriu a porta de empurrão e ficou boquiaberto a olhar a cena. A vizinha tinha desmaiado e tinha ainda o vibrador preso ao ânus. Ficaram em frente dela, olhando para o interior através da porta aberta. No fundo da parede podiam ver o negro da tomada estilhaçada com os fios todos aos desencontros. Catanada em calafrios, virou-se para Very nice.
— Não mexas nisso? — gritou. — Deve ficar assim até o electricista vir compor a tomada.

O barulho das cortinas e a exclamação das bocas dos moradores que, vindos dos prédios vizinhos, subiam até cima, ainda lhes permaneciam nos ouvidos. As grandes varandas encheram-se e os olhos dos seus moradores dançaram de perguntas. Catanada virou-se apressado para Very nice.
— Vai à rua telefonar ao Pipocas que a vizinha está desmaiada no apartamento. Corre depressa, Very nice.
— Porque é que não vais tu?
— Ouve — responde Catanada. — Pipocas não sabe que é a ti que vai pedir responsabilidades. Foste tu que trouxestes as raparigas, não fomos nós.

Very nice entendeu esta lógica e foi à procura de uma cabine telefónica. Ligou um número.

— Pipocas! — gritou. — Pipocas, a vizinha desmaiou no teu apartamento.

Não obteve resposta.

— Tás-me a ouvir? — gritou de novo. —

Na casa da Senhora do Porto, ouviu-se vozes de raparigas. Pipocas pareceu irritado.

— Que diabo estás tu para aí a dizer?
— No teu apartamento, aquele onde o Catanada teve a prostituta, está lá uma rapariga desmaiada.

Durante uns segundos Pipocas não disse uma palavra. Depois perguntou:

— Está lá a polícia?
— Está a chegar! — gritou Very nice.

A rua estava já tão serena. Ouvia-se o correr das cortinas a baixar.

— Bom — disse Pipocas —, se a polícia fizer alguma coisa, o que eu quero que vós fazeis, é não me meter ao barulho?

Very nice ouviu o auscultador cair com um estrondo; voltou-se e dirigiu-se para o apartamento. Era uma ocasião má para chamar o Pipocas, sabia-o de antemão, mas se não fosse assim, como é que se lhe podia dizer? Se Pipocas não tivesse sabido do desmaio podia ter ficado danado. Very nice sentia-se aliviado por, de qualquer modo, tê-lo informado. Agora a responsabilidade era dos outros. O prédio era pequeno, havia muita gente que trabalhava de dia e às tardes estavam praticamente ausentes. Talvez houvesse gente que não tivesse ouvido os gritos dum curto-circuito tão rápido e tão mordaz. Os polícias deram uma vista de olhos pelo local e depois deram à socapa. Em menos de quinze minutos o carro tinha desaparecido completamente. Só então as raparigas se retiraram para as suas casas e tentar esquecer aquele episódio burlesco. Catanada, Pascácio e Very nice, mãos com mãos, observavam a rua. Metade dos moradores da zona e alguma gente das Antas, excepto Pipocas e a Senhora do Porto, andaram por ali curiosos a saber do curto-circuito. Por fim, quando o descomposto estava composto, quando da tomada eléctrica apenas se topava um montão de fios destorcidos, Catanada afastou-se silenciosamente.

— Aonde vais? — perguntou Pascácio.
— Para casa, dormir. Será bom que também o faças. Durante um certo tempo, temos de evitar que Pipocas nos veja.

Calados e silenciosos, os outros concordaram e seguiram-no.

— É uma lição para todos nós — disse Catanada. — Assim aprendemos a nunca deixar o quadro eléctrico ligado para estas paródias dentro de casa.
— Para a próxima — retorquiu Pascácio, abatido — comemo-las lá no monte e pronto.