Thursday, August 11, 2011



CONTOS DE RATAZANA
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A RARA PINTURA
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Nesse tempo Glória Isabel ainda se não demarcara de Vilar de Andorinha e das tranquilas, vistosas casas do lugar de Lijó — mas a nova dos seus hobbies chegara já até Avintes, vila volumosa, de muros altos, entre campos e arvoredos, no concelho de Vila Nova de Gaia.

Uma manhã uma mulher de olhos cadentes e mal-amados passou no fresco lugar, e fez-se ouvir que uma nova artista, uma pintora simpática, percorria as ruas e aldeias de Vilar de Andorinha, declarando a chegada da Boa Sorte, pintando todas as coisas boas da vida.

E enquanto descarregava as telas do carro, próximo à beira do Rio da Fonte, contou ainda que essa pintora, no largo de Oliveira do Douro, pintara o rosto dum lavrador, só com escorregar sobre ele a lata de tinta das suas mãos; e que noutro dia, atravessando numa embarcação pequena para a zona da Afurada, onde começava a pesca da enguia, escorraçara o cão que ferrara a filha do pescador, homem amável e instruído que comprava o seu quadro do cavalo imponente de dentes cerrados.

E como se isso não bastasse, maravilhados, serralheiros, doutores, mulheres de ancinho, e os trolhas morenos com a trincha na caiadela, lhe perguntassem se essa era, em boa verdade, a Picasso de Vilar de Andorinha, e se nas telas dela havia o rosto de Mona Lisa, e se outros como os girassóis de Van Gogh, os escuros de Velásquez e de Degas — a mulher, sem mesmo pintar daquela tinta tão pura de que pintara Renoir, apanhou as telas, sacudiu o pó, e meteu-as no carro, logo sumindo entre a espessura dos arbustos ao alto.

Mas uma atracção, deliciosa como o fadista nos tempos em que canta o fado, avivou as gentes simples: logo, por toda a parte que verdeja até ao bairro de Vila d´Este.

Ora então vivia nas Devesas um velho, por apelido Estrela, sem família, que dormitava nas matas do Monte da Virgem, homem de fartos caminhos e de fartas barbas — e com a alma tão vazia de nada como os seus bolsos cheios de cotão.

Mas uma aragem amena e aconchegada, essa aragem de satisfação que ao cuidado da Sorte sopra dos gastos paralelepípedos de Coimbrões, mandara um desconhecido atirar as notas mais gordas dos seus bolsos, e só se detiveram nos degraus onde as pernas do velho se enroscavam ao chão. E Estrela, agachado à soleira da porta da igreja, com a mão estendida à procura dos fiéis, palpava o saco e olhava as notas, cantava a alegria, soltava elogios a favor da Sorte bendita.

O velho pedinte já ouvira falar dessa nova artista de pintura de Vilar de Andorinha que aproximava as pessoas, sensibilizava os cépticos, emendava todas as más sortes — Estrela, homem analfabeto, que viajara por toda a Gaia, logo pensou que Glória seria mais uma dessas habilidosas, tão habituais no Porto, como Lebrac, ou Conde do Pincel, ou Albertino «o futebolista». Esses, mesmos nas noites confusas, murmuram para as estrelas, para eles sempre brancas e fáceis nos seus enquadramentos; com um pincel atraem de sobre as nuvens os trovões gerados nas tempestades de Portugal.

Glória de Vilar de Andorinha, ainda nova, com artes mais vistosas decerto, se ele a acompanhasse e a seguisse, recolheria mais sacas de notas, cresceria os seus proveitos. Então Estrela começou a seguir os seus passos por toda a vila de Gaia a pintora nova, sem que ela se apercebesse, e apertou os cordões das botas já rotas das longas passadas — largou pela estrada das praias que, rodeando a costa, se estende até Lavadores.

Uma manhã avistou sobre o poente, branco como uma mármore muito baça, as areias finas da praia da Madalena. Depois, na secura duma tarde ventosa, a praia de Salgueiros resplandeceu diante dos seus olhos, transparente, praticamente deserta, mais azul que o céu, de rochas de tamanho grandes e pequenas, e de poucas casas por entre os pinhais, sob o uivo dos cães.

Um homem que tirara preguiçosamente a sua cana de pesca duma motorizada, atada num poste, escutou sorrindo, o velho pedinte.

— A pintora de Vilar de Andorinha? Oh! Desde a semana da Páscoa, a pintora passara, com as suas pinturas, para os lados para onde o rio Douro encosta as águas.

O pedinte, andou, seguiu pelas margens do mar, até adianta dum alto, onde se via num ermo, o imóvel duma antiga fábrica de bacalhau, que descansa em completo abandono. Pela beira da água, repousava um velho carro, que era dum corpulento homem, de aparência dum errante, todo vestido de roupas grossas, deitava lentamente pedras para a água, com um livro agarrado à mão. O pedinte humildemente saudou-o, porque o pobre gosta daqueles homens de corpo tão atlético e alto, e sisudo como as suas vestes uma vez por ano lavadas em enxurradas abundantes. O corpulento homem murmurou que a pintora atravessara o hotel Casa Branca, depois se adiantara para baixo…— Mas onde, baixo? — Levando um dedo ao ar, o corpulento homem mostrou as praias de baixo-Lavadores, o areal de Cabedelo.

Na taberna de cor branca, que ladeia o caminho, paravam lá uns indivíduos à procura dumas especialidades de peixes e dumas boas canecas de vinho, contaram ao Estrela que em General Torres, pela lua cheia, uma pintora fabulosa, maior que Miguel Ângelo ou Malhoa, vendera três cus virgens a um picheleiro, e que, com a sua pintura, um sem-abrigo apanhado a palmar pelo agente Cáta-Nada lhe oferecera a sua pintura e recolhera ao seu porto de abrigo.

Mas Glória, nessa tarde, pintava ao lado de um horto, apreciada por uma plateia que mirava e cochichava em sintonia, e em baixo tom, e arrumara as suas trouxas, e no carro rumara em direcção Norte.

Um dia, já com a exposição aberta ao público, pintando já uma jovem manequim, olharam um fuinha sombrio, que se detivera a olhar para o Cristo, sentado na sua cadeira de rodas. Com devota paixão, acabou por adormecer com a cabeça encostada ao Cristo. E grandes foram os seus roncos, sentado na sua cadeira, uivando: «Rru!Rru!», e sem intervalos. O público advertiu para o calar. Um viajante encostou-se à cadeira e deu-lhe um encontrão, ao mesmo tempo, que a peruca do fuinha se soltou, encolheu, e ficou colada ao Cristo — e a sua cólera ecoou como um tambor furioso:

— Oh, ladrões danados! Oh, bandidos! A minha peruca? Onde esconderam a minha peruca? Se eu tivesse a força do Sansão, reduzia-vos a pó e à marreta…

Por essa altura, um professor biológico, de nacionalidade espanhola, Jonas Galego, professava aulas numa escola de Mafamude, próxima de uma estação de televisão. Galego, homem macio, veterano na matéria, aparecera durante o período de férias a dar aulas a algumas alunas, possuía multiplicas funções, e gozava, como favor das suas borlas, a amizade de Flora, filha única, dum sapateiro.

Mas um problema roía o seu plano muito cauteloso, como um mágico rói um cordel muito firme. A filha do sapateiro, era para ele mais desejada que comer ou beber, alinhava com um bem prendado e querido, falara mesmo ao sentir o amasso que ele se aproveitara nas descidas e subidas da sala.

Branca e tímida como a lua num parque ao ar livre, sem um dizer, sorrindo docemente ao seu professor, alinhava, sentada na cadeira da escola, sob uma transparência, alongando curiosamente os negros olhos risonhos pelo azul do quadro de Goya, por onde ela reparara no Museu Teixeira Lopes, numa galeria exposta.

Perto de si, por vezes, um tocador de flauta nos horários nocturnos, entre as cadeiras do meio, riscava vagarosamente numa folha branca, e desenhara uma camareira de bar, olhando de forma melancólica uma taça de bebida, ao lado dum cromo abstracto, num bar. A filha do sapateiro seguia um momento a camareira meditabundo até o tocador de flauta parar de pintar — depois, mais seriamente, com um suspiro, e mais calma, recomeçava a olhar para o Goya.

Então Galego, ouvindo contar, a vendedores de Santo Ovídio, desta pintora excelente, tão grandiosa sobre os acasos, que virava as sortes tenebrosas da alma, pediu a dois alunos para que a procurassem por Vilar de Andorinha, e outras freguesias.

Os alunos enfiaram pela estrada e correram todos os caminhos até à baixa Vilar de Andorinha — e, da pintora, só encontraram o rasto brilhante nos corações. À entrada da ponte ferroviária do Arco do Prado, dois vendedores de farináceos que vinham do Candal com um carregamento de aves, e a quem nunca esqueceram a pintora Glória, pagaram uma bagatela por duas telas de galos de Barcelos para os seus viveiros de pitos, e viram as suas galinhas porem mais ovos que nunca. E da beira do cemitério, as velhas sacudiam como balões as flores, e arremessavam sobre os mortos as Boas Sortes, evocando o bem-estar de Abraião, o Mata-Porcos, da Estação.

Assim, devagar, com a cabeça à roda, como numa partida de ténis, demandaram até ao largo da Lavandeira: não encontraram Glória: e retorceram ao direito da estrada, batendo com os pedantes no asfalto quente.

Uma noite, perto de Canidelo, caminhando numa secundária, avistaram sobre um monte um verde-claro dum pinhal de eucaliptos, os restos duma estrutura duma garagem, onde albergava um grupo de insurrectos, malcheirosos, e drogados. Um rapaz, de compridos cabelos castanhos, vestido com um casaco sem mangas, fazendo um charro de folhas de loureiro e papel cartão, esfregava calmamente as mãos, sobre um resineiro. Em baixo, agitando uma bandeira de cruzes, alguns bradaram à Boa Sorte. Conhecia ele uma nova pintora que surgira em Vilar de Andorinha, e tão ocasional em casos que suscitava os infelizes e pintava o vulgar em invulgar? Calmamente, abrindo os braços, o calmo rapaz exclamou por sobre o verde do campo:

— Oh, vocês! Ainda acreditam que em Vilar de Andorinha ou Alentejo apareçam artistas invertendo sortes? Como podem acreditar em semelhantes baboseiras?... Artistas e Artes são vendedores ambulantes, que pintam a manta à sua cor, para arrebatar os patacos dos mais simples… Acreditem, não há artistas, não há sortes… Só o Invisível conhece o saber das coisas!

E grande foi o pesadelo do sapateiro, porque sua filha era desflorada, sem uma queixa, olhando o quadro (fotocópia) de Goya — e contudo a fama de Glória, criadora dos incríveis acasos, crescia, sempre mais consistente e firme, como a aragem do dia que sopra do alto do Mosteiro da Serra do Pilar.

Então, os drogados enfiaram a boca no charro, embutiram para dentro os fumos de loureiro — e os seus olhos, de noite, brilhavam no topo da garagem, por entre a fumaça ondeante das puxadas seguidas. Assim puseram o corpo em relaxe e, ficaram à espera da chegada do Sol.

Ora ente Olival e Sandim, numa casota desgarrada, sumida num canto duma colina, vivia a esse tempo uma prostituta, mais desventurada mulher que todas as mulheres de Portugal. O seu amante, todo corcovado, passara a maior parte da sua vida a ver obra feita, onde estacionara, dezassete anos vividos, chulando e comendo. Também a ela o vício a pegara dentro do ofício nunca mudado, mais magra e semítica, que um esqueleto arrancado. Até no lugar do cão não se ouvia há muito os seus latidos. E, sobre ambos, densamente a podridão cresceu, como a ferrugem sobre as sucatas deixadas num lugar despovoado. Tão fora de mão do povoado, nunca o correio ou o polícia entrava o portal feito de latões.

Um dia um rico entrou na casota, ofereceu um churrasco, aos dois infelizes, e um momento de pé na frente da cozinha, sacudindo as moscas da cara, espreitou por cima do sofá se o que estava a ver era uma pintura a sério. Os infelizes comiam, com bocas famintas. E essa bonita pintura, tem boa qualidade, onde a apanharam? A prostituta suspirou. Oh, essa bonita pintura! Quantos a desejavam! Depois, chupando uma parte do frango, contou dessa grande protagonista das sortes, essa pintora que aparecera em Vilar de Andorinha, e de um quadro fazia casos, e pintava para todas as classes, e corria todos os cantos. A sua fama andava por toda a vila de Gaia, como o vento que até por qualquer velho guarda-chuva se sente e se espalha; mas para obter uma graça das suas artes, só aqueles ditosos que a sua vontade escolhia.

E então o chulo, num murmúrio mais forte que o troar de uma gaita, disse à mulher que vendesse a pintura ao rico, tão endinheirado, que não largara os seus olhos daquela pintura. A mulher apertou a cara enrugada:

— Oh, homem! E como queres que venda a pintura, e depois perca a sorte, da pintora de Vilar de Andorinha? Ela tem-nos dado sorte! Como queres que venda a pintura? Glória não volta a pintar outra pintura como esta. E mesmo que quisesse, não seria tão igual, nem tão perfeita como esta.

O chulo, com duas boas goladas pela goela sequiosa, murmurou:

— Oh, mulher! Glória não precisa de saber nada. E nós ainda não gozámos tudo, e com um fardo tão pesado, já é hora, não é? E podíamos ter uma abundância maior que a casa do Presidente da Câmara.

E a mulher, em gargalhadas:

— Oh, meu homem, como me fazes rir? Longas são as minhas horas, e curto o dinheiro dos clientes. Tão pouco, tão afanado, tão triste, até as forças me estão a abandonar. Ninguém saberia de nós, é verdade, e logo arranjaríamos uma morada nova. Oh, homem! Talvez tenhas razão… Nem sempre a sorte nos bate à porta. O senhor quer a pintura, o senhor a leve.

O rico, tão rico, pegara a sua carteira recheada de notas de cinco mil, e passou para a mão da prostituta, que por sua vez, lhe passou para as mãos, a pintura de Glória.

O céu escurecia. O rico apanhou o seu carro, desceu pela estreita colina, entre o pinhal e a estrada. A prostituta retocou o seu traje, a prostituta mais tesa, mais corada. O amante seguiu atrás dela até à estrada que conduzia à vila.

De entre uma curva traiçoeira, surgiu um camião desenfreado sobre eles, que os deixou esticados na poeira, erguendo as mãos que tremiam, o chulo desabafou:

— Mulher, vamos ficar aqui…

E logo, aparecendo devagar entre as nuvens e sorrindo, a Sorte disse a ambos:

— Aqui estou.

Thursday, July 21, 2011




CONTOS DE RATAZANA
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JACINTO COSTA
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Quente manhã, meu caro!... Estou aguardando a chegada do caixão do Costa — do Jacinto Costa, dono das casas Paganini, Pérola Negra, Bagdad, entre outras coisas… O amigo claro que o conheceu — um homem risonho, vivo como um rato, com uma conversa cheia de fintas emitida de uma boca faladora, de olhar atento, duma simplicidade provinciana e simples. E muito curioso, muito dado às ideias comuns, tão penetrante que entendeu o meu «Estilo da Ética Boémia!» Esta imagem do Jacinto Costa data de l980: porque da última vez que o vi, numa noite amena de Junho, metido num BMW na Rua da Constituição, transpirava dentro duma camiseta cor de milho, cortada nos cotovelos, e cheirava seguramente a nova.

Mas o amigo, numa altura que o Jacinto Costa recolhendo ao Porto, parou no cabaré Tamariz, na Invicta, falou com ele, no reservado dos boss! Até a Rainha do Cartaz, que preparava o número «Salta na Cueca», para animar mais a plateia entre os clientes e os empresários, recitou aquele seu poema, de tão bom idealismo: «Nas garras do meu coração, o desejo…» E ainda recordo o Jacinto Costa, com um refinado blusão de cabedal preto, por cima da camisa de seda branca, sem largar os olhos dos seios das bailarinas, sorrindo, descaradamente àquele desejo que gemia nas suas garras… Era uma noite de Setembro, de lua minguante. Conversámos depois em grupo, com amigos, pelo meio, e pelo escuro. O José Manuel cantou melancolicamente uma cantiga amorosa da nossa época:

Ontem de noitinha, à beira da ria,
Contemplavas, silenciosa,
A corrente fogosa
Que as tuas mãos arrefecia…

E o Jacinto Costa, debruçado na cadeira da ponta, com o espírito e os olhos perdidos na luz! — Porque não acompanha o amigo este homem atractivo ao Cemitério do Prado do Repouso. Eu tenho um roadster, de capota e de cor preta, como atrai a um empresário da Noite… Não quer! Por causa do vento! O´amigo! De todas as vantagens na viaje, nenhuma mais atraente do que a cabeça descoberta. E o homem que vai a enterrar era um grande desportista! Vem o caixão a entrar no velório… Trá-lo uma carruagem para o acompanhar. Mas realmente, amigo, está um ambiente fúnebre. O indivíduo de óculos de sol à Abrunhosa, dentro do coupé?... Conheço bem, essa cara. É um concorrente pobre, desses que aparecem nos funerais, com a missão de espalhar boatos, agora que o defunto já não se incomoda, nem se compromete. O homem baixo e gordo de cabelo louro, dentro do velório, é o Mateus «Pipo», que tem um tasco e que se chama o Refresco. Que relação o unia ao Costa?... Não faço ideia. Talvez se conhecessem nas mesmas capelas; talvez o Costa lhe desse ultimamente para frequentar o Refresco. Agora é o nosso roadster… Quer que suba a capota?... Mais devagar?... Eu tenho tino. Pois este Jacinto Costa foi um homem aventureiro que, tal como eu, na vida ama a noite boémia.

Na Invicta sempre o consideramos como um sujeito particularmente esperto. Para este raciocínio concorria talvez a sua grande ascensão. Nunca um fracasso brilhante na carreira! Nunca uma mancha estragada nos negócios! Nunca uma acção rebelde do temperamento ou do físico daquele sóbrio feitio que nos intrigava! Além disso, na nossa quente geração, ele foi o primeiro empresário da noite que trouxe as mininas do Brasil; que deu sem tirar ou pôr os Alojamentos; que permaneceu insensível ante a presença da Pê-Jota! E contudo, nesse Jacinto Costa, nenhuma dureza ou inveja ou grosseria. Antes pelo contrário! Um bom parceiro, sempre prestável, e mansamente contente. Toda a sua inabalável pujança parecia provir duma grande força interior. E, nesse tempo, não foi por maldade e ofensa que eu alcunhei aquele moço tão popular, tão risonho e tão mexido, de «Costa Paga Pouco». Quando namorou uma dedicada e bonita rapariga de quem decerto lhe trauteou, como todos nós trauteamos, aqueles versos sabidos, mas sempre bem recebidos:

Era no Verão, quando à luz do arco-íris
A imagem tua…


Pois, como nesse verso, o bom Jacinto Costa, ao regressar da terra de Celorico de Bastos em Novembro, no Inverno, avistou Elisa, um dia no campo, à luz do arco-íris! O Costa nunca tinha olhado uma preciosidade daquele tipo, cheia de encanto e beleza. Baixa, graciosa, simpática, digna da comparação monarquia da Princesa do Povo. Cabelos negros, compridos, e ricos em ondulados caracóis. Uma cor de pele muito macia. Olhos negros, penetrantes, alegres, de longas pestanas… Assim que casaram, partiram para o Porto, tentar a sorte dum sonho que os acorrentava. O amigo sem dúvida que a viu, pelo menos uma vez, essa bonita estampa de simpatia que se chama Elisa, a Elisa do Costa… Foi a bela meiguice romântica do Porto, nos começos dos anos oitenta. Mas realmente o Porto apenas a via pelas viagens constantes das suas idas a Espanha, ou nalguma ida aos copos de que o Costa era um frequentador viciado. Com ar caseiro de provinciana, a super Elisa, ainda conservava os velhos hábitos sobejamente apreciados, por aquela burguesia mundana que nesses tempos, no Porto, se mostravam galanteadores. Mas quem os viu, e com facilidade constante, quase empolgante, logo que criaram bases no Porto, foi o Jacinto Costa — porque, tomando conta de uma casa de alugar quartos no centro da zona alta, ao pé do jardim do Marquês do Pombal, não podia a super Elisa desejar melhor sorte nos seus dividendos, do que ver a sua vida crescer, ao tornar-se dona também duma casa de várias assoalhadas, no meio da rua da Constituição e se chamava a Pensão Costa Verde.

Ó amigo, quando eu, que já então intensamente trabalhava com camareiras, depois de a conhecer numa tarde chuvosa esperando pela abertura da porta do Lord, a adorei durante treze magníficos meses e lhe rasguei os mais variados elogios! Não sei se o Costa lhe deu alguns sermões por isso. Mas todos nós, seus amigos, reconhecemos logo a forte, profunda, absoluta confiança que concebera, desde o dia de Verão, à luz do arco-íris, aquele coração, que no Porto considerávamos de «Paga Pouco!» Bem compreende que homem tão comedido e sereno não se soltou em desabafos públicos. Já no tempo, porém, de Abraias, se contava que amor e dinheiro não se separam; e do nosso fechado Jacinto Costa o amor começou logo a alargar, como o dinheiro fácil através dos casais do amor rápido duma casa de portas abertas que atrai seguramente. Bem me lembro duma tarde que o visitei, na sua nova casa, o Pub Paganini, depois de se ver livre da pensão. Era um domingo à noite. Ele fazia horas para ir jantar com Elisa, que vivia no andar que ambos tinham comprado, na Avenida de França, e onde habitualmente jantavam aos domingos quando estavam juntos. Creio até que só por isso, eu e o Jacinto Costa mantivemos, uma conversa sobre negócios e pouco mais.

As portas do pub do Costa abriam e fechavam num invariável vaivém; e quando voltava do quarto de banho ele palrava com uma das suas mininas, altamente. Nunca admirei, amigo, lábia destravada enrolada por palavreado mais bacoco e bizarro! Piscou-me o olho quando me cumprimentou e deu um sorriso, que vinha das profundezas da alma iluminada; sorria ainda maliciosamente enquanto eu lhe contei alguns das minhas desgraças nocturnas; e sorriu depois, distraído, a acender um cigarro, com o filtro às avessas, fazendo um fumeiro do caraças. E a cada instante, infalivelmente, por um hábito já tão frequente como o voltar a cabeça, os seus olhos atentos, fugazmente observadores, se voltavam para o vaivém da porta da sala… De repente que, seguindo aquele lance fortuito, logo descobri, na porta do pub do Costa, a super Elisa, vestida de ganga azul, com uma blusa branca, esperando calmamente, e espreitando também as mesas da frente, que uma fumaraça voadora de fumo ofuscava de manchas de amarelo. O Jacinto Costa no entanto conversava com o empregado, antes ordenava, através do olhar convincente, coisas ligeiras e variadas. Toda a sua atenção se concentrara diante da máquina registadora, nos talões de entrada e saída para fixar os valores, numa vista rápida ao movimento do balcão, e mandou cumprimentos a alguns deles antes de abalar. E depois de enfiar o blusão de couro, de lhe agasalhar uma boa maquia, foi com passada larga, sem olhar uma vez para trás, que abriu curtamente, fortemente, a porta!

Eu dei discretamente o pira dali também. E, amigo, acredite em mim!, admirei aquele homem a ir para o carro, veloz, firme na sua caminhada sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no carro, na branca mulher vestindo a ganga azul, e tão alheio ao mundo como se o mundo fosse apenas o assento que ela se assentava e firmava com os pés! E este encanto, amigo, durou uma década, assim brilhante, genuíno, distante e imaturo. Não se ria… Certamente se encontravam no andar da Avenida de França: Certamente que telefonavam, e isoladamente, contando as notas em cima dos lençóis que uniam os dois amorosos: mas nunca, em cima desses lençóis, procuraram o pequeno caso duma escaramuça passada ou o caso ainda mais recente duma cena escondida na sombra. E nunca trocaram um ciúme… Não duvide, amigo! Algum apertão de ossos a raspar e tímido, sob os tectos do andar da Avenida de França, foi o máximo da exaltação que a gana lhes marcou ao desejo.

O amigo não entende como é possível se manter assim duas fortes criaturas, durante uma década, em tão incrível e tédio relacionamento… Sim, certamente não lhes faltou, tempo para se coçarem, uma hora de absoluta liberdade ou uma escapadela à fronteira. Depois a super Elisa trabalhava realmente num sítio dos confins do mundo, em que noitadas e cabritadas eram o pão-nosso de cada dia, desgastante mas gratificante. Mas, na fragilidade deste amor, entrou muita baixeza moral e fraqueza sentimental. Era fácil ao Costa, que (sem nós sabermos) nascera desnorteadamente individualista; mas a boa Elisa encontrou também um gozo propositado nessa ideal vocação de vida má, que até ousa chegar, com as notas engelhadas e embrulhadas na bolsa de mão, a rica e estimada. E durante uma década, como o Zé Manel do Bar Boteco, conquistou, firme e deslumbrado, dentro do seu sonho feliz, sonho em que Elisa morou realmente dentro do seu coração, numa junção tão absoluta que se tornou substancial numa só pessoa! Mas um dia, o chão, para o Jacinto Costa, tremeu todo num terramoto de rode tamanho. Em Março ou Abril de 1989, a Elisa já repleta pelas suas aventuras e frustrações, desapareceu sem um aviso. Acreditará o amigo que ele abanou por todo, mesmo passeando sozinho a pé pelos quarteirões do Porto, logo que descobrira no andar da Avenida de França, nessa noite, que o guarda-roupa estava vazio de Elisa!... E este abandono real da sua mais-que-tudo na sua mente criou atitudes novas, no Jacinto Costa estranhas, derivando da perturbação.

Como o Paganini abria cedo, à hora do primeiro café da tarde, Costa depois de chegar, mandou comprar palmas sem dedicatórias, velas e ramos de flores dum gosto sóbrio e variado, e encheu um quarto de banho, onde as depositou, para os amigos e clientes do Paganini tomar conhecimento do luto que o abatera… E ninguém deixou então no Porto de espalhar tão dolorosa notícia, mais triste, o falecimento da mulher do Costa! Assim, logo se tornou romaria, depois da notícia, naquele delicioso e atractivo Pub Paganini, onde o prazer parecia vindo do Céu, e nunca ninguém bebia com velas acesas e o chão espalhado de flores. Porquê? Porque Elisa também ali morrera, para ele. Daí esses murmúrios banhados num sorriso religiosamente atento… Porquê? Porque a estava sempre sentindo! Ainda me lembro de ouvir contar o meu cliente amigo e comparsa nas paródias, aquele brilhante José Novais, acompanhado doutro amigo, o Arnaldo Cruz, irem visitar o Costa, ao fim da tarde, e de ele carregado de inquietação, como revoltado, arrancar do chão uma mesa e gritar com uma cara que não era satisfação, perante a plateia que o rodeava: — O que eu faço? O que eu faço? Parto pescoço ao primeiro que dizer mal de Elisa!... — E depois, exclamou ao olhar o relógio, com um assomo vermelho na face: — O quê? Já são 9 horas? Lá se vai o jantar!...

O dinheiro arrasta ao poder, sobretudo dinheiro de tão fácil trabalhismo: e o Jacinto Costa rentabilizou com sagacidade o dinheiro que ela também partilhava. Claro que não podia levar a lembrança de Elisa para onde quer que fosse, nem consentir que a vaga lembrança roçasse pelos sofás de veludo da sala do pub. Mandou, portanto, uma carruagem para os fins, e onde encarregou o serviço a um tal Juca (como era tratado), um amigo mais antigo e confidencial, que fez chegar o remesso das flores, ao cuidado de uma irmã que morava nos arredores de Sintra. Veja o amigo, como esse endiabrado gozava com esta ideia macabra? Com este acto, assim desfez, logo ali, a amizade com o amor daquela mulher a quem nunca dera um filho! Por estas mesmas alturas, numa pachorrenta conversa de bar, aproveitei a companhia dum cliente, e visitei o Costa, no Paganini, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar condolências antecipadas, mas para que, naquele acto aterrador, ele sentisse ao lado a força mobilizadora da boémia… Encontrei também com ele, o Juca, que já me serviu neste pub, onde agora vêem cá, de vez em quando, todos aqueles clientes a quem chamei traidores de sexo… O Juca chegara de Braga, da sua rotina normal, de madrugada, reclamado por um telefonema do Costa.

Quando entrei, um empregado atrapalhado limpava duas mesas em simultâneo. O Jacinto Costa abalava nessa noite para Lisboa. Já vestira outro blusão de couro, com botas de meio cano pretas: e depois de me estender a mão, enquanto o Juca remexia um gelo, continuou andando pela sala, pensativo, como alarmado, como surpreso da sua sorte bruscamente abalada. Num momento em que ele batera com a porta, murmurei ao cliente, por cima do ombro: — O Costa faz bem em se pirar daqui… — O cliente abanou a cabeça: — Sim, pensou que era mais oportuno… Eu concordei. Mas só durante o tempo do luto falso… — E zarpámos dali. E, depois desse tempo, o Costa? Ó amigo, o sagaz Costa que não parava nem quieto, aventurou-se a comprar uma fracção ao lado do Paganini, e fez dela uma pensãozita. Tão arrojado estava com a sua veia, que apenas umas semanas, tomou posse na Rua João das Regras do Pub Chaminé. Os meses de falso luto passaram, depois vieram outros, e Costa não arredou pé do Porto. Na altura viria a entusiasmar-se por uma jovem de calça justa, blusa às bolinhas, que ocupava a missão de empregada de balcão. Nesse Junho o encontrei eu sentado comodamente nas frentes do Café O Geladinho, onde entretinha a vista do dia solarengo, lendo o jornal (porque voltara ao desporto), e bebendo água gelada até que a tarde caminhava e ele se preparava, se erguia, se ia para dentro do pub.

Quer que lhe diga mais? Nesse Verão, no Café O Geladinho, sempre achei que o Costa, a cada momento da nossa conversa, mesmo embutindo gelada água, mesmo falando dos negócios que o levara à noite, amiúdes vezes gracejara com os seus ditos. Não notei no Costa, nenhum nervoso particularmente miudinho, nem uma revolta com a vida… Pelo contrário! Ao sorriso de radiante firmeza, que nesses anos o iluminara com um caminho de sucesso, por que se debatera numa encruzilhada sempre presente, fatigante e perigosa. Voltei aos eventos, amigo. O Outono passou, muito frio e muito pardacento. Eu trabalhei nos meus Concursos das Sextas-Feiras. Um domingo, dia de folga, no jardim do Marquês do Pombal, quando já se viam mesas improvisadas de reformados a jogar a sueca, avistei a sair dum BMW vermelho a especial jovem, com calça larga e botas de vaqueira. E nessa semana editei no meu pasquim Jornal Dos Traidores a notícia pequena, quase acanhada, da gravidez da especial jovem… De quem, meu amigo? — Do conhecido empresário da noite, o ilustre Jacinto Costa!... O meu amigo abriu aí os olhos, e ficou um pouco, espantado. Eu também fiz o mesmo, mas para os fechar, com a admiração daquela especial jovem, cheia de vigor ao amor! Conquistar sem pressa, serenamente, apenas entrara para o balcão, aquele astuto, rato, empresário Costa! Ah, bem ensinara o Conde do Pincel que a mulher é um monstro de vício, deitada ao centro da cama!

Pois, amigo, quando eu assim dava uso à voz, encontro uma tarde na Rua de S. Brás o amigo Zé Manel, que sai do seu Boteco, me encosta para uma mesa, agarra excitadamente na minha pequena mão, e exclama alvoraçado: — Já sabes? Foi o Costa que comprou a Candeia. Ele esteve no bar, desabafou! Ele nem conseguiu dizer quantas casas tem! Não conseguiu, não senhor! — Fiquei passado. — E então agora… — Encorajado, fortemente apoiado pelas suas mininas, ávido de poder, com aqueles bons trinta e sete anos em fúria, que raio!, investiu, comprou! — Eu ergui as pernas até à sombra da mesa: — Mas então essa ascensão do Costa? — O Zé Manel, seu concorrente e conhecedor, falou com absoluta certeza: — É o mesmo de sempre! Grandioso, único… Mas não fica por aqui! Ambos nos despedimos, e depois ambos nos separamos, trocando uma palmada, com aquele ritual habitual que fica bem aos boss da noite. Depois a especial jovem teve um bebé e continuou habitando o andar com o seu Jacinto Costa no conforto e aconchego que já gozara antes, e exercendo a sua missão laboral. Nos meados da Primavera, Costa recolheu do Porto ao Brasil, ao encontro dos seus contactos, onde tinha negócios preparados. De regresso ao Porto, Costa tomou conta da Boite Pérola Negra, onde modernizou todo o seu interior, com um design para o showbusiness, já de agenda carregada que ninguém queria faltar. Veio o Maio, como sempre no Porto ruidoso e quente. Aos domingos, Costa jantava com a jovem e o bebe, na sua nova habitação, em família.

Havia, porém, uma grande e surpreendente mudança — a do Jacinto Costa! Imagine o amigo, como esse homem vivia os seus loucos dias? Com os olhos, e os números, e o instinto, e todo o sentido cravados nos negócios, nas passagens, nas explorações a outrem! Mas agora, não era de passagens bem mais acessíveis e facilitadas… Não, amigo! O que o preocupava agora, o que lhe cavara longas mossas em curtos meses, era que não tinha um homem, um maestro, um finório, que pudesse gerir os negócios que eram seus, e que de um modo geral, ele pudesse rolar à doucemet, na super-vida inconstante e quase no limite do seu quotidiano! O amigo sorri… E então o Juca? Ó amigo! Esse era estático, e sério, e brando, e já tinha funcionado no Paganini, com a sua brandura e o seu estaticismo, quando ele conhecera o Costa e lhe dera para sempre lealdade e amizade. E os outros que lhe vieram a seguir, esses, cavaram velozmente pela porta fora, logo que Costa desatou aos raspanetes, com os grandes olhos em chispa, e os carnudos braços de manga arregaçada, e o estilo indomável dum domador de gado, e escorraçara aqueles marretas — a quem revelara talvez o que é um rato da noite! Mas, c´os diabos! Esse Juca, ele o reservara para outros afins, quando viu que ele não lhe oferecia, na arte e na manobra dum saca-o-copo ou ainda na manobra do já foste nenhuma táctica ainda avançada que o iluminasse! E agora, aqui no doce lar, ao cabo duns longos meses, com as traquinices do bebé diante dos seus olhos e as diabruras dos dois corpos unidos brincando na carpete, o amor presente, era que ele amara sublimemente uma família, e que a colocara entre os píncaros da lua para mais bela adoração, e que um puro romantismo, de ares mais frescos, arrancara dentro de si uma realidade forte da vida, que nunca suspeitou que chinelos e fraldas malcheirosas de menino são coisas de rara beleza em casa em que entre o sol e haja amor. E sabe o amigo, o que aumentou, mais excitadamente, esta força? Talvez fosse apenas o acontecimento da vinda do menino! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Costa partiu para as suas visitas de expiação na província, a assistir aos espectáculos nas casas de diversões, ele da ponta de uma terra a outra, por caminhos e travessas, falando com artistas e os agentes, sobre eventuais contratos. E quem sabe?... Talvez aqueles dois adorados artistas que viu actuar nos seus números, uma poeta para os delinquentes sedutores e um macho capão para as necessidades dos toscos.

Não creio que se comprometessem por cima dos copos e garrafas, como era a pretensão dos agentes… De resto, Costa era essencialmente oposto em consentir espectáculos de obscenidades, como fito de aumentar as receitas. Enfim, amigo, não falemos mais sobre a noite, atrás do morto que morreu por ela! E foi então que, nesse Verão, comecei a convidar e a organizar o I Convívio de Patrões e Empregados da Noite, um evento festejado no restaurante O Braseiro em Francelos. Parece que de todos os convites por mim endereçados, poucos foram rejeitados. O Costa também compareceu. Reinava no convívio o espírito de solidariedade. Ó amigo, que bonito e espectáculo foi aquilo! Electrizante, durante três horas, mexido, contagiante, reanimou o Porto! São dessa noite algumas daquelas conversas ligeiras… Conhece a da piela do vinho do Porto? Uma piela do vinho do Porto oferecida por um estrangeiro a uma camareira das mais rascas e das mais ordinárias, apanhada na escura sala da Boite Marta, no Largo da Maternidade de Júlio Dinis, que depois mandou montar no chulo, e pesadamente, alegremente, em cima dele, com um chicote, conduziu ao pé da Torre dos Clérigos, para esperar pelo bater do Sino! Por esse tempo, e por causa dum desenrascanço no serviço, contactei o carpinteiro Gomes, que me telefonara rapidamente do seu local de trabalho, na Baixa do Porto, às oito horas, numa noite seca de Outubro. O carpinteiro, enquanto me conduzia para dentro da casa, bem adornada pelas ricas mobílias e carpetes do Paquistão, confessou que aquele negócio era do Costa que ainda não acabara o serviço (negócio emperrado, duma ilegalidade)… E ainda me lembro, com uma surpresa, da impressão causada que me deu o homem do martelo! Estávamos na sala que abria sobre os dois halls. Quando lhe toquei no meu serviço, ergueu num sobressalto o olhar, todo tremido: — Ainda não jantei? — Apenas lhe sorri, num gesto amigo, para o não contrariar, que tinha tempo, que não era de necessidade maior, encheu o peito de ar, e respirou lentamente, passando a mão sobre a careca húmida: — Então, o que há de novo? — Relaxado, sem pressas, escutou o trabalho que eu pretendia dele. Por fim, com um bufo, remexeu uma garrafa de cerveja dentro do balde, encheu um copo, murmurando: — Amanhã… A esta hora!… — Bebeu um gole e caminhou uns passos bem firmes para a janela, a que abriu vagarosamente a vidraça… E ficou quieto, como tolhido pelo escuro, sossego da noite enublada. Eu deitei os olhos, amigo!

Na casa do Costa, futura Residencial Pantanal, uma porta batia, suavemente sem ruído, fechada ao suave aroma. E esse perfume vivo envolvia uma figura robusta, no vistoso conjunto de um traje colorido, chegada ao pé do logradouro, como borboleta numa constelação. Era a mínima, amigo! O Costa tinha agora uma amante brasileira… Por trás, no fundo do logradouro, os materiais das obras estavam atolados, nos cantos. Ela, imóvel, olhava, pensava talvez numa expressão usada pelo seu querido amigo que, a vida é como a roleta — tem é de se apostar certo. E entre eles rescendia, na preguiça da noite, todos as ilusões dos dois amantes… Subitamente a minina recolheu, à pressa, chamada por um simples tlintlim do telefone. E a porta logo se abriu, toda a claridade e vida, se alojaram na Residencial Pantanal.

O tempo corre! Já estamos no S. João das Fontainhas! Como estes manjericos vão arrastando depressa o grupo dos foliões para o bater do martelinho e para a noitada única! Pois, amigo, depois dessa ardente noite, o Costa inteiramente se mandou, se evaporou, sem que me chegassem novas dele, mesmo duvidosas — tanto mais que o confidente por quem as saberia, o seu brilhante Juca, partira para algures, com o seu variado itinerário de percurso, sem horas, para pesquisar a concorrência, das novidades. Todo esse ano, também, andei embrulhado na minha Festa dos Barmans. Depois, uma ocasião, no meio do Verão, descendo pela Avenida da Boavista, com as persianas (olhos) levantadas, à procura do nº 1357, onde se situava a casa nova do Jacinto Costa, quando desço eu às escadas de baixo, e lá avisto a portada do Top Bar Bagdad e dentro dum centro comercial. É belo, amigo, mais aconchegado e mais harmonioso, todo fresco e muito desejável, ainda para mais ter um horário que vai às seis horas da manhã! Mas aquele homem era da grande envergadura de Amorim que, uma mão cheia de anos depois do crescer de Cortiça, ainda deslumbrava os empresários de sucesso e os patrões sem sucesso. E, curiosa coincidência, logo nessa noite, dessa mesma portada do nº 1357 o vi eu também, o vendedor imobiliário, Cebolinha! Mau feitio, problemático, branco, de cabelo comprido, em excelentes condições para encher o bucho de uísque (e portanto ficar grosso), como diz o mandarim. Eu frequentava esse nº 1357, interessado no catálogo do bar, porque o rato do Costa possuía, pelo conhecimento largo dos seus informadores, uma colecção invejável de borrachos dos vários continentes. E passadas semanas, saindo desses borrachos uma noite (o Vigilante andava de noite) e parando à frente, para encostar o carro, enxergo à meia-luz, metido na marmelada com uma prostituta, o habitué, Cebolinha!

Mas que Cebolinha, amigo! Coitado do Cebolinha! Apanhara uma ramada, uma ramada de partir a loiça toda, impertinente, chata, rabugenta como velha esquizofrénica: apanhara uma touca, que lhe saía de dentro em foguetes iluminados de sob uma velha cana; mas todo ele, no resto, parecia irreconhecível, minguado dentro dum fato escuro de muitos vincos, e duma gravata esverdeada, de grandes riscas, onde se viam os enrugados, tão à vista, da maliciosa marmelada. Cada dois minutos, instintivamente, enfiava um uísque para a garganta — e, de olhar à Nero, recolhia na espantada miséria que me tomou, apenas balbuciei: — Você! Então que é isto? — E ele, com o seu sarcasmo indelicado, mas embriagadamente para se desimpedir, e numa voz que o uísque rompera: — Por aqui ao engate duma puta. — Não respondi, andei. Depois, ao fundo, tomei um trago que a empregada me pusera em frente, e dali olhei, o negócio! Pois, amigo, bom negócio fez o Jacinto Costa investindo naquela portada! Era um desses parques automóveis do Porto melhorado, sem horário, sempre de portas abertas, sempre arrumado, lugares de estacionamento acessíveis aos carros dos clientes do bar de dia ou de noite. Ao lado havia o Paganini. Infalivelmente, ao anoitecer, o Jacinto Costa descia a Rua da Constituição, colado às paredes, e como uma sombra, desaparecia na penumbra da porta.

A essa hora já as mesas do Paganini enchiam, de turistas e intrusos mergulhados no calor de Verão, e mulheres de amor-rápido a bater as solas duras no chão, ou fazendo olhinhos aos frequentadores. E parando ao meio, na lateral da sala, o Costa se quedava, — concentrando os olhos vivos na movimentação besta daquela casa, onde a sabia dominada pela sua mão! Sabe, amigo, Costa já descobrira que, dentro daquelas casas, a atender humildemente os seus clientes, com a alma de outrora, já não lá estava o antigo Jacinto Costa!… E acreditará o amigo que então, todas as noites, para fugir do stress do trabalho, guiava pela estrada deserta, a libertar a ideia, que o ajudaria no seu trabalho. O Costa percebera bem isso. No Outono passado, encontrei o Costa, numa meia manhã de frio, tomando café numa confeitaria da Rua de Costa Cabral, e a uma ponta, o Juca, arrepiado, desolado, coçava o cabelo e batia as mãos enluvadas, com os olhos comovidos nas embaciadas vidraças, quando o Costa, para o aquecer, dera-lhe uma palmada nos ombros, acrescentando: «Tás com frio, pá! Manda vir uma cachaça!»

Passou quase dois anos.

Enfim, amigo, ontem, o Vigilante apareceu no meu bar, depois do fecho, esbaforido: — Lá foi o Jacinto Costa, numa ambulância, para o hospital, completamente inanimado! Parece que o encontraram, acompanhado de uma minina, de madrugada, esticado no banco, todo encolhido no blusão negro, inerte, com a cara coberta da morte, voltada para as estrelas da Mealhada. Fiquei silenciado. Fui às capelas. Morrera… Perguntei ao chefe do cabaré, que o conhecia e o considerava, se sabia se ele sofrera. — Não! Teve um choque violento, depois do embate, e ficou. Era o fim da alma. O chefe não sabia mais; nem sabiam os outros; nem o saberia talvez a acompanhante, que no momento do embate, perdera os sentidos! Chegámos à igreja. Ainda bem cedo. Mas, meu Deus, olhe! Ao fundo, à espera, à porta do velório, aqueles indivíduos concentrados na conversa, de voz baixa, com olhares furtivos… São os empregados da velha guarda! E trazem uma grande coroa de flores… De todas as casas da noite, chegam amigos e companheiros para o acompanhar à última morada e cobrirem de flores o seu amigo e companheiro. Mas, ó amigo, soubemos que, certamente, poucos o sabiam, que a minina que acompanhava o Jacinto Costa nessa noite, estaria grávida dele! Grande confusão, amigo! No meio de tudo isto, comentou-se muita coisa, mas o que valeu a pena trazer à sua última morada este brilhante Jacinto Costa, que era talvez muito mais que um boss da noite…

Com efeito, está fresco… Mas que quente manhã!

Saturday, June 25, 2011







CONTOS DE RATAZANA
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O MOTORISTA DE TÁXI
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Era uma vez um motorista de táxi, sexagenário e atrevido, empregador de um carro com imensos quilómetros em cidades e vilas, que partira a trabalhar por terras distantes, deixando abandonada e triste a sua mulher e três filhos, que ainda viviam na sua casa, em Gondomar. A estrela Norte que o vira abalar, levado no seu sonho de aventura e de dinheiro, começava a ruir — quando uma das suas conquistas amorosas apareceu, com a barriga cheia, grávida do calor ardente e duma cena tórrida, trazendo a boa nova de um bem abençoado e do nascimento do rebento, alcançado por muito amor à flor da pele, à volta dos pinhais. A mulher chorou desoladamente a perda de casa do marido, que era jeitoso e alegre. Mas, sobretudo, chora ansiosamente o pai que assim deixava os filhos desconsolados, no meio de tantos problemas das suas difíceis situações e do futuro que seria incerto, sem uns braços fortes que os defendessem, e os encorajassem para a vida. Desses problemas o mais penoso era a outra, amante jovem do marido, rapariga leviana e fraca, consumida de vícios novos, desejando só a boa vida por causa do seu tesouro, e que havia meses vivia numa casa sobre os pinhais, com um desarranjo de trapos, à maneira de uma loba que, dentro do seu poiso, guarda o tesouro.

Ai! O tesouro agora era aquele bebé, dono da mama, senhor de tantos nadas, e que dormia no seu berço com o seu ursinho de plástico agarrado na mão! O menino dormia num berço de verga, filho da modesta e robusta mãe doméstica de vinte e oito anos que amamentava o seu tesouro. Tinha nascido num dia de Primavera. A mãe antes de adormecer, vinha fazer festas ao menino, que tinha o cabelo preto e fino. Os seus olhos reluziam como pedras brilhantes. Naquela terra pequena de Cete, onde o motorista de táxi alugara uma casa, ela tinha a ilusão, a realização dos seus sonhos. Nenhum idílio correra mais depressa do que o seu pelo motorista de táxi à volta dos pinhais. O motorista de táxi, seu amante, estava agora a trabalhar numa outra postura, para lá da cidade, circulando também em aldeias e vilas. O seu carro de trabalho, um Mercedes de 1981, estava ainda aí para as curvas. Os novos clientes, que fosse angariando, prontamente iriam nessas aldeolas voltar a chamá-lo e a ouvir os seus maliciosos ditos. E ela por seu lado, não desejaria mais de que ver a luz a raiar na casa do seu homem, e tomar conta do menino, e ligar a televisão nos seus programas preferidos; era as novelas como os filmes, e ficava feliz na sua servidão.

No entanto uma grande confusão reinava na casa, onde agora a despesa aumentara mais do dobro. O amante, o taxista passava de cavalo para burro viera para a aldeia com a sua experiência, e já através de alguns contactos ia vendo uma praça fraca de clientes assíduos e passageiros. Os comboios da vila tinham sido demasiados gulosos com os clientes. Nas posturas andavam menos passageiros. Um táxi não rola sem um passageiro. Toda a postura parecia um stand de carros abandonados. E a rapariga preguiçosa apenas sabia correr a cada momento ao encontro dos seus vizinhos e mostrar a eles a sua fraqueza de mãe solteira. E às vezes, parecia insegura — como se o serviço que estava debaixo da sua alçada fosse tarefas grandiosas que nenhuma coragem pode transpor.

Ora uma noite, noite de trovão e chuvisco, vindo ele a chegar do trabalho, já exausto, entre os dois houve um chispe, maior que um curto-circuito e de briga, à entrada do quarto de banho. Enraivados um com o outro, atirando cá para fora tudo o que lhes saía pela boca, a relação estourou rotundamente. Depois houve um «vê se te mexes», e cada um foi para o seu lado. Puxou violentamente os cobertores da cama. E, lá no fundo do quarto, o bebé dormia, num sonho que o fazia iluminar, toda a face entre os seus cabelos negros. Num relance, a mãe então, sem uma vacilação, tirou o tesouro do seu berço de verga — e embrulhou-o à pressa num xaile negro, entre um esgar de olhos desesperados, abalou velozmente. O taxista dormia no seu sono pesado. A cama ficara fria no silêncio e no escuro. Mas sinais de alarme de repente tremeram a sua cabeça. Pela mente trespassou o curto vibrar das pulsações. Os suores ressoavam com o bater do coração. E desgrenhado, quase nu, o taxista invadiu a casa, entre os móveis, gritando pelo seu filho. Ao avistar o berço de verga, sem roupas, vazio, caiu num choro, destroçado.

Depois mais frio, mais calmo, ele compreendeu — a casa vazia, a rapariga doida indo embora, roubar o seu menino! Então, rapidamente, correu à cadeira onde as calças estacionavam, sacou o telemóvel, como se saca uma carteira, e falando com alguém no telemóvel, o taxista partiu à descoberta de seu filho... Também ele sofria pelo seu menino! Quantas vezes, com o bebé agarrado ao colo, ele pensava na sua fragilidade, no seu longo crescimento, nos anos lentos que seriam antes que ele fosse ao menos do tamanho de chegar com os pés aos pedais, e naquela mãe imatura, de temperamento mais insosso que o lavado e coração mais insosso que o temperamento, faminta do repouso, e residente com os pais acima da sua antiga casa uns metros adiante! Pobre bebezinho de sua alma! Com uma ternura grande o imaginava entre os seus braços. O taxista lá ia, irrequieto, remexido, devorando quilómetro a quilómetro, num pensamento que o fazia sorrir, lhe molhando todo o rosto, entre os seus cabelos desalinhados. Bruscamente, se acercou da porta da casa da rapariga e recuou, como que adivinhando ir armar grande banzé. Sabia perfeitamente que ia! Então voltou para trás.

E passado momentos, a rapariga chegou a casa dos pais. Bateu à porta com um alívio, como cai um fardo de cima. Um choro abalou o chão de pedra. Era o bebé a chorar, o seu choro madrugador. Nos seus choros havia porém, mais sono que fome. O bebé então parara de chorar! Tocado, ao sentir, entre o mimo e a chupeta, embalado, pela mão forte da mãe, acordara, ele e o seu olhar maroto… — quando a mãe da rapariga, deslumbrada, com os olhos bem abertos, olhou o menino que despertara. Foi um espanto, uma alegria, quando a mãe da rapariga ergueu o menino nos braços, manifestando a sua força hilariante, abraçou apaixonadamente o neto abençoado, e o beijou, e lhe chamou netinho do seu coração… E entre aquela caloria que se soltava ali, veio uma boa, desejada alegria, com promessas de que fosse ajudada, relativamente, a filha regressada para alimentar o seu bebé. Se não como podia ela sustentar um filho? Se não tinha um emprego? Então o velho pai lembrou que ela fosse levada ao tribunal de menores, e dissesse de entre outras coisas, que era uma mãe solteira, desempregada, e que esperava receber todos os subsídios que a lei confere… A rapariga tomou o caminho do pai. E sem que o seu rosto de branca perdesse a rigidez, com um andar de defunta, como num sonho, ela foi assim apresentar-se ao tribunal de menores.

Pais solteiros, mães solteiras, familiares, rode ganapada, lá estavam entre aquela multidão que se apertava na entrada. As altas portas do tribunal abriram lentamente. E, quando um funcionário, se assumiu à porta, de face vermelha, com montes de papelada, e chamou a rapariga e o motorista de táxi, todos os demais se remeteram ao silêncio durante segundos. Um grande «Ah!» voou da boca do taxista que respondera. Depois houve uma pausa, curta. E no meio da sala, envolta na mudez preciosa, a rapariga não dizia uma… Apenas os seus olhos, reluzentes e firmes, se tinham erguido para aquele funcionário que, além dos processos em suas mãos, era portador de determinações e decisões. Era lá, nesses processos de foro conjugal que estava agora o destino do seu menino!... Então a rapariga sorriu e estendeu a mão a uma caneta. Todos seguiam, sem articular uma palavra, aquele lento movimento da sua mão a assinar o documento. Que assinatura grandiosa, que punhado de papeis, estava ela a assinar? O funcionário lia o processo — e a seguir ao ponto final parágrafo, entre uma recolha de testemunhos, revelou a decisão. Era uma decisão assinada pelo juiz a que conferia à mãe a tutela do bebé, a título provisório. O motorista de táxi deixara de ouvir o fim da leitura, e com o semblante carregado de revolta, apontou para a parede, onde um quadro de uma velha balança, com dois pratos carregados de vários símbolos, e que simbolizavam os valores da lei, encarou a rapariga, o funcionário, e gritou:

— Dei-te o meu filho, e agora vou pagar-te o seu sustento e fico sem ele!

E cavou as solas no chão.


Friday, June 17, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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O EMPREITEIRO


Eu tenho um precioso amigo (o seu nome é A. Jesus de Sousa) que me emprestadado um dia cinquenta contos, num cheque, para eu desenvolver o meu negócio de cervejaria. Foi no tempo, onde me estabeleci, ali perto da zona do Marquês de Pombal, no Porto, investindo todas as minhas economias, para tentar a minha sorte, Jesus de Sousa fora sempre mais correcto e leal, que um companheiro de infância. Construía prédio de andares, grandes e pequenos, com uma rapidez impressionante, substituindo espaços velhos por bonitas habitações rodeadas de bons verdes e de boa localização, logo oferecia àqueles que as comprassem, um variado conjunto de acabamentos e de zonas de lazer, mais comodidade e facilidades do que a vida oferecia ao meu amigo Jesus de Sousa. Não teve subsídios e não teve ajudas de ninguém. Nunca esmoreceu, mesmo no tempo em que se vê uma crise na Europa, os tormentos das prestações. Nos seus empreendimentos foi sempre bem tão sucedido como o feliz dos mortais. Da vida só experimentara o êxito — esse êxito que a vida invariavelmente partilha a quem o conquista, como os leões com ligeireza e valentia. Ambição, sentira somente a de entender bem as ideias gerais, e a «ponta do seu iceberg» (como diz o tradicional Zé-Povinho) não estava ainda a meio do percurso… E contudo, desde os trinta e picos anos, Jesus de Sousa já se tinha distanciado de outros empreiteiros menores, e duas, três vezes por dia, suava, com um suor escorregado e lento, passando os dedos grossos sobre os cabelos compridos loiros, como se neles só apalpasse segurança e riqueza. Porquê?

Era ele, dos empreiteiros que conheci, era aquele o mais simples e amigalhaço que se munira de mais quantidade de obras em pré-início e terminação. Nesse último empreendimento (situado na rua de Gondarém) que ele construíra sobre uma velha moradia do século XX, assoalhada a carvalho e branqueada a azulejo branco — havia, penso eu, tudo quanto uma família opte pelo descanso e pela paz de espírito. A praia — que em duas caminhadas de trinta passos, largos e compassados, circulando a rua desde os passeios até ao areal, donde se deslumbrava o sol e o mar que, reflectiam uma atmosfera brilhante e calma. Uma tarde que eu desejava apresentar um amigo engenheiro negro interessado em investir, percorri, em busca deste empreiteiro ao longo das construções, dezoito quilómetros de ruas! Assim se achava fortemente abrigado o meu amigo Jesus de Sousa, de tantas obras essenciais para o desenvolvimento económico. E o único entrave destes grandes empreendimentos era que todo aquele que lá entrava, inevitavelmente lá não sairia limpo, por causa dos materiais que, provinham de diversos sítios ainda alguns em fase descoberta de janelas ou portas. No fundo, o que interessava mesmo era encontrar Jesus de Sousa, e lá fomos dar com ele ao seu posto de trabalho, na rua do Crasto, sentado numa cadeira-secretária em fina prancha móvel, e em torno dela prendiam imensos apontamentos de papel que, atados a clipes de plástico cor de torrado e cor de areia, pareciam pontos de referência e suspensos numa linha horizontal de tijolos.

Nunca recordo sem pasmo o seu posto de trabalho, repleto todo de pequenos utensílios de escritório para variadas funções! Uns dossiers de várias páginas para escrever; e largas folhas de papel vegetal em que estava desenhado a planta do empreendimento para servir de guia aos promitentes interessados. O que, porém, mais me chamou a atenção àquele posto de trabalho, eram os inúmeros telefonemas recebidos. Constantemente sons curtos e secos emitiam no ar quente daquele piso. Trrim, trrim, trrim!... Era o meu amigo atendendo. Numerosos fios enrolados que atravessavam pelo chão e pelas paredes e nem sempre, infelizmente, se comportavam seguros e eficazes! Jesus de Sousa reconhecera do outro lado do fio a voz do angariador predial, um parceiro estimado, e no momento de o despachar, exclamou com firmeza e autoridade:

— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?

Pois, numa abençoada paragem das comunicações, o meu amigo engenheiro, querendo já sinalizar três ou mais fracções orientado pela planta topográfica, desejou saber valores imediatos. Mas, hábil ou cauteloso, certamente desinteressado de vender nesta fase — porque de repente o meu amigo empreiteiro começa a inventar, sem lógica, valores indetermináveis. Baralha-nos, e retiramo-nos para uma sala do piso abaixo, completamente revestida de acabamentos de primeira, que servia de modelo. E de novo a voz de Jesus de Sousa entoou, entre os adornos dos acabamentos, majestosa e sonora:

— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?

Abalamos para a rua, apertando afincadamente os lábios para nos conter, e sacudimos em vão o pó sobre os fatos. Mesmo à saída, onde nos despedimos, a voz rouquejara, empastada mas sonora:

— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?

Saímos acelerados para o carro. Era de tarde. Um fresco rosto de rapariga, de volta do carro das castanhas, passava exclamando com um cartucho de castanhas:

São quentes e boas
As castanhas da Lurdes Canoa…

Jesus de Sousa, respirando o ar tardio, esfregava os olhos da lenta sonolência. Apareceu no bar, com o sol já pirado. Muito devagar abriu a porta, como no medo dela cair para o chão. Logo que ele se sentou, servi umas águas minerais e fui dar um arranjo para o jantar. Bem me despachei lesto para arranjar a sala de jantar, num preparo simples e íntimo. À mesa só cabiam as camareiras do bar, e amigos como Jesus de Sousa que o bar acolhia no critério da amizade. Realizavam-se ali diariamente jantares que, pela sua versatilidade, lembravam os de Robim dos Bosques. Ao fim da garfada, ouviam-se histórias rocambolescas que cada uma das camareiras contava em forma de entretenimento. E cada uma camareira tornava-se desejosa por conhecer as histórias umas das outras. Assim tornou-se um serão de bom humor e riso. E de convidados havia sempre no repasto uma curiosidade em ver, quem era o senhor presente. A sala, um logradouro forrado a chapa de alumínio, possuía um toldo rolando na manivela, paredes pintadas a branco e ao centro brilhava uma mesa comprida de forma, toda branca e cadeiras da mesma tonalidade, que a tornava convidativa às tertúlias e repastos.

A cozinheira, ex-camareira Mara, era daquelas que não aprendera nos livros o segredo da cozinha, mas que sabia como ninguém a arte divina de «temperar e servir a Goela»; e na sala de jantar, os amigos da casa não havia quem não votasse na cozinheira Mara, para as suas comezainas. A sua sopa de agriões e ovas de pato, os seus filetes de carapau com puré de frutos secos, os seus morangos em calda de velho Porto, e vinho de tigela de barro. Tal menu dessa cozinheira extraordinária parecia, pela apresentação, pela graça dos arranjos das travessas, pelo sabor dos paladares, uma jóia combinada dos grandes mestres da culinária. Quantas noites, eu fotografei e escrevi em Contos de Ratazana aqueles serões de convívio de excelentes histórias, antes que elas enchessem o saco! E esta abençoada hora do comer condizia deliciosamente com a do beber. Por sobre uma toalha de pano castanho, mais curta do que o tamanho da mesa, conversavam, como pitos no aquário, seis camareiras e um porteiro gordo, em alegre confraternização. Os pratos vinham da cozinha pela mão da cozinheira fumegando a olhos vistos.

E se bem me lembro de uma segunda-feira de Abril em que, jantando com Jesus de Sousa um vendedor, o novato vendedor da Predial, a espinha encravou no meio da garganta, sendo preciso que o acudissem, para a extrair, com meia dúzia de cachaços. Nas tardes em que havia «jantares de Robim dos Bosques» (que assim denominei essas tertúlias de convívio salutar), eu, dono e amigo, aparecia ao inicio e deixava-me lá ficar até ser rendido. Quando o meu amigo Jesus de Sousa, chegado na sua roupa secundária, se acercava da sua obra, abria com força uma porta da arrecadação e começava… Começava pelos materiais… Com um bloco de folhas e um lápis grosso e aguçado, contava as faltas e as saídas, nas prateleiras, aos bidões, e latas pequenas… Respirava e pensava. Depois, com uma vara de longo alcance, fixava a altura dos mosaicos e contabilizava coisas de menor monta. E a partir de aqui Jesus de Sousa ficava diante da obra, esperando pelos seus operários, durante quinze minutos. Preparado e fresco, ia alimentar o estômago. Voltava para o seu posto de trabalho logo depois. Dois operários, ao centro, manobravam com mestria e rigor os guindastes da obra — que era apenas um começo dos alicerces monumentais da obra. Nunca eu, para dar um recado, entrei naquela obra sem palco — nagado da manhã cinzenta de Março em que inesperadamente, soltou-se o cano, a força de cimento a cem à hora voou, silvando e fumegando, avassalador… Fugimos todos, apavorados. Um protesto abalou na obra. O veterano trolha, empregado que era mestre de trolha de Jesus de Sousa, ficou borrado de bocados de cimento nas faces, nas mãos vagas.

Quando Jesus de Sousa acabava de se arranjar cuidadosamente para mudar de circulação, corava, com um corar reluzente e veloz. E era este corar, rosado e vistoso, que nos regozijava a nós, seus amigos e empregados. Nada faltava a este homem bom. Ele respirava saúde de ferro, crescido nas obras; uma luz da sabedoria, pronta a tudo iluminar, firme e sem tremer; Meia dúzia de magníficos negócios; todas as admirações duma classe invejosa e caduca; uma vida saída de pesadelos, mais solta e bela do que uma rosa de estufa… E contudo corava constantemente, apalpava a cara, com os dedos grossos, a rigidez e as bochechas. Aos trinta e picos anos Jesus de Sousa arredondava, como sob um balão justo! E pela rápida energia de toda a sua acção parecia ligado, desde a cabeça até aos pés, pelas malhas soltas duma situação que se não via e que o puxava. Era enternecedor testemunhar a vontade com que ele, para aceitar um pedido, mesmo nos seus momentos difíceis, se sentia forte e encorajador, e bradava com o que lhe ia na alma: «A sorte seja servida! A sorte seja servida! Claramente a vida para Jesus de Sousa era uma alegria — ou por trabalhosa e fácil, ou por interesse e fértil. Por isso o meu bom amigo procurava firmemente juntar à sua vida novos fascínios, novos interesses. Um borracho, uma moça de muita fibra e simpatia, estava empregada no bar e enamorada dele, dava-lhe todas as chances dele avançar com o romance. De resto, ele próprio se batia por ela.

E, pelo lado do pensamento, Jesus de Sousa não escusava também de ir buscar interesses e emoções que o fortalecessem com a vida — circulando à cata desses interesse e dessas emoções, pelas zonas mais desmistificadas do prazer, a ponto de beber, desde Fevereiro a Abril, setenta e quatro uísques de reconhecida qualidade. E era então que ele se privava com alguma liberdade, no recanto do bar, nas horas de conversa que ele tirava, porque dizia que quanto mais se sabe, mais se pensa. Ora justamente a partir desse Inverno, em que ele se empenhara na conquista da amizade e focara o olhar no alvo do seu zoom, foi que Jesus de Sousa conheceu Gilda, a moça de muita fibra e simpatia, e foi com demasiada afeição que ele se preparou, durante cinco semanas, para esta grande aventura. Jesus de Sousa logo nos princípios de Abril, conversara demoradamente com Gilda, que morava num quarto de uma hospedaria, incentivando-lhe que alugasse um apartamento, saísse do bar, enveredasse por outro viver. Depois disso tratado, mandou decorar por empresas rápidas, os móveis e outros equipamentos precisos, que proporcionassem todos os confortos necessários. Por fim, partiram numa manhã e tiraram duas semanas de campo para restabelecer forças para a fase seguinte.

Três semanas antes jantara ele com Gilda e mais as empregadas do bar. Nessa noite ouvira a história de Zi sobre o namorado que ela contava de uma maneira original e bairrista, «que quanto mais pesava o namorado, mais ela se encavalitava por cima dele, e por ter menos sessenta quilos, obtinha todos os gozos possíveis e deliciosos…» A gargalhada era tanto como a graça… Dizer os palavrões pelos nomes, não era para todos. Nem creio mesmo que fosse para o amigo Jesus de Sousa. Mas para Zi, aquilo era tão banal e tão simples… Jesus de Sousa à frente, na altura do copo, murmurava:

— Ah! que moça!


Eu ao lado, na cadeira, com as pernas tesas, murmurava:

— Ah! que moça!

Por entre estes «Ahs!» extraordinários, trocamos a sala pelo bar, que nos pareceu confortável e quente. Atirando uma expressão à inglesa para o ar, o porteiro Neves, com o seu Moby Dick na mão, gritava:


— Here, it is!


Depois do jantar a música calma dos Beatles havia embalado para uns momentos agradáveis. E mal Jesus de Sousa se sentou, eu levei-lhe um uísque dos seus, no momento que correu para nós, da entrada do bar, um indivíduo de cabelos esbranquiçados, rápido como uma lebre, com fato e gravata, que erguia para o ar, numa admiração, os braços arqueados. Era o imobiliário, Manuel Costa. E logo ali, nos sofás castanhos, entre o som do ambiente, surgia uma oportunidade de negócio que o bom Costa tentava, sereno, e que enchia o rosto de Jesus de Sousa de corado e de resignação. O imobiliário, Manuel Costa, não esperava tal dificuldade. E andava desde a semana, a tratar de encontrar Jesus de Sousa porque tinha na sua agenda uma proposta para a compra de umas lojas comerciais. E infelizmente para ele, as lojas ainda estavam sem preço, e as vendas sem autorização… Cruzou os braços, num rápido espanto, e fechava os olhos pequenos, onde já dançavam números. E na sua moderação, Manuel Costa procurava entre o não e o sim, ganhar o exclusivo para as próximas vendas… Os preços? Não, não tinha os preços!


Foi então que a namorada de Jesus de Sousa (que trouxera a amiga e agora vizinha) se acercou, e logo o fez sorrir à mesa. Já quando as tinha servido duas taças de sumo e aperitivos secos, o imobiliário, resignado, via assim a conversa interrompida, por interferência das duas jovens. Por isso ele, educado, sem perder a fibra, saíra da mesa — e lá os deixara em sintonia, a sós, embrulhados nos mimos… Manuel Costa estava plantado em frente de mim, com as mãos no casaco:


— Como é?


Nada restava senão acabar de beber, comer os aperitivos do bar, e dar com as pestanas a bater nas meninas do bar. Falamos, sobretudo, onde havia temas para animar o espírito — quando Manuel Costa foi buscar uma menina de companhia, e veio me avisar que «estava preparando para dar uma riparada na sua mademoiselle…» Voltamos ao balcão, Com estas consoantes de copo e cama, lá abarcou acasalado, e levantou para mim um sorriso, murmurando com interrogação:


— Vou bem?


Eu respondi:


— Vais óptimo!


Em ensaio, o ilustre imobiliário apalpou a sua presa e sentiu nela a rigidez dum rochedo. Depois, correndo com ela num impulso louco de desejo, sumiu-se para fora do bar! Tarde, de madrugada, sem rumo, para não adormecer Jesus de Sousa, que, com as mãos sobre o volante do seu Jaguar, sentia impacientemente no seu coração de doçura, a ausência de Gilda. Partimos à sua procura. E durante quatro mexidas horas, por aqueles locais, onde se instalam os vícios e os prazeres imediatos, não demos com ela, que decerto fugira dos seus hábitos e mergulhara no escuro da noite. Depois, descendo por umas ruas mal amanhadas de Monte dos Burgos, de novo trilhámos a rua principal, e fui bater à porta daquela hospedaria onde ela se encontrava, mas ninguém deu qualquer indicação. Assim, esperamos dentro do carro, entre o furioso latir dos jecos (cães). Por fim, a namorada de Jesus de Sousa apareceu alvoraçada a apear-se do táxi. E a sua deixa foi logo que o meu amigo Jesus de Sousa tinha andado lá nas gajas dos copos com os amigos nos bares do Porto.


— Então, onde é que te meteste, Jesus de Sousa?
— E tu, onde é que te meteste, Gilda?
— Andei à tua pergunta?
— Eu também!

Mas que confusão! O meu amigo Jesus de Sousa estava, enfim, povoado de censuras! Assisti impávido. Ambos ralhavam e ninguém se entendia. No palco do asfalto, onde o escuro fora juiz, já não bastava as palavras ternas para resfriar os ânimos — dizia com elas duramente da boca para fora… Onde fui eu? Era uma interrogação. E tudo o que ela contou, atirando aereamente com os desabafos para o ar, foi que se sentira, ao fim de dois dias no quarto sozinha, como abandonada, mandara vir umas cassetes de vídeo, vira cinco filmes nunca terminados, e ali estava…

— Por onde andaste?
— Sei por onde andei! E agora, minha querida, vem fazer uns mimos que eu desejei, e compreende enfim o que é o Amor.

E envolvido naquele turbilhão de linguado remoto, acabei por me esticar na cadeira confortável do carro, fechei instantaneamente os olhos, murmurando:

Felizardo Jesus de Sousa!
O amor é louco…

Já mesmo arrebentado adormecera sobre o abençoado banco de trás, quando me despertou um impulso amigo. Era Jesus de Sousa. E imediatamente o comparei a uma sentinela meio tesa e envolvida no escuro, que fora profundamente acordada e rodopiara em pleno sol. Não corava. De tarde, iniciada a confusão, aparecerem vários clientes da província, para tomar uns copos, e ver umas trutas que eu saquei. Jesus de Sousa estava diante de mim a contemplar as garrafas expostas. Com as mão aberta e forte batia no tampo do balcão, como nas costas de amigos adormecidos. Depois de uma bebida dobrada, apeteceu-lhe um prego em pão, a que a cozinheira Mara teria confeccionado um especial mesmo de carne de primeira escolha. 

— Que espanto, a carne é deliciosa!

Conversamos sobre a Sorte e o Sucesso. Eu citei, com discreta ironia, Ferreira dos Santos e a Nova Gaia… Logo Jesus de Sousa ergueu a cabeça, com seguro apoio. A sua admiração nesses dois colossos da construção aparecera, e consequentemente, sem querer mais acrescentar, como uma brisa que o ar espalha. Variou de tema. Contou que o caso da noite passada, não se passara mais de que uma pequena birra. Mas bastava que um homem fizesse umas festas, para ver as reacções e os conflitos, logo desapareciam. No amor tudo vive -- e só quem sente a dor, conhece a desilusão. Eu escutava-o com discrição, este Jesus de Sousa refinado. Era francamente um postal no magnífico estilo de homem bom. Quando recolhi à minha cama, àquelas horas boas que convém ao corpo e ao Espírito, pensei em mim que ele enfim alcançara a verdadeira tranquilidade, porque possuía a verdadeira estabilidade, gritei-lhe os meus congratulations à maneira do actor de A Volta ao Mundo em 80 dias:

Viva a Felicidade, amigo Jesus de Sousa!

Daí a momento, através do sonho que nos englobava, ouvi uma gargalhada alta e consolada. Era Jesus de Sousa que lia O que hoje ainda se deve fazer: uma rapidinha. Oh bom Jesus de Sousa! Começava a aprender o dom divino de rir! Tantos anos vão passados. Quase trinta anos, Jesus de Sousa já não habita na sua morada. As paredes do seu repouso agora são outras, bem mais diferentes.

De Verão veste uns calções e apanha uns banhos de sol. Com a sua admirável pachorra, já leu o Camões. Não vai a restaurantes. Nos passeios matinais, pára e assobia aos cães. Todos os clientes do antigamente o estimam. Na sua relação com Gilda (que já não existe), nasceu um filho que mantém laços de amizade. Ouço que se vai aposentar com uma boa, gorda e bela pensão social. Decerto viverá dali numa mansão, que será protegida do Senhor!

Como eu, ainda há pouco tempo, andei a basculhar a sua nova morada, fui depois destes trinta anos, ao bar, que já o trespassei. Cada passo meu sobre os coçados mármores de castanho e branco soou melancólico como num funeral de mortos. Todos os amigalhaços estavam reformados dos vícios, fugidos. Emanara dali um ambiente novo de caras desconhecidas — e eu parti, com a mão apoiada no queixo, certo de que naquelas centenas de objectos oferecidos ao bar pelos clientes nas suas viagens, não estavam mais de metade deles no activo! E, como esfriava nessa tarde de Outubro, tive de vir para casa, pedir ao fogão de sala que me aquecesse.

Ao descer a rua da Constituição, entrei no escritório de vendas de Manuel Costa e não dei com ele. Atendeu-me a empregada do contencioso e reparei num monte de projectos, pastas de arquivo, computadores, impressoras, fax, plantas topográficas, secretárias… Empurrei com a mão o oleado que tapava a máquina de escrever, cansada dos seus escritos, com o teclado universal iniciando as letras azerth, era ainda uma relíquia decorativa e estimada. E ali jaziam, tão seguros e confortáveis, aquelas boas invenções, que eu abalei sorrindo, daquele pequeno mini gabinete imobiliário.

O frio de Outubro parara: os vidros remotos da cidade embaciavam sobre um poente de creme. E, através dos passeios mais amenos, eu ia pensando que afinal esta vida dá muita volta, e que muitos homens, com uma profundidade mais profunda do que é a Volta, fariam como eu, com a pedra no charco da sociedade, e, como eu, sorririam alegremente da grande quimera que findara, no termo e coberta de lixo.

Àquela hora, certamente, Jesus de Sousa, no jardim da sua mansão em Foz do Douro, sem cadeira-secretária e sem apontamentos de papel atados a clipes de plástico, reentrado na harmonia, via, sob a tranquilidade serena da manhã, ao reluzir do pôr-do-sol, a maré bazar entre o canto das gaivotas.

Saturday, May 28, 2011








CONTOS DE RATAZANA
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NO BAR



Isabelinha era vista em todo a rua como «uma menina-fina». O senhor João, dono do Café, sempre que se falava nela, dizia de sua justiça, acariciando com respeito uma madeixa de cabelos:

— É uma jóia! É o que ela é!

A rua tinha quase vaidade no seu encanto formoso e enternecedor; era uma branca, de perfil fino, e os olhos escuros de um tom de castanho, e dumas pestanas finas que escureciam mais o brilho fundo e doce. Tinha saído de casa e morava agora numa outra rua, num quarto alugado numa residencial de três estrelas; e era, para a gente que aos fins das tardes ia fazer as palavras cruzadas até ao bar, um desejo sempre novo vê-la por trás de uma mesa, sentada sobre a sua saia, de cor cinza, absorvida e sossegada. Poucas vezes faltava. O bar, interiormente, parecia alegre. Falava-se em tons baixos, porque o dono, nas mudanças que efectuara que lhe davam as ideias, elogiava-se de que assim o ruído era menor; havia sobre as prateleiras envidraçadas uma quantidade de garrafas de diversas bebidas, um balde de gelo, timbrado a letras de marca; algumas tabelas de preços que ornavam as mesas com tampos de vidro, um ar sempre renovado por conta do aparelho ao fundo da sala; e era uma alegria ver algumas vezes meia sala cheia de clientes, ou em volta do balcão, agrupados em conversa com os copos nas mãos.

Isabelinha fugira de casa, tinha dezoito anos. Mesmo em criança, em casa dos pais, a sua existência fora atribulada. Os pais eram umas criaturas conservadoras e rigorosas, que se empenharam por uma disciplina culta e cumpridora. E quando pediam à filha para voltar, apesar da acalmia já, ela não voltou, sem explicação, quase como uma despedida, para salvar a liberdade que adquiriu, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam enervar, saindo pela porta da casa onde antes tinha entrado. Não amava os pais decerto; e mesmo na rua tinha-se lamentado que aquela linda figura de anjo, aquele rosto de fada, fosse cavar por outro caminho que não fosse o mais correcto. Mas aquela família que lhe vinha no sangue, aquelas criaturas inconstantes, que depois pareciam cair-lhe nas mãos, apesar dos seus modos pacíficos, cansavam-na. Às vezes, só, fazendo as suas palavras cruzadas, passavam-lhe as ideias pela mente: uma rebeldia da mocidade invadia-a, como uma chama que lhe fortalecia a alma. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem cor-de-rosa e bem folclore. Sempre quisera desde moça uma curiosidade, um desejo, um capricho: tudo a entusiasmava na Terra desde as horas das discotecas e o convite dos seus amigos. Todo o prazer lhe era gostoso quando era para se passar. Apesar de irrequieta, passeava horas fazendo os Passatempos, que era o mais relaxante, com o tempo que perdia com os seus inúmeros jogos ficava calma. Durante as saídas para as discotecas, não chegava antes da manhã romper, deitando-se sobre a cama, lendo, ouvindo música até cair em sono pegado. De tarde estava um pouco mais branca, mas toda pronta na sua saia cinza, mexida, com os sapatos bem engraxados, compondo-se bonita para ir dar os vistaços do costume ao café. A sua única ocupação era à tarde sentar-se à mesa com o seu livrinho de jogos, e a clientela em roda, alinhando nas suas conversas, falando alegremente, bebendo os copos que lhe davam percentagem. Vendo-a assim tão espevitada e tão declarada, algumas mulheres da sua rua afirmavam que ela era ajuizada: todavia ninguém a avistava de dia, excepto ao domingo, com a visita à oficina do pai ou à casa da madrinha, toda senhoril no seu vestido de bolinhas vermelhas. Na verdade, o seu dever limitava-se a esta visita de duas em duas semanas. O seu modo de vida ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações da família; naquele dever de má filha, cumprido sem amor, tinha descoberto uma nova satisfação suficiente à sua sensibilidade; não necessitava rogar aos Céus, ou enternecer-se com os seus. Além disso nunca tivera estes sentimentalismos de alma chorona que levam ao dever. A sua nova experiência de se tornar independente, de ser ela o centro de comando, o amparo de si própria tornara-a doce, mas realista: e assim era ela que administrava agora as suas economias, com o senso que a situação exigia, uma solicitude de rapariga dotada. Tal ocupação bastava para entreter o seu dia-a-dia: ela, de resto, detestava fazer visitas, a conversa de coisas pessoais, as revelações de confidências; e passavam-se semanas sem que em casa de Isabelinha se ouvisse outro desabafo estranho ao telefone, que não fosse o do pai — que a adorava, e que dizia para ela com a voz roufenha:

— Volta minha jóia! Volta minha jóia!...

Foi assim grande o escândalo, quando os pais de Isabelinha receberam uma notícia dum vizinho, que lhe informou que a quinhentos metros dali da rua, a sua filha era vista num bar de alternos. O bar era uma casa célebre, e a sua clientela era da melhor casta que há de noctívagos. Viajara muita clientela mesmo de Lisboa, só para conhecer o seu habitat e as meninas de companhia. O bar era um ponto de encontro: e o seu nome, «Lord», um toque de inglês, expressado a bom estilo, consagrara-o como um pioneiro. A sua fama, que passara até outras fronteiras, num rótulo de publicidade, apresentava-o como uma paragem obrigatória da cidade do Porto, preferido das bonitonas, sumptuoso e fascinante, destinado a uma alta burguesia na cidade. Os pais ficaram chocados com esta notícia. Viam já a sua filha em confusão na presença de um ambiente daqueles. Depois o contacto daqueles mundanos, com as suas máquinas topo de gama, o cheiro dos seus perfumes, as suas histórias de bons, no barulho ruidoso de um bar, davam-lhe a impressão assustadora de uma perdição. Foi por isso uma surpresa, quase um reconhecimento aos Céus, quando Isabelinha visitou os pais, e muito à-vontade se serviu do frigorífico para tirar um copo de leite fresco e beber… Depois comentou:

— Eu tenho os meus desejos, vocês tem os vossos… Não nos vamos chatear, ah?... O que faço é vir cá visitar-vos. De resto, não estou mal como estou… Estou num bar onde as pessoas são amigas e deliciosas… E ficamos por aqui, ok?

Os pais de Isabelinha olhavam-na assombrados: aquela única filha, aquela cara de anjo por quem choraram tanto, aquela inocente que os bares cobiçavam, era uma rapariga extremamente ingrata — muito mais confusa, mais melindrosa que o que eles pensavam! Nem uma palavra disse mais, cavando dali silenciosa. O serviço do bar era interessante. Era um local de convívio, digno de um bom vivant, sobretudo a partir da tarde em que os clientes lá iam, com a pança bem agasalhada, os corpos esticados no meio dos sofás, e todo o género de piropos de conquista fácil, iludindo, cantadas entre os copos e os apalpões, deixando no ar a fria da ilusão, da aventura, donde saíam as cantadas. O bar ficava num rés-do-chão dum prédio baixo, com a sua velha fachada de vidro espelhado, a sua porta de ferro alta, cor castanha, rodeada de casas comerciais, situado sobre a zona alta da cidade. Isabelinha achou o bar de Fernando digno dum poema de Luís de Camões, e talvez por isso, se tenha encantado. Como ela veio um pouco mais cedo, não se quis sentar, antes quis ficar de pé, beber um drink, ali no balcão… Fernando serviu-a:

— Eu só queria uma pedra de gelo sobre o bourbon, por favor!
— Mas que pedal, menina! — exclamou Fernando admirado. — Um anjo que entende de bebidas!

Pela primeira vez na sua vida Isabelinha corou com a palavra de um homem. De resto tomou logo a iniciativa de lhe tirar as medidas… Nem alto era: e com o seu bigode cheio sobre uma face magra e morena, a camisa alaranjada de meia manga cobrindo a cintura num corpo elegante e pequeno, as suas mãos oradas, parecia-lhe a ela um dos ourives de lojas que às vezes encontrava, quando uma vez por outra ia visitar as ourivesarias no centro da cidade. Além disso não dava bocas; e a primeira vez que veio servir à mesa onde ela se encontrava com o cliente, falou apenas, com grande exuberância, do seu negócio. Falara para ele. Do início do bar, o único bem que possuía, que não desejava além disso trespassá-lo… O que ele desejava era aumentá-lo. E isso parecia-lhe a ele não ser tão difícil como andar na lua!… E vibrava sinceramente ver o bar agora, aumentar dia-a-dia, com a ajuda de todos a dar os seus contributos. No outro fim-de-semana Fernando foi fazer compras e achava-se perto da residencial da Rua da Constituição, e era um dia de Janeiro húmido e cinzento, e ele vinha a pé com duas sacas de compras, da lista das suas faltas para o serviço. Foi por isso, com grande alegria, que ela viu Fernando a acenar-lhe do outro lado da rua, e chamá-la com um sorriso aberto:

— Não queres vir tomar um café comigo?
— Por que hei-de dizer que não? — disse ela.

Ao princípio, acanhada por aquela companhia de um rato, a boa miúda caminhava junto dele com o ar de um rouxinol assustado: apesar de ele ser mais velho e ser uma pessoa tão simples, havia na sua figura vigorosa e seca, no timbre típico da sua pronúncia, nos seus olhos castanhos e vivos alguma coisa de dominante, que a envolvia. À entrada para o café, como ele se deixara ficar para trás para lhe dar a prioridade, o contacto daquela mão branca e forte de artista da noite, nas suas costas motivou-a extraordinariamente. Instalaram-se numa mesa do centro e o empregado trouxe dois cafés — e a conversa de Fernando foi lenta e divertida ao mesmo tempo. Ele parecia solidário daquele problema dela. Deu-lhe uns bons conselhos: o que os pais necessitavam era carinho, amor, uma outra atitude que aquele isolamento de comunicação… Ela também assim o julgava: mas quê!, os duros pais, sempre que se lhe falava de ir passar algumas horas à discoteca, passavam-se logo dos carris: tinham horror às noitadas e às ramadas: a Noite escura fazia-os quase desmaiarem; tornaram-se uns seres postiços, escondidos entre as paredes da casa… Ele então sossegou-a. Decerto deveria haver alguma maneira do caso se tentar resolver… Mas enfim, ela devia saber bem o caminho que desejava seguir além daquelas duas paredes, empastadas do cheiro do vício…

— Que hei-de eu querer mais? — disse ela.

Fernando calou-se: pareceu-lhe anedótico pensar que ela desejasse, realmente, o Príncipe de Gales ou o Rei da Malásia… Já ele pensava diferente, pensava noutros apetites, nos desejos do coração insatisfeito… Mas isto pareceu-lhe tão inoportuno de dizer àquela criatura inocente e pura — que falou do ambiente…

— Já vai para o bar? — perguntou-lhe ela.
— Tenho de acabar o resto das compras, se quiseres ir para lá, só demoro um pouco, menina.
— Vou-me arranjar.

Ficaram de se reencontrar nesse esconderijo de ilusão, que era a aventura do bar. No café, a pequena conversa entre ambos criou uma aproximação maior entre Fernando e Isabelinha. Aquele contacto, que ela curtia com uma habilidade de estudante, colocava entre eles como que um interesse mútuo. Ela falou-lhe já sem muitas reservas quando voltaram. Havia nas atenções dele, dum respeito honesto, uma atracção que a sua mágoa a levava a revelar-se, a oferecer-lhe a sua confiança: nunca se abrira tanto a ninguém. De resto as suas queixas eram sobre a mesma mágoa — a tristeza do seu interior, as divergências familiares, tantas coisas por fazer... E vinha-lhe por ele uma nutrição, como um secreto desejo de o ter sempre ao seu lado, desde que ele se tornava assim confidente das suas mágoas. Fernando voltou para o bar, impressionado, fascinado por aquela miudinha tão só e tão meiga. Tudo nela rimava agradavelmente: o negro do cabelo, a doçura da voz, a simplicidade no trato, e a linha elegante do seu corpo davam uma sedução: era um anjo que vivia há muito tempo numa gaiola fechada e estava por isso atado às trivialidades de família: mas bastaria um bufo para o fazer chegar aos planaltos da lua… Achava disparate e grosseiro fazer a corte à miúda… Mas irreflectidamente pensava no formidável prazer de fazer badalar aquele coração que não estava viciado pelo vício, e de pôr enfim os seus lábios numa boca onde não houvesse batom… E o que o puxava além disso era pensar que poderia percorrer toda a terra em Portugal, sem encontrar nem aquele lindo rosto, nem aquela virgindade de coração ignorado...

Era uma oportunidade que não voltava.

No bar o ambiente era frenético. Depois de Fernando descarregar o conteúdo das sacas nos frigoríficos, voltara-se para a cozinha, que estava cheia de copos sujos: e ali ficara um momento calado, no canto daquele espaço parado e silencioso, quando Isabelinha entrou e pediu um copo de água. Fernando via-a de perfil, um pouco inclinada, tirando duas do cigarro que a cinza invadia o cinzeiro: era amorosa assim, tão fina, tão terna, duma linha tão delgada sobre o fundo branco da esferovite: o seu modo de vestir era de bom gosto, a sua descontracção tão moderna, mas ele considerava isso uma ingenuidade apimentada. O silêncio das vozes em redor isolava-os — e, energicamente, ele começou a falar-lhe alto. Era ainda a mesma conversa pelo abatimento profundo da sua vida naquele patamar, pelo seu fado de alternadeira… Ela escutava-o de olhos nos olhos, animada de se deixar estar ali a ouvir aquele homem tão experiente, toda atenciosa e achando um agradável sabor à sua atenção… Houve uma altura em que ele falou do bom que era ela ficar ali para sempre no bar.

— Ficar sempre? Para quê — perguntou ela, sorrindo.
— Para isto, para estares sempre ao pé de mim…

Ela cobriu-se de um calor, o cigarro comprido e fino escapou-lhe das mãos. Fernando receou ter-se esticado, e acrescentou logo aquecendo as mãos:

— Então não era divertido?... Eu podia fazer-te empregada de mesas, pôr-te ao balcão… Tu havias de me atrair muita clientela...

Isso fê-la dar uma gargalhada; Era mais bonita quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, o sorriso, o brilho dos olhos. Ele continuou gracejando, com a sua ideia de a fazer empregada de mesas, e de a ver ao balcão, cheio de gente a consumir.

— E eu venho de minissaia, patrão! — disse ela, contente pela sua própria gargalhada, pelo contágio daquele homem à sua beira.
— Vens mesmo? — exclamou ele. — Juro-te que te faço empregada de mesas! Que giro, nós aqui dentro do balcão, ganhando alegremente as nossas vidas, e ouvindo as bocas destes fregueses!

Ela corou outra vez. O fervor que recebeu da voz dele, fê-la recuar como se ele fosse já prepará-la para a função. Mas Fernando agora, agarrado àquele plano, moldava-lhe na sua pintura colorida todo um romance principesco, de uma felicidade sem par, naquele esconderijo de ilusão. E de repente, sem que ela opusesse, prendeu-a contra o peito e beijou-a nos lábios, um beijo ardente e prolongado. Ela tinha ficado corada como tomate: e dois bateres de pestanas voaram-lhe na direcção dele. Era assim tão apetitosa e desejada que ele tornou a beijá-la; ela soltou-se, pegou no cigarro e ficou a fitá-lo, com os lábios a morder, murmurando:

— Você beija bem… Você beija bem…

Ele mesmo estava tão desordenado que nem uma palavra disse. E daí a um pouco entraram ambos calados para a sala. Foi só no balcão que ele pensou: «Fui um aproveitador!» Mas no fundo estava satisfeito da sua intencionalidade. À noite, depois de fechar o bar, foi à procura dela: encontrou-a com o cliente na conversa, sentados a uma mesa perto do balcão. E então pareceu-lhe aborrecido distrair aquela rapariga das suas amizades. De resto um momento como aquele no bar não voltaria. Seria despropositado ficar ali, naquele canto aborrecido do café, desmoralizando, a frio, uma pobre moça… Deu meia volta e afastou-se. Ela desapareceu por uns dias e quando apareceu ao fim da tarde, ele suspendeu-a dela permanecer no bar… Ouviu o que ele dizia, sem lhe trocar o olhar, sem lhe inchar o peito. Mas Fernando achou-lhe o cumprimento da mão tão frio como um moribundo: e quando ele virou costas, Isabelinha ficou voltada para o ecrã, escondendo o olhar dos clientes, fixando abstractamente a imagem que aparecia, com o pensamento, dois a dois, voando-lhe no escuro…

Estava apaixonada. Desde os primeiros dias, a sua figura decidida e atrevida, os seus olhos vistosos, toda a virilidade do seu carácter, se lhe tinham tomado conta da imaginação. O que a fascinava nele não era a sua vocação, nem o seu prestígio no Porto, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela pouco lhe dizia e pouco lhe interessava: o que a encantava era aquela versatilidade, aquele ar sério e saudável, aquela força de vida, aquela voz tão característica e tão desgarrada: e antevia, para além da sua situação ligada a um ofício rasca, outras situações possíveis, em que se vê sempre diante do espelho uma outra face forte e sadia, em que as noites se passam a dormir a dois em cadeirinha… Era como uma rajada de ar ameno, que atravessava, subitamente, a sua almofada a cheirar a mofo e respirava-a docemente… Depois, tinha entendido aquelas palavras em que ele se mostrava tão sabedor, tão leal, tão gentil: e à força do seu corpo, que admirava, englobava-se agora um coração afectuoso, dum afecto enérgico e forte, para a atrair… Este amor oculto invadiu-a, assenhorou-se dela uma noite que lhe apareceu esta ideia, esta ilusão: «Se ele fosse meu namorado!» Toda ela entrou em circuito, apertou fortemente as mãos contra a mala, como desordenando-se com a sua imagem focada, prendendo-se a ela segurando-se na sua força…Depois ele deu-lhe aqueles dois beijos no bar. E desistira!

Então começou para Isabelinha uma vida de desamparada. Repentinamente tudo em seu redor — a desligação dos pais, abandono dos estudos, os seus vícios — lhe pareceu sombrio. Os seus jogos de palavras, agora que não punha neles toda a sua vista, eram-lhe chatos p´ra burro. A sua situação representava-se-lhe como desastre extraordinário: não se agitava ainda, mas tinha desses desalentos, em que caía sobre a cama, com os braços estendidos, murmurando:

— Onde vai parar isto?

Abrigava-se então naquele amor como uma indemnização deliciosa. Achando-o todo de alma, deixava-se repassar dele e da sua lenta influência. Fernando tornara-se, na sua imaginação, como uma pessoa de atitudes sensatas, tudo o que é pensado, e que é tratado, e que dá razão à vida. Não quis de algum modo alhear-se a tudo que vinha dele. Soube de todas as suas histórias, inclusive aquela «Lord» que também gostara, e crescera dum sonho. Estas histórias sossegavam-na, como uma onda de satisfação ao desejo. Foi durante semanas um frequentar constante de nocturnos. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo viciado e preguiçoso. A realidade tornava-se-lhe ociosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua morava, onde encontrava sempre encostado à porta, alguém na mirada. Vieram as primeiras agitações. Tornou-se impaciente e dura. Não suportava ser chamada à atenção de questões sentimentais do seu coração. Veio-lhe a ânsia das bebidas, dos cocktails, dos galanteios dos clientes a tentar. Começou a ver novelas. Passava horas só, num escuro, à varanda, tendo sob o seu olhar de virgem branca, toda a rebeldia de uma enamorada. Acreditava nos amantes que trepam os muros, sob o manto das estrelas: e queria ser conquistada assim, possuída num mistério de noite romântica… O seu coração desligou-se aos poucos da imagem de Fernando e estendeu-se a um ser fictício que a encantara nos personagens feitos heróis de novelas; era um estilo meio príncipe e meio pirata, que tinha, sobretudo, a agilidade. Porque era isto que a atraía, que queria, por que ansiava nas noites frias em que não conseguia dormir — dois braços ágeis como molas, que a abraçassem num aperto profundo, dois lábios de fogo que, em dois beijos, lhe chupassem a alma. Estava uma maluca.

E no meio desta excitação toda do temperamento inconstante, eram fraquezas rápidas, sustos de passarinho que cai, um grito ao ver o céu de negro, um esgar de desalento se não havia na recepção recados muito atractivos… À noite suspirava; abria para o café; mas lá dentro, o mofo quente, da estação a chamar o Verão, enchiam-na dum desejo intensivo, duma ansiedade sensual, que chegou ao momento em que bastaria que um homem chegasse ao pé dela e lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços — e foi o que aconteceu enfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois meses. Era o cliente dos imóveis. Por causa dele abandonou toda a rua. E agora muda de quarto para casa de uma amiga, os mirones atrás vigilantes, sem dormir até altas horas, os pais a sofrerem sozinhos na sua casa, todo o plano dos estudo foi pró maneta, tudo num descarrilo total — para andar acompanhada do homem, um peneirento vaidoso e convencido, de cara profunda e fechado, fio dourado com grossa medalha passado por cima da gravata e penteado abrilhantado posto à janota. Vem de noite com ela aos pubes de sandálias sem meias; cheira a álcool; e promete-lhe o mundo azul para depois ir aturar uma Joaquina qualquer, a quem ele chama «a Minha Maria.»