Monday, March 21, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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O HOMEM DA PICHA TRISTE…



Começou por me contar que o seu caso era caricato — e que não queria que pusesse o seu nome no pasquim do bar — por isso alcunhei-o de “O Homem da Picha Triste.” Devo dizer que conheci este cliente no meu bar de engate no Porto. Era alto e magro: tinha uma farta cabeleira penteada e lisa: e os seus olhos castanhos, com a pele em volta encarquilhada e amarelada, e olheiras papudas. Tinha a barba cortada, o queixo firme e recto. Trazia uma gravata de cetim azulada adornada numa camisa branca bordada; um fato fino de casaco trespasse cor de pinha, e as calças estreitas e justas por cima dos sapatos. Estávamos em Abril; já as noites vinham mais tarde, com uma aragem primaveril e suave e uma escuridão com clareza. Eu tinha saído da cozinha, maçado, estonteado, murmurando num rodopio de frases sem nexo. Vinha de circular pela praia e os seus aspectos vistosos e aglomerados. Eram oito e quinze da noite. As luzes estavam quentes e brilhantes. E eu pus-me energicamente, a preencher as mesas e comecei a servir o jantar. Costela de porco com osso aparte e fatias enroladas de presunto, um vinho verde que eu fiz espumar no copo, caído de alto de uma garrafa rotulada: o cliente estava defronte de mim, comendo calmamente a sua pêra cozida; a minha curiosidade começou aí, perguntei-lhe com os braços cruzados, o meu pano de limpeza de flanela preso nos dedos — se ele era de Leça da Palmeira.

— Moro lá. Há muitos anos — disse-me ele.
— Terra de mulheres boas, segundo ouço dizer — disse eu.
— Boas e quentes! — Acrescentou ele.

Depois abriu-se num sorriso saliente. Até ao momento estivera cabisbaixo, olhando frequentemente para a porta. Mas agora despoletou o seu sorriso largo. Compreendi que tinha tocado a ferida aberta de uma lembrança. Havia decerto no caminho daquele quarentão uma «aventura». Aí residia o seu estado de alma ou a sua farsa, porque inconscientemente relacionei-me na ideia de que o «caso», daquele cliente, deverá ser excêntrico, e exalar zombaria. De maneira que lhe disse:

— A mim têm-me dito que as mulheres de Leça da Palmeira são as mais boas do Norte. Para braços do campo Régua, para rostos Angeiras, para banhistas a Foz: é lá que se vêem os biquínis requintados de várias cores.

O cliente estava ouvindo, comendo com os olhos altos.

— Eu tenho um cliente que veio veranear à praia de Leça da Palmeira. Talvez conheça. Alcunhei-o de Nudista, um cromo, de pouco cabelo, aposentado.
— O Nudista, sim — disse-me ele, olhando firmemente para mim.
— Veio veranear à praia de Leça da Palmeira como antigamente se ia veranear a Espinho — questão de consolar as vitrinas (olhos) da semi-nudez. — À sua.

Eu tentei evidentemente puxar por ele, mas ele se levantou, foi ao quarto de banho com um passe leve, e eu reparei então nos seus leves sapatos de camurça com sola fina e atilhos de couro. Quando eu pedi para me trazer a bonitona do dia, o meu empregado trouxe-me uma mensagem em código e disse:

— A menina está com outro. Está na pensão.

Na pensão dos avios, às vezes, cada quarto é um palco de rápidas.

— Tá-bem — disse eu.

A pensão era no começo da rua. Havia duas portas de entrada e no interior da pensão os clientes tinham posto os seus carros estacionados: estavam assim longe dos olhares imprevistos. Lá dentro estavam desde, trabalhadores, proprietários, comerciantes, um casal de estudantes, mulheres de vida fácil, um vendedor de electrodomésticos, um cozinheiro, um padre. Todos fodiam. Defronte da recepção estava um casal de biscate aos mimos a aguardar vez: e quando um quarto ficou vago, a porta abriu para o casal entrar. O cliente saiu do quarto de banho.

— Vou para o balcão — disse ele.
— Esteja à vontade. — E para criar melhor intimidade tirei da prateleira uma garrafa de uísque e abri-a para ele beber.

Não direi os porquês por que ele daí a bocado, já meio alegre, me contou a sua história. Há um ditado do engate que diz: «O que não fazes na cama à tua mulher, fá-lo a uma estranha, na pensão.» Mas ele teve laivos inesperados e desconcertantes para a sua comprida e sentida confissão. Foi a respeito do meu cliente, do Nudista, que fora veranear para a praia de Leça da Palmeira. Vi-o pasmar àquele cota de meia idade. Talvez a história seja julgada paranóica, mas conto-o apenas como uma curiosidade pessoal da vigília sedutora… Começou assim por me dizer que o seu caso era caricato — e que não queria que pusesse o seu nome no pasquim do bar — por isso alcunhei-o de “O Homem da Picha Triste.” Perguntei-lhe então se era cliente doutras casas que eu conhecesse. E como ele me respondeu que era crónico dessas, eu tive logo do seu feitio uma ideia porreira, porque os clientes do seu timbre eram uma antiga geração, quase uma raridade de empresários, que mantinham com uma assiduidade permanente o seu consumo elevado de despesas e de luxos. O Homem da Picha Triste disse-me que no tempo de 1981 ou 84, na sua ascensão, tinha em Sines, uma frota de operários a trabalhar sob o seu comando, e era ele quem os contratava. Depois o talento prático e inteligente de O Homem da Picha Triste, deu-lhe dinheiro. E assim tornou-se num «engajador» de operários não especializados. Disse-me ele que sendo naturalmente atrasado e menos evoluído, a sua vida tinha nesse tempo uma grande azáfama. Um trabalho movimentado e seguro, algumas certas dormidas fora de portas, uma mala saliente de roupas interiores e objectos de higiene, era todo o prazer da sua vida. Nesse tempo, a vida, era vagabunda e solta. Uma grande mudança social aclarava os vícios: os sentidos eram mais atrevidos, os sentimentos mais complicados.

Apanhar banhos de sol tranquilamente no carro, esticado na cadeira, vendo bater as ondas nos rochedos — sorrir com os melodramas que ecoavam entre as ruas de Leça, adornados de árvores, eram emoções que bastavam ao seu contentamento. O Homem da Picha Triste, aos quarenta anos, já tinha — como lhe dizia uma velha carocha, que fora querida noutra época — «sentido sexualidade de Gungunhana.» Mas por esse tempo veio tornar-se uma atracção defronte do local do carro de O Homem da Picha Triste, um primeiro andar, uma mulher dos trinta anos talvez, vestida de branco, uma pele amanteigada e um aspecto desejável, O Homem da Picha Triste tinha o seu carro estacionado, ao pé duma palmeira, e dali viu uma manhã aquela mulher com o cabelo louro curto e despenteado, um chambre cor-de-rosa e braços nus, chegar-se a uma pequena janela, a olhar para o mar. O Homem da Picha Triste, afirmou-se e, sem muitas intenções, dizia para consigo que aquela mulher, devia ser uma companhia agradável e cheia de energia, porque os seus cabelos soltos e suaves, o lábio carnudo, revelavam um temperamento vivo e imaginações ardentes. No entanto, deixou-se serenamente alinhavando as suas apreciações. Mas à noite, estava sentado ouvindo música do seu carro, que enchia o passeio: era em Abril e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a música gemia uma balada pimba, que então penetrava e era dum melodrama; a rua estava num deserto e cheia de mistério — e O Homem da Picha Triste, que estava em mangas de camisa, começou a lembrar-se daqueles cabelos louros e curtos e daqueles lábios carnudos que tinham a cor das cenouras descascadas: esticou-se para a frente, rolou calmamente a cabeça pelas costas da cadeira de pele e decidiu bocejando que a sua vida era aborrecida.

E no dia seguinte, ainda entusiasmado, encostou-se ao carro com a porta toda aberta, e olhando o prédio de frente, onde viviam aqueles cabelos louros. Mas ninguém se abeirou à pequena janela de caixilhos de madeira — e as horas foram passando. E quando se fechou dentro do carro sentiu defronte abrir-se a janela; eram certamente os cabelos louros. Oh! E O Homem da Picha Triste veio logo espevitadamente para o passeio limpar os óculos de sol. À outra vista, a mulher loura tinha alguma coisa de diferente da observação que lhe fizera antes. Um lenço às pintas verdes cobria-lhe metade do rosto, os dedos compridos e unhas pintadas, e toda ela era fresca, saudável e tenra. O Homem da Picha Triste disse consigo:

— É boa prá carago.

O Homem da Picha Triste, nesse tempo, era atrevido, com o penteado da moda. A camisa não dispensava a gravata e a sua figura devia ter aquele ar risonho e malandreco que depois da Revolução dos Cravos foi tão vulgar nos novos-ricos. A rapariga loura reparou naturalmente nele, mas naturalmente abriu a cortina de tom azulado, olhando para a frente o mar. Depois franziu suavemente o olhar na sua direcção e bateu duas vezes com as pestanas fazendo notar que por dentro um coração solitário se bate e espera — são velhos truques em que na verdade e na arte começa a conquista. O olhar ergueu-se em câmara lenta e o rosto louro iluminou. O Homem da Picha Triste não me contou por pormenores — a história detalhada da sua aventura. Disse simplesmente que daí a dois dias «estava tolo por comê-la». O seu trabalho tornou-se logo secundário e inseguro e o seu cabriolet Ford americano, bonito e espaçoso, galgou passeios, bermas, rampas, onde mirava toda a aventura impaciente dos seus nervos. Não a podia observar pela manhã: as noitadas boémias de Abril sucediam umas atrás das outras e eram noites perdidas pela certa. Só pela tarde, o sol aquecia, se abria a janela, e ela, vinha dobrando as mãos sobre o peitoral da janela, e pôr-se mimosa e bela com o seu olhar, observando quem passava. Era uma oportunidade magnífica e naquele momento inesperado, o pensamento de O Homem da Picha Triste com esta intuição interpretativa dos românticos, disse à sua curiosidade: «Será mulher dum engate.» O engate vai ao bordel, à rua e vem cheio daqueles clientes dos vícios eróticos, e nem O Homem da Picha Triste sabia porque é que aquela aventura o deixava indeciso assim: mas segundo ele me disse — «aquilo deu-lhe no gozo.» O Homem da Picha Triste, que tinha reparado naquele olhar uma tentação de desejo, quase um «S.O.S», esteve toda a tarde entregue às pestaninhas sedentas do desejo. Andava entretido, ocupado, não deu atenção aos afazeres profissionais que estavam sob as suas ordens. Mal deu conta do calendário se aproximar do fim do mês, e nem se preocupou em ir ao banco ver o seu extracto de conta.

— É costume de me deixar prender por mulheres atraentes — tinha dito para mim na sua expressão irónica. — São uns dias de férias antecipadas. Por minha conta.

Mas sucedeu que ao outro dia, estando ele à coca da janela, e neste momento uma vendedora de peixe passava na rua, que vendo a mulher de cabelo louro a abrir vagarosamente a janela, cumprimentou-a e atirou-lhe com uma confiança toda risonha, o seu «passe bem». O Homem da Picha Triste ficou iluminado: logo nesse instante foi atrás da peixeira, e abertamente, sem meia-tinta, perguntou-lhe:

— Desculpe-me, quem é aquela mulher que você há pouco cumprimentou defronte da esquina?
— É a Foscoa. Boa gente.
— Ah! Sim. E ela não vem à rua?
— Não sei. Encontro-a sempre ali.
— Bem, obrigado.

E O Homem da Picha Triste, desabafando consigo a história da sua aventura despertada e impaciente e falando do desejo com as exaltações de então, fez fé com a sua boa sorte «que ela viesse cá fora». Não era impossível. Logo na tarde seguinte, O Homem da Picha Triste de fato azul-marinho, gravata verde-mar, sentava-se no seu carro a ouvir um poeta afamado do tempo uma quadra intitulada «Sedução ou a ratoeira da loura.»!...

— De sorte que a oportunidade bateu à porta — e quando o poeta se calou, a mulher de louro que se chamava Foscoa apareceu vestida com uma blusa branca bordada, um ar de virgem bela, fresca e um brilho luminoso no olhar — o Sr. O Homem da Picha Triste é que não teve onde se agarrar, porque já estava todo apanhado, olhando Foscoa. E dizia-lhe suavemente:
— Então, noutro dia, gostou de me ver?
— Muito… —

No entanto na estreita rua, o trânsito passava-se dos eixos. O Homem da Picha Triste não pôde ouvir todas as palavras compostas daquela frase. Lembrava-se apenas da última palavra que falava em «suba»: ouviu-a de pé, quando um som brutal abortou de uma buzina ruidosa, e uma frase em terminal dizia: «a porta está aberta!» E O Homem da Picha Triste, desviando-se de um carro, olhava sorrindo — e via-se-lhe os dentes brancos. Depois a enigmática Foscoa, aproximando-se da janela com olhares reveladores ao chamamento, girou com os seus dedos indicando o caminho da porta, o que levou o paciente O Homem da Picha Triste e fã de Don Juan, a dizer ironicamente para consigo:

— Linha!... vamos para bingo!

Depois subiu as escadas côncavas muito usadas no tempo da Maria Cachucha, e quando chegou à casa, Foscoa convidara-o a entrar no quarto onde se encontrava deitada, dizendo-lhe:

— Espero que você honre o meu convite!

E O Homem da Picha Triste que estava boquiaberto, exclamou:

— Honre! Diga goze, minha querida!

Estavam frente-a-frente. A tarde já ia avançada. Foscoa, vestida de combinação lilás, justa ao corpo, toda deitada ao comprido da sua cama, apertando as mãos nas pontas dos lençóis, e ficando a olhar o físico de O Homem da Picha Triste, depois dele se ter livre das roupas. Depois vieram as festas, os gozos, e ela, Foscoa, ficara a gemer de prazer: sentia os bafos dele, as mãos dele segurando a sua cabeça loura amorosa, as chiadeiras da cama, e vira então ele, todo aflito a sair da cama, pôr-se debaixo do chuveiro e tomar um banho frio, e voltar a atirar-se a ela, cheio de fúria! «É um cavalo de força.» Foscoa então desmaiou nos braços dele. E foi quando O Homem da Picha Triste, sem fazer ruído algum, começou a vestir-se, todo absorvido a olhar para ela, quando de repente, afastou o lençol, olhando para as pernas de Foscoa: uma das pernas apareceu desequilibrada da outra e soltara-se da prótese.

— É fantástico — disse para consigo, — eu não senti a perna artificial.

Quando Foscoa voltou a si, achou-se aos pés da cama, curvada como um L, prendia tenazmente a perna à amarra, e a revelação que tivera magoara-a visivelmente. E quando se despediram, O Homem da Picha Triste, todo cortês no seu discurso, dizia sorrindo a Foscoa pela porta:

— Ora, a malandrice da perna, hem! Que coisa! Uma perna de plástico! Só tu me enganavas! Que raio! Eu não ter topado!

Foscoa esteve calada daquele gozo frio. Não lhe respondeu. O Homem da Picha Triste é que acrescentou:

— Um dia destes passo por cá, querida! Que surpresa… Foi bom… Mas foi mesmo! Uma rápida não se perde assim. Que mocada, hem!

E Foscoa tinha vontade de lhe saltar outra vez. Foi nesse termo que O Homem da Picha Triste me disse, com a voz muito sonante:

— Em suma, para encurtarmos pormenores, resolvi-me envolver com ela.
— Mas a perna?
— Não quero saber mais disso! Pe
nsara eu lá da perna! Resolvi-me envolver com ela!

Monday, February 14, 2011


CONTOS DE RATAZANA
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OS FEIJÕES DO CASEIRO…

Hoje fui até ao bar, onde me colocaram no canto da parede que desde sempre me alapei, mas que nem sempre arranjei vaga. Também vieram duas joaquinas a acompanhar-me, que serviu para aumentar os números que fui engrossando por isto e por aquilo ao longo destas duas horas que estive no bar, o que me pôs novamente teso.

O lado engraçado da coisa é que fui atraído por uma delas que vi passar na rua. Pelo menos foi isso que me chamou a atenção. Mas fosse pelo que fosse, apareceu lá um indivíduo a dizer que ninguém escrevia uns contos de traições como ele. Nunca li os contos, mas o essencial era ouvir o que ele tinha para dizer. Esclareceu-me que distribuía no começo das semanas uns contos para ajudar um grupo de traidores a alegrarem-se, e como não há nenhum matutino que foque contos do género… no raio deste pasquim as traições andam sempre de mão em mão… é ele o fomentador criativo… e também o dono do bar… e diz chamar-se de Ratazana...

Mas vale a pena ouvir, é claro… focava o caso da gravidez-aborto da infeliz camareira com o tipo divorciado e virgoleiro. São sempre os tipos divorciados e virgoleiros que fazem os filhos às outras… estão sempre com tanta vontade de as engravidarem que não suportam ver alguém esquivar-se a não ter filhos. Portanto tem aqui uma boa história. Durante algum tempo deixei-me ser ouvinte, sem nada dizer, agora vou ser integrado no mesmo grupo. Porreiro.

Bom, estou integrado, portanto vou iniciar a minha traição. E tudo o que eu tenho a fazer agora, na verdade, é apalpar a loirita e a moreninha boa que se farta que eu vi atravessar na rua, com todas as ondulações como eu gosto, mas não se descasam uma da outra.

No bar começo a sentir-me francamente bem-humorado. Mesmo embora nunca tenha passado mais que duas horas por semana naquele local, sinto-me com uma força incrível, fora do trabalho. Vagueio pelo pensamento, tentando resolver qual das duas devo ir comer em primeiro lugar… como um jogador que faz palpite à sorte. Está um belo serão: sinto-me um homem afortunado…

De repente vem-me à ideia que vou ficar teso depois de levar as duas para a cama. Só por causa disso, resolvo ir à fala com o tal Ratazana. Não deve ser difícil orientar-me. Há demasiadas razões para que Ratazana me oriente. Porra, se for preciso até vou cozinhar um tacho de tripas ao meu restaurante para Ratazana comer, mas penso que não será preciso.

Deambulo pelas salas até encaminhar-me para a cozinha, tentando apanhá-lo só. Penso, talvez, lhe deva dizer simplesmente que estava indeciso na escolha por que me apaixonei por uma das suas joaquinas… pelo que ele terá de me ajudar. De qualquer modo, não estou preocupado.

Toco à porta duas vezes, mas não obtenho resposta. Já estou para dar à sola, quando a porta se abre e aparece Ratazana, de avental à cinta. Parece estar um pouco surpreendido…

«Diga… diga…», grita-me ele. «Traz algum problema? Se traz, liberte-o!»

Fecha a porta depois de eu falar e pega numa caneta que se encontra ao canto de um dos lados do balcão, aponta-me o local da pensão com ela.

«Eu mando ela para ali!», anuncia ele. «Saia e fode-a… Meta primeiro uma cobertura…»

Não entendo do que é que ele se está a referir e vou à casa de banho até que entro no quarto… A moreninha está deitada na cama, completamente nua, à minha espera.

«Eh, olhe, este corpo…», diz ela.

«Bom material!», digo eu. «Vamos primeiro aos miminhos...»

«Quer que lhe ponha uma cobertura?» diz ela, «que eu tenho mais jeito. Tenho muitas!» Tira um monte de preservativos de várias cores da bolsa e enfia-me um sobre o instrumento e vou para a cama. Olho para o corpo dela para ver se não há por ali nenhum tipo de mazelas… mas não me parece que a moreninha sofra de qualquer mal. Encavalita-se por cima de mim e agarra-me o instrumento.

«Chupo-o agora, um pouquinho?», pergunta ela. «Agora não quero ver-te a baldar!»

Começa a cena. Avoca durante um bocado. Tento afastar ela do pensamento, e derivo-o para as receitas da minha culinária. Continua agarrada ao instrumento e a lambê-lo…

É uma técnica tão sensual e relaxante que eu fico petrificado. Não sei se foi ela que me enlouqueceu ou se fui eu. Vejo a moreninha a mover-se no sobe e desce… Depois aumenta-o de volume...

«NocNocNocNoc!», geme ela.

A moreninha chupa num compasso forte. Também está stressada, parece que vai apanhar o comboio. Se eu tivesse enlouquecido estaria agora a baldar-me à brava.

«Pára», ordeno eu. «Desce para baixo e muda de posição. Vamos foder ambos… já sabes como é. Também vou querer dar duas… já o fiz noutros tempos…»

«Ouça seu Caseiro», diz ela, «mas que raio vem a ser isto?... O que é que lhe deu?»

«Mas então, não é uma traição, meu bem!», grito eu. «Uma traição onde tudo pode acontecer, onde se aprende coisas que nunca se souberam acerca de nós próprios! É da praxe!» Puxo a moreninha para mim e coço-lhe os bicos dos peitos enquanto continuo a gritar… «Quero conhecer aquela tua amiga… aquela cara de melancia da loirita… penso que vou gostar de ver uma loirita a comer uma morena! Talvez a deixe chupar-me em seguida, se ela der bem conta do recado! Como-as… todas menos aquelas pegas das chupistas. Só quero conhecer as traidoras que andem a foder sem se atirar à nota em primeiro lugar!»

Faço a moreninha levantar o cu para a montar em posição de arco, uma dúzia de vezes. Estou com o instrumento a bombear nela para aí vinte minutos, mas o mais certo é para mais do que para menos, e estamos ambos completamente em ardente labareda que saltamos fora dos carris.

De repente começo a vir-me e, por um momento parece que saiu de cima de mim um fardo de cinquenta quilos de bacalhau. Dou um suspiro longo. O instrumento murcha-se dentro dela e eu fico com cara de ressuscitado enquanto ela se levanta.

«Na próxima vamos fazer uma grande farra, meu bem», digo eu. «Fressura e tudo… uma gaja para a cama contigo! E com o meu tacho de feijões… sim, não podemos esquecer os feijões! Feijões e cona para toda a gente! Vou trazer o tacho para aqui! Vou ser traidor até cagar feijões…»

«Caseiro, acho que você está a ficar passado…»

«Passado? Qual passado? Não estou nada… Quero divertir-me. Quero que me apresentes algumas amigas… hei-de consolá-las até o filho da puta do último feijão mais pequeno que tenham lá dentro! E quando me consolar com elas, sabes o que é que eu te vou fazer? Levo-ta numa folga para a minha banca de cozinha e espeto-te lá o cu em cima das tripas para levares a minha receita para a tua terra!»

Estou ali deitado com a mão na verga e os olhos no traseiro dela, sem saber o que deva fazer ou dizer. Nunca vi um traseiro daqueles… nem sequer sabia que nestes lugares haviam queijos daqueles. Ainda tenho a sensação de que não explorei bem o esqueleto da moreninha. Quer saber se eu realmente vou em frente com o programa entre ela e a cara de melancia para fazerem sessenta e nove.

«Oh, claro… tu tratas disso. Eu apareço logo para te ajudar a foder essa gaja…»

«Minha nossa, quando a vires no trapézio! Sabes como ela faz? Atira-se de cabeça e chupa a buceta à moda brasileira…»

Já tem a calcinha na mão. Arrisco-me e peço um miminho mais e começo a ver a verga de novo a crescer. Agarro-me a ela como um náufrago prestes a afogar-se se agarra a um nadador-salvador…

Como-a por trás antes que ela possa mudar de posição. E naquela posição como-a com um certo jeitinho para não fazer mossa. Vou em andamento de vaivém e não vou deixar de o fazer. Não vou deixar de o fazer até ter esperneado como um galo e me sentir aliviado por dentro e por fora. E quando transpor a porta da pensão, aí vou apressar o andamento mais um bocado.

Corro para o carro para seguir para o restaurante. Vou para o restaurante e vou cozinhar ou fritar uma boa ementa para o prato do dia, umas beiças aos pratos, servidas com bons grelos e que possa constar da lista quando os clientes se repetirem e começarem as marcações.

Tuesday, January 25, 2011





CONTOS DE RATAZANA
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TOZÉ, CHICRINHAS E MEI
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Quanto mais tempo passava sem dormir mais falador se tornava e começou a ficar chanfrado e a disparatar com os condutores dos carros que estacionavam no parque do quarteirão – esses condutores, ante tanta falta de educação por parte dele, revelaram ser tão malcriados quanto ele – «Queres saber porque é que eu estou aqui?», – Chicrinhas ofereceu a Tozé mais algumas confidências. – Mas queres saber ou não? – E disse-lhe logo, sem esperar pela resposta. – «Por causa de uma mulher. Pois é, pá, por causa de uma esperança da minha vida eu ando para aqui a chutar pó, a ver se me esqueço dela, já que ela se esqueceu de mim.» - E: «Como é que te hei-de explicar? É algo que brota aqui do meu mais profundo ser (e apontou com o dedo o coração), juro-te: quando a beijei toda, até fiquei sem saliva na língua, as minhas peles até mingaram que eu quase estiquei do esqueleto, e eu já beijei muitas miúdas mas, como aquela, juro-te que nenhuma. Chiça, pá, ela tem cá um calor que eu derreto-me todo em água.» - Já não sabia que dizer mais, dessa miúda que lha tinha feito o sonho num oito e que levara a sua vida entalada no pó branco, para dizer como fora esse momento, que ela passara a ser a visão desse sonho. «Não estás a entender», – o outro desistiu. – Tu não sabes o que é um gajo ser um teso, não ter um cobertor para poder roncar à vontade. Se eu tivesse um balão e pudesse dar a volta ao mundo, metia-la dentro comigo, só os dois, numa ilha deserta a comer cocos e bananas e a beber água. Depois, fazia-lhe uma dúzia de filhos e nem precisava de abono social!...» Quanto mais Chicrinhas se esforçava para explicar a sua obsessão pela miúda dos seus sonhos, Mais Tozé procurava evocar a imagem de Mei, mas não aparecia. A loucura de Chicrinhas começou a encher Tozé de raiva e frustração, mas Chicrinhas não reparou e deu-lhe um palmadão nas costas anda lá pá, puxa por ti e conta lá a história das tuas gajas.

Oito dias depois de se conhecerem, Chicrinhas aproximou-se da porta do trabalho de Tozé, empregado de mesa da Boite P.A., e chamou-o ao lado. «Meu irmão! Não orientas aí o resto duma cerveja e um cigarrito cá para o amigo que já não fuma desde ontem?» – Foi assim que ele entrou. Tozé fitou-o bem nos olhos e exclamou em tom baixo. «Entra e encosta-te ao balcão mas não pies alto.» – A seguir, ordenou ao colega de serviço que lhe orientasse uma cerveja, não queria correr o risco do patrício(1) manjar e lhe fizesse pagar a bebida. Instantes depois, entrou e empurrou Chicrinhas para o canto do balcão. «Orienta-te aí ao copo e tá calado.» – Disse ele, tratando de dar um arrumo ao serviço. E Chicrinhas não pediu licença a ninguém para beber de lance o gole de cerveja que embelezava o copo de publicidade BEBA SUPER BOCK. Depois disso, esgotou a paciência ao outro que o pusesse a fazer fumo dos queixos. O fumo alimentou o vício. No centro do cinzeiro, uma porrada de beatas foram transformadas por Tozé em charros prolongados com pó de talco, pitas de sal miudinho e cabeças de fósforos. E Chicrinhas deu o primeiro chuto aspirando para dentro todo o fumo possível e, a seguir, fitou Tozé de olhos abertos e disse: «O vício é um martírio privilegiado.» - A seguir ao primeiro estouro dos fósforos, Chicrinhas gritou como um desalmado. «O que é esta merda? Charros a deitar foguetes?» – Chicrinhas caíra na tentação do vício e o fumo alastrara-se até aos fundilhos das calças e ele arrastara-se até à porta cheio de histerismo. Lá dentro do balcão ninguém se mexeu. Cá fora, Chicrinhas, agitando os braços, dizia sem interrupções. «Estou a ver a ressurreição de Cristo, estou a ir para o calvário, e vou falar com o Pilatos.» -

Às vezes essas comoções terminavam em soluços. Chicrinhas, no seu esgotamento-para-além-do-esgotamento, descontrolava-se e punha-se a ganir toda a noite até cair para o chão e dormir. Não a dormir: a sonhar. Na fatídica manhã do seu trigésimo sétimo aniversário, dentro do seu carro, junto à praia do Cabedelo, em Vila Nova de Gaia, Tozé via dormir a amante e sentia o coração a encher-se até mais não de puro amor. Tinha por mais de uma vez acordado aos repelões, antes do nascer do sol, com o traga amargo na boca que lhe deixara um pesadelo, o seu sonho de reconstruir um lar único – dos casais que adoram o ar livre da natureza – e acabara por adormecer de novo enrolado na construção do paraíso ali à beira-mar. Despertando ao som das ondas e envolto no nevoeiro do céu, ficou irritado consigo mesmo por se ter esquecido da parte final do sonho. Ergueu-se sem ruído, agora estava bem desperto, e olhou pela janela do carro em direcção à praia, ainda enevoada. Lá um pouco mais distante, ouviu ligeiramente o chiar da passarada junto ao arvoredo ao pé da Fábrica da Seca do Bacalhau. Tozé puxou o pescoço mais para cima e pôs-se a fumar um cigarro, abrindo um pouco o vidro da janela. A areia da praia estava envolta em névoa, no meio da qual rodopiavam as gaivotas, fazendo a chiadeira do costume.

Desde o início do romance entre Tozé e a sua amante, no local do trabalho onde se conheceram, há mil e quinhentos dias, os sonhos tinham-se desvanecido aos poucos, da mesma forma que as ilusões se criaram no domínio imaginativo em que ele sonhara um dia: construir um castelo de areia à beira-mar para a sua princesa. Por isso, sempre que voltavam à praia, aquilo parecia tratar-se de um presságio de alguma coisa maravilhosa, uma vez que a curtição entre ambos eras totalmente diferente das outras curtições entre eles. Daí, o regresso à praia, em horário de pescador, animara o espírito de ambos e, depois duma boa curtição, dormiam até o sol raiar pelos vidros do carro. Quando ela acordava, via-o em cima do rochedo, tentando pescar com uma cana e uma linha com um anzol e um isco enfiado. Tudo o que é corriqueiro acaba por se tornar impróprio para consumo e Tozé sabia muito bem como devia fazer feliz a amante; tornar-se ele num verdadeiro erudito. Na manhã do seu trigésimo sétimo aniversário, quando a primeira luz do dia afluiu na praia a as gaivotas começaram dum momento para o outro a banharem-se nas águas, a beleza do momento cortou-lhe a respiração. Correu na direcção do carro onde a sua amante Mei dormia ainda e acordou-a com meiguices nas partes íntimas. Tozé sentiu vontade de fazer amor e não esperou sequer pela autorização das gaivotas, estendendo-se sobre ela, beijando-lhe a boca até desaparecer a comichão. Quando terminou, ficou a olhar para a inocência da silhueta meio adormecida. Ela tinha o cabelo comprido, loiro malhado, uma pele branca e os olhos atrás das pálpebras eram dum castanho claro. Os pais dela não eram conhecidos. Por isso, a união dos dois foi fácil e amor à primeira vista. Com o passar do tempo, foram trabalhar juntos para os copos e entendiam-se às mil maravilhas no mundo da copofonia. (2) Como não tinham filhos, transformaram-se numa união sagrada de amor único e soberano, onde a natureza era a rainha-mãe dos seus segredos e mistérios. Cheio de emoção, Tozé observou Mei enquanto ela dormia e expulsou o espírito maligno do pesadelo que o atormentava. «Quem diz que viver assim na praia», – raciocinou alegremente, – «ouvir o relento, cheirar o aroma, fazer amor ao som dos uivos das gaivotas a dançar nas águas frias e tépidas, sem pagar luz nem renda que é maluco: eu direi mesmo que malucos são eles todos.» -

Olhando fascinado a aurora maravilhosa, voltou a dirigir um discurso silencioso à amada adormecida. «Mei, eu faço hoje trinta e sete anos de idade e estou maravilhado com este amor. Só desejo do fundo do meu coração envelhecer ao teu lado.» – Disse-lhe enquanto ela dormia, atirando-lhe um beijo com a ponta dos dedos e inclinou-se para o lado e acabou por adormecer. Baixou logo os olhos. Nem um ai mais disse e ali ficou entregue ao sonho, como ele desejara. Desde o dia dos anos que Tozé andava louco de desejos apaixonados. «Parece que começo agora a viver uma nova vida.» – A união deles estava segura e tornara-se tão firme que nenhum cliente conseguia arrebatar-lhe a amante mesmo com promessas fortes de suborno de dinheiro ou até à base de bebidas espirituosas. Tozé alimentava uma secreta aspiração de dormir com ela na praia, o entusiasmo contava e era maior e, por muito que os amigos dissessem o contrário, ele é que achava que estava no caminho certo. Para isso, o seu carro fazia de quarto, o ar condicionado de frigorífico e os tapetes serviam de mantas. Por conseguinte, a secreta aspiração dele, levando-a todas as noites depois do trabalho findo para a praia, foi acolhida pela amante com um encolher de ombros como quem diz: «tu é que decides.»- Por isso, Tozé chegou à noite depois duma noite de trabalho, disse: «Não achas que seria uma delícia ir ver o mar?» – Ela respondeu: «Como queiras, Tozé.» – Ela compreendeu que aquilo para ele era uma espécie de jogo erótico e, como já estava habituada, resolveu sujeitar-se.

Tozé apareceu com o carro na rua e gritou: «Por favor, vamos embora.» – Ao cabo de vinte minutos, o carro de Tozé estacionou no local do costume, próximo da praia e ele ficou a olhar pelo espelho retrovisor a ver se vinha alguém atrás deles. Depois, olhou para o pequeno espelho da frente e viu o bigode engrossado e mal cortado, o queixo retraído, os lábios manchados de baton. Testa, rosto e nariz, tudo amarelo, amarelo, «O que é que esta mulher viu em mim?» – exclamou e reparou na sua agitação, que realmente estava doente de amor e não era só o erotismo que lhe criara aquela afeição por ela.

«Que raio de maluco eu sou», – suspirou para consigo. – «Merecia era que me dessem com uma vassoura pelo canastro abaixo.» – Mas não era o tipo de pessoa que se deixasse enredar por estas palavras. Em vez disso, encostou a cabeça ao ombro dela e deixou-se adormecer em sonhos: avermelhados como o luar.

O carro, apesar do seu formato pequeno e amanhado, era um sítio sólido, bastante exótico, apenas com o senão de servir numa causa complexa e excitante. Nesses tempos os amigos riram-se daquela aventura mas não faltou quem os quisesse imitar; embora apenas por um período de minutos ou até horas – de apenas tirar uns nabos ou coçar no pêlo – das suas futuras namoradas. Por isso, ali estava o carro, na praia, junto ao areal, ao lado do arvoredo, com as portas e os vidros bem fechados. Quando estava dentro dele, Tozé não se cansava de recitar na sua rouca voz de fadistola. São os seus versos preferidos.

Quem foi que inventou
A vida o trabalho e amor
Fez três coisas maravilhosas
Mas mais sábio


Foi quem se furtou à dor
E fez da vida
Um mar de rosas


Havia quem dissesse que o carro até dava mais brilho à praia e que se tornara numa lenda da praia do Cabeledo. Ao fim de meia dúzia de anos, começava finalmente a integrar-se na sociedade moderna e a deixar apenas o carro para a condução do passeio matinal. Mandou dar uma pintura nova ao carro e até os vidros mudou, bem como os tapetes já coçados e rotos de tanto uso terem. Muito poucos foram os amigos que acreditaram naquela nova mudança e, por isso mesmo, reinava no trabalho uma atmosfera barulhenta de aposta – saber se era para valer ou não – Tozé orgulhava-se de ter apenas uma palavra. Dormia agora num quarto das águas furtadas e a janela branca em flor, a escada tosca e velhas tábuas e a cama onde guardava um grande amor. A vida ali era doce e suave, tão suave e doce como árdua era a que se vivia dentro do carro; mas, mesmo assim, era uma existência tão fofa que valia todos os sacrifícios da vida.
…………....
(1) Patrão
……..…………….
(2) Bar de Alternes

Sunday, January 2, 2011




CONTOS DE RATAZANA
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AMIGOS E COPOS…



Margarida está apreensiva e o cliente de apelido Sacristão acabrunhado. Não posso dizer realmente o que vai sair dali. Claro que Margarida contribuiu para aquilo que a preocupa, mas o bom Sacristão…

Margarida mostrou as suas fotografias a Sacristão. Fotografias fabulosas, sem dúvida, atendendo às posições em que foram focadas. Mas Sacristão não conseguiu entusiasmar-se, pura e simplesmente. O que mais o assustou foram as fotografias em que ela aparecia acompanhada de um trio de gajas nuas. Uma com uma mama a chupar na boca, outra com um vibrador no cu e outra ainda, a fazer-lhe uma trombada de dedo. Primeiro acusou Margarida de gostar mais de mulheres de que de homens, mas ela tirou-lhe imediatamente a ideia da cabeça. Por fim, quando entendeu que havia meia dúzia de raparigas no bar com um programa dessa técnica, armou-se em ingénuo. Pelo menos é o que me conta Margarida… Não falei com ele na altura e se calhar não se perdeu muito. Tinha receio, pelo menos é o que ela me conta, de o deixar saber que o tinha levado um tanto pelo privilégio...

De qualquer maneira ela vendeu-lhe uma rápida dupla… e, se conheço Sacristão, também deve ter oferecido os prazeres. Sacristão diz que ela ficou verde quando levou a primeira… uma bela foda, cheia de malabarismo, onde ela caiu da cama de cu ao chão, duas vezes e a dupla foi em cima do tapete, em jeito de coelha, ao rubro. E não se mostrou ingrata por todo o trabalho que teve em não o deixar amolecer enquanto chupava todo aquele esqueleto…

Quanto às quezíliazinhas de Araújo… são por causa de Chaninha, naturalmente. Há dias passados estava a beber uma bebida e saiu da mesa por ver ela a insultá-lo. Desde então ainda não deixou de andar irritado. Sempre que começa a ficar ranhoso decide que vai abrir o linguado em provocações a Chaninha e então eu tenho de deitar água na fervura mais uma vez. O seu sistema nervoso já começa a vir ao de cima… e o meu também. Esta situação não se pode tornar num hábito sempre… ou ele se comporta como um cavalheiro para o resto da vida, ou inventa uma saída em grande para sair daquela em que se meteu. Continua a bater-me no mesmo.

«Fiquei muito fodido, sabe», conta ele… e aqui sirvo-lhe um copo… «e ouvia-a a mandar-me pró caralho. Almas do Mundo, pensei que não estava lá… pensei que fosse para outro… sei lá o que mais pensei. Mas não me descontrolei. Deixei-a continuar… fechei os punhos durante uns momentos e deixei-a provocar-me… Estava a puxar por mim… você sabe como é que uma vagabunda dessas age, não tenho de lhe contar como é… e estava a levar-me aos píncaros do inferno… Aquela filha da mãe! Por Deus, eu sei quem é o culpado disto… é essa barriga de unto desse Sacristão! Ele disse-lhe o que disse e o que não disse, foi o que foi! O diabo leve Sacristão! Se eu soubesse nunca tinha ido à mesa! Por que é que não me avisou para não me meter com aquela puta ordinária? Por que é que não tive suficiente rasgo para me afastar daquela sujeira?»

Mudamos de assunto e vamos para o futebol, Araújo e eu, durante uns breves instantes. Visto que parece que a conversa ganhou novos contornos, carreguei-lhe mais duas medidas de malte e logo Araújo prossegue. Raios, agora podia desafiar-me nas cores clubistas, mas não… quer de novo desabafar comigo, suponho.

«Deixei-a insultar-me», repete. «Deixei-a continuar até estar quase a pifar da voz. Então, lentamente, comecei a perceber que andava por ali bocas de Sacristão… Meu Deus, que situação aquela! Espero sinceramente que nunca eu tenha de perder a paciência por casos semelhantes, pode crer!»

Também o espero. De certeza, vou ter mais cautelas para que isso não aconteça.

«Mas quando percebi verdadeiramente que o que ela queria era deitar-me abaixo, eu… eu não sei como me aguentei. Deu-me semelhante vontade de lhe dar quatro chapadas e até de a esganar! Olhei para ela… e ela atiçou-me mais, com aquela cara de cu… e eu meti as mãos aos bolsos e desandei dali. Estava enojado daquele paleio de cadela baixa…Fartei-me de perguntar a mim próprio, para que é que me deu vontade de me meter com aquela tipa? Somente eu… ou outro parecido…»

Por vezes quando diz isso Araújo lança-me um olhar muito carregado, que eu gostaria que ele recambiasse por outro. Não sei se ele realmente gosta de mim ou não. Tem uma pergunta a dançar-lhe na ideia, mas ainda não se resolveu deitá-la cá para fora.

«Tentei pedir a ela que repetisse o que estava a dizer… quando me insultou com uma rajada de nomes do piorio… mas não o fez. Se o fizesse teria que pôr o coiro de molho…»

Nesta altura virei-me para atender outro cliente, e a conversa resfriou um pouco. Se eles se vão falar outra vez, Chaninha é bem menina de o enxovalhar de novo… e há qualquer coisa que me diz que o mais certo é eles mesmo não se falarem. Quando um caso destes acontece, não acaba assim do pé para a mão.

«Claro que podia entrar numa de caixeiro-viajante e levá-la a dar uma rápida ali na pensão em frente», diz Araújo. «Era o que melhor devia ter feito se eu adivinhasse… se eu… vc sabe onde eu quero chegar. Mas agora nem suporto a ideia de sequer olhar para ela. Cheguei a um ponto em que tenho medo de regressar ao passado, quando eu era um marinheiro…»

Tudo o que tenho a fazer é esperar que Chaninha regresse ao poiso de onde veio o mais rápido possível e assim fique o problema resolvido de vez. Não me posso dar ao luxo de ser o bombeiro a apagar fogos como ando, nem me posso dar ao luxo de continuar descontrolado por muito mais tempo; não consigo atender ninguém de jeito quando ando assim descontrolado, mesmo se consigo enfiar um café com pouco leite pela boca abaixo quando vou até à cozinha rir-me para as panelas e faço a minha folha a que chamam apuro, e estou lentamente a ficar seco.

Friday, December 17, 2010



CONTOS DE RATAZANA
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REZEM PELO CAGUINCHAS…



Ratazana aguarda-me para o ensaio… Ratazana das ideias cor-de-rosa de pingos de café e dos contos lordescos cada vez mais excitantes. É a seguir ao almoço… Acabei de embalar a pé pelo meio do bairro, de modo que ele encontra-me a chegar ao jardim de Arca d´Água… Vou ao encontro… e para lhe contar uma história espantosa.

A minha mulher castigou-me. Eu ainda não estou totalmente refeito do caso, o que é perfeitamente natural, se considerarmos que se trata da mulher com quem tenho vivido durante todos estes anos. Foi um choque tremendo, em todos os sentidos, ver uma bela noite subitamente a mulher ter posto trancas à rata, bani-la da minha mente e voltar-me as costas.

Claro que aqui há mais qualquer coisa que se passou. Sendo a minha mulher conforme é, os factos só se podiam dar desta maneira. E o resultado esta à vista…

Como é hábito, a pinga está na origem do problema. A minha mulher andou a massacrar-me durante as últimas férias, a meter-me as ideias na cabeça, ralando-me o juízo com o mau hálito que sai da minha boca de bebedor. E claro que tem andado a ralar os filhos quase desde a primeira vez em que nos pegamos a sério. Portanto, um dia, a cena estoirou.

Quando ouvi alguém a mandar-me um toque no telemóvel, ainda pensei que pudesse ser ela… Hoje era o dia em que Ratazana queria gravar umas cantigas do duo. E eu tinha-me preparado para o ensaio. Só não estava preparado era para a maneira como o estupor me saudou…

«Ontem a patroa abriu as pernas?»

Isso não são coisas que se digam à porta de um mini mercado, onde qualquer pessoa as pode ouvir, por isso levei-o para dentro da garagem e alapei-me no banco, para poder respirar mais à vontade. Então ele senta-se de frente para mim a ouvir-me a minha história…

O sacana não perde uma única pitada relevante. Não se escusa a perguntar-me simplesmente se eu a cansei, quando e como… sim, quase me diz como é que devo agir. Mais um toque de Ratazana.

Como já atrás ficou referido, passou-se durante as férias. A minha mulher deslumbrou-se com o sol, o que não partilho, regressou ao hotel e encontrou-me no bar a beber cachaças… se bem que ela tenha a certeza de que eu não estava grosso, pois reparou na minha postura quando a saudei. É bem provável, que ela tenha entrado em parafuso com o sol que apanhou… Não posso esquecer a maneira como ela se atirou a mim até eu ficar quase sem voz, para depois me deixar a falar para a parede e pôs-se a francos. Seja como for, a minha mulher passou-se no quarto onde ela, como uma parva… ou uma maluca… começou a despir-se às escondidas. Dois minutos passados estava enrolada no lençol e três minutos passados esticava-se na cama com as pernas de fora. Cinco minutos passados estava a blasfemar sozinha e passados dez minutos já eram pesadelo, eu tinha razões para me sentir um desesperado.

«Bem, mas por que raio é que ela começou a fazer-me isso?», grito eu, quando Ratazana faz uma careta. «Não fiz nada de mal, pois claro? Eu não ia forçar a minha própria mulher!»

«Penso que ela também o negava», responde Ratazana, deitando-me aquele olhar persistente e rufia que é o seu.

Ela também o negava! Sim, diabos a levem, suponho que sim. Por outro lado, não percebo por que é que eu me mostro tão nervoso. Como é que a minha mulher pode chegar a este ponto. Ela não deverá saber que, se as coisas se tornarem mais pretas, a família vai andar em grande reboliço por aí, e se puderam correr-me daqui e deixar-me sem nada que se manje, excepto um instrumento agastado e um gosto por álcool de muito boa qualidade do que aquele que está dentro das minhas veias? Como muitas outras coisas de que ela gosta… E assim continuo a contar-lhe o quanto eu a queria e as sensações que tinha enquanto a observava a caminhar e que grande que era o meu amor por ela… Ponho-me de pé e começo o ensaio à procura de relaxar o meu nervosismo e tanto a tocar como a cantar é visível uma grande descontracção com a viola na mão, como se tivesse renascido de novo para a música.

«E agora o que é que vais fazer?», pergunta Ratazana, já sentado com um copo de água na mão, depois de me ter dado outro copo, mas muito menos água.

«Seduzi-la outra vez, suponho», digo-lhe. «E se ela quiser… continuar.»

Continuar. Carago, como é que uma mulher o pode evitar? Tudo o que tenho a fazer é conquistá-la de novo… está numa de grevista geral, deixando-me cá com uma destas tusas… e não sou o único culpado, meu Deus!

«Pensei que ias abaixo por isto», acrescenta Ratazana, passado um instante. «Alguém disse que andavas destravado…»

Passo a cara pelas mãos, simplesmente. Reconheço que, perdi o controlo da situação que está á evoluir de uma forma mais rápida para mim. Então, enquanto estou sentado, Ratazana aproxima-se e instala-se na cadeira. Tem os dedos a mexer, com o fazem os músicos e fita-me no rosto.

«Sabes por que é que não te quero ver cair, não sabes?», exclama ele. «Claro que podia não me ralar e não seria teu amigo.»

Continuamos o ensaio divertidamente, gravando algumas cantigas com aquelas vozes que já percorreram várias salas no passado. Jesus, fazer só uma oitava! Verso rapioqueiro de cariz popular e no refrão, em vez de coro, solo de Kazoo. Mas aquele tradicional fado da dor de corno… vai animá-los um pouco… aquele fado de destroça corações vagabundos… começa a ganhar forma que os iniciados aprendem a sentir… não sei bem o que é, mas está a começar a entrar…

Quase tombo o copo quando deixo pousar lentamente a viola… faço outro intervalo. Encosto-me no sofá e ele senta-se sobre a mesa, a olhar para a minha cara, com uns olhos ligeiramente observadores. Ele insinua e sai-se com esta.

«Então, pá, não fiques aí sentado a gastar os pensamentos com ela», diz-me ele, «mentaliza-te se a queres dobrar…»

«Não a posso obrigar…»

Não é fácil obrigá-la. Tudo o que tenho a fazer é pôr a minha mente sobre a sua cabeça e domá-la por todo… ela faz o resto. Lá vem Ratazana com aquela conversa de moinante para mim enquanto desbobina o seu conteúdo sobre casos da noite, e não há duvida que faz uma reportagem notável dos boémios. Depois ri-se daquele jeito sem dó pelos meus desabafos e despacho-o com uma máxima para ele se calar.

«Vai-te foder!» Esfrego a mão sobre o nariz e ergo os olhos para ele, chateadíssimo. «Ensaiamos… ou queres deixar para amanhã?»

Ele levanta-se, mas não sabe o que lhe apetece tocar. Ainda está indeciso, prendeu novamente a viola ao peito e começou a dedilhar nalguns tons, mas parece ter criado qualquer coisa para ele não deixar de fazer dobragens de acordes, deixo-o tocar e fico a ver o que é que sai dali. Mas não o importuno… Ergo a viola e começo a acompanhá-lo de perto. Tiro uma batida compassada e arranco-lhe dois sins de cabeça… Ele volta-se para me dar a certeza de que faço uma boa ligação para o seu solo.

«Acompanha-me abafado!», pede. «Acompanha-me abafado!»

Portanto já tirou mais esta. De improviso, muito naturalmente. O artista… vou tramá-lo sem lhe fazer o abafado, mas não! Agarra-se no solo e abre com um trinado de cordas. Aquele início de entrada mexe-me cá dentro, como se de um sedativo se tratasse. É tão refrescante como um pirolito e quase da mesma frescura. Mas é um pirolito com sumo, meu Deus…

«Toca-o outra vez», digo-lhe eu. «Ouve lá, inventaste isso agora?»

Sim, responde-me ele, só uma parte. Ele pôs-se à procura de uma entrada e apanhou-o em seguida e foi assim que aconteceu. Mas talvez falte mais…

Depois de todo esta embrulhada, estabelece-se um pouco de acalmia na garagem. Tenho andado a melhorar os meus índices de tocador o que me surpreende neste capítulo. Ratazana ainda está a guardar o seu instrumento, ainda está a trautear a música. E há alguém a abrir a porta da garagem. Chamo Ratazana… parece um detective… e fico de olho pregado. Parece-me o filho de Ratazana, mas pode ser outra pessoa.

Mas não. É um condómino.

Já ensaiei ali meia dúzia de vezes, mas que eu me lembre é a primeira vez que vejo alguém a entrar pela garagem. Temos estado a fazer algum barulho que seja quem for que apareça ao portão sabe logo que há música na garagem.

O condómino mete-se dentro do elevando enquanto o diabo esfrega um olho e leva um menino atrás de si. E eu nem chego a ver quem é que entrou… para fazer uma análise… Ainda me agacho, mas por que raio, estou eu a olhar para o escuro? Ratazana olha-me com curiosidade acrescida e entra-me com esta.

«Estás a ver o quê?», pergunta-me. «Por que é esse vistaço todo?»

«Exercício», respondo-lhe, porra, devo ter o aspecto de quem esteve a fazer exercício. Dou uma esfregadela nos olhos com a mão e tusso profundamente. Então de repente lembro-me de que não tenho nada para o jantar e de que o tasco ainda deve estar aberto. Digo-lhe que vou dar uma mija e vou à fossa, onde abro a torneira para abafar o cheiro.

Quando volto, Ratazana já tem os instrumentos nas sacas. Pouco falta para as seis da tarde e o céu já escurece.

«Eh, Ratazana, anda daí e leva-me ao escritório (tasco) …»

Tem calma, tem calma… nem pensar em deixar aqui os nossos instrumentos. É o melhor que há… viver-se com música. Eu que vá até lá fora tomar um pouco de ar enquanto ele leva as violas a casa. Não vale a pena dizer-lhe que tenho pressa… ele tem a certeza de que me leva ao local e além disso…

«Venho já ter contigo», diz-me. «É melhor ires dando umas voltas ao jardim enquanto eu subo e desço.»

Assim despacho-me até ao jardim. Faço um pouco de exercício para aquecer os pés. Dou corda às pernas umas quantas vezes e faço os possíveis por dobrar o andamento. De repente Ratazana aproxima-se com o carro e interrompe a minha marcha.

«Tens essa barriga toda disformada», repara. Parece ter um olho clínico.

«Ah, sim… que novidade…» Tento enviar-lhe outro tipo de palavrão, mas é no momento que ele buzina e eu entro no carro. Peço-lhe para andar rápido e deixar de conversa fiada.

Custa um bocado até chegar ao tasco por causa do trânsito caótico, mas mal lá chego avio-me primeiro com o minha receita habitual. Não posso levar lagosta recheada porque sou alérgico ao preço. Havia lá uma coxa de frango de aviário, e isso foi o que eu trouxe para casa.

Lá vem Ratazana outra vez a dizer que eu estou a ficar encurvado. É exactamente o mesmo que a minha mulher já me ralhou. Mas ele leva vantagem pois consegue dar-me um tratamento para aliviar a magreza. E, durante todo esse tempo, eu à espera que ele fizesse algum convite… uma ida ao café… ou coisa do género… Eu próprio dei um lamiré… mas vai no Batalha…

O pior de tudo isto é que eu tenho de levar com ele e mostrar ser paciente, quando o que realmente me dava ganas de fazer era corrê-lo com um pontapé no cu. E tenho de levar com os seus conselhos… Ainda estou para perceber por que é que um homem que fica bem na vida segundo a boa vida nocturna… vir do zero e tornar-se independente… há-de vir dar conselhos a um vivaço meio idiota, mas Ratazana parece ter a noção de que não sei nada o que há a saber sobre estas coisas.

«Porque não a pões de lado e a riscas da tua vida?», pergunta-me, «ou deves divorciar-te da tua mulher?»

Tenho de o ouvir. Faço-o mudar um pouco de tema e afianço-lhe que há-de acabar tudo bem, que no fim do ano as coisas se hão-de resolver. E raios me fodam se eu acredito que as coisas se vão resolver a bem. Da minha análise isto parece uma das piores ensarilhadas que alguma vez eu pensei estar envolvido… e estou até ao pescoço…

Ratazana fala que nunca mais acaba e, uma hora passada, já me deu dezenas de resoluções. Uma coisa em que se concorda é que eu não vá andar à pancada com a mulher. Graças a Deus recebo um email… tenho que ir buscar o meu neto à escola e ele ainda me tenta reter.

Faço-o andar um pouco mais depressa, argumentando que falaremos mais sobre este assunto… Depois, já tenho os nervos destroçados… e este amigo! Quando puder vou a um psiquiatra. Tento-me alhear de tudo, mas Ratazana volta a malhar sobre mim e eu atiro-lhe à cara.

«Diabo, parece que me queres ver na desgraça?», berro-lhe eu. «Podia ter acontecido a ti e não a mim…»

«Sou um homem de sorte», diz ele. «Pensei que tu devias ter necessidade de ouvir um conselho dos bons. Realmente pensei. Vou ver se consigo que não me chateies mais…»

«Ouve, Ratazana, espero que a minha mulher abra o coração e me dê uma última oportunidade! Por que é que julgas que a minha mulher não mudou de cama? Para me tentar! Quem se deve oferecer é ela e não eu! Eu posso dar-lhe tudo o que ela precisa…»

«Não volto a falar-te dela, prometo!».

É o prometes! É um gajo carimbado e quanto mais ripostadas lhe dou, mais atiçado ele fica.

«Hei-de evitar falar dela! E… também não te ligo! Podes falar à vontade, que eu não te aconselho mais! Falas para a mundial… Hei-de evitá-lo, mesmo que consigas implorar-me para o fazer!»

Falas para a mundial! O rufia! Não insisto. Ainda sou mais tolo do que ele estar sempre a bater na mesma tecla. Já devia saber que não se pode trepar numa mulher que nos sacode ou nos rejeita, uma vez que tenha perdido o sentido da coisa. Paro de falar e Ratazana acelera em direcção à escola do meu neto.

«Agora, deixa-me aqui!», peço-lhe. «Puseste-me a garganta seca… aqui!»

Abro a porta do carro e mando-me pela rua adiante até me perder envolto no escuro da noite.

Monday, November 22, 2010



CONTOS DE RATAZANA
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O VENEZUELANO…


Recebo um telefonema de Ratazana. Quer saber o que houve quanto ao meu envolvimento com Julieta. Tenho de lhe dizer que não houve nada de nada… Ainda não estive com ela o tempo suficiente para lhe apalpar os cacos. Bem, então, raios o levem, quem vai tratar do caso é ele… onde é que depois o posso encontrar? Indico-lhe alguns locais onde é possível me apanhar e ele desliga.

Quando umas horas mais tarde me volta a ligar, parece estar tão confuso, como eu. Contactou-a para um privado e quer que eu vá ter com ela ao salão imediatamente.

«Mas o que é que isso vem daí? Olhe, fale você com ela… eu tenho de sair e vou à obra falar com o encarregado…»

Mas segundo parece ele empurrou-a para cima de mim. Receia que ela fique fria rapidamente se eu não for ter com ela.

«Ela disse que eu me estava a portar bem quanto a ela?», pergunto-lhe.

«Bem, ela não se abriu comigo como compreende, amigo, mas vai correr tudo às três tabelas. Assim que a conseguir assentar o cu no seu carro e levá-la ao jardim para tirar uma fotografia, isso transforma-se. O que é que há… você não a quer rufar?

«Quero… quero… claro, que a quero comer, Ratazana, mas não me agrada a ideia de tirar a fotografia. Sou capaz de borrar a pintura toda, se apareço com esta cara cheia de matraquilhos e cabelos colorados.»

«Não vai borrar pintura nenhuma… ela vai achá-lo romântico, quando você se puser a cantar Amorcito de mi vida. Para isso, é preciso lata.»

No fim faço horas para ir ter com ela, é claro. Se não fosse, fazia fraca figura. E até pode ser que, afinal, ainda se ajeite qualquer coisa… uns amassos, pelo menos.

Começa o sol apagar-se enquanto circulo e as putas começam a dar nas vistas para a venda do prazer. Pergunto a mim próprio quem arranjará uma puta a estas horas. Entesuados, provavelmente… qualquer outra pessoa sabe que se engatar agora uma puta terá de lhe pagar o cortiço. Uma delas enrosca-se no semáforo e canta-me o choradinho.

«É como o mel, Cavalheiro… e quase não custa nada… quer saber como é que o fazem na América? Sim, eu estive lá, Cavalheiro… a minha vida não era cá… nem coisa parecida! Mas estando o euro pelo binóculo… Talvez queira pagar uma e dar duas…»

Piro-me dela e percorro algumas ruas atrás de uma baixota. Telemóvel encostado à orelha… deve ser uma telefonista de ocasião, mas anda como uma bailarina. Galgados cinquenta metros fico c´um tesão do caraças só de olhar para aquelas ancas a manear-se à minha frente e envio um assobio em dois compassos. Para ver se ela me fisga. Não me fisga.

Quantas vezes, digo a mim próprio, já fiz isto… circular pelas ruas atrás de um biscate, como um rafeiro a farejar um osso… sem qualquer hipótese de levar fosse o que fosse. Aquelas ancas movem-se como os ponteiros dum relógio, separando a minha vida em bocados. Aqui vou eu atrás de um biscate que nunca comerei… um milhar de outros gajos devem estar à procura do mesmo neste momento… enquanto aqueles ponteiros continuam a balançar. Ainda bem que tenho para onde ir. Se não tivesse voltava atrás à procura daquela jeitosa de há bocado… não era má pinta, não senhor…

Da jeitosa nem sombras e eu já lhe perdi o rasto… mas ainda tenho o tesão que me provocou. É como sair o euro milhões, ficar entesado desta maneira e continuar com o pau teso à medida que avanço. A diferença é que não se perdeu nada. Juro mesmo que se algum dia vez voltar a encontrar aquela tipa, vou ter com ela e agradeço-lhe do fundo do coração, vou ter de confessar-lhe o bom que é receber-se qualquer coisa sem contribuir com nada e sem tirar nada a ninguém. Talvez não a torno mais a ver, a essas gajas boas que me seduzem ao longo das ruas.

Aguento o tesão toda a viagem até me encontrar com Julieta. Manjo várias gajas, uma após outra, imaginando sonhos à sua volta. Raio, devo estar a ficar um pouco pirueta… já estou outra vez a pensar com a cabeça de baixo… uma coisa que não me acontecia desde aqueles tempos quando imigrei para a Venezuela e andava tão desesperadamente em baixo, mas em baixo mesmo, que passava a maior parte do tempo em leve alucinação… Um bico… que fosse pró maneta. Quando via uma rata, de testa alta, a única coisa que me apetecia era sugá-la. Mas aprendi algo importante… pode-se estar em baixo de todo que a cabeça de baixo, não pensa noutra coisa que não seja foda. Ainda se ergue bem, cheia de arrojo, quando os tomates já estão encorrilhados e se estorva ao andar. Pode ser diferente quando se piora seriamente e o leite começa a escassear.

Ratazana não disse a Julieta a hora que eu vinha. Assim que abre as persianas para cima de mim, abre a boca estupefacta. Olha, olha… imaginem, ver-me ali! Dá-me um apertão na barriga e estende-me a mão… ia mesmo a ligar para ti, diz-me. Vejo que ela se sente um tanto embaraçada, mas mostra boa cara.

Santo Deus, a quantidade de merdinhas em que um homem tem de se meter para levar uma mulher a abrir as pernas! Nem todas as mulheres. Não seria de todo mais prático se um homem se limitasse a dar uma cantarola no ouvido de Julieta e dizer-lhe: «Vamos para um hotel, para escanar.» E até podia ser que Julieta alinhasse, se estivesse ganzada. Em vez disso, tem de se entrar à ganância e esperar pelas deixas. Julieta resolve que hoje é o dia da sua folga.

«Paga-me o almoço com senhoria!», exclama. «A minha folga…»
… Como estamos só nós os três no salão, a empregada fica tão surpreendida como eu ao ouvir falar em folga. Julieta insiste no facto, mas não se consegue lembrar de quantas folgas já teve.

«Gostava de dar um arejo», confessa, vagarosamente, «mas não tenho com quem…»

«Ah, não, também eu», digo eu sorrindo para a empregada.

«Bom…» A empregada está meia refeita.

«Óptimo!», exclama Julieta. «O restaurante é o local ideal para um almocinho de folga! Tu espera aqui… Ainda tenho de fazer uma coisa. Mas é rápido… é rápido!» Ao sair, sopra-me em frente do ouvido: «Vê lá, não te atires a ela…»

«Claro… não te atires a ela! Porra, como é que eu a vou proibir se ela se quiser atirar?»

«Põe-na a ouvir as tuas aventuras e descasca-te às gargalhadas… é o que eu lhe faço às vezes. Olha, faz como quiseres, mas não a deixes de antena livre.»

«Mas que merda esta! Por que é a gente não se vai embora e leva também a empregada? Há muito pouco trabalho por aqui, esta tarde.»

«Então, Castro, não venhas com as tuas merdas… Sabes como é que está a vida?»

«Não, não sei como está a vida, nem me preocupa. Onde é que queres que te leve a comer? Vais querer peixe ou carne? Bem… tu depois escolhes. Não me venhas é com algum negócio de vigarices que te engendraram? Porra, Julieta, a paciência tem limites! Tu e essas manobras todas vão-se foder antes de conseguirem o que quer que seja.»

«Shiu… fala mais baixo… Olha Castro, desde que te conheci nunca te lixei… se ganhar algum com a tua amizade, tens a minha bênção. É claro que se não me quiseres acompanhar não precisas de te chatear comigo...»

«O que é que te meteu na cabeça de eu não te querer acompanhar? Quem é que se ofereceu para te levar a comer? Quem é que se disponibilizou?»

Gostava de saber o que vai dentro daquela cabeça. Confusões… Problemas. Deixei voar as palavras como um miúdo com o papel atado no fio deixa voar o papagaio. Falei de toda a importância que era ela andar nos eixos e sempre que ela batia com a mão contra a minha, o batente correspondia a um ponto de interrogação? Ela ficou mais mansa e deixou-se ficar assentada com a saia por cima dos joelhos e a boca ligeiramente aberta enquanto tentava escutar o que eu estava a dizer. Chegou ao ponto de me deixar apalpá-la por baixo do assento, enquanto lhe cantava uma canção em venezuelano. Mas não me retribui a troca, a macaca… como sempre, com as armas em guarda. De qualquer forma nunca parou de responder.

Lá entramos nós no restaurante de mariscos na zona de Matosinhos e guio-a até ao fundo da sala, para um canto, e sento-a de frente para a parede, de modo a que não vejo nada de que não goste... Mas não estamos ali ainda há cinco minutos quando começa a mostrar-se inquieta. Não podíamos ir para outra mesa e deixar esta para os totós? Quer deitar os mirones durante um bocado. Concordo que é também uma ideia e assim levantámo-nos, rodopiamos o centro e sentámo-nos numa do meio.

Julieta está a alegrar-se. Mais um copo de vinho e já quer discutir outra vez. Pedimos o cardápio e vamos experimentar o prato de arroz de pato sem queijo. Por esta altura começo eu próprio a sentir os efeitos dos copos. Mais um abaixo. Julieta gosta do local porque está cheio de patrões. Depois da sobremesa e do café o que se segue a isto é um pouco de sarcasmo da minha parte e ela aguentou bem o sarcasmo.

«Se é o dia da tua folga», exclamo, «tenho de te levar aí a um sítio para te oferecer uma coisa…»

Uma coisa! Evidentemente que ela sabe onde eu quero chegar e assim que agarro o camareiro à mão, entrego-lhe o cartão de crédito e digo-lhe para pagar a conta, trazer a factura e vamos para o carro. A folga de Julieta! Sempre gostava de saber, por que é que ela não se havia de lembrar de dizer que era o dia da foda? O meu coração acelera quando a vejo a começar a encostar-se à minha perna e apontar o dedo para o azul do céu e o pau empina-se a rodo.

Calor, calor, calor… minha mãezinha, é loucura! E aqui vou eu quente como uma pipoca e com um vermelhão de cara que dá a impressão de ter andado a carregar sacos de cimento na obra… Bem, que tratamento lhe vou dar? Aquela filha da mãe e a sua folga! Uma trancada! Para a trancada tenho de a levar pela outra rua e, para que a coisa funcione bem, sou eu quem se oferece para lhe resolver os problemazitos mais drásticos. Falamos mais uns assuntos, digo que sim, e avançamos para a trancada. Bem, aquela rata, se ela me quer chupar umas massas, eu alinho… mas ela vai suar bem esta tarde! Vê lá, para onde me levas, diz-me ela…

No hotel em que entrámos não há bastante gente neste recanto afrodisíaco para inquietar a sua mente de viajante. Vamos pelo elevador e, quando chegamos ao quarto, paragem que ela imediatamente aproveita para mijar, já emborcámos uma garrafa de litro de água, fora as porções de vinho. À vinda trás com ela a mala e tem a camisa toda desabotoada. Assim que Julieta fica meia nua, senta-se com as costas apoiadas à cabeceira da cama. Tenta convencer-me. Uma mulher da sua posição não se pode permitir a que a vejam por aquelas bandas… não compreendes? Eu juro que só a quero ajudar a ser seu amigo particular…ela tinha dito que queria um amigo para a ajudar nalguns problemas… Ora aqui está o amigo e aqui estamos nós…

«Imaginar uma coisa destas a suceder-me!», uiva. «Oh, se alguém descobrir! Oh, meu Deus, se alguém alguma vez vem a saber!»

«Deixa-te de medos, desde que não saias fora da linha», digo-lhe, ao mesmo tempo que me sento do outro lado e começo a coçar-lhes as costas… Não quer que lhe crave as unhas, nem uma, insiste ela. Mas eu continuo a coçá-la por todo o corpo e a beliscar-lhe as peles e ela dobra-se um pouco mais.

«Coça-me mais!», grita ela. «Coça-me com força!»

Abre-se toda e mostra-me tudo o que tem à volta do seu sexo. Estou com uma tora acima da média, que aumenta de tamanho a cada minuto que passa. Julieta estica-se toda… tem as pernas abertas como se fossem uma ratoeira, à espera de me comer. Salto-lhe em cima e a ratoeira fecha-se. Ela aperta-me com os braços e as pernas e a rata fica em posição. A seguir dá meia dúzia de maneio ao cu como uma bailarina de hula e estremeço todo.

«Minha mãezinha!», guincho eu, passados três minutos. «Estou-me a vir! «Dou-te o meu leite como prenda da tua folga…»

Julieta esfria logo imediatamente após o meu guincho. Paro de penetrá-la e levanto-me da cama para que possa dar uso às pernas. Vou à casa de banho e quando volto Julieta entretém-se a contá-lo, pondo-se completamente alheia e pragueja quando da minha passagem.

«Olha para o raio de coisas que tu me disseste», diz Julieta. Faz retorcer a voz. «Isso só de ti… Dou-te a minha prenda! Tu é que me saíste uma rica prenda!»

«É uma verdade do catano», concordo eu. «Uma rica prenda como eu!»

Julieta pragueja mais um bocado, mas levanta-se para fazer umas chamadas pelo telemóvel, enquanto eu me coloco na frente do espelho.

Estou bonito pra caraças…

«Olha», diz Julieta, depois de anotar alguns apontamentos do telemóvel, «por que é que não te apressas para irmos embora?»

«Oh, Julieta, estou velho demais para toda esta correria… Raios, é só um minuto, nada mais… Eh, depois até podemos voar pelos ares, só para não termos que nos meter no trânsito confuso…»

Há uma leve discussão sobre a estrada que se deve tomar, mas foi assim que nos vestimos e saímos para a rua, antes de ver o dia escurecer.
«Não ligues à boca foleira que eu te dei há bocado, nem és uma prenda má…», desculpa-se Julieta, enquanto descemos as escadas.

Friday, November 12, 2010




CONTOS DE RATAZANA
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FERNANDO, MARLENE E FREITAS…



Freitas sempre acabou por tramar o encontro de Marlene. Conheço alguns pormenores do caso, mas Fernando já nos vê a todos a gozar às pazadas.

«Não sei o que se passa com ela, sabe», queixa-se ele embalado por um copo de uísque Famous Grouse, que pareceu ser a sua expressão de desolação face a uma vida de pecado, «deve ser do níquel… Mas, c´um raio, não me sinto culpado de os ter apresentado; na verdade, também dei à tal rapariga um certo empurrão…»

Por que motivo, belos pecados, teria Marlene faltado ao encontro com ele? Eis uma coisa que Fernando não entende. Se isso não se tivesse dado, tudo teria sido legal… teria passado uma tarde em nice com ela, e as preocupações quanto aos negócios que fossem pela ribeira abaixo. Mas, assim… assim, sente-se realmente partido.

«Marlene zangar-se-ia se eu tivesse comido uma amiga», diz-me ele. «Ela tem miolos suficientemente espertos para compreender que coisas como essas acontecem; que, de quando em quando, um homem necessita de descarregar baterias. Mas c´um caraças lá ia eu saber que ela não vinha à festa… uma festa com tantas vistas a baterem-se a mim? E o dramático disto tudo é que eu dei uma má foda! Agora, aqui para nós que ninguém nos ouve, veja na posição em que fiquei sozinho diante daquele arsenal todo… não sabia quem devia escolher para me satisfazer totalmente, ou se devia armar-me em parvo para que elas me escolhessem a mim.»Freitas deve ter-lhe assobiado aos ouvidos – ou então limitou-se a estar na sombra e deixou-o perfumar a sala toda, pois Fernando é um vicioso fumador de charutos cubanos.

«Marlene, mostrava-se tão certinha a respeito de compromissos… andava sempre colada a mim, era uma coisa que se metia por mim dentro. E, no entanto, deixou-me colado ao sofá, desejosa de fazer não importa o quê para agradar a quem… era uma rapariga perdida no vício…»

No estado em que ele se encontra, tudo aquilo que eu pudesse dizer só ia contribuir para o enfurecer mais. Das duas, uma: Ou pensava que eu estava a encobrir uma boa colaboradora cobiçada, ou entendia que eu o tinha deixado fazer figura de morcão. Opto por me deixar estar calado atrás do balcão e faço votos para que quando o leão vier para o Palácio de Cristal eu esteja lá com a minha máquina fotográfica para lhe tirar um boneco. Deixo Fernando desabafar… tenho ouvido histórias mais bizarras só para vender uns copos a mais…

«Não creio que ela fosse com outro», diz, com ar apreensivo. «Se o fosse, não me tinha telefonado passado duas horas a dizer que se tinha esquecido… Calculo que se embebedou nalgum bar ou coisa parecida. Mas foi malfeito um tipo sentar-se à espera da sua miúda, e ficar a ver navios. Mas, quando estiver com ela na próxima, vou comê-la e, obrigá-la a fazer tudo em câmara lenta… Meu Santo Pau! Que rica foda… e eu consolo-me… e não consigo esquecer a ela… Que raio de vício, pá, você, conhece-a bem, o que é que ela é capaz de fazer durante o dia, se não faz nada? Acha que vai fazer uns cabritos? Minha Sorte. Quem lhas vai cantar sou eu, quando estiver com ela…»

Tem sido com casos deste género que Fernando se tem deliciado a passar o tempo. Quanto a Marlene, a história é outra, mas é também uma boa história. Por qualquer razão quer levar-me a crer que anda envolvida em saltos de trapézio sem rede… talvez julgue que eu me vou chibar a Fernando e ele sinta dor de corno… Não se esquece do tal jogo do pau de dois bicos…

Trata-se de dois certos tipos… tão certos que Marlene nem se preocupa com os demais. E segundo se consta, aqui há umas tardes, esses tipos já lhe fizeram uma proposta a dar para o arrocho, no atelier de Marlene. De acordo com a história que Marlene me conta, ela apresentou-lhes uma estimativa mensal para que eles a lessem, um de cada vez, que os deixou assustados. Então, quando se deram conta que ela não regulava pela boa, ficaram calados, telefonavam-lhe para a convidar para a cama e gozavam com ela…

Se ela ao menos tivesse feito uma redução! Se esses melros fossem gente rasca, por exemplo, eu ainda a podia acreditar… Mas estas personagens eram de peso… talvez cofres… e toda a exorbitância soma de números corresponde à montagem de uma matemática que só existiu na sua cabeça.

«A forma como se esquivaram!», exclama Marlene, fingindo um assopro. «As coisas que fui obrigada a ensinar! Não há palavras que as descrevam… nem quero pensar nisso! Agarrada a um telefone! De pernas abertas, e à disposição de homens sempre prontos a malhar! O que eles não fariam se algum dia eu viesse a faltar!»

Marlene, a não ser que tenha juízo, está sujeita a afundar-se. Em Portugal, quando uma mulher começa com espertezas deste género, vai a um charlatão para lhe darem sugestões. No Porto é mais provável que acabe numa cama de pensão com uma amiga e um chulo munido de uma faca de algibeira…