Tuesday, November 10, 2009




CONTOS DE RATAZANA
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Cris e Nanda

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Cris, recordou as suas histórias marotas… e alguma confidência de foro íntimo, destinadas a fazer ver ao imigrante de Luxemburgo, que ela também tinha um pouco de maroteira. Assim que ele saiu do bar, ela diz a Nanda sua amiga de longa data e a mim que ele é nabo.

«Ele está a morrer por outra coisa», diz. «Mas que merda se passa com estes cotas? E que ele está a portar-se como se fosse um patinho feio, prontinho a pedir tudo o que lhe venha à tola. A única coisa que lhe falta fazer é dizer que me vai cortar a mesada.

Nesta altura, ouve a voz do imigrante de Luxemburgo, que volta a entrar no bar. Passa-se qualquer coisa com o estacionamento do parque automóvel. Haverá alguém por aqui que vá a sair?

Ele não consegue tirar o carro do parque.

«Olha aí o tens, Cris», diz Nanda. «Ele está a fazer-se ao piso e não o quer dizer. Só tens que o levar para o quarto e ver como lhe há-des dar a volta. E se precisares de ajuda é só dizeres.»

Cris ainda não está há três minutos no quarto, quando soa um berro e o imigrante surge a entrar no bar, com Cris mesmo atrás dele. Ele dirige-se para o quarto de banho e, tal como eu calculava, ela vem com o rosto um pouco avermelhado. Deixa-se cair de encontro contra Nanda e desabafa umas calinadas contra ele. O imigrante, diz em voz ofegante, levou umas palavras não habituais e atirou com o dinheiro para o chão.

Nanda, com ar revoltado, exclama para Cris: «Reles cabrito, como te baixaste!?»

Cris, de olhar esquinado e língua à solta, não teve papas na língua. «O imigrante e eu despachamos as roupas rapidamente, e disse-lhe algo habitualíssimo. Olha-me para o meu pipi! Adivinhas o que ele quer? Uma língua. Os nossos sexos podem gozar, não é só c´o pau, a língua também é uma foda. Eu já com o pipi à mostra e ele pira-se. Olhai, como me deixou!»

A vivaça Nanda não quer acreditar naquilo que está a ouvir. Desencosta-se um pouco de Cris e olha-me para ver se ela está a falar a sério, enquanto Cris coça firmemente nas mamas e diz para eles abrandarem o calor.

«Olha Cris», diz Nanda, «muda de programa para o levares livremente. Há sempre uma possibilidade dele escorregar… e se há alguma coisa que atrai um homem é uma vagina a descoberto, por isso com astúcia trata-o de modo que ele não pense muito.»

Cris dá-lhe uma palmada com a mão na perna. «Óptimo», diz-lhe. «Deste-me uma boa ideia.»

«Bom», suspira Nanda. «Agora, minha filha, vamos mas é atirar-nos à vida que se faz tarde e topa aqueles dois gansos atrás de nós, que é a única maneira de ganharmos o dia.»

Elas desencalham-se da mesa e eu passo para o balcão.

Cris está confiante de verdade. Possivelmente, pensa que em dar uma demonstração física já é suficiente para ter o freguês debaixo de mão. Mas ainda nada está decidido para fazer uma saída…

Nanda vê-se grega para se conservar imóvel não aguentando o ímpeto do outro freguês a insistir meter a mão pelo corpo e apalpá-la toda.

Conseguiram concordar o preço em parte mas a concordância deles retarda-lhes a voz… não confirmam, pedem-lhes uns minutinhos mais de conversas, para as avaliarem.

Cris inclina-se para um deles e exclama:

«Não nos façam perder mais tempo, por favor! Peço-vos que resolvam porque lá dentro do quarto é mais agradável a brincadeira… Prometo-te meu chuchu, que não te vais arrepender! Não nos façam perder mais tempo…»

As suas boas palavras dão resultados seguros. Talvez tão seguros que os fregueses mandam vir duas bebidas para elas, com direito a alternos, como lhes pede Nanda, primeiro há que beber para depois sair.

Cris insinua que tem as mamas a arder de calores e o outro freguês e Nanda param de brincar com as beliscadas um ao outro…

Bom, parece que eles já falaram e combinaram tudo o que tinham a dizer, e nesse momento, chamam-me à mesa, para lhes levar a conta.

Eles já estão com as notas nas mãos, bom, ainda me deixam uma gorjeta, e saem dali aptos para a fornicada.

Quando eles estão a entrar no quarto, Cris dá um salto para a cama.
«A cama está tão quentinha à nossa espera», grita-lhes Cris. «Dispam-se, ó fofos… senão, vai o calor ao ar…»

Estão todos realmente à vontade. Estão aparelhados, e a cama vai ser testada para ver se consegue aguentar com todos os corpos…

«Aqui tens um bonequinho para te aquecer o pipi», grita-lhe o freguês de Cris. «Talvez não seja a tua medida, mas não te preocupes… há muito tempo para ele engrossar… Embute-o, pá… Vais-te atirar ao ar quando o sentires… »

Nessa altura, estão realmente a dar o máximo em cima delas, quando se ouve o comentário do freguês de Nanda.

«Ouve, minha menina das calcinhas pretas, vou dar-te uma foda como nunca ninguém te deu, a não ser os cornetas… merda, se calhar ainda vou andar por aí a vender as minhas fodas, talvez gostes de levar comigo... mas não, quando esta acabar, tu vais estar pronta para outra, e para as que hão-de vir…»

«Não empurres á bruta!» suplica Nanda… ver o pénis dele em forma de gancho parece-lhe de longe pior do que ver simplesmente a piça de um cavalo. «Não a podes empurrar à bruta!»

Mas o freguês está-se nas tintas para o suplício dela e continua a cavalgar na pradaria dos pêlos que nem um batman das trevas. Ao lado, Cris esconde a cabeça debaixo da almofada e geme.

O quarto começa a parecer voar. O sexo deles cheira como o álcool e o mundo balança como uma garrafa. O freguês de Cris nem um ai dá depois de se vir, empurra-se para o lado e estica-se ao comprido. Ela está com tão bom aspecto como quando começou, só está um pouco mais aberta.

«Eh, Nanda», grita Cris, «está um fio vermelho a sair-te da racha! Acho que é menstruação… vai-te lavar à casa de banho.»

Nanda dá uma vista de olhos para baixo e levanta-se da cama para ir à casa de banho.

«Bolas, logo agora que estava a engrenar a sério é que tu havias de vir com essa boca, Cris!», protesta asperamente o outro freguês. «Já não basta o meu azar de ficar aqui com o meu esperma… só lhe apalpei as mamas… Venho-me agora como? Verdade, verdadinha, se não me deixar comê-la vou ter de lhe descontar metade do combinado e não quero vê-la mais… por enquanto.»

Nesta altura a Nanda está já debaixo do chuveiro, mas Cris desenrosca-se do meio dos lençóis e deixa o freguês a falar sozinho…

Pede a Nanda para lhe abrir a porta e depois de estar lá dentro, dá-lhe uma palmada no rabo nu… não contavas com esta, pois não, minha fofa? O gajo tratou-te muito mal. Agarrou-se a ti a lamber-te… parecia um canibal...

Nanda nem espera pela água quente. Enfia-se debaixo da água fria e enxuga-se à pressa. Ela está demasiada compenetrada e tira do pequeno saco um batom e passa-o à volta da vagina húmida como se estivesse a dar uma pincelada... Cris acabou de urinar.

Depois, saem para o pé deles; eles já desistirem de se porem em cima delas… limitam-se a estar ali sentados na cama e esperar pelos acontecimentos… não é necessário correr.

Nanda tem um aspecto tão frágil que ela nem parece estar a mentir. Desculpai, lá, remete num lamento, isto não estava no programa. Não estava nada a contar com isto, mas já que veio… não há solução a dar-lhe… nem a mim nem a vocês…

Claro que isto era tudo o que o outro freguês não queria ouvir. Mete-lhe um dedo na vagina e faz a sua análise ao cheiro. Ronca como um camelo perdido e volta-se depois para pegar numa toalha à mão.

«Já cheiraste?», pergunta Cris e aponta para uma tonalidade pintada sobre o dedo. «Agora, talvez te deixes convencer, que é verdade, qualquer uma mulher está sujeita a isso… talvez confies em nós, de como somos…»

«Vamos confiar na cachopa, pá, e deixá-la em paz», diz o freguês de Cris. «Se calhar ainda acabam por nos darem uma goela! Vamos pagar-lhes e vamos embora. Já gozei como um lorde e saio daqui satisfeitíssimo…

O outro freguês inclina-se sobre Nanda e diz-lhe ao ouvido, baixinho. «Que dizes, minha morenaça? Aposto que amanhã já não te lembras das nossas fronhas! Oh, raios, não faças essa cara, estás entre fregueses… os teus fregueses da próxima. Já alguma vez ouviste falar mal de nós?»




FIM

Sunday, October 25, 2009




De
Ratazana
Rua Barão do Corvo, 1042
Vila Nova de Gaia
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V. N. Gaia, 22 de Outubro de 2009
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Exmos. Senhores:




Permitem-me esta minha análise, de sair a terreiro em defesa do meu mestre José Saramago. Como escritor e analfabeto que sou, custa-me não ver a Sociedade dos Escritores nem a Sociedade Portuguesa dos Autores defender o nosso prémio Nobel de Literatura que temos, e que todos os portugueses se podem orgulhar de ver esse prémio ter sido distinguido a um nosso cidadão. Por coincidência, também sou neutro, e como tal, defendo a tese do meu mestre. O meu deus, sou eu. Quando vejo figuras parlamentares, pessoas de peso e padres de galões blasfemarem o meu mestre, revolta-me, porque ele, está acima dessa gente toda, e trouxe prestígio a Portugal.

Por favor! Tratem bem o meu mestre, porque tão cedo não teremos outro igual.
Até me rio, quando dizem que o meu mestre está a fazer publicidade à sua obra de Caim. Quem precisa de publicidade sou eu! Já escrevi 32 livros e não houve uma editora que me aceitasse!...

Analfabetos, onde quer que estejais… guiai-vos por mim…
Cada um de vós sois o vosso deus. Eu guio-vos…

O meu nome é Ratazana.
www.bardotraidor. blogspot.com/

Saturday, October 24, 2009

Friday, October 23, 2009




CONTOS DE RATAZANA
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Buraco Sexual
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Gustavo, o Gugu, do grupo do Bar do Traidor, está sentado quando entro. Tem estado à espera que eu chegue ao bar, diz-me, e fica contente ao saber que eu vinha com a ideia nele. Mas mostra-se mais interessado a respeito da primeira conversa que me recomendou ao ouvido… Não lhe digo que ele vai ter que se chegar à frente com cem euros…

Não há problema por não me ter esquecido de lhe falar no preço. Ele já deve calcular. Já despachou uma gaja da mesa, diz. Afinal de contas, ele não a desejava. Quem ele desejava era a mim, que me tinha visto, na companhia dum cabrito, a ir fazê-lo para a pensão e sente-se injustiçado.

As putas estão a ficar fora de moda, mesmo oferecendo-se aos nossos olhos, oferecendo-se aos nossos próprios olhos, repete. A seguir, faz um dito cínico… é notas o que elas estão à procura oferecendo-se aos nossos olhos… mesmo oferecendo-se aos nossos próprios olhos.

Gugu está pouco gentil, nem um copo paga, julgo que esteja à espera de que eu o desafie. Tem as pernas unidas e trémulas, com o fumo do cigarro a envolvê-lo e, pelos vistos, não planeia sair dali tão cedo. Pergunto se ele se sente bem. Sim, claro, sente-se fino… somente um pouco desgastado… e disfarça a olhar para o meu rabo. Bem, digo-lhe eu, vou-me fazer àquele gajo que não pára de olhar para mim… e é então que uma mão dele se levanta e coloca-se no meio dos meus joelhos.

Poucas vezes o vi tão descarado… Quando senti a força que ele estava a fazer, fui obrigada a agir.

«O que é que tu queres?», perguntei-lhe. Gugu retira a mão e, leva-a na direcção do meu cu e coça-o.

«Só uns doze minutos de prazer e tu nem dás por ela», diz. «Mas agora, Isabel, pela tua saúde, não digas que não, está bem? Sabes como eu sou tarado.»

Puxa o copo de Coca-Cola e bebe um trago de relance.

«Há quanto tempo é que manténs essa cisma?» pergunto-lhe. «Quanto é que me dás? Ofereces-me cem euros e eu dou-te o meu olho.»

Lá vens tu com essa boca suja… devias estar calada e não mandares cá para fora esses palavrões. E, sabe Deus, para te dar cinquenta euros já é bem bom, oferece-me Gugu. E, acrescenta à defesa, eu não te quero só para uma vez… todo darei em duas vezes.

«Mas isto é uma coisa que não passa daqui», continua. «Bolas, só há uma coisa que tu me podes satisfazer… já sabes o meu ponto fraco. Faz-me esse favor e verás que não te vais arrepender. O meu problema é que o meu olho viciou-se pelo teu e agora não à volta a dar.»

Gugu abre as pernas e exibe-me o pau protegido. Para ter a certeza de que eu o sinto bem, puxa-me a mão.

«Se quiseres, podes a levar», atiça-me. «Mas tens que baixar primeiro a parada.»
«Gugu, vai-te tratar meu filho. Vai tu com ela para a cama», respondo-lhe.

Gugu julga que eu não sou de cá. Não está a fazer nada que qualquer outro cliente não o faria, etc., etc. No entanto, já de lá venho e não baixo a minha parada, garanto-lhe. Gugu sente-se pior.

«Merda, Isabel», diz. «Devias ser mais minha amiga. Nunca pensei que um dia me ias fazer isto, deixar-me aqui de pau teso.» Empurra o copo prá frente e encosta-se para trás do sofá. Tira o tabaco e acende um cigarro. «Olha como estou nervoso. Não tens dó de mim? Vais ver o que te vou fazer, quando me vieres cravar pró tabaco. E és tu que ficas a perder.»

Estava a entoar na sala a música da Bunda Brasileira, e ele excitou-se de tal modo que interrompeu a bebida e começou a gaguejar.

«Dou-te mais massa para te comer o rabo», oferece-me ele, «mas só te pago quando fores a segunda vez comigo.»

«A segunda vez!», exclamo. «Queres fazer-me passar nesta idade por burra? Quando eu era ingénua… «Claro que caía à primeira. Mas isso agora não significa que caia à segunda…»

Gugu deixa de me prestar atenção e começa a fazer festas ao pau...

«Estás a ver, pá?», diz Gugu. «É doido pelo cu e pelo gozo que dali tira. O “tusto” nada tem a ver com isto, mas a partir disto, tu só pensas em sacá-lo.»

«Mas, Gugu, quando meteres o teu pénis no meu cozinho fofo, quando eu começar a sacudir-me de um lado para o outro contra o teu… podes crer, não te vais gaguejar com nada que não tenhas experimentado.»

«Não me fodas», protestou de repente ele. «Deixas ou não deixas?»

«Se pagares deixo mesmo, Gugu… deixo mesmo, como te disse. Mas já sabes, não saio daqui sem os meus cem euros.

«Não quero mais conversas, Isabel. De qualquer modo, o que vou fazer quando sair daqui é tocar uma à mão, dá-me também gozo! E nem preciso que abras as pernas. Só preciso concentrar-me no teu cu…»

«O quê? O que é que disseste? Concentrar-me no meu cu?» Gugu fica muito estático. «Não me lixes, tu és velho demais para usar a mão, não és? O que eu acho, Gugu, é que tens de ter um buraco para gozares, não é?»

«Uma porra, é que eu tenho de ter um buraco para gozar. Quer dizer que tu também não gozas quanto te encabam?

«Não brinques, Gugu. Se queres saber, não sou como aquelas que to dão, ou sou? Gaita, tu nem vais acreditar se eu te disser que nenhum dos gajos que me comeu me pediu o rabo, juro pelo meu padrasto! E não foram poucos. Só clientes do Bar do Traidor.

Está para ali todo esticado, com a coisa dura que nem um bacalhau. E não pára de discutir comigo a possibilidade de eu fiar. Mas eu já estou cansada de o ouvir falar… quer me comer, diz, e se eu não lhe der o botão de rosa, ele nunca mais me vem visitar.

Eu então esfrego-lhe com o meu botão de rosa de trintona um pouco sobre ele e a seguir dou-lhe dois abanões à gaita com uma força que lhe deviam ter feito saltar os tomates.

«Ora goza, lá», digo-lhe. «Estás a ver o tempo que estás aqui a perder quando podias já estar a vir-te. Já viste isso? E tudo por tua culpa. Tudo o que tens a fazer é puxar do ter cartão American Express cá para fora, e a partir daí, já podes matar a tua cisma.

Apalpa-me as nádegas e quase me tira a camisa para fora das calças de ganga e eu vejo em pensamento os seus gemidos a soltarem-se…

Sinto-me realmente virada para outro lado. Estou em pior forma que Gugu e o aspecto dele não é propriamente uma flor.

Quanto ao cliente que me está a fazer olhinhos, dá-me a impressão de que é um bom cabrito. Agora, faz sinais se eu quero ir para a cama com ele, já!

Digo ao Gugu que hoje não estou interessada em fiados… fica para outro dia, talvez, mas mesmo assim não me quer deixar sair da mesa. Se o deixar enrolar, vou ver-me aflita para me pirar dele.

Então quando me vê resistir ao crédito mal parado do tempo longo sem juros, convence-se finalmente de que estou a falar a sério. Bom, diz, então fica para outra vez… Mas depois digo quando te virei procurar… vais ficar à minha espera…





FIM

Wednesday, October 7, 2009





                                                                  RATAZANA

                                                                     _______



− RATAZANA, PSEUDÓNIMO DA NOITE, transformou um dos seus sonhos de adolescente em toda aquela obra fantástica – disse Lucinda Encarnação, conhecida na noite por Nani, colega e amiga de Ratazana.


Esse adolescente, Ratazana, nasceu uns anos após a II Guerra Mundial e cresceu no período da ditadura. Traria para o palco da noite a sua criatividade e a sua inteligência pessoais, modeladas por uma época que apenas podemos visualizara em fotos destorcidas e semi-apagadas de imagens. Ratazana contou-me que veio ao mundo num mês primaveril a um dia de segunda-feira, por volta das sete da tarde, «porque esse tinha sido um dos poucos meses em que a sua mãe não ouvia novelas radiofónicas. A taberna da família ainda existe, em Vila Nova de Gaia, no centro das Devesas, próximo da estação ferroviária local.

− Contaram-me que, em pequeno, e enquanto miúdo da escola, muito corri – disse Ratazana. – Mesmo nesse tempo, era a favor de desgastes de energias. Sempre corri para me livrar das chibatadas de meu pai em público, por causa das patifarias que eu lhe pregara.

«Como era muito mais rebelde do que os outros meus três irmãos, não se interessaram muito para o que eu fizesse enquanto eu crescia. Por isso, tinha-me a mim próprio quase inteiramente para mim. E usei a minha liberdade para fazer macacadas e ver o tempo a correr, em frente à taberna do meu pai.» Muito cedo, o rapaz Ratazana sentiu-se fascinado pela banda desenhada, então constituída sobretudo por livros usados para revenda. – Havia um forte cheiro à imaginação. Na verdade, pode dizer-se que havia um fascínio intenso. Também havia muita emoção, do aventureiríssimo dos protagonistas e das histórias contadas. Penso que foi assim que começou o seu interesse de toda a vida pelas aventuras.


«Em rapaz, sabia que queria aventurar-me, logo que chegasse a hora. Quando se tem a sorte de poder aventurar quando se é jovem, tudo quanto lemos torna-se uma parte de nós, que podemos recordar durante toda a vida.» No princípio dos anos sessenta, os livros usados para revenda foram substituídos por lições de viola. – Lembro-me dos seus acordes e dos trinados das cordas de nylon, antes de serem transformados em solos, de passarem de um tom para outro, levando rapidamente os tocadores para músicas que só podia imaginar. E a taberna cheirava a música.
«Quanto tinha para aí treze anos, fiz a minha primeira aparição numa rádio local a cantar Ai Jalispo, uma coisa que o meu pai considerou merecedora de uma prenda. Ainda me lembro qual foi o mês, Setembro, mas, o dia escapou da minha memória.
«O meu pai mandou-me ir ao quarto, sem correrias. Avancei pelos degraus das escadas com serenidade, até abrir a porta do quarto, onde estava por cima das roupas, uma viola braguesa em segunda mão mas que provavelmente me pareceu nova. ´É isto que me fazia falta`, disse para mim.
«Nunca me separei daquele instrumento. Desde então, tive todo o empenho para aprender a ler a escala. Nunca faltei aos ensaios, nem sequer nos dias de jogar à bola com os outros rapazes da rua, porque queria evoluir bastante.
«Ainda me parece ouvir o lamiré do professor-guitarrista, depois de eu ter tirado o instrumento da saca.
«Sempre disse à minha mãe que queria ser um rapaz artista quando fosse grande. Na verdade, os artistas sempre me atraíram, e o artista cantor era o mais atraente de todos. Talvez isso se deva ao meu cinema de infância ou talvez seja porque os artistas cantores foram os primeiros que vi, quando era miúdo e, por isso, me pareciam mais artistas do que os outros. Acho que parecem mais coquetes por serem tão bem-comportados, com todas aquelas boas performances!»

A família Abraão era trabalhadora, um dado adquirido desde muito pequenos. – O facto de ser sermos trabalhadores significava que éramos cumpridores – disse Ratazana. A colocação dos porcos abertos ao meio da semana e pendurados ao comprido nos ganchos em cima do tecto da loja impressionava o pequeno Ratazana que, mais tarde, viria a confessar-se de ter dó do bicho. A sua mãe era natural de Miragaia, no Porto. O seu pai descendia de uma família de agricultores em Vale de Cambra. Abraão de Almeida vendia carnes de porco a retalho, mercearias e vinho de pipa ao copo na taberna das Devesas, em Vila Nova de Gaia. – Quando estava a organizar o Concurso de Sextas-Feiras, no bar − recorda Ratazana – veio ter comigo um homem maduro que disse que conhecia o meu pai, do tempo em que ele negociava porcos para a matança no Matadouro Municipal de Vila Nova de Gaia.

«Os meus pais achavam que eu tinha mais queda para trabalhar no balcão, do que os outros meus irmãos. Talvez tenha revelado ao meu pai uma certa inclinação pelo seu negócio e interesse em seguir as suas pisadas. Conseguia muito bem entender por que motivo um osso de porco rapado fazia jeito ao meu pai.
«Apesar de meu pai conseguir ganhar a vida razoável-mente como negociante de carnes, mercearias e vinhos, lidar com presumíveis bebedores contribuía para um certo receio de insegurança na nossa família. O meu pai era activista por natureza mas o seu trabalho colocava-o na posição de pacifista.

De todo o modo, não é muito diferente da minha própria actividade. Embora por natureza, não seja um ordenador, a aventura que escolhi como o trabalho da minha vida colocou-me numa posição não muito diferente da do meu pai… um pacifista com bebedores. Mas, na nossa família, nunca ninguém passou traça. É a vantagem de ser-se filho de um negociante de carnes de porco e mercearias. «A minha mãe era boa cozinheira e chegava a fazer mais de cinquenta refeições diárias. Era o seu trabalho a todo o tempo, e ainda sobrava tempo para deitar uma olhadela à loja, quando o meu pai ia às compras. Não me lembro de alguma vez chegar a casa e não a encontrar lá. «O nosso prédio onde vivíamos tinha mais de noventa anos e pertencia a uma família abastada de republicanos. Embora não fosse uma casa nova, a minha mãe era escrupulosa na limpeza e higiene. Usava um médio avental às cores que cobria o vestido menos as pernas. Nunca saía de casa sem se apresentar o melhor possível: asseada, vistosa, o vestido de bolas, os sapatos engraxados, uma mala pequena, os cordões de ouro a enfeitar o peito e uns trocos no porta-moedas, sempre para um remedei-o. Sempre admirei as pessoas que trazem trocos.

«Não era mulher de queixumes. Nunca a ouvi queixar-se. Também não era dada a meter-se na vida alheia. Nunca a ouvi dizer mal de ninguém. Só se preocupava com a família. As amigas que lhe apareciam lá na loja, não eram muitas, mas eram boas companhias. «O meu pai gostava de desmanchar o porco e trazer a carne que a minha mãe lhe pedia para a cozinha. Por isso, a nossa cozinha tinha sempre as mais variadas miudezas do animal. Lembro-me de meu pai ir trabalhar de grande bata bege que cobria tudo menos os socos de madeira calçados nos pés. Nunca o vi com a barba por fazer ou cabelo despenteado. Não era por causa do porco. Era por causa do respeito por si mesmo. «Muito cedo, alguns clientes gostavam de gozar do aspecto do porco pendurado no gancho e um deles chamou o meu pai a atenção. Eu ouvi o que ele disse.

− Ó, Abraão! Tens cabeça de porco? – Perguntou-lhe, mas o meu pai não lhe respondeu. Respondeu-lhe o outro.
− Então, ronca! – E cavou depressa, levando com um osso atrás das costas, com o pequeno.

«Os meus pais gostavam muito dos passeios domingueiros e levavam-nos com eles, sempre que era possível desfazer-se dos seus afazeres secundários. Nunca me esqueci das visitas ao Palácio de Cristal, dos pássaros nas gaiolas, do leão dentro da sua jaula, de vez em quando, dando o seu grito tenebroso. O passeio era sempre acompanhado por um farnel que a minha mãe trazia numa saca, com bolinhos de bacalhau, pão e sumo, para aquecer os nossos estômagos.» «Quando eu era adolescente «levei uma vida exterior muito viva. Os outros rapazes julgavam os outros pela sua vida interior. Posso não ter sido disciplinado mas era bem atinado.» 


Ratazana acrescentou que não participara em jogos e passatempos que considerava uma perda de tempo. Nesses primeiros tempos, a viola foi a sua melhor prenda e melhor companhia.


− A minha viola estava sempre ao meu alcance e eu andava com ela por todo o lado, como um bem adquirido, o que é uma coisa boa para um adolescente. Sentia que era a minha aliança.

«Eu era um rapaz popular e, por isso, era obrigado a estender a minha imaginação e penso que isso me ajudou a de-senvolver os recursos criativos. Não preciso de muita ajuda do lado interior. Além disso, o meu trabalho trouxe-me uma espécie de apreciação, pode mesmo dizer-se de amor, que nunca esperei. Talvez isso tenha tornado tudo mais belo, a branco em cima do escuro.
«O meu verdadeiro eu, é uma pessoa muito simples, tal como tem a ver com o aspecto publico. O homem não é muito diferente do rapaz. Quem queira entender-me tem de aceitar que sou deveras simples, como toda a vida fui. Quando se é assim em novo, é raro mudarmos. E eu continuo a ser o mesmo. Quando era adolescente, soltava-me na companhia da minha viola e da minha.» Uma paixão de rapaz a que pôde dedicar-se nas horas vagas foi armazenar tudo quanto tinha a ver com programas, especialmente programas de espectáculos e fotografias. – A minha colecção de panfletos, medalhas, cassetes e discos estavam rigorosamente guardadas. Gostava de ver cada coisa em seus devidos lugares e em perfeitas condições. Ratazana sonhava a tocar por todos aqueles palcos e, mais tarde, foi mesmo o que fez. O seu percurso estendeu-se a outros locais. – Nunca tinha actuado no Casino de Espinho − contou-me. – Mas, a primeira vez que pisei o palco do casino, senti que podia ir tocar a qualquer palco do mundo, porque tinha dominado a pressão. De pequeno Ratazana era tratado por Zé, na tropa por Almeida e Mambo e na vida civil por Fernando e, bem mais tarde, começou a ser conhecido por «Ratazana» pelos colegas do ofício, embora às mulheres a quem era apresentado, gostasse de dizer: − Pode chamar-me Rato, sem Ratazana!


− A minha infância não foi uma infância fácil, mas também não foi difícil. Nessa época não tinha uma noção muito diferente do que era harmonia. Tinha mais consciência do que estava certo ou errado.

Ver filmes e ler eram umas das actividades preferidas de Ratazana durante a infância e os filmes e os livros continuaram a influenciá-lo durante toda a vida. – Fui influenciado por Charlie Chaplin, Westerns e pelos argumentistas que criaram as personagens da BD. Travei conhecimento com vários artistas e músicos já qualificados quando era muito novo. O meu filme preferido de Chaplin foi Tempos Modernos. No mundo de Charlot dar oportunidade a alguém era um milagre, um caso que também vivi. Mesma nas histórias fictícias é importante não subestimar os outros. Os talentosos não podem ser deitados ao caixote dos papéis. Iniciando-se a trabalhar aos onze anos, altura em que completou a quarta classe, o jovem Ratazana foi o último dos irmãos a trabalhar por fora. A família Abraão vivia o suficiente mas havia sempre uma preocupação manifesta de amealhar o dinheiro que sobrava ao fundo da gaveta do apuro em latas, que a minha mãe me tentava fazer entender – guarda do riso p´rá chora. – Só mais tarde me apercebi da grande lição que a minha mãe me estava a querer ensinar a poupar.

«Sempre gostei de cantar e tocar viola e alinhei num conjunto de música popular de Vila Nova de Gaia. Lá, surgiu a oportunidade de actuar em clubes e arraiais e achei os arraiais maravilhosos.»

Ratazana foi tocar para o Conjunto Regional Realidade, convidado para tocar viola de acompanhamento. Conseguiu mostrar-se porque sabia alguma coisa de composição e, porque durante o tempo da aprendizagem, praticara a arte de solar. Não tardou a cansar-se das marchas e das valsas e começou a reunir outros elementos, onde viria a formar o conjunto, Os Mambos, de ritmos sul-americanos. O seu trabalho foi apreciado e inscreveu o conjunto no I Festival de Música Portuguesa. A indumentária original do agrupamento apropriado às suas raízes musicais, ajudou a receber do júri do festival, o prémio para o melhor conjunto original apresentado. Ratazana queria elevar o grupo a voo mais altos, embora os outros elementos não partilhassem as suas ideias. – Tinham demasiados problemas com os empregos. Pior ainda: as mulheres andavam sempre atrás deles, quando souberam que eu queria levá-los para fora. Decidiu incorporar-se no serviço militar para combater na Guerra do Ultramar e aderiu ao corpo de voluntários da 11.ª Companhia de Comandos, mal fez as provas, foi imediatamente incorporado. Foi para Angola, o que representou para si uma grande aventura.


− Foi realmente uma aventura longa. A minha curiosidade foi saciada e acho que razoavelmente gostaram do meu con-tributo. Sou um pau para toda a obra. Sempre fui prestável mas julgo que pensaram que servi com brio e zelo o meu posto.»

Aderiu ao grupo de guitarristas, violistas e fadistas que frequentavam o Café Tropical no Porto, que tinham trabalho e que procuravam iniciadores para programas extras.

− Desde a infância que me sentia profundamente agarrado pelo cinema e pela música. Profundamente agarrado. Os filmes e a música eram a minha paixão. Tal como a canção que tornou famoso Marco Paulo Eu Tenho Dois Amores, eu também tinha dois amores. Lia e via tudo que era magazine do ramo.

Em 1972, Ratazana relacionou-se nas mesas do café com várias pessoas enquanto parava no Café Tropical. − Alguém, que me conhecia, que sabia que eu andava à procura de um parceiro para tocarmos juntos. Na verdade, na altura, a ideia era começar um projecto novo, e felizmente tive essa oportunidade para me aventurar. Foi numa altura em que aquilo que não sabia era tão ou mais importante do que aquilo que sabia. Fomos a correr buscar os instrumentos, uma consagrada figura fadista ensaiou-nos e, ficamos a tocar numa confeitaria de Cimo de Vila até muito tarde durante várias semanas, coisa que sempre gramei fazer – disse Ratazana. Eu tinha vinte e três anos.

«Foi bastante bom conhecer Rufino Manuel, porque me ajudou a construir o duo musical Os 2 do Norte. Era muitíssimo bom na primeira voz. Quando concluímos o nosso repertório, contactámos um primo do Rufino, dono de um night-club, a pedir uma actuação, eu até lhe disse: ´Nós até tocamos de graça`. O meu entusiasmo foi notório. O nosso repertório, que sabia ser razoável, foi elogiado e, por aquilo que disseram de nós, o dono ofereceu-nos três meses de espectáculos. Assim, a nossa primeira actuação no mundo nocturno foi na Boite Roma, um night-club em ascensão na cidade do Porto.»

Entre 1972 e 1973, o duo actuou em festas e clubes, até desligar-me do Rufino por motivos pessoais e enveredei por uma carreira a solo, ao mesmo tempo que desempenhava outras tarefas. – Era o novo empregado de sala a tocar viola e cantar e fazer acompanhamento à artista de striptease que acabava o programa. Fazia qualquer tarefa que fosse preciso fazer na sala, fazendo por vezes o trabalho do balcão, na copa a lavar copos e o serviço do porteiro, na folga do titular. Sentia-me muito feliz no meu trabalho. «Naquela época, as camareiras da noite eram todas mulheres maduras e foi com elas que aprendi o vocabulário próprio. Nessa época, as mulheres maduras tinham muitas chances de trabalhar na boémia. Esse tipo de trabalho andar ao copo era considerado apropriado para as mulheres maduras, tal como a limpeza. Quando as novas casas começaram a aparecer, essas camareiras passaram as ser menos procuradas, essas funções passaram a ser facilmente acessíveis às raparigas novas.» . Em 1973, encorajado com o ambiente nocturno, Ratazana optou pela sua adaptação no métier, seguindo as pisadas dos colegas, e candidatou-se a trabalhar na nova casa a estrear e, foi contratado. Durante este período, Ratazana acumulou a funções de chefe de mesa, e o facto de ter trabalhado com bons profissionais, toda a gente o levava muito a sério. A eles se juntou e, aos poucos, Ratazana exibia o sorriso, que queria ser boss.

− Nos meus primeiros meses, pratiquei a técnica nas mesas, baseadas nos contos das camareiras até passar por outras casas evoluindo como barman – contou Ratazana. – Quando apareceu o negócio de António Cândido, convidaram-me a tomar conta do estabelecimento. Depois, do negócio realizado, em reflexão com as paredes, perguntei a mim próprio: ´E quem vai emprestar o dinheiro para as obras?´ Respondi-me que podia fazê-lo.

«Tinha um amigo na noite, que era como se fosse meu pai, que ia ser o financiador da obra para eu prosseguir com o meu projecto. Só me pediu uma estimativa. Eu disse que me encarregava do projecto de obras, que comprava os materiais, etc. Chamava-se Oliveirinha. Confiou em mim e fiz alguns esboços para lhe mostrar. E assim passei a ser também um boss da noite.»

Ratazana designou para o seu bar um nome moderno e atractivo com toque inglês que começara a funcionar no dia 3 de Outubro de 1980. Chamava-se Club Lord.

Wednesday, June 24, 2009

CONTOS DE RATAZANA










 FLIRT ENTRE ACALORADOS
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Clientes! Dois. Lima-Limão, a quem não via desde  aquele dia, em que na mesa dele, lhe apresentei uma destas estudantes de algibeira, e uma gaja. Ou uma tal. Pousam as mãos delicadamente no tampo de vidro da mesa e conversam animadamente do romance, ou dos estudos, ou de qualquer coisa interessante na hora. Ela é Sandra. Virgem, de alcunha traidora. Mas isso já foi à um bom par de anos. Ouve-se o seu petulante «Oferece-me um Baileys?», e fica-se com a sensação de se estar na presença de alguém que sabe encarnar o espírito camareiro. Sandra, confidencia Lima-Limão, é parecidíssima à sua segunda prima, que vive no interior. A confidência parece puramente formal e julgo que o encontro tem um fim meramente sexual. Mas Lima-Limão prossegue e diz-me que Sandra vai acabar o curso de enfermagem no Porto mas, como só tem aulas da parte de manhã, tenciona passar uns tempos no bar, para conhecer o ambiente. Um tipo tem de ser bem discreto, até mesmo para uma gaja que usa maxi-saia e sapatos rasos. Faço-lhes perguntas bem simples, com a mesma simplicidade com que daqui a uma hora já terei esquecido tudo o que disse. E quando é que acabas o curso? Os olhos dela chispam quando se vira para mim.



«Isso não é um dos meus problemas», diz. «Lima-Limão pensou que talvez aqui no bar eu pudesse arranjar mais inspiração.» Olha para o bar com os olhos, como se não o tivesse visto alguma vez.
… «Continua com um aspecto mais refinado… e é bem frequentado, claro?»
«Oh, sim», garante-lhe Lima-Limão. «Ratazana, encarrega-se de olear bem as coisas, não é verdade?»

Ela é que o vai olear até esticar o raio da língua! Mas não há mais nada a dizer… Vejo-a levantar para ir ao quarto de banho. De qualquer forma, tem uma cara divertida e há quem diga que é uma felina na cama. Mas que porra de cliente me saiu o Lima-Limão! Gostava de a poder ver de mini saia… Quando estiver inspirada, diz Sandra, não me posso esquecer de cá vir, pois o bar pode ser um local muito interessante, para uma rapariga que está sozinha… Clientes diurnos… Menino do Coro, como que ressuscitado, e passado uns minutos, Caseiro. Menino do Coro mostra-se encorajado em relação à nossa miss do ano de há umas semanas atrás. Diverte-se acerca disso, mas o seu divertimento transparece um certo arrojo. É extremamente lúcido acerca do que lhe aconteceu depois de ter a ter levado ao colo para ela colocar a boneca do concurso na parte de cima do balcão. Não lhe cortei a corrente. Assim que chega Caseiro, Menino do Coro bebe um gole de água e desaparece.

Desta vez não me lembro de o ter visto sair.

Caseiro arrasa-me com as suas queixas. Está decidido a não pagar copos e afastar-se de ir para a cama com Roca e Tesa. Esgotamento, considera ele. Senta-se na cadeira e pede-me o periódico, enquanto resmunga os nomes de algumas traidoras que no fundo são todas iguais. Talvez haja uma diferente… quem sabe?... Até ele pode acabar por descobrir uma, confidencia-me.

«Mas será necessário ir ao Mercado do Bolhão à procura de galinha gorda por pouco dinheiro?» quer saber. «Vou ter mesmo de esperar, não?»

Na verdade, acho que não, mas é-me evidente o que ele deseja ouvir. Digo-lhe, como se fosse a minha opinião, que provavelmente ele acabará por encontrar uma saloia sem vícios. Caseiro arrefece, com a frescura da cerveja, e dá um ligeiro abanão. Se elas se virassem para os clientes da chapa barata, diz, tudo se comporia muito melhor. Mas os outros parecem exercer uma má influência sobre elas. E Tesa… é de longe pior do que Roca, agora que já foi com ele para a cama. Aparece na sala, a exibir a ousada tatuagem a roçar a direcção do traseiro e não há forma de lhe escapar…

«Nem sei como me vou ver livre disto», diz. Faz um intervalo, olha-me de soslaio, e rapidamente afasta os olhos. «A última queca deu-lhe tamanha fúria, que me ia mandando pró maneta… Digo-lhe mais, nunca dei outra igual. Ela atormentou-me para que eu… me viesse duas vezes uma a seguir à outra enquanto ela mudou de posição…» Bebe um gole de cerveja num sôfrego. «A loucura foi… mas você entende. Ela sugou-me o leite todo e ferrou-me no cu. Ainda tenho a marca.»

Nem uma palavra, é claro, se troca mais acerca delas. Esta pequena paragem é desviada para que eu possa atender uma fila de clientes que entram juntamente… uma Sandra baixa e redonda, a dirigir-se apressadamente para a mesa de Caseiro. Ele levanta o olhar e aperta-lhe as mãos enquanto ela se senta. Começa a acariciar-lhe os dedos e a murmurar-lhe palavras tentadoras. Ela não pensou nada disso! Absolutamente nada! Foram-se mimando, a ela e a ele, com aquele pequeno aquecimento… o raio da estudante sabe até onde deve ir, penso eu. Caseiro levanta-lhe os cabelos até cima e puxa-lhe a ponta do nariz para baixo. Que olhos ela tem! Podia fulminar uma data de soldados agrupados na trincheira de uma batalha e nunca descobrir quantos tinha lá; podiam partir silenciosamente desta para melhor sem se doerem muito. Caseiro passa-lhe a mão pelos pêlos do braço e eles começam a ficar tesos. Os seus dedos esticam-se para a frente e os olhos dela saltam para fora. Enquanto se entretêm nas cócegas um com o outro, vai aumentando o rol de pestaninhas à sua volta olhando pasmados aquele par de amorosos. À medida que vai ficando mais aquecida, ela olha mais fixamente. Segundo penso, Caseiro agora julga que fazer mimos o torna mais atractivo… e a coisa começa a tornar-se um hábito. Sinto-me contente por tê-los juntado, mas gosto de os ver por cá…

Consigo matutar, pergunta-me ele, porque é que Sandra gosta tanto que lhe mexa nos pêlos? E eu faço-o de uma forma levezinha. Não a consigo magoar. Se não fosse por isso, talvez ela não me passasse bola. E enquanto me conta estas coisas, ela vai-se refrescar para o quarto de banho. É uma treta, acho eu, ele está à espera que ela baixe a parada e lhe faça o mesmo pagamento que Roca e Tesa lhe fazem, mas deixa-a à-vontade. Enfia uma pinga de cerveja entre as goelas, coçando a cabeça escabelada com os dedos. Passa uma vista de olhos pelas mesas e o olhar trespassa-me. Sandra volta de novo à sala e coloca-se no seu lugar onde através dos espelhos pelos quatros cantos tem curiosidade de ver quem entra e quem sai. Está tão em pulgas que não quer perder tempo a pegar nos livros para estudar. Diz a Caseiro que não a monta se não abrir mão de mais umas lecas… Não chegam a acordo.

Sandra conta-lhe coisas… Sim, ela até sabe que o seu prato fraco é uns mimos na cabecinha júnior… e quer fazê-lo de uma maneira diferente que Roca e Tesa dizem que o fazem. Ela quer que ele lhe coce tudo… tudo até aqueles pintelhos que cercam a caverna do Satanás. Olha-o com um suspiro e assim que ficam os dois silenciosos, faço-lhes chegar uns pires com amendoins e retiro-me para o meu posto. Momentos depois, ela mete-lhe um amendoim na boca, obrigando-a a mastigar. Acompanha o gesto com alguns piropos escolhidos. Produz uns sons desgastantes quando, através de uma folha de amendoim Caseiro se engasga e quase se asfixia quando tenta cuspir a folha para o cinzeiro ao mesmo tempo que a tem na boca. Sandra é malandra demais para que ele faça farinha dela, como fez com a Roca e Tesa, mas não consegue empurrá-la para a cama, onde não a convence com o seu finca-pé.

Todo o tempo que tinha livre, o meio da tarde quase indo, se está a escoar. Até a sua santa pachorra Caseiro vê fugir quando, repentinamente, lhe enfia a peta que quer ser seu amigo, e ser amigo é para sempre. Com duas petas bem enfiadas, ela está perfeitamente «adormecida», mas o que ela pensa ele não sabe, e eu duvido que ela embarque nessa. Não levanta os pés do chão quando ele abana os ombros como quem diz «mexe-te». Faz-lhe mesmo muitos mimos, sem quaisquer restrições. Mas quando ela diz para aumentar os valores e colocar dois novos dígitos ao estipulado… ah! Isso é o fim! Não posso aceder a isso, mesmo que os outros o tenham feito, começa a tentar dizer-lhe mas ela desvia os olhos para a assistência. Merda, não há como elas torrarem, que já não conseguimos levá-las, assim deve pensar Caseiro. Ainda não passaram dois segundos e já sente a careca quente e começa a passar-lhe a mão por cima. Tem de lhe explicar o joguinho que Tesa impôs, que é satisfazê-lo com pratos deliciosos, como se de um amante se tratasse. Isso anima-a… aperta os lábios com uma força medonha… se alguém lhe tentasse beijar, muito provavelmente partia os copos, atirava as cadeiras ao ar, só de boca fechada. Ela deve saber qual o modo como o deve apanhar, mas espera o momento, por isso obriga-o a gastar todos os trunfos. Por fim aperta o pescoço, como se ainda não tivesse bebido nada. Não secarei, sugere ela, oferece-me um licor como eu gosto? Oh, isso nem se pergunta, aceita. Tinha-se esquecido, enquanto decorria a conversa, mas agora ela fê-lo recordar-se… de como uma conversa a dois, só se compartilha bebendo em conjunto… Oh! Oh! Ela não deixa passar nada, aquela estudante. E finalmente consegue que ele admita o facto.

Bem – com certa pachorra – Caseiro talvez pense o facto que uma vez não são vezes… seria difícil apanhá-la depois. Sim, é possível que não a veja tão cedo. Coça-lhe a mama. Como é, vai ou não vai? Pergunta-lhe ela. Estamos combinados, não? Bem… VAI! Sim, julgo que também queiras ir. Levanta-se logo atrás dela. Ela bate-lhe a porta da sala, caminha, afastando-se o mais possível e baixa a cabeça enquanto atravessa a rua para a residencial. Desta vez levantou os pés do chão, ao contrário do que fez quando lhe disse pela primeira vez para subir a parada… nisso assemelha-se muitos às outras. Agora está à espera que ele cumpra o que tem a cumprir.

«Já conversou tudo», digo-lhe eu. Mostra-se manhoso. Atrevo-me a mandar uma boca daquelas! É costume levar a corda até ao fim. É isto que me diz o cozinheiro… que é costume!

Que seja costume, então. Vá lá comê-la porque me dá lucro e ela também ganha. Só para ele não se esquecer, ponho a conta em cima do balcão. Imediatamente, ele volta-se para mim.

«Tanto dinheiro!» É tudo o que diz e é o suficiente para eu provocá-lo, dizendo que ela quando se está a vir… chora que nem um bebé. Caseiro positivamente solta um riso alongado quando escuta a última frase. Não sei se ele acreditou, mas para mim dá-me um gozo tremendo pô-lo a rir. Ponho o dinheiro na caixa e fico a vê-lo partir, até que a porta se feche e um novo cliente faz desaparecer o antigo…

Sunday, January 18, 2009



PASCÁCIO VS. TESOURO DA FODA BOA ─ O TEMPO
DO MEL E AS TARDES DA TRUCA-TRUCA



A minha alcunha no bar é o Pascácio. No momento em que me encontro sentado, desfruta-se um cenário lordesco, bem ao bom estilo de Fellini. Um bar de rapidinhas, mas muito requintado, onde as personagens engatam à vez as prostitutas, pois são tão poucas que não se podem dar ao luxo de convidar uma para cada mesa. Quando o visito, lá no Porto, fico sentado a observá-los numa mesa de frente durante algum tempo. Gosto do espírito daquela gente. Apalpam a mulher que está a ganhar um alterno, coçam-lhe as mamas, passam-lhe a mão pelo traseiro… é uma morena trintona e boa como o milho, de ancas largas, que se está borrifando. Ratazana conta-me que um destes dias quem era o bombo da festa era um veado (gay) e as raparigas tinham gozado tanto com ele que, se os seus desejos quisessem ser realistas, teriam de o mostrar com uma boa colecção de pénis. É uma bela coisa ver o gozo transformar-se em calor. Là no Porto, funcionam umas variadas casas de passe, onde os compradores de sexo costumam ir. Cem euros pagos à entrada dão direito a uma bebida, à pensão e uma mulher nua e a gozar até se vir.  Mas aqui a clientela é toda composta por quarentões, indo até ao mais velho com oitenta e oito anos. Todos eles sabem o que querem, a moça debruçada sobre o barão do balcão é uma chavala reguila, com uma pele branca e lisa cobrindo as pernas e enchumaços sobre os peitos! Está irrequieta, pode-se-lhe pagar e, se o cliente pedir para lhe fazer um babado, ou para lhe dar umas palmadas no rabiote, ou outra coisa qualquer… tanto o seu trabalho, com o cliente, só terá a lucrar com isso.

Ratazana diz-me que tem sempre apresentado aos clientes boas miúdas… com uma única excepção. Daquela de que eu gostava, e via-me agora um tanto embaraçado. Uma prostituta chamada Tesouro da
Foda Boa… boa a sério, daquelas que até o nosso avô seria capaz de tocar uma segóvia na rua. Não é que eu não pudesse aguentar a sexualidade dela, ou garantir-lhe a renda, digo para Ratazana, mas estava constantemente a chegar mensagens para o telemóvel, que depois me enervaram. Isto leva-nos a um bate-papo sobre as mulheres com quem Ratazana já trabalhou, numa data ou noutra. O rol que ele apresenta deixa-me abananado, até que penso que está a falar a sério. Qualquer mulher, com quem um homem se tenha relacionado mais de uma vez, entra pró rol. Merda, digo, pondo em causa o meu envolvimento com uma delas na relação. Comi-a vezes sem conta, não comi? Gozei como um frade na cama. Cama e foda e uns eurositos, não lhe dava mais que isso. As tardes eram endiabradas; e além disso havia sempre os lanches de mel à volta da rata, com os batidos de banana, todas as semanas. Ratazana fica espantado ao saber que eu nunca comi uma prostituta do seu bar. Também eu me espanto por isso. Com todas aquelas lascas boas no Bar do Traidor, podia-se pensar que, uma vez pelo menos, teria tentado a abordagem a uma delas. Vem á baila o assunto das repetições e Ratazana é suficientemente perito na matéria para me dar lições sobre todas elas. Numa casa de putas nunca experimente nem as prostitutas nem as não prostitutas avisa-me ele. São agarradas, maliciosas e perigosas, mas entre os olhos é como se tivessem um foguete com o rastilho virado para a frente. Encarregam-se de qualquer tipo que apareça e tac! CHINFRIM! Da pesada, daquela que o despacha enquanto o diabo esfrega um olho, de nada valendo os seus esforços ou argumentos. O tipo de chinfrim das prostitutas ou não prostitutas, insiste Ratazana, é especialmente mortífero para os casados.

Tudo isto me parece conversa de bar, todavia a maneira como Ratazana fala é suficiente para me pôr fino e afastar-me para sempre desta gente. Então, depois de quase me ter feito ir duas vezes à casa de banho, Ratazana diz-me que conhece uma gajita porreira, sem qualquer perigo. Não é nenhuma pega, somente uma rapariguinha simpática que ele conhece e não há perigo de temer seja o que for. A vida dela é numa loja de bugigangas, uma dessas lojecas cheias de muita tralha, etc.; a rapariga atende os jovens reguilas que chegam à procura de uma futilidade qualquer para oferecer. Ratazana escreve o número do telefone num papel e entrega-mo. Vou ter de levar um ramo de rosas, só para manter as aparências, diz-me, mas tenho foda garantida, desde que não meta os pés pelas mãos. Ele sai do pé de mim… tem um cliente na sala que é habitué e vai ver se consegue que ele se oriente numa rapidinha, e regressa ao balcão.

«Veja como se porta, está bem, Sr. Pascácio?», - pede. «Prometi a esta minha amiga arranjar uma pessoa de bem… ela nunca o teve. Não tenha receio de ir arranjar mais problemas. Garanto-lhe que tudo vai correr pelo melhor.»

Com o pensamento em velocidade de cruzeiro, dirijo-me para o carro, para fazer uma viagem de uma hora até casa. Durante o trajecto mudei de ideias meia dúzia de vezes que acabei por alinhar com uma trenga que me deu um toque para o telemóvel extra. No Porto, um tempo houve em que passava quase todas as minhas tardes na galdérice. Durante umas semanas, andei doido com uma trenga, incapaz de me interessar por outras coisas. Ultrapassei essa fase, mas ainda gosto de trengas e esta é tão aferroada e tão trenga… carago, parece ser suficientemente estúpida para me arranjar problemas. Ratazana conseguiu realmente alertar-me com toda aquela conversa acerca do perigo das repetições. Esqueço-a e continuo a rolar. Nunca sei como estas coisas sucedem. Quanto estou a ficar com tesão, consigo meter lábia com qualquer mulher que encontre na rua, digo-lhe as coisas mais desconchavadas, sem pejo algum, mas entrar numa espelunca perfeitamente no meu estado normal e actuar no meu número…. é muita areia para a minha camioneta. Principalmente, quando vejo que a rapariga é uma dessas cabras esgazeadas e branca e fala um calão de bairro. Empurro a porta tão escaqueirada da casa da velha carcaça, no Porto. Lá dentro a trenga está à minha espera e faz-me um sinal com a mão. Não sei por onde é que devo começar, nem me passa pela cabeça do que lhe vou fazer. Admito, para mim mesmo, que ela é bem jeitosa e que a sua rebeldia iguala a sua beleza. Exibe-me tudo o que existe no seu painel corporal… Gosto do seu ar, especialmente da forma pouco vulgar com que o olhar se alonga e ergue o lábio superior. Bonitos lábios e esplêndido traseiro… coisa que não esperava por estes locais.

Tenho reparado que a maior parte das trengas que conheço dá a impressão de não terem cu, mas esta tem um olho magnífico. Contudo, não é por aí o tema para se iniciar uma conversa. Ouvir ventilado o nome de Ratazana por este sítio é normal. A maioria da gente que vem cá o conhece! Lembro-me vagamente, vêm tantos clientes a esta casa para uma rapidinha… Ela sorri e quer oferecer-me uma pastilha para mastigar… a dona da casa surge dos fundos da sala e sacode os lençóis sobre os nossos narizes… vai aviar um cabrito com eles. Digo à rapariga que não quero pastilha. A minha ideia era ir beber um Jameson a um lugar recatado perto dali. Mas ela aproxima-se de mim. Acaricia-me a cara! O calor aparece-me… fico de pau feito, como um nabo, enquanto ela entra numa porta para ir buscar umas toalhas… Regressa com uma mini-saia tão curta que a faz mais jeitosa que as próprias jeitosas e traz as toalhas debaixo do braço. Mantém uma pose graciosa… Avançamos pelo soalho com um à-vontade e em breve me sinto liberto…

Perguntas! Ela quer saber quem eu sou, como nasci desde pequenino. A curiosidade da minha vida profissional também vem à baila. No percebo muito bem o que é que ela quer saber, mas entretanto começa a falar de manicure. Há um pequeno salão, diz-me entusiasmadamente, onde ela obteve há pouco tempo uma vaga, uma possibilidade de inscrever-se e que terá que entrar com uma terça parte do seu valor… e refere uma quantia que corresponde ao meu ordenado, quase até aos últimos cêntimos. Fico de boca aberta. É óbvio que ela me quer levar no conto de prostituta e tenho a impressão de que ela quer que eu a ajude nesse projecto. Quando é que te vais inscrever, pergunto. Ah, então tudo se torna claro! Não é necessário fazê-lo já, diz-me… por isso, o dinheiro que ela arrecada, põe-no dobrado, em volta dos peitos, onde o seu contacto seco sobre a pele lhe confirma a presença. 


A inscrição deveria ser efectuada nunca antes do prazo da promoção… O conto torna-se interessante, assim que eu entendo as suas regras. Esta cachopa tem realmente imaginação na forma como explora o corpo. Mas pede uma massa alta! Começo a negociar com ela e, por alturas do quinto semáforo, chegamos a acordo: um terço do ordenado por três favores. Vou ter de cortar os extras, até ao próximo mês… Nunca paguei tão caro por um cu, mas esta gaja vale bem a pena. Não tenho a mínima dúvida de que tem um bom reportório, o mais variado possível, mas dentro do quarto em que nos encontrámos, murmura-me qualquer coisa que me soa como a suave aliança de um pacto… Botão de Rosa, traduz ela; então, passo a ser-lhe Fiel. Tudo isto cheira a merda cheirosa… Dou também o meu contributo para o número. Assim que tenho engalfinhado o seu corpo ao meu, mordo-a pelas costas abaixo e vou contornando as suas formas divinais. Em seguida, e quando ela se prepara para se exibir o botão de rosa, estendo as pernas em forma de bico para ela se agrupar. A cabra deve ter sido águia nas massagens, para me proporcionar um número de sexo como este. Com uma graça perversa, mantém as meias de lá e as botas de salto alto, após tudo o mais ter sido tirado. O brilho dos seus grandes olhos ressalta em confronto com o escuro onde está aninhada. Ela troca de posição, sobe um pouco a cabeça e oferece-se para gozação…

Tesouro da Foda Boa diz que se aborrece se eu a trair por outra… tem um breve sorriso quando lhe belisco as nádegas e lhe passo um dedo entre o rabo. Palra qualquer coisa em calão, que me soa a qualquer coisa obsceno. Nesta altura já mandei pró maneta os conselhos constantes de Ratazana. Aliás, com o tesão com que estou, mesmo que soubesse que ela me ia armar um escândalo, ia-lhe para cima dela… e depois esperava para contar um filme bem contado à patroa… mas o seu ardor é de uma potência tal, a cor tão rosada que é evidente que tudo está em conformidade… em seguida, puxa-me para ela e deixa-se ficar colada. Monto-a ali mesmo em cima dos lençóis a cheirar ao ferro, com uma almofada apanhada à pressa sob o meu ânus. Também não tiro as meias, nem os sapatos, com medo de apanhar um resfriado. Atiro-me a ela como um leão… uma gajita protestava contra tanta ferocidade, apalpadela, chupões, mas Tesouro da Foda Boa sorri e sujeita-se. Gosto de lhe apertar as nádegas com força? Muito bem, ela coloca-as nas minhas frentes. E se lhes ferro as pontas das orelhas com a boca… ela espeta-me as unhas para que continue. Ponho a minha mão sobre o seu sexo e puxo-lhe os bigodes e fico a sentir que é uma barbicha bem enrolada, a sua voz é um gemido contínuo… em obscenidades.

Ah! É uma profissional completa. Os clientes pagam bem este cardápio em que flutuam várias especialidades do prazer e ela sabe perfeitamente o que eles desejam. Olhando bem para ela, não saberia dizer se estava a fingir ou não. Mas o calor em volta do seu arredondado rabo atraiçoa-a. Agarra-me os braços para a frente e o cheiro a sexo sobrepõe-se ao desodorizante que ela usa. Ela geme e blasfeme, geme e blasfeme... Disseram-me, ou ouvi em qualquer parte, que as trengas avaliam uma rapidinha não por minutos, mas por horas. Quando falo nisto a Tesouro da Foda Boa ela fica-se a rir. Ficará toda a tarde, se eu assim quiser. Sinto sede e insinuo sair para ir tomar um caneco, mas Tesouro da Foda Boa pede-me para a deixar numa estação de táxis. Digo-lhe que sim; vestimo-nos e partimos para o carro.

Assim que avisto um táxi, despedimo-nos e Tesouro da Foda Boa passa a mão por cima das minhas pernas, e dá-me um beliscão na gaita… é uma gaja porreira, que não se importa de deixar um taxímetro aumentar para que eu tenha tempo para a morder… Depois de entrar na auto-estrada, engreno a quinta velocidade e viajo a pensar naquele presente maravilhoso! Recordo aquele monte de papéis no escritório com espera no despacho final, e rio-me. O mundo dos pequenos comerciantes está ficando um inferno… um homem tem de encontrar uma trenga para uma coisa tão simples como uma foda calma, normal. É uma tipa cinco estrelas. É uma grande coisa ter uma gaja que se blasfeme enquanto se está a fodê-la. E não é nenhuma puta! É, antes, uma artista da rapidinha. Tesouro da Foda Boa, oferece não só o seu ardor, mas também, os seus preciosos pratos… o facto de haver dinheiro envolvido é mero acaso. O dinheiro limita-se a pagar uma prestação de manicure… Tarde avançada, ainda fico mais alegre, por acção de um tema de Ratazana, No Banco do Jardim, ainda o ouço repetidas vezes, até que, me dou conta de que a portagem está à vista. Penso em Tesouro da Foda Boa, recordo aquela ideia do curso de manicure, e rio-me.