Friday, October 23, 2009




CONTOS DE RATAZANA
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Buraco Sexual
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Gustavo, o Gugu, do grupo do Bar do Traidor, está sentado quando entro. Tem estado à espera que eu chegue ao bar, diz-me, e fica contente ao saber que eu vinha com a ideia nele. Mas mostra-se mais interessado a respeito da primeira conversa que me recomendou ao ouvido… Não lhe digo que ele vai ter que se chegar à frente com cem euros…

Não há problema por não me ter esquecido de lhe falar no preço. Ele já deve calcular. Já despachou uma gaja da mesa, diz. Afinal de contas, ele não a desejava. Quem ele desejava era a mim, que me tinha visto, na companhia dum cabrito, a ir fazê-lo para a pensão e sente-se injustiçado.

As putas estão a ficar fora de moda, mesmo oferecendo-se aos nossos olhos, oferecendo-se aos nossos próprios olhos, repete. A seguir, faz um dito cínico… é notas o que elas estão à procura oferecendo-se aos nossos olhos… mesmo oferecendo-se aos nossos próprios olhos.

Gugu está pouco gentil, nem um copo paga, julgo que esteja à espera de que eu o desafie. Tem as pernas unidas e trémulas, com o fumo do cigarro a envolvê-lo e, pelos vistos, não planeia sair dali tão cedo. Pergunto se ele se sente bem. Sim, claro, sente-se fino… somente um pouco desgastado… e disfarça a olhar para o meu rabo. Bem, digo-lhe eu, vou-me fazer àquele gajo que não pára de olhar para mim… e é então que uma mão dele se levanta e coloca-se no meio dos meus joelhos.

Poucas vezes o vi tão descarado… Quando senti a força que ele estava a fazer, fui obrigada a agir.

«O que é que tu queres?», perguntei-lhe. Gugu retira a mão e, leva-a na direcção do meu cu e coça-o.

«Só uns doze minutos de prazer e tu nem dás por ela», diz. «Mas agora, Isabel, pela tua saúde, não digas que não, está bem? Sabes como eu sou tarado.»

Puxa o copo de Coca-Cola e bebe um trago de relance.

«Há quanto tempo é que manténs essa cisma?» pergunto-lhe. «Quanto é que me dás? Ofereces-me cem euros e eu dou-te o meu olho.»

Lá vens tu com essa boca suja… devias estar calada e não mandares cá para fora esses palavrões. E, sabe Deus, para te dar cinquenta euros já é bem bom, oferece-me Gugu. E, acrescenta à defesa, eu não te quero só para uma vez… todo darei em duas vezes.

«Mas isto é uma coisa que não passa daqui», continua. «Bolas, só há uma coisa que tu me podes satisfazer… já sabes o meu ponto fraco. Faz-me esse favor e verás que não te vais arrepender. O meu problema é que o meu olho viciou-se pelo teu e agora não à volta a dar.»

Gugu abre as pernas e exibe-me o pau protegido. Para ter a certeza de que eu o sinto bem, puxa-me a mão.

«Se quiseres, podes a levar», atiça-me. «Mas tens que baixar primeiro a parada.»
«Gugu, vai-te tratar meu filho. Vai tu com ela para a cama», respondo-lhe.

Gugu julga que eu não sou de cá. Não está a fazer nada que qualquer outro cliente não o faria, etc., etc. No entanto, já de lá venho e não baixo a minha parada, garanto-lhe. Gugu sente-se pior.

«Merda, Isabel», diz. «Devias ser mais minha amiga. Nunca pensei que um dia me ias fazer isto, deixar-me aqui de pau teso.» Empurra o copo prá frente e encosta-se para trás do sofá. Tira o tabaco e acende um cigarro. «Olha como estou nervoso. Não tens dó de mim? Vais ver o que te vou fazer, quando me vieres cravar pró tabaco. E és tu que ficas a perder.»

Estava a entoar na sala a música da Bunda Brasileira, e ele excitou-se de tal modo que interrompeu a bebida e começou a gaguejar.

«Dou-te mais massa para te comer o rabo», oferece-me ele, «mas só te pago quando fores a segunda vez comigo.»

«A segunda vez!», exclamo. «Queres fazer-me passar nesta idade por burra? Quando eu era ingénua… «Claro que caía à primeira. Mas isso agora não significa que caia à segunda…»

Gugu deixa de me prestar atenção e começa a fazer festas ao pau...

«Estás a ver, pá?», diz Gugu. «É doido pelo cu e pelo gozo que dali tira. O “tusto” nada tem a ver com isto, mas a partir disto, tu só pensas em sacá-lo.»

«Mas, Gugu, quando meteres o teu pénis no meu cozinho fofo, quando eu começar a sacudir-me de um lado para o outro contra o teu… podes crer, não te vais gaguejar com nada que não tenhas experimentado.»

«Não me fodas», protestou de repente ele. «Deixas ou não deixas?»

«Se pagares deixo mesmo, Gugu… deixo mesmo, como te disse. Mas já sabes, não saio daqui sem os meus cem euros.

«Não quero mais conversas, Isabel. De qualquer modo, o que vou fazer quando sair daqui é tocar uma à mão, dá-me também gozo! E nem preciso que abras as pernas. Só preciso concentrar-me no teu cu…»

«O quê? O que é que disseste? Concentrar-me no meu cu?» Gugu fica muito estático. «Não me lixes, tu és velho demais para usar a mão, não és? O que eu acho, Gugu, é que tens de ter um buraco para gozares, não é?»

«Uma porra, é que eu tenho de ter um buraco para gozar. Quer dizer que tu também não gozas quanto te encabam?

«Não brinques, Gugu. Se queres saber, não sou como aquelas que to dão, ou sou? Gaita, tu nem vais acreditar se eu te disser que nenhum dos gajos que me comeu me pediu o rabo, juro pelo meu padrasto! E não foram poucos. Só clientes do Bar do Traidor.

Está para ali todo esticado, com a coisa dura que nem um bacalhau. E não pára de discutir comigo a possibilidade de eu fiar. Mas eu já estou cansada de o ouvir falar… quer me comer, diz, e se eu não lhe der o botão de rosa, ele nunca mais me vem visitar.

Eu então esfrego-lhe com o meu botão de rosa de trintona um pouco sobre ele e a seguir dou-lhe dois abanões à gaita com uma força que lhe deviam ter feito saltar os tomates.

«Ora goza, lá», digo-lhe. «Estás a ver o tempo que estás aqui a perder quando podias já estar a vir-te. Já viste isso? E tudo por tua culpa. Tudo o que tens a fazer é puxar do ter cartão American Express cá para fora, e a partir daí, já podes matar a tua cisma.

Apalpa-me as nádegas e quase me tira a camisa para fora das calças de ganga e eu vejo em pensamento os seus gemidos a soltarem-se…

Sinto-me realmente virada para outro lado. Estou em pior forma que Gugu e o aspecto dele não é propriamente uma flor.

Quanto ao cliente que me está a fazer olhinhos, dá-me a impressão de que é um bom cabrito. Agora, faz sinais se eu quero ir para a cama com ele, já!

Digo ao Gugu que hoje não estou interessada em fiados… fica para outro dia, talvez, mas mesmo assim não me quer deixar sair da mesa. Se o deixar enrolar, vou ver-me aflita para me pirar dele.

Então quando me vê resistir ao crédito mal parado do tempo longo sem juros, convence-se finalmente de que estou a falar a sério. Bom, diz, então fica para outra vez… Mas depois digo quando te virei procurar… vais ficar à minha espera…





FIM

Wednesday, October 7, 2009





                                                                  RATAZANA

                                                                     _______



− RATAZANA, PSEUDÓNIMO DA NOITE, transformou um dos seus sonhos de adolescente em toda aquela obra fantástica – disse Lucinda Encarnação, conhecida na noite por Nani, colega e amiga de Ratazana.


Esse adolescente, Ratazana, nasceu uns anos após a II Guerra Mundial e cresceu no período da ditadura. Traria para o palco da noite a sua criatividade e a sua inteligência pessoais, modeladas por uma época que apenas podemos visualizara em fotos destorcidas e semi-apagadas de imagens. Ratazana contou-me que veio ao mundo num mês primaveril a um dia de segunda-feira, por volta das sete da tarde, «porque esse tinha sido um dos poucos meses em que a sua mãe não ouvia novelas radiofónicas. A taberna da família ainda existe, em Vila Nova de Gaia, no centro das Devesas, próximo da estação ferroviária local.

− Contaram-me que, em pequeno, e enquanto miúdo da escola, muito corri – disse Ratazana. – Mesmo nesse tempo, era a favor de desgastes de energias. Sempre corri para me livrar das chibatadas de meu pai em público, por causa das patifarias que eu lhe pregara.

«Como era muito mais rebelde do que os outros meus três irmãos, não se interessaram muito para o que eu fizesse enquanto eu crescia. Por isso, tinha-me a mim próprio quase inteiramente para mim. E usei a minha liberdade para fazer macacadas e ver o tempo a correr, em frente à taberna do meu pai.» Muito cedo, o rapaz Ratazana sentiu-se fascinado pela banda desenhada, então constituída sobretudo por livros usados para revenda. – Havia um forte cheiro à imaginação. Na verdade, pode dizer-se que havia um fascínio intenso. Também havia muita emoção, do aventureiríssimo dos protagonistas e das histórias contadas. Penso que foi assim que começou o seu interesse de toda a vida pelas aventuras.


«Em rapaz, sabia que queria aventurar-me, logo que chegasse a hora. Quando se tem a sorte de poder aventurar quando se é jovem, tudo quanto lemos torna-se uma parte de nós, que podemos recordar durante toda a vida.» No princípio dos anos sessenta, os livros usados para revenda foram substituídos por lições de viola. – Lembro-me dos seus acordes e dos trinados das cordas de nylon, antes de serem transformados em solos, de passarem de um tom para outro, levando rapidamente os tocadores para músicas que só podia imaginar. E a taberna cheirava a música.
«Quanto tinha para aí treze anos, fiz a minha primeira aparição numa rádio local a cantar Ai Jalispo, uma coisa que o meu pai considerou merecedora de uma prenda. Ainda me lembro qual foi o mês, Setembro, mas, o dia escapou da minha memória.
«O meu pai mandou-me ir ao quarto, sem correrias. Avancei pelos degraus das escadas com serenidade, até abrir a porta do quarto, onde estava por cima das roupas, uma viola braguesa em segunda mão mas que provavelmente me pareceu nova. ´É isto que me fazia falta`, disse para mim.
«Nunca me separei daquele instrumento. Desde então, tive todo o empenho para aprender a ler a escala. Nunca faltei aos ensaios, nem sequer nos dias de jogar à bola com os outros rapazes da rua, porque queria evoluir bastante.
«Ainda me parece ouvir o lamiré do professor-guitarrista, depois de eu ter tirado o instrumento da saca.
«Sempre disse à minha mãe que queria ser um rapaz artista quando fosse grande. Na verdade, os artistas sempre me atraíram, e o artista cantor era o mais atraente de todos. Talvez isso se deva ao meu cinema de infância ou talvez seja porque os artistas cantores foram os primeiros que vi, quando era miúdo e, por isso, me pareciam mais artistas do que os outros. Acho que parecem mais coquetes por serem tão bem-comportados, com todas aquelas boas performances!»

A família Abraão era trabalhadora, um dado adquirido desde muito pequenos. – O facto de ser sermos trabalhadores significava que éramos cumpridores – disse Ratazana. A colocação dos porcos abertos ao meio da semana e pendurados ao comprido nos ganchos em cima do tecto da loja impressionava o pequeno Ratazana que, mais tarde, viria a confessar-se de ter dó do bicho. A sua mãe era natural de Miragaia, no Porto. O seu pai descendia de uma família de agricultores em Vale de Cambra. Abraão de Almeida vendia carnes de porco a retalho, mercearias e vinho de pipa ao copo na taberna das Devesas, em Vila Nova de Gaia. – Quando estava a organizar o Concurso de Sextas-Feiras, no bar − recorda Ratazana – veio ter comigo um homem maduro que disse que conhecia o meu pai, do tempo em que ele negociava porcos para a matança no Matadouro Municipal de Vila Nova de Gaia.

«Os meus pais achavam que eu tinha mais queda para trabalhar no balcão, do que os outros meus irmãos. Talvez tenha revelado ao meu pai uma certa inclinação pelo seu negócio e interesse em seguir as suas pisadas. Conseguia muito bem entender por que motivo um osso de porco rapado fazia jeito ao meu pai.
«Apesar de meu pai conseguir ganhar a vida razoável-mente como negociante de carnes, mercearias e vinhos, lidar com presumíveis bebedores contribuía para um certo receio de insegurança na nossa família. O meu pai era activista por natureza mas o seu trabalho colocava-o na posição de pacifista.

De todo o modo, não é muito diferente da minha própria actividade. Embora por natureza, não seja um ordenador, a aventura que escolhi como o trabalho da minha vida colocou-me numa posição não muito diferente da do meu pai… um pacifista com bebedores. Mas, na nossa família, nunca ninguém passou traça. É a vantagem de ser-se filho de um negociante de carnes de porco e mercearias. «A minha mãe era boa cozinheira e chegava a fazer mais de cinquenta refeições diárias. Era o seu trabalho a todo o tempo, e ainda sobrava tempo para deitar uma olhadela à loja, quando o meu pai ia às compras. Não me lembro de alguma vez chegar a casa e não a encontrar lá. «O nosso prédio onde vivíamos tinha mais de noventa anos e pertencia a uma família abastada de republicanos. Embora não fosse uma casa nova, a minha mãe era escrupulosa na limpeza e higiene. Usava um médio avental às cores que cobria o vestido menos as pernas. Nunca saía de casa sem se apresentar o melhor possível: asseada, vistosa, o vestido de bolas, os sapatos engraxados, uma mala pequena, os cordões de ouro a enfeitar o peito e uns trocos no porta-moedas, sempre para um remedei-o. Sempre admirei as pessoas que trazem trocos.

«Não era mulher de queixumes. Nunca a ouvi queixar-se. Também não era dada a meter-se na vida alheia. Nunca a ouvi dizer mal de ninguém. Só se preocupava com a família. As amigas que lhe apareciam lá na loja, não eram muitas, mas eram boas companhias. «O meu pai gostava de desmanchar o porco e trazer a carne que a minha mãe lhe pedia para a cozinha. Por isso, a nossa cozinha tinha sempre as mais variadas miudezas do animal. Lembro-me de meu pai ir trabalhar de grande bata bege que cobria tudo menos os socos de madeira calçados nos pés. Nunca o vi com a barba por fazer ou cabelo despenteado. Não era por causa do porco. Era por causa do respeito por si mesmo. «Muito cedo, alguns clientes gostavam de gozar do aspecto do porco pendurado no gancho e um deles chamou o meu pai a atenção. Eu ouvi o que ele disse.

− Ó, Abraão! Tens cabeça de porco? – Perguntou-lhe, mas o meu pai não lhe respondeu. Respondeu-lhe o outro.
− Então, ronca! – E cavou depressa, levando com um osso atrás das costas, com o pequeno.

«Os meus pais gostavam muito dos passeios domingueiros e levavam-nos com eles, sempre que era possível desfazer-se dos seus afazeres secundários. Nunca me esqueci das visitas ao Palácio de Cristal, dos pássaros nas gaiolas, do leão dentro da sua jaula, de vez em quando, dando o seu grito tenebroso. O passeio era sempre acompanhado por um farnel que a minha mãe trazia numa saca, com bolinhos de bacalhau, pão e sumo, para aquecer os nossos estômagos.» «Quando eu era adolescente «levei uma vida exterior muito viva. Os outros rapazes julgavam os outros pela sua vida interior. Posso não ter sido disciplinado mas era bem atinado.» 


Ratazana acrescentou que não participara em jogos e passatempos que considerava uma perda de tempo. Nesses primeiros tempos, a viola foi a sua melhor prenda e melhor companhia.


− A minha viola estava sempre ao meu alcance e eu andava com ela por todo o lado, como um bem adquirido, o que é uma coisa boa para um adolescente. Sentia que era a minha aliança.

«Eu era um rapaz popular e, por isso, era obrigado a estender a minha imaginação e penso que isso me ajudou a de-senvolver os recursos criativos. Não preciso de muita ajuda do lado interior. Além disso, o meu trabalho trouxe-me uma espécie de apreciação, pode mesmo dizer-se de amor, que nunca esperei. Talvez isso tenha tornado tudo mais belo, a branco em cima do escuro.
«O meu verdadeiro eu, é uma pessoa muito simples, tal como tem a ver com o aspecto publico. O homem não é muito diferente do rapaz. Quem queira entender-me tem de aceitar que sou deveras simples, como toda a vida fui. Quando se é assim em novo, é raro mudarmos. E eu continuo a ser o mesmo. Quando era adolescente, soltava-me na companhia da minha viola e da minha.» Uma paixão de rapaz a que pôde dedicar-se nas horas vagas foi armazenar tudo quanto tinha a ver com programas, especialmente programas de espectáculos e fotografias. – A minha colecção de panfletos, medalhas, cassetes e discos estavam rigorosamente guardadas. Gostava de ver cada coisa em seus devidos lugares e em perfeitas condições. Ratazana sonhava a tocar por todos aqueles palcos e, mais tarde, foi mesmo o que fez. O seu percurso estendeu-se a outros locais. – Nunca tinha actuado no Casino de Espinho − contou-me. – Mas, a primeira vez que pisei o palco do casino, senti que podia ir tocar a qualquer palco do mundo, porque tinha dominado a pressão. De pequeno Ratazana era tratado por Zé, na tropa por Almeida e Mambo e na vida civil por Fernando e, bem mais tarde, começou a ser conhecido por «Ratazana» pelos colegas do ofício, embora às mulheres a quem era apresentado, gostasse de dizer: − Pode chamar-me Rato, sem Ratazana!


− A minha infância não foi uma infância fácil, mas também não foi difícil. Nessa época não tinha uma noção muito diferente do que era harmonia. Tinha mais consciência do que estava certo ou errado.

Ver filmes e ler eram umas das actividades preferidas de Ratazana durante a infância e os filmes e os livros continuaram a influenciá-lo durante toda a vida. – Fui influenciado por Charlie Chaplin, Westerns e pelos argumentistas que criaram as personagens da BD. Travei conhecimento com vários artistas e músicos já qualificados quando era muito novo. O meu filme preferido de Chaplin foi Tempos Modernos. No mundo de Charlot dar oportunidade a alguém era um milagre, um caso que também vivi. Mesma nas histórias fictícias é importante não subestimar os outros. Os talentosos não podem ser deitados ao caixote dos papéis. Iniciando-se a trabalhar aos onze anos, altura em que completou a quarta classe, o jovem Ratazana foi o último dos irmãos a trabalhar por fora. A família Abraão vivia o suficiente mas havia sempre uma preocupação manifesta de amealhar o dinheiro que sobrava ao fundo da gaveta do apuro em latas, que a minha mãe me tentava fazer entender – guarda do riso p´rá chora. – Só mais tarde me apercebi da grande lição que a minha mãe me estava a querer ensinar a poupar.

«Sempre gostei de cantar e tocar viola e alinhei num conjunto de música popular de Vila Nova de Gaia. Lá, surgiu a oportunidade de actuar em clubes e arraiais e achei os arraiais maravilhosos.»

Ratazana foi tocar para o Conjunto Regional Realidade, convidado para tocar viola de acompanhamento. Conseguiu mostrar-se porque sabia alguma coisa de composição e, porque durante o tempo da aprendizagem, praticara a arte de solar. Não tardou a cansar-se das marchas e das valsas e começou a reunir outros elementos, onde viria a formar o conjunto, Os Mambos, de ritmos sul-americanos. O seu trabalho foi apreciado e inscreveu o conjunto no I Festival de Música Portuguesa. A indumentária original do agrupamento apropriado às suas raízes musicais, ajudou a receber do júri do festival, o prémio para o melhor conjunto original apresentado. Ratazana queria elevar o grupo a voo mais altos, embora os outros elementos não partilhassem as suas ideias. – Tinham demasiados problemas com os empregos. Pior ainda: as mulheres andavam sempre atrás deles, quando souberam que eu queria levá-los para fora. Decidiu incorporar-se no serviço militar para combater na Guerra do Ultramar e aderiu ao corpo de voluntários da 11.ª Companhia de Comandos, mal fez as provas, foi imediatamente incorporado. Foi para Angola, o que representou para si uma grande aventura.


− Foi realmente uma aventura longa. A minha curiosidade foi saciada e acho que razoavelmente gostaram do meu con-tributo. Sou um pau para toda a obra. Sempre fui prestável mas julgo que pensaram que servi com brio e zelo o meu posto.»

Aderiu ao grupo de guitarristas, violistas e fadistas que frequentavam o Café Tropical no Porto, que tinham trabalho e que procuravam iniciadores para programas extras.

− Desde a infância que me sentia profundamente agarrado pelo cinema e pela música. Profundamente agarrado. Os filmes e a música eram a minha paixão. Tal como a canção que tornou famoso Marco Paulo Eu Tenho Dois Amores, eu também tinha dois amores. Lia e via tudo que era magazine do ramo.

Em 1972, Ratazana relacionou-se nas mesas do café com várias pessoas enquanto parava no Café Tropical. − Alguém, que me conhecia, que sabia que eu andava à procura de um parceiro para tocarmos juntos. Na verdade, na altura, a ideia era começar um projecto novo, e felizmente tive essa oportunidade para me aventurar. Foi numa altura em que aquilo que não sabia era tão ou mais importante do que aquilo que sabia. Fomos a correr buscar os instrumentos, uma consagrada figura fadista ensaiou-nos e, ficamos a tocar numa confeitaria de Cimo de Vila até muito tarde durante várias semanas, coisa que sempre gramei fazer – disse Ratazana. Eu tinha vinte e três anos.

«Foi bastante bom conhecer Rufino Manuel, porque me ajudou a construir o duo musical Os 2 do Norte. Era muitíssimo bom na primeira voz. Quando concluímos o nosso repertório, contactámos um primo do Rufino, dono de um night-club, a pedir uma actuação, eu até lhe disse: ´Nós até tocamos de graça`. O meu entusiasmo foi notório. O nosso repertório, que sabia ser razoável, foi elogiado e, por aquilo que disseram de nós, o dono ofereceu-nos três meses de espectáculos. Assim, a nossa primeira actuação no mundo nocturno foi na Boite Roma, um night-club em ascensão na cidade do Porto.»

Entre 1972 e 1973, o duo actuou em festas e clubes, até desligar-me do Rufino por motivos pessoais e enveredei por uma carreira a solo, ao mesmo tempo que desempenhava outras tarefas. – Era o novo empregado de sala a tocar viola e cantar e fazer acompanhamento à artista de striptease que acabava o programa. Fazia qualquer tarefa que fosse preciso fazer na sala, fazendo por vezes o trabalho do balcão, na copa a lavar copos e o serviço do porteiro, na folga do titular. Sentia-me muito feliz no meu trabalho. «Naquela época, as camareiras da noite eram todas mulheres maduras e foi com elas que aprendi o vocabulário próprio. Nessa época, as mulheres maduras tinham muitas chances de trabalhar na boémia. Esse tipo de trabalho andar ao copo era considerado apropriado para as mulheres maduras, tal como a limpeza. Quando as novas casas começaram a aparecer, essas camareiras passaram as ser menos procuradas, essas funções passaram a ser facilmente acessíveis às raparigas novas.» . Em 1973, encorajado com o ambiente nocturno, Ratazana optou pela sua adaptação no métier, seguindo as pisadas dos colegas, e candidatou-se a trabalhar na nova casa a estrear e, foi contratado. Durante este período, Ratazana acumulou a funções de chefe de mesa, e o facto de ter trabalhado com bons profissionais, toda a gente o levava muito a sério. A eles se juntou e, aos poucos, Ratazana exibia o sorriso, que queria ser boss.

− Nos meus primeiros meses, pratiquei a técnica nas mesas, baseadas nos contos das camareiras até passar por outras casas evoluindo como barman – contou Ratazana. – Quando apareceu o negócio de António Cândido, convidaram-me a tomar conta do estabelecimento. Depois, do negócio realizado, em reflexão com as paredes, perguntei a mim próprio: ´E quem vai emprestar o dinheiro para as obras?´ Respondi-me que podia fazê-lo.

«Tinha um amigo na noite, que era como se fosse meu pai, que ia ser o financiador da obra para eu prosseguir com o meu projecto. Só me pediu uma estimativa. Eu disse que me encarregava do projecto de obras, que comprava os materiais, etc. Chamava-se Oliveirinha. Confiou em mim e fiz alguns esboços para lhe mostrar. E assim passei a ser também um boss da noite.»

Ratazana designou para o seu bar um nome moderno e atractivo com toque inglês que começara a funcionar no dia 3 de Outubro de 1980. Chamava-se Club Lord.

Wednesday, June 24, 2009

CONTOS DE RATAZANA










 FLIRT ENTRE ACALORADOS
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Clientes! Dois. Lima-Limão, a quem não via desde  aquele dia, em que na mesa dele, lhe apresentei uma destas estudantes de algibeira, e uma gaja. Ou uma tal. Pousam as mãos delicadamente no tampo de vidro da mesa e conversam animadamente do romance, ou dos estudos, ou de qualquer coisa interessante na hora. Ela é Sandra. Virgem, de alcunha traidora. Mas isso já foi à um bom par de anos. Ouve-se o seu petulante «Oferece-me um Baileys?», e fica-se com a sensação de se estar na presença de alguém que sabe encarnar o espírito camareiro. Sandra, confidencia Lima-Limão, é parecidíssima à sua segunda prima, que vive no interior. A confidência parece puramente formal e julgo que o encontro tem um fim meramente sexual. Mas Lima-Limão prossegue e diz-me que Sandra vai acabar o curso de enfermagem no Porto mas, como só tem aulas da parte de manhã, tenciona passar uns tempos no bar, para conhecer o ambiente. Um tipo tem de ser bem discreto, até mesmo para uma gaja que usa maxi-saia e sapatos rasos. Faço-lhes perguntas bem simples, com a mesma simplicidade com que daqui a uma hora já terei esquecido tudo o que disse. E quando é que acabas o curso? Os olhos dela chispam quando se vira para mim.



«Isso não é um dos meus problemas», diz. «Lima-Limão pensou que talvez aqui no bar eu pudesse arranjar mais inspiração.» Olha para o bar com os olhos, como se não o tivesse visto alguma vez.
… «Continua com um aspecto mais refinado… e é bem frequentado, claro?»
«Oh, sim», garante-lhe Lima-Limão. «Ratazana, encarrega-se de olear bem as coisas, não é verdade?»

Ela é que o vai olear até esticar o raio da língua! Mas não há mais nada a dizer… Vejo-a levantar para ir ao quarto de banho. De qualquer forma, tem uma cara divertida e há quem diga que é uma felina na cama. Mas que porra de cliente me saiu o Lima-Limão! Gostava de a poder ver de mini saia… Quando estiver inspirada, diz Sandra, não me posso esquecer de cá vir, pois o bar pode ser um local muito interessante, para uma rapariga que está sozinha… Clientes diurnos… Menino do Coro, como que ressuscitado, e passado uns minutos, Caseiro. Menino do Coro mostra-se encorajado em relação à nossa miss do ano de há umas semanas atrás. Diverte-se acerca disso, mas o seu divertimento transparece um certo arrojo. É extremamente lúcido acerca do que lhe aconteceu depois de ter a ter levado ao colo para ela colocar a boneca do concurso na parte de cima do balcão. Não lhe cortei a corrente. Assim que chega Caseiro, Menino do Coro bebe um gole de água e desaparece.

Desta vez não me lembro de o ter visto sair.

Caseiro arrasa-me com as suas queixas. Está decidido a não pagar copos e afastar-se de ir para a cama com Roca e Tesa. Esgotamento, considera ele. Senta-se na cadeira e pede-me o periódico, enquanto resmunga os nomes de algumas traidoras que no fundo são todas iguais. Talvez haja uma diferente… quem sabe?... Até ele pode acabar por descobrir uma, confidencia-me.

«Mas será necessário ir ao Mercado do Bolhão à procura de galinha gorda por pouco dinheiro?» quer saber. «Vou ter mesmo de esperar, não?»

Na verdade, acho que não, mas é-me evidente o que ele deseja ouvir. Digo-lhe, como se fosse a minha opinião, que provavelmente ele acabará por encontrar uma saloia sem vícios. Caseiro arrefece, com a frescura da cerveja, e dá um ligeiro abanão. Se elas se virassem para os clientes da chapa barata, diz, tudo se comporia muito melhor. Mas os outros parecem exercer uma má influência sobre elas. E Tesa… é de longe pior do que Roca, agora que já foi com ele para a cama. Aparece na sala, a exibir a ousada tatuagem a roçar a direcção do traseiro e não há forma de lhe escapar…

«Nem sei como me vou ver livre disto», diz. Faz um intervalo, olha-me de soslaio, e rapidamente afasta os olhos. «A última queca deu-lhe tamanha fúria, que me ia mandando pró maneta… Digo-lhe mais, nunca dei outra igual. Ela atormentou-me para que eu… me viesse duas vezes uma a seguir à outra enquanto ela mudou de posição…» Bebe um gole de cerveja num sôfrego. «A loucura foi… mas você entende. Ela sugou-me o leite todo e ferrou-me no cu. Ainda tenho a marca.»

Nem uma palavra, é claro, se troca mais acerca delas. Esta pequena paragem é desviada para que eu possa atender uma fila de clientes que entram juntamente… uma Sandra baixa e redonda, a dirigir-se apressadamente para a mesa de Caseiro. Ele levanta o olhar e aperta-lhe as mãos enquanto ela se senta. Começa a acariciar-lhe os dedos e a murmurar-lhe palavras tentadoras. Ela não pensou nada disso! Absolutamente nada! Foram-se mimando, a ela e a ele, com aquele pequeno aquecimento… o raio da estudante sabe até onde deve ir, penso eu. Caseiro levanta-lhe os cabelos até cima e puxa-lhe a ponta do nariz para baixo. Que olhos ela tem! Podia fulminar uma data de soldados agrupados na trincheira de uma batalha e nunca descobrir quantos tinha lá; podiam partir silenciosamente desta para melhor sem se doerem muito. Caseiro passa-lhe a mão pelos pêlos do braço e eles começam a ficar tesos. Os seus dedos esticam-se para a frente e os olhos dela saltam para fora. Enquanto se entretêm nas cócegas um com o outro, vai aumentando o rol de pestaninhas à sua volta olhando pasmados aquele par de amorosos. À medida que vai ficando mais aquecida, ela olha mais fixamente. Segundo penso, Caseiro agora julga que fazer mimos o torna mais atractivo… e a coisa começa a tornar-se um hábito. Sinto-me contente por tê-los juntado, mas gosto de os ver por cá…

Consigo matutar, pergunta-me ele, porque é que Sandra gosta tanto que lhe mexa nos pêlos? E eu faço-o de uma forma levezinha. Não a consigo magoar. Se não fosse por isso, talvez ela não me passasse bola. E enquanto me conta estas coisas, ela vai-se refrescar para o quarto de banho. É uma treta, acho eu, ele está à espera que ela baixe a parada e lhe faça o mesmo pagamento que Roca e Tesa lhe fazem, mas deixa-a à-vontade. Enfia uma pinga de cerveja entre as goelas, coçando a cabeça escabelada com os dedos. Passa uma vista de olhos pelas mesas e o olhar trespassa-me. Sandra volta de novo à sala e coloca-se no seu lugar onde através dos espelhos pelos quatros cantos tem curiosidade de ver quem entra e quem sai. Está tão em pulgas que não quer perder tempo a pegar nos livros para estudar. Diz a Caseiro que não a monta se não abrir mão de mais umas lecas… Não chegam a acordo.

Sandra conta-lhe coisas… Sim, ela até sabe que o seu prato fraco é uns mimos na cabecinha júnior… e quer fazê-lo de uma maneira diferente que Roca e Tesa dizem que o fazem. Ela quer que ele lhe coce tudo… tudo até aqueles pintelhos que cercam a caverna do Satanás. Olha-o com um suspiro e assim que ficam os dois silenciosos, faço-lhes chegar uns pires com amendoins e retiro-me para o meu posto. Momentos depois, ela mete-lhe um amendoim na boca, obrigando-a a mastigar. Acompanha o gesto com alguns piropos escolhidos. Produz uns sons desgastantes quando, através de uma folha de amendoim Caseiro se engasga e quase se asfixia quando tenta cuspir a folha para o cinzeiro ao mesmo tempo que a tem na boca. Sandra é malandra demais para que ele faça farinha dela, como fez com a Roca e Tesa, mas não consegue empurrá-la para a cama, onde não a convence com o seu finca-pé.

Todo o tempo que tinha livre, o meio da tarde quase indo, se está a escoar. Até a sua santa pachorra Caseiro vê fugir quando, repentinamente, lhe enfia a peta que quer ser seu amigo, e ser amigo é para sempre. Com duas petas bem enfiadas, ela está perfeitamente «adormecida», mas o que ela pensa ele não sabe, e eu duvido que ela embarque nessa. Não levanta os pés do chão quando ele abana os ombros como quem diz «mexe-te». Faz-lhe mesmo muitos mimos, sem quaisquer restrições. Mas quando ela diz para aumentar os valores e colocar dois novos dígitos ao estipulado… ah! Isso é o fim! Não posso aceder a isso, mesmo que os outros o tenham feito, começa a tentar dizer-lhe mas ela desvia os olhos para a assistência. Merda, não há como elas torrarem, que já não conseguimos levá-las, assim deve pensar Caseiro. Ainda não passaram dois segundos e já sente a careca quente e começa a passar-lhe a mão por cima. Tem de lhe explicar o joguinho que Tesa impôs, que é satisfazê-lo com pratos deliciosos, como se de um amante se tratasse. Isso anima-a… aperta os lábios com uma força medonha… se alguém lhe tentasse beijar, muito provavelmente partia os copos, atirava as cadeiras ao ar, só de boca fechada. Ela deve saber qual o modo como o deve apanhar, mas espera o momento, por isso obriga-o a gastar todos os trunfos. Por fim aperta o pescoço, como se ainda não tivesse bebido nada. Não secarei, sugere ela, oferece-me um licor como eu gosto? Oh, isso nem se pergunta, aceita. Tinha-se esquecido, enquanto decorria a conversa, mas agora ela fê-lo recordar-se… de como uma conversa a dois, só se compartilha bebendo em conjunto… Oh! Oh! Ela não deixa passar nada, aquela estudante. E finalmente consegue que ele admita o facto.

Bem – com certa pachorra – Caseiro talvez pense o facto que uma vez não são vezes… seria difícil apanhá-la depois. Sim, é possível que não a veja tão cedo. Coça-lhe a mama. Como é, vai ou não vai? Pergunta-lhe ela. Estamos combinados, não? Bem… VAI! Sim, julgo que também queiras ir. Levanta-se logo atrás dela. Ela bate-lhe a porta da sala, caminha, afastando-se o mais possível e baixa a cabeça enquanto atravessa a rua para a residencial. Desta vez levantou os pés do chão, ao contrário do que fez quando lhe disse pela primeira vez para subir a parada… nisso assemelha-se muitos às outras. Agora está à espera que ele cumpra o que tem a cumprir.

«Já conversou tudo», digo-lhe eu. Mostra-se manhoso. Atrevo-me a mandar uma boca daquelas! É costume levar a corda até ao fim. É isto que me diz o cozinheiro… que é costume!

Que seja costume, então. Vá lá comê-la porque me dá lucro e ela também ganha. Só para ele não se esquecer, ponho a conta em cima do balcão. Imediatamente, ele volta-se para mim.

«Tanto dinheiro!» É tudo o que diz e é o suficiente para eu provocá-lo, dizendo que ela quando se está a vir… chora que nem um bebé. Caseiro positivamente solta um riso alongado quando escuta a última frase. Não sei se ele acreditou, mas para mim dá-me um gozo tremendo pô-lo a rir. Ponho o dinheiro na caixa e fico a vê-lo partir, até que a porta se feche e um novo cliente faz desaparecer o antigo…

Sunday, January 18, 2009



PASCÁCIO VS. TESOURO DA FODA BOA ─ O TEMPO
DO MEL E AS TARDES DA TRUCA-TRUCA



A minha alcunha no bar é o Pascácio. No momento em que me encontro sentado, desfruta-se um cenário lordesco, bem ao bom estilo de Fellini. Um bar de rapidinhas, mas muito requintado, onde as personagens engatam à vez as prostitutas, pois são tão poucas que não se podem dar ao luxo de convidar uma para cada mesa. Quando o visito, lá no Porto, fico sentado a observá-los numa mesa de frente durante algum tempo. Gosto do espírito daquela gente. Apalpam a mulher que está a ganhar um alterno, coçam-lhe as mamas, passam-lhe a mão pelo traseiro… é uma morena trintona e boa como o milho, de ancas largas, que se está borrifando. Ratazana conta-me que um destes dias quem era o bombo da festa era um veado (gay) e as raparigas tinham gozado tanto com ele que, se os seus desejos quisessem ser realistas, teriam de o mostrar com uma boa colecção de pénis. É uma bela coisa ver o gozo transformar-se em calor. Là no Porto, funcionam umas variadas casas de passe, onde os compradores de sexo costumam ir. Cem euros pagos à entrada dão direito a uma bebida, à pensão e uma mulher nua e a gozar até se vir.  Mas aqui a clientela é toda composta por quarentões, indo até ao mais velho com oitenta e oito anos. Todos eles sabem o que querem, a moça debruçada sobre o barão do balcão é uma chavala reguila, com uma pele branca e lisa cobrindo as pernas e enchumaços sobre os peitos! Está irrequieta, pode-se-lhe pagar e, se o cliente pedir para lhe fazer um babado, ou para lhe dar umas palmadas no rabiote, ou outra coisa qualquer… tanto o seu trabalho, com o cliente, só terá a lucrar com isso.

Ratazana diz-me que tem sempre apresentado aos clientes boas miúdas… com uma única excepção. Daquela de que eu gostava, e via-me agora um tanto embaraçado. Uma prostituta chamada Tesouro da
Foda Boa… boa a sério, daquelas que até o nosso avô seria capaz de tocar uma segóvia na rua. Não é que eu não pudesse aguentar a sexualidade dela, ou garantir-lhe a renda, digo para Ratazana, mas estava constantemente a chegar mensagens para o telemóvel, que depois me enervaram. Isto leva-nos a um bate-papo sobre as mulheres com quem Ratazana já trabalhou, numa data ou noutra. O rol que ele apresenta deixa-me abananado, até que penso que está a falar a sério. Qualquer mulher, com quem um homem se tenha relacionado mais de uma vez, entra pró rol. Merda, digo, pondo em causa o meu envolvimento com uma delas na relação. Comi-a vezes sem conta, não comi? Gozei como um frade na cama. Cama e foda e uns eurositos, não lhe dava mais que isso. As tardes eram endiabradas; e além disso havia sempre os lanches de mel à volta da rata, com os batidos de banana, todas as semanas. Ratazana fica espantado ao saber que eu nunca comi uma prostituta do seu bar. Também eu me espanto por isso. Com todas aquelas lascas boas no Bar do Traidor, podia-se pensar que, uma vez pelo menos, teria tentado a abordagem a uma delas. Vem á baila o assunto das repetições e Ratazana é suficientemente perito na matéria para me dar lições sobre todas elas. Numa casa de putas nunca experimente nem as prostitutas nem as não prostitutas avisa-me ele. São agarradas, maliciosas e perigosas, mas entre os olhos é como se tivessem um foguete com o rastilho virado para a frente. Encarregam-se de qualquer tipo que apareça e tac! CHINFRIM! Da pesada, daquela que o despacha enquanto o diabo esfrega um olho, de nada valendo os seus esforços ou argumentos. O tipo de chinfrim das prostitutas ou não prostitutas, insiste Ratazana, é especialmente mortífero para os casados.

Tudo isto me parece conversa de bar, todavia a maneira como Ratazana fala é suficiente para me pôr fino e afastar-me para sempre desta gente. Então, depois de quase me ter feito ir duas vezes à casa de banho, Ratazana diz-me que conhece uma gajita porreira, sem qualquer perigo. Não é nenhuma pega, somente uma rapariguinha simpática que ele conhece e não há perigo de temer seja o que for. A vida dela é numa loja de bugigangas, uma dessas lojecas cheias de muita tralha, etc.; a rapariga atende os jovens reguilas que chegam à procura de uma futilidade qualquer para oferecer. Ratazana escreve o número do telefone num papel e entrega-mo. Vou ter de levar um ramo de rosas, só para manter as aparências, diz-me, mas tenho foda garantida, desde que não meta os pés pelas mãos. Ele sai do pé de mim… tem um cliente na sala que é habitué e vai ver se consegue que ele se oriente numa rapidinha, e regressa ao balcão.

«Veja como se porta, está bem, Sr. Pascácio?», - pede. «Prometi a esta minha amiga arranjar uma pessoa de bem… ela nunca o teve. Não tenha receio de ir arranjar mais problemas. Garanto-lhe que tudo vai correr pelo melhor.»

Com o pensamento em velocidade de cruzeiro, dirijo-me para o carro, para fazer uma viagem de uma hora até casa. Durante o trajecto mudei de ideias meia dúzia de vezes que acabei por alinhar com uma trenga que me deu um toque para o telemóvel extra. No Porto, um tempo houve em que passava quase todas as minhas tardes na galdérice. Durante umas semanas, andei doido com uma trenga, incapaz de me interessar por outras coisas. Ultrapassei essa fase, mas ainda gosto de trengas e esta é tão aferroada e tão trenga… carago, parece ser suficientemente estúpida para me arranjar problemas. Ratazana conseguiu realmente alertar-me com toda aquela conversa acerca do perigo das repetições. Esqueço-a e continuo a rolar. Nunca sei como estas coisas sucedem. Quanto estou a ficar com tesão, consigo meter lábia com qualquer mulher que encontre na rua, digo-lhe as coisas mais desconchavadas, sem pejo algum, mas entrar numa espelunca perfeitamente no meu estado normal e actuar no meu número…. é muita areia para a minha camioneta. Principalmente, quando vejo que a rapariga é uma dessas cabras esgazeadas e branca e fala um calão de bairro. Empurro a porta tão escaqueirada da casa da velha carcaça, no Porto. Lá dentro a trenga está à minha espera e faz-me um sinal com a mão. Não sei por onde é que devo começar, nem me passa pela cabeça do que lhe vou fazer. Admito, para mim mesmo, que ela é bem jeitosa e que a sua rebeldia iguala a sua beleza. Exibe-me tudo o que existe no seu painel corporal… Gosto do seu ar, especialmente da forma pouco vulgar com que o olhar se alonga e ergue o lábio superior. Bonitos lábios e esplêndido traseiro… coisa que não esperava por estes locais.

Tenho reparado que a maior parte das trengas que conheço dá a impressão de não terem cu, mas esta tem um olho magnífico. Contudo, não é por aí o tema para se iniciar uma conversa. Ouvir ventilado o nome de Ratazana por este sítio é normal. A maioria da gente que vem cá o conhece! Lembro-me vagamente, vêm tantos clientes a esta casa para uma rapidinha… Ela sorri e quer oferecer-me uma pastilha para mastigar… a dona da casa surge dos fundos da sala e sacode os lençóis sobre os nossos narizes… vai aviar um cabrito com eles. Digo à rapariga que não quero pastilha. A minha ideia era ir beber um Jameson a um lugar recatado perto dali. Mas ela aproxima-se de mim. Acaricia-me a cara! O calor aparece-me… fico de pau feito, como um nabo, enquanto ela entra numa porta para ir buscar umas toalhas… Regressa com uma mini-saia tão curta que a faz mais jeitosa que as próprias jeitosas e traz as toalhas debaixo do braço. Mantém uma pose graciosa… Avançamos pelo soalho com um à-vontade e em breve me sinto liberto…

Perguntas! Ela quer saber quem eu sou, como nasci desde pequenino. A curiosidade da minha vida profissional também vem à baila. No percebo muito bem o que é que ela quer saber, mas entretanto começa a falar de manicure. Há um pequeno salão, diz-me entusiasmadamente, onde ela obteve há pouco tempo uma vaga, uma possibilidade de inscrever-se e que terá que entrar com uma terça parte do seu valor… e refere uma quantia que corresponde ao meu ordenado, quase até aos últimos cêntimos. Fico de boca aberta. É óbvio que ela me quer levar no conto de prostituta e tenho a impressão de que ela quer que eu a ajude nesse projecto. Quando é que te vais inscrever, pergunto. Ah, então tudo se torna claro! Não é necessário fazê-lo já, diz-me… por isso, o dinheiro que ela arrecada, põe-no dobrado, em volta dos peitos, onde o seu contacto seco sobre a pele lhe confirma a presença. 


A inscrição deveria ser efectuada nunca antes do prazo da promoção… O conto torna-se interessante, assim que eu entendo as suas regras. Esta cachopa tem realmente imaginação na forma como explora o corpo. Mas pede uma massa alta! Começo a negociar com ela e, por alturas do quinto semáforo, chegamos a acordo: um terço do ordenado por três favores. Vou ter de cortar os extras, até ao próximo mês… Nunca paguei tão caro por um cu, mas esta gaja vale bem a pena. Não tenho a mínima dúvida de que tem um bom reportório, o mais variado possível, mas dentro do quarto em que nos encontrámos, murmura-me qualquer coisa que me soa como a suave aliança de um pacto… Botão de Rosa, traduz ela; então, passo a ser-lhe Fiel. Tudo isto cheira a merda cheirosa… Dou também o meu contributo para o número. Assim que tenho engalfinhado o seu corpo ao meu, mordo-a pelas costas abaixo e vou contornando as suas formas divinais. Em seguida, e quando ela se prepara para se exibir o botão de rosa, estendo as pernas em forma de bico para ela se agrupar. A cabra deve ter sido águia nas massagens, para me proporcionar um número de sexo como este. Com uma graça perversa, mantém as meias de lá e as botas de salto alto, após tudo o mais ter sido tirado. O brilho dos seus grandes olhos ressalta em confronto com o escuro onde está aninhada. Ela troca de posição, sobe um pouco a cabeça e oferece-se para gozação…

Tesouro da Foda Boa diz que se aborrece se eu a trair por outra… tem um breve sorriso quando lhe belisco as nádegas e lhe passo um dedo entre o rabo. Palra qualquer coisa em calão, que me soa a qualquer coisa obsceno. Nesta altura já mandei pró maneta os conselhos constantes de Ratazana. Aliás, com o tesão com que estou, mesmo que soubesse que ela me ia armar um escândalo, ia-lhe para cima dela… e depois esperava para contar um filme bem contado à patroa… mas o seu ardor é de uma potência tal, a cor tão rosada que é evidente que tudo está em conformidade… em seguida, puxa-me para ela e deixa-se ficar colada. Monto-a ali mesmo em cima dos lençóis a cheirar ao ferro, com uma almofada apanhada à pressa sob o meu ânus. Também não tiro as meias, nem os sapatos, com medo de apanhar um resfriado. Atiro-me a ela como um leão… uma gajita protestava contra tanta ferocidade, apalpadela, chupões, mas Tesouro da Foda Boa sorri e sujeita-se. Gosto de lhe apertar as nádegas com força? Muito bem, ela coloca-as nas minhas frentes. E se lhes ferro as pontas das orelhas com a boca… ela espeta-me as unhas para que continue. Ponho a minha mão sobre o seu sexo e puxo-lhe os bigodes e fico a sentir que é uma barbicha bem enrolada, a sua voz é um gemido contínuo… em obscenidades.

Ah! É uma profissional completa. Os clientes pagam bem este cardápio em que flutuam várias especialidades do prazer e ela sabe perfeitamente o que eles desejam. Olhando bem para ela, não saberia dizer se estava a fingir ou não. Mas o calor em volta do seu arredondado rabo atraiçoa-a. Agarra-me os braços para a frente e o cheiro a sexo sobrepõe-se ao desodorizante que ela usa. Ela geme e blasfeme, geme e blasfeme... Disseram-me, ou ouvi em qualquer parte, que as trengas avaliam uma rapidinha não por minutos, mas por horas. Quando falo nisto a Tesouro da Foda Boa ela fica-se a rir. Ficará toda a tarde, se eu assim quiser. Sinto sede e insinuo sair para ir tomar um caneco, mas Tesouro da Foda Boa pede-me para a deixar numa estação de táxis. Digo-lhe que sim; vestimo-nos e partimos para o carro.

Assim que avisto um táxi, despedimo-nos e Tesouro da Foda Boa passa a mão por cima das minhas pernas, e dá-me um beliscão na gaita… é uma gaja porreira, que não se importa de deixar um taxímetro aumentar para que eu tenha tempo para a morder… Depois de entrar na auto-estrada, engreno a quinta velocidade e viajo a pensar naquele presente maravilhoso! Recordo aquele monte de papéis no escritório com espera no despacho final, e rio-me. O mundo dos pequenos comerciantes está ficando um inferno… um homem tem de encontrar uma trenga para uma coisa tão simples como uma foda calma, normal. É uma tipa cinco estrelas. É uma grande coisa ter uma gaja que se blasfeme enquanto se está a fodê-la. E não é nenhuma puta! É, antes, uma artista da rapidinha. Tesouro da Foda Boa, oferece não só o seu ardor, mas também, os seus preciosos pratos… o facto de haver dinheiro envolvido é mero acaso. O dinheiro limita-se a pagar uma prestação de manicure… Tarde avançada, ainda fico mais alegre, por acção de um tema de Ratazana, No Banco do Jardim, ainda o ouço repetidas vezes, até que, me dou conta de que a portagem está à vista. Penso em Tesouro da Foda Boa, recordo aquela ideia do curso de manicure, e rio-me.

Sunday, October 5, 2008

CONTOS DE RATAZANA



                                                   
Mensagens de telelés…



As mensagens de telemóvel de Maria MancaMula acabam sempre por chegar a Armindo Barriga Cheia, ande ele por onde andar. Chegam atempadamente e a horas. Isso queria dizer que ela se sentia sózinha!... vou dar em maluca, se passo mais outra noite sem fazer amor contigo. Não penso noutra coisa, senão nesse teso pau e nos momentos agradáveis que ele dá; neste momento dava tudo que tenho para o ter na minha mão, e poder desfrutá-lo a meu bel-prazer. Chego a sonhar com ele! Não me satisfaz ser comida por o meu homem. Às vezes, apetece-me ir à tua procura, mas sei de antemão que és capaz de acabar comigo e não me quereres mais para tua amante. Nunca te passa pela cabeça pensar em mim e nos momentos bons que passámos juntos? Espero que o faças e que, algumas vezes, tenhas desejado que eu estivesse aí, na tua casa contigo, a chupar camarões, a beber champanhe, a levar c´o teu pau a gozarmo-nos um ao outro até eu ficar como o passarinho em cima do bilhar. O meu homem é um grande chato, posso dizer-te, pois ele faz tanta falta como a viola no enterro. Está sempre a perguntar o que é que eu faço, quando ele não está em casa, vai até ao ponto de querer saber como é que eu faço para me realizar? Julgo que actualmente o meu homem só deixa o cão coçar-lhe o raio da coisa. As poucas noites que vai para a cama comigo obriga-me a aquecê-la. Eu não me importo, gosto de ter a cama sempre quente, mas gostava mais que estivesses no lugar dele para me possuíres as vezes que quisesses… E por aí adiante. «De Maria MancaMula sempre tua», é assim que acaba a mensagem. A outra é mais comprida. Tão comprida como o pasquim do Lord.

Armindo Barriga Cheia sorriu com aquela loucura toda e, digita ele: «Tenho de te confessar que estou também louco por ti. Julgo que é por teres uma racha tão pequena. Quando penso no tamanho dela, sinto uma excitação maluca. Aliás, durante a maior parte do tempo em que não tenho nada para fazer, eu estive sempre a pensar em ti. Sentia-me tão contente por ter novamente uma amante para me possuír (a outra parecia um morcego, sempre a chupar-me) que me pús a descansar, assim que acabei de comer, mas sentia-me tão em fogo que não aguentei e tive que tocar à gaita. Estava tão louco que estive quase a acertar com o espermatozóide no buraco do meio do bilhar. Oh, pá! Era fantástico se acerto no buraco, que esteve por um poucochinho, de modo que esta era a minha primeira boa rosca desde a tua ida. Foi grandioso, é lógico, se bem que não é nada que se compare, como quando és tu a tocá-la. Então, borrei-me todo! Já nem me segurava nas ganchetas, quando me levantei com cautelas, e fui lavar-me, e aí, eu tive que mudar de roupa interior e esfregar-me com carradas de perfume... E termino a minha mensagem com a minha dedicatória. «Do Armindo Barriga Cheia com próspero amor.»

Sai para uma ida ao bar, sentindo uma das mãos levemente cansada. Sabe que é um bom petisco para as prostitutas com quem se cruza no bar, todas elas andam mortinhas para o levar ao castigo... são exímias a avaliar a situação económica que qualquer homem possuí. Mas ele não quer uma prostituta. Quer outra Mula, mas uma Maria MancaMula a que não seja obrigado a ficar tão agarrado às mensagens. Mas não descola outra...

Tuesday, September 23, 2008

CONTOS DE RATAZANA





              «SOB O TECTO
                 LORDESCO»

                       ~~~



Só eu sei que já vivi no Porto o tempo suficiente para não me sentir surpreendido com coisa nenhuma. Aqui não é própriamente necessário procurar aventuras do arco da velha, tal como acontece em Pequim… só é preciso ter um pouco de paciência e esperar; a vida virá ao nosso encontro nos sítios mais incríveis e picantes e as coisas passam-se aí. Mas este caso em que agora me situo… esta catraia de dezassete anos, branca como a cal, na mesa onze, o indiano espalhafatoso a ferrar uma orelha atrás dela, à frente, as duas prostitutas, uma baixa e outra alta, sentadas no sofá… é como se a realidade fosse vista através de um binóculo que embaciasse as imagens, tirando-lhes assim toda a credibilidade. Nunca me imaginara a servir de fiscal… como esses tipos que são controladores dos transportes públicos, de aspecto sempre meticuloso, muito andantes nas flautas, explicando que a catraia tinha o calor em brasa e ele estava a soprar-lhe o frio… Mas agora, tenho de admitir que Fili, com o seu corpo médio e sem pêlos, excita o indiano. Não pelo facto de ela ser uma catraia, mas porque é uma catraia sem inocência… olha-se-lhe dentro dos olhos e vê-se o diabo em figura de gente, a sombra da experiência…está sentada sobre uma das pernas desnudadas e comprime a azeitona debaixo da sua língua…
… e os seus olhos gozam pelo embaraço dele. O indiano roça-lhe com a palma da mão uma das nádegas palpitantes… o corpo ainda mantém a solidez e a imaturidade da infância. É uma mulher em crescimento, um modelo ainda por se fazer. Tem o suor espalhado… Gosta quando ele lhe faz festas ao pescoço. Agarra-lhe o braço… mas ele já entrou no local das bolas de Berlim… Espeta-lhe as unhas aguçadas que não o deixam explorar terrenos alheios e começa a brincar com a azeitona na boca… bom, vai pô-lo mais doente da tola…


A prostituta magra, sorri cinicamente… Ainda lhe chamam catraia… Ainda lhe chamam catraia, diz… a gaja sabe tanto como eu destas coisas. Ela marca com os olhos tudo o que se move. No seu ofício não se podem dar ao luxo de se deixar envolver emocionalmente, já que as prostitutas só conseguem viver depois de aprenderem a vender os seus corpos e, nunca, os sentimentos… mas vejo a perturbação invadir-lhe a alma, enquanto a voz vai ficando destravada... Chama a prostituta alta. A alta não se faz ouvir, mas ela empurra-a da mesa… está quase a caír ao ver-se desamparada. Pergunta-lhe o motivo porque se comporta como uma… bem, como uma sonâmbula, ela não diz nada, mantém-se apática e a magra toca-lhe no braço.
Tu fazes amor com o teu homem, todas as noites? Sim, todas as noites, quando ele está comigo deitado na cama… E quando o teu homem vai trabalhar, quando está fora durante a noite? Os cabritos, às vezes, querem que eu lhes faça umas coisas… eu nunca lhes digo que não, nem àqueles que querem levar com uma pelo telemóvel… O indiano sai irritado da mesa onze. A menina quer fazer o favor de não contar mais histórias dessas … peça uma garrafa e bebam as três uma rodada de um champanhe que vos faz bem ao espírito. A Fili bebe um golinho de espumoso.


Sento-me ao lado da prostituta alta no sofá. Está tão preplexa a olhar para mim, como eu estou para ela; deve ter-se esquecido do compromisso com o cliente de há bocado, senão teria dado à sola e não seria preciso eu ir avivar-lhe a memória… e logo a seguir, deita a mão à testa e levanta as pernas compridas e fortes. Fili está sentada ao lado do indiano. Brinca-lhe com os dedos, enquanto ele desliza a vista pela montra envidraçada... ele levanta o fino dedo mendinho para cima e ela belisca-o com gana.
O telemóvel da prostituta alta está tocando e, quando ela atende, vejo que está a desculpar-se perante o cliente. Não disse mais de cinco letras, tantas quantos dedos tem a minha mão. Ergue o olhar para a frente, tira a mochila do chão e esfrega os olhos, pergunta ainda, se ele me pedir para não usar preservativo, talvez a seco? Ela está morta por ser comida, e o facto de lhe terem prometido pagar três vezes mais aqui na pensão não tem nada a ver com o sítio onde ela faz massagens... neste momento, provavelmente, era capaz de dar ainda mais qualquer coisa só para receber aquele dinheirinho… Fili quer que o indiano a leve prá cama. Está ela debruçada sobre ele, com o copo numa mão, enquanto gesticula com a outra e pede, em voz alta, que eu lhe sirva outra dose e leve azeitonas pretas. Ele vai-me comer, diz-me, quando se encaminha pró quarto de banho, não queremos que os nossos nomes apareçam no pasquim do bar? O indiano reluz como um xeringa,1 agora tudo se parece cor-de-rosa. Está meio esticado no sofá da mesa onze, esperando que a pequena catraia volte. A prostituta baixa pede-me para pôr uns bónus na máquina das bolinhas. Ela está tão em crise por não entrar um cliente, que quase avaria a máquina quando começa a perder bónus e subitamente, o telefone começa a tocar.


Posso ser eu, mas faço também colecção com a minha amiga, exclama e fala ainda mais alto que sou obrigado a aumentar a música para os outros não ouvirem. Volto-me para trás, para não me chatear com ela… está a rir, a cabra, adora estragar as coisas que não são dela… «Comes as duas, se quiseres!» A prostituta baixa continua a chamada e tenta convencer o homenzinho, as palavras saiem-lhe com excitação… baixa o soutien para baixo… os seios exibem-se por fora da camisa. Oiço também o indiano a chamar-me:

«Azeitonas! Tenho de comer mais azeitonas antes de comer a minha querida pequena catraiazinha!»


Fili abre a sua pequena blusa e empurra para baixo, contra as suas calças justas de cor branca... vejo a sua descontracção aumentar-lhe para o dobro. Não percebo como ela consegue sustê-lo… mas o seu olhar reluzento parece devorá-lo, e bebe mais e mais…por instantes, sinto-a tão prevertida aquela catraia, para saber tantas coisas… E continua a saber por aí fora… Afasto-me, levando os pires sujos e os copos vazios e meto-me dentro do balcão e o indiano pede-me a conta.

«Devo estar tão generoso para si, para ter feito uma despesa destas… Com certeza que não estou com a moca… Agora, faça-me o troco, depressa!»
«Mexa-se!», grita ele. Julgo que está assustado com os meus números, mas não… aquele monhé não é da raça dos que se assustam fácilmente. Os olhos activos brilham-lhe quando me olha.


Corro, ligeiramente, para levar o troco.


«Ratazana! Ratazana!» É a prostituta alta que chega da rua. Deita-me a mão com força. «Atirei-lhe o dinheiro à cama, àquele sostro velho?» Vê-me tirar um copo de água.
«Não, não quero água…»


Puxo-a para trás do balcão. Lá está a colega a martelar as teclas da máquina de diversão.


«Oh, filha! Tu nem sabes o que me aconteceu!», choraminga a prostituta alta. «Aquele sostro velho deu-lhe para pegar no cinto para me cascar, enquanto me queria comer! Gritei-lhe como uma desalmada!»


Ela sentou-se na cadeira e esticou as pernas para fora da mesa. Estava tão branca que pensei que lhe ia dar o fanico.


«Oh, filha… se tu lá estivesses…», suspirou ela.
«Sua filha da puta maluca!», grita-lhe a prostituta baixa. «Não te volto a avisar para não te deixares comer de cebolada! Fazes tudo à tua maneira, e ainda por cima, atiras-lhe com o dinheiro!» Enfia o telemóvel nas calças e larga de vez a máquina das bolinhas.
«Agora, morcona! Vou fazer um labrego que engatei do anúncio!

Cava, rapidamente, da sala. Esta prostituta tem uma velocidade nas gambiarras. Não há forma de a apanhar… Pode-se ir de patins, skates, até bicicleta a motor, que a distância continuará a aumentar até nos deixar.

«Adeus!» É o indiano a saír e Fili segue atrás. Já lhe passaram insónias a mais… muitas, sem deixar rasto, meias gastas, todas elas. Mas estar tarde, esta bela tarde, Fili não o vai deixar fugir.
«Ratazana!» Ah! Esta agora, quer paleio. Empurro o copo para perto da sua mão e ela choraminga de novo a lembrar-se daquela saída, sem nada receber, isso baralha-lhe a mente. Neste momento não é uma prostituta… é sómente uma cabeça com problemas, que tem der ser reparada… os problemas vão durar muito.


Vou ter de levar com ela, como vou ter de ouvir as suas memórias desses outros que a lixaram. Está debruçada com a cabeça na porta da sala de jantar, com as pernas firmes para fora e os seus lábios murmuram palavras azedas dirigidas ao sostro velho. Faço de conta que não ouço. Agora, ela está em baixo de moral. Encho-lhe o espírito com palavras bonitas. E faço-lhe ver que não tem de se sentir culpada por não possuír estaleca para ser usada a chicote… é já bastante o que ela faz… Depois de ter aliviado, a prostituta alta mantém-se escarrapachada olhando como um lince a porta do bar. Nem se dá ao trabalho de fechar as pernas… comporta-se como se tivesse esquecido donde está e parece plenamente satisfeita consigo própria. Mas receio que hoje não não apareça ninguém, que lhe pague no mínimo um copo, ou uma ajuda para o táxi, para ela contar a história da mãe no xadrêz por gamanço… Meto a mão no pano e limpo com ele a mesa e tiro a primeira revista que me aparece, coloco-lhe dobrada na página dos anúncios dos casamentos à moda de Campanhã, sobre o tampo de vidro da mesa, como um alívio a servir de distracção.


De súbito, a prostituta alta põe a revista de lado e sai. A rua, tão solitária e despovoada, como nunca vi, acolhem-na.


(1) drogado.

Wednesday, April 23, 2008

CONTOS DE RATAZANA


                                       O CAVALHEIRO DE TESÃO
                                                           ~~~

Não quero embebedar-me. Hoje levei meia dúzia de garrafas de uísque para casa... duas já foram aviadas e desfiz-me delas. Não tinha notado que estavam a escoar-se, que o álcool se tornava progressivamente mais fraco para aguentar a sede... mas já se foram e só as tinha comprado há uma hora ou duas... quando ainda estava para ver o futebol na televisão, é claro. Em que outro programa a não ser o futebol se pode beber uísques a quantidades de granel que se evaporam primeiro do que a pessoa que os bebeu? Mas o tempo cura. Estes gajos da vida da noite que nos dizem que não se importam de apanhar a piela e dar duas, ou cinco ripeiradas... como é que uma besta pode dizer uma asneira dessas, minha sorte? Há tempo para tudo e muito mais e contanto que se esteja a mexer é impossível a alguém cansar-se de não fazer o que lhe der na real gana... Saio e vou à procura de prazer. Entro no O Bar do Traidor. A chavala da Panquecas vem coçar-se no meu casaco após uma troca de olhares. Está cheia de vícios, até às unhas, ou mais... agora é o lesbismo que a atrai. Fala de cabelos, brancos e russos, das Mulheres-Homens, de pentelhos e não pentelhos, de sensabilidade fêmea... Oh, ela tem tudo bem estudado, conhece todas as palavras e fala tudo tão rápido como um papagaio que tudo me leva a crer que não tenha o caco avariado.

Decidiu que já reuniu informações a meu respeito que lhe faço parecer um cavalheiro de tesão e espera um dia chegar a sua vez de me comer. De mim, ouviu ela dizer, mulheres houve que levaram uma ripeirada de engravidarem! E como seria maravilhoso poder ir para a cama comigo, ser acompanhada por, digamos, Panquecas, ou outra gaja que, por motivo de atracção, etc., é inacessível de qualquer outro modo. E ela vibra com esta treta! Tem andado a ver montanhas de filmes eróticos, diz-me ela, e a Panquecas está excitadíssima. Saberei eu, por exemplo, interroga ela, que há, nesta cidade menos de cinco dedos de casas eróticas, cujas clientes se perfilam à adoração do Antipénis? Fala de seduções e joguinhos, e vários utensílios utilizados para fins de prazer e realização sexual. Cos diabos, ao ouvi-la falar quase me convence que todas as noites avia marados e tarados. Até a Panquecas faz a sua entrada na mesa... esgotou as listas nos dois celulares dos grandes senhores da foda de todas as épocas e diz-me que só no Porto existe menos de cinco locais de encontros afrodisíacos que funcionam de noite. E puxa por mim: «Então, Sr. Rui, hoje não vai dar uma rapidinha? Abano a cabeça, simplesmente.» É impossível ir para a cama com uma mulher que não me diz nada ao instrumento. Mais depressa me enrolava com uma rafeira esfomeada. Para ser sincero, estou contente por ela se ter posto ao fresco e mesmo depois de ela ter saído da mesa aindo sinto o vazio que deixou. Não são pancas e taras que me chateiam.

Torres dá também o seu mote para o meu dia! Torres e Panquecas! O industrial da construção que Panquecas gosta de levar para a cama com desejos ardentes, mais ardentes que outros, quanto está só a viver em casa... sente saudades do tempo e sofre daquela doença que faz as amantes sentirem que uma pessoa que tenha estado por dentro da vida um do outro é um amigo para brincar e troçar com toques de ternura e confidências. Por conseguinte, Panquecas anda a dar umas curvas com ele. Não é tão chança como eu pensava... talvez porque tanto ela como ele se sentem divertidos... fizeram a ronda pelas tabernas da periferia. Também não é muito nova... nem percebo como é que ainda não se cansou de aguentar Torres... ele está a ficar pantomineiro... Ele encosta-se-lhe à perna, dá um tremido para ela, mesmo ali à minha frente, e ela aproveita a dar-lhe um beliscão e olha, fixamente, para ele. Torres parece ter decidido que esta noite é mais uma noite para a tourada... há alguns dias que anda a tentar apanhá-la com a chavala que já fez tudo, excepto dizer abertamente para ela trazer a chavala que quer montar as duas. Começa a provocá-la... mete-lhe a língua na orelha, roça-lhe com a mão nas mamas... Ele está a querer que ela aqueça... e parece-me que ele a quer tanto para o seu próprio prazer como para aquecer Panquecas. Oh, ela é uma sabida na matéria, a esse respeito não restam dúvidas. Enquanto isso, a chavala... a chavala afasta-se e desaparece durante uma meia hora, até voltar ao nosso convívio outra vez...

De súbito soa a campaínha da porta do bar e é a meia-irmã de Panquecas.

Voltou do café e trás um pastel para Panquecas que ela não conseguiu comer hoje porque acordou tarde. A chavala regressa também e recebe ordem para dar uma dentada no pastel. Senta-se e faz olhinhos... um pequeno sorriso é tudo o que preciso para a compreender... Aquele pequeno corpinho, deixa-me o pau em sentido que podia pô-lo em exibição... Ofereço-lhe um copo de licor de pêssego e depois ela contempla-me de alto a baixo exibindo o seu primeiro sinal de compromisso em toda a noite. Depois Torres e Panquecas sentam-se e agarram-se um ao outro. Torres fica de frente a olhar para mim, no sofá. Talvez não fosse má ideia irmos os quatro para o cardenho e estávamos mais à vontade! sugere sarcasticamente. Porque é que elas não nos fazem aos dois ao mesmo tempo? Deve estar mais embriagado do que eu... de certeza que sente uma certa temperatura... Panquecas solta uma valente gargalhada. Mas ele ri-se também... os dois desatam a rir, a beberam um copo pelo dito e a chavala faz-se tímida e está bonita.

«Porque é que tu não lhe saltas...? Oh, pá, estás à espera que ela te diga», pergunta-me Torres. «Leva-a para a cama... Eu não me importo. Mas eu gostava de a fazer com a amiga, para ter o prazer de saber o que é que elas têm para me dar que eu não saiba?»

A chavala tosse convulsivamente, colocando a mão à frente da boca. Tenta mostrar um ar alegre... uma coisa que a tosse não a deixa disfarçar. Panquecas carrega o sobrolho... talvez pense que Torres está a querer ir um pouco longe demais... mas estas gajas podem ir bastante mais longe de que isto. Repentinamente a chavala abre a blusa e mostra-nos os seios que emolduram o corpo. É como ter um raio potente dirigido subitamente na nossa direcção, quando ela nos mostra aquilo. Quase que os esfrega no nariz de Torres. O que é que há de mal com eles? Quer ela saber. Ser pequenos... ser descaídos? As duas coisas, digo-lhes eu, o que a faz morder o lábio. A chavala fecha subitamente a blusa, e lança-me um olhar reprovador. Torres quer divertir-se. Para a família, ele está muito longe de casa e, nem sempre isso acontece, segundo nos diz, pode fazer o que muito bem lhe apetecer. Torna-se altamente vendedor de programas ao programar uma farra nocturna. Por fim volta-se para Panquecas. Se ela quiser alinhar num quarteto, vai ver que não se arrepende. Panquecas manda-o enfiar o dedo pelo cu acima... mas realmente não há razão para nos divertirmos.

Não estou muito pelos ajustes de desejar despir as calças com este par por perto... mas ele mostra-se resoluto com tudo. Convenço-me que o seu interesse se centra mais em Panquecas. Está uma pequena confusão na mesa desde que Torres chegou... oh sim, ele pensou mesmo em comê-las, simplesmente a Panquecas não vai no jogo! Mas não é fácil fazer uma coisa destas quando uma parceira não alinha... mas ele nunca vai desistir de as fazer. Porra, não vou ficar aqui feito pateta a ver estes doidos a reinar! Mas estou com uma força no pau que parece fazer parte dos meus bons tempos e se não como a chavala provavelmente vejo-me obrigado a sair e a pagar a outra puta... encosto-me a ela quando se encosta para mim. Esfrega a mão contra o meu instrumento e puxa-o para a frente para medi-lo ao comprimento. A chavala está tão louca a ser levada para a cama como eu estou para a comer... as suas mãos ardem e o suco escorre entre os dedos. E o seu olhar... é uma maçã ardente e cobiçosa... Sinto-me como um homem prestes a entrar na lua quando lhe passo a mão na rata. Ela abre as pernas e firma-se como uma santola. Levanto-me para ir à pensão à procura de um quarto. Torres agora olha-me admirado. Certamente não contava eu ter uma reacção destas. Explico-lhe o porquê. Tens aí uma gaja para fazer cócegas à barriga. Para mim, é agora ou nunca... há tantos dias que ando a tentar comê-la, que agora não me escapa. Oh, My God, fodi-a no quarto 11, no andar de baixo da pensão, em cima do velho móvel da roupa! A chavala está sentada de frente, firme como uma rocha, enquanto lhe tiro as cuecas... e atraio-a a mim e beijo a sua boca mais uma vez... e antes que ela tenha tempo de arrefecer eu monto-o. Monto-a ao estilo de Marlon Brando e começa a dar gemidos tão altos e roufenhos, que eu temo que o homem da recepção apareça com a polícia e me leve para a choça.

Que loucura! A chavala agora grita que lhe está a chegar o orgasmo... Eu estou tão roto que a única coisa que posso esperar é que ela não expluda. A chavala está demasiado concentrada a imaginar-se com o cavalheiro de tesão e só abre os olhos quando me venho e ela, também... Ah! que gozo, parece que o mundo inteiro está a ter um orgasmo!