<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227</id><updated>2012-02-09T16:40:58.604-08:00</updated><category term='CONTOS DE RATAZANA'/><title type='text'>Bar do Traidor</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>66</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-3085472572138044658</id><published>2012-01-24T08:46:00.001-08:00</published><updated>2012-01-24T11:45:34.528-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-06Cm5JGrVzg/Tx8BU5A_4nI/AAAAAAAAARo/GzvskPQmE6A/s1600/Goldmine_cartoon.png"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 295px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-06Cm5JGrVzg/Tx8BU5A_4nI/AAAAAAAAARo/GzvskPQmE6A/s320/Goldmine_cartoon.png" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5701277111688356466" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;            CONTOS DE RATAZANA&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;            __________________&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;                       7. Episódio&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;                           _____&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span&gt;               Eis como os amigos de Pipocas enveredaram por um caminho do bem e ajudaram o pobre Faísca&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: center;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Muita gente via o Faísca quase todos os dias; uns riam-se dele, outros tinham pena, mas ninguém se metia com ele. Era um homem pequeno mas magro, estreito de costas, de cabelo encaracolado e penteado ao lado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Usava calça de fazenda, camisa às cores e não fumava. Na vila andava de pulôver. Quando estava perante qualquer ilustre, havia nos seus olhos um certo retraimento, a expressão reveladora do indivíduo que não gosta de ser muito mirado. Devido a essa expressão, os guardas de Marco de Canaveses sabiam que a sua mente não tinha crescido com o resto do corpo. Chamavam-lhe o Faísca por causa de aparecer em todo o lugar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Todos os dias as pessoas o viam passar para o jardim empurrando o seu carrito de pedais com bijutarias até vender a sua carga. E, sempre atrás dele, seguia o seu cão de vigilância. Chamava-se Vigília, fazia lembrar um texugo, embora o seu tamanho fosse volumoso. Quando, cansado de pedalar o carrinho, ele se punha de pé encostado a uma parede, o cão subia para o selim para que ninguém se atravesse a roubar-lhe a carga.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Havia quem tivesse visto o Faísca logo de manhãzinha no Beco do Repouso, havia quem o tivesse visto a comer laranjas no mercado, havia quem soubesse que ele vendia santinhos; mas mais ninguém melhor que Catanada, sabia todos os passos que o Faísca dava. Catanada conhecia toda a gente e sabia tudo relativo a todos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca vivia fora da vila nos arrabaldes do Marco de Canaveses numa casa térrea com um pequeno quintal na frente. Teria achado vaidade da sua parte mesmo morar junto à rua. O cão vivia ao redor e dormia na cama aos pés dele, e isto agradava-lhe, pois nas noites de Inverno, o bicho aquecia-o. Se as noites gelassem, bastava-lhe pôr umas achas na fogueira, amarfanhar-se nos cobertores e pôr-lhe em cima o esqueleto quente do Vigília. A casa era tão solarenga que o Faísca só tinha problemas quando chegava o Inverno.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Bem cedo pela manhã, bem antes de o comércio abrir, o Faísca saía para fora de casa, seguido pelo cão que rosnava ao contacto com a atmosfera fria. Depois, desciam ao Marco de Canaveses e punham-se a trabalhar ao longo duma rua. As traseiras de dois ou três restaurantes davam para essa rua. Por todas elas o Faísca entrava direito aos recantos malcheirosos a comida. Empregados mandriões deixavam-no carregar bidões besuntados de restos de comida e caixas com garrafas vazias, porque não queriam ser eles os transportadores do lixo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Depois de ter limpado cada um dos recantos traseiros e ter os braços cansados, o Faísca voltava a subir a rua, a que ele baptizara de &lt;i&gt;“Largo da Gota”&lt;/i&gt; e, seguido do cão fiel, sentava-se num banco do tasco. A seguir, tomava o mata-bicho oferecido pelo dono pelo trabalho e tinha direito a uns ossos para o cão. O cão sentava-se em volta dele, roendo calmamente os ossos. O cão do Faísca nunca deixava ninguém se meter com o dono, mesmo na brincadeira, que atirava-se logo como se eles fossem gatos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Quando o sol raiava já o mata-bicho havia terminado. Sentado agora no beiral de fora, o Faísca aconchegava-se perante o sol que tingira de azul-marinho a manhã. Observava, lá em baixo, os vendedores de peixe nas carrinhas a fazerem-se à vida, chamando a freguesia. Ouvia o apito do comboio, soar repetitivamente ao longe da estação do Caminho de Ferro. O cão deitado, em redor dele, esticava-se como um bacalhau, deliciando-se a apanhar sol.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca parecia mais estar a pensar na morta da bezerra, pois os seus olhos tinham uma expressão concentrada. Acariciava, distraidamente, a sua magra perna pela barriga do cão e coçava-lhe os tomates. Uma hora depois, o Faísca ia a casa, tirava o carrito coberto por um oleado e metia-lhe um pouco mais de gasolina no depósito. Em seguida, rua acima, rua abaixo, guiando o carrito, encaminhava-se pelo jardim dentro até encontrar um banco ao sol e sem ninguém. Pelo meio da tarde, tinha já vendido uma dúzia de santinhos; depois, seguido pelo cão, andarilhava as ruas principais até vender algumas bijutarias por dez escudos.    &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O que ele fazia ao dinheiro ao certo é que ninguém o sabia. Andava sempre pendurado. De noite, encoberto pelas trevas da noite, ia à parede e levantava uma pedra, e escondia as moedas na lata vazia de engraxar sapatos ao pé de dezenas de outras latas. Seja como for, o Faísca tinha armazenado uma grande quantidade de dinheiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Catanada, empregado de banco a quem não escapavam os particulares da vida dos seus semelhantes e que ficava a falar sozinho para a sua gravata sobre os seus conhecidos, descobriu o tesouro do Faísca por um processo matemático. Então, raciocinou: «Todos os dias o Faísca arranja em média dez escudos. Quando tem muitas moedas de tostão vai à loja e cambia o dinheiro por uma moeda de dez escudos. Portanto, deve guardá-la.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Catanada pôs-se a adivinhar a quantidade de moedas guardadas. Há anos que o Faísca vinha fazendo este modo de vida. Seis dias por semana ele limpava os bidões e aos domingos vendia santinhos na igreja. A roupa orientava-as nas feiras e a comida e os mata-bichos nos restaurantes e tascos. Catanada ainda andou um bocado à nora com grandes somas, mas logo desistiu. «Deve ter açambarcado pelo menos dez mil escudos», pensou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Há já algum tempo, Catanada tinha meditado nestas coisas. Mas foi só depois de, louca e entusiasticamente, a aventura de sustentar a prostituta no apartamento de Pipocas ter sido anulada que o pensamento recaiu, sobre o tesouro do Faísca e ganhou para ele um contorno pessoal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Depois de se debruçar acerca do problema, Catanada prosseguiu o caminho da solução. «Mas seria louvável», pensou, «tentar fazer-lhe um seguro de vida! Oferecer-lhe umas roupas novas? Ele até tem estilo. Mas não tenho dinheiro», lembrou-se, «para comprar essas coisas, embora isso não seja caso de grande monta. Como é que vou levar a cabo esta marosca?» &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Chegava-lhe agora uma luz ao fundo do túnel. Como um rato que, durante uns longos minutos se acerca de um bocado de queijo, Catanada estava preparado para utilizar o seu tema. «É isto!», exclamou a sua cabeça. «O Faísca tem dinheiro, mas não tem seguro de incêndio e roubo? Eu tenho-o! Vou pô-lo a fazer um seguro para ele e para o cão também. Será esta a minha marosca para avaliar aquele pobre diabo.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Era uma das muitas habilidades que Catanada estava apto. A vontade irresistível do finório de apresentar o seu projecto a um amigo invadiu-o. «Vou falar com Pascácio», pensou. Mas não sabia se devia fazê-lo. Era Pascácio realmente firme? Não quereria ele cobrar-lhe alguma parte do seu dinheiro para seu proveito próprio? Pelo sim pelo não, Catanada resolveu não correr já esse risco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;E não esperou pelo amanhã. Nessa mesma noite foi dar uma ronda pela casa onde o Faísca vivia com o cão. Pipocas, Pascácio e &lt;i&gt;Very nice &lt;/i&gt;sentados ao balcão do café, viram-no passar mas não disserem nada. Porque, pensaram que ele não demoraria muito a vir para o pé deles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Estava uma noite cinzenta, mas Catanada prevenia-se com uma lanterna na algibeira, pois sabia que, tinha que ter cuidado, uma vez que era do conhecimento geral que o cão, se suspeitasse que alguém queria fazer mal ao dono, se transformava em vampiro sanguinário. Levava também numa pasta pequena uns brindes, que tinha orientado no banco e uma garrafa de cachaça que, a empregado do restaurante lhe tinha dado, como agradecimento de uma fórmula para conseguir o empréstimo bancário para uma ida a Paris. No pensamento de Catanada, o Faísca ia adorar a cachaça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;A noite estava mais cinzenta. Catanada cortou por uma ruela ladeada de terrenos abandonados e cobertos de ervas. Assim que Catanada se acercou da cancela, viu o cão rafeiro do Faísca sair a rosnar do quintal, e Catanada, para o manietar, atirou-lhe uma chiclete.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Chupa, cãozinho, chupa — disse suavemente —, que vais ver como vais ficar docinho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;O cão, logo ficou entusiasmado pelo aroma, pois retirou-se para o interior.&lt;/span&gt;&lt;span&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Faísca, é o teu grande amigo Catanada que quer dar-te uma palavrinha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Fez-se silêncio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Faísca, sou eu, o Catanada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Uma voz seca e azeda respondeu-lhe:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Vai-te daqui. Estou na cama. Não enerves o cão. Vai mas é dormir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Tenho aqui uma garrafa de cachaça — retorquiu Catanada. — A tua rouca voz ficará tão fina como a voz de um tenor. Tenho também uns brindes para ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Na casa ouviu-se um barulho repentino.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Entra lá, então — disse o Faísca. — Eu digo ao cão que és meu amigo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;À medida que avançava pelo meio do pátio, Catanada viu o Faísca falar baixinho com o cão, dizendo-lhe que Catanada não fazia mal a ninguém.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca estava em frente da escaqueirada porta da entrada desfigurado rodeado pelo cão. Vigília rosnou e logo voltou a ficar sossegado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Este só faz mal se o dono o mandar fazer — disse o Faísca, envaidecido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Os seus olhos eram os olhos risonhos de um homem divertido. Quando abriu a boca, o seu grande bafo empestou à luz da lua.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Catanada abriu a pasta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Trago-te aqui uma boa garrafa de cachaça — disse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca pegou na garrafa e olhou para dentro, depois abanou-a, e sorrindo, tirou-lhe a rolha. O cão arreganhou os dentes, olhou para ele, e lambeu as beiças. O Faísca buscou dois copos. O primeiro foi para Catanada, sua visita.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— E agora tu, Vigília.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O cão recebeu a sua parte na tigela, bebeu-a e ficou à espera de mais. O Faísca bebeu um bom gole e esticou a cabeça para o ar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Que mata-bicho!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Catanada olhou para ele e colocou a pasta à sua frente. O Faísca, curioso, interrogava-o com os braços abertos. Catanada mantinha-se calado a fim de deixar que pela cabeça de Faísca passassem muitas perguntas. Até que disse:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— És uma tremenda dor de cabeça para os teus vizinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Os olhos do Faísca encheram-se de espanto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Eu? Para os meus vizinhos? Quais vizinhos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Catanada mudou o tom da voz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Tens muitos vizinhos nas imediações que pensam em ti. Nunca vêm visitar-te porque de dia andas sempre fora. Julgam que talvez não gostes que te venham visitar à noite. Mas esses teus vizinhos andam sempre preocupados porque têm medo que um dia a casa se incendeie e roubem-na e te ponha a vida em risco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Apalermado e boquiaberto, o Faísca seguia o raciocino do outro, tentando entender as coisas novas que estava a escutar. Não punha em dúvidas sequer a sua veracidade, uma vez que era Catanada quem as proferia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Eu tenho assim tantos vizinhos? — perguntou, admirado. — Juro, que eu não sabia, Catanada. E eles preocupam-se comigo? Que raio de coisa, Catanada. — Engoliu a saliva para controlar a emoção que lhe tomava a garganta. — Tu compreendes, Catanada, o cão e eu gostamos de aqui estar, por causa deste sossego. Não pensava era que causava preocupações aos meus vizinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;As faces ficaram-lhe esbranquiçadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Contudo — continuou Catanada — o teu estilo de vida causa muita apreensão aos teus vizinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca botou os olhos ao chão e tentou pensar rápido em qualquer coisa, mas, como sempre lhe acontecia quando forjava uma ideia, a caixa cinzenta bloqueava e daí não surgia nada. Depois, seriamente, fitou Catanada nos olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Então, o que é que tu achas que eu devo fazer. Eu não estava a par disto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Era demasiado simples. Catanada não estava a contar com esta. Repensou; esteve quase a mudar de táctica; sabia, no entanto, que isso ia pô-lo danado consigo mesmo se o fizesse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Os teus vizinhos são pessoas civilizadas — disse. — Gostariam que defendesses os teus bens. Se tens dinheiro guardado fá-lo investir num seguro da casa. Num seguro ao cão também. Compra acções. Tira o dinheiro do sítio onde o escondeste, Faísca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Enquanto falara, Catanada tinha fitado atentamente os olhos do Faísca. Vira-os fugir para o lado com suspeita e depois com desconfiança. Num momento teve a certeza de duas coisas. Primeiro, que o Faísca tinha dinheiro escondido. Segundo, que não era fácil deitar-lhe a mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca estava agora de novo a olhar para ele. Nos seus olhos haviam sofisma e, ilustrando-a uma estudada ratice.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Não tenho dinheiro nenhum — disse.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Mas todos os dias, amigo Faísca, vejo-te receber cerca de dez escudos de vendas e nunca te vi gastar um centavo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Desta vez o raciocínio do Faísca não o tramou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Dou-os à Minha Sorte — disse. — Não guardo dinheiro em nenhum lado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;E com este drible encerrou firmemente o assunto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;«Aqui deve haver pardal», pensou, Catanada. Por fim, lançou o último às ao jogo. Deitou mão à pasta e pô-la debaixo do braço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Eu apenas tive o cuidado de proteger-te. Como sabes, o seguro morreu de velho — disse em toada crítica. — Se não quiseres tentar precaver-te, não posso fazer nada por ti.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;A bondade voltou aos olhos do Faísca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Diz aos meus vizinhos que estou bem de saúde — pediu. — Diz-lhes que venham visitar-me sempre que queiram. Têm é que avisar-me antes. Ficarei muito contente por os receber. Dizes-lhes isto por mim, Catanada?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Digo — respondeu Catanada com dureza. — Mas os teus vizinhos não vão ficar muito satisfeitos quando souberem que tu não fazes nada para os sossegar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Catanada passou a pasta para a mão e afastou-se encoberto no escuro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Sabia que o Faísca nunca abriria boca onde escondera o dinheiro. Este tinha de ser descoberto furtivamente e arrancado à força. Depois far-se-iam todos os seguros para o Faísca. Não havia outro remédio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;E a partir daqui, Catanada meteu pés ao caminho a seguir o Faísca. Segui-o no jardim quando ele ia vender bugiganga, e aos domingos na igreja quando vendia santinhos. Ficava à espreita, de noite, junto da casa. Teve com ele algumas conversas a jeito, mas daí nada surgiu. As longas e desgastadas vigílias deram cabo do juízo de Catanada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Achava que tinha de pedir ajuda e opinião pessoal a Pipocas, Pascácio e &lt;i&gt;Very nice. &lt;/i&gt;Quem melhor lhas podia dar? Tinha que lhes conceder a sua confiança, mas primeiro mentalizou-os como tal se tinha mentalizado a si mesmo. Quando chegou a altura, os amigos estavam numa, &lt;i&gt;“Um por todos e todos por um”&lt;/i&gt;. Aplaudiram-no. O rosto iluminou-lhes de boa vontade. Pascácio chegou a fazer contas de somar e concluiu que o Faísca era bem menino de possuir mais de dez mil escudos. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;— Temos de o seguir — disse Pascácio.&lt;/span&gt;&lt;span&gt;— &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Eu tenho-o seguido — retorquiu Catanada. — Mas é que ele só aparece à noite e o cão parece um demónio atrás dele. A coisa não é assim tão fácil.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Usaste os pormenores todos? — perguntou Pipocas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;— Todos.&lt;/span&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Por último, foi &lt;i&gt;Very nice,&lt;/i&gt; esse pensador homem, quem encontrou a chave da solução.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— A coisa só é difícil enquanto ele não ganhar confiança connosco — disse. — Mas supúnhamos que ele convivia com a gente? Seria mais fácil para nós ganhar a &lt;i&gt;cumfia &lt;/i&gt;dele&lt;i&gt;.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Os amigos consideraram lentamente essa hipótese.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Alguns empregados dos restaurantes dizem que ele se governa bem — disse Pascácio. — Já tenho visto que a comer é um pisco, mas a beber é bem melhor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— É capaz de ter aí uns vinte mil escudos — disse Catanada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Pipocas pôs uma questão:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Mas os seguros? Ele há querer o cão no seguro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— O cão é um autêntico robô — afirmou Catanada. — É-lhe fiel cegamente. Pode pôr-se um saco à volta do pescoço, mandá-lo ao recado e dizer-lhe: «Vai buscar pão», «Vai buscar leite.» Ele diz-lhe e o animal não falha uma. É um águia. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Um dia, de manhã, vi o Faísca; tinha no bolso quase meia vintena de cascalho — disse Pascácio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O assunto ficou encerrado. A conversa converteu-se em assembleia e a assembleia foi ter com o Faísca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca nem sabia como disfarçar a felicidade de ver a casa apinhada com todos lá dentro. Usou um tom rude.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— O tempo não tem ajudado muito — disse ele, na sua entrada inicial. — Talvez não devesse contar-vos, mas encontrei na barriga do Vigília uma cambada de carraças do tamanho de um ovo de pombo. — Depois, no seu papel de anfitrião, desfez de desculpas — A casa é muitíssimo pequena. Mas é quente e aconchegada, especialmente para o cão. Lamento não ter nada para oferecer aos vizinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Foi então, a vez de Catanada, falar. Disse ao Faísca que os seus vizinhos estavam extremamente dispostos a ajudá-lo a fazer o seguro, e que se ele fosse almoçar com eles poderiam criar um elo forte de amizade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca ficou muito sensibilizado ao ouvir estas palavras. Olhou para eles; depois, para o cão, à procura de apoio, mas aquele não o fitou. Por fim, com a palma da mão, limpou o nariz de ranho, e passou a mão no grande blusão de fazenda.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— E o cão — perguntou docemente. — Vocês não se ralam que ele também vá? Vocês têm cães?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Catanada acenou com a cabeça um sinal de concordância.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Temos; o cão também faz parte da família. Põe-se de lado um canto só para o bicho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca era muito orgulhoso. Tinha receio de não portar-se à altura deles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Vão agora à vossa vida — rogou. — Tenho que ver se faço alguma coisa. Amanhã ou depois vou ter convosco.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Os vizinhos sabiam como ele se sentia. Saíram para fora e deixaram-no só.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Ela há-de se dar bem com a gente — disse &lt;i&gt;Very nice.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Pobre diabo; por aí anda ao quem será — acrescentou Pipocas. — Se eu tivesse sabido, há mais tempo que o tinha convidado, mesmo que ele não possuísse um &lt;i&gt;tusto.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Um brilho de alegria brilhou em todos eles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Em breve as novas amizades ficaram estabelecidas. Pipocas, com uma longa corda, fechou um círculo em volta do quintal, onde o cão tinha de comer quando viesse lá a casa. O Faísca tinha agora um lugar central para ficar de frente para o cão. Pipocas e os amigos entenderam que o convite feito ao Faísca fora inspirado por aquele fatigado e desejoso momento que olhava pelos seus destinos e os protegia do mal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Todas as manhãs, muito antes de os seus vizinhos saírem de casa, o Faísca passava com o seu carrito e, seguido pelo cão, fazia a ronda do tasco e restaurantes. Era daquelas figuras da terra por quem toda a gente sente simpatia. As recolhas tornaram-se vantajosas. Os empregados eram seus amigos, dizia de si para si, dias a fio, quando rebocava o lixo e deixava os bidões vazios para eles os encherem. Estes empregados gostavam tanto dele que os afligia deixarem-no emborrachar-se sozinho. Muitas vezes o Faísca tinha de recolher a casa para dormir. Era tão grande o seu medo de não executar as tarefas, se por acaso não fossem lá limpar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Durante dois dias, os vizinhos limitaram-se a esperar pelo Faísca. Mas, por fim, ele acabou por vir visitá-los. Sentaram-se em redor da mesa, jantaram, e discutiram o que se passava no Marco de Canaveses numa voz arrastada de espertos saciados, os olhos do Faísca bailavam de rosto para rosto e os seus próprios sorrisos sobressaíam-se conferindo as conversas que ouvia. No fundo do quintal, satisfeito, o cão olhava para eles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Nessa noite, a discussão surgiu do tema das pessoas esconderem o dinheiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Catanada falou:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Tive um tio, um grande avarento, que abafava o dinheiro no sótão. Ora um dia, um incêndio deflagrou, e ele ficou sem nada. Ninguém chamou os bombeiros. O meu tio era preguiçoso, ficou sem dinheiro nenhum e depois internou-se.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Catanada notou, com uma certa satisfação, que no rosto do Faísca surgira uma certa inquietação. Pipocas reparou também e, por sua vez, prosseguiu:&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— O meu &lt;i&gt;patrício, &lt;/i&gt;que me deixou esta casa e a outra, também enterrou dinheiro. Não me lembro quanto, mas, como era considerado poupado, devem ter sido aí uns quatrocentos ou quinhentos contos de réis. O &lt;i&gt;patrício &lt;/i&gt;fez um esconderijo no tecto e pôs o dinheiro em cima; depois marcou o sítio com uma cruz. Mas, um dia, quando lá voltou os ratos tinham-lhe comido o dinheiro e deixaram lá umas pontas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Os sorrisos do Faísca seguiam os rostos. No olhar estampara-se-lhe o medo. Os seus dedos metiam-se por entre o miolo da broa. Os vizinhos trocaram um olhar e, habilmente, mudaram de tema. Passaram a falar dos amores de Xanana.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Pela noite dentro, Catanada saiu furtivamente de casa e, dirigiu-se rapidamente a casa do Faísca, saltando com destreza por cima da cancela e passado o quintal. Depois de tirar o canivete do bolso e ter aberto a porta, pôs-se a revistar gavetas e armários, e todo o local onde o Faísca poderia ter escondido o dinheiro. Mexeu e remexeu aqui e acolá e, por fim, deu por terminada a busca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Uma hora mais tarde, Catanada voltou para trás num desalento e aborrecido. Por essa altura, o Faísca já estava em casa dormindo o sono aberto deitado ao lado do cão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;No dia seguinte, realizou-se uma assembleia na casa do Pipocas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— É impossível dar com o esconderijo — informou Catanada. — Escondeu bem. Não se vê nem um chavo. Temos que conhecer bem os cantos à casa. Temos de arranjar outro esquema.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Talvez seja melhor irmos todos — sugeriu Pascácio. — Se todos formos revistar a casa, talvez um de nós tenha mais golpe de vista.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Hoje voltamos a convidá-lo — disse &lt;i&gt;Very nice.&lt;/i&gt; — Um senhor que é meu amigo, vai dar-me uma garrafa de uísque — acrescentou com modéstia, &lt;i&gt;Very nice.&lt;/i&gt; — Quem sabe, o Faísca, com uma pinga destas, não se levante da mesa e fique por aqui a sonhar.  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Assim ficou combinado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O amigo de &lt;i&gt;Very nice&lt;/i&gt; oferecera-lhe a garrafa de uísque. Não podia haver mais prazer para o Faísca nessa noite quando lhe passaram para a mão uma tigela com uísque acompanhada de uma chouriça assada e ele se sentou ao pé dos vizinhos, bebericando e ouvindo falar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Raras vezes tivera uma oportunidade de beber uísque por uma tigela. Como lhe soubera tão bem. Desejou poder abraçar esta gente contra o peito e dizer-lhe quanto os adorava, mas isso não podia fazer, não fossem eles chamar-lhe de bêbado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— A noite passada falamos sobre o dinheiro abafado — disse Catanada. — Agora, lembrei-me de uma madrinha minha, uma mulher esperta. Se havia alguém neste mundo capaz de descobrir um buraco onde ninguém desse com ele, esse alguém era a minha madrinha. De modo que um dia pegou no dinheiro e escondeu-o. Mas de nada lhe valeu. Um dia deram com ele e roubaram-lhe todo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;A inquietação voltou ao rosto do Faísca.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— É melhor ter o dinheiro à mão debaixo de olho, gastar um pouco e pronto e emprestar algum aos vizinhos — concluiu Pipocas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Tinham estado a olhar cuidadosamente o Faísca e tinham reparado que, durante a história mais arrebatadora, o cansaço lhe aparecera no rosto e um abrir e fechar de olhos tornava-se evidente. Agora o Faísca consumia o uísque em doses triplas e os olhos carregavam-lhe de peso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O sono apoderou-se dele. Todos os seus sentidos tinham bloqueado. Ficara profundamente ébrio. Depois de toda aquela chouriçada e de todo o álcool ingerido, acabou por tombar a cabeça para baixo e adormecera.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Pouco depois deu-se a saída furtiva dos vizinhos e sem que o cão do Faísca acordasse, cavaram dali para revistarem a casa do Faísca. Um momento depois, os quatro entraram na casa do Faísca. Quando abriram a porta o fedor era enorme. Os quatro vizinhos foram ao encontro dos cantos e apalparam buracos e bateram nas tábuas; mas durante bastante tempo ouviram o Faísca caminhar na sua retaguarda. Saíram para fora e esconderam-se atrás duns arbustos; de repente, só o silêncio, o abanar das folhas e o fraco vento da noite. Revisaram o arvoredo e atrás dos pinheiros, mas o Faísca desaparecera de novo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Por fim, cheios de frio e abatidos, arrastaram-se na direcção do centro. O céu escureceu e o manto da madrugada cobria já sobre a vila. Marco de Canaveses desceu até eles a luz dos primeiros candeeiros da noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca, sorrindo de alegria, veio ao quintal cumprimentá-los. Passaram por ele de má cara e meteram-se dentro de casa. Em cima da mesa encontrava-se um saco de serapilheira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca seguiu-os.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Enganei-te, Catanada. Disse-te que não tinha dinheiro porque estava com receio. Nessa altura eu não conhecia os meus vizinhos. Agora vocês disseram que me ajudavam a fazer o seguro da casa e do cão que já estou interessado de vez. Só depois de descansar é que me veio à cabeça a solução. No cofre do banco o dinheiro estará em segurança. Ninguém conseguirá tirá-lo de lá se os meus vizinhos me ajudarem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Os quatro vizinhos olhavam-no, estupefactos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Pega no teu dinheiro e esconde-o no monte — disse Pipocas, indignado. — A gente não vai querer saber.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Não — contestou o Faísca, — não me sentia seguro se o escondesse. Mas ficarei aliviado sabendo que os meus vizinhos me ajudaram a guardá-lo no banco. Vocês são capaz de não acreditar em mim, mas nestes últimos dias, alguém me revistou a casa para me roubar o dinheiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Embora o golpe fosse duro, Catanada tentou iludi-lo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Antes de esse dinheiro vir parar ao banco, se calhar, tu vais querer tirar algum? — sugeriu amavelmente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca abanou a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Não. — Não quero fazer isso. Tenho quase mil moedas de dez escudos. Quando tiver mil, compro um porco para oferecer à Minha Sorte. Tive uma vez um galo do campo que adoeceu, e então, prometi à Minha Sorte que lhe compraria um porco para criar com o dinheiro junto durante mil dias se o bicho escapasse. E escapou — concluiu, estendendo as mãos pequenas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;— Muito bem. Ficamos esclarecidos — concluiu Catanada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Assim se terminava toda a ilusão em volta do desvio do dinheiro. Pipocas e Pascácio levantaram o pequeno saco de latas da graxa carregadas de moedas de cobre, levaram-no para a outra sala e puseram-no debaixo dos papéis na gaveta de Pipocas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;Tempo viria em que experimentariam um certo gozo em saber que aquele dinheiro estava debaixo dos papéis na gaveta, mas agora a sua derrota era azeda. Nada podiam mudar. A oportunidade surgira e cavara-se de vez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;O Faísca estava ali defronte deles; tinha os olhos chorões de felicidade, para provar o seu amor pelos vizinhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;— E pensar — disse — que todos estes anos vivi naquela casota e não conheci qualquer prazer. Mas agora — acrescentou —, agora, estou muito feliz.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:14.0pt"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:14.0pt"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:14.0pt"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:14.0pt"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-3085472572138044658?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/3085472572138044658/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=3085472572138044658' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/3085472572138044658'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/3085472572138044658'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2012/01/contos-de-ratazana-7.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-06Cm5JGrVzg/Tx8BU5A_4nI/AAAAAAAAARo/GzvskPQmE6A/s72-c/Goldmine_cartoon.png' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-1343531695517645276</id><published>2012-01-02T14:04:00.000-08:00</published><updated>2012-01-02T14:17:04.293-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;__________________&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;6. Episódio&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;    _____&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;                                  &lt;i&gt;&lt;span &gt;             A TROUPE DE PIPOCAS&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span &gt;                                                               ~~~~&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span &gt;Eis como os amigos de Pipocas &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span &gt;juraram ser mais companheiros&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt;      ______________&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;O sol já aquecia acima dos pinheiros, o chão estava quente e o rescaldo da noite ia secando nos arbustos do monte quando Pipocas saiu da cozinha para se sentar à soalheira do quintal e meditar, ao calor, acerca de alguns acontecimentos. Arremessou os sapatos e as meias para o lado e deixou que os dedos dos pés apanhassem ar sobre o cimento aquecido pelo sol.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Manhã cedo tinha ido ver os fios esturricados e a tomada feita em bocados do seu apartamento. Entregara-se a uma pequena raiva momentânea contra os seus desmiolados amigos e lamentara por momentos o abuso de confiança.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;«Se ainda pagassem renda, teria a consolação de receber algum», pensou. «Os meus amigos vão ter que me ficar a dever dinheiro. Agora vou ser eu a pagar os prejuízos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;span&gt;Pipocas, porém, sabia que devia castigar um pouco os seus amigos, ou estes considerá-lo-iam lorpa. Por isso, enquanto estava sentado com os pés ao sol no quintal, afastado as moscas com as mãos que eram mais avisos de que ameaças, meditou no que havia de dizer aos amigos antes de os aceitar no apartamento. Tinha de lhes fazer ver que não era homem que se deixasse abater.&lt;/span&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Desejava ser sempre aquele Pipocas de quem toda a terra gostava, aquele Pipocas que as pessoas procuravam quando tinham uma aflição de urgência ou um problema de maior. Como dono de uma herança e dono de duas casas, tinha sido considerado rico e ganhara inúmeras coisas boas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Catanada, Pascácio e &lt;i&gt;Very nice&lt;/i&gt; dormiram cada um em suas casas. Tinha sido um dia cheio de acontecimentos excitantes e estavam exaustos. Mas o quente sol da parte da manhã acabou por brilhar-lhes no rosto e obrigá-los a sair da cama. Encontraram-se; sentaram-se; e, então, perguntou Pascácio, lamentoso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Como se deu o curto-circuito?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Ninguém sabia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Talvez — disse &lt;i&gt;Very nice&lt;/i&gt; —, fosse melhor deixarmos de nos ver por uns tempos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Catanada tirou as fotografias da algibeira e passou os dedos sobre as imagens desnudadas coloridas. Depois, ergueu-as contra a claridade e olhou através delas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Isso só trazia problemas para nós — concluiu. — Penso que o melhor era irmos ter com o Pipocas e confessar o nosso descuido, como os filhos fazem com os pais. Assim, ele não pode censurar coisa alguma sem sentir dó. E, além disso, não temos nós aqui um presente para ele?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Os amigos aprovaram com um gesto de cabeça. Os olhos de Catanada vaguearam novamente pelas fotos, franzindo o nariz um pouco, como o de um coelho. Sorriu, absorvido em calma quimera.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Vou dar uma curva, amigos. Daqui a pouco encontro-me com vocês no quiosque. Não tragam más notícias se puderem deixar de ouvi-las.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Pascácio e &lt;i&gt;Very nice&lt;/i&gt; fitaram-se tristemente enquanto Catanada se afastava, pelo meio das pessoas, direito ao quiosque.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Por volta das catorze e trinta os três companheiros caminhavam lentamente em direcção a casa de Pipocas. A saca ia preenchida com ofertas de reconciliação: caixas de cigarrilhas, pastilhas elásticas, garrafa de uísque e uma revista da Playboy.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Pipocas vi-os chegar, levantou-se e tentou lembrar-se daquilo que tinha a dizer-lhes. De olhos em baixos, os três perfilharam-se em frente dele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Javardolas, fodilhões das gajas das ratas peludas, marados! — chamou-lhes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;E mais não lhes chamou, porque de imediato, Catanada tirou da saca e exibiu as pastilhas elásticas. Pipocas disse que já não tinha confiança nos amigos, que a sua amizade tinha sido lesada. Depois a conversa tornou-se um pouco difícil, pois Pascácio tinha aberto a garrafa de uísque e deu-lha a estrear.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Catanada sacou das fotografias enroladas no papel com o número do telefone delas e, indiferente, deixou-as ficar viradas de pernas pró ar, no cimento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Pipocas então esqueceu-se de tudo. Sentou-se no quintal, os amigos também e tiraram tudo de dentro da saca. Beberam e fumaram até se satisfazerem. Uma hora mais ou menos tinha passado, confortavelmente recostados, e a gozar as delícias do sol airoso, quando Pipocas perguntou por acaso, como se tratasse de qualquer coisa remota.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Como é que se deu o início ao curto-circuito? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Desconhece-se — explicou Catanada. — Fomos malhar e logo aconteceu. Talvez a corrente eléctrica não queira nada connosco. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Talvez — repetiu Pascácio numa voz de menino do coro, — talvez haja nisto o espírito de Satanás.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Pode alguém saber o que leva Satanás a fazer isto? — acrescentou &lt;i&gt;Very nice.   &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Quando Catanada lhe entregou as fotografias e explicou que elas o queriam conhecer, Pipocas ficou reservado. Olhou um tanto indiferente para as fotos. Os seus amigos, pensou, estavam a tentar adormecê-lo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;span&gt;— Vocês não pensem que eu nasci ontem — disse, por fim. — Muitas vezes ficamos presos a uma amizade pelos copos de uísque que lhe oferecemos.&lt;/span&gt;&lt;span&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;     Não podia mostrar aos seus amigos o gozo que se instalara dentro de si desde que ficara a saber do curto-circuito no seu apartamento nem podia, por delicadeza para com o vizinho que o informara, descrever como esse gozo o agradava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Vou pôr estas fotografias arrumadas para aí. Pode ser que algum dia me lembre delas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Quando a tarde começou a escurecer, Pipocas meteu-os no seu carro e rumou para o Porto, para o seu apartamento. Mas muito antes, tinha dado ordens ao electricista para tratar da ligação eléctrica. Pipocas, como prova do seu perdão, foi buscar uma garrafa de gim e ofereceu aos seus amigos. Habituaram-se facilmente à nova bebida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Quando é que nos levas a conhecer os novos pitos da Senhora do Porto? — perguntou Catanada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Na sexta-feira ela vai apresentar-me um tridente de pitinhos — disse Pipocas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Catanada sorriu satisfeito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Os pitos da Senhora do Porto costumam ser tenrinhos. Eu disse-lhe uma vez que precisavam de roços jovens e não roços velhos, mas ela mandou-me bugiar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Beberam os últimos tragos da garrafa, o que chegava e sobrava para fomentar a doçura da camaradagem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— É bom ter amigos — disse Pipocas. — Como é triste uma pessoa não ter amigos para compartilhar o gim!&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Ou as bifanas — acrescentou Pascácio, rapidamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Pascácio ainda não estava completamente liberto dos remorsos, pois não tinha dúvidas de quem tinha provocado o curto-circuito do apartamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Em Portugal inteiro há poucos amigos como tu, Pipocas. Poucos se gabam dessa consolação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Antes de embalar completamente sob os piropos dos seus amigos, Pipocas lançou um repto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Quero as chaves do meu apartamento —  ordenou. — Quero-as todas na minha mão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Embora nenhum deles o tivesse citado, cada um dos quatro sabia que ia haver festas no apartamento de Pipocas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Catanada deu um suspiro de alívio. Passada estava a preocupação com as despesas, passada estava a responsabilidade de dever dinheiro. Já não era devedor. Em meditação, deu graças pelo curto-circuito no apartamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Vamos ser mais felizes agora, Pipocas — disse. — No fim do mês quando tivermos dinheiro, vamos dar uma grande comezaina. E talvez tenhamos aqui, se as convidarmos, uns borrachos da Senhora do Porto para gozarmos à fraternidade.         &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Então, &lt;i&gt;Very nice,&lt;/i&gt; numa excitação grata, fez uma ousada promessa. Era o gim quem o fazia, a noite do curto-circuito e todas os momentos picantes. Imaginou que tinha recebido grandes prendas e queria dar uma também.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Será nossa parte e obrigação fazermos com que neste apartamento nunca ao Pipocas falte pito — disse com arrojo. — O nosso amigo nunca se há-de fartar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Catanada e Pascácio levantaram os olhos, pasmados, mas a coisa já estava dita. Ninguém a podia desmentir. Até &lt;i&gt;Very nice&lt;/i&gt; compreendeu, depois de a ter lançado cá para fora, semelhante afirmação. Só podiam ter esperança de que Pipocas não a lembrasse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;«Porque», disse Catanada para si próprio, «se esta promessa fosse exigida, seria pior do que as despesas. Seria um comércio.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— A nossa palavra de honra, Pipocas! — disse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Sentaram-se à volta da mesa, com os copos nas mãos. A amizade que havia uns pelos outros era quase intolerável.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;Com as costas da camisa, Pascácio limpou os queixos molhados e repetiu a afirmação de Catanada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;— Seremos mais felizes aqui — disse. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:14.0pt"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-1343531695517645276?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/1343531695517645276/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=1343531695517645276' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1343531695517645276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1343531695517645276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2012/01/contos-de-ratazana-6.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-7099283439502980388</id><published>2011-12-15T10:51:00.000-08:00</published><updated>2011-12-15T11:23:04.000-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-tRRtYih7eFY/TupIxBRzz-I/AAAAAAAAARQ/YvnV0oWt46g/s1600/boemia-mangabeira1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5686437486502596578" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 270px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-tRRtYih7eFY/TupIxBRzz-I/AAAAAAAAARQ/YvnV0oWt46g/s320/boemia-mangabeira1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Episódio&lt;br /&gt;________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eis como a paródia mudou o rumo dos acontecimentos&lt;br /&gt;e castigou severamente Catanada,&lt;br /&gt;Pascácio e Very nice.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;~~~~&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;A tarde apresentou-se tão límpida como a idade toca o homem bom. Branco penetrou no espaço solar. As sombras da rua ficaram mais claras e frisadas pelo sol que espelhava pela rua. Os seguranças juniores que acreditam que o chinfrim aquece durante a noite alta deixaram os seus trabalhos, e os seus lugares foram preenchidos por aqueles que estavam convencidos ser na noite baixa que o chinfrim pega a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À uma e meia a sombra mudou e refugiou-se de mansinho para o mar, sobressaindo todo o aroma dos cheiros das comidas. Os seguranças, que nos sítios movimentados do Porto vigiavam as entradas, puseram de parte as vigílias e enrolaram conversa nas pontas. Pelas ruas da cidade, homens gordos, em cujas pupilas havia o cansaço e a moleza que tantas vezes se vêem nos olhos de outros, iam sentados em variadas marcas de automóveis a caminho da baixa, a fim de tomarem vinho e café com bagaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua estreita e funda, o jornaleiro, colocou na porta do estabelecimento um letreiro que dizia «Não demoro» e foi para casa passar o resto do dia. Os toldos decoravam estáticos e tesos. Os cães, que, às dezenas, eram livres e passageiros de ruas, regozijaram pacificamente a sua bela sina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada e Pascácio, sentados, debaixo de um toldo amarelo-torrado na esplanada do café da esquina das Antas, bebiam serenamente o seu uísque e deixavam que a tarde passasse por eles, pouco a pouco, como a barba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É bom que a gente não dê ao Pipocas as duas amigas da vizinha — disse Catanada. — É homem que pouco freio põe no sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio concordou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pipocas tem um ar animalesco — disse — é gente assim que, vai-não-vai, se estoira. Olha o Caga-Milhões, olha a Faroleira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O realismo de Catanada veio levemente ao de cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Caga-Milhões caiu na banheira do seu apartamento, no Covelo — comentou num tom reprovável —, a Faroleira comeu um gajo que tinha a picha estragada. Mas — prosseguiu, amável — eu sei onde queres chegar. E há muita gente que lerpa por abusar do sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a cidade começou a preparar-se para o inicio da tarde. A cozinheira do restaurante cortou pequenos nabos para a sua sopa preferida. O tasqueiro das pipas ao alto, deitou água no vinho e marcou-o para o vender depois das três da tarde. Depois despejou um pouco de pimenta no bagaço que ia servir ao fim da tarde. No salão de dança Mexe o Pé, o marcador de sala abriu uma caixa de chocolates e dispô-los, envolvendo-os nuns guardanapos de papel vermelho, em pequenos piris de cerimónia. Um pequeno grupo de reformados que tinha passado um bocado da tarde dentro do jardim do Campo 24 de Agosto jogando dados com os amigos pôs-se a caminho da estação de São Bento para a chegada do comboio, vindo de Rio Tinto. Famintos, os pássaros levantaram voo dos telhados em frente das casas e lançaram-se na direcção dos quintais traseiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas lojas de comércio, os proprietários levantaram as cortinas em todas as montras. A mulher gorda da máquina das pipocas, de 114 quilos de peso, levou, como todos nos dias, a sua gata de raça siamesa, e pôs-se a vender na parede exterior da Igreja dos Congregados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na vizinha e acolhedora Vila Nova de Gaia, os participantes da Corrida Boas Pernas reúnam-se para tomar café e bagaço e participar, ao mesmo tempo que esperavam pelo presidente da comissão. Uma senhora baixota discutia com ligeireza e cor o problema do vício da prostituição no Porto. Dizia ela que uma brigada devia visitar essas casas do vício carnal a fim de ver exactamente como, na verdade, eram penosas as condições aí existentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol dirigiu-se para o poente e ganhou uma tonalidade alaranjada. No café da esquina, debaixo do toldo, Pascácio e Catanada beberam o primeiro mata-bicho da tarde. O dono do café saiu do estabelecimento e passou ao lado sem reparar nos seus novos fregueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes esperaram que ele desaparecesse a caminho do mercado; depois, entraram no estabelecimento e, com um conhecimento de causa, levaram a rapariga a acrescentar-lhes uísque. Deram-lhe uns beliscões nos braços, chamaram-lhe «Meu limãozinho», permitiram-se umas bocas levianas com a sua pessoa e, por fim, foram-se embora, deixando-a corada e um tanto despenteada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iniciara-se a tarde no Porto e as lojas tinham-se aberto. Nas montras havia uma claridade total. Os panfletos lançados na rua anunciaram em relevo: «Os Socos do Abana-Abana — Os Socos do Abana-Abana». Um pequeno mas endiabrado grupo de homens que acreditam que o chinfrim pega de noite montaram vigilância nas lojas principais do quarteirão. Através da rua deslizou um suave respiro que ficou a flutuar à roda das casas; o ambiente encheu-se do belo aroma que o ar larga ao ser respirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio e Catanada voltaram para o toldo e encostaram-se na parede, mas já não estavam tão contentes como antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Está calor aqui — disse Catanada, bebendo um gole de uísque para refrescar.&lt;br /&gt;— Devíamos ir para o apartamento do Pipocas. Não tens aí as chaves? — retorquiu Pascácio.&lt;br /&gt;— Tenho. Mas não temos uísque para beber.&lt;br /&gt;— Bem — continuou Pascácio —, se encontrar ali um amigo da garrafeira, encontro-me já contigo à porta do apartamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi o que fez, passados quase quinze minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada esperou pacientemente, pois sabia que há coisas que mesmo os nossos amigos não podem resolver. Enquanto isso, Catanada olhava atentamente a rua na direcção que Pascácio havia tomado. A sua vigilância, porém, foi pouca. Passado um bocado, Pascácio veio ter com ele e Catanada reparou com alívio e satisfação ao ver que o amigo trazia uma garrafa embrulhada em jornal debaixo do braço. Até entrarem no apartamento, Pascácio não fez qualquer comentário acerca do seu recente desenrascanço. Depois repetiu as palavras de Pipocas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Uma mulher de ajuda, aquele «Meu Limãozinho».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada, no escuro, fez um sinal de concordância ao abanar a cabeça, ao mesmo tempo, que exprimia uma calma sabedoria:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Raramente se consegue tudo no mesmo café: uísque, comida e amor. Qualquer dia temos de lhe oferecer um presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada abriu as janelas para trás. Em breve o ar estabilizava airosamente. Os dois amigos puxaram as cadeiras para o meio da sala e seguraram nas tigelas perto das janelas para relaxaram melhor o ambiente. Nessa tarde a ânsia era enorme, pois Pascácio havia comprado um vibrador para fazer uma pequena brincadeira. Alguma coisa, porém, distraíra o seu pensamento antes de esse camuflado plano ter sido levado avante. Agora o pequeno embrulho jazia, amarfanhado no bolso das calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Dava uma moeda de dez escudos para saber por onde é que &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; anda — disse Catanada.&lt;br /&gt;— Já passou um bom bocado desde que disse que voltava — disse Pascácio. — Não sei se é homem para se fiar nele, ou não?&lt;br /&gt;— Talvez tenha acontecido alguma coisa que o levasse a perder-se. &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; com aquela lábia de locutor e aquele seu coração de galo, anda quase sempre em sarrabulhadas por causa das mulheres.&lt;br /&gt;— Ele tem é cantos de cigarras — respondeu Pascácio. — Nunca leva as coisas a sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esperaram por muito tempo. Mal tinham emborcado a segunda tigela com uísque quando &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; chegou meio a cambalear e abraçado em três raparigas de aspecto patusqueiras. A camisa estava aberta e o nariz cheio de ranho. Entrando, a claridade de fora revelou uns olhos pesqueiros que apregoavam estar bem tocado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio e Catanada precipitaram-se para eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O nosso amigo está bonito!&lt;br /&gt;— Mas trás com ele um comboio, Catanada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia nestas palavras o mais ligeiro sentido sarcástico, mas, &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; reconheceu nelas o mais destruidor género de sarcasmo. Encarou-os fixamente com os olhos pesqueiros que em tais circunstâncias ainda tinha algum querer,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vós sois uns grandessíssimos bois! — exclamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos recuaram estupefactos perante a grosseria da afirmação. Das palavras aos actos, uma das raparigas agarrou-se a Castanada e a outra ficou-se pelo Pascácio. Subiram para o quarto grande tão depressa quanto possível. &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; dirigiu-se para o quarto de banho e levou os amigos atrás dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— São estas as amigas da vizinha? — perguntou Catanada.&lt;br /&gt;— Sim — disse &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; —, desta vez vieram mais tarde.&lt;br /&gt;— Devem ter uma boa pedalada — comentou Pascácio, a fim de elogiar as conquistas do amigo. — A gente sabe que em engates és um homem habilidoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; pareceu ter ganho um novo fôlego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— São da aldeia — disse. — A vizinha também ajudou. Deu-me uma garrafa de uísque para trazer.&lt;br /&gt;— Essas varredoras das limpezas que não vão por dinheiro são traidoras, amigo — interveio Pascácio. — Sempre lhes destes aquela coisa que põe a cabeça à roda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; meteu a mão no bolso e tirou um amarrotado papel enrolado numas fotos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não tinha chegado o momento — disse. — Estava no preparo; além do mais, ainda não tínhamos entrado na paródia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada fungou e tirou as fotografias da mão de &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; e, passando os olhos por elas, pôs-se a pensar. Passado um instante os olhos brilharam-lhe de intensidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Já sei! — exclamou. — Vamos dar isto ao Pipocas para ele lhes telefonar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo aplaudiram a ideia e voltaram para o quarto grande, onde as raparigas aguardavam impacientemente por eles. A porta é fechada. Há pensamentos ao redor, de ambos os lados, tirando as suas roupas, ao estilo português, como se fossem puros casais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pouco a pouco, como Catanada gostava, o cenário ia ganhando forma. Dava força de um programa gozá-lo calmamente. Uma boa paródia reside nas brincadeiras meio contadas que devem ser preenchidas pela própria experiência do leitor. Catanada tirou o soutien do peito da rapariga e, passando os dedos pelos peitos dela, pôs-se a massajá-los. Passado um bocado os olhos brilharam-lhe alegremente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que mimosos! — exclamou. — Se o Pipocas visse isto, caía da cama abaixo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos, sem excepção, apalparam-se uns aos outros. Pascácio, com uma dedicada atenção de barman, botou uma porção de uísque nas três tigelas para ser dividido por seis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Instantes depois, os três homens começaram às piadas. Catanada contou uma história super brincalhona a respeito de um caso que acontecera ao tio. A satisfação começou a reinar; cantaram. &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; levantou os pés numa imitação de número para provar que não estava com a moca toda que não fizesse um, oito. Dentro da garrafa, o uísque ia desaparecendo cada vez mais. Mas antes de se acabar os três amigos começaram a ficar com excitação. Pascácio sacou a vizinha e dirigiram-se para a cama do quarto pequeno, meios grossos. &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; esticou-se confortavelmente na cama redonda, ao lado do par Catanada e de uma rapariga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor acendeu-se. As camas encheram-se dos ruídos profundos que os casais faziam a fazer amor. Na cama do quarto pequeno apenas uma coisa fazia um ruído estranho. O comprido vibrador, de cabeça arredondada como pénis, que a pilha controla, entrava e saía no ânus da &lt;em&gt;vizinha &lt;/em&gt;com alguma rapidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pouco e pouco a pilha foi ficando mais gasta. Pascácio, cuja gulosa acção era responsável pelo divertimento, gozava ainda mais satisfatoriamente do que os seus companheiros. Mas, uma vez que não há força na pilha, Pascácio colocou um simples cabo eléctrico à tomada da parede. Tal acto gerou um aumento de corrente eléctrica que perpassou através da tomada da parede. O curto-circuito lambeu a corrente e correu direito ao disjuntor que deu um rebentamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento encheu-se com a gritaria deles. &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; assustado, virou-se e, sem se lembrar onde se encontrava, caiu da cama e, começou a vestir as calças. Então, a rapariga em saltos, caiu-lhe em cima. Levantou-se com um berro e ficou perplexo perante o nervosismo que à sua volta se apoderara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Catanada! Pascácio! — gritou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correu para o outro quarto, abriu a porta de empurrão e ficou boquiaberto a olhar a cena. A &lt;em&gt;vizinha&lt;/em&gt; tinha desmaiado e tinha ainda o vibrador preso ao ânus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram em frente dela, olhando para o interior através da porta aberta. No fundo da parede podiam ver o negro da tomada estilhaçada com os fios todos aos desencontros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada em calafrios, virou-se para &lt;em&gt;Very nice.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— Não mexas nisso? — gritou. — Deve ficar assim até o electricista vir compor a tomada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barulho das cortinas e a exclamação das bocas dos moradores que, vindos dos prédios vizinhos, subiam até cima, ainda lhes permaneciam nos ouvidos. As grandes varandas encheram-se e os olhos dos seus moradores dançaram de perguntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada virou-se apressado para &lt;em&gt;Very nice.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— Vai à rua telefonar ao Pipocas que a vizinha está desmaiada no apartamento. Corre depressa, &lt;em&gt;Very nice.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— Porque é que não vais tu?&lt;br /&gt;— Ouve — responde Catanada. — Pipocas não sabe que é a ti que vai pedir responsabilidades. Foste tu que trouxestes as raparigas, não fomos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; entendeu esta lógica e foi à procura de uma cabine telefónica. Ligou um número.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pipocas! — gritou. — Pipocas, a &lt;em&gt;vizinha&lt;/em&gt; desmaiou no teu apartamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não obteve resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tás-me a ouvir? — gritou de novo. —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa da Senhora do Porto, ouviu-se vozes de raparigas. Pipocas pareceu irritado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que diabo estás tu para aí a dizer?&lt;br /&gt;— No teu apartamento, aquele onde o Catanada teve a prostituta, está lá uma rapariga desmaiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante uns segundos Pipocas não disse uma palavra. Depois perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Está lá a polícia?&lt;br /&gt;— Está a chegar! — gritou &lt;em&gt;Very nice.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rua estava já tão serena. Ouvia-se o correr das cortinas a baixar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Bom — disse Pipocas —, se a polícia fizer alguma coisa, o que eu quero que vós fazeis, é não me meter ao barulho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; ouviu o auscultador cair com um estrondo; voltou-se e dirigiu-se para o apartamento. Era uma ocasião má para chamar o Pipocas, sabia-o de antemão, mas se não fosse assim, como é que se lhe podia dizer? Se Pipocas não tivesse sabido do desmaio podia ter ficado danado. &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; sentia-se aliviado por, de qualquer modo, tê-lo informado. Agora a responsabilidade era dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O prédio era pequeno, havia muita gente que trabalhava de dia e às tardes estavam praticamente ausentes. Talvez houvesse gente que não tivesse ouvido os gritos dum curto-circuito tão rápido e tão mordaz. Os polícias deram uma vista de olhos pelo local e depois deram à socapa. Em menos de quinze minutos o carro tinha desaparecido completamente. Só então as raparigas se retiraram para as suas casas e tentar esquecer aquele episódio burlesco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada, Pascácio e &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; mãos com mãos, observavam a rua. Metade dos moradores da zona e alguma gente das Antas, excepto Pipocas e a Senhora do Porto, andaram por ali curiosos a saber do curto-circuito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, quando o descomposto estava composto, quando da tomada eléctrica apenas se topava um montão de fios destorcidos, Catanada afastou-se silenciosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Aonde vais? — perguntou Pascácio.&lt;br /&gt;— Para casa, dormir. Será bom que também o faças. Durante um certo tempo, temos de evitar que Pipocas nos veja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calados e silenciosos, os outros concordaram e seguiram-no.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É uma lição para todos nós — disse Catanada. — Assim aprendemos a nunca deixar o quadro eléctrico ligado para estas paródias dentro de casa.&lt;br /&gt;— Para a próxima — retorquiu Pascácio, abatido — comemo-las lá no monte e pronto.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-7099283439502980388?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/7099283439502980388/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=7099283439502980388' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/7099283439502980388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/7099283439502980388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/12/contos-de-ratazana-5.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-tRRtYih7eFY/TupIxBRzz-I/AAAAAAAAARQ/YvnV0oWt46g/s72-c/boemia-mangabeira1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-3898781209270231360</id><published>2011-11-17T04:45:00.000-08:00</published><updated>2011-11-17T07:52:52.292-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4º Episódio&lt;br /&gt;_____&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;A TROUPE DE PIPOCAS&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;~~~~~~~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis como &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; um bom rapaz,&lt;br /&gt;se tornou um involuntário transporte do vício&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;~~~~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Catanada e Pascácio a vida corria sem ondas. De manhã, quando o sol testava na terra, quando o reluzente dia não é altura para pressas nem para azáfamas, os pensamentos são lentos, profundos e dourados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio e Catanada, um de calças de ganga e outro de calças de bombazina e camisas escuras de mangas curtas, iam, como dois companheiros, até à esquina situada ao fim da rua e, momentos depois, voltavam para se sentar ao sol no banco do jardim, ouvir as cornetas dos vendedores ambulantes nas ruas de Marco de Canavezes e falar, num tom pachorrento e irónico, dos acontecimentos dos bairros do Porto pois aí, em cada hora que passa, há milhares de excitantes eventos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No jardim estavam eles em paz. Só os dedos das mãos se mexiam sobre as quentes roupas quando as moscas nelas pousavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Se todas as moscas que nos tocam fossem notas — disse Pascácio — muito ricos seríamos. Passávamos a vida entesuados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada, contudo, acrescentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Toda a gente teria montes de moscas. Deixavam de ter interesse; mas o sexo custa sempre dinheiro. Se ao menos durante um dia oferecessem sexo e nós tivéssemos um harém para o pôr lá.&lt;br /&gt;— Mas sexo de categoria — interrompeu Pascácio —, não daquele foleiro que tu arranjaste da última vez.&lt;br /&gt;— Não o conquistei — retorquiu Catanada. — Alguém mo deu depois de sair do salão de baile. Que é que estás à esperas do sexo que se oferece?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantaram-se e sacudiram brandamente as moscas com as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ontem a Xanana Maluca deu com uma garrafa na cabeça do cigano, no pinta — observou Catanada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio levantou os olhos, comedidamente interessado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pancadaria? — perguntou.&lt;br /&gt;— Não. O cigano não sabia que a Xanana ontem tinha orientado outro gajo e tentou forçar a porta; de modo que ela deu-lhe com uma garrafa.&lt;br /&gt;— Devia ter-lhe dado com duas garrafas — julgou Pascácio, moralizador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não. Ela só tinha uma garrafa na mão. Mas não estava zangada. O que ela queria era que ele não fosse bisbilhoteiro.&lt;br /&gt;— O cigano é burro — julgou Pascácio. — Agora está de molho?&lt;br /&gt;— Ela só fez uns arranhões na tola. Vá lá que ele tem muito cabelo á frente. O que ela queria era que ele não andasse para ali a cheirar.&lt;br /&gt;— A Xanana não é uma mulher muito atinada — continuou Pascácio. — Mas ainda manda pensos com borato para aliviar as dores do cigano, que já está de choco há três dias.&lt;br /&gt;— E ele bem precisa deles — observou Catanada. — É um bom malvado e no entanto nunca lhe acertaram uma. Xanana disse-me uma vez que o cigano era mais mafarrico que o burro quando saiu com ele pela primeira vez. Mais tarde, ela afirmou que só aceitava metade dele por causa do cheiro que ele botava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio num movimento de cão, mijou numa parede esquinada que se deparara à sua frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O cigano sempre foi assim — disse. — Muita garrafa aquele diabo vai levar. Mas achas que uma mocada de uma garrafa faz efeito quando o dinheiro para ela sai dos bolsos dos cabritos que dormem borrachos em casa de Xanana?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Uma garrafa é uma garrafa — respondeu Catanada. — Ao vendedor que te vende a garrafa está-se borrifando donde tu vens com o pilim. O bêbedo também não quer saber donde vêm as garrafas. Gosta delas, assim como tu gostas de beber. O bêbado Arcanjo costumava passar a vida nos tascos e, semanas a fio, a primeira gota sabia a lixívia, mas isso não a fazia menos gota. Os bêbedos é que têm de explicar essas coisas. Não somos nós que temos de nos preocupar com explicações. Gostava era de saber onde é que a gente pode arranjar umas boas bifanas. Uma boa bifana agora vinha a calhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio puxou os óculos do sol para cima da nuca para que o longe se tornasse perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O Carlos Matos contou-me que o Pipocas está com a morena, a filha dos Cabaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pasmado, Catanada sentou-se em frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Talvez a cachopa queira casar com o Pipocas. Esses Cabaços andam sempre a querer casar, gostam mais de dinheiro do que eu de chocolate. Depois de casado, o Pipocas é capaz de nos cortar o hábito de usarmos o apartamento. Essa tal morena vai querer vestidos novos, jóias; todas querem, eu conheço-as.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio também parecia aborrecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E se a gente fosse falar com o Pipocas, talvez pudéssemos… — sugeriu.&lt;br /&gt;— Pode ser que ele queira ir comer uma bifana — disse Catanada. — As bifanas da Conga, são picantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfiaram-se dentro do carro e dirigiram-se velozmente para o apartamento de Pipocas. Catanada abaixou-se e evitou levar com uma ponta de um cigarro ainda acesa na cara; depois, atirou-a fora com um palavrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Foi algum cabeçudo que a mandou para aqui para nos assustar.&lt;br /&gt;— A tarde passada fui eu que levei com uma — disse Pascácio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram encontrar Pipocas no apartamento, sentado na cadeira de baloiço, atrás da mesa, atirando as fumaças da cigarrilha para afugentar as teias de aranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ei, companheiros! — saudou-os ele, com moleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxaram das cadeiras e sentaram-se ao lado de Pipocas e Pascácio atirou com a pasta para um canto. Pipocas puxou de uma caixa de pastilhas e algumas cigarrilhas e passou-as a Catanada. Este pareceu um pouco assolapado, mas não fez qualquer restrição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A Xanana Maluca deu com uma garrafa no cigano branco — disse.&lt;br /&gt;— Já ouvi dizer — retorquiu Pipocas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio interveio com mau humor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Essas mulheres não têm problemas de espécie alguma.&lt;br /&gt;— É perigoso um homem fazer amor com elas — disse Catanada. — Disseram-me que há cá no Marco de Canavezes, uma rapariga, uma Cabaços, capaz de pôr um homem levado da breca para toda a vida se ele se meter na ilusão de querer saber o que é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio deu alguns estalidos provocados pela pastilha com a língua. Abriu as mãos puxando os dedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Como é que um homem há-de saber? — perguntou. — Pode lá ter-se confiança em alguma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olharam o rosto de Pipocas e viram que este não revelava sinais de inquietação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A rapariga é conhecida pela morena — disse Catanada. — Agora o resto não é preciso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Oh, estás a referir-te à Maria Morena — observou Pipocas muito pouco entusiasmado. — Bom, o que é que se pode esperar de uma Cabaços?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio e Catanada respiraram aliviados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Então que tal irmos comer uma bifana à Conga? — perguntou Catanada como por instinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas abanou rapidamente a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Nem pensar. Comi agora um prato de feijões que me encheram e fiquei como um sapo.&lt;br /&gt;— Como vão agora os teus borrachos? — interveio Pascácio na mudança da conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas agitou um dedo para a frente e para trás em sinal de reflexão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Telefonou-me a Senhora do Porto para ir lá ver os borrachos que chegaram dos bairros, que ia ficar babado por dentro e por fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É alguém que eu conheço? — quis saber Pascácio.&lt;br /&gt;— Sei lá. Acho que os borrachos devem ser todos novos.&lt;br /&gt;— Já lá abriste uma garrafa de uísque, não? — sugeriu Catanada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas sorriu-lhe cinicamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ofereceu-me a Senhora do Porto quando eu fui lá a casa ontem à noite. É uma boa mulher em certos aspectos e também não é lá nenhuma carcaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio e Catanada voltaram a ficar alarmados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Um nosso amigo diz que ela tem mais de 50 anos — disse Catanada com alvoroço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas estendeu os pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É letra. Poucos mais têm de 40 anos. E que impedimento tem ser quarentona? — afirmou filosoficamente. — É uma mulher cheia de fúria. Tem um apartamento e uma dúzia de gajas a atacar. — Depois ficou um tanto baralhado. — Gostava de lhe dar uma foda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada e Pascácio puseram-se a olhar para o chão e tentaram sacar da cabeça uma ideia mais flutuante, mas os seus esforços não deram nenhum efeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Se eu tivesse uns patacos agora — disse Pipocas — levava a ela e às suas meninas a dar um passeio de barco pelo Douro abaixo. — Olhou os seus companheiros das andanças com uma expressão significativa, mas nenhum deles se pronunciou. — Só precisava de uns cinco ou dez contos — sugeriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O meu cliente do banco anda na observação das acções — observou Catanada. — Pode ser que tu orientes no advogado por um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas retorquiu com azedume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Parecia mal que um homem que é proprietário de duas casas fosse pedir emprestado. Agora se me pagassem umas continhas que andam por aí…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada ergue-se com estrebucho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sempre as continhas — exclamou. — Tu atiravas connosco para dentro das grades… para a cadeia, enquanto gozas como um barão. Anda, Pascácio — disse irritadíssimo. — Vamos desandar daqui, senão ainda nos cobra a permanência, este miserável, este semítico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saíram ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Onde é que a gente vai agora? — perguntou Pascácio.&lt;br /&gt;— Vamos indo — retorquiu Catanada. — Talvez ele nos volte a chamar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maneira exigida, tinha, contudo, entrado a fundo no espírito dos dois homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Quando o apanharmos vamos chamá-lo «Gordo semítico» — disse Catanada. — Há anos que somos amigos dele. Quando ele teve dificuldades, demos-lhe de cobertura; quando ele teve solidão, demos-lhes companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Há quanto tempo foi isso? — perguntou Pascácio.&lt;br /&gt;— Bom, isto é o que a gente teria feito se ele necessitasse de alguma coisa e nós tivéssemos para lha dar. É este o grau da amizade que tivemos por ele. E ele agora, para levar numa viagem de barco pelo Rio Douro acima ou abaixo uma velha histérica, chuta-a fora?&lt;br /&gt;— Deixa lá. As viagens ao rio só fazem enjoos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada ficou cansado de tanta emoção. Sentou-se numa entrada alta ao lado dum velho prédio e pousou o queixo entre as mãos, abatido. Pascácio sentou-se também, mas para fumar, pois a sua amizade para com Pipocas não era tão antiga e forte com a de Catanada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fundo da rua estava atafulhada de circulação de carros e de pessoas, Catanada, ao olhar para o fundo, triste e aborrecido, viu um carro ligeiro familiar surgir de um cruzamento. Catanada agarrou o braço de Pascácio e apontou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio fechou o olho direito e olhou fixamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É capaz de ser quem nós pensámos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro aproximou-se, afrouxou devagar e ladeou o passeio contrário, aparecendo o rosto sorridente e o cabelo grande e despenteado de &lt;em&gt;Very nice.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;— Ó, Catanada. Ó, Pascácio — disse, perturbante. — Que fazeis aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada e Pascácio ergueram-se e passaram para o pé dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Amigo, &lt;em&gt;Very nice!&lt;/em&gt; Tu não estás sóbrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; sorriu docemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Alegre, é só — murmurou. — Vamos ao café, amigos. Hoje entro eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entraram no café e sentaram-se. Catanada pediu um martini com gingar ale e Pascácio foi num Vinho do Porto Reserva. &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; pediu uma amostra ao empregado de Favaios e cheirou o vinho. Sorveu primeiramente dois ou três goles e emborcou um copo traçado de vinho com groselha para familiarizar. Por fim exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— &lt;em&gt;My God,&lt;/em&gt; que mistura!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada encarou o seu amigo &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; com uma expressão simpática e admirativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Descobristes alguma mina para estes lados? — perguntou. — Ou foi alguma viúva rica que se prendeu a ti no pub, meu amigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; era um simplório e a manobra nunca o abandonava. Tossicou para pôr a garganta limpa e chamou o empregado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Dê-me daí outro igual — disse. — Tenho a garganta a reclamar. Já vos conto como a minha vida anda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebeu uma boa dose, o olhar sonhador como o de um homem que tem tanto apetite que pode gastar todo o seu tempo a apreciá-lo e até mesmo a fazer uma dieta um dia sem problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Estava na ressaca em casa há quase uma semana — disse. — Em casa ao pé do gato. Durante a noite a vizinha do lado bateu-me à porta. Era uma bonita figura e trazia umas velas de aniversário para iluminar. Fui com ela para sua casa e festejei até às tantas. Meti-me a beber à vontade, mas apareceram os amigos e só me deram para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Arranjastes problemas? — perguntou Catanada, sobressaltado.&lt;br /&gt;— Estou a contar-te as coisas por partes — retorquiu &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; com certo respeito. — Dancei as duas primeiras danças e levei-a para um canto da sala; depois dei-lhe uns beijos pelo pescoço abaixo que ela gostou muito, tão ternos e tão doces que eles eram. Dei-lhe também um ferrão numa mama; passado um bocado, porém, entraram uns moinantes e ela foi com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ai os filhos da mãe, roubar assim a vizinha de um homem carinhoso! — exclamou Catanada, apavorado.&lt;br /&gt;— Não é bem assim — disse &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; fantasista. — De todas as maneiras era altura dela se pirar. Depois, vim por aqui atrás dela e perdi-me no caminho.&lt;br /&gt;— Então já não tens mulher?&lt;br /&gt;— Não sei — respondeu &lt;em&gt;Very nice.&lt;/em&gt; — Ora deixa-me ver. — Rebuscou os bolsos e tirou um papel amarrotado com um número de telefone e uma direcção de uma morada. — Esta noite vou levá-la a ver um daqueles filmes de pôr a cabeça assim à roda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É um filme daqueles da gente se agarrar a uma amiga, não é?&lt;br /&gt;— Yá! — respondeu &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; —, mas não é assim tão picante como tu julgas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tossicou mais uma vez. Catanada encheu-se logo de atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É restos da ressaca — afirmou. — Não faz bem senão apanhares outra. Que dizes, Pascácio, vamos convidá-lo para o nosso apartamento e levamos a sua vizinha. A vizinha já está bastante coçada, mas a gente põe-na fina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que é que vocês estão para aí a tramar? — indagou &lt;em&gt;Very nice.&lt;/em&gt; — Eu estou de olho vivo.&lt;br /&gt;— Isso vimos nós — retorquiu Catanada. — Não te esqueças que te apresentamos a Joaquina Racha, faz agora um mês que andas com ela. A Maria Carola também foi no grupo e deixaste-a a semana passada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; ficou sereno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que é que vocês querem que eu faça?&lt;br /&gt;— Uma parodiazinha — respondeu Catanada, com rapidez. — A tua vizinha vai gostar de nos conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; envolveu a nota grande numa grande enroscada, de tal modo que qualquer cliente que passasse teria ficado sem saber que nota seria aquela. Pagou a conta e meteu o troco no bolso do casaco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada e Pascácio seguiram o carro de &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; tocando de vez em quando na buzina para lhe lembrar que o seguiam na traseira. Entraram na casa dele e deixaram-se cair numas cadeiras almofadadas; depois, embora a manhã estivesse amornar, abriram a janela da sala. &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; apareceu de dentro com meio galão de uísque enxertado em cima dum carrinho de bar ao lado duma bandeja com copos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí começaram a fumar e a beber. Pascácio, divertido, falou das pobres criaturas a quem a falta de sexo fazia passar momentos insuportáveis. Depois, foi a vez de Catanada pôr na sua voz um toque de meiguice e falar com reverência da alegria que era viver numa independência. Manhã soalheira, quando já a conversa se esvaziara e o uísque tinha batido no fundo da garrafa e, lá fora, os bafos quentes se infiltravam na sala como nuvens voadoras, &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; foi baixar as cortinas. E foi no retorno que espreitou pela frincha da porta a chegada da vizinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada e Pascácio tiveram de puxá-lo para o lado para espreitarem também. Depois Catanada falou enternecido das borgas em que se ficava consolado na cama até a noite ir chegando. No apartamento de Pipocas, ninguém precisava de andar vestido de um lado para o outro a fugir dos olhos da vizinhança e a fechar as cortinas para não ser visto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, Catanada e Pascácio acercaram-no de &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; como dois cães de fila prontos a ferrá-lo. Deixavam que ele se servisse da vizinha em primeiro. &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; aceitou sorridente. Houve palmadinhas nas costas. O meio galão foi substituído por uma garrafa. Catanada bebeu um longo trago, pois sabia que tinha diante de si a mais difícil manobra. Então, enquanto &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; estava a desenrolar a rolha, exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E agora só a trazes aqui para a gente ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; deixou a garrafa e olhou para ele, horrorizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não! — explodiu. — Prometi à vizinha que lhe levava um filme daqueles. Trago a mulher mas é quando chegar a altura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada viu que tinha falado demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Quando estavas a dançar lá nos anos, ela mandou os amigos entrar e tu lerpaste. Achas que ela fez isso para que tu comprasses filmes tarados aí numa lojita de gays? Não, meu menino! Ela procedeu assim por que tu não alinhaste num grupo de cavalaria. Achas que ela está interessada nos filmes de roço? E, além demais, aceitamos que atires primeiro — continuou. — Podes comprar os filmes que quiseres que, nós para levantar o pau, só precisamos dela a fazer-nos umas meiguices.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; reclamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vou dizer-te uma coisa — continuou Catanada. — Se não apresentarmos a vizinha ao Pipocas somos todos prejudicados e és tu quem aguenta com a maior fatia. Que a gente depois te deite o &lt;em&gt;ganilho&lt;/em&gt;, é coisa que a tua alma há-de levar para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob tantas conversas, vinda de vários lados, &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; aceitou. Passou por Catanada e fechou a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, instalou-se o sossego e uma atmosfera calma entrou na sala. Catanada descontraiu. Pascácio levou o copo para o seu lado e a conversa restabeleceu-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Temos de apresentar a vizinha ao Pipocas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada tornou-se mais falador. As suas mãos puseram-se a brincar com a beira do copo como se estivessem a tocar castanholas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O Pipocas, o nosso bom amigo Pipocas, anda a piscar o olho à Senhora do Porto. Não julgues que Pipocas é burro. A Senhora do Porto tem quase cem gajas a atacar para ela. Pipocas quer viajar com ela num bonito cruzeiro pelo Douro para a paparicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Os cruzeiros são coisas chatas — observou Pascácio —, fazem dores de barriga.&lt;br /&gt;— Isso é lá com ele e com ela — disse Catanada. — Se fizerem dores de barriga a ambos, que se tratem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, uma onda reveladora iluminara o rosto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas, se o nosso amigo Pipocas fizer bem a paparica à Senhora do Porto, come também algumas meninas e, portanto, seremos nós que as comeremos a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio abanou a cabeça, irrequieto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Seria bom que o passeio de barco de Pipocas não lhe causasse enjoos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa foi interrompida pela entrada na sala de &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; que saltou imediatamente para a brecha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Já tratei o assunto com a vizinha que vai arranjar umas amigas. Uma boa farra é o melhor programa para o Pipocas — sugeriu num tom divertido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada e Pascácio ficaram abismados com a ideia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Podemos dizer ao Pipocas que para as contas dele as nossas contas estão arrumadas — apontou Pascácio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas Pipocas na altura é capaz de não ligar ao que a gente diz. Quem lhe der um pito fica logo a saber o amigo que ele é. De qualquer forma pode viajar no cruzeiro, e lá se oriente, que nós cá esperamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinham aproveitado de &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; a chave de resoluções difíceis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Se nós levarmos as raparigas e as oferecermos ao Pipocas, talvez haja festa grande.&lt;br /&gt;— Ora aí está — exclamou Catanada —, é isso tudo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; sorriu modestamente ao sentir que o crédito pelas suas palavras tinha sido valorizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio dividiu os últimos goles de uísque dentro dos copos e todos, fatigados, embutiram após o seu esforço. Orgulhava-os terem chegado a um consenso geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Agora estou com fome — disse Pascácio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada, levantou-se, dirigiu-se à janela e olhou para o sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Já passa do meio-dia — disse. — Pascácio e eu vamos preparar o terreno, enquanto tu, &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; vais a casa da vizinha e das amigas buscá-las, e vê se lá apanhas alguma coisa para comer. Talvez no frigorífico as raparigas te dêem uns enlatados. Talvez consigas sacar umas tantas frutas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não, eu vou convosco — disse &lt;em&gt;Very nice,&lt;/em&gt; pois suspeitava que uma manobra, tão normal como inevitável por parte das raparigas, estava a começar a formar-se na sua cabeça.&lt;br /&gt;— Não, &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; — retorquiu Catanada, firmemente. — É uma hora menos um quarto. Dentro de meia hora estamos lá os três. Encontramo-nos então e desenrasca-se qualquer coisa. Talvez na dispensa haja qualquer coisa que entretenha os dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; pôs-se a caminho da casa da vizinha com alguma relutância, mas Catanada e Pascácio entraram no carro e seguiram, felizes, a rua direitos ao apartamento das Antas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-3898781209270231360?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/3898781209270231360/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=3898781209270231360' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/3898781209270231360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/3898781209270231360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/11/contos-de-ratazana-4-episodio-troupe-de.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-1539015781825296538</id><published>2011-10-29T04:42:00.000-07:00</published><updated>2011-10-29T04:57:45.778-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-tJbWO1GH8Zc/TqvqLJqWAfI/AAAAAAAAAQ4/uPdXEMMbYrA/s1600/The%25252BThrills%25252B%2528Teenager%2529.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5668882033268883954" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-tJbWO1GH8Zc/TqvqLJqWAfI/AAAAAAAAAQ4/uPdXEMMbYrA/s320/The%25252BThrills%25252B%2528Teenager%2529.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;3º Episódio&lt;br /&gt;______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Com o veneno da posse entranhado dentro de Catanada,&lt;br /&gt;logo o mal triunfou provisoriamente nele&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, Catanada foi conhecer a amante no apartamento. Esta era precisamente aquilo que Pipocas dissera, mas mais alta. Lá estava a sua palmeira-do-brasil, de perna alçada sobre a colcha, a sua almofada cheia de bolinhas, as suas bugigangas diversas espalhadas na gaveta, os seus chinelos vermelhos e o pijama de calções curtos ao lado da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas tornou-se uma pessoa importante na terra devida a ter casas para rendar e Catanada subiu um patamar por alugar uma prostituta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é possível saber se Pipocas contava receber qualquer aluguer ou tirava contra-partidas ou se Catanada contava pagar algum. Se contavam, ambos ficaram associados. Com tudo isto, Pipocas nunca o chateou e Catanada jamais foi chateado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois companheiros apareciam muitas vezes juntos. Arranjasse Catanada um pacote de investimentos ou juros promissores, que tinha pela certa a presença de Pipocas. E se Pipocas tivesse outra sorte ou engenho no engate, Catanada passava com ele uma paródia de arromba. O bom Catanada teria pago o que fosse se alguma vez tivesse muito, mas nunca teve… pelo menos durante o tempo que demorou para encontrar Pipocas. Catanada era um homem de princípios. Havia alturas em que o chateava pensar na generosidade de Pipocas e na sua própria falta de nota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia arranjou dez contos de uma maneira tão extraordinária que imediatamente tentou esquecer-se do amigo com medo de que a lembrança o fizesse enlouquecer. Em frente do Banco Português do Atlântico um cliente havia-lhe posto um cheque assinado em branco na mão dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Anda lá, joga aí nas acções o que palpitares e dou-te percentagem a dobrar. O meu palpite esgotou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas coisas acontecem como um milagre — pensou Catanada. Uma pessoa devia aceitá-las como é e não se importar com o resto nem fazer perguntas. Subiu a rua levando a notícia a Pipocas, mas, mais adiante, encontrou alguém e perdeu-se na ladainha. Catanada era um conversador e adorava o convívio. Ergueu os olhos em direcção às horas e a sua paciência esgotou-se para a visita que ia fazer ao amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nova viragem, e fez o retorno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disto, Catanada sentiu-se bem relativamente ao atraso do pagamento do aluguer. Não tido sido o pagador das suas despesas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram algumas semanas. Catanada começou a preocupar-se agora com a prostituta. À medida que o tempo corria, a preocupação tornava-se maior. Por fim, movido pelo desespero, primeiro, despachou a prostituta do apartamento para fora e, segundo, trabalhou horas a fio a palpitar acções para o cliente do Banco Português do Atlântico e ganhou cinco contos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, pôs a roupa de trazer por casa, toda desportiva, colocou sobre os ombros o coçado casacão de antílope do pai e pôs o carro a descer a rua a fim de dar a Pipocas a notícia da prostituta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na viagem, porém, comprou um maço de cigarros, e pôs-se a fumar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Foi melhor assim», pensou. «O meu amigo, se quiser, que tome conta dela. Do meu dinheiro que me custou os pingos da cabeça a ganhar, não leva nem um chavo. E digo-lhe que a prostituta custava cinco contos por foda.» Isto era parvoíce e Catanada sabia-o bem; no entanto, ficou satisfeito consigo mesmo. Não havia ninguém em Marco de Canavezes que soubesse melhor o preço das prostitutas do que Pipocas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada guiava, feliz. Decidira-se enquanto avançava em direcção ao apartamento de Pipocas. Os seus pés nos pedais mal tinham deixado de mover-se. Em cima de uma das pernas um caderno de folhas, em cada folha uma cotação da bolsa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estômago de Catanada nem sequer estava à prova das alturas, visto que, ao contemplar as gaivotas, lembrou-se de que a Senhora do Porto usava algumas vezes gaivotas nas suas comezainas, e essa lembrança deu-lhe apetite, e o apetite aumentou-lhe a ânsia. Catanada prosseguiu na sua viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabava de chegar à cabana do campo e já estava a pensar como poderia divertidamente passar-se com os telefonemas para os amigos e no tempo em que seria capaz de manter-se divertido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escuridão era agora quase cerrada. Já não se via nem a berma da estrada nem o resto que a ladeava. Mas, naquele momento em que a aceleração oscilava entre o depressa e o devagar, nesse momento preciso, Pascácio surgiu, por acaso, a pé, à beira do entroncamento com a pasta da publicidade e com vontade de beber um copo de uísque e de falar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio, primeiro, ouviu o ruído do motor, depois viu uma figura obscura e depois reconheceu Catanada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ei, bancário! — chamou entusiasmado. — Que pressa é essa que tu levas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada estacou e olhou para a berma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Julgava que estavas no bairro — disse de malandro. — Ouvi falar numa história com uma mulher da prostituição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Estive — retorquiu Pascácio, sarcástico. — Mas não fui bem aviado. A pequena disse que o broche não me fazia nada bem depois do jantar e eu disse a ela que não queria mais nada do que aquilo que estava interessado. E pronto — acabou ofegante —, cá estou mal aviado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada estava ouvinte. Na verdade, não falou com Pipocas, mas convidou de imediato Pascácio a compartilhar com ele no apartamento que tinha a chave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada e Pascácio entraram alegremente no apartamento. Catanada acendeu a luz e foi buscar duas tigelas para fazer de copos. Trouxe também a garrafa de uísque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— À tua, meu! — disse Pascácio.&lt;br /&gt;— Chim-chim! — retorquiu Catanada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, passados instantes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ao tesão! — disse Pascácio.&lt;br /&gt;— Que nunca se vá! — retorquiu Catanada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de saborear os primeiros tragos, botaram abaixo o conteúdo da garrafa de uísque, o que é muito, mesmo para uns aficionados. Logo depois do bota abaixo surgiram as conversas com propósitos e despropósitos, contaram recordações suavemente tristes, evocações de antigos e insatisfeitos amores. Um arroto, e reflexões acerca de antigos e infelizes problemas familiares, tristeza geral e confusa. Outro arroto a seguir, canções à desgraça ou à saudade, e todas aquelas lérias que todo o embriagado sabe. Ficam por aqui os arrotos e seus derivados. A partir daí voltam à conversa normal com propósitos e despropósitos, uma vez que foi aí que ambos deram o início.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pascácio —, nunca te cansas de andares a dormir em bairro, com a amante, todo feito galifão, sujeito a levares uma farinhola, sem ajuda de ninguém, sempre sozinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não — respondeu Pascácio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada pôs na sua voz o doce da simpatia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Era o que eu pensava, meu bom amigo, quando era um insignificante rato de aldeia; também eu andava a lestes, pois desconhecia como é bom a gente ter uma vida dupla, e uma amante e um refúgio. Ó, Pascácio, tu é que sabes viver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Realmente é outra vida — concordou Pascácio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada lançou o canto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ouve lá, Pascácio, não gostavas de me alugar uma parte da tua amante? Diminuía para ti a mesada. No teu dia não ia eu; no meu dia não ias tu. Não gostavas que fosse eu e não outro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Lá isso gostava — respondeu Pascácio.&lt;br /&gt;— Então, diz lá — perguntou Catanada.&lt;br /&gt;— Olha, pagas só metade da mesada. São trinta contos por mês. E a amante toda fica à tua disposição. Podes dormir com ela e tudo menos aos fins-de-semana. E se ela te autorizar a ires lá a casa tens que pagar mais qualquer coisa.&lt;br /&gt;— Ai, tenho? — disse Catanada. — Isso vamos conversar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pascácio puxou de um cigarro e Catanada imitou-o. A sala parecia uma chaminé de fumo. Catanada respirou profundamente. Não tinha entendido como a dívida para com Pipocas se instalara nos seus pensamentos. O facto de ter quase a certeza de que Pascácio nunca lhe aceitaria dinheiro algum não acalmava a sua audácia. Apresentava a prostituta a Pipocas para se servir dela, uma ou mais vezes, e o assunto ficava aviado. Se algum dia Pipocas lhe pedisse contas, Catanada podia responder: «Paguei-te com os favores da prostituta.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabaram de fumar e atiraram com as baronas para o cinzeiro e Catanada recordou-se como havia sido feliz nos seus tempos de menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Nessa altura não tinha eu consumições, Pascácio. Não sabia o que era o pecado. Era bem mais feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Desde então nunca mais fomos como éramos — concordou tristemente Pascácio.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-1539015781825296538?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/1539015781825296538/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=1539015781825296538' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1539015781825296538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1539015781825296538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/10/3-episodio-com-o-veneno-da-posse.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-tJbWO1GH8Zc/TqvqLJqWAfI/AAAAAAAAAQ4/uPdXEMMbYrA/s72-c/The%25252BThrills%25252B%2528Teenager%2529.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-8346179536194397527</id><published>2011-10-14T10:31:00.000-07:00</published><updated>2011-10-14T11:02:19.870-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5663407306381127714" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 170px; CURSOR: hand; HEIGHT: 120px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-YOKBpCKo65I/Tph28Gsy8CI/AAAAAAAAAQs/ngvyAt4l7sk/s320/49CAP28ANKCAQN10H7CAYL4YUTCAIFX3GLCAZRGVCOCAQ66BBNCA4BGEQ1CA339478CAULFZFICAEO7O8UCAXARFC3CADKYEIDCA76SZ8LCAYIS3S0CA2F03HSCA3O4AIHCAIESDDVCAL744DZCAU7IUCB.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;2º Episódio&lt;br /&gt;______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A TROUPE DE PIPOCAS&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;~~~~ &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada foi atraído pela ambição de alcançar&lt;br /&gt;uma posição de destaque, e renunciou a generosidade de Pipocas&lt;br /&gt;____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas meteu Catanada no seu Renault, circulou ao ritmo desenfreado a distância até às Antas, no Porto, e só parou à porta da primeira casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram em frente do prédio de tijoleira sem pinturas e olharam com admiração o imóvel, um prédio alto e esguio, com varandas por fora, e janelas com cortinas. No corredor, porém, havia uma grande palmeira enfiada num vaso coberto de areia e os halogéneos sobressaíam por entre as tábuas do tecto envernizadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Esta é a mais pequena das duas — disse Pipocas. — Mas é a minha preferida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas tirou o porta-chaves do bolso. Atravessou em passos pesados a gasta mármore e abriu a porta principal. O quarto estava tal qual ele havia deixado quando da última noite lá estivera. As roupas da cama com vestígios de alguém lá ter feito uma boa farra, e almofadas sem fronhas. Na mesa o calendário de Marco de Canavezes para 1980, a bandeira de seda no alto com a equipa do F.C. do Porto a olhar para a taça de campeão do último título ganho, o ramo de flores de papel colorido que figuravam nas jarras vermelhas, os apliques de luz indirecta e cestos cobertos de roupas, a cama, os maples de veludo meio sujos. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Catanada espreitou para dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Um quarto e peras — disse, ofegante. — E uma cama em redondo. Aqui é que a gente vai bombar, Pipocas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas avançou rapidamente. Tinha boas recordações dali. Era o seu refúgio à socapa do patrício. Catanada dirigiu-se antes dele, direito à cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Olha, uma cozinha em &lt;em&gt;kitchennet!&lt;/em&gt; — exclamou. Fez rodar o fogão. — Não tem gás. Tens de chamar um técnico para pôr isto a funcionar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorriram um para o outro. Catanada reparou que no rosto de Pipocas se instalavam os problemas que a propriedade ocasiona. Aquele rosto nunca mais estaria livre de preocupações. Agora que Pipocas tinha propriedades suas, nunca mais queria saber dos outros. Catanada tivera razão. Pipocas elevara-se num patamar acima dos amigos. O seu corpo tinha-se engrossado para superar à complexidade da vida. Pipocas, porém, deixou escapar um grito de lamentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Catanada — disse amargamente. — Quem me dera que esta casa fosse ao pé da outra para que tu pudesses servir dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Pipocas foi ao banco para lhe mostrarem o extracto, Catanada percorreu o corredor do apartamento que estava cheio de portas separadas umas das outras. Ali havia também caixas de vinho, maduros e verdes, e enlatados diversos que se encontravam em prateleira na dispensa. Catanada, olhou, por cima da vidraça para a marquise do vizinho e viu duas estudantes em topless a apanhar banhos de sol e, depois dum momento de reflexão, pegou nos binóculos e pôs-se à espreita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Elas vão gostar de saber que estão ao lado de dois galifões», pensou maliciosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensou igualmente na forma de lhes armar uma ratoeira no caso de elas serem lésbicas e nada quererem com os homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A gente aqui vai ser rei», disse novamente de si para si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas voltou do banco inconformado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O banco não me quer dar o dinheiro.&lt;br /&gt;— Porquê?&lt;br /&gt;— Só me querer dar quando eu tiver vinte e cinco anos.&lt;br /&gt;— Vinte e cinco anos? — disse Catanada com olhar severo.&lt;br /&gt;— Sim. É o que está escrito no testamento.&lt;br /&gt;— Mas tu podes pedir um adiantamento.&lt;br /&gt;— Eu sei — retorquiu Catanada. — Talvez eu possa pedir um adiantamento ao advogado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarde passou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Amanhã — disse Pipocas — voltamos cá e trazemos e fazemos umas prostitutas boas. Agora, tapa aí as vidraças para não se ver lá para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— As vidraças? — exclamou Catanada, assustado. — As vidraças, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada contou o seu plano acerca das estudantes do vizinho. Pipocas concordou logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Amigo, estou satisfeito por teres vindo ver o apartamento comigo. Agora, enquanto vou bater uma soneca, tens tu de ir buscar alguma coisa para se comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada, lembrando-se do papel dos moços de recados, achou que isto não era correcto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Estou a ficar cheio dele», — disse tristemente de si para si. — «A minha paciência vai acabar. Não tarde muito que eu não passe a ser um ajudante de campo por causa deste semítico.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, sempre saiu à procura de comprar qualquer coisa para comerem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado um quarteirão, perto da rua principal, deu com uma loja de assar frangos do monte, a girar no ferro. Os frangos tinham aspecto de serem novatos, pois eram pequenos, e as pernas, os pescoços e os peitos ainda estavam descobertos de penas. Talvez fosse por Catanada ter estado a pensar, entretido, nas estudantes do vizinho, que estes franguitos lhes despertaram a fome. Continuou na bicha a olhar para o assador, enquanto os frangos giravam à sua volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada disse de si para si: «Coitaditas das franguitas sem penas. Porque não vos deixaram crescer mais quando estáveis no vosso tempo de miudagem. Os donos nem sempre são assim tão generosos para os coitados bichinhos.» E pensou: «Andais a dançar aqui no espeto, minhas pobres avezitas. Mas agora chegou a hora que alguém vos vai comer; e se fordes comigo, ainda é a melhor coisa que vos pode acontecer. Mas podeis ficar descansados que, desde as pernas, pescoço, asas e até os ossos, sereis comidos consoladamente. A vida foi demasiadamente cruel para vós, minhas pequenitas.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada fungava suavemente. De vez em quando, os frangos paravam no ferro, altura do empregado os pincelar com um molho especial, e voltavam outra vez a girar no ferro para a frente. Por fim, chegou a sua vez e Catanada pediu dois frangos como se quisesse ficar bem aviado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinze minutos depois, Catanada emergiu da rua e entrou no apartamento de Pipocas. Os pequenos frangos, assados e em bocados, iam embrulhados numa saca de plástico. Ainda a noite não tinha entrado, puseram a mesa com apetrechos. O arrastar da mesa produziu um ruído rasgado. Pipocas e Catanada, bem comidos e bebidos, sorridentes e felizes, estavam sentados voltados um para o outro, e riram-se constantemente. Tinham fumado um charuto de Havana, mas, agora, o fumo que voava através do espaço da cozinha espalhava-se adiante pelo aposento. Para ficar mais perfeito o convívio, o telefone começou a iluminar no mensageiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas alguns segundos passaram para cair algumas mensagens. Pipocas ouviu rápido de quem eram os envios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Está-se a ver que elas querem — disse Catanada. — Pensa nas rapidinhas que curtimos na Xangô. Isto aqui é que vai ser malhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pois vai. Durante anos curti nas pensões; agora tenho o apartamento. Não posso dormir aqui todas as noites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada detestava perder uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É isso mesmo que tenho estado a pensar. Porque não metes aqui uma prostituta? — sugeriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas bateu violentamente com a mão na mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ó, pá! — exclamou. — Porque é que eu não pensei nisso à mais tempo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia tornou-se mais atraente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas depois quem é que toma conta dela?&lt;br /&gt;— Tomo eu. Dou-te dez contos para as despesas do mês.&lt;br /&gt;— Vinte — insistiu Pipocas. — A prostituta consome mais. A despesa dobra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada aceitou, refilando. Mas teria aceitado de qualquer forma, só para não se separar do homem que tinha propriedades, e ele aspirava chegar a essa ascensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ficamos então acordados — finalizou Pipocas. — Alugas tu a prostituta. Eu hei-de ser um bom compincha, Catanada. Não te deixarei ficar mal. Vou mandar fazer uma chave dupla.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca Catanada, exceptuando o ano que viera da tropa, tivera vinte contos. Porém, pensou, que antes de ter de pagar as despesas ainda se passava trinta dias, e quem sabe o que pode acontecer nesse prazo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gingavam nas cadeiras, sorridentes, junto da mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns momentos depois, Pipocas saiu por um bocado, mas, no caminho, comprou uma garrafa de uísque e, utilizando a cabine telefónica, atraiu duas matronas prostitutas para seu apartamento. Catanada, que ia a sair da casa de banho, ouviu a algazarra e sorriu todo contente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas caiu-lhe nos braços e pôs-lhe tudo à sua disposição. Mais adiante, depois de Catanada ter colaborado, dispondo de uma das prostitutas e de metade do uísque, houve uma bela cena de abandalho. Pipocas deu um peido e Catanada ficou com a camisa cheia de leite. As prostitutas assistiam à cena lançando risos histéricos e dando pontapés naquilo que estava mais a jeito. Por fim, Pipocas levantou-se do chão e deu uma patada no cu de uma das prostitutas, que saiu do apartamento a coxear como uma rã. A outra roubou dois copos de cristal e seguiu atrás da primeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante alguns minutos, Pipocas e Catanada carpiram a traição das mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tu não conheces o calibre destas cabras do ataque — disse Pipocas prudentemente.&lt;br /&gt;— Sei, mais ou menos — confirmou Catanada.&lt;br /&gt;— Não sabes nada&lt;br /&gt;— Sei, sei.&lt;br /&gt;— &lt;em&gt;Aldra.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Uma paragem, embora não muito longa. Depois disto, Pipocas e Catanada sentiram-se mais relaxantes, mas nenhum se importou quem dera mais coça nelas, visto as excitações os terem estoirados. O silêncio sossegou-os, a respiração foi abrandando, à medida que os corpos arrefeceram. O sinal de televisão extinguiu-se na sua emissão.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;O apartamento ficou silencioso, envolta em paz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-8346179536194397527?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/8346179536194397527/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=8346179536194397527' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/8346179536194397527'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/8346179536194397527'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/10/2-episodio-troupe-de-pipocas-catanada.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-YOKBpCKo65I/Tph28Gsy8CI/AAAAAAAAAQs/ngvyAt4l7sk/s72-c/49CAP28ANKCAQN10H7CAYL4YUTCAIFX3GLCAZRGVCOCAQ66BBNCA4BGEQ1CA339478CAULFZFICAEO7O8UCAXARFC3CADKYEIDCA76SZ8LCAYIS3S0CA2F03HSCA3O4AIHCAIESDDVCAL744DZCAU7IUCB.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-1710746795418762929</id><published>2011-10-01T11:23:00.000-07:00</published><updated>2011-11-15T08:53:51.932-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefácio&lt;br /&gt;…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é a história de Pipocas, dos seus amigos e da sua herança. Esta história conta como os três se tornaram inseparáveis, de tal modo que, na terra de Marco de Canavezes, quando se comenta da herança de Pipocas, não se tem em ideia uma avaliação tão aproximada do valor real que ela engrossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é a história de como esse grupo de rapazes se constituiu, de como cresceu e se transformou numa sábia e inteligente organização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta história trata das façanhas dos amigos de Pipocas, do bem que praticaram, das suas borgas e dos seus sacrifícios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Marco de Canavezes, essa pequena povoação do distrito do Porto, sabem bem estas coisas, passam-nas de umas para as outras e, normalmente, acrescentam-lhe uns pós. É bom que este ciclo seja anotado no papel para que, um dia mais tarde, os estudiosos, ao ouvir contar as lendas, não possam dizer, tal como fazem do poeta Bocage, do &lt;em&gt;Gungunhana,&lt;/em&gt; e de Zé do Telhado: «Não houve nenhum Pipocas, nem nenhum grupo de amigos de Pipocas, nem nenhuma herança, nem nenhumas casas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas é um ídolo da População e os seus amigos são símbolos primitivos da fortuna, do azar e da sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta história destina-se a evitar agora e sempre, os sorrisos trocistas das bocas de amargos eruditos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;1.Episódio&lt;br /&gt;_____&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A TROUPE DE PIPOCAS&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;~~~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ao chegar a casa vindo das vendas, Pipocas viu-se &lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;a braços com a morte do pai que lhe deixou&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;uma herança; e logo pensou proteger os amigos&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando o Pipocas, depois de se tornar adulto, regressou à terra, soube que tinha herdado uma fortuna. O &lt;em&gt;patrício,&lt;/em&gt; isto é, o seu pai, tinha falecido e deixara-lhe uma grossa maquia e propriedades, em Marco de Canavezes e no Porto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ter conhecimento disso, Pipocas sentiu-se um tanto vergado sob o peso da sua responsabilidade de proprietário. Antes mesmo de ir ver a sua conta bancária levou uma prostituta para o apartamento e deu-lhe três fornicadas de seguida sem tirar fora…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O peso da responsabilidade deixou-o e o pior de si próprio veio à tona. Berrou, deu alguns apalpões num bar de alternos da Rua Freire de Andrade e teve duas faíscas nas vitoriosas conquistas. Ninguém se preocupou muito com isso. O seu gordo corpo e pesado dentro do seu potente carro acabaram por levá-lo ao porto do rio, onde, àquela hora nocturna, os seguranças da noite, de fatos pretos, estacionavam à porta duma casa de diversão a fim de manterem a ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma antipatia de momento, dominou o bom senso de Pipocas. Fez-se aos seguranças: insultou-os:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Corja de rufiões; escória do cais da ribeira, azeiteiros, filhos de azeiteiros, — E gritou: — &lt;em&gt;Fuck you,&lt;/em&gt; os dois!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pôs a mão de fora e fez um gesto obsceno de dedo levantado. Os seguranças limitaram-se a arregaçar os punhos num sorriso, trocaram o passeio e disseram:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Olá, Pipocas! Quando é que nos pagas um copo? Vem ter connosco agora. Temos sardas novas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas sentiu-se na merda. Berrou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ponde as línguas numa amêijoa! Os seguranças retorquiram:&lt;br /&gt;— Adeus, Pipocas. Vai nanar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas ficou na lua. Voltou à rua Freire de Andrade, e, à medida que a subia, ia lançando blasfémias aos transeuntes. Na segunda rotunda, um porteiro chamou-o. A grande simpatia que Pipocas sentia pelos homens das portas fê-lo parar de repente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não tivesse parado depois de o porteiro o chamar, não teria perdido umas seis horas. Mas, assim, passou, um tempo sentado na mesa dum cabaré do Porto, ora a fazer chupões marcantes nas camareiras ora a pensar na vida que levava nas vendas. Muito gozo lhe dava o tempo que passava naquelas casas do prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando, lá punham uma striper a entreter a noite, mas a maioria das vezes o barulho mantinha-se estagnado e Pipocas ficava sisudo. A princípio, as camareiras ainda o chateavam um pouco, mas como se foram habituando ao gosto da sua língua, e ele se foi acostumando às suas carícias, passaram a viver em comunhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas arranjou então um joguinho sarcástico. Dava um chupão numa camareira, pagava-lhe uma bebida, fazia-a desandar e chamava a &lt;em&gt;«next».&lt;/em&gt; Em pouco tempo tinha a mesa decorada com copos escarrapachados. Depois, pegava neles e punha-os debaixo do sofá. O empregado ficou escandalizado, mas não se queixou, visto Pipocas ter a despesa já incluída na sua conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma hora em que havia muito público na sala, a striper entrou na mesa de Pipocas e bebeu duas garrafas de &lt;em&gt;Moêt et Chandon.&lt;/em&gt; Minutos depois saiu para ir dançar para a pista e Pipocas foi com ela. Era alegre a dança. Deixaram-se ficar aos pulos na pista do cabaré, onde dançaram “Ó Malhão, Malhão”, até o disco-jockey trocar de música e os por dali a andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, cerca das seis horas da manhã, o sono intermitente do cansaço o abanou, Pipocas decidiu pagar a despesa e enfiar-se no apartamento durante o dia para escapar ao calor. Deitou-se ao comprido e espreitando por dentro dos lençóis como uma raposa ciente de estar no melhor sítio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao meio da tarde, recuperadas as forças que de si despendera, saiu do apartamento e foi tratar da vida. E fê-lo sem problemas. Foi sentar-se num banco de um snack-bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tem aí carne de vazio para fazer um prego no pão para um gordo? — perguntou ao cozinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, enquanto o refinado cozinheiro cortava o bife, Pipocas comeu dois ovos cozidos, dois bolinhos de bacalhau, uma vasilha de batatas fritas e embutiu dois príncipes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Um é pouco. Faça já outro — disse.&lt;br /&gt;— Não perde tempo. Eu faço-os quantos você quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas sentiu-se mais tranquilo em relação ao apetite que trouxera. Se o apetite o devorava daquele modo, nesse caso estava no local certo. Pegou no carro, deu voltas à cidade e ultrapassou uma mão de sinais vermelhos e entrou numa loja de conveniências para comprar uma garrafa de uísque e salgadinhos, e retirou-se para a terra a fim de tratar de negócios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fim da tarde estava azul vivo e quente. O sol, qual brando, estava fixo dos espaços celestes que, marcava os limites de Marco de Canavezes. Pipocas levantou os olhos e dirigiu o carro para o refúgio da cabana do campo. Adiante topou um indivíduo de andar apressado e logo reconheceu o passo apressado do seu amigo Catanada. Pipocas era um amigo do seu amigo, mas lembrou-se de que comprara uma garrafa de uísque e umas sacas de salgados e ficara sem dinheiro, menos os dois cheques dos clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Vou fingir que o vou atropelar», pensou e decidiu. «Vai ficar como se estivesse a afogar cheio de ganas e de outras coisas mais.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, de repente, Pipocas reparou que Catanada apertava maciamente a mão contra o pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Olá, Catanada, &lt;em&gt;Catanadazinha!&lt;/em&gt; — gritou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada atrasou mais o passo. Pipocas parou numa bolina desenfreada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Catanada, ó Catanada, amigo! Nunca mais perdes o vício de andar apressado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada olhou com admiração a surpresa e aguardou. Pipocas aproximou-se nas calmas, embora se notasse na sua voz uma entoação entusiasmada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Andei a pensar em ti, Catanada, ó &lt;em&gt;Catanadazinho,&lt;/em&gt; amigo mais querido entre todos os amigos bons que eu tenho. Eu procurei-te porque tenho aqui dois pequenos cheques que os clientes me pagaram, e um saco de aperitivos e uma garrafa de uísque do outro mundo. Serve-te aqui, do meu lanche, ó Catanada querido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada encolheu os ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sem problemas — murmurou, seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entraram juntos na cabana. Catanada estava surpreendido. Por fim, parou e voltou-se para o amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pipocas — perguntou numa voz quente —, como é que adivinhaste que eu tinha um apetite devorador debaixo da garganta?&lt;br /&gt;— Apetite? — exclamou Pipocas. — Tu tens apetite? É capaz de ser bom para alguma velha histérica — prosseguiu timidamente. — Talvez estejas à espera que caia alguma do ar. Queres lanchar ou não? Eu sei sempre ao certo o que os amigos consomem. Eu não estou com muita sede. Fico muito feliz em te dar do meu uísque que aqui trago, dos salgadinhos, mas, com respeito aos meus cheques, conto contigo mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada respondeu-lhe com firmeza:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pipocas, não me importa de cambiar os cheques, se não tiver para os dois, tenho para um. Põe aqui o uísque, Pipocas. Põe de maneira que eu o veja antes que tu o bebas todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas, então, trocou de conversa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vou primeiro passar os salgadinhos para as tigelas e tu trazes os copos daquele móvel. Puxa para aqui as cadeiras. Vamos ficar onde a gente veja bem a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armaram uma mesa e comeram os salgados. O uísque descia rapidamente na garrafa. Depois de terem comido, sentaram-se frente um ao outro, bebendo pequenos goles, suavemente, como moscas moribundas, o líquido da garrafa. O calor desceu sobre eles e pôs-lhes as t-shirts escuras de suor. À sua volta a ventoinha refrescava levemente entre os móveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Instantes depois a solidão baixou sobre Pipocas e Catanada. Pipocas pensou nos amigos que amava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Onde anda o Pascácio? — perguntou, acendendo um cigarro e deitando fumo para o ar. — No bairro, com a prostituta — respondeu a si próprio, ao mesmo tempo que mandava uma bola de fumo contra a parede e deixava estender as pernas, desalentado. — Com a prostituta do vício. Com a prostituta num bairro municipal. Dentro duma casa passam pessoas que não o vêem e não sabem que ele está ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou de novo as pernas para cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Onde anda o esponja do &lt;em&gt;Very nice?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;— Na pub — respondeu Catanada. — O &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; palmou uns patacos e foi embebedar-se no meio dos amigos; os patacos aqueceram-lhe, &lt;em&gt;Very nice&lt;/em&gt; esticou e, &lt;em&gt;tac!,&lt;/em&gt; está de cama. Agora está no piano a curá-la por duas semanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas esmagou a ponta do cigarro no cinzeiro e mudou de conversa, pois entendeu que havia assunto a mais. A solidão, todavia, ainda pesava sobre ele e exigia uma saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Aqui estamos nós… — começou por dizer.&lt;br /&gt;— … os nossos corações solitários — acrescentou Catanada, com prosa.&lt;br /&gt;— Não, isto não é nenhum recital poético — disse Pipocas. — Aqui estamos nós, sem um mimo. Damos o cabedal ao manifesto e agora nem uma carícia para nos consolar.&lt;br /&gt;— Nunca falaste tão acertado — acrescentou Catanada, solidário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhador, Pipocas encheu o copo até Catanada lhe tocar no cotovelo e lhe apontar a medida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Isto faz-me recordar — disse Pipocas — o caso de um azeiteiro que era dono de duas prostitutas de rua… — Ficou a olhar. — Catanada! — exclamou. — Ó &lt;em&gt;Catanadazinho&lt;/em&gt; amigo! Já me esquecia. Recebi uma herança em dinheiro. E umas casas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— De azeiteiros? — perguntou Catanada, esfrangalhado. — És um mentiroso e um regador — acrescentou.&lt;br /&gt;— Não, estou a falar verdade. O meu patrício morreu. Agora, sou o herdeiro. O único.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O único — retomou Catanada, realista. — Onde estão as casas?&lt;br /&gt;— Aqui em Marco de Canavezes e no Porto.&lt;br /&gt;— E essa herança em dinheiro chega para alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas levantou-se rapidamente, saturado pela comoção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eh, pá! Tinha-me esquecido que tenho que ir ao banco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Catanada continuou sentado em pause e imerso. O seu rosto tornou-se abatido. Atirou a ponta dum amendoim para o chão e observou as formigas aproximarem-se freneticamente por entre elas e morder. Durante uns minutos olhou minuciosamente para o rosto de Pipocas; depois, suspirou ruidosamente e tornou a suspirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Agora acabou — disse melancolicamente. — Os belos tempos já lá vão. Os teus amigos vão ter pena, mas as penas não servirão de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas pôs a garrafa no chão; Catanada agarrou nela e pô-la entre mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas agora acabou o quê? Que pretendes tu dizer com isso?&lt;br /&gt;— Não é a primeira vez — continuou Catanada. — Quando uma pessoa é remediada, logo pensa: «Se eu fosse rico ajudava os meus amigos.» Mas venha lá a riqueza que lá se vai a vontade. É o que se passa contigo, meu amigo dos outros tempos. Agora estás em alta. Vais esquecer-te dos amigos que contigo partilharam o bom e o mau, até a solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras de Catanada tornaram-se tristes para Pipocas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu não sou dessa raça! — exclamou. — Eu nunca te esquecerei, ó meu bom amigo.&lt;br /&gt;— Isso dizes tu agora — disse Catanada com indiferença. — Mas, quando tiveres o dinheiro à mão de semear, vais ver no foguete em que te tornas. Catanada continuará a ser um simples empregado do banco, ao passo que tu comerás com carrinhos de chá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pipocas ergue-se, trémulo, e encostou-se direito a uma cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Catanada, juro-te por quanto é mais sagrado; o que tenho é para repartir. Enquanto tiver um tecto e nota no bolso para se gastar, o que é meu é teu. Dá um gole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tenho de ver para crer — volveu Catanada, numa voz sem ânimo. — Se isso se passasse como dizes, o mundo ficava surpreendido. Havia de aparecer por aí milhares de escritores a escrever esta história. E, além disso, o uísque foi-se.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-1710746795418762929?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/1710746795418762929/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=1710746795418762929' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1710746795418762929'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1710746795418762929'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/10/prefacio-esta-e-historia-de-pipocas-dos.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-1531904418509751014</id><published>2011-09-17T13:25:00.001-07:00</published><updated>2011-09-17T13:30:52.473-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-n3r9fPgc5xg/TnUDVYgISFI/AAAAAAAAAQk/PHY7ifTb-n8/s1600/untitled.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653428573122873426" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 157px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-n3r9fPgc5xg/TnUDVYgISFI/AAAAAAAAAQk/PHY7ifTb-n8/s320/untitled.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nuno – Vendedor Ambulante&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa época já vivia, na sua agonia do mal que o apoquentara, o vendedor ambulante Nuno — e já por toda a rua se louvava o espírito de sacrifício com que enfrentava o seu mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nuno, na verdade, completara nos hospitais uma série de exames ao corpo. Pela incerteza e complexidade da doença que ainda não fora descoberta pelos médicos, ele arrancava dentro de si as pragas mais profundas que lhe ia na alma, e tornava-se um triste e sisudo como um desses velhos resmungões em que o chão anda a querer fugir-lhe dos pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu tormento, durante dez anos de angústia, fora tão duro e tão forte que já não temia o Diabo; e agora, só com o diagnóstico positivo do médico, dominava as suspeições, por mais pavorosas ou por mais satisfatórias, como se fossem apenas sonhos inacabados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravessava ele uma rua, quando um rapaz de rosto traquina, lhe sorria e murmurava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Bom dia, senhor Nuno!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, um bom dia, é sempre um bom dia, desde que estejamos vivos e sãos. Nesse dia, seguia Nuno para uma consulta no centro de saúde, e olhando o azul e o sol da manhã, passou por algumas casas de hotelaria em baixa, e pensou no seu amigo Fernando, antigo colega como ele no negócio de vendas, em Vale Formoso, que se retirara daquele negócio para se dedicar à terceira idade, e habitava num andar de tijoleira creme e castanho, em frente do jardim de Arca d´Água, passeando e orientando uns part-times, porque a sua vontade era não ficar parado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como mais de três semanas tinham passado desde que encontrara o colega Fernando, largou a rua, passou o portão de ferro que estava escaqueirado, entrou no posto de saúde de Arca d´Agua, e começou a subir, lentamente, as escadas em ziguezague. Depois dos primeiros passos, era amarga a ponta de dor que lhe massacrava os pés doridos. Àquela hora, numa altura onde se esperavam os utentes, ouvia-se o chiar e o bater de portas. Sentada em frente da secretária, rodeada de papelada, atendia o telefone, falando constantemente, uma funcionária gorda, que de caneta na mão, ia marcando as consultas, e devorando uma maçã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O posto de saúde, recentemente restaurado de paredes pintadas em azul do céu e branco, conservava ainda algumas lacunas no funcionamento. A sala de espera, limpa e fresca, não caberiam mais de vinte pessoas que permanentes lá iam às suas consultas. Nuno tirou uma senha, verificou os exames que trouxera dentro dum envelope grande e sentou-se à espera. Em breve pensou na doença, e lamentou a sua sorte desdita. Por fim perdeu-se na contagem das chamadas que a funcionária ia atendendo, e acabou por deitar as costas para trás da cadeira e através daquela paz, daquela frescura, embalou…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E asperamente, para não o deixar alongar àquela hora de sesta, a enfermeira abriu a porta de contraplacado branco, que não tinha entrada à passagem de utentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Senhor Nuno!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do fundo da sala branda, repleta de utentes, que mais parecia grupo de coro, veio um ronco murmúrio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Alguém me chama? Aqui neste fundo, neste fundo não ouço nada, menina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nuno surgiu em grande estilo; buscou o envelope preso entre as pernas, e com algum cuidado avançou em frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Há quanto tempo estou neste sonambulismo, menina?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem-haja, desde á três horas! Só três horas atrás, depois de chegar ali em primeiro e não viu ninguém, se viera esticar naquele canto para meditar… Mas havia semanas que nele se instalara um cansaço, que nem podia dar uma volta ao quarteirão quando voltava do médico.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;— E o senhor Nuno trouxe todos os exames que eu possa ver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico de bata branca pegou nos exames e nas radiografias dentro do envelope; olhou para o paciente esticado na cadeira, absorvido em pensamentos, e tão abstracto que o seu rosto, outrora cheio e moreno, era como um velho peregrino muito destroçado, perdido entre as encruzilhadas do caminho. Com elevada estima e amizade o pôs à vontade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ora, vamos lá ver o que você tem feito pela sua saúde!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compenetrado, amarrotando no peito a gravata lilás em que nas mãos prendia, como se fosse ponta dum lençol, o triste Nuno exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Senhor doutor, não sei se é maluqueira, mas durante esta noite, em boa verdade lhe digo, me apeteceu apanhar uma boa borracheira, uma borracheira de cair para o lado!... Mas será maluqueira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico, com a sua imensa paciência, logo o informou. Maluqueira? Sim, claro! Aquele que, por doença, oferece ao seu corpo uma felicidade desequilibrada, desacredita o doutor. Não aconselhava ele aos seus pacientes que bebessem as boas pingas que há no mundo? O corpo nem sempre é servo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É uma boa borracheira que lhe apetece? — exclamou sorridente o médico, colocando o aparelho de medição de tensões, no braço transparente do paciente. — Pois acalme-se, senhor Nuno, que bem há-de chegar o dia em que pode fazê-lo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo a seguir, com os olhos a controlar a alta e a baixa, agarrou o aparelho das pulsações, que pousava sobre o carrinho de assistência. Arregaçando as mangas da bata, e pondo um lençol fresco sobre a marquesa, mandou deitar o paciente em tronco nu e, enquanto lhe fazia um exame cardiovascular, correu para uma secção onde se encontrava o telescópio, a fim de visionar as radiografias. E aí, anotando concentradamente os dados na ficha clínica do paciente, desandou até à sala, a ver se estava tudo a ir em ordem. Depois, com os dados todos inseridos na ficha, o doutor passou a sala, entrou no gabinete, gritou para fora contente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Senhor Nuno, a tensão alta já não a tem! O colesterol já vai abaixo um pouquinho! O ritmo cardíaco já subiu, meu caro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pesado, amuado, Nuno deu um suspiro, recaiu na cadeira de forma brusca. Que mal apanhara, que mal apanhara! O doutor, no seu saber, descobrisse aquele problema que tinha na sua saúde! Só de pensar nisso, até sentia a alma de almeidinha mais forte para a caminhada!.. E o doutor com as mãos cruzadas, mandou-o apertar os punhos da camisa, vestir o casaco, e voltado para ele, murmurou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Meu caro, você não pode nunca desanimar… Eu vou estudar estes exames mais profundamente. Mas passarei por cá na semana que vem, e ficarei à espera que você faça esses exames que eu marquei, aí nessas receitas. Deus vos acompanhe entretanto, e vos ampare com a sua fé divina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Nuno fechara os olhos, nem se pronunciou, tendo guardado as receitas no bolso do casaco. Cumprimentou o médico, tomou o seu rumo, desceu as escadas vagarosamente, de sobrolho cabisbaixo e um pouco abatido… Alargando o passo, pensava quanto era triste a sua situação que não permitia que usufruísse duma vida estável e coesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retomou a rua, andou para a rua Vale Formoso. E extraordinário foi, desde esse dia, o dinamismo do seu bem. Através da cidade do Porto, sem parar, andou por muito lado, falando com amigos e não amigos que encontrava na rua. A sua grande força ia para além dos que padecem, até aqueles que vendem saúde de ferro. Durante as mudanças das estações, vezes sem conta dava aos pedintes a sua moeda, as suas palavras amigas; os donos dos restaurantes ricos, as empregadas novas induziam, para aumentar o espírito do seu querer através das pessoas; e sem pejo, na próxima esquina, perante qualquer desgraçado, ele se alargava em falas sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um dia, em Águas Santas, a cigana saiu ao seu encontro, com sinas prometedoras, às melhoras de saúde, ele correu para uma tabacaria, onde jogou numa rifa e comprou uma cautela, para que se a sorte sorrisse, oferecesse àqueles que o vinham a apoiar uma festa de arromba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, uma tarde, em véspera de S. João, estando a circular na rua das Fontainhas, avistou de repente, no fundo da rua, uma mulher que assava sardinhas sobre um grelhador que ardia e faiscava. Pensativo, murmurou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eis o que me faz falta; uma sardinhada e um bom verdinho, que se não me fizer mal, bem em mim me cairá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu logo ordem a uma outra mulher que ali servia, que pusesse numa mesa o pedido, que era um desejo muito antigo e muito desejado. Comer, sentir o verdinho, eram, para ele, os dois prazeres completos; nada o satisfazia mais do que chegar jantado a casa, regado, consolado, já era um bom pretexto para se afundar em sonhos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, sábado, no café, ao levantar a chávena, orou. Sentindo então que ia desmaiar ali, pediu que o ajudassem até à porta de casa, o deixassem lá que ele se desenrascava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, respirando fraco, só se queixava do seu sofrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O doutor, que tanto estudou, porque não me põe a mim no patamar da saúde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há nada como realmente. De madrugada fugiu da cama, por causa do pesadelo, ao ver o coveiro à entrada, da porta da rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio para a janela, e olhou o céu que clareava, ouviu os pássaros que, na frescura e no silêncio, começavam a cantar sobre o beiral da clarabóia e, sorrindo, lembrou uma aurora assim de frescura e silêncio, em que, passeando com um amigo perto da Residencial Vale Formoso, ambos se detiveram ante uma antiga camareira cheia de caruncho, que, amavelmente, lhe recomendara que olhasse sempre pela saúde! «Meu irmão, porta-te bem, senão queres ir para os anjinhos!» Depois, beijando amigavelmente a face de Nuno que a fitava, a antiga camareira foi-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo que ele fechou os olhos no seu leito, um grande sonho penetrou limpidamente no quarto e levou a alma de Nuno. Durante um instante, na fina flor da madrugada, deslizou por sobre a planície fronteira tão suavemente que nem tocava as pontas húmidas das nuvens altas. Depois, abrindo as alas, radiantes e brandas, transpôs, num voo directo, o espaço, as estrelas, todo o céu que os homens conhecem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-1531904418509751014?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/1531904418509751014/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=1531904418509751014' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1531904418509751014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1531904418509751014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/09/contos-de-ratazana-nuno-vendedor.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-n3r9fPgc5xg/TnUDVYgISFI/AAAAAAAAAQk/PHY7ifTb-n8/s72-c/untitled.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-4047167675260833705</id><published>2011-08-11T04:24:00.000-07:00</published><updated>2011-08-11T04:38:32.400-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/--M2v0OCyk0o/TkO_Jo6F-EI/AAAAAAAAAQU/DP6aK_Sgr6Q/s1600/ULCA4F5MHYCAIAG8EKCAZGWSDMCAWQI08ECAPDTSRWCA8053L0CA8HNY8WCAN1F13XCA8WEERACA46LS34CAU5QB9UCAFVEMCYCAGD0HYPCA30UV0BCA6EIPJ3CAJGB41RCAT2U7A2CAZAIW7TCA7BYVK3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5639561330718799938" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 52px; CURSOR: hand; HEIGHT: 80px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/--M2v0OCyk0o/TkO_Jo6F-EI/AAAAAAAAAQU/DP6aK_Sgr6Q/s320/ULCA4F5MHYCAIAG8EKCAZGWSDMCAWQI08ECAPDTSRWCA8053L0CA8HNY8WCAN1F13XCA8WEERACA46LS34CAU5QB9UCAFVEMCYCAGD0HYPCA30UV0BCA6EIPJ3CAJGB41RCAT2U7A2CAZAIW7TCA7BYVK3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A RARA PINTURA&lt;br /&gt;~~~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse tempo Glória Isabel ainda se não demarcara de Vilar de Andorinha e das tranquilas, vistosas casas do lugar de Lijó — mas a nova dos seus hobbies chegara já até Avintes, vila volumosa, de muros altos, entre campos e arvoredos, no concelho de Vila Nova de Gaia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma manhã uma mulher de olhos cadentes e mal-amados passou no fresco lugar, e fez-se ouvir que uma nova artista, uma pintora simpática, percorria as ruas e aldeias de Vilar de Andorinha, declarando a chegada da Boa Sorte, pintando todas as coisas boas da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto descarregava as telas do carro, próximo à beira do Rio da Fonte, contou ainda que essa pintora, no largo de Oliveira do Douro, pintara o rosto dum lavrador, só com escorregar sobre ele a lata de tinta das suas mãos; e que noutro dia, atravessando numa embarcação pequena para a zona da Afurada, onde começava a pesca da enguia, escorraçara o cão que ferrara a filha do pescador, homem amável e instruído que comprava o seu quadro do cavalo imponente de dentes cerrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como se isso não bastasse, maravilhados, serralheiros, doutores, mulheres de ancinho, e os trolhas morenos com a trincha na caiadela, lhe perguntassem se essa era, em boa verdade, a Picasso de Vilar de Andorinha, e se nas telas dela havia o rosto de Mona Lisa, e se outros como os girassóis de Van Gogh, os escuros de Velásquez e de Degas — a mulher, sem mesmo pintar daquela tinta tão pura de que pintara Renoir, apanhou as telas, sacudiu o pó, e meteu-as no carro, logo sumindo entre a espessura dos arbustos ao alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas uma atracção, deliciosa como o fadista nos tempos em que canta o fado, avivou as gentes simples: logo, por toda a parte que verdeja até ao bairro de Vila d´Este.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora então vivia nas Devesas um velho, por apelido Estrela, sem família, que dormitava nas matas do Monte da Virgem, homem de fartos caminhos e de fartas barbas — e com a alma tão vazia de nada como os seus bolsos cheios de cotão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas uma aragem amena e aconchegada, essa aragem de satisfação que ao cuidado da Sorte sopra dos gastos paralelepípedos de Coimbrões, mandara um desconhecido atirar as notas mais gordas dos seus bolsos, e só se detiveram nos degraus onde as pernas do velho se enroscavam ao chão. E Estrela, agachado à soleira da porta da igreja, com a mão estendida à procura dos fiéis, palpava o saco e olhava as notas, cantava a alegria, soltava elogios a favor da Sorte bendita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho pedinte já ouvira falar dessa nova artista de pintura de Vilar de Andorinha que aproximava as pessoas, sensibilizava os cépticos, emendava todas as más sortes — Estrela, homem analfabeto, que viajara por toda a Gaia, logo pensou que Glória seria mais uma dessas habilidosas, tão habituais no Porto, como Lebrac, ou Conde do Pincel, ou Albertino «o futebolista». Esses, mesmos nas noites confusas, murmuram para as estrelas, para eles sempre brancas e fáceis nos seus enquadramentos; com um pincel atraem de sobre as nuvens os trovões gerados nas tempestades de Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glória de Vilar de Andorinha, ainda nova, com artes mais vistosas decerto, se ele a acompanhasse e a seguisse, recolheria mais sacas de notas, cresceria os seus proveitos. Então Estrela começou a seguir os seus passos por toda a vila de Gaia a pintora nova, sem que ela se apercebesse, e apertou os cordões das botas já rotas das longas passadas — largou pela estrada das praias que, rodeando a costa, se estende até Lavadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma manhã avistou sobre o poente, branco como uma mármore muito baça, as areias finas da praia da Madalena. Depois, na secura duma tarde ventosa, a praia de Salgueiros resplandeceu diante dos seus olhos, transparente, praticamente deserta, mais azul que o céu, de rochas de tamanho grandes e pequenas, e de poucas casas por entre os pinhais, sob o uivo dos cães.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem que tirara preguiçosamente a sua cana de pesca duma motorizada, atada num poste, escutou sorrindo, o velho pedinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A pintora de Vilar de Andorinha? Oh! Desde a semana da Páscoa, a pintora passara, com as suas pinturas, para os lados para onde o rio Douro encosta as águas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pedinte, andou, seguiu pelas margens do mar, até adianta dum alto, onde se via num ermo, o imóvel duma antiga fábrica de bacalhau, que descansa em completo abandono. Pela beira da água, repousava um velho carro, que era dum corpulento homem, de aparência dum errante, todo vestido de roupas grossas, deitava lentamente pedras para a água, com um livro agarrado à mão. O pedinte humildemente saudou-o, porque o pobre gosta daqueles homens de corpo tão atlético e alto, e sisudo como as suas vestes uma vez por ano lavadas em enxurradas abundantes. O corpulento homem murmurou que a pintora atravessara o hotel Casa Branca, depois se adiantara para baixo…— Mas onde, baixo? — Levando um dedo ao ar, o corpulento homem mostrou as praias de baixo-Lavadores, o areal de Cabedelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na taberna de cor branca, que ladeia o caminho, paravam lá uns indivíduos à procura dumas especialidades de peixes e dumas boas canecas de vinho, contaram ao Estrela que em General Torres, pela lua cheia, uma pintora fabulosa, maior que Miguel Ângelo ou Malhoa, vendera três cus virgens a um picheleiro, e que, com a sua pintura, um sem-abrigo apanhado a palmar pelo agente Cáta-Nada lhe oferecera a sua pintura e recolhera ao seu porto de abrigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Glória, nessa tarde, pintava ao lado de um horto, apreciada por uma plateia que mirava e cochichava em sintonia, e em baixo tom, e arrumara as suas trouxas, e no carro rumara em direcção Norte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, já com a exposição aberta ao público, pintando já uma jovem manequim, olharam um fuinha sombrio, que se detivera a olhar para o &lt;em&gt;Cristo,&lt;/em&gt; sentado na sua cadeira de rodas. Com devota paixão, acabou por adormecer com a cabeça encostada ao &lt;em&gt;Cristo.&lt;/em&gt; E grandes foram os seus roncos, sentado na sua cadeira, uivando: «Rru!Rru!», e sem intervalos. O público advertiu para o calar. Um viajante encostou-se à cadeira e deu-lhe um encontrão, ao mesmo tempo, que a peruca do fuinha se soltou, encolheu, e ficou colada ao &lt;em&gt;Cristo &lt;/em&gt;— e a sua cólera ecoou como um tambor furioso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Oh, ladrões danados! Oh, bandidos! A minha peruca? Onde esconderam a minha peruca? Se eu tivesse a força do Sansão, reduzia-vos a pó e à marreta…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por essa altura, um professor biológico, de nacionalidade espanhola, Jonas Galego, professava aulas numa escola de Mafamude, próxima de uma estação de televisão. Galego, homem macio, veterano na matéria, aparecera durante o período de férias a dar aulas a algumas alunas, possuía multiplicas funções, e gozava, como favor das suas borlas, a amizade de Flora, filha única, dum sapateiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas um problema roía o seu plano muito cauteloso, como um mágico rói um cordel muito firme. A filha do sapateiro, era para ele mais desejada que comer ou beber, alinhava com um bem prendado e querido, falara mesmo ao sentir o amasso que ele se aproveitara nas descidas e subidas da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Branca e tímida como a lua num parque ao ar livre, sem um dizer, sorrindo docemente ao seu professor, alinhava, sentada na cadeira da escola, sob uma transparência, alongando curiosamente os negros olhos risonhos pelo azul do quadro de Goya, por onde ela reparara no Museu Teixeira Lopes, numa galeria exposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto de si, por vezes, um tocador de flauta nos horários nocturnos, entre as cadeiras do meio, riscava vagarosamente numa folha branca, e desenhara uma camareira de bar, olhando de forma melancólica uma taça de bebida, ao lado dum cromo abstracto, num bar. A filha do sapateiro seguia um momento a camareira meditabundo até o tocador de flauta parar de pintar — depois, mais seriamente, com um suspiro, e mais calma, recomeçava a olhar para o Goya.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Galego, ouvindo contar, a vendedores de Santo Ovídio, desta pintora excelente, tão grandiosa sobre os acasos, que virava as sortes tenebrosas da alma, pediu a dois alunos para que a procurassem por Vilar de Andorinha, e outras freguesias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os alunos enfiaram pela estrada e correram todos os caminhos até à baixa Vilar de Andorinha — e, da pintora, só encontraram o rasto brilhante nos corações. À entrada da ponte ferroviária do Arco do Prado, dois vendedores de farináceos que vinham do Candal com um carregamento de aves, e a quem nunca esqueceram a pintora Glória, pagaram uma bagatela por duas telas de galos de Barcelos para os seus viveiros de pitos, e viram as suas galinhas porem mais ovos que nunca. E da beira do cemitério, as velhas sacudiam como balões as flores, e arremessavam sobre os mortos as Boas Sortes, evocando o bem-estar de Abraião, o Mata-Porcos, da Estação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, devagar, com a cabeça à roda, como numa partida de ténis, demandaram até ao largo da Lavandeira: não encontraram Glória: e retorceram ao direito da estrada, batendo com os pedantes no asfalto quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma noite, perto de Canidelo, caminhando numa secundária, avistaram sobre um monte um verde-claro dum pinhal de eucaliptos, os restos duma estrutura duma garagem, onde albergava um grupo de insurrectos, malcheirosos, e drogados. Um rapaz, de compridos cabelos castanhos, vestido com um casaco sem mangas, fazendo um charro de folhas de loureiro e papel cartão, esfregava calmamente as mãos, sobre um resineiro. Em baixo, agitando uma bandeira de cruzes, alguns bradaram à Boa Sorte. Conhecia ele uma nova pintora que surgira em Vilar de Andorinha, e tão ocasional em casos que suscitava os infelizes e pintava o vulgar em invulgar? Calmamente, abrindo os braços, o calmo rapaz exclamou por sobre o verde do campo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Oh, vocês! Ainda acreditam que em Vilar de Andorinha ou Alentejo apareçam artistas invertendo sortes? Como podem acreditar em semelhantes baboseiras?... Artistas e Artes são vendedores ambulantes, que pintam a manta à sua cor, para arrebatar os patacos dos mais simples… Acreditem, não há artistas, não há sortes… Só o Invisível conhece o saber das coisas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E grande foi o pesadelo do sapateiro, porque sua filha era desflorada, sem uma queixa, olhando o quadro (fotocópia) de Goya — e contudo a fama de Glória, criadora dos incríveis acasos, crescia, sempre mais consistente e firme, como a aragem do dia que sopra do alto do Mosteiro da Serra do Pilar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, os drogados enfiaram a boca no charro, embutiram para dentro os fumos de loureiro — e os seus olhos, de noite, brilhavam no topo da garagem, por entre a fumaça ondeante das puxadas seguidas. Assim puseram o corpo em relaxe e, ficaram à espera da chegada do Sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora ente Olival e Sandim, numa casota desgarrada, sumida num canto duma colina, vivia a esse tempo uma prostituta, mais desventurada mulher que todas as mulheres de Portugal. O seu amante, todo corcovado, passara a maior parte da sua vida a ver obra feita, onde estacionara, dezassete anos vividos, chulando e comendo. Também a ela o vício a pegara dentro do ofício nunca mudado, mais magra e semítica, que um esqueleto arrancado. Até no lugar do cão não se ouvia há muito os seus latidos. E, sobre ambos, densamente a podridão cresceu, como a ferrugem sobre as sucatas deixadas num lugar despovoado. Tão fora de mão do povoado, nunca o correio ou o polícia entrava o portal feito de latões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia um rico entrou na casota, ofereceu um churrasco, aos dois infelizes, e um momento de pé na frente da cozinha, sacudindo as moscas da cara, espreitou por cima do sofá se o que estava a ver era uma pintura a sério. Os infelizes comiam, com bocas famintas. E essa bonita pintura, tem boa qualidade, onde a apanharam? A prostituta suspirou. Oh, essa bonita pintura! Quantos a desejavam! Depois, chupando uma parte do frango, contou dessa grande protagonista das sortes, essa pintora que aparecera em Vilar de Andorinha, e de um quadro fazia casos, e pintava para todas as classes, e corria todos os cantos. A sua fama andava por toda a vila de Gaia, como o vento que até por qualquer velho guarda-chuva se sente e se espalha; mas para obter uma graça das suas artes, só aqueles ditosos que a sua vontade escolhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então o chulo, num murmúrio mais forte que o troar de uma gaita, disse à mulher que vendesse a pintura ao rico, tão endinheirado, que não largara os seus olhos daquela pintura. A mulher apertou a cara enrugada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Oh, homem! E como queres que venda a pintura, e depois perca a sorte, da pintora de Vilar de Andorinha? Ela tem-nos dado sorte! Como queres que venda a pintura? Glória não volta a pintar outra pintura como esta. E mesmo que quisesse, não seria tão igual, nem tão perfeita como esta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chulo, com duas boas goladas pela goela sequiosa, murmurou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Oh, mulher! Glória não precisa de saber nada. E nós ainda não gozámos tudo, e com um fardo tão pesado, já é hora, não é? E podíamos ter uma abundância maior que a casa do Presidente da Câmara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a mulher, em gargalhadas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Oh, meu homem, como me fazes rir? Longas são as minhas horas, e curto o dinheiro dos clientes. Tão pouco, tão afanado, tão triste, até as forças me estão a abandonar. Ninguém saberia de nós, é verdade, e logo arranjaríamos uma morada nova. Oh, homem! Talvez tenhas razão… Nem sempre a sorte nos bate à porta. O senhor quer a pintura, o senhor a leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rico, tão rico, pegara a sua carteira recheada de notas de cinco mil, e passou para a mão da prostituta, que por sua vez, lhe passou para as mãos, a pintura de Glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu escurecia. O rico apanhou o seu carro, desceu pela estreita colina, entre o pinhal e a estrada. A prostituta retocou o seu traje, a prostituta mais tesa, mais corada. O amante seguiu atrás dela até à estrada que conduzia à vila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De entre uma curva traiçoeira, surgiu um camião desenfreado sobre eles, que os deixou esticados na poeira, erguendo as mãos que tremiam, o chulo desabafou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mulher, vamos ficar aqui…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo, aparecendo devagar entre as nuvens e sorrindo, a Sorte disse a ambos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Aqui estou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-4047167675260833705?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/4047167675260833705/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=4047167675260833705' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/4047167675260833705'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/4047167675260833705'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/08/contos-de-ratazana-rara-pintura-nesse.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/--M2v0OCyk0o/TkO_Jo6F-EI/AAAAAAAAAQU/DP6aK_Sgr6Q/s72-c/ULCA4F5MHYCAIAG8EKCAZGWSDMCAWQI08ECAPDTSRWCA8053L0CA8HNY8WCAN1F13XCA8WEERACA46LS34CAU5QB9UCAFVEMCYCAGD0HYPCA30UV0BCA6EIPJ3CAJGB41RCAT2U7A2CAZAIW7TCA7BYVK3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-7784069649317787366</id><published>2011-07-21T04:42:00.000-07:00</published><updated>2011-07-21T05:03:01.225-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-ZUMDhNn-kT8/TigUAqWrAWI/AAAAAAAAAQM/Wz_RwpRfmXI/s1600/s.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5631773335628743010" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 101px; CURSOR: hand; HEIGHT: 129px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-ZUMDhNn-kT8/TigUAqWrAWI/AAAAAAAAAQM/Wz_RwpRfmXI/s320/s.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JACINTO COSTA&lt;br /&gt;~~~&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Quente manhã, meu caro!... Estou aguardando a chegada do caixão do Costa — do Jacinto Costa, dono das casas Paganini, Pérola Negra, Bagdad, entre outras coisas…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O amigo claro que o conheceu — um homem risonho, vivo como um rato, com uma conversa cheia de fintas emitida de uma boca faladora, de olhar atento, duma simplicidade provinciana e simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E muito curioso, muito dado às ideias comuns, tão penetrante que entendeu o meu «Estilo da Ética Boémia!» Esta imagem do Jacinto Costa data de l980: porque da última vez que o vi, numa noite amena de Junho, metido num BMW na Rua da Constituição, transpirava dentro duma camiseta cor de milho, cortada nos cotovelos, e cheirava seguramente a nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o amigo, numa altura que o Jacinto Costa recolhendo ao Porto, parou no cabaré Tamariz, na Invicta, falou com ele, no reservado dos boss! Até a Rainha do Cartaz, que preparava o número «Salta na Cueca», para animar mais a plateia entre os clientes e os empresários, recitou aquele seu poema, de tão bom idealismo: «Nas garras do meu coração, o desejo…» E ainda recordo o Jacinto Costa, com um refinado blusão de cabedal preto, por cima da camisa de seda branca, sem largar os olhos dos seios das bailarinas, sorrindo, descaradamente àquele desejo que gemia nas suas garras… Era uma noite de Setembro, de lua minguante. Conversámos depois em grupo, com amigos, pelo meio, e pelo escuro. O José Manuel cantou melancolicamente uma cantiga amorosa da nossa época:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem de noitinha, à beira da ria,&lt;br /&gt;Contemplavas, silenciosa,&lt;br /&gt;A corrente fogosa&lt;br /&gt;Que as tuas mãos arrefecia…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Jacinto Costa, debruçado na cadeira da ponta, com o espírito e os olhos perdidos na luz! — Porque não acompanha o amigo este homem atractivo ao Cemitério do Prado do Repouso. Eu tenho um roadster, de capota e de cor preta, como atrai a um empresário da Noite… Não quer! Por causa do vento! O´amigo! De todas as vantagens na viaje, nenhuma mais atraente do que a cabeça descoberta. E o homem que vai a enterrar era um grande desportista!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem o caixão a entrar no velório… Trá-lo uma carruagem para o acompanhar. Mas realmente, amigo, está um ambiente fúnebre. O indivíduo de óculos de sol à Abrunhosa, dentro do coupé?... Conheço bem, essa cara. É um concorrente pobre, desses que aparecem nos funerais, com a missão de espalhar boatos, agora que o defunto já não se incomoda, nem se compromete. O homem baixo e gordo de cabelo louro, dentro do velório, é o Mateus «Pipo», que tem um tasco e que se chama o Refresco. Que relação o unia ao Costa?... Não faço ideia. Talvez se conhecessem nas mesmas capelas; talvez o Costa lhe desse ultimamente para frequentar o Refresco. Agora é o nosso roadster… Quer que suba a capota?... Mais devagar?... Eu tenho tino. Pois este Jacinto Costa foi um homem aventureiro que, tal como eu, na vida ama a noite boémia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Invicta sempre o consideramos como um sujeito particularmente esperto. Para este raciocínio concorria talvez a sua grande ascensão. Nunca um fracasso brilhante na carreira! Nunca uma mancha estragada nos negócios! Nunca uma acção rebelde do temperamento ou do físico daquele sóbrio feitio que nos intrigava! Além disso, na nossa quente geração, ele foi o primeiro empresário da noite que trouxe as mininas do Brasil; que deu sem tirar ou pôr os Alojamentos; que permaneceu insensível ante a presença da Pê-Jota! E contudo, nesse Jacinto Costa, nenhuma dureza ou inveja ou grosseria. Antes pelo contrário! Um bom parceiro, sempre prestável, e mansamente contente. Toda a sua inabalável pujança parecia provir duma grande força interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, nesse tempo, não foi por maldade e ofensa que eu alcunhei aquele moço tão popular, tão risonho e tão mexido, de «Costa Paga Pouco». Quando namorou uma dedicada e bonita rapariga de quem decerto lhe trauteou, como todos nós trauteamos, aqueles versos sabidos, mas sempre bem recebidos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era no Verão, quando à luz do arco-íris&lt;br /&gt;A imagem tua…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, como nesse verso, o bom Jacinto Costa, ao regressar da terra de Celorico de Bastos em Novembro, no Inverno, avistou Elisa, um dia no campo, à luz do arco-íris! O Costa nunca tinha olhado uma preciosidade daquele tipo, cheia de encanto e beleza. Baixa, graciosa, simpática, digna da comparação monarquia da Princesa do Povo. Cabelos negros, compridos, e ricos em ondulados caracóis. Uma cor de pele muito macia. Olhos negros, penetrantes, alegres, de longas pestanas… Assim que casaram, partiram para o Porto, tentar a sorte dum sonho que os acorrentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amigo sem dúvida que a viu, pelo menos uma vez, essa bonita estampa de simpatia que se chama Elisa, a Elisa do Costa… Foi a bela meiguice romântica do Porto, nos começos dos anos oitenta. Mas realmente o Porto apenas a via pelas viagens constantes das suas idas a Espanha, ou nalguma ida aos copos de que o Costa era um frequentador viciado. Com ar caseiro de provinciana, a super Elisa, ainda conservava os velhos hábitos sobejamente apreciados, por aquela burguesia mundana que nesses tempos, no Porto, se mostravam galanteadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem os viu, e com facilidade constante, quase empolgante, logo que criaram bases no Porto, foi o Jacinto Costa — porque, tomando conta de uma casa de alugar quartos no centro da zona alta, ao pé do jardim do Marquês do Pombal, não podia a super Elisa desejar melhor sorte nos seus dividendos, do que ver a sua vida crescer, ao tornar-se dona também duma casa de várias assoalhadas, no meio da rua da Constituição e se chamava a Pensão Costa Verde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó amigo, quando eu, que já então intensamente trabalhava com camareiras, depois de a conhecer numa tarde chuvosa esperando pela abertura da porta do Lord, a adorei durante treze magníficos meses e lhe rasguei os mais variados elogios! Não sei se o Costa lhe deu alguns sermões por isso. Mas todos nós, seus amigos, reconhecemos logo a forte, profunda, absoluta confiança que concebera, desde o dia de Verão, à luz do arco-íris, aquele coração, que no Porto considerávamos de «Paga Pouco!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem compreende que homem tão comedido e sereno não se soltou em desabafos públicos. Já no tempo, porém, de Abraias, se contava que amor e dinheiro não se separam; e do nosso fechado Jacinto Costa o amor começou logo a alargar, como o dinheiro fácil através dos casais do amor rápido duma casa de portas abertas que atrai seguramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem me lembro duma tarde que o visitei, na sua nova casa, o Pub Paganini, depois de se ver livre da pensão. Era um domingo à noite. Ele fazia horas para ir jantar com Elisa, que vivia no andar que ambos tinham comprado, na Avenida de França, e onde habitualmente jantavam aos domingos quando estavam juntos. Creio até que só por isso, eu e o Jacinto Costa mantivemos, uma conversa sobre negócios e pouco mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As portas do pub do Costa abriam e fechavam num invariável vaivém; e quando voltava do quarto de banho ele palrava com uma das suas mininas, altamente. Nunca admirei, amigo, lábia destravada enrolada por palavreado mais bacoco e bizarro! Piscou-me o olho quando me cumprimentou e deu um sorriso, que vinha das profundezas da alma iluminada; sorria ainda maliciosamente enquanto eu lhe contei alguns das minhas desgraças nocturnas; e sorriu depois, distraído, a acender um cigarro, com o filtro às avessas, fazendo um fumeiro do caraças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a cada instante, infalivelmente, por um hábito já tão frequente como o voltar a cabeça, os seus olhos atentos, fugazmente observadores, se voltavam para o vaivém da porta da sala… De repente que, seguindo aquele lance fortuito, logo descobri, na porta do pub do Costa, a super Elisa, vestida de ganga azul, com uma blusa branca, esperando calmamente, e espreitando também as mesas da frente, que uma fumaraça voadora de fumo ofuscava de manchas de amarelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Jacinto Costa no entanto conversava com o empregado, antes ordenava, através do olhar convincente, coisas ligeiras e variadas. Toda a sua atenção se concentrara diante da máquina registadora, nos talões de entrada e saída para fixar os valores, numa vista rápida ao movimento do balcão, e mandou cumprimentos a alguns deles antes de abalar. E depois de enfiar o blusão de couro, de lhe agasalhar uma boa maquia, foi com passada larga, sem olhar uma vez para trás, que abriu curtamente, fortemente, a porta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dei discretamente o pira dali também. E, amigo, acredite em mim!, admirei aquele homem a ir para o carro, veloz, firme na sua caminhada sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no carro, na branca mulher vestindo a ganga azul, e tão alheio ao mundo como se o mundo fosse apenas o assento que ela se assentava e firmava com os pés!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E este encanto, amigo, durou uma década, assim brilhante, genuíno, distante e imaturo. Não se ria… Certamente se encontravam no andar da Avenida de França: Certamente que telefonavam, e isoladamente, contando as notas em cima dos lençóis que uniam os dois amorosos: mas nunca, em cima desses lençóis, procuraram o pequeno caso duma escaramuça passada ou o caso ainda mais recente duma cena escondida na sombra. E nunca trocaram um ciúme… Não duvide, amigo! Algum apertão de ossos a raspar e tímido, sob os tectos do andar da Avenida de França, foi o máximo da exaltação que a gana lhes marcou ao desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amigo não entende como é possível se manter assim duas fortes criaturas, durante uma década, em tão incrível e tédio relacionamento… Sim, certamente não lhes faltou, tempo para se coçarem, uma hora de absoluta liberdade ou uma escapadela à fronteira. Depois a super Elisa trabalhava realmente num sítio dos confins do mundo, em que noitadas e cabritadas eram o pão-nosso de cada dia, desgastante mas gratificante. Mas, na fragilidade deste amor, entrou muita baixeza moral e fraqueza sentimental. Era fácil ao Costa, que (sem nós sabermos) nascera desnorteadamente individualista; mas a boa Elisa encontrou também um gozo propositado nessa ideal vocação de vida má, que até ousa chegar, com as notas engelhadas e embrulhadas na bolsa de mão, a rica e estimada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E durante uma década, como o Zé Manel do Bar Boteco, conquistou, firme e deslumbrado, dentro do seu sonho feliz, sonho em que Elisa morou realmente dentro do seu coração, numa junção tão absoluta que se tornou substancial numa só pessoa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas um dia, o chão, para o Jacinto Costa, tremeu todo num terramoto de rode tamanho. Em Março ou Abril de 1989, a Elisa já repleta pelas suas aventuras e frustrações, desapareceu sem um aviso. Acreditará o amigo que ele abanou por todo, mesmo passeando sozinho a pé pelos quarteirões do Porto, logo que descobrira no andar da Avenida de França, nessa noite, que o guarda-roupa estava vazio de Elisa!... E este abandono real da sua mais-que-tudo na sua mente criou atitudes novas, no Jacinto Costa estranhas, derivando da perturbação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o Paganini abria cedo, à hora do primeiro café da tarde, Costa depois de chegar, mandou comprar palmas sem dedicatórias, velas e ramos de flores dum gosto sóbrio e variado, e encheu um quarto de banho, onde as depositou, para os amigos e clientes do Paganini tomar conhecimento do luto que o abatera… E ninguém deixou então no Porto de espalhar tão dolorosa notícia, mais triste, o falecimento da mulher do Costa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, logo se tornou romaria, depois da notícia, naquele delicioso e atractivo Pub Paganini, onde o prazer parecia vindo do Céu, e nunca ninguém bebia com velas acesas e o chão espalhado de flores. Porquê? Porque Elisa também ali morrera, para ele. Daí esses murmúrios banhados num sorriso religiosamente atento… Porquê? Porque a estava sempre sentindo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda me lembro de ouvir contar o meu cliente amigo e comparsa nas paródias, aquele brilhante José Novais, acompanhado doutro amigo, o Arnaldo Cruz, irem visitar o Costa, ao fim da tarde, e de ele carregado de inquietação, como revoltado, arrancar do chão uma mesa e gritar com uma cara que não era satisfação, perante a plateia que o rodeava: — O que eu faço? O que eu faço? Parto pescoço ao primeiro que dizer mal de Elisa!... — E depois, exclamou ao olhar o relógio, com um assomo vermelho na face: — O quê? Já são 9 horas? Lá se vai o jantar!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dinheiro arrasta ao poder, sobretudo dinheiro de tão fácil trabalhismo: e o Jacinto Costa rentabilizou com sagacidade o dinheiro que ela também partilhava. Claro que não podia levar a lembrança de Elisa para onde quer que fosse, nem consentir que a vaga lembrança roçasse pelos sofás de veludo da sala do pub. Mandou, portanto, uma carruagem para os fins, e onde encarregou o serviço a um tal Juca (como era tratado), um amigo mais antigo e confidencial, que fez chegar o remesso das flores, ao cuidado de uma irmã que morava nos arredores de Sintra. Veja o amigo, como esse endiabrado gozava com esta ideia macabra? Com este acto, assim desfez, logo ali, a amizade com o amor daquela mulher a quem nunca dera um filho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por estas mesmas alturas, numa pachorrenta conversa de bar, aproveitei a companhia dum cliente, e visitei o Costa, no Paganini, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar condolências antecipadas, mas para que, naquele acto aterrador, ele sentisse ao lado a força mobilizadora da boémia… Encontrei também com ele, o Juca, que já me serviu neste pub, onde agora vêem cá, de vez em quando, todos aqueles clientes a quem chamei traidores de sexo… O Juca chegara de Braga, da sua rotina normal, de madrugada, reclamado por um telefonema do Costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entrei, um empregado atrapalhado limpava duas mesas em simultâneo. O Jacinto Costa abalava nessa noite para Lisboa. Já vestira outro blusão de couro, com botas de meio cano pretas: e depois de me estender a mão, enquanto o Juca remexia um gelo, continuou andando pela sala, pensativo, como alarmado, como surpreso da sua sorte bruscamente abalada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num momento em que ele batera com a porta, murmurei ao cliente, por cima do ombro: — O Costa faz bem em se pirar daqui… — O cliente abanou a cabeça: — Sim, pensou que era mais oportuno… Eu concordei. Mas só durante o tempo do luto falso… — E zarpámos dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, depois desse tempo, o Costa? Ó amigo, o sagaz Costa que não parava nem quieto, aventurou-se a comprar uma fracção ao lado do Paganini, e fez dela uma pensãozita. Tão arrojado estava com a sua veia, que apenas umas semanas, tomou posse na Rua João das Regras do Pub Chaminé. Os meses de falso luto passaram, depois vieram outros, e Costa não arredou pé do Porto. Na altura viria a entusiasmar-se por uma jovem de calça justa, blusa às bolinhas, que ocupava a missão de empregada de balcão. Nesse Junho o encontrei eu sentado comodamente nas frentes do Café O Geladinho, onde entretinha a vista do dia solarengo, lendo o jornal (porque voltara ao desporto), e bebendo água gelada até que a tarde caminhava e ele se preparava, se erguia, se ia para dentro do pub.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer que lhe diga mais? Nesse Verão, no Café O Geladinho, sempre achei que o Costa, a cada momento da nossa conversa, mesmo embutindo gelada água, mesmo falando dos negócios que o levara à noite, amiúdes vezes gracejara com os seus ditos. Não notei no Costa, nenhum nervoso particularmente miudinho, nem uma revolta com a vida… Pelo contrário! Ao sorriso de radiante firmeza, que nesses anos o iluminara com um caminho de sucesso, por que se debatera numa encruzilhada sempre presente, fatigante e perigosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei aos eventos, amigo. O Outono passou, muito frio e muito pardacento. Eu trabalhei nos meus Concursos das Sextas-Feiras. Um domingo, dia de folga, no jardim do Marquês do Pombal, quando já se viam mesas improvisadas de reformados a jogar a sueca, avistei a sair dum BMW vermelho a especial jovem, com calça larga e botas de vaqueira. E nessa semana editei no meu pasquim Jornal Dos Traidores a notícia pequena, quase acanhada, da gravidez da especial jovem… De quem, meu amigo? — Do conhecido empresário da noite, o ilustre Jacinto Costa!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu amigo abriu aí os olhos, e ficou um pouco, espantado. Eu também fiz o mesmo, mas para os fechar, com a admiração daquela especial jovem, cheia de vigor ao amor! Conquistar sem pressa, serenamente, apenas entrara para o balcão, aquele astuto, rato, empresário Costa! Ah, bem ensinara o Conde do Pincel que a mulher é um monstro de vício, deitada ao centro da cama!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, amigo, quando eu assim dava uso à voz, encontro uma tarde na Rua de S. Brás o amigo Zé Manel, que sai do seu Boteco, me encosta para uma mesa, agarra excitadamente na minha pequena mão, e exclama alvoraçado: — Já sabes? Foi o Costa que comprou a Candeia. Ele esteve no bar, desabafou! Ele nem conseguiu dizer quantas casas tem! Não conseguiu, não senhor! — Fiquei passado. — E então agora… — Encorajado, fortemente apoiado pelas suas mininas, ávido de poder, com aqueles bons trinta e sete anos em fúria, que raio!, investiu, comprou! — Eu ergui as pernas até à sombra da mesa: — Mas então essa ascensão do Costa? — O Zé Manel, seu concorrente e conhecedor, falou com absoluta certeza: — É o mesmo de sempre! Grandioso, único… Mas não fica por aqui! Ambos nos despedimos, e depois ambos nos separamos, trocando uma palmada, com aquele ritual habitual que fica bem aos boss da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois a especial jovem teve um bebé e continuou habitando o andar com o seu Jacinto Costa no conforto e aconchego que já gozara antes, e exercendo a sua missão laboral. Nos meados da Primavera, Costa recolheu do Porto ao Brasil, ao encontro dos seus contactos, onde tinha negócios preparados. De regresso ao Porto, Costa tomou conta da Boite Pérola Negra, onde modernizou todo o seu interior, com um design para o showbusiness, já de agenda carregada que ninguém queria faltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio o Maio, como sempre no Porto ruidoso e quente. Aos domingos, Costa jantava com a jovem e o bebe, na sua nova habitação, em família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia, porém, uma grande e surpreendente mudança — a do Jacinto Costa! Imagine o amigo, como esse homem vivia os seus loucos dias? Com os olhos, e os números, e o instinto, e todo o sentido cravados nos negócios, nas passagens, nas explorações a outrem! Mas agora, não era de passagens bem mais acessíveis e facilitadas… Não, amigo! O que o preocupava agora, o que lhe cavara longas mossas em curtos meses, era que não tinha um homem, um maestro, um finório, que pudesse gerir os negócios que eram seus, e que de um modo geral, ele pudesse rolar à doucemet, na super-vida inconstante e quase no limite do seu quotidiano!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amigo sorri… E então o Juca? Ó amigo! Esse era estático, e sério, e brando, e já tinha funcionado no Paganini, com a sua brandura e o seu estaticismo, quando ele conhecera o Costa e lhe dera para sempre lealdade e amizade. E os outros que lhe vieram a seguir, esses, cavaram velozmente pela porta fora, logo que Costa desatou aos raspanetes, com os grandes olhos em chispa, e os carnudos braços de manga arregaçada, e o estilo indomável dum domador de gado, e escorraçara aqueles marretas — a quem revelara talvez o que é um rato da noite!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, c´os diabos! Esse Juca, ele o reservara para outros afins, quando viu que ele não lhe oferecia, na arte e na manobra dum saca-o-copo ou ainda na manobra do já foste nenhuma táctica ainda avançada que o iluminasse! E agora, aqui no doce lar, ao cabo duns longos meses, com as traquinices do bebé diante dos seus olhos e as diabruras dos dois corpos unidos brincando na carpete, o amor presente, era que ele amara sublimemente uma família, e que a colocara entre os píncaros da lua para mais bela adoração, e que um puro romantismo, de ares mais frescos, arrancara dentro de si uma realidade forte da vida, que nunca suspeitou que chinelos e fraldas malcheirosas de menino são coisas de rara beleza em casa em que entre o sol e haja amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sabe o amigo, o que aumentou, mais excitadamente, esta força? Talvez fosse apenas o acontecimento da vinda do menino! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Costa partiu para as suas visitas de expiação na província, a assistir aos espectáculos nas casas de diversões, ele da ponta de uma terra a outra, por caminhos e travessas, falando com artistas e os agentes, sobre eventuais contratos. E quem sabe?... Talvez aqueles dois adorados artistas que viu actuar nos seus números, uma poeta para os delinquentes sedutores e um macho capão para as necessidades dos toscos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não creio que se comprometessem por cima dos copos e garrafas, como era a pretensão dos agentes… De resto, Costa era essencialmente oposto em consentir espectáculos de obscenidades, como fito de aumentar as receitas. Enfim, amigo, não falemos mais sobre a noite, atrás do morto que morreu por ela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi então que, nesse Verão, comecei a convidar e a organizar o I Convívio de Patrões e Empregados da Noite, um evento festejado no restaurante O Braseiro em Francelos. Parece que de todos os convites por mim endereçados, poucos foram rejeitados. O Costa também compareceu. Reinava no convívio o espírito de solidariedade. Ó amigo, que bonito e espectáculo foi aquilo! Electrizante, durante três horas, mexido, contagiante, reanimou o Porto! São dessa noite algumas daquelas conversas ligeiras… Conhece a da piela do vinho do Porto? Uma piela do vinho do Porto oferecida por um estrangeiro a uma camareira das mais rascas e das mais ordinárias, apanhada na escura sala da Boite Marta, no Largo da Maternidade de Júlio Dinis, que depois mandou montar no chulo, e pesadamente, alegremente, em cima dele, com um chicote, conduziu ao pé da Torre dos Clérigos, para esperar pelo bater do Sino!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esse tempo, e por causa dum desenrascanço no serviço, contactei o carpinteiro Gomes, que me telefonara rapidamente do seu local de trabalho, na Baixa do Porto, às oito horas, numa noite seca de Outubro. O carpinteiro, enquanto me conduzia para dentro da casa, bem adornada pelas ricas mobílias e carpetes do Paquistão, confessou que aquele negócio era do Costa que ainda não acabara o serviço (negócio emperrado, duma ilegalidade)… E ainda me lembro, com uma surpresa, da impressão causada que me deu o homem do martelo! Estávamos na sala que abria sobre os dois halls. Quando lhe toquei no meu serviço, ergueu num sobressalto o olhar, todo tremido: — Ainda não jantei? — Apenas lhe sorri, num gesto amigo, para o não contrariar, que tinha tempo, que não era de necessidade maior, encheu o peito de ar, e respirou lentamente, passando a mão sobre a careca húmida: — Então, o que há de novo? — Relaxado, sem pressas, escutou o trabalho que eu pretendia dele. Por fim, com um bufo, remexeu uma garrafa de cerveja dentro do balde, encheu um copo, murmurando: — Amanhã… A esta hora!… — Bebeu um gole e caminhou uns passos bem firmes para a janela, a que abriu vagarosamente a vidraça… E ficou quieto, como tolhido pelo escuro, sossego da noite enublada. Eu deitei os olhos, amigo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa do Costa, futura Residencial Pantanal, uma porta batia, suavemente sem ruído, fechada ao suave aroma. E esse perfume vivo envolvia uma figura robusta, no vistoso conjunto de um traje colorido, chegada ao pé do logradouro, como borboleta numa constelação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a minina, amigo! O Costa tinha agora uma amante brasileira… Por trás, no fundo do logradouro, os materiais das obras estavam atolados, nos cantos. Ela, imóvel, olhava, pensava talvez numa expressão usada pelo seu querido amigo que, a vida é como a roleta — tem é de se apostar certo. E entre eles rescendia, na preguiça da noite, todos as ilusões dos dois amantes… Subitamente a minina recolheu, à pressa, chamada por um simples tlintlim do telefone. E a porta logo se abriu, toda a claridade e vida, se alojaram na Residencial Pantanal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo corre! Já estamos no S. João das Fontainhas! Como estes manjericos vão arrastando depressa o grupo dos foliões para o bater do martelinho e para a noitada única! Pois, amigo, depois dessa ardente noite, o Costa inteiramente se mandou, se evaporou, sem que me chegassem novas dele, mesmo duvidosas — tanto mais que o confidente por quem as saberia, o seu brilhante Juca, partira para algures, com o seu variado itinerário de percurso, sem horas, para pesquisar a concorrência, das novidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo esse ano, também, andei embrulhado na minha Festa dos Barmans. Depois, uma ocasião, no meio do Verão, descendo pela Avenida da Boavista, com as persianas (olhos) levantadas, à procura do nº 1357, onde se situava a casa nova do Jacinto Costa, quando desço eu às escadas de baixo, e lá avisto a portada do Top Bar Bagdad e dentro dum centro comercial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É belo, amigo, mais aconchegado e mais harmonioso, todo fresco e muito desejável, ainda para mais ter um horário que vai às seis horas da manhã! Mas aquele homem era da grande envergadura de Amorim que, uma mão cheia de anos depois do crescer de Cortiça, ainda deslumbrava os empresários de sucesso e os patrões sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, curiosa coincidência, logo nessa noite, dessa mesma portada do nº 1357 o vi eu também, o vendedor imobiliário, Cebolinha! Mau feitio, problemático, branco, de cabelo comprido, em excelentes condições para encher o bucho de uísque (e portanto ficar grosso), como diz o mandarim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu frequentava esse nº 1357, interessado no catálogo do bar, porque o rato do Costa possuía, pelo conhecimento largo dos seus informadores, uma colecção invejável de borrachos dos vários continentes. E passadas semanas, saindo desses borrachos uma noite (o Vigilante andava de noite) e parando à frente, para encostar o carro, enxergo à meia-luz, metido na marmelada com uma prostituta, o habitué, Cebolinha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que Cebolinha, amigo! Coitado do Cebolinha! Apanhara uma ramada, uma ramada de partir a loiça toda, impertinente, chata, rabugenta como velha esquizofrénica: apanhara uma touca, que lhe saía de dentro em foguetes iluminados de sob uma velha cana; mas todo ele, no resto, parecia irreconhecível, minguado dentro dum fato escuro de muitos vincos, e duma gravata esverdeada, de grandes riscas, onde se viam os enrugados, tão à vista, da maliciosa marmelada. Cada dois minutos, instintivamente, enfiava um uísque para a garganta — e, de olhar à Nero, recolhia na espantada miséria que me tomou, apenas balbuciei: — Você! Então que é isto? — E ele, com o seu sarcasmo indelicado, mas embriagadamente para se desimpedir, e numa voz que o uísque rompera: — Por aqui ao engate duma puta. — Não respondi, andei. Depois, ao fundo, tomei um trago que a empregada me pusera em frente, e dali olhei, o negócio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, amigo, bom negócio fez o Jacinto Costa investindo naquela portada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um desses parques automóveis do Porto melhorado, sem horário, sempre de portas abertas, sempre arrumado, lugares de estacionamento acessíveis aos carros dos clientes do bar de dia ou de noite. Ao lado havia o Paganini. Infalivelmente, ao anoitecer, o Jacinto Costa descia a Rua da Constituição, colado às paredes, e como uma sombra, desaparecia na penumbra da porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essa hora já as mesas do Paganini enchiam, de turistas e intrusos mergulhados no calor de Verão, e mulheres de amor-rápido a bater as solas duras no chão, ou fazendo olhinhos aos frequentadores. E parando ao meio, na lateral da sala, o Costa se quedava, — concentrando os olhos vivos na movimentação besta daquela casa, onde a sabia dominada pela sua mão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe, amigo, Costa já descobrira que, dentro daquelas casas, a atender humildemente os seus clientes, com a alma de outrora, já não lá estava o antigo Jacinto Costa!… E acreditará o amigo que então, todas as noites, para fugir do stress do trabalho, guiava pela estrada deserta, a libertar a ideia, que o ajudaria no seu trabalho. O Costa percebera bem isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Outono passado, encontrei o Costa, numa meia manhã de frio, tomando café numa confeitaria da Rua de Costa Cabral, e a uma ponta, o Juca, arrepiado, desolado, coçava o cabelo e batia as mãos enluvadas, com os olhos comovidos nas embaciadas vidraças, quando o Costa, para o aquecer, dera-lhe uma palmada nos ombros, acrescentando: «Tás com frio, pá! Manda vir uma cachaça!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou quase dois anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, amigo, ontem, o Vigilante apareceu no meu bar, depois do fecho, esbaforido: — Lá foi o Jacinto Costa, numa ambulância, para o hospital, completamente inanimado! Parece que o encontraram, acompanhado de uma minina, de madrugada, esticado no banco, todo encolhido no blusão negro, inerte, com a cara coberta da morte, voltada para as estrelas da Mealhada. Fiquei silenciado. Fui às capelas. Morrera…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei ao chefe do cabaré, que o conhecia e o considerava, se sabia se ele sofrera. — Não! Teve um choque violento, depois do embate, e ficou. Era o fim da alma. O chefe não sabia mais; nem sabiam os outros; nem o saberia talvez a acompanhante, que no momento do embate, perdera os sentidos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegámos à igreja. Ainda bem cedo. Mas, meu Deus, olhe! Ao fundo, à espera, à porta do velório, aqueles indivíduos concentrados na conversa, de voz baixa, com olhares furtivos… São os empregados da velha guarda! E trazem uma grande coroa de flores… De todas as casas da noite, chegam amigos e companheiros para o acompanhar à última morada e cobrirem de flores o seu amigo e companheiro. Mas, ó amigo, soubemos que, certamente, poucos o sabiam, que a minina que acompanhava o Jacinto Costa nessa noite, estaria grávida dele! Grande confusão, amigo! No meio de tudo isto, comentou-se muita coisa, mas o que valeu a pena trazer à sua última morada este brilhante Jacinto Costa, que era talvez muito mais que um boss da noite…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com efeito, está fresco… Mas que quente manhã!&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-7784069649317787366?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/7784069649317787366/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=7784069649317787366' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/7784069649317787366'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/7784069649317787366'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/07/contos-de-ratazana-jacinto-costa-quente.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-ZUMDhNn-kT8/TigUAqWrAWI/AAAAAAAAAQM/Wz_RwpRfmXI/s72-c/s.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-6531988808240286482</id><published>2011-06-25T12:37:00.000-07:00</published><updated>2011-06-25T12:50:51.623-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-5N4pA3BILvY/TgY7m2JxLFI/AAAAAAAAAQE/T1sg0lsWC-I/s1600/taxi_cartoon.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5622246723376196690" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 246px; CURSOR: hand; HEIGHT: 135px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-5N4pA3BILvY/TgY7m2JxLFI/AAAAAAAAAQE/T1sg0lsWC-I/s320/taxi_cartoon.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;__________________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;O MOTORISTA DE TAXI&lt;br /&gt;~~~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez um motorista de táxi, sexagenário e atrevido, empregador de um carro com imensos quilómetros em cidades e vilas, que partira a trabalhar por terras distantes, deixando abandonada e triste a sua mulher e três filhos, que ainda viviam na sua casa, em Gondomar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrela Norte que o vira abalar, levado no seu sonho de aventura e de dinheiro, começava a ruir — quando uma das suas conquistas amorosas apareceu, com a barriga cheia, grávida do calor ardente e duma cena tórrida, trazendo a boa nova de um bem abençoado e do nascimento do rebento, alcançado por muito amor à flor da pele, à volta dos pinhais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher chorou desoladamente a perda de casa do marido, que era jeitoso e alegre. Mas, sobretudo, chora ansiosamente o pai que assim deixava os filhos desconsolados, no meio de tantos problemas das suas difíceis situações e do futuro que seria incerto, sem uns braços fortes que os defendessem, e os encorajassem para a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desses problemas o mais penoso era a outra, amante jovem do marido, rapariga leviana e fraca, consumida de vícios novos, desejando só a boa vida por causa do seu tesouro, e que havia meses vivia numa casa sobre os pinhais, com um desarranjo de trapos, à maneira de uma loba que, dentro do seu poiso, guarda o tesouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! O tesouro agora era aquele bebé, dono da mama, senhor de tantos nadas, e que dormia no seu berço com o seu ursinho de plástico agarrado na mão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino dormia num berço de verga, filho da modesta e robusta mãe doméstica de vinte e oito anos que amamentava o seu tesouro. Tinha nascido num dia de Primavera. A mãe antes de adormecer, vinha fazer festas ao menino, que tinha o cabelo preto e fino. Os seus olhos reluziam como pedras brilhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela terra pequena de Cete, onde o motorista de táxi alugara uma casa, ela tinha a ilusão, a realização dos seus sonhos. Nenhum idílio correra mais depressa do que o seu pelo motorista de táxi à volta dos pinhais. O motorista de táxi, seu amante, estava agora a trabalhar numa outra postura, para lá da cidade, circulando também em aldeias e vilas. O seu carro de trabalho, um Mercedes de 1981, estava ainda aí para as curvas. Os novos clientes, que fosse angariando, prontamente iriam nessas aldeolas voltar a chamá-lo e a ouvir os seus maliciosos ditos. E ela por seu lado, não desejaria mais de que ver a luz a raiar na casa do seu homem, e tomar conta do menino, e ligar a televisão nos seus programas preferidos; era as novelas como os filmes, e ficava feliz na sua servidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto uma grande confusão reinava na casa, onde agora a despesa aumentara mais do dobro. O amante, o taxista passava de cavalo para burro viera para a aldeia com a sua experiência, e já através de alguns contactos ia vendo uma praça fraca de clientes assíduos e passageiros. Os comboios da vila tinham sido demasiados gulosos com os clientes. Nas posturas andavam menos passageiros. Um táxi não rola sem um passageiro. Toda a postura parecia um stand de carros abandonados. E a rapariga preguiçosa apenas sabia correr a cada momento ao encontro dos seus vizinhos e mostrar a eles a sua fraqueza de mãe solteira. E às vezes, parecia insegura — como se o serviço que estava debaixo da sua alçada fosse tarefas grandiosas que nenhuma coragem pode transpor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora uma noite, noite de trovão e chuvisco, vindo ele a chegar do trabalho, já exausto, entre os dois houve um chispe, maior que um curto-circuito e de briga, à entrada do quarto de banho. Enraivados um com o outro, atirando cá para fora tudo o que lhes saía pela boca, a relação estourou rotundamente. Depois houve um «vê se te mexes», e cada um foi para o seu lado. Puxou violentamente os cobertores da cama. E, lá no fundo do quarto, o bebé dormia, num sonho que o fazia iluminar, toda a face entre os seus cabelos negros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num relance, a mãe então, sem uma vacilação, tirou o tesouro do seu berço de verga — e embrulhou-o à pressa num xaile negro, entre um esgar de olhos desesperados, abalou velozmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O taxista dormia no seu sono pesado. A cama ficara fria no silêncio e no escuro. Mas sinais de alarme de repente tremeram a sua cabeça. Pela mente trespassou o curto vibrar das pulsações. Os suores ressoavam com o bater do coração. E desgrenhado, quase nu, o taxista invadiu a casa, entre os móveis, gritando pelo seu filho. Ao avistar o berço de verga, sem roupas, vazio, caiu num choro, destroçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois mais frio, mais calmo, ele compreendeu — a casa vazia, a rapariga doida indo embora, roubar o seu menino! Então, rapidamente, correu à cadeira onde as calças estacionavam, sacou o telemóvel, como se saca uma carteira, e falando com alguém no telemóvel, o taxista partiu à descoberta de seu filho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também ele sofria pelo seu menino! Quantas vezes, com o bebé agarrado ao colo, ele pensava na sua fragilidade, no seu longo crescimento, nos anos lentos que seriam antes que ele fosse ao menos do tamanho de chegar com os pés aos pedais, e naquela mãe imatura, de temperamento mais insosso que o lavado e coração mais insosso que o temperamento, faminta do repouso, e residente com os pais acima da sua antiga casa uns metros adiante! Pobre bebezinho de sua alma! Com uma ternura grande o imaginava entre os seus braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O taxista lá ia, irrequieto, remexido, devorando quilómetro a quilómetro, num pensamento que o fazia sorrir, lhe molhando todo o rosto, entre os seus cabelos desalinhados. Bruscamente, se acercou da porta da casa da rapariga e recuou, como que adivinhando ir armar grande banzé. Sabia perfeitamente que ia! Então voltou para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E passado momentos, a rapariga chegou a casa dos pais. Bateu à porta com um alívio, como cai um fardo de cima. Um choro abalou o chão de pedra. Era o bebé a chorar, o seu choro madrugador. Nos seus choros havia porém, mais sono que fome. O bebé então parara de chorar! Tocado, ao sentir, entre o mimo e a chupeta, embalado, pela mão forte da mãe, acordara, ele e o seu olhar maroto… — quando a mãe da rapariga, deslumbrada, com os olhos bem abertos, olhou o menino que despertara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um espanto, uma alegria, quando a mãe da rapariga ergueu o menino nos braços, manifestando a sua força hilariante, abraçou apaixonadamente o neto abençoado, e o beijou, e lhe chamou netinho do seu coração… E entre aquela caloria que se soltava ali, veio uma boa, desejada alegria, com promessas de que fosse ajudada, relativamente, a filha regressada para alimentar o seu bebé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não como podia ela sustentar um filho? Se não tinha um emprego? Então o velho pai lembrou que ela fosse levada ao tribunal de menores, e dissesse de entre outras coisas, que era uma mãe solteira, desempregada, e que esperava receber todos os subsídios que a lei confere…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rapariga tomou o caminho do pai. E sem que o seu rosto de branca perdesse a rigidez, com um andar de defunta, como num sonho, ela foi assim apresentar-se ao tribunal de menores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pais solteiros, mães solteiras, familiares, rode ganapada, lá estavam entre aquela multidão que se apertava na entrada. As altas portas do tribunal abriram lentamente. E, quando um funcionário, se assumiu à porta, de face vermelha, com montes de papelada, e chamou a rapariga e o motorista de táxi, todos os demais se remeteram ao silêncio durante segundos. Um grande «Ah!» voou da boca do taxista que respondera. Depois houve uma pausa, curta. E no meio da sala, envolta na mudez preciosa, a rapariga não dizia uma… Apenas os seus olhos, reluzentes e firmes, se tinham erguido para aquele funcionário que, além dos processos em suas mãos, era portador de determinações e decisões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era lá, nesses processos de foro conjugal que estava agora o destino do seu menino!... Então a rapariga sorriu e estendeu a mão a uma caneta. Todos seguiam, sem articular uma palavra, aquele lento movimento da sua mão a assinar o documento. Que assinatura grandiosa, que punhado de papeis, estava ela a assinar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O funcionário lia o processo — e a seguir ao ponto final parágrafo, entre uma recolha de testemunhos, revelou a decisão. Era uma decisão assinada pelo juiz a que conferia à mãe a tutela do bebé, a título provisório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motorista de táxi deixara de ouvir o fim da leitura, e com o semblante carregado de revolta, apontou para a parede, onde um quadro de uma velha balança, com dois pratos carregados de vários símbolos, e que simbolizavam os valores da lei, encarou a rapariga, o funcionário, e gritou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Dei-te o meu filho, e agora vou pagar-te o seu sustento e fico sem ele!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cavou as solas no chão.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-6531988808240286482?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/6531988808240286482/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=6531988808240286482' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/6531988808240286482'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/6531988808240286482'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/06/contos-de-ratazana-o-motorista-de-taxi.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-5N4pA3BILvY/TgY7m2JxLFI/AAAAAAAAAQE/T1sg0lsWC-I/s72-c/taxi_cartoon.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-8070353357298862866</id><published>2011-06-17T15:25:00.000-07:00</published><updated>2011-06-17T15:54:26.212-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-_vr5eFrxwl4/TfvZ_ycKswI/AAAAAAAAAP8/J2aWUFhl7_E/s1600/ITCA0O1JU5CAHTYV6TCAC9YZ7LCA1PB2I1CAEUAQF9CASZCBYCCAXSIPJXCAN7CU2BCAU8CCPVCAI3F1B2CADQE0AYCA033OG3CA7YMIK2CAPUX78QCA0J1LSFCAVG1FI7CAFURLOTCAKAVKUQCALTV62G.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5619324649969726210" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 165px; CURSOR: hand; HEIGHT: 202px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-_vr5eFrxwl4/TfvZ_ycKswI/AAAAAAAAAP8/J2aWUFhl7_E/s320/ITCA0O1JU5CAHTYV6TCAC9YZ7LCA1PB2I1CAEUAQF9CASZCBYCCAXSIPJXCAN7CU2BCAU8CCPVCAI3F1B2CADQE0AYCA033OG3CA7YMIK2CAPUX78QCA0J1LSFCAVG1FI7CAFURLOTCAKAVKUQCALTV62G.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O EMPREITEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho um precioso amigo (o seu nome é A. Jesus de Sousa) que me emprestadado um dia cinquenta contos, num cheque, para eu desenvolver o meu negócio de cervejaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi no tempo, onde me estabeleci, ali perto da zona do Marquês de Pombal, no Porto, investindo todas as minhas economias, para tentar a minha sorte, Jesus de Sousa fora sempre mais correcto e leal, que um companheiro de infância. Construía prédio de andares, grandes e pequenos, com uma rapidez impressionante, substituindo espaços velhos por bonitas habitações rodeadas de bons verdes e de boa localização, logo oferecia àqueles que as comprassem, um variado conjunto de acabamentos e de zonas de lazer, mais comodidade e facilidades do que a vida oferecia ao meu amigo Jesus de Sousa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não teve subsídios e não teve ajudas de ninguém. Nunca esmoreceu, mesmo no tempo em que se vê uma crise na Europa, os tormentos das prestações. Nos seus empreendimentos foi sempre bem tão sucedido como o feliz dos mortais. Da vida só experimentara o êxito — esse êxito que a vida invariavelmente partilha a quem o conquista, como os leões com ligeireza e valentia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambição, sentira somente a de entender bem as ideias gerais, e a «ponta do seu iceberg» (como diz o tradicional Zé-Povinho) não estava ainda a meio do percurso… E contudo, desde os trinta e picos anos, Jesus de Sousa já se tinha distanciado de outros empreiteiros menores, e duas, três vezes por dia, suava, com um suor escorregado e lento, passando os dedos grossos sobre os cabelos compridos loiros, como se neles só apalpasse segurança e riqueza. Porquê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era ele, dos empreiteiros que conheci, era aquele o mais simples e amigalhaço que se munira de mais quantidade de obras em pré-início e terminação. Nesse último empreendimento (situado na rua de Gondarém) que ele construíra sobre uma velha moradia do século XX, assoalhada a carvalho e branqueada a azulejo branco — havia, penso eu, tudo quanto uma família opte pelo descanso e pela paz de espírito. A praia — que em duas caminhadas de trinta passos, largos e compassados, circulando a rua desde os passeios até ao areal, donde se deslumbrava o sol e o mar que, reflectiam uma atmosfera brilhante e calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tarde que eu desejava apresentar um amigo engenheiro negro interessado em investir, percorri, em busca deste empreiteiro ao longo das construções, dezoito quilómetros de ruas! Assim se achava fortemente abrigado o meu amigo Jesus de Sousa, de tantas obras essenciais para o desenvolvimento económico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o único entrave destes grandes empreendimentos era que todo aquele que lá entrava, inevitavelmente lá não sairia limpo, por causa dos materiais que, provinham de diversos sítios ainda alguns em fase descoberta de janelas ou portas. No fundo, o que interessava mesmo era encontrar Jesus de Sousa, e lá fomos dar com ele ao seu posto de trabalho, na rua do Crasto, sentado numa cadeira-secretária em fina prancha móvel, e em torno dela prendiam imensos apontamentos de papel que, atados a clipes de plástico cor de torrado e cor de areia, pareciam pontos de referência e suspensos numa linha horizontal de tijolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca recordo sem pasmo o seu posto de trabalho, repleto todo de pequenos utensílios de escritório para variadas funções! Uns dossiers de várias páginas para escrever; e largas folhas de papel vegetal em que estava desenhado a planta do empreendimento para servir de guia aos promitentes interessados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que, porém, mais me chamou a atenção àquele posto de trabalho, eram os inúmeros telefonemas recebidos. Constantemente sons curtos e secos emitiam no ar quente daquele piso. Trrim, trrim, trrim!... Era o meu amigo atendendo. Numerosos fios enrolados que atravessavam pelo chão e pelas paredes e nem sempre, infelizmente, se comportavam seguros e eficazes! Jesus de Sousa reconhecera do outro lado do fio a voz do angariador predial, um parceiro estimado, e no momento de o despachar, exclamou com firmeza e autoridade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, numa abençoada paragem das comunicações, o meu amigo engenheiro, querendo já sinalizar três ou mais fracções orientado pela planta topográfica, desejou saber valores imediatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, hábil ou cauteloso, certamente desinteressado de vender nesta fase — porque de repente o meu amigo empreiteiro começa a inventar, sem lógica, valores indetermináveis. Baralha-nos, e retiramo-nos para uma sala do piso abaixo, completamente revestida de acabamentos de primeira, que servia de modelo. E de novo a voz de Jesus de Sousa entoou, entre os adornos dos acabamentos, majestosa e sonora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abalamos para a rua, apertando afincadamente os lábios para nos conter, e sacudimos em vão o pó sobre os fatos. Mesmo à saída, onde nos despedimos, a voz rouquejara, empastada mas sonora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Maravilhosa construção! Quem não quererá morar num andar destes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos acelerados para o carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era de tarde. Um fresco rosto de rapariga, de volta do carro das castanhas, passava exclamando com um cartucho de castanhas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São quentes e boas&lt;br /&gt;As castanhas da Lurdes Canoa…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus de Sousa, respirando o ar tardio, esfregava os olhos da lenta sonolência. Apareceu no bar, com o sol já pirado. Muito devagar abriu a porta, como no medo dela cair para o chão. Logo que ele se sentou, servi umas águas minerais e fui dar um arranjo para o jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem me despachei lesto para arranjar a sala de jantar, num preparo simples e íntimo. À mesa só cabiam as camareiras do bar, e amigos como Jesus de Sousa que o bar acolhia no critério da amizade. Realizavam-se ali diariamente jantares que, pela sua versatilidade, lembravam os de Robim dos Bosques. Ao fim da garfada, ouviam-se histórias rocambolescas que cada uma das camareiras contava em forma de entretenimento. E cada uma camareira tornava-se desejosa por conhecer as histórias umas das outras. Assim tornou-se um serão de bom humor e riso. E de convidados havia sempre no repasto uma curiosidade em ver, quem era o senhor presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sala, um logradouro forrado a chapa de alumínio, possuía um toldo rolando na manivela, paredes pintadas a branco e ao centro brilhava uma mesa comprida de forma, toda branca e cadeiras da mesma tonalidade, que a tornava convidativa às tertúlias e repastos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cozinheira, ex-camareira Mara, era daquelas que não aprendera nos livros o segredo da cozinha, mas que sabia como ninguém a arte divina de «temperar e servir a Goela»; e na sala de jantar, os amigos da casa não havia quem não votasse na cozinheira Mara, para as suas comezainas. A sua sopa de agriões e ovas de pato, os seus filetes de carapau com puré de frutos secos, os seus morangos em calda de velho Porto, e vinho de tigela de barro. Tal menu dessa cozinheira extraordinária parecia, pela apresentação, pela graça dos arranjos das travessas, pelo sabor dos paladares, uma jóia combinada dos grandes mestres da culinária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas noites, eu fotografei e escrevi em Contos de Ratazana aqueles serões de convívio de excelentes histórias, antes que elas enchessem o saco! E esta abençoada hora do comer condizia deliciosamente com a do beber. Por sobre uma toalha de pano castanho, mais curta do que o tamanho da mesa, conversavam, como pitos no aquário, seis camareiras e um porteiro gordo, em alegre confraternização. Os pratos vinham da cozinha pela mão da cozinheira fumegando a olhos vistos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se bem me lembro de uma segunda-feira de Abril em que, jantando com Jesus de Sousa um vendedor, o novato vendedor da Predial, a espinha encravou no meio da garganta, sendo preciso que o acudissem, para a extrair, com meia dúzia de cachaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas tardes em que havia «jantares de Robim dos Bosques» (que assim denominei essas tertúlias de convívio salutar), eu, dono e amigo, aparecia ao inicio e deixava-me lá ficar até ser rendido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o meu amigo Jesus de Sousa, chegado na sua roupa secundária, se acercava da sua obra, abria com força uma porta da arrecadação e começava…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começava pelos materiais… Com um bloco de folhas e um lápis grosso e aguçado, contava as faltas e as saídas, nas prateleiras, aos bidões, e latas pequenas… Respirava e pensava. Depois, com uma vara de longo alcance, fixava a altura dos mosaicos e contabilizava coisas de menor monta. E a partir de aqui Jesus de Sousa ficava diante da obra, esperando pelos seus operários, durante quinze minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preparado e fresco, ia alimentar o estômago. Voltava para o seu posto de trabalho logo depois. Dois operários, ao centro, manobravam com mestria e rigor os guindastes da obra — que era apenas um começo dos alicerces monumentais da obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca eu, para dar um recado, entrei naquela obra sem palco — nagado da manhã cinzenta de Março em que inesperadamente, soltou-se o cano, a força de cimento a cem à hora voou, silvando e fumegando, avassalador… Fugimos todos, apavorados. Um protesto abalou na obra. O veterano trolha, empregado que era mestre de trolha de Jesus de Sousa, ficou borrado de bocados de cimento nas faces, nas mãos vagas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Jesus de Sousa acabava de se arranjar cuidadosamente para mudar de circulação, corava, com um corar reluzente e veloz. E era este corar, rosado e vistoso, que nos regozijava a nós, seus amigos e empregados. Nada faltava a este homem bom. Ele respirava saúde de ferro, crescido nas obras; uma luz da sabedoria, pronta a tudo iluminar, firme e sem tremer; Meia dúzia de magníficos negócios; todas as admirações duma classe invejosa e caduca; uma vida saída de pesadelos, mais solta e bela do que uma rosa de estufa…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E contudo corava constantemente, apalpava a cara, com os dedos grossos, a rigidez e as bochechas. Aos trinta e picos anos Jesus de Sousa arredondava, como sob um balão justo! E pela rápida energia de toda a sua acção parecia ligado, desde a cabeça até aos pés, pelas malhas soltas duma situação que se não via e que o puxava. Era enternecedor testemunhar a vontade com que ele, para aceitar um pedido, mesmo nos seus momentos difíceis, se sentia forte e encorajador, e bradava com o que lhe ia na alma: «A sorte seja servida! A sorte seja servida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claramente a vida para Jesus de Sousa era uma alegria — ou por trabalhosa e fácil, ou por interesse e fértil. Por isso o meu bom amigo procurava firmemente juntar à sua vida novos fascínios, novos interesses. Um borracho, uma moça de muita fibra e simpatia, estava empregada no bar e enamorada dele, dava-lhe todas as chances dele avançar com o romance. De resto, ele próprio se batia por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, pelo lado do pensamento, Jesus de Sousa não escusava também de ir buscar interesses e emoções que o fortalecessem com a vida — circulando à cata desses interesse e dessas emoções, pelas zonas mais desmistificadas do prazer, a ponto de beber, desde Fevereiro a Abril, setenta e quatro uísques de reconhecida qualidade. E era então que ele se privava com alguma liberdade, no recanto do bar, nas horas de conversa que ele tirava, porque dizia que quanto mais se sabe, mais se pensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora justamente a partir desse Inverno, em que ele se empenhara na conquista da amizade e focara o olhar no alvo do seu zoom, foi que Jesus de Sousa conheceu Gilda, a moça de muita fibra e simpatia, e foi com demasiada afeição que ele se preparou, durante cinco semanas, para esta grande aventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus de Sousa logo nos princípios de Abril, conversara demoradamente com Gilda, que morava num quarto de uma hospedaria, incentivando-lhe que alugasse um apartamento, saísse do bar, enveredasse por outro viver. Depois disso tratado, mandou decorar por empresas rápidas, os móveis e outros equipamentos precisos, que proporcionassem todos os confortos necessários. Por fim, partiram numa manhã e tiraram duas semanas de campo para restabelecer forças para a fase seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três semanas antes jantara ele com Gilda e mais as empregadas do bar. Nessa noite ouvira a história de Zi sobre o namorado que ela contava de uma maneira original e bairrista, «que quanto mais pesava o namorado, mais ela se encavalitava por cima dele, e por ter menos sessenta quilos, obtinha todos os gozos possíveis e deliciosos…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gargalhada era tanto como a graça… Dizer os palavrões pelos nomes, não era para todos. Nem creio mesmo que fosse para o amigo Jesus de Sousa. Mas para Zi, aquilo era tão banal e tão simples… Jesus de Sousa à frente, na altura do copo, murmurava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ah! que moça!&lt;br /&gt;Eu ao lado, na cadeira, com as pernas tesas, murmurava:&lt;br /&gt;— Ah! que moça!&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por entre estes «Ahs!» extraordinários, trocamos a sala pelo bar, que nos pareceu confortável e quente. Atirando uma expressão à inglesa para o ar, o porteiro Neves, com o seu Moby Dick na mão, gritava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;— Here, it is!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Depois do jantar a música calma dos Beatles havia embalado para uns momentos agradáveis. E mal Jesus de Sousa se sentou, eu levei-lhe um uísque dos seus, no momento que correu para nós, da entrada do bar, um indivíduo de cabelos esbranquiçados, rápido como uma lebre, com fato e gravata, que erguia para o ar, numa admiração, os braços arqueados. Era o imobiliário, Manuel Costa. E logo ali, nos sofás castanhos, entre o som do ambiente, surgia uma oportunidade de negócio que o bom Costa tentava, sereno, e que enchia o rosto de Jesus de Sousa de corado e de resignação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O imobiliário, Manuel Costa, não esperava tal dificuldade. E andava desde a semana, a tratar de encontrar Jesus de Sousa porque tinha na sua agenda uma proposta para a compra de umas lojas comerciais. E infelizmente para ele, as lojas ainda estavam sem preço, e as vendas sem autorização… Cruzou os braços, num rápido espanto, e fechava os olhos pequenos, onde já dançavam números. E na sua moderação, Manuel Costa procurava entre o não e o sim, ganhar o exclusivo para as próximas vendas… Os preços? Não, não tinha os preços!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que a namorada de Jesus de Sousa (que trouxera a amiga e agora vizinha) se acercou, e logo o fez sorrir à mesa. Já quando as tinha servido duas taças de sumo e aperitivos secos, o imobiliário, resignado, via assim a conversa interrompida, por interferência das duas jovens. Por isso ele, educado, sem perder a fibra, saíra da mesa — e lá os deixara em sintonia, a sós, embrulhados nos mimos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manuel Costa estava plantado em frente de mim, com as mãos no casaco:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Como é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada restava senão acabar de beber, comer os aperitivos do bar, e dar com as pestanas a bater nas meninas do bar. Falamos, sobretudo, onde havia temas para animar o espírito — quando Manuel Costa foi buscar uma menina de companhia, e veio me avisar que «estava preparando para dar uma &lt;em&gt;riparada&lt;/em&gt; na sua mademoiselle…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltamos ao balcão, Com estas consoantes de copo e cama, lá abarcou acasalado, e levantou para mim um sorriso, murmurando com interrogação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vou bem?&lt;br /&gt;Eu respondi:&lt;br /&gt;— Vais óptimo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ensaio, o ilustre imobiliário apalpou a sua presa e sentiu nela a rigidez dum rochedo. Depois, correndo com ela num impulso louco de desejo, sumiu-se para fora do bar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tarde, de madrugada, sem rumo, para não adormecer Jesus de Sousa, que, com as mãos sobre o volante do seu Jaguar, sentia impacientemente no seu coração de doçura, a ausência de Gilda. Partimos à sua procura. E durante quatro mexidas horas, por aqueles locais, onde se instalam os vícios e os prazeres imediatos, não demos com ela, que decerto fugira dos seus hábitos e mergulhara no escuro da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, descendo por umas ruas mal amanhadas de Monte dos Burgos, de novo trilhámos a rua principal, e fui bater à porta daquela hospedaria onde ela se encontrava, mas ninguém deu qualquer indicação. Assim, esperamos dentro do carro, entre o furioso latir dos jecos (cães). Por fim, a namorada de Jesus de Sousa apareceu alvoraçada a apear-se do táxi. E a sua deixa foi logo que o meu amigo Jesus de Sousa tinha andado lá nas gajas dos copos com os amigos nos bares do Porto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Então, onde é que te meteste, Jesus de Sousa?&lt;br /&gt;— E tu, onde é que te meteste, Gilda?&lt;br /&gt;— Andei à tua pergunta?&lt;br /&gt;— Eu também!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas que confusão! O meu amigo Jesus de Sousa estava, enfim, povoado de censuras! Assisti impávido. Ambos ralhavam e ninguém se entendia. No palco do asfalto, onde o escuro fora juiz, já não bastava as palavras ternas para resfriar os ânimos — dizia com elas duramente da boca para fora… Onde fui eu? Era uma interrogação. E tudo o que ela contou, atirando aereamente com os desabafos para o ar, foi que se sentira, ao fim de dois dias no quarto sozinha, como abandonada, mandara vir umas cassetes de vídeo, vira cinco filmes nunca terminados, e ali estava…&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Por onde andaste?&lt;br /&gt;— Sei por onde andei! E agora, minha querida, vem fazer uns mimos que eu desejei, e compreende enfim o que é o Amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E envolvido naquele turbilhão de linguado remoto, acabei por me esticar na cadeira confortável do carro, fechei instantaneamente os olhos, murmurando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizardo Jesus de Sousa!&lt;br /&gt;O amor é louco…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já mesmo arrebentado adormecera sobre o abençoado banco de trás, quando me despertou um impulso amigo. Era Jesus de Sousa. E imediatamente o comparei a uma sentinela meio tesa e envolvida no escuro, que fora profundamente acordada e rodopiara em pleno sol. Não corava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tarde, iniciada a confusão, apareceram vários clientes da província, para tomar uns copos, e ver umas trutas que eu saquei. Jesus de Sousa estava diante de mim a contemplar as garrafas expostas. Com a mão aberta e forte batia no tampo do balcão, como nas costas de amigos adormecidos. Depois de uma bebida dobrada, apeteceu-lhe um prego em pão, a que a cozinheira Mara teria confeccionado um especial mesmo de carne de primeira escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que espanto, a carne é deliciosa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversamos sobre a Sorte e o Sucesso. Eu citei, com discreta ironia, Ferreira dos Santos e a Nova Gaia… Logo Jesus de Sousa ergueu a cabeça, com seguro apoio. A sua admiração nesses dois colossos da construção aparecera, e consequentemente, sem querer mais acrescentar, como uma brisa que o ar espalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Variou de tema. Contou que o caso da noite passada, não se passara mais de que uma pequena birra. Mas bastava que um homem fizesse umas festas, para ver que as reacções e os conflitos, logo desapareciam. No amor tudo vive — e só quem sente a dor, conhece a desilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu escutava-o com discrição, este Jesus de Sousa refinado. Era francamente um postal no magnífico estilo de homem bom. Quando recolhi à minha cama, àquelas horas boas que convém ao corpo e ao Espírito, pensei em mim que ele enfim alcançara a verdadeira tranquilidade, porque possuía a verdadeira estabilidade, gritei-lhe os meus congratulations à maneira do actor de A Volta ao Mundo em 80 Dias:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viva a Felicidade, amigo Jesus de Sousa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí a momento, através do sonho que nos englobava, ouvi uma gargalhada alta e consolada. Era Jesus de Sousa que lia O que hoje ainda se deve fazer: uma rapidinha. Oh bom Jesus de Sousa! Começava a aprender o dom divino de rir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantos anos vão passados. Quase trinta anos. Jesus de Sousa já não habita na sua morada. As paredes do seu repouso agora são outras, bem mais diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Verão veste uns calções e apanha uns banhos de sol. Com a sua admirável pachorra, já leu o Camões. Não vai a restaurantes. Nos passeios matinais, pára e assobia aos cães. Todos os clientes do antigamente o estimam. Na sua relação com Gilda (que já não existe), nasceu um filho que mantém laços de amizade. Ouço que se vai aposentar com uma boa, gorda e bela pensão social. Decerto viverá dali numa mansão, que será protegida do Senhor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu, ainda há pouco tempo, andei a basculhar a sua nova morada, fui depois destes trinta anos, ao bar, que já o trespassei. Cada passo meu sobre os coçados mármores de castanho e branco soou melancólico como num funeral de mortos. Todos os amigalhaços estavam reformados dos vícios, fugidos. Emanara dali um ambiente novo de caras desconhecidas — e eu parti, com a mão apoiada no queixo, certo de que naquelas centenas de objectos oferecidos ao bar pelos clientes nas suas viagens, não estavam mais de metade deles no activo! E, como esfriava nessa tarde de Outubro, tive de vir para casa, pedir ao fogão de sala que me aquecesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao descer a rua da Constituição, entrei no escritório de vendas de Manuel Costa e não dei com ele. Atendeu-me a empregada do contencioso e reparei num monte de projectos, pastas de arquivo, computadores, impressoras, fax, plantas topográficas, secretárias… Empurrei com a mão o oleado que tapava a máquina de escrever, cansada dos seus escritos, com o teclado universal iniciando as letras azerth, era ainda uma relíquia decorativa e estimada. E ali jaziam, tão seguros e confortáveis, aquelas boas invenções, que eu abalei sorrindo, daquele pequeno mini gabinete imobiliário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O frio de Outubro parara: os vidros remotos da cidade embaciavam sobre um poente de creme. E, através dos passeios mais amenos, eu ia pensando que afinal esta vida dá muita volta, e que muitos homens, com uma profundidade mais profunda do que é a Volta, fariam como eu, com a pedra no charco da sociedade, e, como eu, sorririam alegremente da grande quimera que findara, no termo e coberta de lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquela hora, certamente, Jesus de Sousa, no jardim da sua mansão em Foz do Douro, sem cadeira-secretária e sem apontamentos de papel atados a clipes de plástico, reentrado na harmonia, via, sob a tranquilidade serena da manhã, ao reluzir do pôr-do-sol, a maré bazar entre o canto das gaivotas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-8070353357298862866?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/8070353357298862866/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=8070353357298862866' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/8070353357298862866'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/8070353357298862866'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/06/contos-de-ratazana-o-empreiteiro-eu.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-_vr5eFrxwl4/TfvZ_ycKswI/AAAAAAAAAP8/J2aWUFhl7_E/s72-c/ITCA0O1JU5CAHTYV6TCAC9YZ7LCA1PB2I1CAEUAQF9CASZCBYCCAXSIPJXCAN7CU2BCAU8CCPVCAI3F1B2CADQE0AYCA033OG3CA7YMIK2CAPUX78QCA0J1LSFCAVG1FI7CAFURLOTCAKAVKUQCALTV62G.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-217143036827117753</id><published>2011-05-28T15:12:00.000-07:00</published><updated>2011-05-28T15:42:24.099-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-8CVffBWz_bE/TeF50jV6shI/AAAAAAAAAPo/1Eg0MSv5DiA/s1600/office_cartoon_flirting.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5611900554427675154" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 208px; CURSOR: hand; HEIGHT: 238px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-8CVffBWz_bE/TeF50jV6shI/AAAAAAAAAPo/1Eg0MSv5DiA/s320/office_cartoon_flirting.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NO BAR (1)&lt;br /&gt;~~~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabelinha era vista em todo a rua como «uma menina-fina». O senhor João, dono do Café, sempre que se falava nela, dizia de sua justiça, acariciando com respeito uma madeixa de cabelos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É uma jóia! É o que ela é!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rua tinha quase vaidade no seu encanto formoso e enternecedor; era uma branca, de perfil fino, e os olhos escuros de um tom de castanho, e dumas pestanas finas que escureciam mais o brilho fundo e doce. Tinha saído de casa e morava agora numa outra rua, num quarto alugado numa residencial de três estrelas; e era, para a gente que aos fins das tardes ia fazer as palavras cruzadas até ao bar, um desejo sempre novo vê-la por trás de uma mesa, sentada sobre a sua saia, de cor cinza, absorvida e sossegada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas vezes faltava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bar, interiormente, parecia alegre. Falava-se em tons baixos, porque o dono, nas mudanças que efectuara que lhe davam as ideias, elogiava-se de que assim o ruído era menor; havia sobre as prateleiras envidraçadas uma quantidade de garrafas de diversas bebidas, um balde de gelo, timbrado a letras de marca; algumas tabelas de preços que ornavam as mesas com tampos de vidro, um ar sempre renovado por conta do aparelho ao fundo da sala; e era uma alegria ver algumas vezes meia sala cheia de clientes, ou em volta do balcão, agrupados em conversa com os copos nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isabelinha fugira de casa, tinha dezoito anos. Mesmo em criança, em casa dos pais, a sua existência fora atribulada. Os pais eram umas criaturas conservadoras e rigorosas, que se empenharam por uma disciplina culta e cumpridora. E quando pediam à filha para voltar, apesar da acalmia já, ela não voltou, sem explicação, quase como uma despedida, para salvar a liberdade que adquiriu, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam enervar, saindo pela porta da casa onde antes tinha entrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não amava os pais decerto; e mesmo na rua tinha-se lamentado que aquela linda figura de anjo, aquele rosto de fada, fosse cavar por outro caminho que não fosse o mais correcto. Mas aquela família que lhe vinha no sangue, aquelas criaturas inconstantes, que depois pareciam cair-lhe nas mãos, apesar dos seus modos pacíficos, cansavam-na. Às vezes, só, fazendo as suas palavras cruzadas, passavam-lhe as ideias pela mente: uma rebeldia da mocidade invadia-a, como uma chama que lhe fortalecia a alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem cor-de-rosa e bem folclore. Sempre quisera desde moça uma curiosidade, um desejo, um capricho: tudo a entusiasmava na Terra desde as horas das discotecas e o convite dos seus amigos. Todo o prazer lhe era gostoso quando era para se passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de irrequieta, passeava horas fazendo os Passatempos, que era o mais relaxante, com o tempo que perdia com os seus inúmeros jogos ficava calma. Durante as saídas para as discotecas, não chegava antes da manhã romper, deitando-se sobre a cama, lendo, ouvindo música até cair em sono pegado. De tarde estava um pouco mais branca, mas toda pronta na sua saia cinza, mexida, com os sapatos bem engraxados, compondo-se bonita para ir dar os vistaços do costume ao café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua única ocupação era à tarde sentar-se à mesa com o seu livrinho de jogos, e a clientela em roda, alinhando nas suas conversas, falando alegremente, bebendo os copos que lhe davam percentagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendo-a assim tão espevitada e tão declarada, algumas mulheres da sua rua afirmavam que ela era ajuizada: todavia ninguém a avistava de dia, excepto ao domingo, com a visita à oficina do pai ou à casa da madrinha, toda senhoril no seu vestido de bolinhas vermelhas. Na verdade, o seu dever limitava-se a esta visita de duas em duas semanas. O seu modo de vida ocupava-a muito para se&lt;br /&gt;deixar invadir pelas preocupações da família; naquele dever de má filha, cumprido sem amor, tinha descoberto uma nova satisfação suficiente à sua sensibilidade; não necessitava rogar aos Céus, ou enternecer-se com os seus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso nunca tivera estes sentimentalismos de alma chorona que levam ao dever. A sua nova experiência de se tornar independente, de ser ela o centro de comando, o amparo de si própria tornara-a doce, mas realista: e assim era ela que administrava agora as suas economias, com o senso que a situação exigia, uma solicitude de rapariga dotada. Tal ocupação bastava para entreter o seu dia-a-dia: ela, de resto, detestava fazer visitas, a conversa de coisas pessoais, as revelações de confidências; e passavam-se semanas sem que em casa de Isabelinha se ouvisse outro desabafo estranho ao telefone, que não fosse o do pai — que a adorava, e que dizia para ela com a voz roufenha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Volta minha jóia! Volta minha jóia!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim grande o escândalo, quando os pais de Isabelinha receberam uma notícia dum vizinho, que lhe informou que a quinhentos metros dali da rua, a sua filha era vista num bar de alternos. O bar era uma casa célebre, e a sua clientela era da melhor casta que há de noctívagos. Viajara muita clientela mesmo de Lisboa, só para conhecer o seu habitat e as meninas de companhia. O bar era um ponto de encontro: e o seu nome, «Lord», um toque de inglês, expressado a bom estilo, consagrara-o como um pioneiro. A sua fama, que passara até outras fronteiras, num rótulo de publicidade, apresentava-o como uma paragem obrigatória da cidade do Porto, preferido das bonitonas, sumptuoso e fascinante, destinado a uma alta burguesia na cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais ficaram chocados com esta notícia. Viam já a sua filha em confusão na presença de um ambiente daqueles. Depois o contacto daqueles mundanos, com as suas máquinas topo de gama, o cheiro dos seus perfumes, as suas histórias de bons, no barulho ruidoso de um bar, davam-lhe a impressão assustadora de uma perdição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por isso uma surpresa, quase um reconhecimento aos Céus, quando Isabelinha visitou os pais, e muito à-vontade se serviu do frigorífico para tirar um copo de leite fresco e beber… Depois comentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu tenho os meus desejos, vocês tem os vossos… Não nos vamos chatear, ah?... O que faço é vir cá visitar-vos. De resto, não estou mal como estou… Estou num bar onde as pessoas são amigas e deliciosas… E ficamos por aqui, ok?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais de Isabelinha olhavam-na assombrados: aquela única filha, aquela cara de anjo por quem choraram tanto, aquela inocente que os bares cobiçavam, era uma rapariga extremamente ingrata — muito mais confusa, mais melindrosa que o que eles pensavam! Nem uma palavra disse mais, cavando dali silenciosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O serviço do bar era interessante. Era um local de convívio, digno de um bom &lt;em&gt;vivant,&lt;/em&gt; sobretudo a partir da tarde em que os clientes lá iam, com a pança bem agasalhada, os corpos esticados no meio dos sofás, e todo o género de piropos de conquista fácil, iludindo, cantadas entre os copos e os apalpões, deixando no ar a fria da ilusão, da aventura, donde saíam as cantadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bar ficava num rés-do-chão dum prédio baixo, com a sua velha fachada de vidro espelhado, a sua porta de ferro alta, cor castanha, rodeada de casas comerciais, situado sobre a zona alta da cidade. Isabelinha achou o bar de Fernando digno dum poema de Luís de Camões, e talvez por isso, se tenha encantado. Como ela veio um pouco mais cedo, não se quis sentar, antes quis ficar de pé, beber um drink, ali no balcão… Fernando serviu-a:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu só queria uma pedra de gelo sobre o bourbon, por favor!&lt;br /&gt;— Mas que pedal, menina! — exclamou Fernando admirado. — Um anjo que entende de bebidas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez na sua vida Isabelinha corou com a palavra de um homem. De resto tomou logo a iniciativa de lhe tirar as medidas… Nem alto era: e com o seu bigode cheio sobre uma face magra e morena, a camisa alaranjada de meia manga cobrindo a cintura num corpo elegante e pequeno, as suas mãos oradas, parecia-lhe a ela um dos ourives de lojas que às vezes encontrava, quando uma vez por outra ia visitar as ourivesarias no centro da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso não dava bocas; e a primeira vez que veio servir à mesa onde ela se encontrava com o cliente, falou apenas, com grande exuberância, do seu negócio. Falara para ele. Do início do bar, o único bem que possuía, que não desejava além disso trespassá-lo… O que ele desejava era aumentá-lo. E isso parecia-lhe a ele não ser tão difícil como andar na lua!… E vibrava sinceramente ver o bar agora, aumentar dia-a-dia, com a ajuda de todos a dar os seus contributos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro fim-de-semana Fernando foi fazer compras e achava-se perto da residencial da Rua da Constituição, e era um dia de Janeiro húmido e cinzento, e ele vinha a pé com duas sacas de compras, da lista das suas faltas para o serviço. Foi por isso, com grande alegria, que ela viu Fernando a acenar-lhe do outro lado da rua, e chamá-la com um sorriso aberto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não queres vir tomar um café comigo?&lt;br /&gt;— Por que hei-de dizer que não? — disse ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao princípio, acanhada por aquela companhia de um rato, a boa miúda caminhava junto dele com o ar de um rouxinol assustado: apesar de ele ser mais velho e ser uma pessoa tão simples, havia na sua figura vigorosa e seca, no timbre típico da sua pronúncia, nos seus olhos castanhos e vivos alguma coisa de dominante, que a envolvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À entrada para o café, como ele se deixara ficar para trás para lhe dar a prioridade, o contacto daquela mão branca e forte de artista da noite, nas suas costas motivou-a extraordinariamente. Instalaram-se numa mesa do centro e o empregado trouxe dois cafés — e a conversa de Fernando foi lenta e divertida ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parecia solidário daquele problema dela. Deu-lhe uns bons conselhos: o que os pais necessitavam era carinho, amor, uma outra atitude que aquele isolamento de comunicação…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela também assim o julgava: mas quê!, os duros pais, sempre que se lhe falava de ir passar algumas horas à discoteca, passavam-se logo dos carris: tinham horror às noitadas e às ramadas: a Noite escura fazia-os quase desmaiarem; tornaram-se uns seres postiços, escondidos entre as paredes da casa…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele então sossegou-a. Decerto deveria haver alguma maneira do caso se tentar resolver… Mas enfim, ela devia saber bem o caminho que desejava seguir além daquelas duas paredes, empastadas do cheiro do vício…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que hei-de eu querer mais? — disse ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando calou-se: pareceu-lhe anedótico pensar que ela desejasse, realmente, o Príncipe de Gales ou o Rei da Malásia… Já ele pensava diferente, pensava noutros apetites, nos desejos do coração insatisfeito… Mas isto pareceu-lhe tão inoportuno de dizer àquela criatura inocente e pura — que falou do ambiente…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Já vai para o bar? — perguntou-lhe ela.&lt;br /&gt;— Tenho de acabar o resto das compras, se quiseres ir para lá, só demoro um pouco, menina.&lt;br /&gt;— Vou-me arranjar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram de se reencontrar nesse esconderijo de ilusão, que era a aventura do bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No café, a pequena conversa entre ambos criou uma aproximação maior entre Fernando e Isabelinha. Aquele contacto, que ela curtia com uma habilidade de estudante, colocava entre eles como que um interesse mútuo. Ela falou-lhe já sem muitas reservas quando voltaram. Havia nas atenções dele, dum respeito honesto, uma atracção que a sua mágoa a levava a revelar-se, a oferecer-lhe a sua confiança: nunca se abrira tanto a ninguém. De resto as suas queixas eram sobre a mesma mágoa — a tristeza do seu interior, as divergências familiares, tantas coisas por fazer... E vinha-lhe por ele uma nutrição, como um secreto desejo de o ter sempre ao seu lado, desde que ele se tornava assim confidente das suas mágoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernando voltou para o bar, impressionado, fascinado por aquela miudinha tão só e tão meiga. Tudo nela rimava agradavelmente: o negro do cabelo, a doçura da voz, a simplicidade no trato, e a linha elegante do seu corpo davam uma sedução: era um anjo que vivia há muito tempo numa gaiola fechada e estava por isso atado às trivialidades de família: mas bastaria um bufo para o fazer chegar aos planaltos da lua…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achava disparate e grosseiro fazer a corte à miúda… Mas irreflectidamente pensava no formidável prazer de fazer badalar aquele coração que não estava viciado pelo vício, e de pôr enfim os seus lábios numa boca onde não houvesse batom… E o que o puxava além disso era pensar que poderia percorrer toda a terra em Portugal, sem encontrar nem aquele lindo rosto, nem aquela virgindade de coração ignorado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma oportunidade que não voltava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No bar o ambiente era frenético. Depois de Fernando descarregar o conteúdo das sacas nos frigoríficos, voltara-se para a cozinha, que estava cheia de copos sujos: e ali ficara um momento calado, no canto daquele espaço parado e silencioso, quando Isabelinha entrou e pediu um copo de água. Fernando via-a de perfil, um pouco inclinada, tirando duas do cigarro que a cinza invadia o cinzeiro: era amorosa assim, tão fina, tão terna, duma linha tão delgada sobre o fundo branco da esferovite: o seu modo de vestir era de bom gosto, a sua descontracção tão moderna, mas ele considerava isso uma ingenuidade apimentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio das vozes em redor isolava-os — e, energicamente, ele começou a falar-lhe alto. Era ainda a mesma conversa pelo abatimento profundo da sua vida naquele patamar, pelo seu fado de alternadeira… Ela escutava-o de olhos nos olhos, animada de se deixar estar ali a ouvir aquele homem tão experiente, toda atenciosa e achando um agradável sabor à sua atenção… Houve uma altura em que ele falou do bom que era ela ficar ali para sempre no bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ficar sempre? Para quê — perguntou ela, sorrindo.&lt;br /&gt;— Para isto, para estares sempre ao pé de mim…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela cobriu-se de um calor, o cigarro comprido e fino escapou-lhe das mãos. Fernando receou ter-se esticado, e acrescentou logo aquecendo as mãos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Então não era divertido?... Eu podia fazer-te empregada de mesas, pôr-te ao balcão… Tu havias de me atrair muita clientela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso fê-la dar uma gargalhada; Era mais bonita quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, o sorriso, o brilho dos olhos. Ele continuou gracejando, com a sua ideia de a fazer empregada de mesas, e de a ver ao balcão, cheio de gente a consumir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E eu venho de minissaia, patrão! — disse ela, contente pela sua própria gargalhada, pelo contágio daquele homem à sua beira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vens mesmo? — exclamou ele. — Juro-te que te faço empregada de mesas! Que giro, nós aqui dentro do balcão, ganhando alegremente as nossas vidas, e ouvindo as bocas destes fregueses!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela corou outra vez. O fervor que recebeu da voz dele, fê-la recuar como se ele fosse já prepará-la para a função. Mas Fernando agora, agarrado àquele plano, moldava-lhe na sua pintura colorida todo um romance principesco, de uma felicidade sem par, naquele esconderijo de ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de repente, sem que ela opusesse, prendeu-a contra o peito e beijou-a nos lábios, um beijo ardente e prolongado. Ela tinha ficado corada como tomate: e dois bateres de pestanas voaram-lhe na direcção dele. Era assim tão apetitosa e desejada que ele tornou a beijá-la; ela soltou-se, pegou no cigarro e ficou a fitá-lo, com os lábios a morder, murmurando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Você beija bem… Você beija bem…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele mesmo estava tão desordenado que nem uma palavra disse. E daí a um pouco entraram ambos calados para a sala. Foi só no balcão que ele pensou: «Fui um aproveitador!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no fundo estava satisfeito da sua intencionalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, depois de fechar o bar, foi à procura dela: encontrou-a com o cliente na conversa, sentados a uma mesa perto do balcão. E então pareceu-lhe aborrecido distrair aquela rapariga das suas amizades. De resto um momento como aquele no bar não voltaria. Seria despropositado ficar ali, naquele canto aborrecido do café, desmoralizando, a frio, uma pobre moça…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu meia volta e afastou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela desapareceu por uns dias e quando apareceu ao fim da tarde, ele suspendeu-a dela permanecer no bar… Ouviu o que ele dizia, sem lhe trocar o olhar, sem lhe inchar o peito. Mas Fernando achou-lhe o cumprimento da mão tão frio como um moribundo: e quando ele virou costas, Isabelinha ficou voltada para o ecrã, escondendo o olhar dos clientes, fixando abstractamente a imagem que aparecia, com o pensamento, dois a dois, voando-lhe no escuro…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava apaixonada. Desde os primeiros dias, a sua figura decidida e atrevida, os seus olhos vistosos, toda a virilidade do seu carácter, se lhe tinham tomado conta da imaginação. O que a fascinava nele não era a sua vocação, nem o seu prestígio no Porto, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela pouco lhe dizia e pouco lhe interessava: o que a encantava era aquela versatilidade, aquele ar sério e saudável, aquela força de vida, aquela voz tão característica e tão desgarrada: e antevia, para além da sua situação ligada a um ofício rasca, outras situações possíveis, em que se vê sempre diante do espelho uma outra face forte e sadia, em que as noites se passam a dormir a dois em cadeirinha… Era como uma rajada de ar ameno, que atravessava, subitamente, a sua almofada a cheirar a mofo e respirava-a docemente…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, tinha entendido aquelas palavras em que ele se mostrava tão sabedor, tão leal, tão gentil: e à força do seu corpo, que admirava, englobava-se agora um coração afectuoso, dum afecto enérgico e forte, para a atrair… Este amor oculto invadiu-a, assenhorou-se dela uma noite que lhe apareceu esta ideia, esta ilusão: «Se ele fosse meu namorado!» Toda ela entrou em circuito, apertou fortemente as mãos contra a mala, como desordenando-se com a sua imagem focada, prendendo-se a ela segurando-se na sua força…Depois ele deu-lhe aqueles dois beijos no bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E desistira!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então começou para Isabelinha uma vida de desamparada. Repentinamente tudo em seu redor — a desligação dos pais, abandono dos estudos, os seus vícios — lhe pareceu sombrio. Os seus jogos de palavras, agora que não punha neles toda a sua vista, eram-lhe chatos p´ra burro. A sua situação representava-se-lhe como desastre extraordinário: não se agitava ainda, mas tinha desses desalentos, em que caía sobre a cama, com os braços estendidos, murmurando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Onde vai parar isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abrigava-se então naquele amor como uma indemnização deliciosa. Achando-o todo de alma, deixava-se repassar dele e da sua lenta influência. Fernando tornara-se, na sua imaginação, como uma pessoa de atitudes sensatas, tudo o que é pensado, e que é tratado, e que dá razão à vida. Não quis de algum modo alhear-se a tudo que vinha dele. Soube de todas as suas histórias, inclusive aquela «Lord» que também gostara, e crescera dum sonho. Estas histórias sossegavam-na, como uma onda de satisfação ao desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi durante semanas um frequentar constante de nocturnos. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo viciado e preguiçoso. A realidade tornava-se-lhe ociosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua morava, onde encontrava sempre encostado à porta, alguém na mirada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vieram as primeiras agitações. Tornou-se impaciente e dura. Não suportava ser chamada à atenção de questões sentimentais do seu coração. Veio-lhe a ânsia das bebidas, dos cocktails, dos galanteios dos clientes a tentar. Começou a ver novelas. Passava horas só, num escuro, à varanda, tendo sob o seu olhar de virgem branca, toda a rebeldia de uma enamorada. Acreditava nos amantes que trepam os muros, sob o manto das estrelas: e queria ser conquistada assim, possuída num mistério de noite romântica…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu coração desligou-se aos poucos da imagem de Fernando e estendeu-se a um ser fictício que a encantara nos personagens feitos heróis de novelas; era um estilo meio príncipe e meio pirata, que tinha, sobretudo, a agilidade. Porque era isto que a atraía, que queria, por que ansiava nas noites frias em que não conseguia dormir — dois braços ágeis como molas, que a abraçassem num aperto profundo, dois lábios de fogo que, em dois beijos, lhe chupassem a alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava uma maluca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no meio desta excitação toda do temperamento inconstante, eram fraquezas rápidas, sustos de passarinho que cai, um grito ao ver o céu de negro, um esgar de desalento se não havia na recepção recados muito atractivos… À noite suspirava; abria para o café; mas lá dentro, o mofo quente, da estação a chamar o Verão, enchiam-na dum desejo intensivo, duma ansiedade sensual, que chegou ao momento em que bastaria que um homem chegasse ao pé dela e lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços — e foi o que aconteceu enfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois meses. Era o cliente dos imóveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por causa dele abandonou toda a rua. E agora muda de quarto para casa de uma amiga, os mirones atrás vigilantes, sem dormir até altas horas, os pais a sofrerem sozinhos na sua casa, todo o plano dos estudo foi pró maneta, tudo num descarrilo total — para andar acompanhada do homem, um peneirento vaidoso e convencido, de cara profunda e fechado, fio dourado com grossa medalha passado por cima da gravata e penteado abrilhantado posto à janota. Vem de noite com ela aos pubes de sandálias sem meias; cheira a álcool; e promete-lhe o mundo azul para depois ir aturar uma Joaquina qualquer, a quem ele chama «a Minha Maria.»&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-217143036827117753?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/217143036827117753/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=217143036827117753' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/217143036827117753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/217143036827117753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/05/contos-de-ratazana-no-bar-1-isabelinha.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-8CVffBWz_bE/TeF50jV6shI/AAAAAAAAAPo/1Eg0MSv5DiA/s72-c/office_cartoon_flirting.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-2302484774626118637</id><published>2011-04-19T09:47:00.000-07:00</published><updated>2011-04-19T09:59:44.972-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Padrinho e o Porto&lt;br /&gt;~~~&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O boletim meteorológico dava sinais de chuva intensa e húmida e o céu apresentava uma lua em quarto minguante em estado de uma obscuridade quase total, e a noite dera lugar a uma tenebrosa trovoada. As árvores abanavam ao sabor do vento que fustigava cada vez mais, ouvindo o ruído de sons agudos que pairavam na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A passo lento, segue Padrinho, chapéu enterrado na cabeça, bolsa de cabedal dos documentos fortemente atada à mão direita, enquanto a outra mão se enfiava no bolso da gabardina escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No silêncio da noite, ele baniu do pensamento todo o remorso pelo período em que duvidara de si mesmo, substituindo por uma ideia nova: devolver a si próprio a imagem do passado. Sentiu que a sua fé o abandonava e encolheu os ombros, numa expectativa de aguardar de momento o que o futuro lhe reservava — embora isso também estivesse para breve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envolto pelas ruas da cidade que se enroscavam em seu redor, contorceu-se num esgar de frio e olhou para o horizonte. O Porto mostrava-se uma cidade airosa, revelando a sua verdadeira raça de natureza pura, a sua beleza arquitectónica de cidade que tinha ganho a noção de si própria e, por conseguinte, se rebolava num presente auspicioso, diferente, de borgas e paródias, sem nunca ter rejeitado o passado, olhando a escuridão de um futuro promissor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padrinho vagueou nas ruas nessa noite seguindo a luz e as trevas da madrugada. Lembrava que muito antes da chuva cair, um certo número de casos que o haviam abalado lhe vieram à memória trazendo alguns nomes que haviam sido expulsos do seu espírito por terem falhado na hora do compromisso e, em consequência disso, haviam-se deixado, como no filme O comboio apitou 3 vezes em que o artista, o xerife, fica a falar sozinho à espera dos meliantes que lhe queriam fazer «a folha». Ó falsas criaturas! Que mal eu vos fiz! —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o Deus para uns é cego, não há força da razão que resista tal encomenda. Padrinho estivera à beira do abismo na derradeira queda. Como a Boa-Estrela havia sido benévola para com ele! — Via que a escolha era simples: o amor ao próximo e fé em Deus. Uma possibilidade que não podia deitar a perder, antes que fosse tarde demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirou do bolso da gabardina um pequeno livro de apontamentos que ali se encontrava desde que saíra de sua casa, havia mais de três horas e meia: o livro com os nomes dos meliantes que lhe queriam fazer a tal dita «folha», os dignos companheiros, amigos de longa data, os seus nomes estavam escritos à mão, em tinta preta, e deitou-os a uma valeta…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa esquina, na zona da Rua Chá, outrora conhecida pela sua população de artistas de várias artes, vagabundos e homens à procura de prostitutas, e agora ocupada por profissionais de comércio e pequenos empresários de negócios, Padrinho teve ocasião de encontrar uma alma perdida à procura de alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era ainda jovem, de sexo feminino, alta e duma beleza exótica, com um nariz tipo chafariz e cabelo preto e riscas brancas, penteado com azeite e tinha dentes pintados a várias cores. A jovem estava mesmo à beirinha do passeio, encostado a um varão de ferro, de costas voltadas para a estação ferroviária, levemente inclinada para a frente e segurando, na mão esquerda, um objecto rectangular de estimação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu comportamento chamava a atenção: primeiro fitava com olhar sombrio o objecto que tinha na mão e depois olhava à sua volta e rodava constantemente a cabeça dum lado para o outro, pondo os transeuntes demasiado concentrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padrinho, numa primeira passagem, olhou para o objecto que a jovem agarrava: era um cartaz escrito a letras miudinhas. À segunda passagem, pôs os óculos e leu com atenção o cartaz: Por favor, dê uma esmolinha à ceguinha. A seguir ofereceu-lhe a sua ajuda. A jovem passou o cartaz para a outra mão e voltou a repetir o mesmo refrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Este dinheiro — disse ele — é teu e não é muito, mas é de boa vontade.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E retomou o caminho, olhando a pequena multidão silenciosa. Ali, na esquina de uma rua movimentada, andavam almas a sondar em busca dum corpo à deriva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais adiante, quase ao fundo da rua, Padrinho viu claro uma prostituta a ser assediada por um esgazeado que, sem mais nem menos, agarrou o rosto dela com ambas as mãos e deu-lhe um beijo firmemente na boca. No entanto, ela reagiu de maneira surpreendente ao ser assim agarrada bruscamente, exclamando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Vai-te foder», — berrou com toda a força — posso estar desesperada, meu, mas ainda não estou esgazeada a esse ponto.» — Ao que o freguês, dando mostras de mau perdedor, deu-lhe um valente soco no nariz que a pôs a sangrar. A seguir, pirou-se pela rua abaixo e perdeu-se na escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Padrinho foi atrás dele, o freguês já tinha cavado não se sabe para onde mas, em vez disso, encontrou uma amiga dos tempos da desgraça que veio flutuar para a sua beira, já com uns copitos a mais no estômago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Olá! A uma hora destas por aqui — disse ela — só se for para curtir o fado do Pescador!» — Padrinho sorriu.&lt;br /&gt;«Olha, que é que queres que te faça? — acrescentou. — Não tenho sono, tenho medo da solidão e, como não consigo dormir, prefiro passear pela noite.» —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras dela continuavam a ser irónicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Está-me a contar essa fita a mim? — olhou maliciosa. — Esse filme vai no Batalha!.» — Ele próprio também foi obrigado a rir. Tal como ela, Padrinho pôs-se na galhofa a lembrar cenas do passado num jogo de perguntas e respostas para fazer passar o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Eram todos filhos de Adão», — contava ela uma cena antiga. — Mas quando se deitaram na cama, os cabrões arrancaram logo as suas roupas para mostrar as suas vergonhas.» —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviram-se as suas gargalhadas. E Padrinho, logo a seguir, contou a dele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Uma noite, às quatro da manhã, completamente embriagado, já tinha bebido o uísque todo da garrafa, tirara a escova dos dentes e preparava-me para ir à casa de banho, quando se apresentou no meu apartamento, uma jovem sem ser anunciada e não dava mostras de querer sair dali. Eu, educadamente, fui à casa de banho lavar os dentes e, ao voltar, encontrei-a de pé no meio do tapete da sala, completamente nua, exibindo um corpo de tarar. Quando eu vi aquele espectáculo ali diante de mim, gritei: Toma-me! Sou todo teu. Faz o que quiseres!» — Ela pôs-se a mijar em cima do tapete e, a seguir, desapareceu calmamente para fora.» —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padrinho contara a ela a história num tom franco e risonho, sugerindo, em princípio, que a tempestade já não se desencadeava. O certo é que ela não parava de contar histórias e ele foi obrigado a gritar-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Agora chega», — disse ele. — Vou-me embora.» —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apertando bem o cinto da gabardina ao corpo, seguiu a passo rápido pela rua em frente. O nariz de Padrinho, escorrendo pingos de orvalho, começou a latejar dolorosamente. Nunca fora capaz de suportar o frio. Deu por si a murmurar uns versos que lhe saíam à memória repentinamente, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Morrerá quem suporta o frio?&lt;br /&gt;Quem, não se alheie ao abandono, embora a ele condenado?&lt;br /&gt;Tu também farias isso, e te tornarias um oculto, de qualquer das formas.&lt;br /&gt;Mas longe do frio, onde pudesses trocar,&lt;br /&gt;Um pouco de sossego e paz… &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele próprio não saberia dizer melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer pessoa que desse por si no meio da noite, ao relento, a falar sozinho, diria que ali ia um maluco… pôs-se a limpar o nariz a um lenço de papel e murmurou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Devias era ter ido para poeta», — opinou voltado para o candeeiro da rua. — Podias muito bem ter tido êxito. Eu sei escrever embora só tenha a quarta classe, mas que raio? Uma pessoa não precisa de ter muitos estudos para saber dizer uma dúzia de frases bonitas, não é? É claro que não sou burro de todo: há por aí mais camelos do que eu a pastar que não vão a lado algum mas eu cheguei lá! Mais longe do que eles pensavam, disso tenho a plena certeza e mais digo: esses nem daqui a cem anos chegam onde eu cheguei, disso garanto-te, palavra de Padrinho.» —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele desvaneceu-se da fúria e até lhe deu para fumar um cigarro, puxando primeiro pela aba do chapéu para a frente da cabeça, enquanto tirava umas fumaças de fumo para o ar. Nesse instante, reparou que duas pessoas o olhavam com curiosidade, a primeira um jovem de aspecto aguerrido, com roupas de couro guarnecidas com letras em relevo, um cabelo cortado à pica e uns olhos de esfomeado; a outra, uma mulher de meia-idade com um guarda-chuva na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Vocês tiveram azar», — gritou Padrinho. — Pois já fui assaltado ali atrás e fiquei teso como um virote.» —&lt;br /&gt;«És mais desgraçado do que nós», — disse o Pica lançando uma pedra contra os sapatos dele. — «Ao menos, deixa ficar o tabaco.» —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dele ter pegado nos cigarros, retomou o seu caminho; enquanto a mulher retorceu uns passos para trás e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tenho a certeza que nos estás a enganar, mas a tua cara ficará guardada no meu espólio, ouviste, ó gamão?» —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos vistos, aquela era uma noite recheada de atractivos, compreendeu ele com surpresa. «Mas que noite! É caso para eu dizer: o que mais falta para vir?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padrinho ficou persuadido de que sair à noite sozinho era um perigo numa cidade como o Porto. E, tendo em conta aquilo que viu, a esmurrada no nariz, perseguida pelos Picas, a ceguinha a pedir esmola, a amiga das anedotas. Padrinho ficou mais decidido a recuar caminho e mudar de direcção, seguindo até ao Poente; mais propriamente dito, para a sua morada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padrinho tinha a certeza que ali ninguém o incomodava.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-2302484774626118637?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/2302484774626118637/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=2302484774626118637' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/2302484774626118637'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/2302484774626118637'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/04/contos-de-ratazana-padrinho-e-o-porto-o.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-5431021420419240195</id><published>2011-04-18T11:28:00.001-07:00</published><updated>2011-04-19T10:20:38.400-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-fNi_JPK3MYQ/TayFqUylVLI/AAAAAAAAAPg/NzlfctoIkPg/s1600/images.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5596995399096554674" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 117px; CURSOR: hand; HEIGHT: 130px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-fNi_JPK3MYQ/TayFqUylVLI/AAAAAAAAAPg/NzlfctoIkPg/s320/images.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;CONTOS DE RATAZANA &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;___________________&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Em África muita coisa aprendi.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Terra de contrastes, amada e odiada do mato, da savana, da sanzala &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;e do muceque. E como é usual escrever-se na lápida de uma sepultura&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;dir-se-á que viverá eternamente no coração daqueles que por lá deixaram &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;um pouco de si. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;José Novais&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;~~~&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Enquanto estávamos na conversa, pusemo-nos então divertidos agora a contar piadas e a meter-nos uns com os outros e eu contei algumas das minhas à minha moda e eles partiram o caneco a rir. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O condutor recuperou depressa o bom humor e começou a contar a sua passagem pelo Sul, onde esteve na província de São Salvador do Congo. Pepe Rápido disse que esteve mais de seis meses sem ter relações sexuais e, quando quis dar um &lt;em&gt;pirablo,&lt;/em&gt; disse ao alferes Novais, mais conhecido pelo &lt;em&gt;Beque-Beque,&lt;/em&gt; qual era o problema e o oficial levou-o à sanzala e apresentou-o a uma amiga esquelética que mais parecia uma vassoura, chamava-se Teresinha do Kiende, e bem depressa o aliviou, mas também foi aviada, quando o condutor lhe enfiou o dedo pelo &lt;em&gt;mataco,&lt;/em&gt; os gritos eram tantos que o &lt;em&gt;soba&lt;/em&gt; pensava que o condutor a estava a desflorar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Ó Pepe! Realmente tu és uma desgraça. Nem sei qual é a mulher que vai contigo para a cama, senão puseres antes os teus dedos bem atados. — Disse o cabo Flint, fazendo um intervalo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Pepe Rápido disse ainda que, dias mais tarde, voltou à sanzala na companhia do alferes Novais para levar uma máquina de costura &lt;em&gt;Singer,&lt;/em&gt; do tempo da rainha D. Amélia, que estava avariada e pertencia ao alfaiate da tribo, que na altura tratava de umas calças vermelhas dum metro e cinquenta de cintura. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O alferes perguntou-lhe para quem eram as calças e o alfaiate respondeu-lhe que eram para o &lt;em&gt;soba&lt;/em&gt; da tribo, Sr. Pedro Armando Boa Vida Zanga, que sofri de reumático, tinha sete mulheres e queria andar à larga… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;No fim, o &lt;em&gt;soba&lt;/em&gt; pôs à disposição deles uma grade de cerveja quente e uma sertã carregada de óleo com &lt;em&gt;gindungo&lt;/em&gt; ao lado de uma bacia com mandioca, da qual retirava pequenos pedaços que molhava no óleo mais picante que sei lá… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Sabeis uma coisa? — disse Pepe Rápido. — Apanhei semelhante caganeira que andei oito dias sem poder olhar para uma cerveja. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Partimos dali, afastando-nos da picada esburacada e descontínua para nos encaminharmos em direcção ao acampamento, à velocidade máxima do carro. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Pensei de novo como pensara ao desembarcar em Luanda: «Bem-vinda a tropa». Aquela expressão repentina e impulsiva de um voluntário dizia qualquer coisa que me bateu cá dentro. Enterrei a boina na cabeça e, durante sessenta e tais quilómetros, gastamos o fim da tarde, em cima do unimog. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;E o pensamento deixou de funcionar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-5431021420419240195?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/5431021420419240195/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=5431021420419240195' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/5431021420419240195'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/5431021420419240195'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/04/contos-de-ratazana-em-africa-muita.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-fNi_JPK3MYQ/TayFqUylVLI/AAAAAAAAAPg/NzlfctoIkPg/s72-c/images.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-8393195392689530503</id><published>2011-04-07T10:51:00.000-07:00</published><updated>2011-04-09T09:33:13.129-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-mogDFo7fbhw/TZ38dR9K_aI/AAAAAAAAAPY/4yyppHDVgvE/s1600/motoqueiro.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5592903892230405538" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 210px; CURSOR: hand; HEIGHT: 214px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-mogDFo7fbhw/TZ38dR9K_aI/AAAAAAAAAPY/4yyppHDVgvE/s320/motoqueiro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;_________________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Um motoqueiro solitário &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Aqui escrito a tinta e papel e sem adornos, a história simples do motoqueiro Queirós. De todos os motoqueiros melancólicos de que tenho conhecimento, é este, certamente o mais pacato. Conheço-o desde os meus tempos de infância, no lugar chamado Devesas, em Vila Nova de Gaia, uma noite mascarada de Fevereiro. Tinha eu chegado do quarto dos meus pais, prostrado por duas horas a cantar diante do espelho… Ah! que pinta! E era só um ensaio sem microfone: mas ali, no quarto dos meus pais, com um chapéu enterrado até às orelhas, como se fosse um sombreiro entusiasmado com as cantigas da época, aos graves e aos agudos — parecia um rouxinol das Canárias… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Apenas entrei na cozinha, eufórico e sorridente, parei no velho fogão de carvão, e ali me deixei uns instantes, consolando-me daquela chama quente em que a cozinha estava adormecida, com os olhos fixados na boa brasa cromada… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;E foi então que vi aquele rapaz, mais velho do que eu uma mão cheia de anos, de porte atlético, já de casaco e camisa sem gravata, que do outro lado da cozinha, de pé, com uma postura tranquila, conversava com os meus pais, com uma máscara de &lt;em&gt;Zorro&lt;/em&gt; na mão. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O meu pai já tinha fechado a loja e preparado a mesa para o jantar das oito, enquanto a minha mãe, atarefada e risonha, com um avental gasto do uso amarrado à cintura, pousou a sua travessa de variedades de carnes de porco na mesa ao lado de um tacho de arroz de cabidela, e colocou os pratos nos seus lugares acostumados, depois desapertou o avental, fazendo girar o ba nco comprido de madeira para se sentar, e eu ia a caminho da estreita escadaria — quando a figura forte e robusta se dobrou numa gentileza perante os meus pais, e murmurou-lhe numa pronúncia timbrada: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Já fui aviado do jantar das oito… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Mas ele não queria o jantar das oito. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Foi para a farra. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;No dia seguinte, quando saí de casa para ir ao café, situado no largo da estação ferroviária, avistei logo, concentrado pensativamente ao pé da montra de vidro, o rapaz forte e solitário. O café estava vazio numa luz frouxa; as chávenas arrefeciam; e fora, no silêncio da quarta-feira, no largo deserto, a chuva caía sem cessar dum céu acinzentado e embaciado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Eu via apenas as costas do rapaz; mas havia na sua linha forte e um pouco curvada, uma expressão tão sóbria, que me interessei por aquele conterrâneo. O cabelo penteado, de actor, risca ao lado bem aparado sob os cantos, era manifestamente dum figurante; e toda a sua fortaleza calorenta se abria ao aspecto daquelas casas cobertas de chuva, na sensação daquele silêncio deslavado… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Chamei-o. Quanto ele se virou, a sua fisionomia que apenas o vira na véspera, impressionou-me: era um mocetão alto e sóbrio, de rosto moreno, nariz recto e uma cara bem morena. O olhar mexido e vivo com uma corrente de sonho nadando num fluído colorido… E que robustez! Quando andava, as calças ajustadas às pernas roçavam nas botas de meio cano de tipo vaqueiro. Recebeu o meu convite para o café do dia, com olhar surpreso, num sorriso reservado: chegou-se para o balcão onde o empregado do café, passou a chávena pela água quente, e tirou-lhe um quentinho, e disse-lhe numa voz baixa: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Duas colheres de açúcar. Cheirinho… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O empregado do café recolheu a garrafa do bagaço e eu acomodei-me ao balcão, e abri palheta com ele durante um bocado. Fora continuava a chover sobre o lugar deserto. A uma mesa dos fundos, um homem cor de vinho generoso e todo careca e de suíças à &lt;em&gt;Elvis,&lt;/em&gt; que acabara de embutir um bagaço, cansava as vistas no periódico, cigarro no canto da boca e lunetas na ponta do nariz. E um som vinha do altifalante do café, uma voz chorona que a chuva acompanhava num tempo, uma voz reclamante que cantarolava um pedido de amor… Uma quarta feira de Vila Nova de Gaia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Foi uma conversa curta e parca, aquela que nos relacionou num tempo jovem; foi tudo tão rápido, decerto porque depois de ter entrado um grupo de rapazolas no café, o conterrâneo rodou sobre os calcanhares, e foi plantar-se silenciosamente à monta de vidro, da parte de dentro, de olhar abstracto na chuva a cair. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Nesse dia parti com o conjunto musical no carro alugado para a Régua, e ainda não tinha entrado em Entre-os-rios, encharcada no seu lençol de água, já me olvidara o conterrâneo motoqueiro do lugar das Devesas. Foram passados quase dois anos, ao voltar de África, que entrando no café, na sala dos bilhares, e revendo aquele mocetão de porte atlético jogar uma partida de bilhar, senti renascer a antiga amizade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;E nesse dia mesmo tive tempo mais que suficiente para conhecer as histórias do seu passado. Era já dia adiantado e eu voltava do ensaio, quando no banco das bombas de gasolina, ao largo da estação, encontrei, todo airoso e desconcertante, o meu irmão Jorge. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Não conhecem Jorge? A sua presença é espectáculo; tem o capado magro, o negro espesso do cabelo, o sorriso nos olhos, o despacho de um apressado magro; mas esta sua ligeireza é às vezes temperada, em Jorge, pela calma e pela conversa. Que conversa! Uma conversa desarranjada, que me faz lembrar a dos ardinas do Porto: é o mesmo refrão. Mas a calma! Ah, mas esta calma é a riqueza de Jorge. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Moralmente, Jorge é um habilidoso. Fez-se serralheiro muito novo e enveredou no ofício até ir para a tropa. Dizem porém, que viajou bastante, porque conhece Portugal de Norte a Sul, passou pelas ilhas da Madeira e S. Tomé e Príncipe, Angola, as refinarias e África do Sul: mas é evidente que muitos sabem que a sua existência foi igual a dos vulgares aventureiros do Oeste, de terra em terra, de ferro de soldar nas mãos e em cima de postes: e nunca consegue amealhar uma semana de ordenado, porque é um gastador, e com o hábito de não poupar. É um esbanjador. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Mas tem um ponto forte. É cozinheiro de si mesmo: gosta de confeccionar a seu modo, frangos e fritos, muita carne de porco, e com o paladar ao seu gosto. Abastece-se no supermercado os ingredientes necessários e instala-se em casa, e ali cozinha, com satisfação para gáudio dos seus prazeres, pondo-lhes o sabor afinado para que o repasto se ilumine — e quando sente levado pelo álcool, fica de cabelo desalinhado para a clarabóia e face ardida, o velho cão lhe ladra, lança parvoíces, o bom Jorge, debruçado na cadeira, de braços abertos à padre, o olhar afogado em arrebatamento, murmura no seu calão bairrista: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Oh! Jeco! Vai às Jecas! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Bom Jorge! Foi realmente um prazer quando o avistei, nessa tarde, no largo da estação ferroviária: e como só nos víamos aos fins-de-semana, fomos jogar juntos &lt;em&gt;snooker&lt;/em&gt; ao café. O motoqueiro solitário lá estava no seu mutismo, curvado sobre o jornal da casa. E logo que se viram um ao outro, agarraram-se num abraço; foi um abraço grande, forte e sincero. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Meu Deus, que encontro! Os dois amigos encaminharam-se para o fundo da sala, e eu, vibrando de curiosidade, aguardei com sofreguidão. Quis primeiro ser Queirós a pronunciar, grave. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Oh! Pá! Tu foste demais!... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Só eu, Queirós. Vejamos. Conta-lhe a história… Aquela noite ficou na memória… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Queirós então tomou todo o ar turista que se reconhece, o seu saber e as suas experiências, e confessou-me, deixando sair as palavras a conta-gotas, que tinham estado ambos na tropa e em Angola… Jorge foi seu cicerone uma noite… Boa companhia… Tempos Belos… Ei! Jorge!... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Jorge não respondeu, olhando à volta, refugiou-se no seu controlo observador. O meu interesse prendeu-se como a folha que o vento absorve. Quando se tem estado em África, e na tropa, ganha-se facilmente o hábito da amizade: os primeiros tempos que se lidam, sobretudo durante o tempo de adaptação ao clima e ao terreno, cria-se logo os grupos de cada terra, e nas esplanadas das redondezas, e principalmente depois de ter alinhado pelo matos em missões de combate. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;E durante a partida de bilhar, Queirós contou-me o que o assustara mais naquela noite, fora o delírio com que Jorge se apossou na mesa de um cabaré em Luanda. Pôs-se a mandar servir champanhe para as bailarinas e uísque para os músicos!... Foi um serão lordesco. Decidi vir-me embora e bati com a porta. Ele lá continuou. Bêbado como um cacho. Perdemo-nos em risos e altas gargalhadas. O sóbrio Queirós também quis entrar numa rodada de três jogadores, dando assim entusiasmo ao jogo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Nesse princípio do escurecer aconteceu, ao recolher-me a minha casa, que me perdi na hora… O tempo estava foleiro, e eu tinha vontade de beber algo quente. O café da esquina com a Escola do Prado estava ainda aberto; e vi logo Queirós, ainda de casaco, sentado a uma mesa rodeado de catálogos, de testa prensada sobre a mão, olhando. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Posso-me sentar aqui? — balbuciei. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ele ergueu na minha direcção um olhar estremunhado; parecia ter surgido de um outro planeta; batia as pálpebras, exclamando: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Aqui? Sim. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Foi então que eu reparei, debaixo do seu cotovelo, entre os catálogos coloridos e novos, uma foto de uma moto de eleição. Ele viu o meu olhar, o safado, e gabou-se todo numa transparência avermelhada que lhe inundou a face com barba. A minha primeira reacção foi notória ao não reconhecer a marca: como era uma marca famosa e mostrando logo a minha ignorância total à máquina, redimi-me; e apontando o modelo com um dedo firme, disse-lhe: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— É a mota do filme &lt;em&gt;Easy Rider… &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Não deu resposta e se deu não a captei, porque eu, apanhado também pelo fascínio que me dava aquelas imagens fabulosas, acrescentei num tom trespassado de justificação: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Grande mota, não é mesmo? Tenho a certeza que te entusiasmou… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Queirós olhou mais: mas não era para os catálogos: era pensei eu, a descoberta de ver a sua inteligência, o seu gosto motocar adivinhados — e de ter na cabeça a ideia de comprar uma Harley-Davidson. Não me respondeu. Mas as folhas dos catálogos que eu abri, dispensaram comentários. O colorido de ambas as folhas trazia uma série de modelos velhos e novos: Grandioso! Fascinante! Electrizante! — modelos expostos numa feira internacional, montados pela elite dos corredores mundiais. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Queirós permanecia reservado, de cabeça baixa, com a ponta do colarinho fugindo para a lapela do casaco. Pobre Queirós! Atraí-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas desilusões de dependências… Lembrei-me que nada impressiona o homem das Devesas como um gesto teatral; estendi-lhe as duas mãos num movimento à Valentino, e disse-lhe: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Eu também sou motoqueiro!... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Esta frase fabulosa parecia ridícula e imprudente a um homem do Norte; o conterrâneo viu logo nela a difusão de uma alma gémea. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Daí a pouco, com o tempo a chegar à meia-noite, Queirós contava-me a sua história — ou antes pedaços, piadas desirmanadas da sua meia biografia. É tão fatal, que a contesto. De todo, havia na sua narração faltas de anos — e eu não posso reconstituir com precisão e seguimento a história deste sentimental. Tudo é livre e duvidoso. Viveu efectivamente em Devesas. Andou na escola até se formar, chegando à idade militar, onde cumpriu vários ofícios antes de vir a servir o exército no Ultramar. Aos 22 anos, Queirós servia de vendedor a uma firma de joalharia, e nas viagens do serviço angariava conhecimentos mútuos; estes contactos são frequentes blá-blá, como ele dizia. Atirou-se ao cinema: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos ruins, a ser um figurante em películas de segunda categoria. Desse tempo datam as suas primeiras aparições ao volante duma Harley-Davidson. Isto levou-o directamente ao profissionalismo e às ambições de ser empresário em nome individual. Uma paixão, uma crise leviana, um tipo brutal, ameaças de litígio, forçam-no a espiantar-se. Viajou na Europa, foi em Espanha mecânico numa filial de altas cilindradas, alugou um apartamento ali perto da zona. Reaparece no Porto, com estilo novo, liberto e profissionalizado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Este período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em destaque; a sua sabedoria de mãos, técnica, recheada de conhecimentos e sabedor de palavras estrangeiras, encantou Porto: tinha o segredo de cativar, como ele dizia, os clientes mais cépticos; de uma discussão de orçamento ou de pagamento. No Porto este talento leva ao topo. Queirós iniciara-se para gerir em alta um stand-expositor na cidade: o local, porém, e com ele a possibilidade de Queirós açambarcar umas boas massas e ainda lucrar com a serventia de uma parte das águas-furtadas, ruiu, sem efeitos práticos… — um buraco negro na história de Queirós. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Volta a aterrar, membro de um clube de ralis de automóveis do Porto, pede num magazine a concentração de Harleys no Algarve e em Espanha organizando uma manifestação monumental de motares. Integra então uma sociedade representando a sua Harley. Tem outra paixão amorosa… — E isto disse-mo sem satisfações — é obrigado a mudar-se para o Porto. Depois de estar em Vila Nova de Gaia numa situação, coloca-se numa firma inglesa de componentes de automóveis. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— É um apeadeiro para a reforma — disse-lhe eu, conversando no banco do jardim, da Arca d´Água. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ele sorriu com azedume. Era decerto um apeadeiro para a reforma, e estável. É bem estimado; as comissões são razoáveis; tem uma viatura para as suas deslocações — mas as feridas da sua alma são, a todo o instante, dolorosamente sentidas… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Dias sentados, dias parados, os daquele motoqueiro solitário, obrigado a vender numa zona, a oficinas reparadoras e industriais pilões, acessórios e caixas de velocidades! Não é a dependência que o assusta; a sua alma de nortenho não é particularmente sedenta de liberdade, basta-lhe que o inglês seja amável. E, como ele me disse, é-lhe grato reconhecer que os clientes nunca fazem os seus pedidos sem lho dizer; e quando o vêem, chamam por ele, para lhe dar dois dedos de conversa: isso satisfaz a respeitabilidade de Queirós. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Mas o que o atormenta é o contacto permanente com o serviço. Se ele fosse um abastado dum comerciante, primeiro-oficial duma loja de joalharia… Nisso há uma claridade de estilo — os milhares que se envolvem, as viagens constantes, ou então dispor ricamente de uma quantia avultada de ouro… Mas numa oficina como se pode exercer o voo, o panorama rústico, o instinto da velocidade, do vento, da chuva — a separar material para as encomendas ou fazer exposições?!... Depois, como ele contou, dar ao pedal, atender o freguês, é cumprir unicamente a tarefa: na furgoneta, o percurso é ordem; a alma fica ao lado, com o blusão deitado no assento, ou com o jornal que se deixa no tablier. E as concentrações, e a falta de convivência! Nunca mais lhes apanhou o rasto a não ser alguns deles através da internet. Esta falta de parceiros é-lhe muito doloroso. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Além disso o trabalho ocupa-lho o tempo, Queirós desmontou de momento a moto pela arrecadação, e deixou algumas peças oleadas prontas a montar. Às vezes, passeando pelo jardim, de pensamento em queda, Queirós está fazendo uma futurologia; são tudo luares, paisagens amplas de virgem asfalto, horizontes azuis, motores de arranque silencioso… É feliz; está plantado às nuvens voadoras, nos espaços celestes onde os sonhos montam tenda, viajando de órbita em órbita… De repente, uma grossa árvore exausta de estar erguida cai de uma ponta, e bate-lhe de lado na viatura. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Chapa e pintura! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ai, aluadas as fantasias batem retirada como pássaros assustados! E aí vem o azarado Queirós, precipitado dos quatros cantos, de costas encolhidas e as abas do blusão balouçando, dirigir-se com um sorriso branco ao guarda da esquadra local. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Registado ou passam a batata? — pergunta-lhe. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ah! É um grande galo! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— Mas — perguntei-lhe eu — porque não deixas o carro, num local onde não haja árvores? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Ele levantou as suas gordas barbas de Hércules e disse-me a razão que o prende, quase chorando na minha frente, com a beata da cigarrilha no limite: Queirós encanta-se. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Encanta-o o jardim que gira em torno da praça de Arca d´Água. Encanta-o desde o primeiro dia em que entrou no seu habitat: encantou-o no momento em que se sentou nos seus bancos vendo a liberdade dos pássaros em redor, com os melros pulando nas beiras, e os patos cinzentos, os palradores patos cinzentos que no lago se refrescam, e atraem toda a pequenada que por lá passa e lhes arremessa com pipocas e bocados de pão, forçando-os numa corrida de grupo. E depois a verdura, uma verdura imitação florestal de Palácio de Cristal — árvores e flores… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;E o que Queirós tem passado! Todo o seu arrependimento arquiva-o em pensamentos — que armazena em pastas aos fins-de-semana, e dias de folgas. Escutei-o. E eu vi quanto o silêncio pode acalmar um ser inconstante: que pacholice de linguagem, que raios de aceitação, que suspiros de alma despedaçada atirados dali, daqueles bancos de Arca d´Água, para a calada do céu infinito! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Pobre Queirós! Quando saí da minha garagem para o jardim, olhei-o saindo de casa. Tenho-o visto depois, algumas vezes, ao passar em Arca d´Água. Está mais magro, mais sisudo, mais descuidado de brios, mais curvado quando se mexe pelo café com o jornal debaixo do braço, mais irritado no seu sentimentalismo... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Sempre que ele me vê, trocámos alguns comentários citadinos: e depois, ao despedir-nos, aperto-lhe francamente a mão. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-8393195392689530503?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/8393195392689530503/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=8393195392689530503' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/8393195392689530503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/8393195392689530503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/04/contos-de-ratazana-aqui-escrito-tinta-e.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-mogDFo7fbhw/TZ38dR9K_aI/AAAAAAAAAPY/4yyppHDVgvE/s72-c/motoqueiro.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-3615750507841249357</id><published>2011-03-21T13:10:00.000-07:00</published><updated>2011-03-25T12:02:58.325-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-9KiljCfIcCc/TYex6hpeTfI/AAAAAAAAAPQ/GxKwb8ghofE/s1600/RDCA7MCMS1CAFKFPKLCACLLEL0CA6T3ZCGCAQ4V6YXCAX7AQ9CCAG0P28VCARSUA8OCAQTWJGECA7AZ9B8CAFEOPEZCAAJ4QS1CAKSIEG8CA1WDOO8CABCV2R4CAYJS6WLCAG92GIVCAR1I7Z9CA52MH38.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5586629481799241202" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 96px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-9KiljCfIcCc/TYex6hpeTfI/AAAAAAAAAPQ/GxKwb8ghofE/s320/RDCA7MCMS1CAFKFPKLCACLLEL0CA6T3ZCGCAQ4V6YXCAX7AQ9CCAG0P28VCARSUA8OCAQTWJGECA7AZ9B8CAFEOPEZCAAJ4QS1CAKSIEG8CA1WDOO8CABCV2R4CAYJS6WLCAG92GIVCAR1I7Z9CA52MH38.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O HOMEM DA PICHA TRISTE…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou por me contar que o seu caso era caricato — e que não queria que pusesse o seu nome no pasquim do bar — por isso alcunhei-o de “O Homem da Picha Triste.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devo dizer que conheci este cliente no meu bar de engate no Porto. Era alto e magro: tinha uma farta cabeleira penteada e lisa: e os seus olhos castanhos, com a pele em volta encarquilhada e amarelada, e olheiras papudas. Tinha a barba cortada, o queixo firme e recto. Trazia uma gravata de cetim azulada adornada numa camisa branca bordada; um fato fino de casaco trespasse cor de pinha, e as calças estreitas e justas por cima dos sapatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos em Abril; já as noites vinham mais tarde, com uma aragem primaveril e suave e uma escuridão com clareza. Eu tinha saído da cozinha, maçado, estonteado, murmurando num rodopio de frases sem nexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinha de circular pela praia e os seus aspectos vistosos e aglomerados. Eram oito e quinze da noite. As luzes estavam quentes e brilhantes. E eu pus-me energicamente, a preencher as mesas e comecei a servir o jantar. Costela de porco com osso aparte e fatias enroladas de presunto, um vinho verde que eu fiz espumar no copo, caído de alto de uma garrafa rotulada: o cliente estava defronte de mim, comendo calmamente a sua pêra cozida; a minha curiosidade começou aí, perguntei-lhe com os braços cruzados, o meu pano de limpeza de flanela preso nos dedos — se ele era de Leça da Palmeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Moro lá. Há muitos anos — disse-me ele.&lt;br /&gt;— Terra de mulheres boas, segundo ouço dizer — disse eu.&lt;br /&gt;— Boas e quentes! — Acrescentou ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois abriu-se num sorriso saliente. Até ao momento estivera cabisbaixo, olhando frequentemente para a porta. Mas agora despoletou o seu sorriso largo. Compreendi que tinha tocado a ferida aberta de uma lembrança. Havia decerto no caminho daquele quarentão uma «aventura». Aí residia o seu estado de alma ou a sua farsa, porque inconscientemente relacionei-me na ideia de que o «caso», daquele cliente, deverá ser excêntrico, e exalar zombaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De maneira que lhe disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A mim têm-me dito que as mulheres de Leça da Palmeira são as mais boas do Norte. Para braços do campo Régua, para rostos Angeiras, para banhistas a Foz: é lá que se vêem os biquínis requintados de várias cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cliente estava ouvindo, comendo com os olhos altos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu tenho um cliente que veio veranear à praia de Leça da Palmeira. Talvez conheça. Alcunhei-o de Nudista, um cromo, de pouco cabelo, aposentado.&lt;br /&gt;— O Nudista, sim — disse-me ele, olhando firmemente para mim.&lt;br /&gt;— Veio veranear à praia de Leça da Palmeira como antigamente se ia veranear a Espinho — questão de consolar as vitrinas (olhos) da semi-nudez. — À sua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tentei evidentemente puxar por ele, mas ele se levantou, foi ao quarto de banho com um passe leve, e eu reparei então nos seus leves sapatos de camurça com sola fina e atilhos de couro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu pedi para me trazer a bonitona do dia, o meu empregado trouxe-me uma mensagem em código e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A menina está com outro. Está na pensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pensão dos avios, às vezes, cada quarto é um palco de rápidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tá-bem — disse eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pensão era no começo da rua. Havia duas portas de entrada e no interior da pensão os clientes tinham posto os seus carros estacionados: estavam assim longe dos olhares imprevistos. Lá dentro estavam desde, trabalhadores, proprietários, comerciantes, um casal de estudantes, mulheres de vida fácil, um vendedor de electrodomésticos, um cozinheiro, um padre. Todos fodiam. Defronte da recepção estava um casal de biscate aos mimos a aguardar vez: e quando um quarto ficou vago, a porta abriu para o casal entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cliente saiu do quarto de banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vou para o balcão — disse ele.&lt;br /&gt;— Esteja à vontade. — E para criar melhor intimidade tirei da prateleira uma garrafa de uísque e abri-a para ele beber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não direi os porquês por que ele daí a bocado, já meio alegre, me contou a sua história. Há um ditado do engate que diz: «O que não fazes na cama à tua mulher, fá-lo a uma estranha, na pensão.» Mas ele teve laivos inesperados e desconcertantes para a sua comprida e sentida confissão. Foi a respeito do meu cliente, do Nudista, que fora veranear para a praia de Leça da Palmeira. Vi-o pasmar àquele cota de meia idade. Talvez a história seja julgada paranóica, mas conto-o apenas como uma curiosidade pessoal da vigília sedutora…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou assim por me dizer que o seu caso era caricato — e que não queria que pusesse o seu nome no pasquim do bar — por isso alcunhei-o de “O Homem da Picha Triste.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei-lhe então se era cliente doutras casas que eu conhecesse. E como ele me respondeu que era crónico dessas, eu tive logo do seu feitio uma ideia porreira, porque os clientes do seu timbre eram uma antiga geração, quase uma raridade de empresários, que mantinham com uma assiduidade permanente o seu consumo elevado de despesas e de luxos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Homem da Picha Triste disse-me que no tempo de 1981 ou 84, na sua ascensão, tinha em Sines, uma frota de operários a trabalhar sob o seu comando, e era ele quem os contratava. Depois o talento prático e inteligente de O Homem da Picha Triste, deu-lhe dinheiro. E assim tornou-se num «engajador» de operários não especializados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse-me ele que sendo naturalmente atrasado e menos evoluído, a sua vida tinha nesse tempo uma grande azáfama. Um trabalho movimentado e seguro, algumas certas dormidas fora de portas, uma mala saliente de roupas interiores e objectos de higiene, era todo o prazer da sua vida. Nesse tempo, a vida, era vagabunda e solta. Uma grande mudança social aclarava os vícios: os sentidos eram mais atrevidos, os sentimentos mais complicados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apanhar banhos de sol tranquilamente no carro, esticado na cadeira, vendo bater as ondas nos rochedos — sorrir com os melodramas que ecoavam entre as ruas de Leça, adornados de árvores, eram emoções que bastavam ao seu contentamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Homem da Picha Triste, aos quarenta anos, já tinha — como lhe dizia uma velha carocha, que fora querida noutra época — «sentido sexualidade de Gungunhana.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por esse tempo veio tornar-se uma atracção defronte do local do carro de O Homem da Picha Triste, um primeiro andar, uma mulher dos trinta anos talvez, vestida de branco, uma pele amanteigada e um aspecto desejável, O Homem da Picha Triste tinha o seu carro estacionado, ao pé duma palmeira, e dali viu uma manhã aquela mulher com o cabelo louro curto e despenteado, um chambre cor-de-rosa e braços nus, chegar-se a uma pequena janela, a olhar para o mar. O Homem da Picha Triste, afirmou-se e, sem muitas intenções, dizia para consigo que aquela mulher, devia ser uma companhia agradável e cheia de energia, porque os seus cabelos soltos e suaves, o lábio carnudo, revelavam um temperamento vivo e imaginações ardentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, deixou-se serenamente alinhavando as suas apreciações. Mas à noite, estava sentado ouvindo música do seu carro, que enchia o passeio: era em Abril e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a música gemia uma balada pimba, que então penetrava e era dum melodrama; a rua estava num deserto e cheia de mistério — e O Homem da Picha Triste, que estava em mangas de camisa, começou a lembrar-se daqueles cabelos louros e curtos e daqueles lábios carnudos que tinham a cor das cenouras descascadas: esticou-se para a frente, rolou calmamente a cabeça pelas costas da cadeira de pele e decidiu bocejando que a sua vida era aborrecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no dia seguinte, ainda entusiasmado, encostou-se ao carro com a porta toda aberta, e olhando o prédio de frente, onde viviam aqueles cabelos louros. Mas ninguém se abeirou à pequena janela de caixilhos de madeira — e as horas foram passando. E quando se fechou dentro do carro sentiu defronte abrir-se a janela; eram certamente os cabelos louros. Oh! E O Homem da Picha Triste veio logo espevitadamente para o passeio limpar os óculos de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À outra vista, a mulher loura tinha alguma coisa de diferente da observação que lhe fizera antes. Um lenço às pintas verdes cobria-lhe metade do rosto, os dedos compridos e unhas pintadas, e toda ela era fresca, saudável e tenra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Homem da Picha Triste disse consigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É boa prá carago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Homem da Picha Triste, nesse tempo, era atrevido, com o penteado da moda. A camisa não dispensava a gravata e a sua figura devia ter aquele ar risonho e malandreco que depois da Revolução dos Cravos foi tão vulgar nos novos-ricos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rapariga loura reparou naturalmente nele, mas naturalmente abriu a cortina de tom azulado, olhando para a frente o mar. Depois franziu suavemente o olhar na sua direcção e bateu duas vezes com as pestanas fazendo notar que por dentro um coração solitário se bate e espera — são velhos truques em que na verdade e na arte começa a conquista. O olhar ergueu-se em câmara lenta e o rosto louro iluminou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Homem da Picha Triste não me contou por pormenores — a história detalhada da sua aventura. Disse simplesmente que daí a dois dias «estava tolo por comê-la». O seu trabalho tornou-se logo secundário e inseguro e o seu cabriolet &lt;em&gt;Ford&lt;/em&gt; americano, bonito e espaçoso, galgou passeios, bermas, rampas, onde mirava toda a aventura impaciente dos seus nervos. Não a podia observar pela manhã: as noitadas boémias de Abril sucediam umas atrás das outras e eram noites perdidas pela certa. Só pela tarde, o sol aquecia, se abria a janela, e ela, vinha dobrando as mãos sobre o peitoral da janela, e pôr-se mimosa e bela com o seu olhar, observando quem passava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma oportunidade magnífica e naquele momento inesperado, o pensamento de O Homem da Picha Triste com esta intuição interpretativa dos românticos, disse à sua curiosidade: «Será mulher dum engate.» O engate vai ao bordel, à rua e vem cheio daqueles clientes dos vícios eróticos, e nem O Homem da Picha Triste sabia porque é que aquela aventura o deixava indeciso assim: mas segundo ele me disse — «aquilo deu-lhe no gozo.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Homem da Picha Triste, que tinha reparado naquele olhar uma tentação de desejo, quase um &lt;em&gt;«S.O.S»,&lt;/em&gt; esteve toda a tarde entregue às pestaninhas sedentas do desejo. Andava entretido, ocupado, não deu atenção aos afazeres profissionais que estavam sob as suas ordens. Mal deu conta do calendário se aproximar do fim do mês, e nem se preocupou em ir ao banco ver o seu extracto de conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É costume de me deixar prender por mulheres atraentes — tinha dito para mim na sua expressão irónica. — São uns dias de férias antecipadas. Por minha conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sucedeu que ao outro dia, estando ele à coca da janela, e neste momento uma vendedora de peixe passava na rua, que vendo a mulher de cabelo louro a abrir vagarosamente a janela, cumprimentou-a e atirou-lhe com uma confiança toda risonha, o seu «passe bem». O Homem da Picha Triste ficou iluminado: logo nesse instante foi atrás da peixeira, e abertamente, sem meia-tinta, perguntou-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Desculpe-me, quem é aquela mulher que você há pouco cumprimentou defronte da esquina?&lt;br /&gt;— É a Foscoa. Boa gente.&lt;br /&gt;— Ah! Sim. E ela não vem à rua?&lt;br /&gt;— Não sei. Encontro-a sempre ali.&lt;br /&gt;— Bem, obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E O Homem da Picha Triste, desabafando consigo a história da sua aventura despertada e impaciente e falando do desejo com as exaltações de então, fez fé com a sua boa sorte «que ela viesse cá fora». Não era impossível. Logo na tarde seguinte, O Homem da Picha Triste de fato azul-marinho, gravata verde-mar, sentava-se no seu carro a ouvir um poeta afamado do tempo uma quadra intitulada «Sedução ou a ratoeira da loura.»!...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;— De sorte que a oportunidade bateu à porta — e quando o poeta se calou, a mulher de louro que se chamava Foscoa apareceu vestida com uma blusa branca bordada, um ar de virgem bela, fresca e um brilho luminoso no olhar — o Sr. O Homem da Picha Triste é que não teve onde se agarrar, porque já estava todo apanhado, olhando Foscoa. E dizia-lhe suavemente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Então, noutro dia, gostou de me ver?&lt;br /&gt;— Muito… —&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto na estreita rua, o trânsito passava-se dos eixos. O Homem da Picha Triste não pôde ouvir todas as palavras compostas daquela frase. Lembrava-se apenas da última palavra que falava em «suba»: ouviu-a de pé, quando um som brutal abortou de uma buzina ruidosa, e uma frase em terminal dizia: «a porta está aberta!» E O Homem da Picha Triste, desviando-se de um carro, olhava sorrindo — e via-se-lhe os dentes brancos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois a enigmática Foscoa, aproximando-se da janela com olhares reveladores ao chamamento, girou com os seus dedos indicando o caminho da porta, o que levou o paciente O Homem da Picha Triste e fã de &lt;em&gt;Don Juan,&lt;/em&gt; a dizer ironicamente para consigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Linha!... vamos para bingo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois subiu as escadas côncavas muito usadas no tempo da Maria Cachucha, e quando chegou à casa, Foscoa convidara-o a entrar no quarto onde se encontrava deitada, dizendo-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Espero que você honre o meu convite!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E O Homem da Picha Triste que estava boquiaberto, exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Honre! Diga goze, minha querida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam frente-a-frente. A tarde já ia avançada. Foscoa, vestida de combinação lilás, justa ao corpo, toda deitada ao comprido da sua cama, apertando as mãos nas pontas dos lençóis, e ficando a olhar o físico de O Homem da Picha Triste, depois dele se ter livre das roupas. Depois vieram as festas, os gozos, e ela, Foscoa, ficara a gemer de prazer: sentia os bafos dele, as mãos dele segurando a sua cabeça loura amorosa, as chiadeiras da cama, e vira então ele, todo aflito a sair da cama, pôr-se debaixo do chuveiro e tomar um banho frio, e voltar a atirar-se a ela, cheio de fúria! «É um cavalo de força.» Foscoa então desmaiou nos braços dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi quando O Homem da Picha Triste, sem fazer ruído algum, começou a vestir-se, todo absorvido a olhar para ela, quando de repente, afastou o lençol, olhando para as pernas de Foscoa: uma das pernas apareceu desequilibrada da outra e soltara-se da prótese.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É fantástico — disse para consigo, — eu não senti a perna artificial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Foscoa voltou a si, achou-se aos pés da cama, curvada como um L, prendia tenazmente a perna à amarra, e a revelação que tivera magoara-a visivelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando se despediram, O Homem da Picha Triste, todo cortês no seu discurso, dizia sorrindo a Foscoa pela porta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ora, a malandrice da perna, hem! Que coisa! Uma perna de plástico! Só tu me enganavas! Que raio! Eu não ter topado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foscoa esteve calada daquele gozo frio. Não lhe respondeu. O Homem da Picha Triste é que acrescentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Um dia destes passo por cá, querida! Que surpresa… Foi bom… Mas foi mesmo! Uma rápida não se perde assim. Que mocada, hem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Foscoa tinha vontade de lhe saltar outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nesse termo que O Homem da Picha Triste me disse, com a voz muito sonante:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Em suma, para encurtarmos pormenores, resolvi-me envolver com ela.&lt;br /&gt;— Mas a perna?&lt;br /&gt;— Não quero saber mais disso! Pe&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;nsara eu lá da perna! Resolvi-me envolver com ela!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-3615750507841249357?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/3615750507841249357/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=3615750507841249357' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/3615750507841249357'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/3615750507841249357'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/03/contos-de-ratazana-o-homem-da-picha.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-9KiljCfIcCc/TYex6hpeTfI/AAAAAAAAAPQ/GxKwb8ghofE/s72-c/RDCA7MCMS1CAFKFPKLCACLLEL0CA6T3ZCGCAQ4V6YXCAX7AQ9CCAG0P28VCARSUA8OCAQTWJGECA7AZ9B8CAFEOPEZCAAJ4QS1CAKSIEG8CA1WDOO8CABCV2R4CAYJS6WLCAG92GIVCAR1I7Z9CA52MH38.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-7884662621065110195</id><published>2011-03-21T13:08:00.000-07:00</published><updated>2011-03-21T13:09:27.567-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CONTOS DE RATAZANA'/><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-7884662621065110195?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/7884662621065110195/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=7884662621065110195' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/7884662621065110195'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/7884662621065110195'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/03/blog-post.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-1767513495814540476</id><published>2011-02-14T15:26:00.000-08:00</published><updated>2011-02-14T15:41:48.591-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-ZuesfW9Xc9Y/TVm8fTNVH2I/AAAAAAAAAPA/aqQUEn4QUGw/s1600/1ZCACRT247CA38MFB0CA3S8PW2CAFC1C5XCAEH8QBYCAS109FACA1M3OY4CA699P61CAV43CDPCASL9O6FCAFXYIKZCAPL624HCA75EFABCAA0C3E4CAGA2Y6CCANW2YAKCAX55GF0CANOSH3ICAE2CG44.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5573693259765849954" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 142px; CURSOR: hand; HEIGHT: 188px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-ZuesfW9Xc9Y/TVm8fTNVH2I/AAAAAAAAAPA/aqQUEn4QUGw/s320/1ZCACRT247CA38MFB0CA3S8PW2CAFC1C5XCAEH8QBYCAS109FACA1M3OY4CA699P61CAV43CDPCASL9O6FCAFXYIKZCAPL624HCA75EFABCAA0C3E4CAGA2Y6CCANW2YAKCAX55GF0CANOSH3ICAE2CG44.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                             OS FEIJÕES DO CASEIRO…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje fui até ao bar, onde me colocaram no canto da parede que desde sempre me alapei, mas que nem sempre arranjei vaga. Também vieram duas joaquinas a acompanhar-me, que serviu para aumentar os números que fui engrossando por isto e por aquilo ao longo destas duas horas que estive no bar, o que me pôs novamente teso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lado engraçado da coisa é que fui atraído por uma delas que vi passar na rua. Pelo menos foi isso que me chamou a atenção. Mas fosse pelo que fosse, apareceu lá um indivíduo a dizer que ninguém escrevia uns contos de traições como ele. Nunca li os contos, mas o essencial era ouvir o que ele tinha para dizer. Esclareceu-me que distribuía no começo das semanas uns contos para ajudar um grupo de traidores a alegrarem-se, e como não há nenhum matutino que foque contos do género… no raio deste pasquim as traições andam sempre de mão em mão… é ele o fomentador criativo… e também o dono do bar… e diz chamar-se de Ratazana...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vale a pena ouvir, é claro… focava o caso da gravidez-aborto da infeliz camareira com o tipo divorciado e virgoleiro. São sempre os tipos divorciados e virgoleiros que fazem os filhos às outras… estão sempre com tanta vontade de as engravidarem que não suportam ver alguém esquivar-se a não ter filhos. Portanto tem aqui uma boa história. Durante algum tempo deixei-me ser ouvinte, sem nada dizer, agora vou ser integrado no mesmo grupo. Porreiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, estou integrado, portanto vou iniciar a minha traição. E tudo o que eu tenho a fazer agora, na verdade, é apalpar a loirita e a moreninha boa que se farta que eu vi atravessar na rua, com todas as ondulações como eu gosto, mas não se descasam uma da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No bar começo a sentir-me francamente bem-humorado. Mesmo embora nunca tenha passado mais que duas horas por semana naquele local, sinto-me com uma força incrível, fora do trabalho. Vagueio pelo pensamento, tentando resolver qual das duas devo ir comer em primeiro lugar… como um jogador que faz palpite à sorte. Está um belo serão: sinto-me um homem afortunado…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente vem-me à ideia que vou ficar teso depois de levar as duas para a cama. Só por causa disso, resolvo ir à fala com o tal Ratazana. Não deve ser difícil orientar-me. Há demasiadas razões para que Ratazana me oriente. Porra, se for preciso até vou cozinhar um tacho de tripas ao meu restaurante para Ratazana comer, mas penso que não será preciso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deambulo pelas salas até encaminhar-me para a cozinha, tentando apanhá-lo só. Penso, talvez, lhe deva dizer simplesmente que estava indeciso na escolha por que me apaixonei por uma das suas joaquinas… pelo que ele terá de me ajudar. De qualquer modo, não estou preocupado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toco à porta duas vezes, mas não obtenho resposta. Já estou para dar à sola, quando a porta se abre e aparece Ratazana, de avental à cinta. Parece estar um pouco surpreendido…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Diga… diga…», grita-me ele. «Traz algum problema? Se traz, liberte-o!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fecha a porta depois de eu falar e pega numa caneta que se encontra ao canto de um dos lados do balcão, aponta-me o local da pensão com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Eu mando ela para ali!», anuncia ele. «Saia e fode-a… Meta primeiro uma cobertura…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não entendo do que é que ele se está a referir e vou à casa de banho até que entro no quarto… A moreninha está deitada na cama, completamente nua, à minha espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Eh, olhe, este corpo…», diz ela.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Bom material!», digo eu. «Vamos primeiro aos miminhos...»&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Quer que lhe ponha uma cobertura?» diz ela, «que eu tenho mais jeito. Tenho muitas!» Tira um monte de preservativos de várias cores da bolsa e enfia-me um sobre o instrumento e vou para a cama. Olho para o corpo dela para ver se não há por ali nenhum tipo de mazelas… mas não me parece que a moreninha sofra de qualquer mal. Encavalita-se por cima de mim e agarra-me o instrumento.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;«Chupo-o agora, um pouquinho?», pergunta ela. «Agora não quero ver-te a baldar!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começa a cena. Avoca durante um bocado. Tento afastar ela do pensamento, e derivo-o para as receitas da minha culinária. Continua agarrada ao instrumento e a lambê-lo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma técnica tão sensual e relaxante que eu fico petrificado. Não sei se foi ela que me enlouqueceu ou se fui eu. Vejo a moreninha a mover-se no sobe e desce… Depois aumenta-o de volume...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«NocNocNocNoc!», geme ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moreninha chupa num compasso forte. Também está stressada, parece que vai apanhar o comboio. Se eu tivesse enlouquecido estaria agora a baldar-me à brava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Pára», ordeno eu. «Desce para baixo e muda de posição. Vamos foder ambos… já sabes como é. Também vou querer dar duas… já o fiz noutros tempos…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ouça &lt;em&gt;seu&lt;/em&gt; Caseiro», diz ela, «mas que raio vem a ser isto?... O que é que lhe deu?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas então, não é uma traição, meu bem!», grito eu. «Uma traição onde tudo pode acontecer, onde se aprende coisas que nunca se souberam acerca de nós próprios! É da praxe!» Puxo a moreninha para mim e coço-lhe os bicos dos peitos enquanto continuo a gritar… «Quero conhecer aquela tua amiga… aquela cara de melancia da loirita… penso que vou gostar de ver uma loirita a comer uma morena! Talvez a deixe chupar-me em seguida, se ela der bem conta do recado! Como-as… todas menos aquelas pegas das chupistas. Só quero conhecer as traidoras que andem a foder sem se atirar à nota em primeiro lugar!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço a moreninha levantar o cu para a montar em posição de arco, uma dúzia de vezes. Estou com o instrumento a bombear nela para aí vinte minutos, mas o mais certo é para mais do que para menos, e estamos ambos completamente em ardente labareda que saltamos fora dos carris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente começo a vir-me e, por um momento parece que saiu de cima de mim um fardo de cinquenta quilos de bacalhau. Dou um suspiro longo. O instrumento murcha-se dentro dela e eu fico com cara de ressuscitado enquanto ela se levanta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Na próxima vamos fazer uma grande farra, meu bem», digo eu. «Fressura e tudo… uma gaja para a cama contigo! E com o meu tacho de feijões… sim, não podemos esquecer os feijões! Feijões e cona para toda a gente! Vou trazer o tacho para aqui! Vou ser traidor até cagar feijões…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Caseiro, acho que você está a ficar passado…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Passado? Qual passado? Não estou nada… Quero divertir-me. Quero que me apresentes algumas amigas… hei-de consolá-las até o filho da puta do último feijão mais pequeno que tenham lá dentro! E quando me consolar com elas, sabes o que é que eu te vou fazer? Levo-ta numa folga para a minha banca de cozinha e espeto-te lá o cu em cima das tripas para levares a minha receita para a tua terra!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou ali deitado com a mão na verga e os olhos no traseiro dela, sem saber o que deva fazer ou dizer. Nunca vi um traseiro daqueles… nem sequer sabia que nestes lugares haviam queijos daqueles. Ainda tenho a sensação de que não explorei bem o esqueleto da moreninha. Quer saber se eu realmente vou em frente com o programa entre ela e a cara de melancia para fazerem sessenta e nove.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Oh, claro… tu tratas disso. Eu apareço logo para te ajudar a foder essa gaja…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Minha nossa, quando a vires no trapézio! Sabes como ela faz? Atira-se de cabeça e chupa a buceta à moda brasileira…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já tem a calcinha na mão. Arrisco-me e peço um miminho mais e começo a ver a verga de novo a crescer. Agarro-me a ela como um náufrago prestes a afogar-se se agarra a um nadador-salvador…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como-a por trás antes que ela possa mudar de posição. E naquela posição como-a com um certo jeitinho para não fazer mossa. Vou em andamento de vaivém e não vou deixar de o fazer. Não vou deixar de o fazer até ter esperneado como um galo e me sentir aliviado por dentro e por fora. E quando transpor a porta da pensão, aí vou apressar o andamento mais um bocado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corro para o carro para seguir para o restaurante. Vou para o restaurante e vou cozinhar ou fritar uma boa ementa para o prato do dia, umas beiças aos pratos, servidas com bons grelos e que possa constar da lista quando os clientes se repetirem e começarem as marcações.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-1767513495814540476?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/1767513495814540476/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=1767513495814540476' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1767513495814540476'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/1767513495814540476'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/02/contos-de-ratazana-os-feijoes-do.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-ZuesfW9Xc9Y/TVm8fTNVH2I/AAAAAAAAAPA/aqQUEn4QUGw/s72-c/1ZCACRT247CA38MFB0CA3S8PW2CAFC1C5XCAEH8QBYCAS109FACA1M3OY4CA699P61CAV43CDPCASL9O6FCAFXYIKZCAPL624HCA75EFABCAA0C3E4CAGA2Y6CCANW2YAKCAX55GF0CANOSH3ICAE2CG44.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-5492092346760229987</id><published>2011-01-25T11:46:00.001-08:00</published><updated>2011-01-25T12:02:42.390-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TT8rEK-0bYI/AAAAAAAAAO0/KTBVng9pZwQ/s1600/cartoons_50_O%252520travesti.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5566215015120530818" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 176px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TT8rEK-0bYI/AAAAAAAAAO0/KTBVng9pZwQ/s320/cartoons_50_O%252520travesti.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;__________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TOZÉ, CHICRINHAS E MEI&lt;br /&gt;~~~~~~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais tempo passava sem dormir mais falador se tornava e começou a ficar chanfrado e a disparatar com os condutores dos carros que estacionavam no parque do quarteirão – esses condutores, ante tanta falta de educação por parte dele, revelaram ser tão malcriados quanto ele – «Queres saber porque é que eu estou aqui?», – Chicrinhas ofereceu a Tozé mais algumas confidências. – Mas queres saber ou não? – E disse-lhe logo, sem esperar pela resposta. – «Por causa de uma mulher. Pois é, pá, por causa de uma esperança da minha vida eu ando para aqui a chutar pó, a ver se me esqueço dela, já que ela se esqueceu de mim.» -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E: «Como é que te hei-de explicar? É algo que brota aqui do meu mais profundo ser (e apontou com o dedo o coração), juro-te: quando a beijei toda, até fiquei sem saliva na língua, as minhas peles até mingaram que eu quase estiquei do esqueleto, e eu já beijei muitas miúdas mas, como aquela, juro-te que nenhuma. Chiça, pá, ela tem cá um calor que eu derreto-me todo em água.» -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não sabia que dizer mais, dessa miúda que lha tinha feito o sonho num oito e que levara a sua vida entalada no pó branco, para dizer como fora esse momento, que ela passara a ser a visão desse sonho. «Não estás a entender», – o outro desistiu. – Tu não sabes o que é um gajo ser um teso, não ter um cobertor para poder roncar à vontade. Se eu tivesse um balão e pudesse dar a volta ao mundo, metia-la dentro comigo, só os dois, numa ilha deserta a comer cocos e bananas e a beber água. Depois, fazia-lhe uma dúzia de filhos e nem precisava de abono social!...»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais Chicrinhas se esforçava para explicar a sua obsessão pela miúda dos seus sonhos, Mais Tozé procurava evocar a imagem de Mei, mas não aparecia. A loucura de Chicrinhas começou a encher Tozé de raiva e frustração, mas Chicrinhas não reparou e deu-lhe um palmadão nas costas anda lá pá, puxa por ti e conta lá a história das tuas gajas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oito dias depois de se conhecerem, Chicrinhas aproximou-se da porta do trabalho de Tozé, empregado de mesa da Boite P.A., e chamou-o ao lado. «Meu irmão! Não orientas aí o resto duma cerveja e um cigarrito cá para o amigo que já não fuma desde ontem?» – Foi assim que ele entrou. Tozé fitou-o bem nos olhos e exclamou em tom baixo. «Entra e encosta-te ao balcão mas não pies alto.» – A seguir, ordenou ao colega de serviço que lhe orientasse uma cerveja, não queria correr o risco do patrício&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1)&lt;/span&gt; manjar e lhe fizesse pagar a bebida. Instantes depois, entrou e empurrou Chicrinhas para o canto do balcão. «Orienta-te aí ao copo e tá calado.» – Disse ele, tratando de dar um arrumo ao serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Chicrinhas não pediu licença a ninguém para beber de lance o gole de cerveja que embelezava o copo de publicidade BEBA SUPER BOCK. Depois disso, esgotou a paciência ao outro que o pusesse a fazer fumo dos queixos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fumo alimentou o vício. No centro do cinzeiro, uma porrada de beatas foram transformadas por Tozé em charros prolongados com pó de talco, pitas de sal miudinho e cabeças de fósforos. E Chicrinhas deu o primeiro chuto aspirando para dentro todo o fumo possível e, a seguir, fitou Tozé de olhos abertos e disse: «O vício é um martírio privilegiado.» -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir ao primeiro estouro dos fósforos, Chicrinhas gritou como um desalmado. «O que é esta merda? Charros a deitar foguetes?» – Chicrinhas caíra na tentação do vício e o fumo alastrara-se até aos fundilhos das calças e ele arrastara-se até à porta cheio de histerismo. Lá dentro do balcão ninguém se mexeu. Cá fora, Chicrinhas, agitando os braços, dizia sem interrupções. «Estou a ver a ressurreição de Cristo, estou a ir para o calvário, e vou falar com o Pilatos.» -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes essas comoções terminavam em soluços. Chicrinhas, no seu esgotamento-para-além-do-esgotamento, descontrolava-se e punha-se a ganir toda a noite até cair para o chão e dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não a dormir: a sonhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na fatídica manhã do seu trigésimo sétimo aniversário, dentro do seu carro, junto à praia do Cabedelo, em Vila Nova de Gaia, Tozé via dormir a amante e sentia o coração a encher-se até mais não de puro amor. Tinha por mais de uma vez acordado aos repelões, antes do nascer do sol, com o traga amargo na boca que lhe deixara um pesadelo, o seu sonho de reconstruir um lar único – dos casais que adoram o ar livre da natureza – e acabara por adormecer de novo enrolado na construção do paraíso ali à beira-mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertando ao som das ondas e envolto no nevoeiro do céu, ficou irritado consigo mesmo por se ter esquecido da parte final do sonho. Ergueu-se sem ruído, agora estava bem desperto, e olhou pela janela do carro em direcção à praia, ainda enevoada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá um pouco mais distante, ouviu ligeiramente o chiar da passarada junto ao arvoredo ao pé da Fábrica da Seca do Bacalhau. Tozé puxou o pescoço mais para cima e pôs-se a fumar um cigarro, abrindo um pouco o vidro da janela. A areia da praia estava envolta em névoa, no meio da qual rodopiavam as gaivotas, fazendo a chiadeira do costume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o início do romance entre Tozé e a sua amante, no local do trabalho onde se conheceram, há mil e quinhentos dias, os sonhos tinham-se desvanecido aos poucos, da mesma forma que as ilusões se criaram no domínio imaginativo em que ele sonhara um dia: construir um castelo de areia à beira-mar para a sua princesa. Por isso, sempre que voltavam à praia, aquilo parecia tratar-se de um presságio de alguma coisa maravilhosa, uma vez que a curtição entre ambos eras totalmente diferente das outras curtições entre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí, o regresso à praia, em horário de pescador, animara o espírito de ambos e, depois duma boa curtição, dormiam até o sol raiar pelos vidros do carro. Quando ela acordava, via-o em cima do rochedo, tentando pescar com uma cana e uma linha com um anzol e um isco enfiado. Tudo o que é corriqueiro acaba por se tornar impróprio para consumo e Tozé sabia muito bem como devia fazer feliz a amante; tornar-se ele num verdadeiro erudito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã do seu trigésimo sétimo aniversário, quando a primeira luz do dia afluiu na praia a as gaivotas começaram dum momento para o outro a banharem-se nas águas, a beleza do momento cortou-lhe a respiração. Correu na direcção do carro onde a sua amante Mei dormia ainda e acordou-a com meiguices nas partes íntimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tozé sentiu vontade de fazer amor e não esperou sequer pela autorização das gaivotas, estendendo-se sobre ela, beijando-lhe a boca até desaparecer a comichão. Quando terminou, ficou a olhar para a inocência da silhueta meio adormecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tinha o cabelo comprido, loiro malhado, uma pele branca e os olhos atrás das pálpebras eram dum castanho claro. Os pais dela não eram conhecidos. Por isso, a união dos dois foi fácil e amor à primeira vista. Com o passar do tempo, foram trabalhar juntos para os copos e entendiam-se às mil maravilhas no mundo da copofonia&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(2)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não tinham filhos, transformaram-se numa união sagrada de amor único e soberano, onde a natureza era a rainha-mãe dos seus segredos e mistérios. Cheio de emoção, Tozé observou Mei enquanto ela dormia e expulsou o espírito maligno do pesadelo que o atormentava. «Quem diz que viver assim na praia», – raciocinou alegremente, – «ouvir o relento, cheirar o aroma, fazer amor ao som dos uivos das gaivotas a dançar nas águas frias e tépidas, sem pagar luz nem renda que é maluco: eu direi mesmo que malucos são eles todos.» -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando fascinado a aurora maravilhosa, voltou a dirigir um discurso silencioso à amada adormecida. «Mei, eu faço hoje trinta e sete anos de idade e estou maravilhado com este amor. Só desejo do fundo do meu coração envelhecer ao teu lado.» – Disse-lhe enquanto ela dormia, atirando-lhe um beijo com a ponta dos dedos e inclinou-se para o lado e acabou por adormecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baixou logo os olhos. Nem um ai mais disse e ali ficou entregue ao sonho, como ele desejara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o dia dos anos que Tozé andava louco de desejos apaixonados. «Parece que começo agora a viver uma nova vida.» – A união deles estava segura e tornara-se tão firme que nenhum cliente conseguia arrebatar-lhe a amante mesmo com promessas fortes de suborno de dinheiro ou até à base de bebidas espirituosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tozé alimentava uma secreta aspiração de dormir com ela na praia, o entusiasmo contava e era maior e, por muito que os amigos dissessem o contrário, ele é que achava que estava no caminho certo. Para isso, o seu carro fazia de quarto, o ar condicionado de frigorífico e os tapetes serviam de mantas. Por conseguinte, a secreta aspiração dele, levando-a todas as noites depois do trabalho findo para a praia, foi acolhida pela amante com um encolher de ombros como quem diz: «tu é que decides.»-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, Tozé chegou à noite depois duma noite de trabalho, disse: «Não achas que seria uma delícia ir ver o mar?» – Ela respondeu: «Como queiras, Tozé.» – Ela compreendeu que aquilo para ele era uma espécie de jogo erótico e, como já estava habituada, resolveu sujeitar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tozé apareceu com o carro na rua e gritou: «Por favor, vamos embora.» – Ao cabo de vinte minutos, o carro de Tozé estacionou no local do costume, próximo da praia e ele ficou a olhar pelo espelho retrovisor a ver se vinha alguém atrás deles. Depois, olhou para o pequeno espelho da frente e viu o bigode engrossado e mal cortado, o queixo retraído, os lábios manchados de baton. Testa, rosto e nariz, tudo amarelo, amarelo, «O que é que esta mulher viu em mim?» – exclamou e reparou na sua agitação, que realmente estava doente de amor e não era só o erotismo que lhe criara aquela afeição por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Que raio de maluco eu sou», – suspirou para consigo. – «Merecia era que me dessem com uma vassoura pelo canastro abaixo.» – Mas não era o tipo de pessoa que se deixasse enredar por estas palavras. Em vez disso, encostou a cabeça ao ombro dela e deixou-se adormecer em sonhos: avermelhados como o luar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro, apesar do seu formato pequeno e amanhado, era um sítio sólido, bastante exótico, apenas com o senão de servir numa causa complexa e excitante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses tempos os amigos riram-se daquela aventura mas não faltou quem os quisesse imitar; embora apenas por um período de minutos ou até horas – de apenas tirar uns nabos ou coçar no pêlo – das suas futuras namoradas. Por isso, ali estava o carro, na praia, junto ao areal, ao lado do arvoredo, com as portas e os vidros bem fechados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estava dentro dele, Tozé não se cansava de recitar na sua rouca voz de fadistola. São os seus versos preferidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem foi que inventou&lt;br /&gt;A vida o trabalho e amor&lt;br /&gt;Fez três coisas maravilhosas&lt;br /&gt;Mas mais sábio &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Foi quem se furtou à dor&lt;br /&gt;E fez da vida&lt;br /&gt;Um mar de rosas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia quem dissesse que o carro até dava mais brilho à praia e que se tornara numa lenda da praia do Cabeledo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim de meia dúzia de anos, começava finalmente a integrar-se na sociedade moderna e a deixar apenas o carro para a condução do passeio matinal. Mandou dar uma pintura nova ao carro e até os vidros mudou, bem como os tapetes já coçados e rotos de tanto uso terem. Muito poucos foram os amigos que acreditaram naquela nova mudança e, por isso mesmo, reinava no trabalho uma atmosfera barulhenta de aposta – saber se era para valer ou não – Tozé orgulhava-se de ter apenas uma palavra. Dormia agora num quarto das águas furtadas e a janela branca em flor, a escada tosca e velhas tábuas e a cama onde guardava um grande amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida ali era doce e suave, tão suave e doce como árdua era a que se vivia dentro do carro; mas, mesmo assim, era uma existência tão fofa que valia todos os sacrifícios da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;…………....&lt;br /&gt;(1) Patrão&lt;br /&gt;……..…………….&lt;br /&gt;(2) Bar de Alternes&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-5492092346760229987?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/5492092346760229987/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=5492092346760229987' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/5492092346760229987'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/5492092346760229987'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/01/contos-de-ratazana-toze-chicrinhas-e.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TT8rEK-0bYI/AAAAAAAAAO0/KTBVng9pZwQ/s72-c/cartoons_50_O%252520travesti.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-6522279943351889381</id><published>2011-01-02T12:36:00.001-08:00</published><updated>2011-01-02T12:41:15.268-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TSDitlzBDTI/AAAAAAAAAOk/gSKyOcPYRv4/s1600/untitled.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5557691213043273010" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 224px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TSDitlzBDTI/AAAAAAAAAOk/gSKyOcPYRv4/s320/untitled.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AMIGOS E COPOS…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Margarida está apreensiva e o cliente de apelido Sacristão acabrunhado. Não posso dizer realmente o que vai sair dali. Claro que Margarida contribuiu para aquilo que a preocupa, mas o bom Sacristão…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Margarida mostrou as suas fotografias a Sacristão. Fotografias fabulosas, sem dúvida, atendendo às posições em que foram focadas. Mas Sacristão não conseguiu entusiasmar-se, pura e simplesmente. O que mais o assustou foram as fotografias em que ela aparecia acompanhada de um trio de gajas nuas. Uma com uma mama a chupar na boca, outra com um vibrador no cu e outra ainda, a fazer-lhe uma trombada de dedo. Primeiro acusou Margarida de gostar mais de mulheres de que de homens, mas ela tirou-lhe imediatamente a ideia da cabeça. Por fim, quando entendeu que havia meia dúzia de raparigas no bar com um programa dessa técnica, armou-se em ingénuo. Pelo menos é o que me conta Margarida… Não falei com ele na altura e se calhar não se perdeu muito. Tinha receio, pelo menos é o que ela me conta, de o deixar saber que o tinha levado um tanto pelo privilégio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer maneira ela vendeu-lhe uma rápida dupla… e, se conheço Sacristão, também deve ter oferecido os prazeres. Sacristão diz que ela ficou verde quando levou a primeira… uma bela foda, cheia de malabarismo, onde ela caiu da cama de cu ao chão, duas vezes e a dupla foi em cima do tapete, em jeito de coelha, ao rubro. E não se mostrou ingrata por todo o trabalho que teve em não o deixar amolecer enquanto chupava todo aquele esqueleto…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto às quezíliazinhas de Araújo… são por causa de Chaninha, naturalmente. Há dias passados estava a beber uma bebida e saiu da mesa por ver ela a insultá-lo. Desde então ainda não deixou de andar irritado. Sempre que começa a ficar ranhoso decide que vai abrir o linguado em provocações a Chaninha e então eu tenho de deitar água na fervura mais uma vez. O seu sistema nervoso já começa a vir ao de cima… e o meu também. Esta situação não se pode tornar num hábito sempre… ou ele se comporta como um cavalheiro para o resto da vida, ou inventa uma saída em grande para sair daquela em que se meteu. Continua a bater-me no mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Fiquei muito fodido, sabe», conta ele… e aqui sirvo-lhe um copo… «e ouvia-a a mandar-me pró caralho. Almas do Mundo, pensei que não estava lá… pensei que fosse para outro… sei lá o que mais pensei. Mas não me descontrolei. Deixei-a continuar… fechei os punhos durante uns momentos e deixei-a provocar-me… Estava a puxar por mim… você sabe como é que uma vagabunda dessas age, não tenho de lhe contar como é… e estava a levar-me aos píncaros do inferno… Aquela filha da mãe! Por Deus, eu sei quem é o culpado disto… é essa barriga de unto desse Sacristão! Ele disse-lhe o que disse e o que não disse, foi o que foi! O diabo leve Sacristão! Se eu soubesse nunca tinha ido à mesa! Por que é que não me avisou para não me meter com aquela puta ordinária? Por que é que não tive suficiente rasgo para me afastar daquela sujeira?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudamos de assunto e vamos para o futebol, Araújo e eu, durante uns breves instantes. Visto que parece que a conversa ganhou novos contornos, carreguei-lhe mais duas medidas de malte e logo Araújo prossegue. Raios, agora podia desafiar-me nas cores clubistas, mas não… quer de novo desabafar comigo, suponho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Deixei-a insultar-me», repete. «Deixei-a continuar até estar quase a pifar da voz. Então, lentamente, comecei a perceber que andava por ali bocas de Sacristão… Meu Deus, que situação aquela! Espero sinceramente que nunca eu tenha de perder a paciência por casos semelhantes, pode crer!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também o espero. De certeza, vou ter mais cautelas para que isso não aconteça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas quando percebi verdadeiramente que o que ela queria era deitar-me abaixo, eu… eu não sei como me aguentei. Deu-me semelhante vontade de lhe dar quatro chapadas e até de a esganar! Olhei para ela… e ela atiçou-me mais, com aquela cara de cu… e eu meti as mãos aos bolsos e desandei dali. Estava enojado daquele paleio de cadela baixa…Fartei-me de perguntar a mim próprio, para que é que me deu vontade de me meter com aquela tipa? Somente eu… ou outro parecido…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes quando diz isso Araújo lança-me um olhar muito carregado, que eu gostaria que ele recambiasse por outro. Não sei se ele realmente gosta de mim ou não. Tem uma pergunta a dançar-lhe na ideia, mas ainda não se resolveu deitá-la cá para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tentei pedir a ela que repetisse o que estava a dizer… quando me insultou com uma rajada de nomes do piorio… mas não o fez. Se o fizesse teria que pôr o coiro de molho…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta altura virei-me para atender outro cliente, e a conversa resfriou um pouco. Se eles se vão falar outra vez, Chaninha é bem menina de o enxovalhar de novo… e há qualquer coisa que me diz que o mais certo é eles mesmo não se falarem. Quando um caso destes acontece, não acaba assim do pé para a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Claro que podia entrar numa de caixeiro-viajante e levá-la a dar uma rápida ali na pensão em frente», diz Araújo. «Era o que melhor devia ter feito se eu adivinhasse… se eu… vc sabe onde eu quero chegar. Mas agora nem suporto a ideia de sequer olhar para ela. Cheguei a um ponto em que tenho medo de regressar ao passado, quando eu era um marinheiro…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que tenho a fazer é esperar que Chaninha regresse ao poiso de onde veio o mais rápido possível e assim fique o problema resolvido de vez. Não me posso dar ao luxo de ser o bombeiro a apagar fogos como ando, nem me posso dar ao luxo de continuar descontrolado por muito mais tempo; não consigo atender ninguém de jeito quando ando assim descontrolado, mesmo se consigo enfiar um café com pouco leite pela boca abaixo quando vou até à cozinha rir-me para as panelas e faço a minha folha a que chamam apuro, e estou lentamente a ficar seco. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-6522279943351889381?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/6522279943351889381/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=6522279943351889381' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/6522279943351889381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/6522279943351889381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2011/01/contos-de-ratazana-amigos-e-copos.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TSDitlzBDTI/AAAAAAAAAOk/gSKyOcPYRv4/s72-c/untitled.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-4387338117589390881</id><published>2010-12-17T11:34:00.001-08:00</published><updated>2010-12-17T11:39:15.576-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TQu7viKN88I/AAAAAAAAAOI/P565qcQjZrs/s1600/QECAYCID41CAWYOADACA9SAXS5CA7VNMXVCAYSCCMECAZ4PP9ZCAHCTS1MCAHJ78SRCA0ZLQLPCA4T4NGOCA2VSGDUCAOZOYQXCA8X3IIJCA94QV80CARY9UIKCAQ0ZQG9CA6KPQK1CAPGYJTGCA4CNC1O.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5551737390962176962" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 266px; CURSOR: hand; HEIGHT: 211px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TQu7viKN88I/AAAAAAAAAOI/P565qcQjZrs/s320/QECAYCID41CAWYOADACA9SAXS5CA7VNMXVCAYSCCMECAZ4PP9ZCAHCTS1MCAHJ78SRCA0ZLQLPCA4T4NGOCA2VSGDUCAOZOYQXCA8X3IIJCA94QV80CARY9UIKCAQ0ZQG9CA6KPQK1CAPGYJTGCA4CNC1O.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;REZEM PELO CAGUINCHAS…&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;Ratazana aguarda-me para o ensaio… Ratazana das ideias cor-de-rosa de pingos de café e dos contos lordescos cada vez mais excitantes. É a seguir ao almoço… Acabei de embalar a pé pelo meio do bairro, de modo que ele encontra-me a chegar ao jardim de Arca d´Água… Vou ao encontro… e para lhe contar uma história espantosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha mulher castigou-me. Eu ainda não estou totalmente refeito do caso, o que é perfeitamente natural, se considerarmos que se trata da mulher com quem tenho vivido durante todos estes anos. Foi um choque tremendo, em todos os sentidos, ver uma bela noite subitamente a mulher ter posto trancas à rata, bani-la da minha mente e voltar-me as costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que aqui há mais qualquer coisa que se passou. Sendo a minha mulher conforme é, os factos só se podiam dar desta maneira. E o resultado esta à vista…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é hábito, a pinga está na origem do problema. A minha mulher andou a massacrar-me durante as últimas férias, a meter-me as ideias na cabeça, ralando-me o juízo com o mau hálito que sai da minha boca de bebedor. E claro que tem andado a ralar os filhos quase desde a primeira vez em que nos pegamos a sério. Portanto, um dia, a cena estoirou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ouvi alguém a mandar-me um toque no telemóvel, ainda pensei que pudesse ser ela… Hoje era o dia em que Ratazana queria gravar umas cantigas do duo. E eu tinha-me preparado para o ensaio. Só não estava preparado era para a maneira como o estupor me saudou…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ontem a patroa abriu as pernas?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso não são coisas que se digam à porta de um mini mercado, onde qualquer pessoa as pode ouvir, por isso levei-o para dentro da garagem e alapei-me no banco, para poder respirar mais à vontade. Então ele senta-se de frente para mim a ouvir-me a minha história…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sacana não perde uma única pitada relevante. Não se escusa a perguntar-me simplesmente se eu a cansei, quando e como… sim, quase me diz como é que devo agir. Mais um toque de Ratazana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já atrás ficou referido, passou-se durante as férias. A minha mulher deslumbrou-se com o sol, o que não partilho, regressou ao hotel e encontrou-me no bar a beber cachaças… se bem que ela tenha a certeza de que eu não estava grosso, pois reparou na minha postura quando a saudei. É bem provável, que ela tenha entrado em parafuso com o sol que apanhou… Não posso esquecer a maneira como ela se atirou a mim até eu ficar quase sem voz, para depois me deixar a falar para a parede e pôs-se a francos. Seja como for, a minha mulher passou-se no quarto onde ela, como uma parva… ou uma maluca… começou a despir-se às escondidas. Dois minutos passados estava enrolada no lençol e três minutos passados esticava-se na cama com as pernas de fora. Cinco minutos passados estava a blasfemar sozinha e passados dez minutos já eram pesadelo, eu tinha razões para me sentir um desesperado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bem, mas por que raio é que ela começou a fazer-me isso?», grito eu, quando Ratazana faz uma careta. «Não fiz nada de mal, pois claro? Eu não ia forçar a minha própria mulher!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Penso que ela também o negava», responde Ratazana, deitando-me aquele olhar persistente e rufia que é o seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela também o negava! Sim, diabos a levem, suponho que sim. Por outro lado, não percebo por que é que eu me mostro tão nervoso. Como é que a minha mulher pode chegar a este ponto. Ela não deverá saber que, se as coisas se tornarem mais pretas, a família vai andar em grande reboliço por aí, e se puderam correr-me daqui e deixar-me sem nada que se manje, excepto um instrumento agastado e um gosto por álcool de muito boa qualidade do que aquele que está dentro das minhas veias? Como muitas outras coisas de que ela gosta… E assim continuo a contar-lhe o quanto eu a queria e as sensações que tinha enquanto a observava a caminhar e que grande que era o meu amor por ela… Ponho-me de pé e começo o ensaio à procura de relaxar o meu nervosismo e tanto a tocar como a cantar é visível uma grande descontracção com a viola na mão, como se tivesse renascido de novo para a música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«E agora o que é que vais fazer?», pergunta Ratazana, já sentado com um copo de água na mão, depois de me ter dado outro copo, mas muito menos água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Seduzi-la outra vez, suponho», digo-lhe. «E se ela quiser… continuar.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuar. Carago, como é que uma mulher o pode evitar? Tudo o que tenho a fazer é conquistá-la de novo… está numa de grevista geral, deixando-me cá com uma destas tusas… e não sou o único culpado, meu Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Pensei que ias abaixo por isto», acrescenta Ratazana, passado um instante. «Alguém disse que andavas destravado…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo a cara pelas mãos, simplesmente. Reconheço que, perdi o controlo da situação que está á evoluir de uma forma mais rápida para mim. Então, enquanto estou sentado, Ratazana aproxima-se e instala-se na cadeira. Tem os dedos a mexer, com o fazem os músicos e fita-me no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sabes por que é que não te quero ver cair, não sabes?», exclama ele. «Claro que podia não me ralar e não seria teu amigo.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuamos o ensaio divertidamente, gravando algumas cantigas com aquelas vozes que já percorreram várias salas no passado. Jesus, fazer só uma oitava! Verso rapioqueiro de cariz popular e no refrão, em vez de coro, solo de Kazoo. Mas aquele tradicional fado da dor de corno… vai animá-los um pouco… aquele fado de destroça corações vagabundos… começa a ganhar forma que os iniciados aprendem a sentir… não sei bem o que é, mas está a começar a entrar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase tombo o copo quando deixo pousar lentamente a viola… faço outro intervalo. Encosto-me no sofá e ele senta-se sobre a mesa, a olhar para a minha cara, com uns olhos ligeiramente observadores. Ele insinua e sai-se com esta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Então, pá, não fiques aí sentado a gastar os pensamentos com ela», diz-me ele, «mentaliza-te se a queres dobrar…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não a posso obrigar…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é fácil obrigá-la. Tudo o que tenho a fazer é pôr a minha mente sobre a sua cabeça e domá-la por todo… ela faz o resto. Lá vem Ratazana com aquela conversa de moinante para mim enquanto desbobina o seu conteúdo sobre casos da noite, e não há duvida que faz uma reportagem notável dos boémios. Depois ri-se daquele jeito sem dó pelos meus desabafos e despacho-o com uma máxima para ele se calar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Vai-te foder!» Esfrego a mão sobre o nariz e ergo os olhos para ele, chateadíssimo. «Ensaiamos… ou queres deixar para amanhã?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele levanta-se, mas não sabe o que lhe apetece tocar. Ainda está indeciso, prendeu novamente a viola ao peito e começou a dedilhar nalguns tons, mas parece ter criado qualquer coisa para ele não deixar de fazer dobragens de acordes, deixo-o tocar e fico a ver o que é que sai dali. Mas não o importuno… Ergo a viola e começo a acompanhá-lo de perto. Tiro uma batida compassada e arranco-lhe dois sins de cabeça… Ele volta-se para me dar a certeza de que faço uma boa ligação para o seu solo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Acompanha-me abafado!», pede. «Acompanha-me abafado!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto já tirou mais esta. De improviso, muito naturalmente. O artista… vou tramá-lo sem lhe fazer o abafado, mas não! Agarra-se no solo e abre com um trinado de cordas. Aquele início de entrada mexe-me cá dentro, como se de um sedativo se tratasse. É tão refrescante como um pirolito e quase da mesma frescura. Mas é um pirolito com sumo, meu Deus…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Toca-o outra vez», digo-lhe eu. «Ouve lá, inventaste isso agora?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, responde-me ele, só uma parte. Ele pôs-se à procura de uma entrada e apanhou-o em seguida e foi assim que aconteceu. Mas talvez falte mais…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de todo esta embrulhada, estabelece-se um pouco de acalmia na garagem. Tenho andado a melhorar os meus índices de tocador o que me surpreende neste capítulo. Ratazana ainda está a guardar o seu instrumento, ainda está a trautear a música. E há alguém a abrir a porta da garagem. Chamo Ratazana… parece um detective… e fico de olho pregado. Parece-me o filho de Ratazana, mas pode ser outra pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não. É um condómino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já ensaiei ali meia dúzia de vezes, mas que eu me lembre é a primeira vez que vejo alguém a entrar pela garagem. Temos estado a fazer algum barulho que seja quem for que apareça ao portão sabe logo que há música na garagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O condómino mete-se dentro do elevando enquanto o diabo esfrega um olho e leva um menino atrás de si. E eu nem chego a ver quem é que entrou… para fazer uma análise… Ainda me agacho, mas por que raio, estou eu a olhar para o escuro? Ratazana olha-me com curiosidade acrescida e entra-me com esta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Estás a ver o quê?», pergunta-me. «Por que é esse vistaço todo?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Exercício», respondo-lhe, porra, devo ter o aspecto de quem esteve a fazer exercício. Dou uma esfregadela nos olhos com a mão e tusso profundamente. Então de repente lembro-me de que não tenho nada para o jantar e de que o tasco ainda deve estar aberto. Digo-lhe que vou dar uma mija e vou à fossa, onde abro a torneira para abafar o cheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando volto, Ratazana já tem os instrumentos nas sacas. Pouco falta para as seis da tarde e o céu já escurece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Eh, Ratazana, anda daí e leva-me ao escritório (tasco) …»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem calma, tem calma… nem pensar em deixar aqui os nossos instrumentos. É o melhor que há… viver-se com música. Eu que vá até lá fora tomar um pouco de ar enquanto ele leva as violas a casa. Não vale a pena dizer-lhe que tenho pressa… ele tem a certeza de que me leva ao local e além disso…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Venho já ter contigo», diz-me. «É melhor ires dando umas voltas ao jardim enquanto eu subo e desço.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim despacho-me até ao jardim. Faço um pouco de exercício para aquecer os pés. Dou corda às pernas umas quantas vezes e faço os possíveis por dobrar o andamento. De repente Ratazana aproxima-se com o carro e interrompe a minha marcha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tens essa barriga toda disformada», repara. Parece ter um olho clínico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ah, sim… que novidade…» Tento enviar-lhe outro tipo de palavrão, mas é no momento que ele buzina e eu entro no carro. Peço-lhe para andar rápido e deixar de conversa fiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Custa um bocado até chegar ao tasco por causa do trânsito caótico, mas mal lá chego avio-me primeiro com o minha receita habitual. Não posso levar lagosta recheada porque sou alérgico ao preço. Havia lá uma coxa de frango de aviário, e isso foi o que eu trouxe para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vem Ratazana outra vez a dizer que eu estou a ficar encurvado. É exactamente o mesmo que a minha mulher já me ralhou. Mas ele leva vantagem pois consegue dar-me um tratamento para aliviar a magreza. E, durante todo esse tempo, eu à espera que ele fizesse algum convite… uma ida ao café… ou coisa do género… Eu próprio dei um lamiré… mas &lt;em&gt;vai no Batalha…&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O pior de tudo isto é que eu tenho de levar com ele e mostrar ser paciente, quando o que realmente me dava ganas de fazer era corrê-lo com um pontapé no cu. E tenho de levar com os seus conselhos… Ainda estou para perceber por que é que um homem que fica bem na vida segundo a boa vida nocturna… vir do zero e tornar-se independente… há-de vir dar conselhos a um vivaço meio idiota, mas Ratazana parece ter a noção de que não sei nada o que há a saber sobre estas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Porque não a pões de lado e a riscas da tua vida?», pergunta-me, «ou deves divorciar-te da tua mulher?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho de o ouvir. Faço-o mudar um pouco de tema e afianço-lhe que há-de acabar tudo bem, que no fim do ano as coisas se hão-de resolver. E raios me fodam se eu acredito que as coisas se vão resolver a bem. Da minha análise isto parece uma das piores ensarilhadas que alguma vez eu pensei estar envolvido… e estou até ao pescoço…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ratazana fala que nunca mais acaba e, uma hora passada, já me deu dezenas de resoluções. Uma coisa em que se concorda é que eu não vá andar à pancada com a mulher. Graças a Deus recebo um email… tenho que ir buscar o meu neto à escola e ele ainda me tenta reter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço-o andar um pouco mais depressa, argumentando que falaremos mais sobre este assunto… Depois, já tenho os nervos destroçados… e este amigo! Quando puder vou a um psiquiatra. Tento-me alhear de tudo, mas Ratazana volta a malhar sobre mim e eu atiro-lhe à cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Diabo, parece que me queres ver na desgraça?», berro-lhe eu. «Podia ter acontecido a ti e não a mim…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sou um homem de sorte», diz ele. «Pensei que tu devias ter necessidade de ouvir um conselho dos bons. Realmente pensei. Vou ver se consigo que não me chateies mais…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ouve, Ratazana, espero que a minha mulher abra o coração e me dê uma última oportunidade! Por que é que julgas que a minha mulher não mudou de cama? Para me tentar! Quem se deve oferecer é ela e não eu! Eu posso dar-lhe tudo o que ela precisa…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não volto a falar-te dela, prometo!».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o prometes! É um gajo carimbado e quanto mais ripostadas lhe dou, mais atiçado ele fica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Hei-de evitar falar dela! E… também não te ligo! Podes falar à vontade, que eu não te aconselho mais! Falas para a mundial… Hei-de evitá-lo, mesmo que consigas implorar-me para o fazer!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falas para a mundial! O rufia! Não insisto. Ainda sou mais tolo do que ele estar sempre a bater na mesma tecla. Já devia saber que não se pode trepar numa mulher que nos sacode ou nos rejeita, uma vez que tenha perdido o sentido da coisa. Paro de falar e Ratazana acelera em direcção à escola do meu neto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Agora, deixa-me aqui!», peço-lhe. «Puseste-me a garganta seca… aqui!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro a porta do carro e mando-me pela rua adiante até me perder envolto no escuro da noite.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-4387338117589390881?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/4387338117589390881/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=4387338117589390881' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/4387338117589390881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/4387338117589390881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/12/contos-de-ratazana-rezem-pelo.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TQu7viKN88I/AAAAAAAAAOI/P565qcQjZrs/s72-c/QECAYCID41CAWYOADACA9SAXS5CA7VNMXVCAYSCCMECAZ4PP9ZCAHCTS1MCAHJ78SRCA0ZLQLPCA4T4NGOCA2VSGDUCAOZOYQXCA8X3IIJCA94QV80CARY9UIKCAQ0ZQG9CA6KPQK1CAPGYJTGCA4CNC1O.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-400435661218133566</id><published>2010-11-22T12:35:00.000-08:00</published><updated>2010-11-22T13:03:44.762-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TOrUcRl8_pI/AAAAAAAAANo/oSpoKRa6mjo/s1600/5554096_7lPzW.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5542475873656831634" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 208px; CURSOR: hand; HEIGHT: 153px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TOrUcRl8_pI/AAAAAAAAANo/oSpoKRa6mjo/s320/5554096_7lPzW.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                               &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;O VENEZUELANO…&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebo um telefonema de Ratazana. Quer saber o que houve quanto ao meu envolvimento com Julieta. Tenho de lhe dizer que não houve nada de nada… Ainda não estive com ela o tempo suficiente para lhe apalpar os cacos. Bem, então, raios o levem, quem vai tratar do caso é ele… onde é que depois o posso encontrar? Indico-lhe alguns locais onde é possível me apanhar e ele desliga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando umas horas mais tarde me volta a ligar, parece estar tão confuso, como eu. Contactou-a para um privado e quer que eu vá ter com ela ao salão imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas o que é que isso vem daí? Olhe, fale você com ela… eu tenho de sair e vou à obra falar com o encarregado…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas segundo parece ele empurrou-a para cima de mim. Receia que ela fique fria rapidamente se eu não for ter com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ela disse que eu me estava a portar bem quanto a ela?», pergunto-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bem, ela não se abriu comigo como compreende, amigo, mas vai correr tudo às três tabelas. Assim que a conseguir assentar o cu no seu carro e levá-la ao jardim para tirar uma fotografia, isso transforma-se. O que é que há… você não a quer rufar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Quero… quero… claro, que a quero comer, Ratazana, mas não me agrada a ideia de tirar a fotografia. Sou capaz de borrar a pintura toda, se apareço com esta cara cheia de matraquilhos e cabelos colorados.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não vai borrar pintura nenhuma… ela vai achá-lo romântico, quando você se puser a cantar Amorcito de mi vida. Para isso, é preciso lata.»&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;No fim faço horas para ir ter com ela, é claro. Se não fosse, fazia fraca figura. E até pode ser que, afinal, ainda se ajeite qualquer coisa… uns amassos, pelo menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começa o sol apagar-se enquanto circulo e as putas começam a dar nas vistas para a venda do prazer. Pergunto a mim próprio quem arranjará uma puta a estas horas. Entesuados, provavelmente… qualquer outra pessoa sabe que se engatar agora uma puta terá de lhe pagar o cortiço. Uma delas enrosca-se no semáforo e canta-me o choradinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É como o mel, Cavalheiro… e quase não custa nada… quer saber como é que o fazem na América? Sim, eu estive lá, Cavalheiro… a minha vida não era cá… nem coisa parecida! Mas estando o euro pelo binóculo… Talvez queira pagar uma e dar duas…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piro-me dela e percorro algumas ruas atrás de uma baixota. Telemóvel encostado à orelha… deve ser uma telefonista de ocasião, mas anda como uma bailarina. Galgados cinquenta metros fico c´um tesão do caraças só de olhar para aquelas ancas a manear-se à minha frente e envio um assobio em dois compassos. Para ver se ela me fisga. Não me fisga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes, digo a mim próprio, já fiz isto… circular pelas ruas atrás de um biscate, como um rafeiro a farejar um osso… sem qualquer hipótese de levar fosse o que fosse. Aquelas ancas movem-se como os ponteiros dum relógio, separando a minha vida em bocados. Aqui vou eu atrás de um biscate que nunca comerei… um milhar de outros gajos devem estar à procura do mesmo neste momento… enquanto aqueles ponteiros continuam a balançar. Ainda bem que tenho para onde ir. Se não tivesse voltava atrás à procura daquela jeitosa de há bocado… não era má pinta, não senhor…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da jeitosa nem sombras e eu já lhe perdi o rasto… mas ainda tenho o tesão que me provocou. É como sair o euro milhões, ficar entesado desta maneira e continuar com o pau teso à medida que avanço. A diferença é que não se perdeu nada. Juro mesmo que se algum dia vez voltar a encontrar aquela tipa, vou ter com ela e agradeço-lhe do fundo do coração, vou ter de confessar-lhe o bom que é receber-se qualquer coisa sem contribuir com nada e sem tirar nada a ninguém. Talvez não a torno mais a ver, a essas gajas boas que me seduzem ao longo das ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguento o tesão toda a viagem até me encontrar com Julieta. Manjo várias gajas, uma após outra, imaginando sonhos à sua volta. Raio, devo estar a ficar um pouco pirueta… já estou outra vez a pensar com a cabeça de baixo… uma coisa que não me acontecia desde aqueles tempos quando imigrei para a Venezuela e andava tão desesperadamente em baixo, mas em baixo mesmo, que passava a maior parte do tempo em leve alucinação… Um bico… que fosse pró maneta. Quando via uma rata, de testa alta, a única coisa que me apetecia era sugá-la. Mas aprendi algo importante… pode-se estar em baixo de todo que a cabeça de baixo, não pensa noutra coisa que não seja foda. Ainda se ergue bem, cheia de arrojo, quando os tomates já estão encorrilhados e se estorva ao andar. Pode ser diferente quando se piora seriamente e o leite começa a escassear. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ratazana não disse a Julieta a hora que eu vinha. Assim que abre as persianas para cima de mim, abre a boca estupefacta. Olha, olha… imaginem, ver-me ali! Dá-me um apertão na barriga e estende-me a mão… ia mesmo a ligar para ti, diz-me. Vejo que ela se sente um tanto embaraçada, mas mostra boa cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santo Deus, a quantidade de merdinhas em que um homem tem de se meter para levar uma mulher a abrir as pernas! Nem todas as mulheres. Não seria de todo mais prático se um homem se limitasse a dar uma cantarola no ouvido de Julieta e dizer-lhe: «Vamos para um hotel, para escanar.» E até podia ser que Julieta alinhasse, se estivesse ganzada. Em vez disso, tem de se entrar à ganância e esperar pelas deixas. Julieta resolve que hoje é o dia da sua folga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Paga-me o almoço com senhoria!», exclama. «A minha folga…»&lt;br /&gt;… Como estamos só nós os três no salão, a empregada fica tão surpreendida como eu ao ouvir falar em folga. Julieta insiste no facto, mas não se consegue lembrar de quantas folgas já teve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Gostava de dar um arejo», confessa, vagarosamente, «mas não tenho com quem…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ah, não, também eu», digo eu sorrindo para a empregada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bom…» A empregada está meia refeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Óptimo!», exclama Julieta. «O restaurante é o local ideal para um almocinho de folga! Tu espera aqui… Ainda tenho de fazer uma coisa. Mas é rápido… é rápido!» Ao sair, sopra-me em frente do ouvido: «Vê lá, não te atires a ela…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Claro… não te atires a ela! Porra, como é que eu a vou proibir se ela se quiser atirar?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Põe-na a ouvir as tuas aventuras e descasca-te às gargalhadas… é o que eu lhe faço às vezes. Olha, faz como quiseres, mas não a deixes de antena livre.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas que merda esta! Por que é a gente não se vai embora e leva também a empregada? Há muito pouco trabalho por aqui, esta tarde.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Então, Castro, não venhas com as tuas merdas… Sabes como é que está a vida?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não, não sei como está a vida, nem me preocupa. Onde é que queres que te leve a comer? Vais querer peixe ou carne? Bem… tu depois escolhes. Não me venhas é com algum negócio de vigarices que te engendraram? Porra, Julieta, a paciência tem limites! Tu e essas manobras todas vão-se foder antes de conseguirem o que quer que seja.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Shiu… fala mais baixo… Olha Castro, desde que te conheci nunca te lixei… se ganhar algum com a tua amizade, tens a minha bênção. É claro que se não me quiseres acompanhar não precisas de te chatear comigo...»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O que é que te meteu na cabeça de eu não te querer acompanhar? Quem é que se ofereceu para te levar a comer? Quem é que se disponibilizou?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostava de saber o que vai dentro daquela cabeça. Confusões… Problemas. Deixei voar as palavras como um miúdo com o papel atado no fio deixa voar o papagaio. Falei de toda a importância que era ela andar nos eixos e sempre que ela batia com a mão contra a minha, o batente correspondia a um ponto de interrogação? Ela ficou mais mansa e deixou-se ficar assentada com a saia por cima dos joelhos e a boca ligeiramente aberta enquanto tentava escutar o que eu estava a dizer. Chegou ao ponto de me deixar apalpá-la por baixo do assento, enquanto lhe cantava uma canção em venezuelano. Mas não me retribui a troca, a macaca… como sempre, com as armas em guarda. De qualquer forma nunca parou de responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá entramos nós no restaurante de mariscos na zona de Matosinhos e guio-a até ao fundo da sala, para um canto, e sento-a de frente para a parede, de modo a que não vejo nada de que não goste... Mas não estamos ali ainda há cinco minutos quando começa a mostrar-se inquieta. Não podíamos ir para outra mesa e deixar esta para os totós? Quer deitar os mirones durante um bocado. Concordo que é também uma ideia e assim levantámo-nos, rodopiamos o centro e sentámo-nos numa do meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julieta está a alegrar-se. Mais um copo de vinho e já quer discutir outra vez. Pedimos o cardápio e vamos experimentar o prato de arroz de pato sem queijo. Por esta altura começo eu próprio a sentir os efeitos dos copos. Mais um abaixo. Julieta gosta do local porque está cheio de patrões. Depois da sobremesa e do café o que se segue a isto é um pouco de sarcasmo da minha parte e ela aguentou bem o sarcasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Se é o dia da tua folga», exclamo, «tenho de te levar aí a um sítio para te oferecer uma coisa…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coisa! Evidentemente que ela sabe onde eu quero chegar e assim que agarro o camareiro à mão, entrego-lhe o cartão de crédito e digo-lhe para pagar a conta, trazer a factura e vamos para o carro. A folga de Julieta! Sempre gostava de saber, por que é que ela não se havia de lembrar de dizer que era o dia da foda? O meu coração acelera quando a vejo a começar a encostar-se à minha perna e apontar o dedo para o azul do céu e o pau empina-se a rodo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Calor, calor, calor… minha mãezinha, é loucura! E aqui vou eu quente como uma pipoca e com um vermelhão de cara que dá a impressão de ter andado a carregar sacos de cimento na obra… Bem, que tratamento lhe vou dar? Aquela filha da mãe e a sua folga! Uma trancada! Para a trancada tenho de a levar pela outra rua e, para que a coisa funcione bem, sou eu quem se oferece para lhe resolver os problemazitos mais drásticos. Falamos mais uns assuntos, digo que sim, e avançamos para a trancada. Bem, aquela rata, se ela me quer chupar umas massas, eu alinho… mas ela vai suar bem esta tarde! Vê lá, para onde me levas, diz-me ela…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No hotel em que entrámos não há bastante gente neste recanto afrodisíaco para inquietar a sua mente de viajante. Vamos pelo elevador e, quando chegamos ao quarto, paragem que ela imediatamente aproveita para mijar, já emborcámos uma garrafa de litro de água, fora as porções de vinho. À vinda trás com ela a mala e tem a camisa toda desabotoada. Assim que Julieta fica meia nua, senta-se com as costas apoiadas à cabeceira da cama. Tenta convencer-me. Uma mulher da sua posição não se pode permitir a que a vejam por aquelas bandas… não compreendes? Eu juro que só a quero ajudar a ser seu amigo particular…ela tinha dito que queria um amigo para a ajudar nalguns problemas… Ora aqui está o amigo e aqui estamos nós…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Imaginar uma coisa destas a suceder-me!», uiva. «Oh, se alguém descobrir! Oh, meu Deus, se alguém alguma vez vem a saber!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Deixa-te de medos, desde que não saias fora da linha», digo-lhe, ao mesmo tempo que me sento do outro lado e começo a coçar-lhes as costas… Não quer que lhe crave as unhas, nem uma, insiste ela. Mas eu continuo a coçá-la por todo o corpo e a beliscar-lhe as peles e ela dobra-se um pouco mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Coça-me mais!», grita ela. «Coça-me com força!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abre-se toda e mostra-me tudo o que tem à volta do seu sexo. Estou com uma tora acima da média, que aumenta de tamanho a cada minuto que passa. Julieta estica-se toda… tem as pernas abertas como se fossem uma ratoeira, à espera de me comer. Salto-lhe em cima e a ratoeira fecha-se. Ela aperta-me com os braços e as pernas e a rata fica em posição. A seguir dá meia dúzia de maneio ao cu como uma bailarina de hula e estremeço todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Minha mãezinha!», guincho eu, passados três minutos. «Estou-me a vir! «Dou-te o meu leite como prenda da tua folga…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julieta esfria logo imediatamente após o meu guincho. Paro de penetrá-la e levanto-me da cama para que possa dar uso às pernas. Vou à casa de banho e quando volto Julieta entretém-se a contá-lo, pondo-se completamente alheia e pragueja quando da minha passagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Olha para o raio de coisas que tu me disseste», diz Julieta. Faz retorcer a voz. «Isso só de ti… Dou-te a minha prenda! Tu é que me saíste uma rica prenda!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É uma verdade do catano», concordo eu. «Uma rica prenda como eu!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julieta pragueja mais um bocado, mas levanta-se para fazer umas chamadas pelo telemóvel, enquanto eu me coloco na frente do espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou bonito pra caraças…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Olha», diz Julieta, depois de anotar alguns apontamentos do telemóvel, «por que é que não te apressas para irmos embora?»  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Oh, Julieta, estou velho demais para toda esta correria… Raios, é só um minuto, nada mais… Eh, depois até podemos voar pelos ares, só para não termos que nos meter no trânsito confuso…»&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Há uma leve discussão sobre a estrada que se deve tomar, mas foi assim que nos vestimos e saímos para a rua, antes de ver o dia escurecer.&lt;br /&gt; «Não ligues à boca foleira que eu te dei há bocado, nem és uma prenda má…», desculpa-se Julieta, enquanto descemos as escadas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-400435661218133566?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/400435661218133566/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=400435661218133566' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/400435661218133566'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/400435661218133566'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/11/blog-post.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TOrUcRl8_pI/AAAAAAAAANo/oSpoKRa6mjo/s72-c/5554096_7lPzW.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-176130596471317624</id><published>2010-11-12T10:03:00.000-08:00</published><updated>2010-11-12T10:33:05.711-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TN2HDkM1xrI/AAAAAAAAANg/wGxFHtoXlA0/s1600/cartoon_galinha_ovo_corda.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5538731612062467762" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 225px; CURSOR: hand; HEIGHT: 229px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TN2HDkM1xrI/AAAAAAAAANg/wGxFHtoXlA0/s320/cartoon_galinha_ovo_corda.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  FERNANDO, MARLENE E FREITAS…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Freitas sempre acabou por tramar o encontro de Marlene. Conheço alguns pormenores do caso, mas Fernando já nos vê a todos a gozar às pazadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não sei o que se passa com ela, sabe», queixa-se ele embalado por um copo de uísque &lt;em&gt;Famous Grouse,&lt;/em&gt; que pareceu ser a sua expressão de desolação face a uma vida de pecado, «deve ser do níquel… Mas, c´um raio, não me sinto culpado de os ter apresentado; na verdade, também dei à tal rapariga um certo empurrão…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que motivo, belos pecados, teria Marlene faltado ao encontro com ele? Eis uma coisa que Fernando não entende. Se isso não se tivesse dado, tudo teria sido legal… teria passado uma tarde em nice com ela, e as preocupações quanto aos negócios que fossem pela ribeira abaixo. Mas, assim… assim, sente-se realmente partido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Marlene zangar-se-ia se eu tivesse comido uma amiga», diz-me ele. «Ela tem miolos suficientemente espertos para compreender que coisas como essas acontecem; que, de quando em quando, um homem necessita de descarregar baterias. Mas c´um caraças lá ia eu saber que ela não vinha à festa… uma festa com tantas vistas a baterem-se a mim? E o dramático disto tudo é que eu dei uma má foda! Agora, aqui para nós que ninguém nos ouve, veja na posição em que fiquei sozinho diante daquele arsenal todo… não sabia quem devia escolher para me satisfazer totalmente, ou se devia armar-me em parvo para que elas me escolhessem a mim.»Freitas deve ter-lhe assobiado aos ouvidos – ou então limitou-se a estar na sombra e deixou-o perfumar a sala toda, pois Fernando é um vicioso fumador de charutos cubanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Marlene, mostrava-se tão certinha a respeito de compromissos… andava sempre colada a mim, era uma coisa que se metia por mim dentro. E, no entanto, deixou-me colado ao sofá, desejosa de fazer não importa o quê para agradar a quem… era uma rapariga perdida no vício…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No estado em que ele se encontra, tudo aquilo que eu pudesse dizer só ia contribuir para o enfurecer mais. Das duas, uma: Ou pensava que eu estava a encobrir uma boa colaboradora cobiçada, ou entendia que eu o tinha deixado fazer figura de morcão. Opto por me deixar estar calado atrás do balcão e faço votos para que quando o leão vier para o Palácio de Cristal eu esteja lá com a minha máquina fotográfica para lhe tirar um boneco. Deixo Fernando desabafar… tenho ouvido histórias mais bizarras só para vender uns copos a mais…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não creio que ela fosse com outro», diz, com ar apreensivo. «Se o fosse, não me tinha telefonado passado duas horas a dizer que se tinha esquecido… Calculo que se embebedou nalgum bar ou coisa parecida. Mas foi malfeito um tipo sentar-se à espera da sua miúda, e ficar a ver navios. Mas, quando estiver com ela na próxima, vou comê-la e, obrigá-la a fazer tudo em câmara lenta… Meu Santo Pau! Que rica foda… e eu consolo-me… e não consigo esquecer a ela… Que raio de vício, pá, você, conhece-a bem, o que é que ela é capaz de fazer durante o dia, se não faz nada? Acha que vai fazer uns cabritos? Minha Sorte. Quem lhas vai cantar sou eu, quando estiver com ela…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem sido com casos deste género que Fernando se tem deliciado a passar o tempo. Quanto a Marlene, a história é outra, mas é também uma boa história. Por qualquer razão quer levar-me a crer que anda envolvida em saltos de trapézio sem rede… talvez julgue que eu me vou chibar a Fernando e ele sinta dor de corno… Não se esquece do tal jogo do pau de dois bicos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se de dois certos tipos… tão certos que Marlene nem se preocupa com os demais. E segundo se consta, aqui há umas tardes, esses tipos já lhe fizeram uma proposta a dar para o arrocho, no atelier de Marlene. De acordo com a história que Marlene me conta, ela apresentou-lhes uma estimativa mensal para que eles a lessem, um de cada vez, que os deixou assustados. Então, quando se deram conta que ela não regulava pela boa, ficaram calados, telefonavam-lhe para a convidar para a cama e gozavam com ela…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ela ao menos tivesse feito uma redução! Se esses melros fossem gente rasca, por exemplo, eu ainda a podia acreditar… Mas estas personagens eram de peso… talvez cofres… e toda a exorbitância soma de números corresponde à montagem de uma matemática que só existiu na sua cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A forma como se esquivaram!», exclama Marlene, fingindo um assopro. «As coisas que fui obrigada a ensinar! Não há palavras que as descrevam… nem quero pensar nisso! Agarrada a um telefone! De pernas abertas, e à disposição de homens sempre prontos a malhar! O que eles não fariam se algum dia eu viesse a faltar!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marlene, a não ser que tenha juízo, está sujeita a afundar-se. Em Portugal, quando uma mulher começa com espertezas deste género, vai a um charlatão para lhe darem sugestões. No Porto é mais provável que acabe numa cama de pensão com uma amiga e um chulo munido de uma faca de algibeira…&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-176130596471317624?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/176130596471317624/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=176130596471317624' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/176130596471317624'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/176130596471317624'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/11/contos-de-ratazana-fernando-marlene-e.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TN2HDkM1xrI/AAAAAAAAANg/wGxFHtoXlA0/s72-c/cartoon_galinha_ovo_corda.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-5531290633230012329</id><published>2010-10-24T11:03:00.000-07:00</published><updated>2010-10-24T11:25:14.937-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TMR5tYwO3hI/AAAAAAAAANY/OVIrDw3HenQ/s1600/2007-09-07.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5531680062963637778" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TMR5tYwO3hI/AAAAAAAAANY/OVIrDw3HenQ/s320/2007-09-07.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;___________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Correia, Gouveia e os Futebolistas…&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Correia e Gouveia, são donos da Barbearia Copacabana, nesta semana de Outubro, têm dito montanhas de coisas a respeito dos Futebolistas. Toda essa história acerca da má vontade preguiçosa dos Futebolistas é uma mentira, diz Correia. Quanto à preguiça está de acordo… mas em relação à má vontade há muito a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Hora e meia para o golo», rezinga ele… «Costumava pensar que uma equipa que jogava desta maneira tinha de ser uma equipa francamente boa… até que descobri como é que essa hora e meia é passada. Com pontapés, em passes diagonais… queres realmente saber por que é que levam hora e meia a meter golo? Porque pensam que num descuido a bola está lá dentro, que não se sentirão tentados a marcar nem mais um golo da táctica que a si próprios planearam. Se ficarem na retranca há sempre a possibilidade de aparecer alguém a enfiar-lhes com um peru para a divisão de pontos. Em resumos largos, é assim que a coisa se processa… arrepiam-se com a ideia de fazer penáltis, porque fazer penáltis custa sempre qualquer coisa. Olha, Gouveia, vê, tenho aqui uma coisa para te dar a ler…» Mete a mão ao bolso e tira um bocado de papel que põe em cima da cadeira. «Isso é um escrito, que li esta manhã, de um escrutínio desportivo, aparentemente bem conceituado. Estás a ler o que diz… as profecias de um bruxo. Para os Futebolistas, fazer a coisa funcionar é isto.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por aí adiante. Arranja mil soluções para deitar abaixo os Futebolistas, mas o verdadeiro rebuçado da discórdia é que o clube de Gouveia sofreu uma certa perturbação desde que iniciou a época. Não ligo muita atenção a tudo isto, contanto que ele não ameace deixar de me cortar o cabelo. Ele que diga tudo o que bem lhe apetecer… desde que eu saia com cabelo em cima da cabeça e ele não faça sangrar nenhuma das orelhas, por mim pode fazer todos os prognósticos que quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que eu não goste deles… se olharmos todos estes trinta anos que passei na Rua António Cândido a ser barbeado e penteado por ambos, nós damo-nos bem. Eles contam-me tudo o que se passa ao redor do quarteirão; eu retribuo-lhes com as minhas histórias de clientes e colaboradoras do bar. É uma ligação que funciona lindamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo de novo está a acontecer ao Porto… pelo menos, é o que Correia me diz. O Porto ainda me excita, por isso não tenho qualquer motivo para acreditar que Correia me esteja a querer adormecer logo pela manhã…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento que Correia me conta é a de que o Porto se anda a fazer a ganhar tudo… e os adversários devem entender essas intenções, suponho eu. Bate-me aos olhos uma notícia passada, vinda de um cronista reconhecido, onde diz que o Porto está a coleccionar vitórias e termina revelando que este Porto está interessante. Gouveia mostra-se ao lado da notícia, mas penso que também está de acordo. Vistas bem as coisas, Correia e Gouveia são uns tipos porreiros e se bem que Gouveia se mostre mais vítima da conversa, em geral, não me custa nada a acreditar que gostem de pintar a manta de vez em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acrescenta Gouveia, o seu clube quer experimentar novas contratações; contratou-os como craques, embora sem nomes sonantes, e praticamente sem ritmo europeu. A princípio Gouveia pensou que se tratassem somente de reservistas, mas agora está convencido de que o seu clube enfiou barrete com eles. Quer saber a minha opinião… não que lhe interesse muito, ao fim e ao cabo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, por que não? O clube de Gouveia provavelmente considera que já se estampou de tal maneira em contratá-los, que agora não fazia sentido perder a oportunidade de levá-los no próximo torneio para os próprios empresários fazerem negócio. Se quiserem vender o que é comprar gato por lebre, é agora ou nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gouveia concorda, risonho, porque é isso mesmo o que ele quer ouvir. Que tal este ano? Quem vai ser o novo campeão? Quer ele saber. O seu clube ou o meu? Quer que eu lhe dê o meu prognóstico, como se eu fosse um adivinho. Atira uma tesoura para cima do balcão, pedindo-me para eu me ver ao espelho por trás, e atira-me mais perguntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Por favor, importa-se de pôr a cabeça mais para baixo?», por fim acaba o serviço e levanto-me da cadeira. «Há quatro candidatos para o título.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gouveia mostra-se comedido. Todo ele é simpatia. Por que é que não o disse mais cedo? ou prefiro que ele, quando chegar ao fim, diga que afinal, eu estava certo? Este barbeiro! Se não tem existido tinha de ser inventado… Estou ainda a sacudir alguns cabelos, olho-me ao espelho e passo-lhe uma nota para a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O que vai fazer a respeito do seu clube não resgatar os bilhetes?», pergunto, depois de meter algumas moedas ao bolso.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ainda não pensei… Vou decidir isso na altura… Estou com uma curiosidade em ver o que isto vai dar.»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;Depois resolve ir ao café antes que eu tenha resolvido voltar ao assunto… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-5531290633230012329?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/5531290633230012329/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=5531290633230012329' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/5531290633230012329'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/5531290633230012329'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/10/contos-de-ratazana-correia-gouveia-e-os.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TMR5tYwO3hI/AAAAAAAAANY/OVIrDw3HenQ/s72-c/2007-09-07.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-470573094151463614</id><published>2010-10-07T11:41:00.000-07:00</published><updated>2010-10-07T12:01:21.182-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TK4YRTiNC2I/AAAAAAAAANI/MvFqJjF1f0c/s1600/OPiece59.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5525380478410754914" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 205px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TK4YRTiNC2I/AAAAAAAAANI/MvFqJjF1f0c/s320/OPiece59.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;___________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;MARINA, MÓNICA E ALFREDO…&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;As coisas já estão de tal forma, que é difícil saírem delas. Mas tenho de meter a minha garfada para o desacerto final… Marina quer remédios para o seu devaneio e eu digo a Mónica que cuide dela... A Mónica não liga grande importância que se trate de uma amiga que anda metida em bruxas… tem os contactos com videntes e uma crente é uma crente. Quando volto a estar com Marina, esta mostra-se um pouco alvoraçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Aquela amiga que tu conheces… é uma maluca! É uma maluca descarada! Fizemos uns gajitos as duas … devias ter ouvido os palavrões que ela dirigia aos gajitos por demorarem a virem-se! Realmente, eu nem me sentia bem!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto da parte de uma mulher que anda a comprar feitiços para afastar os maus espíritos… Marina é ainda uma frustrada e sê-lo-á sempre, aconteça o que lhe acontecer no Porto. Ao ouvi-la falar fica-se com a impressão de que os maus espíritos entre pessoas é qualquer coisa que se lê somente nos livros… Mas, de qualquer forma, comprou alguns amuletos e encomendou outros: gosta deles e está a gastar algum dinheiro, que é uma coisa que ela não pode dizer a alguma gente com receio de se rirem dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, eu e Mónica temos conversado sobre outras coisas, que não de maus espíritos. Ela veio ter comigo para falar sobre ela. O que desejava saber, diz-me, era a minha apreciação quanto ao seu estado físico… Acharia eu depois de uma ausência às lidas que ela estaria para melhor? Gostaria, na hora, em levá-la para a cama? De cabrito para cabrito, note-se…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alívio, quando soube que a minha ideia será tudo, menos deixá-la de mãos a abanar… ela não se importa que eu a coma à-vontade, confessou-me, desde que eu não a use em definitivo. Na verdade, ela até gosta que eu a chame, porque assim sabe que eu não chamo outra, e também fica contente, porque fode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz ela, é a razão porque continua a cabritar, apesar de há algum tempo ter-se juntado a um moinante e ter empreendido por outra via que não é mais do que um subterfúgio capaz, nada de fora do normal… mesmo caseira não se sente satisfeita com o homem… satisfeita como se sente uma mulher normal depois de uma boa mocada. Por isso anda sempre insatisfeita, sente a necessidade de fazer alguns ganchos e, por pouco, fazia-se séria…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mónica e eu tornamo-nos bons amigos quando fazíamos parte do GAS (Grupo de Atiradores de Sexo.) Como traidor, pergunta-me, se eu ainda fico com tusa quando a monto? Sim, claro… Acho que ela é uma boa montada, ou não teria essa opinião se eu não tivesse montado como monto e se não soubesse que ela era um produto de levantar as pestanas a um morto? Visto que sei o que ela gasta e visto que também sei que ela não compromete um homem, posso dizer-lhe que confio nela... e é isso que eu lhe digo. Durante uma hora, para mais do que para menos, esticados na cama do motel, fornicamos como dois adolescentes, esfomeados de sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, Mónica olha para o telemóvel… tem um toque para daqui a pouco… mas, antes dela se pôr a francos, gostaria de a foder de novo? Penso que não ouvi bem… Mas de concreto, foi isso mesmo que ela disse... se eu queria experimentar fodê-la à coelha; ou se de pé à sentinela durante uns minutos antes de se ir embora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ensina-me… eu excito-lhe e está-me grata pela forma como não a largo e como trato as suas amigas. O que é que as mulheres dão aos homens quando se sentem agradecidas? Portanto, se eu gosto dela, se realmente considero que é uma tipa fixe e que é uma foda de ouvir os sinos de Agramonte, ela está ao meu dispor, sempre que eu queira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso dispensar uma fruta destas, mesmo que não tivesse já experimentado algumas das suas amigas, que eram fraquinhas na cama. Uma rata é uma rata, a única coisa que interessa à cabeça de baixo é aquilo que está entre as pernas de uma mulher, não o que se encontra dentro da sua cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Uma vez por outra gosto de fazer um intervalo», desabafa Mónica, «se não o faço, tenho a sensação de estar a fugir ao meu destino. Não penses que sou dessas mulheres que não aguentam levar com meia dúzia homens… Podia ser uma boa esposa e ter filhos, se fosse preciso. Mas não seria eu própria.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mónica exerce um fascínio familiar… enquanto se maneia, parece ser fêmea e provocadora, maneando-se com tal destreza, quando ela se empoleira em cima de mim… é de uma tal destreza a manear as ancas… que eu sinto-me quase na pele de um cavalo que se prepara para galopar a vinte à hora. Depois, e antes de eu aquecer, cola a barriga contra o meu corpo e esfrega o sexo contra o meu pau murcho. Ri, um tanto atabalhoada quando lhe passo os dedos pela pintelheira e lhe coço as mamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolas, não estou com a tusa com que devia estar, e ficamos estendidos a excitar-nos mutuamente, até que o pau cresça. Mónica conhece umas quantas maneiras sobre a forma como se deve tratar um vergalho, mas o meu só precisa de um tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Já comeste a Marina?», pergunta Mónica, enquanto fazemos marmelada. «Faz-te bem o trapézio como as outras raparigas que tu conheces?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois quer saber mais coisas… Marina faz-me um bico sem preservativo ou sou eu quem a obriga a não usá-lo? Pede-me para trazer raparigas para lhe fazer um programa? Fazemos carrossel? Fala alguma coisa de Mónica? Fala das raparigas com quem já foi nos programas? E por fim… acho que ela é afortunada com as bruxas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo-lhe aquilo que me vem à cabeça e Mónica fica satisfeita. Marina, confidencia-me, é a melhor das amigas com que já conviveu. Principalmente porque não é invejosa, pró trabalho é rápida como um gato e, quando se descasca, o seu sexo está tão quente como um fogareiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mónica podia manter-se uma eternidade a falar de Marina e eu que me lixasse, mas eu estou em brasa. Por fim lá consigo endireitar o pau e faço-a sentir como ele está grosso quando com um jeitinho o enfio por trás… Ela abre-se mais e eu monto-a… estás pronta? Pode ser agora? Sim, sim, posso meter-lho, mas com muitas cautelas… não me devo esquecer que ela não está prevenida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca comi uma gaja que me manifestasse interesse em ser comida como está a acontecer. Está na onda, é isso… e passado um minuto e tal de eu estar dentro dela, dá conta que eu me enganei no buraco… Então manda-se ao ar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não! É muito repentina no seu gesto… não quer que lhe vão ao queijo! Isso é… isso é uma depravação e, além disso, faz doer! Se eu quero enrabá-la, então que vá ao queijo às amigas… se elas gostarem. Mas com ela não! E reconduz o pau para o outro buraco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mónica baralha-me… se não me realizo, jura que nunca mais faz experiências comigo. Dirá a toda a gente que eu não aguento duas. Vai berrar e fazer com que toda a gente se aperceba… Bem, se ela começar para aí c´os berros, não digo que não me venha só pelo susto. Se fizer com que eu me venha mais suave, dou-lhe o dobro porque me quis satisfazer… o dinheiro é uma velha arma, por certo ainda me ajuda a comprá-la (muito provavelmente, a cabrita está a aproveitar para me fazer o peixe caro).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tu sabes, Mónica… Então, minha &lt;em&gt;periquita &lt;/em&gt;de bairro, agora não dizes nada? Sim, eu sei que não estás habituada a isto. Sinto-te o corpo muito mole quando a minha gaita buzina pela segunda vez… Mas agora fica assim, quando voltarmos prá próxima já estarás mais confiante, depois de teres experimentado a minha verga lá dentro, e de saberes a minha medida…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mónica sai da cama, de rompante. Sou um traidor diz, um safado &lt;em&gt;saca-rolhas,&lt;/em&gt; membro de um grupo de tarados comedores de sexo… enteso a verga enquanto vejo as fressureiras a bater pratos, rio-me no meio delas a olhar para o centro do espelho… tem uma fantasia colorida e é um prazê-la vê-la alegrar-se. Às vezes um engano no buraco faz prodígios; é um grande incentivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de me vestir, dou-lhe uma nota monumental! Agora já não me fala em experiências… só tira… Eu visto-me. Fica debaixo do chuveiro com a água a salpicar-lhe e começa a trautear baixinho… é um alívio e quando vê que resulta desata aos gritos à voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não cantes mais», ironizo. «Não estragues a voz! Mónica, escuta… prepara-te prá semana… oh, mas prepara-te bem! Tenho um dia de folga, Mónica; dedico-o para ti… Telefona-me…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais uma saída do género. Para a próxima não vai ser tão dura; não se vai cansar de me oferecer tudo e mais alguma coisa, mas eu não sou de me fiar nestas cabriteiras…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente Mónica pára o canto. Bem… não há dúvida que tem o que queria. Já sabe o que há-de fazer ao níquel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas divertimo-nos? Já nos sentimos consolados? Bom! Então, se eu não vir inconveniente, vai estender-se sobre a cama durante uns minutos, para esperar por um amigo e acabar o seu dia em grande… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-470573094151463614?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/470573094151463614/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=470573094151463614' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/470573094151463614'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/470573094151463614'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/10/contos-de-ratazana-marina-monica-e.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TK4YRTiNC2I/AAAAAAAAANI/MvFqJjF1f0c/s72-c/OPiece59.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-2709823967014952915</id><published>2010-09-15T13:47:00.000-07:00</published><updated>2010-09-15T13:58:51.294-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TJEzaHP4T3I/AAAAAAAAANA/q3YlwZbwhnM/s1600/cau_gomez3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5517247542220836722" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 255px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TJEzaHP4T3I/AAAAAAAAANA/q3YlwZbwhnM/s320/cau_gomez3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;__________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas, Thor e Piranha …&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas foi até ao meu negócio e, não me encontrando, deixou um recado dizendo que podia ir ter com ela ao café da esquina. Vou até lá e topo-a a uma mesa, na companhia de uma esquelética de cabelo russo, de ar tuberculoso que lhe tem andado a fazer uns gajos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ando a matar-lhe a fome», desabafa Panquecas, enquanto seguimos de regresso ao bar. «Mesmo estando a sala cheia de mulheres, vais encontrar mais esqueléticas sentadas nas várias mesas. O bar é como se fosse um abrigo… achas que elas têm alguma inferioridade de estar sentadas à beira umas das outras?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não preciso pedir satisfações a Panquecas o motivo da sua visita… passa a porta ligeira à minha frente, maneando o cu magrinho e rebola-se ainda mais quando topa que o estou a fisgar. Procura um cabrito e aqueles olhares na sala ainda lhe provocaram mais desejo. Enquanto lhe tiro o café, coça-se ela o pito… Fazia questão de me vir visitar há mais tempo, diz-me ela, mas o amante tem-na mantida em respeito… e ultimamente ela tem-se sentida obrigada a satisfazer-lhe alguns desejos para com ele devido a certas escaramuças…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por acaso uma das suas escaramuças não se chamará Thor? pergunto-lhe. Oh… Thor, aquele javardo muito íntimo e muito doido? Panquecas tosse forte, passando a língua pelo primeiro gole de café e enfia-lo na boca. Sim, Thor tem andado a arranjar-lhe conflitos… ele e a outra, aquela piranha brasileira, muito piranha… São ambos tão javardos… e tão bem-parecidos: mas tão boémios e tão problemáticos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas trás um penteado em madeixas e tem vestida uma blusa tão justa que as mamas parecem duas iscas chapadas… e a saia é tão justa nas ancas que ao andar, as pernas, fazem um encosto… Apalpá-la conforme está vestida, é precisamente o mesmo que estivesse sem nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas começa a fazer perguntas. Para Thor, diz ela, raparigas como ela e a outra, Piranha, são uma droga. Tal como um pândego, Thor gosta de engatar raparigas muito rotineiras, fazer-lhes festas, contar-lhes falsidades maravilhosas e seduzi-las; viciá-las em suma. É um jogo, igual ao dos pândegos, apanhá-las na hora, experientes, e ensinar-lhes outros vícios… Mas em Piranha, Thor encontrou uma parceira… aquela cabra matreira é tão imaginativa, se não mesmo tão esperta, como ele próprio, e está a pervertê-lo com uma perícia impressionante. Assim, Panquecas e Piranha, rivais do mesmo ofício, bebem com sofreguidão tal como os alcoólicos bebem com sofreguidão. Acompanham-no toda a espécie de bebidas porque eles são calejados… mas quando se colam os três a beber, Panquecas, Piranha e Thor, são esponjas e sequiosos; bebem como gente grande, não como principiantes, ligeiramente, mostrando por vezes, os apetites…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta história não está bem contada e Panquecas não revela mas também entra nos jogos com marmeladas, mas por enquanto tem-se mantido mais como espectadora do que outra coisa… porque é a gaja de Thor. O rótulo do vício é muito complicado…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas cansou-se de ser gozada na mesa. Puxa o colarinho para cima e encobre-se mais, ao mesmo tempo que saca do cigarro e tira duas para se relaxar. Quanto engole duas puxadas de fumo para dentro, embala-o para o ar e manda a cabeça para trás da cadeira. Quer que ele a leve para a cama. De que lhe valeu fornicá-la durante toda a noite, fazê-la num autêntico oito, ouvi-la gemer centenas de vezes se não satisfaz a ela? Portanto lá se vai as forças, sob a qual não há nada a fazer, a não ser Panquecas… É assim que eles se encontram quando Piranha surge na sala…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas sabe que se trata de Piranha só pela sua maneira de entrar… Mas eles nem sequer têm tempo para fingir que não estão juntos, pois Piranha entra por ali dentro, e Panquecas e Thor estão ainda com as pernas coladas e as bocas abertas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, oh... Piranha é como se sambasse em volta da pista… Romance! Romance! Não esperava que viesse encontrar aqui tanta gente e ainda mais Panquecas… Teria esperado outra altura se soubesse que ele estava acompanhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas desequilibra-se da cadeira e põe em causa a sua segurança. Está furiosa porque imagina que Piranha irá tentar levar o Thor, e ela não queria que Thor saísse com ela… Devia ter ido à bruxa fazer uma reza, diz ela… Não adiantaria de nada… se Piranha o quisesse levar podia fazê-lo através do telefone ou recorrer à pestaninha pelos tascos à procura do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piranha entra para a mesa… não está nervosa, certamente? Nem assustada? Afinal, foi aqui que se conheceram uns aos outros… o tempo dos tremeliques já lá vai… Panquecas fica branca quando Piranha toma a palavra…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas, Panquecas, tu ficaste-me c´o homem… eu fiquei sem ele… Porque é que havíamos de estar lixadas uma com a outra? Já o vi fazer coisas semelhantes ou bem piores do que esta! Oh, havia de o ter visto, uma noite, no Cais da Ribeira, comigo à beira…» (Isto pra mim.) «Excitou-se tanto que não havia maneira de parar de apalpar! E coitada de mim… já me tinha vindo, mas foi uma verdadeira tortura ter que levar como ele pesado como chumbo, a meter-me os dedos por todos os buracos do meu corpo…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Finalmente vi-me obrigada a agarrar-lhe na flauta e tocar-lhe uma à força», declara Piranha, «e deixá-lo apalpar-me à-vontade, enquanto lhe fazia festas nos tomates até que ele se veio.» Toca-lhe no braço com a mão, estende a mão para o seu copo de uísque e mexe-lhe o gelo. «E teria sido um desastre para nós se eu não o tivesse obrigado a conduzir a dez à hora por aquela estrada secundária às quatro da madrugada…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Panquecas não lhe agrada o gesto grosseiro com que Piranha mexe no gelo com o dedo. Apanha-a distraída e saca-lhe rapidamente o copo, põe-se a beber um bom trago. Se Piranha vai contar histórias para mim, diz ela, então que conte uma que mereça registo. Puxa a mão de Thor para cima e põe-na sobre a rata… quer que ele lho coma, diz, e quer que Piranha o testemunhe…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Vês, pedi-lhe para me comer… vai fazer um cabrito, se quiseres… podes fazer tudo o que te der na real gana, menos fodê-lo… e também te podes ir lixar!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento pôr água ao lume… não estou interessado em ter duas putas à bulha aqui no meu bar. Esperemos, se elas se acalmarem e beberem uns copos, tudo isto pode passar para trás das costas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas diz que não há nada a passar para trás das costas… é tudo tão simples como ela se chamar Panquecas… Piranha quer que ele a foda e ela quer que ele a foda a ela. A escolha é dele…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piranha não se incomoda. Está tão habituada a assistir no bar a cenas baralhadas, lordescas, que deve achar esta meramente como um simples conflito de palavras. Com Panquecas ainda a falar, Piranha inclina-se para a frente e acaricia-lhe uma das brancas faces lisas... Quem lhe dera ter uma pele daquelas, suspira. Sabe como há-de pôr Panquecas de boa disposição… passados sete minutos estão as duas sentadas no assento do carro, encostando as pernas uma à outra enquanto ele liga a ignição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thor não se pode queixar. Se puderam serenar as suas iras, nesse caso também pode comer as duas, e sem a mínima dificuldade. Com duas putas que não se conhecessem uma à outra nem a ele não seria fácil, a menos que estivessem todos mamados, mas estas duas mulas conhecem-se bem e conhecem-no a ele, e vão aproveitar-se certamente dos solavancos que para ali vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piranha quer alinhar. A três ou a dois para acabar bem a noite, sugere… um programa de lambidelas, e depois cada uma goza como quiser. Panquecas mostra-se cautelosa… suspeita de um jogo de putas e não alinha nisso quando Piranha quer provar os seus dotes de mineteira. De qualquer modo Panquecas não parece ser a pessoa indicada para fazer parte do jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas puxa rapidamente do cigarro, no que é imitada por Piranha. Ficam à espera que uma dê lume à outra, mas vai no Batalha! A seguir, fazem beiça uma à outra, de bico fechado a votar fumo para o ar... Podia-se julgar que eram duas desconhecidas a caminho da peregrinação do silêncio. Olham as duas para Thor como que esperando que pare o carro, sinal de que o programa pode começar. Fica ali parado num refúgio da estrada, com os olhos esbugalhados e o pau em pé. Sente-se em forma…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piranha estende as pernas para a frente, metendo as mãos entre o meio. Panquecas encolhe-se no assento. Esta viagem não é suficientemente divertida para o seu gosto, explica ela com ar sisudo… a seguir, dirige o olhar em direcção de Thor. «Duas para aviar!» É o que fica na ideia… deviam ter os dois combinado para a levar à molhada…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas já está fria, mais meia dúzia de quilómetros e começa a gritar. Não está programada para este show, quero dizer, consola-se às vezes com outras gajas e ela alinha. Mas Piranha já é, de algum modo, uma profissional… deita-se e bombeia sexo…− acorda e já o sexo a fez bombear − enquanto lhe suga os leites e lhe enfraquece o esqueleto. Os seus olhos não desarmam o corpo de Sónia… enfia a mão sobre o joelho de Panquecas e massaja-lhe o osso… espreme-lhe uma espinha da perna de Panquecas até esta mandar rapidamente com o pé contra a consola, e os seus olhos tornam-se víboras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thor espeta para fora um grito como um macho dorido. Está inchado de desilusão, apático e cheio de frustração. Chispa no pedal para que elas ganhem mais adrenalina, para que a brisa lhes refresquem um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Panquecas tem estado sentada sobre Thor enquanto Piranha a apalpa aos poucos. Mas agora Piranha está a passar-lhe o dedo pela espinha, e Panquecas sente-se para pior. Piranha provoca-a… acerca a boca do mamilo esbranquiçado de Panquecas, mas não lhe chega a beijá-lo… Panquecas passa-se…de repente agarra a cabeça de Piranha e encosta-a contra o vidro da porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Pára, minha fressureira!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caldo entornou-se. Piranha é uma mulher de raiz diabólica. As suas mãos envolvem o pescoço de Panquecas e a língua aparece fora da boca de Piranha. Tendo os olhos escancarados, a expressão faz lembrar a vampira pronta a chupar a vítima, a vampira que há muito tempo não come alguém. Ela não chupa, ela não morde, ela não fode… e tudo aquilo que não faz contribui para a enfurecer numa pequena fera. Thor tem receio que a perrice de ambas contamine a possibilidade de lhes saltar em cima… Raios, a este andar vão-se as duas jogar à mocada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Panquecas sabe até onde ir. De súbito ergue os olhos e avista um posto da PSP a aproximar-se, deixando Piranha perplexa e a mover os olhos para trás e para a frente. Volta-se para Thor e mete a mão sobre a chave na ignição, para o obrigar a parar o carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Pára esta merda! Pára esta merda!», grita ela… e antes que ele dê conta do que está a passar, ergue-se e passa na frente de Piranha, deitando a mão ao puxador da porta… «Pára antes que eu a desfaça contra a porta!».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos de Thor estão pasmados quando ela se manda… tal como pasmada está a sua cara. Abana a cabeça sem sequer entender como chegou aquilo àquela situação. Ela desce do carro e afasta o cabelo dos olhos… quando anda, maneia-se toda; não há uma única parte do seu corpo que não se movimente… já lamenta o facto de Piranha e Panquecas ter vindo juntas numa viagem daquelas… para mais, quando elas não se dão, nem por molho de tomate…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piranha está gostando. Tem os olhos pequenos e brilhantes, e chega o cu para o espaço aquecido que Panquecas deixou no assento; rindo-se enquanto a vê afastar-se. O que ela não contava era com a deserção da comadre Panquecas! exclama ela. Aquela magricelas adoraria vê-la fora da carroça! Pobre da magricelas… tem de conhecer mais erotismo além do que já conhece… Ela nunca viu um homem a foder duas putas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thor coloca-se ao volante e põe o carro a andar na estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piranha, pelos vistos, espalhou-se a fazer umas cócegas a mais… Thor quer saber se aquilo que houve entre as duas é algo mais do que isso. Vou para a cama com todas, como ela diz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Claro que vais», responde Piranha asperamente. «E também comes as amigas de Panquecas! Comes, sim senhor! Panquecas não me vê com bons olhos, mas vai acabar por me ver…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thor tem os olhos inchados, pois já há muitas horas que anda às voltas enroscado nelas como se fosse um aparelhador, mas está demasiado quente para se libertar. Piranha está a coçar-lhe os tomates… coça-lhe os tomates e mete-lhe a língua no ouvido. Não há nada que não faça, aquela mula sabida… Ferra a orelha de Thor… ouve-se vários tipos de gemidos. Troca os tomates pela gaita e toca-lhe meia… suplica que imobilize o carro só um instante… um instantinho…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Deixa-me fazer-te um bico!», intercede Piranha. «Faz o que te peço… tenho comichão a valer…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motor pára de trabalhar. Thor está com a gaita meia fora das calças e Piranha está a chupá-la. Os seus grugulejos duplicam-se com o movimento e ela começa a falar-lhe… depois a sua mão discai um pouco e abarca também os guizos de Thor. Está a gozá-los a ambos em simultâneo, e a despeito dele ter o mastro a meia haste, ela não se detém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim já não sabe onde está e quem o está a chupar… geme que se está a vir… dá-lo com força, até as peles avermelharem… e o mastro explode. A seguir regressa ao volante. Agora o mastro tanto lhe faz… está demasiado grogue para se levantar, mas soube bem dar conta do recado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thor devolve Piranha ao seu domicílio… depois, finalmente deixa que os lençóis lhe resguardem as últimas forças…&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-2709823967014952915?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/2709823967014952915/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=2709823967014952915' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/2709823967014952915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/2709823967014952915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/09/contos-de-ratazana-panquecas-thor-e.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TJEzaHP4T3I/AAAAAAAAANA/q3YlwZbwhnM/s72-c/cau_gomez3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-2489287949629752613</id><published>2010-08-12T10:42:00.000-07:00</published><updated>2010-08-12T11:05:22.543-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TGQ2PWOPJtI/AAAAAAAAAMw/UCiNd3ae9RI/s1600/NCA7V5MTTCAVOK726CAFIN2Q6CADDNKUKCAJS1LWUCA2S9ND9CAQAU3JVCAARBW6LCALS5PDACA84H8BWCAJ99DLZCANJ2MGECAK4RPKHCATQ8TMNCAE7SSILCAM18KL6CA5KQALLCA1MTDG6CACWACC7.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5504584281844819666" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 249px; CURSOR: hand; HEIGHT: 214px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TGQ2PWOPJtI/AAAAAAAAAMw/UCiNd3ae9RI/s320/NCA7V5MTTCAVOK726CAFIN2Q6CADDNKUKCAJS1LWUCA2S9ND9CAQAU3JVCAARBW6LCALS5PDACA84H8BWCAJ99DLZCANJ2MGECAK4RPKHCATQ8TMNCAE7SSILCAM18KL6CA5KQALLCA1MTDG6CACWACC7.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;                                                      OS HOBBIES DE RIBEIRINHO…&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ribeirinho pensa que eu devo usar a minha influência sobre uma gaja boa, alguém com quem pudesse fazer uma parceria no bar. Há um sistema a mudar, garante-me, sistema para todos os que estiverem por dentro e, tanto ele como eu podíamos ganhar uns trocos somente por angariarmos uns quantos clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ribeirinha já anda a explorar tanta gente há tantos anos que já nem realmente se dá conta de que o faz… acha-se um especialista a apanhar incautos caídos de pára-quedas. Ribeirinho cansa-se muito para viver sem cansaço…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um pacifista, Ribeirinho é pacifista e acredita nas soluções. De que outro modo é que alguém como ele conseguiria ganhar a vida? pergunta ele. É o que resta dos anos que passou nas explorações do bar. Entregaram-lhe, mas tiraram-lhe a privacidade dos hobbies… deixaram-no sem tratar dos cães, dos carros, do jardim, e a TV/Internet, o JN/ Grande Porto… tudo motivado concretamente pela falta de gente habilidosa que vegeta na boémia da Invicta, onde frequentam os locais mais rascas da cidade…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer maneira Ribeirinho pensa que eu tenho a vantagem da influência − ou da proximidade, pelo menos, sobre as gajas boas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas que diabo andas tu por aí a fazer quando visitas as capelinhas?», pergunto eu. «Não tens mesmo uma ideia? Olha que vagabundam por aí gajas que valem ouro… há uma resma delas… uma resma de aproveitares a ganhar dinheiro. Olha, tu até podias dar umas percentagens dos clientes que elas levam… elas não se iam importar por ganhar um pouco mais… c´os diabos, se calhar nem se importavam mesmo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos interrompidos por Paula, que diz que tem uma história gira para me contar. Tem uma colaboradora na sua casa de arranjinhos, cujo nome não quis divulgar, que lhe pregou uma partida que a deixou arrasada…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ela era apenas uma colaboradora… vocês sabem, uma colaboradora muito íntima e eu apresentei-lhe os meus fregueses e ensinei-lhe todos aqueles truques de foda rápida que uma mulher de meia-idade certamente devia saber. Depois ela foi-me à carteira… e eu mandei-a de frosque. É para ver os sentimentos que estas putas têm por quem lhes deita a mão. Mas passadas duas semanas ela regressou. O meu freguês tinha a mulher em férias e queria uma completa… bem, o que se passou é que ela viu-me fora de portas… vai daí, levou uma mão cheia de fregueses para a cama e voltou a roubar-me…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Roubou-a? Ordinária!». E o meu amigo olha muito admirado… Até que lhe resolve perguntar. «Como é que ela lhe roubou? Foi outra vez à carteira? Apanhou-a em flagrante?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sim… tinha uma máquina de vídeo camuflada num candeeiro. À noite, liguei o televisor e passei a cassete atrás… e lá estava a puta c´os fregueses na minha cama a malhar… E quanto a mim, ponto final com a puta! Que é que vocês acham disto?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como nem Ribeirinho nem eu achamos muita graça à história, Paula encaminha a conversa para a mesa de uns clientes. Agora que eu ia pedir-lhe para mudar de conversa, diz ele… é que ela se foi, mas eu hei-de ter uma conversa de a levar para o bar. Entretanto ele gostaria de conhecer uma trintona atraente, alguém com quem pudesse praticar uma parceria. Mas uma que quisesse ganhar dinheiro, apresse-se ele a acrescentar. Uma que ganhasse a sua vida, seria óptimo, e então uma puta seria melhor, diz ele… Digo-lhe que já conheço poucas trintonas atraentes, mas talvez Tina faça uma vaquinha ou tenha uma ou duas que queiram… Vou informar-me. Ribeirinho fica muito agradecido… ofereço-lhe um café e uma bebida. Qualquer gaja serve, insiste em que qualquer uma servirá, absolutamente, desde que não tenha piolhos e tenha os dentes todos da frente…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, depois de ter falado com Tina e Ribeirinho tê-la levado para o bar, acabo o meu serviço e redigo uma página para os cibernautas da internet, &lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1)&lt;/span&gt; até ir ao encontro de Ribeirinho. Sente-se extraordinariamente bem-disposto, e só fala de Tina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que mulher! Oh, que mulher e cheia de olho! Não quero saber, se tem uma casa de meninas, só quero que chegue ao bar às nove da noite! É claro que teve de entrar no sistema para trabalhar com Tina… assim, disse-lhe que tinha de fazer o jogo dela… se ela lhe fizer alguma observação, o melhor é dizer-lhe que estão juntos nessa jogatana de cabritos. Além disso encontra-se tão animado a falar de Tina que quase não ouve nada do que eu estou a dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ela sabe como se deve sacar», diz-me ele. «Ó, pá, ela sabe tudo a respeito de sacar. Ratazana, tu ainda não tinhas entrado há meia hora, e já nós estávamos nas manobras! Podes crer! Bolas, sabes como esta coisas se fazem… agora fala-se pouco e bebe-se menos, e no minuto a seguir mete-se-lhe a conta ao freguês e está no ir pró quarto…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detemo-nos enquanto Tina bate o pé no chão para acordar um freguês que está a ressonar numa mesa dos fundos, perturbando a música que sai das colunas, e lhe dá cinco minutos para se pôr fino. Empurra uma mulher que aparece nas escadas, chorona, um seio de fora do vestido, falando ao telemóvel histericamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É melhor sair, disse ela», continua Ribeirinho, «portanto, lá fui para o meu escritório… mesmo assim, pus-me à &lt;em&gt;cuca!&lt;/em&gt; Não é o raio de uma manobra, que me atrapalha… queria estar ali a ver como é que ela actuava, naquele sistema com a mulher da idade da tia e também ir com a quarentona para a mesa do freguês! Primeiro a mulher da idade da tia, depois com a quarentona… oh, my &lt;em&gt;God!&lt;/em&gt; E deixa-me contar-te uma coisa… lembras-te do que te contei acerca da mulher da idade da tia? Que ela me fez ir buscá-la a casa a cerca de quinze quilómetros do Porto e queria que a levasse de volta? Bom, a quarentona, idem, aspas… Sim senhor, a primeira vez que veio para o trabalho, não teve pejo nenhuma em me solicitar para a levar a casa! Pela tua saúde, Ratazana, já não sei se quero continuar com este sistema ou não… quando existem gimbras como estas nos cabritos. O maior problema, agora, é a mudança… não sei se deva voltar aos alternes, ou ir por aí…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ribeirinho teima em relatar o assunto durante alguns minutos, mas volta a falar de Tina e das gajas monstruosas que ela acompanha. Ela contou-lhe histórias nas folgas, diz-me ele, e quer que eu adivinhe quantas fodas ela deu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Um milhão!», exclamou velozmente. «Oh, talvez hoje essa marca já tenha ultrapassado, mas deixa ver… deixa ver até ela atingir a idade do caruncho e então vais ver. Principalmente se ela se mantiver nessa vida, todos os dias e noites a malhar. Há quem foda uma mulher destas sessenta vezes por mês, quando se é cliente há dez, quinze anos… Ora uma mulher destas chega a ter mais de uma centena de cabritos-mês… Histórias de fodas dadas… e também de fodas levadas… sabias que ela vem-se por simpatia? Pois vem-se… bom, pelo menos disse que era constante acordar molhada… Mas porque diabo é que não vim para os alternes quando tomei conta do bar? O que é que se passou comigo numa altura dessas? Mas talvez fosse bom não ter vindo... Não o teria experimentado… tal como tu ainda não te cansaste. Que idade tens, cerca de cinquenta? Ó, pá, aceita o meu conselho, vai para a reforma e arranja duas centenas de milhar de euros, depois vem para o rio Douro e vive para o resto da tua vida… Mas não te estabeleças… não te estabeleças, faças lá o que fizeres, porque tens sempre oportunidade de conhecer uma gaja manobradora como esta Tina para te contar histórias e te fazer umas cócegas, se tiveres duas centenas de milhar de euros…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um bom conselho, mas Ribeirinho não pensa em me dizer onde é que eu vou arranjar as centenas de euros. A sua cabeça preocupa-se com assuntos mais importantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Nunca hei-de esquecer o aspecto dela quando se amarfanhou e ficou ali no sofá, exibindo o latim e desafiando o freguês pró chegadinho. Ela também não era tão acanhada a falar… só que contava muita história. Que raio de paleio para se falar acerca de engate! Preferia que não gastasse tanto latim… pelo menos evitava que eu perdesse tanto tempo.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Penso», disse Ribeirinho, mais tarde, quando estávamos no bar, «que devia esperar que ela fosse assim. Afinal, se as amigas eram tão rascas, ela também não devia fugir à regra... está-lhe na veia. Mas escuta, Ratazana, a partir de agora vou deixar de pensar em Tina e nas suas acompanhantes… portanto, sempre que eu venha cá e me apresentes alguém interessado no negócio, já sabes que estou sempre disponível. Vou fechar uns dias para obras e quero que me auxilies. Não estou mais interessado em meter-me em aventuras.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Olha Ribeirinho, não vejo muitas hipóteses sobre o assunto…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É o que te parece. Vai correr tudo bem, quem to diz sou eu. Tudo o que tenho a fazer é fechar uns dias e abrir com novas caras para trabalhar nos alternes. Oh, Ratazana, vim até aqui para me experimentar… não me vais dizer que fiz mal, pois não?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não, claro que não Ribeirinho, mas continua a pensar que…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bem, c´os diabos, cada um pensa à sua maneira, tubo bem… Julgo que te devo uns favores...»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não, deixa lá isso Ribeirinho, não quero o teu mal… eu só quero que tu vás em frente… eu só…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Então põe aí outro igual a este, e não se fala mais nisso, ou preferes que peça isto como deve ser… &lt;em&gt;Garçon! La même chose!&lt;/em&gt; Que tal?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ribeirinho está a ficar informatizado… já aprendeu a atender o cliente curvando-se à mordomo… a servir um pedido de uma ponta a outra do bar sem dar a impressão de estar a servir labregos… até a sua paciência está mais calma, pelo menos para atender os fornecedores…&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;- 1 - O autor encaminha a sua obra para o Google,&lt;br /&gt;através do email: bardotraidor@gmail.com&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-2489287949629752613?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/2489287949629752613/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=2489287949629752613' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/2489287949629752613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/2489287949629752613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/08/contos-de-ratazana-os-hobbies-de.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TGQ2PWOPJtI/AAAAAAAAAMw/UCiNd3ae9RI/s72-c/NCA7V5MTTCAVOK726CAFIN2Q6CADDNKUKCAJS1LWUCA2S9ND9CAQAU3JVCAARBW6LCALS5PDACA84H8BWCAJ99DLZCANJ2MGECAK4RPKHCATQ8TMNCAE7SSILCAM18KL6CA5KQALLCA1MTDG6CACWACC7.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-3682223397179849110</id><published>2010-08-05T12:14:00.000-07:00</published><updated>2010-08-11T11:19:39.438-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TFsSbfphlQI/AAAAAAAAAMo/Dx0zsN_WCg8/s1600/eds-cartoon-25.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5502011633324627202" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 254px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TFsSbfphlQI/AAAAAAAAAMo/Dx0zsN_WCg8/s320/eds-cartoon-25.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;Pub&lt;/em&gt; do Cacá…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No &lt;em&gt;Pub &lt;/em&gt;do Cacá… o empregado fazendo o melhor que é capaz com o seu inglês de bar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Nós não temos o Crime, mister. Temos o Jornal de Notícias e o Jogo.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não», diz o mister. «Eu quero o Crime, tem um bom título. Só fala sobre o delito, não é?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É sim, mister.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Gosto do título; quero esse jornal. Compre-mo logo.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai-se o empregado, com a gorjeta no bolso, e aparece o &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; João a cumprimentar-nos. O &lt;em&gt;barman &lt;/em&gt;João, é imensamente reconhecido, e está bastante firme de poder controlar a situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Desculpe-me, mister. O empregado disse-me que o Senhor desejava o Crime. Não vai gostar do jornal, mister. Posso sugerir-lhe O Primeiro de Janeiro?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não, quero o Crime. Gosto do nome. Os Portugueses são um povo fantástico, um grande povo aventureiro… Vim cá porque admiro o seu espírito bairrista. Quero arranjar esse jornal sobre o delito.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt;, de sobrolho levantado, distancia o olhar em torno da sala, firmamento. Impossível dizer o que está a imaginar sobre o mister, mas sei que as suas opiniões sobre mim e sobre Paulo, são meramente favoráveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Já vão seis pró maneta, mister, mas não é sobre o delito… é sobre homicídios. É para leitores.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bem, eu leio, tu lês… compre-o. Compre-o hoje.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mister!», grita o &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; João, preocupado, «não está a entender! É o jornal dos ´crimes`!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto podia durar uma tarde inteira, mas Paulo descobre uma mesa onde está Cacá, o proprietário do &lt;em&gt;pub,&lt;/em&gt; e é para lá que nos dirigimos. Cacá não faz cerimónia e convida-nos a sentar-nos. Segundo o que Cacá nos disse, alimenta vários romances, secretos e abrasadores. Através de mim, Paulo tem andado a frequentar o &lt;em&gt;pub,&lt;/em&gt; farejando um esquema qualquer e Cacá ignora-o. Paulo sempre em toda a vida desejou entrar num desses romances, esquemas abrasadores de fazer tesão, sobre os quais se ouvem vagos comentários nos pubes da Invicta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cacá é, realmente, o tipo de homem que Paulo gostaria de ser. Calças feitas por medida, uma bela cabeleira preta, uma carteira repleta de Visa-Visa, e um cordão de ouro ao pescoço para o embelezar, o ar sadio de quem come e bebe bem, e abastece de energias no ginásio do Dragão praticando boxe. Ele e Paulo passaram quinze minutos a confessar-se, abrindo-se um ao outro… eram como dois amigos falando, abertamente, decidir se num futuro próximo, deviam engatar A ou B, para gozar um fim-de-semana em qualquer lugar ou apenas irem para a pensão de Paulo para darem uma rápida…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez estivessem a representar um para o outro. De qualquer forma eles são completamente a favor de jogos quando se trata de conjugar planos com saias. Paulo, que ouviu o final da conversa do mister com o &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; João, começa a falar das últimas novelas. A Patrulha de Segurança e dois guardas à paisana foram chamados, diz ele a Cacá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A velha táctica do Grande Reinaldo(1)… atrair as miúdas com os provincianos e fazer arrotar os labregos pelas miúdas. Oh, os nocturnos são sábios nos seus métodos, como também o são os galegos com a sua conquista muito simples. Regra geral uma tentativa do golpe de baú é suficiente para acalmar os nocturnos. China e Pedro(2) quase levaram as gémeas a entrar no manicómio… &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;…O saque das seis latas de moedas de vinte foi inteligentemente levado a cabo para que as gémeas não mais se esquecessem de ambos. Mas agora… as pessoas começam a aperceber-se de que China não era o único explorador na Invicta, era somente o mais exibicionista. E os nocturnos, como todos os machistas, têm a paixão do sexo… quando estão michos uma mulher da viela, éguas de luxo quando estão endinheirados.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após este resumo muito breve, Cacá, o &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; João e Paulo estão na mesma onda quanto à venalidade dos factos nocturnos, e o entusiasmo do &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; João começa a revelar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A questão é esta», diz o &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; João, «hoje em dia toda a gente quer explorar toda a gente… é por isso que o delito nunca terá sossego. Porém, os nocturnos são o único grupo que se dedica a estudar a maneira de perder dinheiro na noite. Aqui não há nenhum jornal que não foque um artigo dedicado a assuntos da noite, e existem uma mão cheia de cronistas que dia e noite dão notícias e informações sobre a noite. Mas olhe para os pancadas… são loucos por sexo aberto…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Até nos bares se fazem babados», interrompe Paulo, cansado de estar calado. Faz valer os seus conhecimentos, e agora percebo por que é anda sempre a falar para os porteiros, e sendo assim, sabe tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ouve-se falar nalguns, poucos bares», continua o &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; João, «artistas a fazer dois e três por noite, mas quem não sabe disso?» Os otários dos tipos que pagam os alternos, caríssimos, e um número escasso de clientes que visitam duas ou três vezes por semana. Na Invicta, as notícias sobre assuntos nocturnos são correntes no dia-a-dia.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Você comete um erro em relação aos bares por exploração», observa Cacá. «Esquece-se de que não são donos nem responsáveis que estão à frente do negócio… se fossem, tinham outras regras, obviamente. Digo-lhes que eles são gananciosos. Quando se houve o explorador de um bar dizer a forma como vai ganhar cinquenta euros em cinco minutos com uma prostituta de dez euros por um broche no reservado, vê-se logo que pertence à raça de Feliciano(3). É minha ideia que as pessoas são exploradas por abutres do negócio.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não compartilho dessa opinião. Se fossem gananciosos não se lhes conseguia sacar sequer um chavo, e nós não estaríamos agora aqui a gastar saliva. Se não fossem especuladores, de que é que viveriam para pagar rendas tão altas? Mas como eu ia dizendo, os exploradores nocturnos, na Invicta, têm qualquer fêmea, boa ou não, passam logo a mensagem a dizer a estreia… em qualquer dos casos a publicidade produzirá uma alteração no aumento do negócio, e ele pode muito bem aproveitar-se no início, e safar-se antes de vir o desgaste. Há uns patos que vão ser chupados, pensam eles, mas eu não, que sou ganancioso e não vou gastar algum… É um sentimento anarquista, como vê…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;barman &lt;/em&gt;João faz um gesto assentimento. Podia-se imaginar que era um ex-esperto nestas coisas… Tem a sala repleta à sua frente e olha à procura do casal chegado da rua…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O meu último ponto de vista», continua Cacá, «baseia-se na facilidade com que o sistema das casas funciona em relação aos preços. Estabelecem aumentos altos, com um aumento de mais de cem por cento… inventam, sacam, maltratam, fazem tudo o que é preciso para receber e não ter que resolver o problema à solha.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«E a bófia?», pergunta Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A bófia faz aquilo que lhe compete, isso não se discute. O importante é não haver tiros e ninguém se aleijar entre os clientes.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bom, a única coisa de que precisam é de um porteiro. Um bom porteiro, fardado, com classe, espalha a publicidade pelos bares de boa nota e pelos cafés da baixa que tem a frequência dos trabalhadores da zona Centro e tem garantido casa cheia. Só tem de lançar o programa… Os outros porteiros, ao divulgarem as suas informações, dão-lhe publicidade.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; João concentra-se no seu espaço para analisar o trabalho que o espera. O rosto ilumina-se ao mero pensamento da conversa e isso torna-o quase eléctrico. Talvez esperasse que Cacá corresse para ir buscar uma matrona, e Paulo fosse chamar os porteiros, pois mostra-se desapontado quando a conversa termina, sem que daí nada resulte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Cacá prometemo-nos encontrar mais tarde, e Cacá vai sozinho no carro até ao Brasília Club. Paulo apeia-se uma zona mais em baixo. Então eu tomo a direcção da discoteca de Cacá… Cacá não deve ter chegado lá, mas deve estar alguém para dar à língua, o que é uma boa oportunidade para passar um bocado do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo a sala a pente fino, mas está visto que gente não falta para dar cavaco. Cacá não se encontra ainda. A discoteca está meia apinhada de pessoal ávido para dançar e esperar pela meia-noite para ouvir uma de fado. Carlos Alberto, antigo vendedor da &lt;em&gt;Ricard,&lt;/em&gt; encontra-se à beira do balcão e chama-me para lhe fazer companhia. Se tivesse um foguete, diz ele, deitava-o agora mesmo ao ar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto de Carlos Alberto ilumina-se assim que me aproximo. Não esperava encontrar-me por aquelas paragens. Fica a palrar, como um papagaio quando exibe o falatório e não se pode dizer que o seu repertório seja curto. Eu imediatamente começo a escutar a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ouve lá, tu estás fixe!», exclamo assim que ele faz uma paragem. «Nunca me disseste o que fazes para te conservares assim. Diz-me cá, só para os dois, há alguma hipótese de me dares essa receita?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não tenho pedal em permanecer num ambiente destes, mas quero ficar a par das últimas novidades antes de deixar Carlos Alberto sozinho com ele próprio. Depois de algum tempo passado a contar as nossas asneiras, consigo ficar uns momentos a observar a sala. O espectáculo está no início com a música pimba a aquecer os corações destroçados… e não quero perder uma pitada do mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Gostaria de durante uns tempos voltar a ser rapaz», diz, empurrando-me com um chega para lá, retirando-me do espaço onde estava pousado. «E não iria tão vazio para a outra vida… é melhor bebermos mais uma bebida.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A outra vida não se importa que vás vazio quando partires se, também levares um garrafão no caixão contigo», respondo-lhe eu. «Ela tem-te na lista.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carlos Alberto deixa-se emborcar na bebida e fazemos prognósticos enquanto ele saboreia, é chegado o momento do fado… A fadista do Brasília Club é tão graciosa como o fado que interpreta! Ah sim, ela parece que leu o meu pensamento. A fadista dá um ar da sua graça, e o público sente-se atraído pela sua voz. E para terminar… até canta um fado para a dor de corno…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vou eu para uma mesa para falar com Cacá que já regressou. Estive a falar com a Tesouro do Bairro, uma cliente da música salsa, digo-lhe eu. Estive a sondá-la para lhe dares uma foda, e acho que ela só se aninha por dinheiro… gosta tanto de &lt;em&gt;money,&lt;/em&gt; como tu gostas dele no banco. Portanto… tudo o que ela quer é uma foda por cabrito e receber na hora. A minha opinião, como tenho certo conhecimento, é que não a fodas por dinheiro…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cacá acha que a minha opinião é muito relativa. Tudo isso é tão ocasional, diz ele… nem imaginas as gajas incríveis que eu tenho atrás de mim. Um dia destes apanho-a à medida para a levar a ter uma aventura, não acreditas? E há mais como esta. Claro que o diz com toda a naturalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cacá deseja foder bem a Tesouro do Bairro, e tem uma lista de perguntas do tamanho de uma perna. Onde é que ela gosta de levar? Onde é que a vou encabar? Qual é a melhor altura para fazer isto ou aquilo? E durante os primeiros quinze minutos que trocamos de conversa, fica sentado a beber Licor Beirão e armazenar tudo na sua box cerebral. Ainda há muito dela que tem de ser explorado antes de a levar para a cama, exclama, e quer conhecê-la sobre todos os ângulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Informo-o do local onde pode ver uma seta seguida de uma tatuagem que vai da cintura dela até baixo… Se bem que não saiba muito bem onde é que, mora o fim da tatuagem. Depois quer saber se é realmente o tal canal como pensa… ou é, apenas… rasteira? Não era a primeira, é claro… Depois disto apetece-me contar-lhe esta. ´Uma margarida qualquer, depois de umas apalpadelas convence o parceiro que está próxima a menstruação e põe-se disposta a tudo… pelo menos é o que ela disse. Uma vez enfiada na cama, foram favas contadas. Abriu-se como uma lapa e deixou que a manobrasse sem a menor dificuldade. E a cabra realmente deixou-se penetrar pelo espírito das loucuras… estava tão em brasa que não conseguia falar direito… e o prazer parecia uma alucinação.` Suspira, olha de relance para mim e desaperta o colarinho. Bebe uns goles de licor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez ela preferisse que eu lhe fizesse um telefonema para a levar a passear? pergunta-me. Pensou nisso quando estava a ouvir-me, mas acha tão banal usar esse pedido e, além disso, não se sente excitadíssimo… Contudo, se ela achar que eu não uso a nota para a comprar, vai ter que decidir daqui para a frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou curioso como ela é… aquele seu pequeno cu arrebitado chega para me dar tesão, com tatuagem ou sem tatuagem. Como a como só com os olhos, o cu parece ficar mais arrebitado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cacá puxa a camisa para baixo e entretém-se com as suas mensagens. Oh, aquela gaja! Passa o tempo a convidar-me para tomar café e levar uma queca! Quando é que alguma vez vou ter tempo! exclama ele. E eu sei o que é que aquilo o leva a querer fazer? Fá-lo querer perder a cabeça… sim, perder tudo... Mas depois de me revelar isto, faz-se atrevido. Por fim tenho de o elogiar e contar-lhe uma anedota dos nocturnos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uhuh, graceja ele… mas é uma anedota ordinária, acrescenta logo a seguir... Estou certo de que a tatuagem de Tesouro do Bairro fazendo sessenta e nove com os clientes ficaram gravados na mente de Cacá, mas ele fecha-se em copas, ou mesmo de pensar em lhe comer o pacote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raio, suponho que a podia conquistar por dá cá aquela palha… Qualquer prostituta, desde que esteja a ser paga, não é difícil convencê-la a umas brincadeiras extras. Umas cócegas no grelo e está pronta a tudo… mas ele quer que a iniciativa parta dela… ou pelo menos que ela assim o assuma. Conto-lhe aquela da vendedora ambulante que, depois de experimentar levar no cu, andou meio século até descobrir uma pissa que a satisfizesse… Riu-se assim que acabo de contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas prostitutas! O que elas gostam de apanhar alguns patacos em troca de uns serviços! Do que a Tesouro do Bairro mais gostaria, agora, exclama ele, era que eu lhe metesse uma nota graúda na mão e a fodesse até ficar paralisada, mas não se quer familiarizar com a minha atitude mais do que o fez até à data… Mas eu posso ser tão teimoso quanto ela… Lanço-lhe as minhas pestanas, mordo-a à distância, com a língua aguço-lhe o desejo. Quando me aproximo muito dela murmura baixinho… eh… é hoje… por que é que não a levo agora… Oh, devemos ser iguais àquelas mulas matreiras das feiras, não devemos? Sim, estamos a fazer quase o mesmo papel que elas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abana a cabeça quando lhe digo que lhe lance um repto. Da primeira vez esteve quase… depois passou. O que é que queres que eu faça? pergunta. Como se o desconhecesse, como se não tivesse um pequeno gesto de lhe oferecer um ramo de cravos, um saco de bombons, algo do que ela não estava à espera! Quero que ela mo chupe e também me foda. É isso? Fá-lo-á, se eu lhe pagar. Mas eu não pago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tipo aguenta certas merdas até um ponto. Imagine-se uma mulher com uma vontade do tamanho do elevador dos Guindais, uma prostituta com os anos da putaria que a Tesouro do Bairro já tem, e a tentar convencer-me que não entende que quero que me dê uma goela! Decido dar-lhe só mais uma chance… depois, se não toma a iniciativa ao mesmo tempo que me conhece, ponho o seu nome na minha lista de espera e o caso arruma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante uns brevíssimos dias tudo se modifica. A Tesouro do Bairro aparece no meu bar… dá a impressão de se sentir realmente só e pede-me para lhe chamar um táxi. Digo-lhe para aguardar e Cacá subitamente aí vem, e ela está ainda a saborear o café da noite. Torno a pô-los lado a lado e ela também entra na conversa… pede-lhe uma boleia para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que se encontram a sós a Tesouro do Bairro diz que não vai voltar com a palavra atrás. Não, desta vez perdeu a oportunidade… perdeu mesmo. Não faço ideia o que ela pensa de mim e por que me quer extorquir a nota? Tem de pensar que sou um amigo! Oh, uma prostituta tem que ter ética! O tempo para estas aventuras já pertence ao passado... Uma rapariga na sua idade e nas suas condições, tem de ter bom senso para tolerar certas coisas… etc., etc.…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer engordar a boleia, mas eu tenho um encontro. Persuado-a a beber uma taça de champanhe, depois mais tarde. Torno a olhar para a seta. Aquela em que a Tesouro do Bairro exibe junto ao rabo atraindo os clientes enquanto lhe fazem namoro, parece exercer uma atracção sexual… Certamente que ela nunca teria feito aquilo se não tivesse um sentido intencional…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Asseguro-lhe que nos veremos… e logo se ela viesse até ao &lt;em&gt;pub &lt;/em&gt;numa de beneficência… ou prefere o cachet? Pensa que o cachet é mais agradável, mas realmente, não devia… e deixa-se ir de sorriso ardente e gravita no breu da noite como um tesouro apetitoso...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;________________&lt;br /&gt;- 1 - Antigo boss da noite&lt;br /&gt;- 2 - China e Pedro: capangas do Porto, cujos saques provocaram a desgraça das suas vítimas...&lt;br /&gt;- 3 - Personagem nocturna dos anos 80.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-3682223397179849110?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/3682223397179849110/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=3682223397179849110' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/3682223397179849110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/3682223397179849110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/08/contos-de-ratazana-o-pub-do-caca-no-pub.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TFsSbfphlQI/AAAAAAAAAMo/Dx0zsN_WCg8/s72-c/eds-cartoon-25.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-5481159820640369418</id><published>2010-07-12T13:48:00.000-07:00</published><updated>2010-07-12T14:18:41.043-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TDuER-7UAVI/AAAAAAAAAMg/RsQMAI0vV3I/s1600/stfu.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5493129614992867666" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 250px; CURSOR: hand; HEIGHT: 250px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TDuER-7UAVI/AAAAAAAAAMg/RsQMAI0vV3I/s320/stfu.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TDuER-7UAVI/AAAAAAAAAMg/RsQMAI0vV3I/s1600/stfu.gif"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;_________________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;  &lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;                                                  &lt;em&gt; O ATIRA-CÚS...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal sempre é verdade. O Paulo está no topo do mundo por comer um cu rapado. Tudo o que ele quer, como prova da sua excitação total, é um buraco sem pêlos ao ar, quando passa um serão maravilhoso. E não é só um cuzito rapado… um programita bem afinado, ou algo onde não haja que roçar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Foi a Pernambucana quem mo deu», confessou-me ele, «e a Baby-Sitter ajudou à festa. Não é de gritos?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arquei-a as pernas o suficiente, deixa-se encurvar e ergue as mãos de forma a eu poder ver o seu estilo à cão… Tem o sorriso no rosto… um pouco rufia, porque na sua face ainda se pode ver uma leve malandrice quando a luz incide na sua pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Eu tinha uma vontade tão grande enquanto ela se maneava.» Paulo ri-se. «Parecia um touro com olhar de matador. A Baby-Sitter disse que havia de ser bom se eu me pudesse aguentar meia hora antes de me vir desta forma.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino a cena… A Baby-Sitter segurando a cabeça da cadela entre as pernas, usando-a na lambidela familiar. Paulo mantendo afastada as bochechas do cu da Pernambucana, enquanto lhe passa o pau barbado pelo rego… Sim, deve ter sido uma cena fantástica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo não se consegue manter quieto diante de mim. Mexe o corpo de um lado para o outro, estica-se quando vê uma mulher a passar. Está outra vez com comichão no pincel… prometer-lhe o queijo foi bem o grande remédio para lhe atiçar os calores. Podíamos jogar um palpite, diz-me com ar travesso, só para ver se o meu faro consegue reconhecer uma paneleira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como reconhecê-la… O que eu penso, aquela coisa funciona com a cabeça de baixo, um olhar e fica duro como pedra. É como se já tivesse uma pedra dentro da calça… Mas Paulo sabe como encontrá-la…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo está livre de horário. Agora não tem qualquer impedimento para comer um queijo daqueles, diz ele… talvez venha assediar uma das minhas prostitutas… e lá vai ele direitinho ao meu grupo, para falar com uma à boa. A mula pede muita massa, pede o que quer, e acrescenta, um cuzito careca como aquele não tem preço… está na grelha das virgens…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Paulãozinho,&lt;/em&gt; acha ele, havia de ter um formigueiro muito forte com o cheiro. Enfia a mão no bolso, aperta o pénis num anel esganado, e olha para baixo… Sim, não há dúvida que tem de conservar a cabeça para baixo, para manter a calma diz. Faz-lhe cócegas sob a tola… Se não tivesse comido aquele queijo com um cheirinho azedo de ovelha, acha ele, provavelmente não levantaria a cabeça, tão rapidamente, e nunca saboaria… Perderia o seu faro. A Pernambucana e a Baby-Sitter, continua ele, não deixaria que ele as abandonasse…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo diz que adora a Pernambucana, acha que ela é boa sempre depois do jantar. Algumas vezes a Pernambucana parece uma fada, quando se arma em gata naquele estilo mamã que ela tem. A Pernambucana diz-lhe para fazer uma posição e, se não obedecer de imediato, ela obriga-o a fazê-la. A Pernambucana tem muito nervo, especialmente nas noites de garrafas vazias... uma vez postas as suas garrafas em cima da mesa, não podemos negar… e enche uma quantidade de copos para nos esborracharmos. Oh, a Pernambucana mantém-me de pila feita quando brincamos aos cavalinhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que também gosta de Baby-Sitter, diz ele, mas de uma forma completamente diferente. Com a Baby-Sitter, sabe-se que é tudo confusão de línguas… Ela na verdade pensa, diz Paulo, que toda a rapariga deve viver uns tempos com uma cadela, mesmo que pretenda largar a prostituição e não ter chulo e ser uma rapariga de poupanças dali para a frente. Paulo, diz que eu tinha razão… as cadelas substituirão os homens…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo senta-se, com as mãos atrás sobre a cabeça, observando-me enquanto me despacho de um cliente. Quer que eu oriente uma mula baratinha. Pede-me ele. Respondo que vou ver. E fica de pernas abertas, os olhos a ver o que se passa. Estou em linha com uma e a alternativa na outra…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo experimenta uma certa negra oriunda de uma África longínqua. Diz chamar-se Sílvia. Quando Paulo a levou, diz-me ele, tudo o que ela fez foi despir-se e ficar esticada como uma tábua de engomar… Agora salta para aqui! Disse-lhe ela, e ele sentiu-se fodido. Abriu-lhe mais as pernas, e deu uma vista de olhos para satisfazer a sua curiosidade. Bem, não se admira se ela tenha posto algodão no pito para encobrir uma possível tia-maria… Ficou em cima dela antes de poder ganhar tesão, a verga na mão e as ideias noutra…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estar a foder Sílvia com esta atitude é como estar a foder uma velha de asilo, se exceptuarmos o facto de que uma velha de asilo nunca teria uma pintelheira tão farfalhuda. O seu ventre, conta ele, mal se esfregou contra o dela, a única reacção que soou foi o seu &lt;em&gt;SOS &lt;/em&gt;de fome, nada mais. Entre as suas mãos não se encontrou um afecto, um carinho, ou um calor de forno de alta tensão, nada além da sua imobilidade. Tem um aspecto mais frio do que uma perua morta… Mas esteve a aviá-lo a conta gotas, como sempre o fez… como uma mulher desfasada, ou ainda mais, aguentou-o até ao fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que se tratou unicamente de um cabrito mas isso não torna menos real o facto da sua pele lhe saber a catinga. Enquanto foi só catinga ele não se ralou, deixando-a continuar a espalhar-lhe o contacto com o corpo enquanto a fodeu. É um odor intenso, penetrante, nada que se pareça com o cheiro a suor que costuma deitar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não volto a sair mais com Sílvia, desabafa ele… aquele coiro é demasiado pastelão. Tinha o olho do cu na mira, fiquei incontrolável, mal meti o pénis no buraco, gritou como uma fera, e não me deu hipótese e depois aplicou-me uma massagem… uma punheta, para ser mais claro… que completava o serviço…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo não deixa esquecer aqueles momentos que foram foleiros… há muito tempo que não enfiava um urso daqueles, e está muito furioso consigo. Tenho-o de o acalmar, mostrando-lhe que nem sempre se acerta na pomba certa, senão vai falar mal delas. É o único motivo por que Paulo pára às vezes de engatar putas… para que preste mais atenção às não-putas… Claro que não pára por muito tempo… duas noites é tudo o que consegue. Depois, vai querer novamente um cu a bater-lhe ao pau e partirá para outra aventura. Suspeito que pensou que Sílvia só lhe desse o &lt;em&gt;mataco&lt;/em&gt; (cu) se lhe oferecesse dormida grátis na sua &lt;em&gt;maison,&lt;/em&gt; e tenho a certeza que ela não foi na fita…, ou era muito mais ingénua do que ele para embarcar nessa droga de cantiga…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo estica os braços acima da cabeça e arqueia as pernas, e o sorriso quase lhe desaparece... Quer que eu abafe o caso dele… mas só por uns dias… enquanto ela não tocar no trombone…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Olha para mim…ela fez-me uma punheta, como se eu fosse um estudante, nem mais… fiz uma figura tão parva que nem me quero lembrar», diz Paulo. «Não tens por aí uma marreta para me dares com ela na cabeça? Deixava-te dar à-vontade… e andava eu todos as noites à procura de ter um cu sem pêlos… e agora que o tenho… procuro outros. Não é uma estupidez?» Volta-se e olha para um rabo a passar pela sala. «Mas não queria um cu tão gordo como daquela prostituta. Comia-me meia gaita…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois rimo-nos com a expressão que ele deu à conversa… mas eu estou mais interessado naquela narrativa para o meu pasquim. Debruço-me por baixo do tampo do balcão e anoto os apontamentos precisos e ele retoma a conversa quando sente o riso a ir-se… e conta-me o que a Pernambucana lhe costuma dizer na cama… Fura-o! Fura com a tua chouriça o meu buraco careca e amanteigado, e come-me… é todo teu, podes gabar-te que foste o primeiro a ir aí tirar-me os três… Enfia a boca no copo e absorve um pouco de água fresca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Pernambucana pode dizer o que muito bem lhe apetecer… Mas Paulo não tem de comer o grupo… ela é pouco mais do que uma rapariga, seja lá da forma que a vejamos, e da parte de trás, só com o manear da sua bunda, parece mais virgem que uma donzela. Ainda um dia lhe vou dar uma completa, diz Paulo, de modo que nunca mais se esqueça de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sei como é», diz-me ele. «Gordos, magros, peludos, pequenos… se alguma vez encontrares algum que não saibas como deves tratar, trá-lo que eu ensino-te como deves fazer.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois… pára-se a conversa, ele dá um salto ao quarto de banho e volta. Anda como se fosse um galo, com o olhar sempre cravado nelas… Estou pronto a meter-lhe o meu veneno, mal se senta no banco, entro de chofre...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Esta se chega aos ouvidos da Pernambucana e da Baby-Sitter elas ficam tão revoltadas que lá se vai a borla quando as quiseres roer», digo-lhe eu. «Se queres que ela te dê uma goelinha tens de prometer que não as trocas assim.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda está de peito feito, e dá toques no copo para ouvir o seu tilintar. Está sentado de frente a observar, de modo que vê as saídas e as entradas daqueles que se raspam para dar uma rápida... Vigilância a quanto obrigas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo quer saber se entre mim a Pernambucana e a Baby-Sitter houve algum caso. Fodia-as, não fodi? Não lhe respondo. Mantenho-me em reserva… Paulo não precisa de qualquer informação para arranjar um caso. Muito bem, diz ele… mas eu escuso de pensar que é segredo. A Pernambucana e Baby-Sitter têm os ouvidos bem apurados; em breve saberão tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Elas sabem que andaste por aí a foder com a amiga dela sem protector de mangueira?», pergunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo fica admirado por eu saber de tudo. Como é que sabes? Foi a amiga? Paulo aperta o copo na mão como se mo fosse partir…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A amiga contou a elas?», interroga. «Elas sabem o que nós fizemos?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me intrometo nisso e Paulo fica pensativo. Como é que pode saber como deve actuar se não sabe estas coisas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ela deu-me uma dica, como se eu fosse um gigolô, nem mais nem menos», diz Paulo. «Mas ainda queria que eu fizesse de motorista porque não tinha homem para a acompanhar.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir segue os passos de uma garina que acaba de chegar. Está a mordê-la de ginjeira, assim que eu possa, vai desejar que lha apresente. Se ela não fosse uma dessas raparigas dos bordéis, podia-lhe muito bem contar um filme bonito e ela não lhe exigiria dinheiro, suspira ele. Vou ter que ter algum trabalho para explicar à garina o desejo dele em querer comê-la por amor! Suponho que o que devia fazer era tirar essa ideia e pagar à garina… mas o dinheiro tem muito significado para ele, e ele ficou com os calores um pouco alterados. Para o diabo com tudo isto. Digo a Paulo para meter o dinheiro na mão e tocar uma &lt;em&gt;segóvia.&lt;/em&gt; Com certeza, diz ele, desde que eu fique aliviado e me venha, tudo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu ainda pretendo saber se a Baby-Sitter não se enciúma pelo que se passa entre Paulo e a amiga Pernambucana. Paulo leva algum tempo a responder ao tema, o qual se resume a que ele ainda não se quis fazer ao piso. Está a reservá-la, sorri, a reservá-la para descobrir exactamente quais são as intenções de Baby-Sitter em relação a sua pessoa. Se ela gosta de o ver foder, deve ter forçosamente algum desejo por Paulo, acho eu? Quem sabe… talvez se estejam evitando, a fugir um do outro…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este Paulo! Estou mesmo a ver que não pára de andar para aí a armar confusão. Tenho admiração pelas brasucas… se estas putazitas corrompidas se lhes crescem a barriga, não sei o que lhes vai acontecer. Levarão com elas para o Brasil algo mais do que a colecção de cabritos do Porto…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo está por debaixo do olho a galar a garina. Por vontade dele, fazia-a lá na pensão enquanto o diabo esfrega um olho, mas abstém-se a olhar para o espelho. Fica ali a matutar prós botões com o cu a balancear e as pernas curtas afastadas. Tem os pés apoiados no aro de alumínio em volta do banco, e a careca branca como a casca de um queijo. De vez em quando espalmei-a a careca com a palma da mão. Não diz nada… mantém-se assim… e deixa-se ouvir as minhas fofoquices e diverte-se a rir…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A Baby-Sitter vai ficar louca quando eu lhe baixar as calcinhas», diz ele…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas, toma cuidado, como é que tu a podes enlouquecer?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo não responde… talvez ele próprio não queira responder. Dá um esticão para se aproximar mais da borda do balcão, afim dele poder chegar mais perto da água, e coça os seus tomates, agitando-a de cima para baixo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Vou vê-la logo à tarde… Sou capaz de a apanhar sem a amiga e levo-lhe a cadela ao jardim… deixo-a a fazer lá umas caganitas e volto para o seu apartamento e obrigo-a a chupar-me. Sim, é o que vou fazer… Obrigo-a a chupar-me o &lt;em&gt;paulãozinho &lt;/em&gt;e como-lhe aquela peida e no fim digo-lhe para não contar nada à amiga senão, não lhe vou buscar a cadela. Oh, meu grande &lt;em&gt;Paulãozinho&lt;/em&gt;… cresce, cresce muito… e faz duplicar uma quantidade de esperma dentro de mim, porque eu vou fazer uma boa brasuca comê-la toda, daqui a uma hora, mais coisa menos coisa…»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-5481159820640369418?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/5481159820640369418/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=5481159820640369418' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/5481159820640369418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/5481159820640369418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/07/contos-de-ratazana-o-atira-cus-afinal.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TDuER-7UAVI/AAAAAAAAAMg/RsQMAI0vV3I/s72-c/stfu.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-7229767404849244819</id><published>2010-06-20T09:21:00.000-07:00</published><updated>2010-06-20T13:50:05.578-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TB5BFq6WaxI/AAAAAAAAAMY/Ko2Q5i4iqtg/s1600/ist2_333657-hairdresser.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5484892961858022162" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 282px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TB5BFq6WaxI/AAAAAAAAAMY/Ko2Q5i4iqtg/s320/ist2_333657-hairdresser.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;__________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;`Time is money`&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem de manhã, por volta das duas, estava à esquina de Antero de Quental para o meu encontro. Dez minutos… vinte minutos… Três horas e aquele boi sem aparecer. Raios, as pessoas que faltam aos encontros deviam pagar por isso. É como se nos fossem à carteira… é pior que roubar a carteira. Fazem-nos desperdiçar o tempo… meia hora aqui, dez minutos ali… passado algum tempo, devem ser anos. Portanto roubaram-me uma hora, e onde é que vou arranjar outra para substituir esta? Minha sorte, não vou viver eternamente, não me sobram tantas horas que eu possa dar ao luxo de distribuir desta maneira. Mas os homens nunca pensam saber destas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acredito que os homens alguma vez pensem que um dia a sua vida terá fim. De certeza que não o pensam da mesma maneira que as mulheres. Pode-se ter a certeza absolutíssima… quando uma mulher não é pontual, trata-se geralmente de uma irresponsável, de uma preguiçosa e de, pelo menos, mais de umas dezenas de nomes sortidos, além das referidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às três certas ponho-me ao fresco. Tenho mais para ponde ir do que ficar à esquina toda a tarde de sentinela a servir de montra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gajo pode arranjar uma boa desculpa, mas vai ter que pagar pelo que me fez… Pese, embora… no Porto nunca se perde o atrelado. Se um gajo falha, aparece logo outro… em todos os bares o barman tem as agendas cheias de contactos e nem todos são de deixar fugir, como acontece nos anúncios. (Que espécie de gajo aparecerá num desses anúncios? Ainda hei-de saber…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cerca de uma hora mais tarde, depois de já ter ingerido alguns líquidos ao balcão, deixo-me levar por um. Não é um cabrito assumido, na verdade, está apenas com vontade de me saltar. Não é propriamente um &lt;em&gt;Mourinho,&lt;/em&gt; mas não é de perder; é quarentão e tem o ar de quem utiliza preservativo sempre que lá vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dou-lhe bola corrida, e depois vamos para outro lugar e tento funcionar o meu esquema com ele… mas ainda estou banzada pelo caso do outro tipo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelas suas palavras, dá a impressão que o tipo de Pescoço-Engomado (sofreu fractura da coluna), uma ou outra vez, já teve algum contacto com as mulheres do &lt;em&gt;bas-fond…&lt;/em&gt; e se teve pôde pagar a uma não há razão para que o Pescoço-Engomado não pague a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para cliente, o Pescoço-Engomado é uma pessoa de elevado grau espiritual. A maioria desses bois atirava-se ao ar se lhe fizessem uma corte decente… mas o Pescoço-Engomado ouve atentamente e parece levar tudo sob uma certa reflexão. Por fim passa uma das mãos sobre a minha… acampa, é o único termo que posso empregar… e fita a minha boca durante uns bons segundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sabes… parece-me que te vou levar», diz. «Se tu não te importares de ir, Rita, é claro…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu não me importar! Meu Deus, eu também sou uma pessoa sensível… não me recordo de uma única vez ter recusado o meu carinho a alguém que o quisesse paparicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrumo o cu para trás do sofá e aguardo o desenrolar da conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pescoço-Engomado não quer entrar em detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele compreende toda esta fita, em teoria, diz ele, e não necessita de empurrão… Encosta-se à minha frente e mete a cabeça entre as suas mãos, e depois de ter encarado o meu olhar durante uma fracção de segundo, atira um sorriso para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está com um olhar perfeitamente apaixonado, embevecido… se eu não tivesse a percepção do que ele é, era capaz de jurar que estava doido pelo meu par de mamas e por se enfiar pelo soutien dentro… Começa a namorar-me… não que eu precise de namoro, mas porque faz parte da sua teoria, penso eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este tipo pode ser extraordinariamente comedido… começa a contar-me histórias bonitas como se não houvesse nada no mundo de que mais gostasse. Põe o braço por cima dos meus ombros e mexe-me nos cabelos… e quando não está a contar-me nada, baila com as sobrancelhas ou pisca-me os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vêem-se destes tipos nos bares «matando» todas as gajas que lá estão e pagam bebidas àquelas que pretendem engatar… e muitas vezes perguntei a mim própria o que lhes aconteceria se não lhes dessem algum dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não se consegue chegar perto de todos. Alguns, além do mais, têm um aspecto requintado, mas estão tão dispostos a deixar que uma gaja lhes levante o pau como eu estou disposta a pedir ao cliente que vai ao meu salão cortar o cabelo que tire a língua para fora para me fazer uma trombada... Sei o que estou a dizer… já me passou pela cabeça fazer isso…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o Pescoço-Engomado, se a sua teoria valer alguma coisa, deve saber o que vai acontecer se continuar a paparicar-me desta maneira. Eu estou quase a tomar outra bebida, à espera que ele tome a dianteira… não quero sair a abanar… Firmo-me até os ímpetos se transformarem quase em molas, de tão calcados: quero manter-me toda serena, se for capaz…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pescoço-Engomado sabia do que estava a falar quando disse que não necessitava de empurrão. Estou pronta a ir com o tipo e a deixá-lo gozar se ele não se armar em esperto quando ficar comigo à mercê, mas é pura perda de tempo. Dá a impressão de adorar a minha pessoa. Olha para mim quando me começo a rir, e dá-me uma trabalheira dos diabos para o convencer de que não estou a rir-me dele… Chega ao ponto de se rir também quando lhe digo que hoje à tarde estive na prancha por um tipo. Fica sensível quando lhe conto a minha versão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas ele foi indecente, Rita… isso não se faz, dar-te uma hora de espera! Devias tê-lo apanhado! Pensei que me estavas a gozar, Rita? Sabes quem foi o beneficiado, Rita? Foi aqui… o artista!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer saber quem é o tipo daquele encontro. Não disse quem era. Depois quer saber em que esquina é que estive à espera. Sim, era uma onde não sabia muito bem onde era, etc… durante uma hora. O Pescoço-Engomado dá por terminado as perguntas ao assunto, e para mim, é tempo de passar à acção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bom, e quando é que vamos?», pergunto a Pescoço-Engomado. «Que tal agora?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pescoço-Engomado excita-se. Para o diabo mais o trabalho que eu devia fazer, diz ele… e agora já não me largo de ti! Como é que tu te ias ver sem mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai-se levantar para ir à casa de banho. Aproveito, tenho um telefonema para fazer, e assim posso ficar com o tempo mais disponível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele aí vem mais composto do que quando saiu da mesa. E pede ao empregado para lhe levar a conta e corta o som ao telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só atendo se for necessário, diz-me o Pescoço-Engomado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabamos de sair e fechar a porta, e desaparecemos algures no Porto, a caminho de uma residencial, o local mais provável.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8370843653493891227-7229767404849244819?l=bardotraidor.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bardotraidor.blogspot.com/feeds/7229767404849244819/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8370843653493891227&amp;postID=7229767404849244819' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/7229767404849244819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8370843653493891227/posts/default/7229767404849244819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bardotraidor.blogspot.com/2010/06/contos-de-ratazana-time-is-money-ontem.html' title=''/><author><name>Ratazana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02524823377340379647</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TB5BFq6WaxI/AAAAAAAAAMY/Ko2Q5i4iqtg/s72-c/ist2_333657-hairdresser.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8370843653493891227.post-656427663454275235</id><published>2010-06-10T05:04:00.000-07:00</published><updated>2010-06-10T05:45:39.284-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TBDeCLbjZWI/AAAAAAAAAMI/VJ8HUwz6FeQ/s1600/4%2B-%2BRampeiras%2Bn%25C3%25A3o%2Bd%25C3%25A3o%2Bboas%2Bnamoradas.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5481124875519354210" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 230px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kvtpAv9pYJY/TBDeCLbjZWI/AAAAAAAAAMI/VJ8HUwz6FeQ/s320/4%2B-%2BRampeiras%2Bn%25C3%25A3o%2Bd%25C3%25A3o%2Bboas%2Bnamoradas.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;CONTOS DE RATAZANA&lt;br /&gt;
